A Cúpula da Terra e o Jornalismo: trinta anos depois

Fonte: Reprodução/Youtube Ecoagência


Cláudia Herte de Moraes *


Este ano de 2022 é histórico, pois se celebra os trinta anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO- 92, ocorrida no Rio de Janeiro, com a presença de chefes de estado de 178 países, promovida pela Organização das Nações Unidas no centro de convenções Riocentro. Os eventos internacionais sobre meio ambiente são um importante foco para a realização de pautas em jornais do mundo inteiro. Há 50 anos, em Estocolmo, o Secretário-Geral do evento Maurice Strong utilizou a expressão ecodesenvolvimento pela primeira vez, na realização da primeira Cúpula sobre Meio Ambiente. Naquela data, foi instituído o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). No entanto, havia menor adesão mundial à temática e os próprios meios de comunicação não estavam tão desenvolvidos quanto ao acesso e à visibilidade. Por isso, somente em 1992 o tema teve maior projeção em nível global. Naquela última década do Século XX, a degradação ambiental já assustava, criando-se, desta forma, uma onda de debates em torno do termo “desenvolvimento sustentavel”, que surgiu poucos anos antes, pelo Relatório Brundtland.

Quando tratamos de meio ambiente na comunicação, o grande fluxo de jornalistas que acompanharam a Rio 92 é considerado um marco histórico para o acompanhamento das políticas ambientais pela imprensa. Assim como a preparação para o evento mobilizou movimentos sociais que ocuparam o Aterro do Flamengo no Fórum Global, também jornalistas que acompanhavam a temática se juntaram para a organização de Núcleos de Ecojornalistas pelo país. Neste contexto surge o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS) – um dos mais atuantes e ainda em atividade.

Para colaborar com as reflexões sobre avanços e recuos na perspectiva do jornalismo ambiental, e especialmente em relação à imprensa brasileira, o NEJ-RS promove uma Terça Ecológica especial. Na Semana do Meio Ambiente, com o tema “Os 30 anos da ECO 92”, o debate será no dia 31 de maio de 2022, às 19h. O evento terá convidados especiais, Francisco Milanez (biólogo, arquiteto e urbanista e diretor da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan) e Sebastião Pinheiro (engenheiro agrônomo e florestal), mediados pelas jornalistas Vera Damian e Débora Gallas. Acesse aqui a transmissão ao vivo.

Também na mesma linha, o NEJ-RS lança uma série de entrevistas com jornalistas brasileiros que fizeram a cobertura da ECO 92: Carlos Tautz, Regina Scharf e Roberto Villar Belmonte. Os vídeos estarão disponíveis no canal da EcoAgência no Youtube. A coordenação é de Vera Damian.

Nessas entrevistas, há visões amplas e contextualizadas sobre as dificuldades e conquistas do período. Carlos Tautz faz uma análise política dos aspectos do jornalismo e do período histórico tanto de 1992 quanto do Brasil dos dias atuais, discorrendo de forma crítica sobre o que ele chama de “giro geopolítico” que se avizinha. Neste cenário, ele acredita que o Brasil terá novamente papel relevante e necessidade de posicionamento, por consequência, afetando as pautas sobre meio ambiente. Regina Scharf conta a história da cobertura de 1992, de sua experiência profissional de jornalista e do impacto deste evento histórico, explicando ainda sobre seu Projeto Nova Mata, que busca mapear iniciativas de restauração ecológica e recursos como fornecedores de sementes e mudas de espécies nativas onde reside, nos Estados Unidos. Já Roberto Villar Belmonte lembra que sua estreia em grandes coberturas se deu naquele evento, pois era um foca (recém formado). A experiência marcou fortemente sua trajetória como repórter, jornalista e pesquisador. Falando da ECO 92 como acontecimento de máxima importância, em que foram discutidas as bases da mudança do mundo, tratando das temáticas que seriam negociadas mundialmente dali em diante, como sustentabilidade, biodiversidade, economia e mudanças climáticas.

Em trinta anos, mudou o Brasil e mudou o mundo. O Sexto Relatório do IPCC (2021-2022), por exemplo, fez um alerta vermelho sobre o caos climático que estamos já vivenciando e que se agrava, tanto mais se demora em modificar o modelo de sociedade baseado no consumo de bens, insustentável, além de um desenvolvimento que é, em verdade, promotor de desigualdades. Fizemos uma abordagem sobre o tema da justiça climática, debate ainda incipiente na cobertura (https://jornalismoemeioambiente.com/2021/08/16/as-mudancas-irreversiveis-no- clima-precisam-incluir-o-debate-sobre-a-justica-climatica/), bem como sobre como precisamos incluir reportagens sobre a opção inadiável de consumo consciente (https://jornalismoemeioambiente.com/2020/04/27/habitos-de-consumo-em-tempos- de-pandemia/).

Na comunicação e no jornalismo, houve aceleração que modifica inclusive a relação das pessoas quanto às informações recebidas. Entre os desafios, a checagem diária de informações falsas, inclusive oriundas de governos que promovem o desmonte de políticas ambientais. Algo ainda não resolvido, na imprensa tradicional, seria o fato de que “não conseguiu achar uma fórmula de fazer jornalismo ambiental livre de seus anunciantes”, como afirma Belmonte, na série do NEJ-RS. Sobre isso, também vale reler o texto sobre conteúdos patrocinados.

Coberturas que buscam trazer complexidade e pluralidade são necessárias e advogadas por aqui, em especial nas temáticas do clima , dos agrotóxicos, dos eventos extremos, do desmonte de políticas ambientais, na destruição dos territórios indígenas, entre outras.

Em três décadas certamente há avanços e inúmeros projetos sobre meio ambiente povoaram revistas, jornais, sites e organizações neste período. Um destaque atual é o jornalismo do InfoAmazônia . Outra vertente, une Literatura e jornalismo, em livros reportagem, também já citados neste Observatório . Bons exemplos de pautas aprofundadas demonstram possibilidades de um padrão jornalístico de ótima qualidade quanto à informação ambiental .

Neste contexto, a esperança decorre de que há mais e melhores ferramentas para o jornalismo exercer seu papel social, entre estas a própria formação especializada que traz melhor entendimento das pautas e indica aprofundamentos. Desta forma, o jornalismo tem condições de construir conhecimento relevante sobre a informação ambiental para a cidadania. Que fiquemos atentos, firmes e fortes, em apoio às pautas ambientais, pois não teremos mais trinta anos para pretender fazer as mudanças necessárias frente ao colapso climático.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

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