Sobre o desmatamento do Bioma Pampa: é possível fazer jornalismo para além do senso comum

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S.Paulo
Por Ursula Schilling*

Repetidas vezes, em nossas análises para este observatório, damo-nos conta de um cenário nada animador, de acordo com o qual as pautas ambientais carecem de espaço na mídia e, quando o recebem, esses espaços trazem abordagens superficiais, enviesadas (com uma olhar desenvolvimentista ou da dita economia verde), sem propor um verdadeiro debate sobre o tema.
Mas se isso é verdade, também é verdade que há sinais de que um jornalismo sério e comprometido com a qualidade da informação não só é possível, como já existe em alguns casos. Um exemplo disso é a matéria “Pampa gaúcho sofreu desmate de 44%, aponta novo monitoramento do Inpe“, de autoria da jornalista gaúcha Paula Sperb, para a editoria de ambiente do site do jornal Folha de S.Paulo. Publicado em 5 de junho, o texto trata da questão do desmatamento do Bioma Pampa, trazendo dados inéditos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, segundo o qual, em 2016, 43,7% da vegetação nativa já estava suprimida, ou seja, desmatada.
O interessante da matéria não são os dados em si – o que já é “positivo”, uma vez que não se ouve ou não se lê comumente sobre o Bioma Pampa em veículos jornalísticos de referência – mas o fato de eles não virem sozinhos. Mesmo que de forma sucinta, há uma problematização do tópico, uma vez que são apontadas algumas das possíveis causas da destruição do Pampa, um dos seis biomas brasileiros, que só existe no Rio Grande do Sul.
A começar, o texto destaca, brevemente, o que é o Bioma Pampa, para que o leitor minimamente se situe, entenda do que se trata e, mais que isso, perceba a dimensão do que é tratado. Pode não parecer importante, mas quando o assunto são questões ambientais, trazer para a realidade próxima, explicar termos não muito conhecidos, faz diferença para que as pautas não sejam tão abstratas ou distantes para quem as lê. Além disso, há uma explicação sobre os impactos do desaparecimento desse bioma, envolvendo, até mesmo, questões culturais, geralmente tão caras ao povo gaúcho.
Em seguida, Sperb traz a fala de um professor da Universidade Federal do Pampa – Unipampa, apontando que o Bioma Pampa está perdendo espaço para o plantio de soja. Aqui, o trecho é duplamente interessante, pois além de apontar uma das possíveis causas para a destruição do bioma, ainda levanta, paralelamente, a problemática das monoculturas, hoje ainda pouquíssimo abordada. Vale destacar que a expressão “monocultura da soja” vem com link para um texto intitulado “Terras indígenas foram invadidas com soja transgênica, conclui Ibama”.

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S. Paulo

A notícia publicada por Sperb é curta, mas isso também é uma prova de que não são necessárias extensas reportagens para que se aborde um tópico com o mínimo de aprofundamento e problematização, saindo do senso comum. Até porque um assunto não há de se encerrar numa única abordagem. Trazer à luz, sistematicamente, temas que precisam de repercussão e espaço, como são os relacionados ao meio ambiente, é um princípio importante para proporcionar ao leitor um conhecimento mínimo acerca dessas questões e, com o tempo, o espírito crítico que se espera que o bom jornalismo nos ajude a desenvolver.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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