
Por Gabriella de Barros*
Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.
Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.
A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.
O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.
Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.
A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.
Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.
A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática.
*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).
Referências
GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.
NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.
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O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.













