Guerra e clima não coabitam manchetes

Número de mortes e aspectos técnicos dominam enfoques da cobertura jornalística sobre guerras e desastres naturais, enquanto contexto climático fica fora do radar

Fonte: RS/Fotos Públicas

Heverton Lacerda*

Quem acompanha, com olhar atento, as publicações da imprensa brasileira a respeito da tragédia em Ubá (MG) e sobre as guerras patrocinadas por superpotências militares pode identificar, com facilidade, a falta de correlacionamento das pautas com as mudanças climáticas. As abordagens são muito similares: notícias factuais sem contextualização ampla, mantendo os fatos principais isolados.

É como se os enormes impactos ao meio ambiente não contribuíssem para ampliar a tragédia comum que afeta a vida em todo o planeta. As matérias não dão conta de identificar – sequer em notas de rodapé – que as destruições causadas pelas guerras e pelas próprias catástrofes climáticas ampliam o problema ambiental. Quanto mais agressões o corpo planetário sofre, mais diminui sua resiliência natural. Consecutivamente, a Terra perde capacidade de absorção de impactos e regeneração. 

Além de ceifar vidas e destruir territórios, infraestruturas e habitats naturais, guerras e tragédias climáticas ampliam emissões de gases de efeito estufa e os riscos sobre estruturas artificiais críticas. Um exemplo são as tecnologias que envolvem radiações ionizantes, muito utilizadas nas áreas de energia, indústria, médica, farmacêutica e agricultura, entre outras. Além do potencial de causar mortes por intoxicação, ferimentos ou traumas, os acidentes radiológicos comprometem a saúde mental e podem contaminar o solo, a água e o ar. O acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior do mundo fora de usina nuclear, aconteceu em 1987. Até hoje, o Brasil abriga mais de três mil instalações radioativas em seu território, conforme o Ministério da Saúde.

Um alerta nesse sentido, ainda que sem mencionar a relação direta com o contexto climático, aparece no portal Opera Mundi, entre outros, quando noticia que a Rússia adverte risco de ‘catástrofe radiológica’ em guerra de EUA e Israel contra Irã.

As guerras e as catástrofes climáticas guardam relações e apresentam distinções. Ambas são reflexos de ações humanas, de decisões tomadas por grupos de poder político e econômico.  As guerras modernas geram toneladas de escombros e emitem gases poluentes em proporções muito maiores do que as atividades do dia a dia. São foguetes, mísseis, drones, veículos blindados – terrestres, marítimos, aéreos -, tecnologias de comunicação de última geração e muito mais. Tudo isso consome muita água e energia, desde a mineração dos materiais utilizados na construção dos equipamentos até as emissões de poluentes de origem fóssil e eletromagnética durante as operações. O volume de recursos financeiros gastos na indústria da guerra seria suficiente para abastecer os fundos climáticos mundiais e apoiar comunidades em risco em todas as partes do mundo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, atingido pelas enchentes em 2024, até hoje não conseguiu reconstruir seu território e prepará-lo para o futuro incerto e preocupante que a ciência projeta, diante dos dados disponíveis.

Diferente das guerras, os eventos climáticos extremos já resultam, em grande parte, do acúmulo de atividades degradantes praticadas pela humanidade ao longo dos últimos dois séculos e meio. As catástrofes mais intensas que estamos testemunhando nos anos recentes são consequências do nosso passado. Já os resultados das destruições podem ser considerados agentes de enfraquecimento da resiliência natural dos territórios, exigindo ações preventivas mais eficazes e urgentes. Neste sentido, no entanto, tanto as guerras quanto as catástrofes ambientais intensificam ainda mais a crise climática. 

Talvez o jornalismo, de modo geral, não tenha condições, na correria diária, de ampliar a contextualização ao nível do detalhe, o que poderia comprometer um pouco a objetividade e a facilidade de compreensão das pautas. No entanto, a criatividade e os atuais recursos de design multimídia podem ser aliados estratégicos de apoio à intenção de contextualizar. Intenção é o ponto chave. Guerra e clima podem e devem coabitar não só manchetes, mas as melhores matérias jornalísticas. 

Cabe lembrar que, além da contextualização, o princípio da precaução é outro pressuposto teórico do Jornalismo Ambiental. Ele pode ajudar os colegas jornalistas a compreenderem, identificarem e explicarem os efeitos colaterais – neste caso, os reflexos na crise do clima – dos fatos em destaque na pauta. O compromisso com a fidelidade dos fatos e o alerta para as possíveis causas e consequências, diretas e indiretas, são elementos-chave para manter a pauta climática na transversalidade da boa cobertura jornalística. A visão sistêmica e o olhar para além das cortinas de fumaça demonstram a sagacidade do jornalista, fundamental para a cobertura de pautas complexas.

Revisão: Gabriella Barros, integrante do GPJA

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

Imagem: Freepik

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

Imagem: Pexels

Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

A tempestade do século e o aquecimento global

Foto: NOAA

Por Patrícia Kolling*

Nesta semana, o furacão Melissa, com ventos de até 298 km/h, atingiu a Jamaica, República Dominicana, o Haiti e Cuba. No dia 28 de outubro, quando o furacão estava chegando na Jamaica e nos dias que antecederam, a imprensa brasileira deu espaços significativos ao fenômeno, trazendo informações técnicas para que o leitor compreendesse o furacão, com dados sobre a escala e velocidade dos ventos.

Na Uol, o leitor encontrava alternativas para acompanhar o fenômeno em tempo real. Muitas notícias destacavam o fato do furacão atingir a escala 5, o nível máximo de intensidade, e na Jamaica, ter sido o mais forte a atingir o solo na costa do Atlântico em 90 anos.

Os dados eram assustadores, e os textos jornalísticos faziam questão de ressaltar isso. A previsão era de que o furacão atravessasse a Jamaica de ponta a ponta e a Cruz Vermelha Internacional alertava para um “impacto massivo”. Cerca de 1,5 milhão de pessoas – metade da população da ilha – deveria ser afetada direta ou indiretamente. Tanto que, em uma das matérias, um morador da Jamaica entrevistado dizia não acreditar que iria sobreviver, portanto não sairia de sua casa. As previsões se confirmaram, e a tempestade, considerada a maior do mundo, causou muita destruição e mortes.

A Folha de São Paulo trouxe informações técnicas sobre velocidades dos ventos, áreas que seriam atingidas e as ações da Defesa Civil para tirar as pessoas da região e protegê-las. A Folha também reproduziu um texto do Washington Post, ‘Caçadores de Furacões’ sobrevoam olho do Melissa no Caribe; um relato de um meteorologista que junto com outras 18 pessoas voou sobre o olho do furacão, e narrou a perfeição meteorológica do fenômeno.

Acredito que os meios jornalísticos precisavam, sim, apresentar os dados concretos da gravidade do fenômeno, porém, senti que foram além disso, ao fazer do fato um espetáculo sem precedentes, beirando ao sensacionalismo.
Mas, foi na National Geographic Brasil, que encontramos a relação entre o aquecimento global e o aumento dos furacões de categoria 5. “O furacão Melissa se intensificou rapidamente ao se arrastar sobre águas oceânicas excepcionalmente quentes, cerca de 1,4 °C mais quentes que a média, algo até 700 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causadas pelo homem”, informa a Climate Central (entidade independente de cientistas e jornalistas que pesquisa informações sobre mudanças climáticas e seus impactos).

(…) “Quanto mais quente estiver o oceano, mais combustível haverá para os furacões se intensificarem, desde que outras condições atmosféricas (como o cisalhamento do vento) também sejam favoráveis”, informa a NOAA.

Senti falta desta conexão entre o furacão e as mudanças climáticas na maioria dos textos que li. É mais que urgente que o jornalismo traga essas relações contextuais ao falar de fenômenos climáticos. É preciso dizer que a intensificação destes acontecimentos tem relação com as mudanças climáticas, entre elas o aquecimento, e que a responsabilidade está na emissão de combustíveis fósseis e de poluentes.

Coincidentemente, nesta semana a ONU apresentou o Relatório Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas de 2025 (NDC Synthesis Report 2025), consolidando as metas climáticas apresentadas pelos países entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados não são nada animadores, pois o relatório diz que, conforme as metas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris, o corte de emissões de gases ficará em 17%, enquanto a Ciência diz que seria necessário cortar 60% das emissões de gases até 2035. Isso significa que se a metas apresentadas a ONU forem cumpridas, o mundo terá um aquecimento de 2,5º até 2100.

Além do site o((eco)), o portal InfoAmazonia também analisou o relatório , mas em outros sites de notícias não encontrei informações sobre esse relatório.

Portanto, a semana foi a oportunidade dos meios jornalísticos conectarem os dados pessimistas do relatório e os fenômenos extremos que estão acontecendo no Planeta. Conexões que não encontrei nos veículos que pesquisei.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Mudanças climáticas no topo do mundo

Foto: Wikicommons

Por Ângela Camana*

Na semana em que o mistério envolvendo o assassinato de Odete Roitman, no remake da novela Vale Tudo, fez parar o Brasil, outra cena angustiante tem emergido nos noticiários: são centenas de montanhistas que, desde o final de semana, estão à espera de resgate no Monte Everest. A ocorrência de fortes tempestades de neve deixou sitiadas cerca de 200 pessoas, que estão acampadas a quase 5 mil metros de altitude; outras 350 já foram resgatadas. Uma morte devido à exposição ao frio foi registrada. O jornalismo internacional tem repercutido sobreviventes que relatam jamais terem vivenciado um episódio climático desta magnitude, corroborados por guias da região que dizem que neste ano “o clima não está normal”. Pesquisadores argumentam que as mudanças climáticas estão tornando mais intensas as monções, o que torna imprevisíveis e irregulares fenômenos como rajadas de chuva.

Este episódio não é o primeiro do tipo registrado no pico mais alto do mundo. Em 2023, um dos anos com maior registros de acidentes fatais envolvendo montanhistas, a Reuters repercutiu a alegação de especialistas que as mudanças do clima eram responsáveis por pelo menos 17 mortes no Everest. No Brasil, canais como o podcast O Assunto e o The Conversation destacaram como as transformações ambientais e o turismo de massa têm impactado as geleiras, que sofreram redução de mais de 25% quando comparadas a 1970.

Não é novidade para aqueles que se dedicam ao tema das mudanças do clima e sua intersecção com a comunicação que o risco e a incerteza são objetos de difícil abordagem, haja vista que escapam aos critérios de noticiabilidade predominantes no jornalismo. Igualmente já se sabe e se argumenta que as mudanças climáticas nos colocam diante de um imponderável que ultrapassa editorias. O recente episódio no ponto mais alto do mundo é exemplar destas duas considerações.

Ao jornalismo em geral tem bastado republicar notícias de agências internacionais sobre os esforços de salvamento, acompanhadas de vídeos desoladores. Quando muito, os portais apresentam duas frases de especialistas não nominados sobre as alterações nos regimes de chuva. Não há esforço de contextualização, tampouco de qualificação das informações recebidas. Uma lástima, já que o drama humanitário e ambiental vivido no Everest escancara que as mudanças do clima impedem a manutenção da vida como a conhecemos. O esporte e o turismo não escapam às alterações, e as imagens das centenas de sitiados no topo do mundo não nos deixam negar. O que está sendo reportado, contudo, não faz jus ao momento vivido: ao não nos permitir ver para além dos frames do espetáculo trágico dos montanhistas, o jornalismo também nos nega o conhecimento de riscos climáticos, sociais e éticos muito mais amplos.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: angela.camana@hotmail.com

As exclamações e os silêncios de Lula na ONU

Por Luciano Velleda*

O esperado discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (23), teve pouco mais de 18 minutos, tempo que se mostrou suficiente para o mandatário brasileiro dar recado sobre alguns dos assuntos mais urgentes na conjuntura política mundial.

Lula defendeu a democracia e o multilateralismo, criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão política e econômica, definiu como genocídio o massacre em Gaza perpetrado por Israel, abordou a guerra entre Ucrânia e Rússia, e ainda defendeu a Justiça brasileira e a legalidade do julgamento que condenou a 27 anos de prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre tantos temas quentes da geopolítica atual, menos de três minutos do discurso foram dedicados à crise climática. E foram, ao fim, três minutos que ocuparam as manchetes de alguns veículos de imprensa do Brasil, escolhidos para essa análise por sua posição de destaque e tradição no jornalismo brasileiro. Em comum entre eles, o destaque de que a COP 30, em Belém, será a “COP da verdade”, a COP para os líderes mundiais mostrarem seu compromisso com o planeta.

O G1, por exemplo, intitulou: “Na ONU, Lula chama conferência do clima no Brasil de ‘COP da verdade’ e reforça importância de presença de líderes mundiais”. A Folha S.Paulo disse: “União Europeia atrasa meta climática, e Lula cobra países em discurso na ONU”. O jornal Valor decidiu pela manchete: “COP30 será momento para líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula na ONU”, quase igual muito ao destaque da Band Jornalismo: “COP 30 será momento de líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula”.

O Correio Brasiliense optou pela manchete: “Lula cobra ação climática e defende reforma global em discurso na ONU”, enquanto a Exame escolheu uma frase emblemática do discurso do presidente brasileiro: “Lula na Assembleia da ONU: ‘Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática’”.

Ao longo dos textos, os veículos repercutiram os três minutos ambientalistas do discurso na ONU, como a ênfase de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, a redução do desmatamento ilegal na Amazônia brasileira, o anúncio do lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende remunerar os países que mantêm suas florestas em pé, assim como a forte crítica feita aos países que ainda não apresentaram suas novas metas de redução de emissões de gases causadores do aquecimento global, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs).

“Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas [as NDCs], caminharemos de olhos vendados para o abismo”, declarou Lula, uma das frases de efeito destacadas pela imprensa. Os desafios enfrentados pelas nações em desenvolvimento devido a mudança do clima enquanto os países ricos “usufruem de padrão de vida obtido às custas de 200 anos de emissões” foi outra frase do presidente que repercutiu.

Um olhar mais crítico ao discurso veio de dois veículos jornalísticos especializados em meio ambiente, ambos dando voz a análise feita pelo Observatório do Clima, entidade que reúne 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais.

O site(o) eco trouxe para sua manchete uma contradição de Lula ao dizer: “Fim dos combustíveis fósseis fica de fora do discurso de Lula na ONU”. O veículo ressaltou que,  para organizações brasileiras, “o pronunciamento foi correto, mas nada mais do que isso”.

Repercutindo a nota oficial do Observatório do Clima, (o) eco ponderou que a “fala de Lula foi apenas ‘correta’, mas previsível, já que o líder brasileiro tinha na pauta muitas outras questões, como a defesa da soberania nacional e o tarifaço americano, regulação das plataformas digitais, conflitos armados e crise no multilateralismo”.

O veículo ainda destacou o trecho final da nota do Observatório do Clima, a qual diz: “Quem estava esperando um discurso do grande líder climático do Sul Global que arrancou aplausos do mundo em 2022 na COP 27, no Egito, pode ter se frustrado: a fala de Lula não foi a de um anfitrião de uma conferência do clima decisiva para garantir um futuro seguro para a humanidade”.

O mesmo trecho também foi enfatizado pelo site climainfo, entretanto, reproduzindo o parágrafo completo da nota do Observatório do Clima, que finaliza assim: “Porém, o mundo e o Brasil de 2025 tampouco são os de novembro de 2022. A COP30 precisará triunfar num ambiente político e geopolítico muito desfavorável, e esse climão fica evidente em tudo que Lula disse e principalmente no que não disse”.

Segundo a análise proposta pelo Observatório do Clima, a COP30, em Belém, poderá ficar marcada mais pelo silêncio ensurdecedor da omissão diante da crise climática, do que pelas afirmações de quem tem a obrigação de agir. Enquanto isso, os eventos extremos da natureza ocorrem no mundo todo cada vez mais frequentes, cada vez mais intensos.

*Luciano M. Velleda é jornalista, sócio do Sul21 e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Um olho no peixe da camada de ozônio, outro no gato da crise climática

Imagem de satélite da terra à noite. Fonte: Joshua Stevens / NASA / Miguel Román / Goddard Flight Center

Por Cláudia Herte de Moraes *

A cobertura jornalística sobre a recuperação da camada de ozônio em 16 de setembro, embora positiva e informativa, ainda carece de uma contextualização que conecte o tema de forma aprofundada às mudanças globais e à noção de limites planetários. Nas notícias do Dia Internacional para Preservação da Camada de Ozônio, a informação divulgada pelo Relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostra que a região da estratosfera atingiu os seus melhores níveis em décadas.

 Ao observar as notícias, o ponto fraco foi a falta de explicação sobre o fato de que a camada de ozônio é apenas um dos limites que a humanidade está conseguindo reverter. Entre os nove limites planetários, seis foram ultrapassados, como a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, mudanças no uso do solo (especialmente por desmatamento e urbanização), fluxos bioquímicos (contaminação por fósforo e nitrogênio devido ao uso excessivo de fertilizantes), novas entidades (por exemplo, microplásticos) e uso de água doce (já em níveis críticos). A acidificação dos oceanos é um dos limites próximos da violação e somente dois são considerados seguros: além do ozônio estratosférico, está a carga de aerossóis.

Print de tela na busca das principais notícias sobre o tema (17 de set. 2025) Fonte: Autora

A contextualização importa para que o leitor entenda que o enfrentamento à crise ambiental é interconectado; são limites interdependentes. No caso do G1, a matéria indica o avanço de forma celebrativa, com uso das fontes oficiais, sem fazer essa conexão com outros limites planetários de alto risco. 

A abordagem fragmentada em notícias pode gerar uma percepção equivocada de que “o meio ambiente está sendo consertado”, diminuindo a urgência de ações em outras frentes. O jornalismo, neste caso, perde a oportunidade de exercer sua função educativa, sem trazer as conexões entre causas e consequências de forma abrangente. 

Outro ponto de atenção no trabalho jornalístico é que as fontes oficiais são essenciais, como a ONU e os dados científicos, porém é preciso lembrar das populações que podem ser atingidas ou que já sofreram com os efeitos de impactos ambientais noticiados. Por exemplo, seria o caso de trazer à memória do público o que a luta contra a destruição da camada de ozônio mobilizou milhares de cientistas, ativistas, movimentos socioambientais de décadas atrás e que, por conta dessa pressão, os acordos foram efetivados. Um texto bem posicionado neste sentido foi da Deutsche Welle, publicado no portal Terra: A história de sucesso da recuperação da camada de ozônio.

Aproximar esse tema do leitor é uma indicação importante para que as pessoas percebam a relevância dos fatos em seu cotidiano. A menção, por exemplo, sobre como a recuperação da camada de ozônio impacta as taxas de câncer de pele no Brasil foi lembrada, mas outras questões que afligem nosso país poderiam ser destacadas. Por que não usar esse exemplo de cooperação global para inspirar as soluções locais, mostrando como a agricultura pode se organizar para secas ou enchentes? 

Por fim, a cobertura peca ao olhar apenas para o passado, celebrando o sucesso do Protocolo de Montreal. Porém, ao pensarmos sob o princípio da precaução, que orienta o jornalismo a olhar para o futuro e alertar sobre novos riscos, a conquista histórica pode ser um importante alerta: quais as novas substâncias químicas não regulamentadas podem ameaçar a atmosfera? Como os substitutos dos CFCs (os HFCs) impactam o aquecimento global? Como observar as conexões entre os limites planetários que ainda necessitam de cuidado, regulamentação, regeneração? Celebrar o passado não pode ofuscar a necessidade de vigilância para o futuro.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática.
E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Guaíba: mineração de areia, riscos ambientais e a cobertura da imprensa

Por Gabriella de Barros*

Após mais de uma década de disputas judiciais e paralisação, o governo do Rio Grande do Sul projeta liberar até dezembro de 2025 a mineração de areia no Guaíba. A medida é baseada em um zoneamento ambiental elaborado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), em cumprimento a decisões judiciais que exigiram regras específicas para a atividade. O movimento busca encerrar um impasse que se arrasta desde 2013, mas levanta dúvidas sobre governança, transparência e os limites de exploração de um corpo hídrico sensível e estratégico.

O Guaíba é ecologicamente complexo. Independentemente da definição geográfica, rio, lago ou estuário, a região abriga ecossistemas interdependentes, fundamentais para biodiversidade, abastecimento humano e regulação hídrica. Alterações no leito por dragagens ou extrações de areia podem gerar efeitos em cascata: erosão em margens urbanas, mudanças nas correntes, assoreamento e impactos diretos sobre captações de água potável. Diante das enchentes históricas de 2024, que já evidenciaram a vulnerabilidade climática do sistema, a retomada da mineração sem estudos robustos de cenários futuros soa precipitada.

O zoneamento em consulta pública foi anunciado como resposta a essas preocupações, mas apresenta inconsistências importantes. Entidades como a Fundação Curicaca identificaram fragilidades metodológicas: ausência de detalhamento de pesquisas socioeconômicas, falta de integração entre estudos temáticos e carência de sobreposição das áreas mais sensíveis à mineração. Em vez de indicar claramente zonas de exclusão, o documento delega ao licenciamento caso a caso decisões que deveriam ser tomadas de forma estratégica. O resultado é um instrumento que mais abre brechas do que estabelece salvaguardas ambientais.

Na cobertura da imprensa, portais como Sul21 e GZH destacaram sobretudo o cronograma do governo e os possíveis efeitos econômicos da liberação. O G1 trouxe análises visuais sobre bancos de areia formados após as enchentes, explicados por pesquisadores da UFRGS. Embora esses materiais informem o leitor sobre a conjuntura, raramente incluem fontes destoantes da narrativa governamental, como a própria Curicaca, a Assema (Associação dos Servidores da Secretaria Estadual do Meio Ambiente) ou a Asfepam (Associação dos Servidores da Fepam). Essas vozes têm alertado há anos para os limites técnicos da mineração, a defasagem tecnológica do setor e os riscos de comprometer áreas de extrema sensibilidade ambiental. Ao não ouvi-las, a cobertura reduz a pluralidade do debate e fortalece uma visão de que a retomada é um processo inevitável.

A mineração de areia no Guaíba não é apenas uma questão de desenvolvimento econômico, é um tema que envolve segurança hídrica, justiça socioambiental e adaptação climática. A liberação da atividade, diante de estudos frágeis e pressões políticas, pode se configurar como um equívoco grave. Mais do que nunca, é necessário que a imprensa cumpra seu papel crítico, abrindo espaço para as vozes que destoam do discurso oficial e dando centralidade à ciência independente e às comunidades impactadas.

Referências:

Sul21. Zoneamento ambiental deve permitir mineração de areia no Guaíba após nove anos de suspensão. Publicado em 9 set. 2025. Disponível em: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2025/09/zoneamento-ambiental-deve-permitir-mineracao-de-areia-no-guaiba-apos-nove-anos-de-suspensao/.

GZH. Governo do RS planeja liberar mineração de areia do Guaíba até dezembro, após 12 anos de disputa judicial. Publicado em 27 ago. 2025. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2025/08/governo-do-rs-planeja-liberar-mineracao-de-areia-do-guaiba-ate-dezembro-apos-12-anos-de-disputa-judicial-cmex4yq6d01cf01e99k25r2b3.html.

G1 RS. “Ilhas se formam, ilhas são destruídas”, diz pesquisador sobre banco de areia formado no Guaíba após enchente no RS. Publicado em 25 jul. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/07/25/ilhas-se-formam-ilhas-sao-destruidas-diz-pesquisador-sobre-banco-de-areia-formado-no-guaiba-apos-enchente-no-rs-veja-imagens.ghtml.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

O eco de fatos ambientais diante do Princípio da Precaução

Por Heverton Lacerda*

O deserto de notícias sobre pautas ambientais nesta semana nos portais dos principais jornais do Brasil me chamou a atenção. A percepção foi ampliada a partir da ciência de que há pautas ambientais importantes a serem noticiadas e analisadas. Um exemplo é a decisão judicial que, por precaução, suspendeu as atividades de uma usina termelétrica e uma mina de carvão em Candiota (RS) por falta de atenção aos planos climáticos do Estado gaúcho e da União. A notícia ficou circunscrita, basicamente, ao âmbito de alguns portais gaúchos de notícias, os chamados alternativos, e na RBS TV de Bagé, emissora da rede RBS (afiliada à Globo) que cobre a região onde fica a mina, na cidade de Candiota. Trata-se de uma ação civil pública que cobra a responsabilidade da União, do Estado e de órgãos públicos, a exemplo do Ibama, para que as mudanças climáticas não fiquem ainda mais graves. A notícia da RBS TV, segundo conversa que tive com a repórter que fechou a pauta, apresentou as demandas da ação e entrevistou representantes dos réus. 

A partir dessa percepção, fui pesquisar no portal O Eco, um veículo de imprensa especializado em pautas sobre o meio ambiente, para me certificar dessa impressão sobre a falta de notícias. Não foi surpresa constatar a existência de uma série de matérias e reportagens importantes. 

É compreensível e de amplo conhecimento no campo do jornalismo, que, por diversos aspectos e circunstâncias, há a necessidade de priorizar pautas. No entanto, aponto aqui duas observações. A primeira é que pautas como Nem Taís Araujo nem o público estão felizes com a mudança dos rumos de Raquel em ‘Vale Tudo’, publicada pela Folha de São Paulo, e Grêmio anuncia a contratação de Arthur: “Eu bati o pé pra voltar. É minha casa! Minhas raízes!”, do portal GZH (Rádio Gaúcha e Zero Hora), encontram facilmente espaços nesses veículos hegemônicos, enquanto temas ambientais, a exemplo dos citados acima, ficam de fora. O jornalismo tem produzido cada vez mais entretenimento, que é uma produção “leve”, que gera audiência, no lugar de promover o debate de assuntos de interesse público.  

A segunda observação é que o Princípio da Precaução ainda não está devidamente assimilado pelo jornalismo geral, visto que, em boa parte, continua-se priorizando notícias de tragédias ambientais para ecoar o tema meio ambiente. Espera-se que o risco se torne desastre para, então, tratar das decisões equivocadas e que beneficiam apenas grupos econômicos, prejudicando a compreensão de que o meio ambiente está em tudo, inclusive em nós, o tempo todo.

Pressuposto teórico do jornalismo ambiental, o Princípio da Precaução é um conceito que orienta para a tomada de decisões em situações onde há incerteza científica sobre riscos de um dano, especialmente no contexto ambiental. Ele pode servir de base para decisões sobre pautar notícias ambientais que não sejam necessariamente tragédias. A ideia central é exatamente a intenção de tentar evitar que tragédias aconteçam. O jornalismo tem condições de fazer isso, e estará realizando um papel extraordinário, se atentar para esse princípio.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
E-mail: heverton.lacerda@ufrgs.br

A água nas torneiras, o peixe que alimenta, o rio que é parente

Gustavo Lima/Arquivo Pessoal/Observatório de Jornalismo Ambiental

Por Patrícia Kolling*

Uma matéria publicada na Folha de S. Paulo relata que os níveis dos reservatórios de água em São Paulo estão abaixo dos registrados na crise hídrica de 2015. O texto traz dezenas de números para mostrar que o quadro é mais grave do que há 10 anos, quando a região viveu a maior crise hídrica de sua história. Os níveis dos mananciais estão caindo desde 2023 e a previsão é de que o mês de agosto será mais seco que o normal. O texto informa que “as chuvas só devem voltar com força suficiente para recuperar os reservatórios no fim de setembro, quando iniciar a primavera, a tendência é que o nível atual continue a baixar diariamente”.

Apesar das empresas responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo dizerem não acreditar em uma nova crise hídrica, devido aos investimentos em infraestrutura de abastecimento, a situação exige preocupação, pois especialistas alertam que os últimos anos têm sido muito secos, e que entre as causas estão as mudanças climáticas e o desmatamento.

Quando se fala em desmatamento, é preciso dizer que ele acontece bem longe de São Paulo e apesar das áreas desmatadas na Amazônia terem diminuído, os números de desmatamento no Cerrado continuam a crescer. São as raízes profundas das plantas do Cerrado que abastecem os lençóis freáticos. É na região do Cerrado que estão oito das doze bacias hidrográficas do país. “Estudo do Instituto Cerrados, em parceria com o ISPN [Instituto Sociedade, População e Natureza], aponta que 88% de 81 bacias hidrográficas do bioma já tiveram redução de vazão causada pelo desmatamento entre 1985 e 2022.”

Enquanto em São Paulo a água pode faltar novamente nas torneiras e chuveiros, a série Exlcuídos do Clima, da Folha de S. Paulo mostra que para algumas populações o problema é ainda maior. A reportagem apresenta a situação do Quilombo Águas do Miranda, em Bonito (MS), localizado às margens do rio que dá nome à comunidade.  Para as famílias, a água do rio é fonte de renda, com a prática do turismo e da pesca artesanal. Com as secas constantes e as queimadas dos últimos anos, o nível das águas dos rios diminuiu e, consequentemente, a redução na quantidade de oxigênio na água levou à mortandade de peixes. Famílias que viviam da pesca e do turismo tiveram que buscar outras fontes de renda. “Aí você vai no rio para pegar um peixe para comer, você não pega, porque não tem. Quem sabe se virar, se vira de qualquer maneira”, reflete um morador da comunidade. Apesar das dificuldades, os moradores não desejam sair do quilombo, pois ali formam uma comunidade em que todos se ajudam.  Apesar do repórter manifestar uma preocupação com a perda dos costumes culturais da comunidade, ele não explora no texto aspectos relacionais e culturais da comunidade entre si e com o rio.

Mais ao norte do país, na Terra Indígena Xipaya, do Povo Indígena Xipai, passa o rio Iriri, que é o maior de Altarmira, sudoeste do Pará. “É como parte da família. O Rio sempre foi Rio, e Xipai sempre foi Xipai. São corpos diferentes entrelaçados como um só”, escreve Wajã Xipai, no portal Sumaúma. Para falar sobre o rio, a repórter indígena foi conversar com quem muito o conhece, os anciões da aldeia.  E, como ela diz, mergulhou nele até se afundar, ou seja, se aprofundou na temática “para que quem falasse fosse o próprio Iriri”.  Ela conta que o dia a dia dos Xipai gira em torno do rio. “As famílias saem para pescar nos pedrais em frente ao porto da aldeia ou mais distante dali. Às vezes, passam a tarde inteira na beira do Rio. As mães lavam roupa ou se banham. As crianças, que na maioria já sabem nadar, brincam na água […]. Os homens saem para a pesca, e as mulheres esperam que eles voltem para preparar os peixes para a refeição da família. À noite, as famílias se juntam numa roda e contam histórias do que viram e viveram no Rio ou na mata”. Dos indígenas, ela ouviu sobre a morte dos peixes, a cor esverdeada do rio, a falta de chuvas e que o rio não enche mais como antes. Com especialistas, ela foi entender por que isso acontece. No ano passado, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico declarou situação crítica de escassez hídrica no Rio Xingu e no Rio Iriri, seu afluente.

Do sudeste ao norte do Brasil, esses três textos jornalísticos relatam, de formas diferentes, cenários da escassez de água no Brasil. Mostram, em números, em relatos e em histórias, como a falta de água impacta, de diferentes formas, a vida das pessoas, da fauna e da flora. São textos que estão em editorias e veículos diferentes, mas que se conectam não só pela temática da água, mas também pelo relato das pessoas. Sob a perspectiva do jornalismo ambiental, o ideal seria que esses três textos fossem base para um texto apenas, em que os leitores pudessem compreender as verdadeiras relações que existem entre água da torneira, as raízes do cerrado não desmatado, o peixe que é alimento, as crianças brincando no rio e a cosmovisão indígena que compreende o rio como parente. Porém, é preciso compreender que na maioria dos veículos de comunicação as práticas de produção não permitem a abrangência complexa das pautas, não oferecendo aos repórteres tempo e condições financeiras para a apuração. Mas, vale a reflexão, será que nós jornalistas já estamos preparados para de tirar as temáticas das caixinhas das editorias e conectá-las nas mais diferentes esferas da vida, como um rio se liga a seus afluentes e povos.  

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Vetos, brechas e petróleo: o olhar da imprensa sobre o licenciamento ambiental

Por Eutalita Bezerra*

Nas duas últimas semanas, neste observatório, as análises versaram em torno do chamado PL da Devastação, o Projeto de Lei que dispõe sobre o Licenciamento Ambiental no Brasil e que já tramitava há mais de 20 anos. A temática foi explorada inicialmente por Isabelle Rieger e Ilza Maria Tourinho Girardi em publicação que abordou os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do referido projeto.

Em texto mais recente, Débora Gallas abordou a cobertura sobre a demanda para que o presidente Lula vetasse todo o projeto. Na ocasião, avaliou se que a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto, destacando a presença do assunto em veículos de imprensa de renome. Ocorre que, na última sexta (8), último dia do prazo, Lula sancionou o projeto com 63 vetos. Deste modo, entendemos a necessidade de retomar o assunto neste observatório, agora, com a finalidade de avaliar de que maneira se deu a cobertura da decisão presidencial em grandes veículos.

Para tanto, buscamos no Google por “veto + Lula + Licenciamento Ambiental” e escolhemos aleatoriamente as primeiras publicações com data de 8/8/25. Encontramos a do portal G1, que publicou texto extenso, intitulado Lula veta 63 trechos de nova lei que muda regras de licenciamento ambiental. Destacamos que o título foi mudado, conforme a URL na qual aparecem os dizeres “Lula sanciona com vetos projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental”. A opção por retirar a menção ao ‘enfraquecimento das regras’ na versão final nos parece sintomática. 

A publicação dividiu a decisão do presidente em nove pontos principais, e ainda trouxe, dentre outras explicações , a tentativa do governo de equilibrar os pratos, com ministros contrários e favoráveis ao PL; a análise dos ambientalistas – citando Greenpeace e SOS Mata Atlântica; e as principais polêmicas do texto, com destaque para a proposta de autodeclaração para atividades de baixo impacto.

Na mesma data, o portal G1 também publicou o texto Entenda o que muda com vetos ao projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental. A publicação traz a visão de representantes de entidades ambientais; esclarece os vetos e suas justificativas, aponta os próximos passos e os bastidores da decisão presidencial, além de esclarecer os trâmites anteriores do projeto e finalizando com a preocupação com a possível exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

O Estadão, por sua vez, foi mais crítico. No texto “Licenciamento ambiental: Lula sanciona com 63 vetos projeto e edita MP que atende Alcolumbre”, o veículo de comunicação traz desde o título a preocupação com a exploração de petróleo, que citamos anteriormente. Indicando que é um interesse do senador Davi Alcolumbre, cujo estado seria o principal recebedor de royalties no caso de prospecção do combustível fóssil.
 
Já o Metrópoles não aprofunda a discussão. O subtítulo da publicação Lula sanciona mudanças no licenciamento ambiental, mas veta 63 pontos aponta a crítica dos ambientalistas ao projeto. Já no texto, indica o aceno de Lula a Alcolumbre e cita muito brevemente os trechos vetados. O UOL, por sua vez, destacou o projeto que segue ao congresso com modificações no PL propostas pelo governo.  O repórter também cita pontos sensíveis do projeto, marcando, também, a emenda patrocinada pelo presidente do Senado.

Na cobertura sobre a sanção presidencial, os grandes veículos mantiveram espaço para as vozes dissidentes, garantindo destaque às manifestações de ambientalistas. Também foram firmes, a maioria deles, em destacar o jogo político que não se encerra após o “voto” de Lula. O desafio agora é aprofundar o debate: investigar as brechas que ainda podem permitir retrocessos e acompanhar de perto os desdobramentos políticos do “toma lá, dá cá” que se desenha após a decisão de Lula. Uma imprensa vigilante e responsiva pode não impedir todas as investidas contra o meio ambiente, mas é fundamental para reduzir os espaços por onde a boiada insiste em tentar passar.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: eutalita@gmail.com