Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

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Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

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Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

A dicotomia do Brasil na COP 28 e a cobertura midiática

Imagem: Chris LeBoutillier / Unsplash

Por Janaína Capeletti*

O Brasil está presente na 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, com a maior delegação entre as 195 nações participantes. São cerca de 2.400 inscrições do governo, setor privado e sociedade civil. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é composta por 13 ministros e outros tantos parlamentares e representantes de empresas estatais.  

O país chegou ao evento com a ambição de liderar mundialmente o enfrentamento da crise climática e de cobrar do mundo o cumprimento do Acordo de Paris. Na sessão de abertura da Conferência, o presidente do Brasil fez um discurso forte, aproveitando a oportunidade para chamar a atenção das potências mundiais pelo cumprimento de compromissos estabelecidos para o enfrentamento do aquecimento global. A imprensa repercutiu. Na CNN, a matéria “Lula critica países que ‘lucram com a guerra’ e cobra redução de combustíveis fósseis na COP28” destacou a fala do presidente cobrando os países por ações concretas de descarbonização.  

“O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. De discursos eloquentes e vazios. Precisamos de atitudes concretas. Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?”, questionou o presidente.

Além de apresentar resultados obtidos na atual gestão, como a redução do desmatamento, o evento foi palco para o lançamento mundial do Plano de Transformação Ecológica do país. Também foi anunciada a proposta de criação do Fundo Floresta Tropical para Sempre (FFTS), que proverá recursos para ajudar cerca de 80 nações detentoras de florestas, como o próprio Brasil, a conservá-las.

Contudo, já no início do evento, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, divulgou a adesão do Brasil na OPEP+, grupo estendido da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Questionado sobre a contradição entre discurso e ação, Lula disse que a participação do Brasil no cartel do petróleo será para “convencer” os países à transição energética. O mal-estar foi completado pelo presidente da Petrobrás anunciando que a empresa tem intenção em criar um braço no Oriente Médio.

As mensagens dúbias transmitidas pelo Brasil no início do evento tiveram ampla cobertura da mídia nacional e internacional. Como as matérias dos jornais Valor Econômico “Petróleo respinga em ‘liderança verde’ de Lula na COP 28“, Folha de São Paulo “Lula confirma na COP28 entrada na Opep+ para ‘convencer’ países a abandonar petróleo“, o Blog do Noblat no Metrópoles “Contradições de Lula na COP28 (por Hubert Alquéres)“, Reuters “Lula says Brazil’s participation in OPEC+ is to stop oil producers using fossil fuels“, The Guardian “Lula’s bid to style himself climate leader at Cop28 undermined by Opec move” e Le Monde “COP28: Heads of state call for action but remain divided on fossil fuels“.

Os holofotes estão sob o Brasil não à toa, o país recebeu da Climate Action Network (CAN), uma associação de 1.300 ONGs de mais de 120 países, o prêmio “Fóssil do Dia”, entregue diariamente durante a COP a alguma “personalidade”. O pesquisador Paulo Artaxo escreveu artigo para a Academia Brasileira de Ciências, comentando o fato.  

A imprensa não se absteve de apontar as incoerências da posição brasileira, contudo, sem aprofundamentos sobre as consequências de tais políticas. Dentre as exceções, a reportagem de Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública, “Na COP28, Lula mostra lição de casa sobre Amazônia, mas reforça contradição com petróleo,” apresenta a contextualização do tema e sua repercussão. Na mesma linha, o site Sumaúma publicou uma excelente entrevista com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que se mostra na disputa pela liderança verde na América Latina. O colombiano divulgou na COP que seu país decidiu não assinar novos contratos de exploração de carvão, petróleo e gás. E por fim, a análise da jornalista Daniela Chiaretti: “Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28, enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir” também apresenta com lucidez a disputa regional pelo protagonismo verde.

A crise climática que nos encontramos demonstra a urgência de ações e não de discursos. É importante que o jornalismo seja vigilante e aponte as inconsistências das posições políticas. Entre os pressupostos do jornalismo ambiental está a responsabilidade na promoção da mudança de pensamento. Engajar a sociedade por meio de informações consistentes, contextualizadas, próximas de sua realidade é dever do jornalismo e de fundamental importância no momento em que o planeta se encontra.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.


Onde está a pluralidade de vozes? 

Imagem: rafapress/Shutterstock

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção. 

As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.

Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.

Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul.A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.

Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza. 

A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala. 

Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?

Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com.
** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.