Novo PAC, Plano de Transformação Ecológica e a cobertura da mídia

Imagem: Geraldo Falcão/Agência Petrobrás

Por Janaína C. Capeletti*

O governo federal lançou na última semana um novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a promessa de investir R$ 1,7 trilhão em todos os Estados do país. O novo PAC possui nove eixos prioritários, sendo que a área batizada como Transição e Segurança Energética receberá o segundo maior volume de recursos, com projeção de receber R$ 449,6 bilhões até 2026 e R$ 91,1 bilhões pós-2026. O valor fica atrás apenas dos projetos para Cidades Sustentáveis e Resilientes.

Além do PAC, o ministro da Economia, Fernando Haddad, apresentou o Plano de Transformação Ecológica. Entre as ações previstas estão: nova infraestrutura verde, finanças sustentáveis, economia circular, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética e adaptação à mudança do clima.

Como esperado, houve ampla cobertura dos veículos de comunicação nacionais e regionais, alguns dando destaque ao Plano de Transformação Ecológica especificamente, como o Correio Brazilense e o G1, que apresentaram falas do ministro e pontos básicos do projeto. O portal o Eco também noticiou e questiona, no texto, como o governo irá equilibrar o retorno de grandes obras de infraestrutura e a preservação ambiental. O Globo Rural abordou a previsão de investimentos em biocombustíveis e energia limpa, já o R7 enfatizou os investimentos que a Petrobras planeja, que inclui um fundo de descarbonização.

Os textos, em geral, não discutem de forma aprofundada o projeto, apenas reproduzem o discurso governamental, sem a escuta de outras vozes que pudessem ampliar o debate em torno de pautas tão relevantes para a sociedade. Não há crítica sobre os reais impactos do PAC na questão ambiental, se o que está sendo posto realmente é positivo e viável. Pode ser que repercussões mais específicas sobre as propostas do governo ocorram nos próximos dias.

O site Capital Reset foi, dos veículos analisados, o que mais aprofundou o tema com a matéria “Em novo PAC, 62% dos recursos para energia ficam com fósseis”. O texto apresenta informações claras que permitem perceber as incongruências de discurso e ação do governo com relação à pauta ambiental.

O site Um só planeta, com a matéria “Novo PAC prevê transição ecológica, mas também investimento bilionário em petróleo e gás e projetos ambientalmente polêmicos”, também apresentou uma visão mais analítica com relação ao PAC, destacando os projetos  já em andamento e que são duvidosos com relação ao impacto ambiental positivo.

Vivemos uma emergência climática, não há mais espaço para que compromissos assumidos em termos governamentais sejam ambíguos, reforçando uma condição que já se mostra inviável em termos planetários. Os veículos de comunicação têm o compromisso de informar, e como vimos nos textos citados, eles fizeram bem o seu papel, mas é preciso ir além. É também compromisso do jornalismo ouvir diferentes vozes e questionar. Espera-se que esta pauta seja ampliada.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Críticas da sociedade civil dão o tom da cobertura jornalística na Cúpula da Amazônia

Imagem: Canva

Por Patrícia Kolling*

A Cúpula da Amazônia terminou sob críticas da falta de comprometimento com o desmatamento zero e com o fim da exploração de combustíveis fósseis. O evento reuniu líderes dos oito países amazônicos (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), em Belém, capital do Pará, nos dias 08 e 09 de agosto. Organizações socioambientais apontam que o documento final do evento, a Declaração de Belém, não apresenta metas concretas e não define prazos, além não apresentar consenso entre os países sobre temas considerados chave para a região.

Foram exatamente as críticas das organizações da sociedade civil à falta de contundência no documento final do encontro, que será levado a COP 28, que repercutiram na imprensa brasileira. A Folha de São Paulo publicou: “Declaração da Cúpula da Amazônia não tem ações concretas, criticam ongs”. A primeira fonte citada no texto é Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, que integra 80 organizações da sociedade civil brasileira. Ele diz: “Não é possível que, num cenário como esse, oito países amazônicos não consigam colocar numa declaração, em letras garrafais, que o desmatamento precisa ser zero e que explorar petróleo no meio da floresta não é uma boa ideia”. Na sequência, a notícia cita falas do Leandro Ramos, diretor de programas do Greenpeace Brasil e de Marcelo Furtado, fundador da Coalizão Brasil e diretor da Nature Finance. Como eles, várias outras representantes da sociedade civil foram ouvidos pelas equipes de reportagem e foram citadas no texto, diversidade de fontes que merece destaque quando consideramos o histórico de coberturas de cúpulas e reuniões entre Estados.

O Jornal Hoje, do dia 09, apresentou também reportagem “Evento chega ao fim sem a definição de uma meta comum contra o desmatamento pelos oito países membros da OTCA”, em que representantes das entidades socioambientais são entrevistados mostrando seu descontentamento. Uma das críticas à Declaração de Belém se dá pela falta de acolhimento das propostas apresentadas no âmbito do Diálogos Amazônicos, evento realizado no final de semana que antecedeu a Cúpula. Nos Diálogos estiveram presentes cerca de 20 mil pessoas, representantes 400 organizações socioambientais, que debateram e trabalharam sobre temas ambientais, e entregaram documentos para embasar as decisões da Cúpula da Amazônia. As fontes ressaltam que que essa participação da sociedade civil parece não ter produzido resultados significativos, ou seja, as decisões propostas não foram consideradas pelos líderes. André Trigueiro ressalta, porém, que a participação ativa da sociedade civil deu ao evento um caráter inclusivo, que foi o seu principal diferencial, pois garantiu debates e acordos de organizações fora das ações da Cúpula.

Uma das falas mais repercutidas pela imprensa, durante a semana, foi a do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que disse haver um “conflito ético” na exploração de petróleo na região, especialmente no caso de países liderados pela esquerda. Petro tem um plano de redução progressiva de exploração de petróleo na região amazônica. A fala de Petro ganhou imensa noticiabilidade, principalmente diante do fato da Petrobras, maior estatal brasileira, planejar explorar poços de petróleo no fundo do mar da margem equatorial, onde fica a foz do rio Amazonas. O tema já foi abordado nesse Observatório. A Declaração de Belém, porém, trata o tema com muita sutileza, destacando a necessidade de “iniciar um diálogo” sobre a sustentabilidade de setores “como mineração e hidrocarbonetos”.

É evidente que a imprensa brasileira também destacou os pontos positivos do encontro, expostos da Declaração de Belém, entre os quais podemos citar: a consciência quanto à necessidade urgente de cooperação regional para evitar o ponto de não-retorno na Amazônia, a criação da  Aliança Amazônica de Combate ao Desmatamento, a criação de um centro integrado de policiamento contra o crime organizado e a criação de mecanismos financeiros de fomento do desenvolvimento sustentável.

Mas, como ressaltamos no título, as ações e mobilizações da sociedade civil deram os direcionamentos às pautas de cobertura jornalística do evento. A Folha de São Paulo, publicou o artigo “O verdadeiro valor do petróleo na Foz do Amazonas” mostrando quanto o Brasil ganharia se mantivesse as reservas de petróleo nas profundezas do mar. O texto foi escrito pelo coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, membro da coordenação do Observatório do Clima e integrante da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais, Caetano Scannavino.

O protagonismo das organizações ambientais definindo o rumo das pautas e a escolha das fontes, e consequentemente, oportunizando o debate das perspectivas temáticas que talvez nem seriam abordadas, além da presença de jornalistas do mundo inteiro em Belém, foram na cobertura jornalística os principais ganhos do evento.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.