A normalização da impunidade na cobertura do desmatamento ilegal

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Janaína C. Capeletti

Uma nova ferramenta online, o Monitor da Fiscalização do Desmatamento, obteve ampla divulgação da imprensa, no início de maio. O levantamento permitiu constatar que cerca de 98% dos alertas de desmatamento registrados no Brasil desde janeiro de 2019 não foram alvos de fiscalização por órgãos do governo federal.

Esta notícia foi veiculada em grandes portais nacionais, como Uol, Estadão, Folha de S. Paulo, Yahoo e o Eco. As evidências apontadas pelo Monitor também tiveram repercussão internacional, especialmente por meio de uma replicação da matéria da AFP (Agence France-Presse) nos sites Le Figaro, Agência Nacional de Noticias de Bangladesh, RFI, MSN e Daily Sun.

O Monitor é desenvolvido pelo MapBiomas, uma iniciativa em rede formada por especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação. De acordo com dados da plataforma, as ações de fiscalização do governo aconteceram em apenas 13,1% da área total desmatada no período, o equivalente a 536 mil km². Para se ter uma ideia, os alertas não fiscalizados apontados pelo estudo representam 3 milhões de km². Para chegar ao índice da impunidade, o MapBiomas cruzou informações disponibilizadas por órgãos federais e estaduais sobre as autorizações de supressão da vegetação e ações empreendidas para combater o desmatamento ilegal. Ou seja, mobilizou dados públicos e de conhecimento do governo federal. Importante ressaltar que, para este primeiro levantamento, o Monitor encontrou informaçõesatualizadas e em formato adequado apenas para cinco estados (GO, MT, MG, PA e SP) além das disponibilizadas pelo governo federal.

Na matéria da AFP, o texto curto traz menos dados quantitativos sobre o levantamento, mas apresenta a relação do governo Bolsonaro com o desmatamento ilegal, bem como a sua ligação com o agronegócio.

A cobertura nacional, via de regra, seguiu um padrão uniforme: relatou os dados, apresentou a plataforma e seu funcionamento e ouviu os principais responsáveis pelo levantamento e pelo MapBiomas. O Estadão e a Folha de S. Paulo conversaram com representantes dos estados. Houve a tentativa por parte dos veículos de contato com o Ministério do Meio Ambiente, sem sucesso, como tem sido praxe na atual gestão federal. 

Pode-se dizer que a lição de casa foi cumprida -no sentido de mostrar o problema, ouvir as fontes oficiais e especialistas, informar com clareza. Contudo, mais uma vez vemos a cobertura dos veículos de forma burocrática em relação a uma informação relevante do ponto de vista da política ambiental assumida no Brasil. Nem o jornal O Eco, tradicionalmente dedicado às temáticas ambientais, conseguiu dar o tratamento que a pauta merece em razão de sua importância. 

As fontes ouvidas reforçam a crítica que o jornalismo ambiental faz às práticas do jornalismo “tradicional”, que privilegia especialistas e representantes governamentais em detrimento de outras vozes envolvidas no problema. Para que haja uma pressão da sociedade civil e não uma normalização da impunidade, promovida por números frios e sem contextualização, é preciso ouvir quem já sofre pela falta de fiscalização do desmatamento. 

Além disso, as matérias também poderiam apresentar um caminho sobre o que fazer com essas informações. Quais instâncias representativas podem ser acionadas diante da inação do governo? Quanto em arrecadação de multas e o que isso gera para o povo está sendo deixado de lado, por exemplo?

Ampliar o olhar, a partir de uma perspectiva sistêmica que apresenta o humano por trás dos dados, é desafiador: as redações cada vez mais enxutas e o tempo escasso para a produção jornalística são fatores relevantes. Entretanto, cabe ao jornalismo complexificar as pautas e desvelar relações, produzindo narrativas que permitam o engajamento da sociedade.

 

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com

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