As dificuldades na cobertura de um bioma campestre

Pesquisa encontra até mais de 50 espécies de plantas/metro quadrado no campo nativo pampeano. Como restaurar tamanha biodiversidade campestre? – Imagem: Eliege Fante/Rede Campos Sulinos.

Por Eliege Fante*

A recente boa notícia do governo gaúcho sobre o plantio de “800 mil mudas no bioma pampa”, ler aqui e aqui, denotando resultados de Projeto iniciado em 2018 “a partir de dados alarmantes sobre o bioma pampa, entre eles, a diminuição de quatro milhões de hectares de área entre 1985 e 2021 (de 18,2 mi/ha para 14 mi/ha)”, foi repetida por grande parte da imprensa, através de rádios como a Guaíba e outras do interior do estado, tevês e internet. Por conhecermos as adversidades enfrentadas pelos jornalistas para realizarem os seus trabalhos, entre outros obstáculos diante do extremado enxugamento das redações, cabe problematizar esta mera repetição/republicação com a imprensa-empresa.

A publicação dos chamados relises é comum, bem como a necessidade conhecida por jornalistas, de complementar as informações que veiculam. Uma semana depois, outro relise foi meramente repetido, só que a respeito da renovação do Projeto, tendo sido exaltado pelo governo e igualmente por GZH, entre outros veículos de imprensa. O fato é que os relises republicados anunciam benefícios para o Pampa, mas afirmam que o recurso provém do cumprimento de débitos de Reposição Florestal Obrigatória (RFO), ou seja, relacionado às áreas florestais.

RFO destinada à recuperação de áreas na Mata Atlântica faz sentido, mas não tem o mesmo peso para a conservação de um bioma predominantemente campestre como o Pampa. É importante, sim; mas o desmatamento no Pampa é muito menor do que a supressão de campos, tendo sido de 3 mil hectares em 2022 segundo o MapBiomas. E a Rede Campos Sulinos estima que a supressão de vegetação campestre no Pampa tenha sido, em média, de 145 mil hectares por ano entre 2012 e 2020. Esta é a maior perda de vegetação nativa entre todos os biomas brasileiros, e os pesquisadores se perguntam quanto dessa supressão foi autorizada de acordo com a Lei 12.651/2012 (que não é Código Florestal, é Lei de Proteção a Vegetação Nativa). Fica aí sugerida uma pauta para a imprensa.

“No Pampa, o que faz sentido é restaurar campos nativos, haja vista a perda anual de milhares de hectares”, comentou um especialista. O uso de recursos da RFO na recuperação de campos nativos do Pampa seria uma boa notícia, porém essa confirmação depende do envio de um pedido de informação, pois, na notícia consta apenas que “A RFO é uma medida legal para compensação ou reparação ambiental pela supressão ou manejo de vegetação nativa. A cada árvore suprimida, o empreendedor precisa compensar as perdas com valores equivalentes a outras 15 mudas”. O exemplo da árvore não facilita a compreensão ainda mais que o gravíssimo risco de extinção encontra-se na vegetação campestre característica do Rio Grande do Sul e da matriz cultural.

Urge qualificar a produção dessas notícias por meio da escuta de fontes diversificadas, especialmente de técnicos dos órgãos ambientais, que igualmente são fontes oficiais do Estado. Ou seguiremos festejando a circulação de informações incompletas quando poderiam evidenciar as demais ações cabíveis e, o mais importante, eficazes para evitar a extinção do Pampa. E a primeira delas é “Dar imediato cumprimento ao previsto na Lei n° 12.651/2012, implementando a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com exigência de Reserva Legal, representando no mínimo 20% da área total das propriedades rurais do bioma Pampa”, conforme explicitado na Carta Aberta da Coalizão pelo Pampa.

Afinal, quantas notícias a imprensa publicou sobre o uso produtivo das áreas de reserva legal no Pampa, onde o manejo pastoril é permitido e merece ser incentivado? Enquanto isso, predominam as notícias sobre a conversão do Pampa através dos incentivos às lavouras, em especial de soja, mas também de arroz, milho e eucaliptos. Por fim, é preciso ultrapassar a ideia falaciosa de que áreas de campo com pecuária são de uso consolidado, porque o manejo pastoril conserva a biodiversidade do Pampa. Para tanto, a imprensa-empresa tem que aceder à escuta de fontes diversificadas, bem como pautar as recomendações técnicas dos órgãos ambientais para estancar a supressão da vegetação nativa campestre.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.

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