Indústria têxtil: produção excessiva ou necessidade de reciclagem?

Imagem: Print da reportagem exibida no Fantástico com os caminhos possíveis para o problema de destinação de roupas e sobras de tecidos.

Por Eloisa Beling Loose*


Há muito lixo têxtil no mundo. A reportagem especial do Fantástico do último domingo, de quase 15 minutos, apresentou milhões de toneladas de roupas e tecidos que sobram da fabricação das peças e são acumuladas em praias ou desertos, sem nova utilidade para a humanidade e responsáveis por sérios prejuízos ambientais. As imagens são impactantes.

A reportagem trata dos impactos desse descarte inadequado e assinala que a decomposição pode demorar muito: as malhas de algodão, por exemplo, podem levar 20 anos enquanto as de materiais sintéticos, como poliéster, podem persistir no ambiente por até 400 anos. Entretanto, a causa da produção massiva recebe pouco enfoque na reportagem. Por que mesmo são produzidas tantas peças? Quem precisa de tanta roupa? Qual é o tamanho do lucro que está por trás de tanto desperdício?

De acordo com dados do relatório Fios da Moda, realizado pelo Instituto Modefica e FGV, são produzidas quase 9 bilhões de novas peças por ano no Brasil, o que representa uma média de 42 novas peças de roupa por pessoa. Se os recursos naturais são finitos, por que estamos produzindo em uma escala tão desproporcional às nossas reais necessidades?

O foco na reciclagem e reaproveitamento, escolha da reportagem, é necessário, porém não dá conta das razões irracionais que promovem uma cultura de consumismo diretamente associada à degradação da natureza em prol do lucro. A economia circular, baseada na otimização dos recursos a partir da redução, reutilização, recuperação e reciclagem, é bem-vinda, mas será a real solução para mitigar os danos de um sistema massivo que propositalmente se torna obsoleto em um curto tempo?

A responsabilidade pelo descarte da indústria têxtil é questionada, citando a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, segundo a qual os geradores teriam que cuidar da destinação adequada das sobras, mas fica claro que, na prática, a lei não está sendo cumprida. Uma das fontes ouvidas, representante do setor têxtil, busca desviar o assunto da responsabilização. O poder público repete que não há condições para fiscalizar todas as empresas.

O consumo exacerbado, motivado pelos baixos preços e desejo incessante de sempre vestir algo novo, acarreta um ciclo constante de compra, uso e descarte. Esse sistema, conhecido como fast fashion, tem contribuído para as mudanças das paisagens naturais que recebem toneladas de resíduos têxteis e, mesmo com iniciativas positivas (como a experiência do Clube de Mães no Brasil e do mercado de Kantamanto em Gana, sinalizadas pela reportagem), não consegue romper com a raiz do problema.

A rápida descartabilidade dos produtos, cerne de muitas indústrias nos dias de hoje, além de ser dependente da exploração constante dos recursos da natureza, deriva em montantes sem precedentes de produtos subutilizados. Enquanto a exploração seguir sendo economicamente vantajosa, não haverá razão para que o mercado opte por materiais reciclados. Ao naturalizar o modus operandi da indústria, apenas respostas paliativas e sempre insuficientes serão possíveis.

* Jornalista, pesquisadora e professora. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

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