Como o Jornalismo pode aperceber os públicos diante do desafio humanitário das mudanças climáticas

O Porto de Rio Grande é o alvo para a implantação das usinas de produção de H2V, segundo o governo gaúcho. Imagem: Reprodução de Portos RS

Eliege Fante*

A ordem do dia na agenda governamental e empresarial, seguida pela imprensa, é a descarbonização da economia. Acompanhar as ações e acordos entre esses dois setores, ouvindo as fontes que ocupam os cargos mais altos – na ilusão de garantir a precisão das informações – é a regra nas redações dos meios de comunicação que concentram audiências. Contudo, observa-se que essas informações veiculadas não têm apercebido os públicos diante do desafio humanitário de impedir o aumento de 1,5 ºC na temperatura média da atmosfera. A seguir, algumas reflexões após análise dessa cobertura pelos jornais de referência no Rio Grande do Sul (RS).

Não é novidade a crença no uso das tecnologias, em especial aquelas em desenvolvimento por pesquisas científicas, como uma das principais formas de responder às questões que a natureza “coloca”, dentro da visão de um ser humano apartado e senhor dela. Contudo, tem-se um problema quando o foco na descarbonização das atividades produtivas, responsáveis pelo excesso monumental de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, oblitera a relevância da mitigação e adaptação, para além das novas tecnologias, ou seja, desde a preservação e conservação da biodiversidade,incluindo-se os povos originários, as comunidades tradicionais e as populações locais, com os respectivos modos de viver, por sua vez, menos dependentes das pegadas coloniais ecológica e hídrica.

Por isso, entende-se que, este foco na descarbonização da economia é o que impede os jornais Correio do Povo e Zero Hora, de reportar a ameaça que representam os projetos de implantação de eólicas offshore na Lagoa dos Patos, devido aos impactos sobre a biodiversidade e as comunidades pesqueiras artesanais. Trata-se do último território onde ainda há pesca artesanal no estado, com importante percentual produtivo e 13.517 pescadores cadastrados. Essas informações constam em parecer técnico e podem ser obtidas com outras fontes oficiais, autoridades nas áreas científicas da Ecologia, Biologia e Humanas.

De fato, fontes econômicas e governamentais têm divulgado ações do Governo do RS sob o referido foco: assinatura de memorando para produção de hidrogênio verde (CP, 24/03/2022); diálogo sobre H2V com International Finance Corporation em Washington (CP, 09/03/2022); assinatura dememorando para produzir H2V (CP, 14/12/2021). Essas notícias retratam o avanço das negociações entre o governo Eduardo Leite (PSDB) e grandes empresas transnacionais visando descarbonizar a economia gaúcha e a dos países para os quais a produção desta tecnologia, ao ser exportada, poderá vir a contribuir (já que os estudos sobre o armazenamento deste vetor, pois hidrogênio não é combustível, ainda não são conclusivos). O hidrogênio “verde” ou H2V é assim chamado por ser produzido a partir de fontes energéticas renováveis, em especial, a geração eólica.

Na mesma linha, apenas com um maior número de notícias selecionadas** pelo buscador, o jornal Zero Hora exaltou os investimentos citados pelas fontes: “Produção de energia eólica offshore tem potencial de US$ 200 bi, diz ministro” (ZH, 18/05/2022); “Meio Ambiente vai à Dinamarca para ‘vender’ agenda verde do Brasil” (ZH, 03/04/2022); “Brasil terá papel fundamental na transição energética, diz vice-presidente do BEI” (ZH, 16/03/2022); “De energia a fertilizantes, porto de Rio Grande prospecta R$ 9 bilhões em investimentos” (ZH, 22/02/2022); “Projeto de hidrogênio verde do RS entra no radar de investidores europeus” (ZH, 01/02/2022). Ambos os jornais não se permitiram considerar os impactos das usinas eólicas onde já funcionam no RS, tampouco verificar se a Lagoa dos Patos é um curso de água que pode ser caracterizado como offshore, que significa em águas profundas. Levando em conta que a profundidade da Lagoa dos Patos média é de três metros e máxima de sete metros, será que a tecnologia das eólicas offshore, proveniente dos países do Norte global, pode ser transferida para o Rio Grande do Sul, na proposta do governo, tendo em vista que as eólicas offshore em águas rasas alcançam 30 metros de profundidade? As notícias citadas, baseadas em jornalismo declaratório, não difundem o que há de concreto: (1) que a tecnologia do H2V segue em estudo, (2) que há populações sob o risco de serem afetadas pelas eventuais eólicas “offshore” ou outro nome ajustado à profundidade da Lagoa dos Patos,(3) que a imprensa de referência, ao seguir a estatal gaúcha, divulgou a assinatura de apenas dois memorandos com empresas, sendo que eram 15 assinados de H2V, até 09 de fevereiro de 2022.

Quando os públicos da imprensa hegemônica virão a saber um pouco mais do que está em jogo no contexto das medidas de descarbonização da economia? Aspira-se que a resposta não seja “em breve”, assim como aquela do governo federal, (reconhecidamente pouco democrático) sobre a chamada para realizar pesquisas em combustíveis e H2V, em recente notícia veiculada (ZH, 20/05/2022).

* Eliege Fante é jornalista, pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação e associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS).

**Totais sobre as buscas nos sites dos jornais com a palavra-chave hidrogênio verde: CP, 13 notícias, sendo duas de 2022; ZH, 24 sendo 14 de 2022.

Produção de hidrogênio verde: menos discursos de persuasão e mais de precaução

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