Um dia da caça ou todos do caçador?


Por Ursula Schilling*

Não há como negar. A pauta ambiental tem tido, talvez como nunca antes, espaço em diferentes veículos, ainda que isso signifique poucas boas e robustas coberturas e muitas rasas, pouco comprometidas e até muito ruins. Não há como negar, também, que, apesar do crescente espaço dado ao tema “meio ambiente” na mídia, a destruição e o desmonte (basta dedicar algum tempo de leitura às análises deste Observatório) avançam em velocidade assustadora. Ser ambientalista e fazer jornalismo ambiental tem sido como enxugar gelo no sol quente do verão.

A tarefa de combater e informar sobre os retrocessos ambientais tem sido ainda mais extenuante e desafiadora no Brasil de 2021. Há duas semanas, por exemplo, ganhou repercussão o Projeto de Lei (5544/2020 ) que regulamenta a prática da caça esportiva de animais no Brasil, envolvendo atos de perseguição, captura e abate. Após a polêmica em torno do assunto, o Pl foi retirado da pauta do dia (14 de dezembro) da Câmara dos Deputados. A caça é proibida no Brasil.

Coincidência ou não, um dia antes, o jornalista André Trigueiro, uma referência para muitos ecojornalistas, abordou o assunto em seu comentário durante o programa Estúdio I da GloboNews.

Trigueiro não apenas criticou o Projeto de Lei, mas fez uma análise sistêmica da questão, aplicando o jornalismo ambiental de fato. “Como alguém se diverte, em pleno 2021, matando bicho?”, pergunta enfaticamente ao questionar como tal tópico pode estar em discussão, ainda por cima, na Comissão de Meio Ambiente. Falou sobre o lobby das armas envolvido na ideia, sobre uma possível liberação da caça num já dramático cenário de extinção de muitas espécies, e sobre o absurdo (entre outros tantos) da alegação, que consta no texto do Pl, de que isso estimularia a interação do homem com a natureza.

Imagem: Captura de tela da GloboNews

Em cinco minutos de fala, Trigueiro demonstra que é possível fazer jornalismo sério, combativo e respeitoso. Analisar os fatos não é fazer juízo de valor e dizer “isso é bom, isso é mau”. É contextualizar, é trazer argumentos bem embasados que nos ajudem a entender as implicações envolvidas em cada situação. Um jornalismo que produz informação e esclarecimento acerca do mundo, seja sob que aspecto for, pode, por fim, gerar conhecimento transformador da realidade.

Só assim, talvez um dia, possamos nos dar conta de que somos quase todos caça. Que os dias têm sido quase todos dos caçadores, mas que somos em maior número. Que nosso poder de mobilização existe. Mas precisa acontecer. A mudança começa no âmbito individual, mas ela só ganha força no coletivo. Aqui, um jornalismo responsável e ativo faz muita diferença.

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