Racismo ambiental: mídia independente traz debate silenciado no jornalismo corporativo

Centro Histórico de Porto Alegre – 13/05/24 / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Thayssa Kruger* e Cláudia Herte de Moraes **

As fortes chuvas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 atingiram 474 dos 478 municípios do estado, deixando mais de 380 mil pessoas desalojadas e resultando em 182 óbitos, conforme dados atualizados da defesa civil. Embora o estado como um todo tenha sido afetado, a disparidade socioeconômica faz com que alguns sofram mais que outros. Ao acompanhar os desdobramentos da tragédia, os bairros que mais foram afetados, quem são as pessoas desabrigadas e quais as ocupações mais sofrem com a falta de preparo e responsabilidade do estado? Isso nos remete ao conceito de “justiça climática” e/ou “racismo ambiental”, definições pouco abordadas nos veículos de comunicação tradicionais.

O termo “racismo ambiental” foi criado na década de 1980 pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., em meio a protestos contra depósitos de resíduos tóxicos no condado de Warren, no estado da Carolina do Norte (EUA), onde a maioria da população era negra. No contexto atual, a expressão é utilizada para denunciar que os impactos das mudanças climáticas recaem de forma injusta sobre a população historicamente marginalizada. Ou seja, pessoas racializadas e empobrecidas sentirão mais as consequências da poluição e degradação ambiental e agora do aquecimento global. 

Mais de 8 milhões de brasileiros estão expostos a esta nova face do racismo ambiental, vivendo em áreas de risco de deslizamento de terra, inundações e enxurradas. No Rio Grande do Sul, foi constatado que quase 85 mil gaúchos residem em zonas de perigo. O relatório do Observatório das Metrópoles, revela que as regiões mais afetadas são habitadas por indivíduos de baixa renda, predominando pessoas pretas ou pardas. É o caso de bairros como Humaitá, Sarandi e Rubem Berta, em Porto Alegre, e de Mathias Velho, em Canoas, entre os mais afetados pelas recentes cheias. A análise dos dados, combinada com as queixas dos moradores sobre a demora na ação do governo e a má comunicação, torna ainda mais urgente a necessidade do debate sobre o racismo ambiental.

Ao pesquisar como o racismo ambiental estava sendo explorado na GZH, jornal de maior relevância no RS, a resposta apesar de entristecer não nos surpreende: o termo não foi título ou pauta de reportagem sequer uma vez no último ano. 

O jornalismo tem o compromisso de informar sobre questões de interesse público e mobilizar politicamente os cidadãos. Em relação às questões ambientais, o jornalismo deve abordar a complexidade e a interseccionalidade envolvidas na emergência climática para engajar a sociedade sobre a urgência do tema. No entanto, o jornalismo tradicional, ao tratar de questões ambientais, carece desse aprofundamento e continua utilizando os antigos enquadramentos que simplificam os problemas decorrentes da crise climática, vilanizando a natureza pelas tragédias ambientais, isentando políticos da responsabilidade e focando apenas no imediato. 

Por mais que a tragédia ocorrida no estado gaúcho tenha colocado a pauta ambiental em destaque nos jornais mais importantes do estado e do país, o assunto ainda não foi explorado no quesito das desigualdades sociais. Após três meses dos fenômenos extremos vivenciados em várias regiões do Estado e na capital Porto Alegre, a reconstrução com justiça ambiental precisaria entrar na pauta. Mesmo que a imprensa atue mais forte nos momentos de crise, para quem foi atingido e perdeu tudo, a crise está longe de acabar.

Decidimos olhar para o jornalismo independente a fim de compreender como as vulnerabilidades sociais são discutidas dentro da pauta ambiental pela mídia independente. Destacamos 5 reportagens que contextualizam os fatos e abordam as questões das injustiças sociais. As reportagens são dos veículos #Colabora, Agência Pública, Alma Preta, ((o))Eco e Matinal Jornalismo publicadas entre abril e julho deste ano.  Foram localizadas pelo buscador google com os termos “justiça climática” e “racismo ambiental”. 

Cada veículo aborda o tema de maneira diferente. A reportagem publicada pelo #Colabora em 4 de abril discute as intensas ondas de calor no Rio de Janeiro e o impacto do aumento da temperatura na vida das pessoas mais pobres, que não têm recursos financeiros para suportar os dias quentes. A matéria da Agência Pública, de 4 de junho, relata o medo dos indígenas de perderem suas terras durante as chuvas que assolaram o estado. A falta de demarcação das terras fez com que muitos relutassem em deixar suas casas à medida que a água avançava. A luta por demarcação é antiga, mas eventos como esse evidenciam ainda mais a necessidade de abordar essa questão.

A reportagem da Alma Preta, publicada em 28 de junho, explora como o racismo ambiental prejudica o desenvolvimento de crianças negras. A matéria inclui uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e o relato de uma mãe e seu filho, revelando como a falta de saneamento básico afeta negativamente o desenvolvimento de crianças negras e periféricas na primeira infância.

Em 2 de julho, o jornal ((o))Eco publicou uma reportagem sobre os efeitos dos eventos extremos e do aumento das temperaturas na saúde de trabalhadores que passam o dia ao ar livre, frequentemente em trabalhos informais, na América Latina. A matéria apresenta dados de diversas pesquisas para enfatizar a necessidade de um debate sobre o tema e ações de adaptação. A reportagem do Matinal Jornalismo, de 17 de julho, complementa a anterior ao tratar dos impactos e perdas sofridos pelos agricultores devido às secas e enchentes. A matéria traz relatos de pessoas que perderam tudo (ou quase tudo) devido às chuvas que começaram na última semana de abril no Rio Grande do Sul, contextualizando como esses eventos extremos afetam sua produção e, consequentemente, suas vidas.

As mídias independentes, na contramão do jornalismo corporativo, têm se engajado socialmente visando o engajamento socioambiental. A análise das reportagens revela o compromisso dessas mídias em destacar as vulnerabilidades sociais dentro da pauta ambiental e climática. Enquanto o jornalismo corporativo se limita a simplificações, factualidades e críticas superficiais, saudamos o trabalho dos jornais independentes por sua abordagem abrangente, que contribuem significativamente para a conscientização e o debate sobre racismo ambiental.

 * Graduanda em Jornalismo na UFSM, voluntária de Iniciação Científica no Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: thayssa.kruger@acad.ufsm.com

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Bioma Pampa, arroio Dilúvio, Magda Renner e Giselda Castro para ver e rever

Imagem: Reprodução

Por Sérgio Pereira*

Após a pior catástrofe climática já registrada no Rio Grande do Sul, a hora é de reflexão, planejamento e, principalmente, arregaçar as mangas. Neste momento, devemos nos valer não somente da ciência e da experiência, mas também precisamos olhar para trás e buscar respostas para os nossos erros. Buscar, assim, referências para projetar um futuro desta vez com base na proteção e respeito ao meio ambiente e na preservação da vida. Com base nesta ideia, gostaria de sugerir três filmes gaúchos com temática ambiental e que nos ajudam a compreender os rumos de uma sociedade que ignorou os avisos da natureza e, por causa disso, sofreu as consequências.

Antes disso, no entanto, é preciso fazer um justo reconhecimento e, ao mesmo tempo, divulgar um serviço de utilidade pública. No ano passado, a Cinemateca Paulo Amorim (Rua dos Andradas, 736, Centro Histórico de Porto Alegre/RS) passou a disponibilizar valioso serviço de consulta para pesquisadores, estudiosos e fãs de cinema em geral: o Portal do Cinema Gaúcho. Trata-se de um rico banco de dados sobre produções, de ficção e não ficção, cujo berço é o Rio Grande do Sul. É uma ferramenta de fácil manuseio e totalmente gratuita.

O portal foi concebido, entre 2019 e 2022, por Fatimarlei Lunardelli e Glênio Póvoas durante a vigência do Núcleo de Pesquisa, Informação e Memória do Instituto Estadual de Cinema (IECINE), na gestão de José Teixeira de Brito. Os trabalhos foram coordenados pelo jornalista, pesquisador, cineasta e professor Glênio Póvoas, em um trabalho minucioso de funcionários da Cinemateca Paulo Amorim e da Casa de Cultura Mario Quintana, estagiários do IECINE, além do próprio Póvoas, Fatimarlei e Rodrigo Figueiredo Nunes.

Os filmes indicados abaixo estão listados no portal e são recomendados também para quem hoje se dedica ou pretende no futuro se especializar em Jornalismo Ambiental (JA). São três documentários que não tratam diretamente de JA, mas que abordam a questão ambiental por diferentes aspectos e com profundidade. São obras que merecem ser vistas, revistas e divulgadas, todas disponíveis no YouTube:

  • Dossiê Viventes – O Pampa Viverá: dirigido por Tiago Rodrigues, esse longa de 2018 (duração de 86 minutos) mostra a luta de comunidades da bacia do Rio Camaquã contra projeto de instalação de uma mineradora de chumbo. Com imagens belíssimas do Pampa, o documentário reúne depoimentos importantes e fundamentais para compreender a importância do bioma gaúcho, o mais ameaçado do Brasil. Ou, como define o escritor e cineasta Tabajara Ruas, “um pedaço profundo do Rio Grande”. O filme conta com depoimentos de biólogos, ambientalistas, indígenas, juristas, povos ribeirinho, autoridades e quilombolas contra a exploração das mineradoras. Essa batalha ecológica, por sinal, consagra-se vitoriosa, pelo menos por enquanto. Muitos dos pressupostos do Jornalismo Ambiental estão evidentes no documentário, como pluralidade de vozes, engajamento, contextualização e o Princípio da Precaução. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MIXozp6SZQE. Para os interessados nesse episódio histórico, sugiro o artigo “Herdeiros de um modo de vida: midiativismo contra a ameaça de mineração no rio Camaquã”, de Claudia Herte de Moraes e Eliege Maria Fante (Revista de Comunicação Dialógica, 2020, p. 39-61).

Imagem: Reprodução do filme “Dossiê Viventes”

  • Habitantes do Arroio: esse documentário interativo de 2010 (103 minutos) foi dirigido por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Rafael Devos. Nascido de um projeto acadêmico, o filme tem o mérito de expor o conflito e interdependência entre diferentes grupos sociais, instituições e técnicos da área ambiental, cuja linha comum é a utilização das águas do poluído Dilúvio, arroio que corta parte da cidade de Porto Alegre. O filme começa com um plano aéreo, sem cortes, cobrindo toda a extensão do arroio, da Barragem do Sabão até o Guaíba. Questões como história, saneamento, urbanização, educação ambiental, infraestrutura, entre outras, são abordadas pelas pessoas que residem ou trabalham em volta do Dilúvio. Logo na abertura, as palavras do escritor Carlos Reverbel que dizem tudo: “O rio estava em seu lugar, como manda o figurino. Eis senão quando a cidade resolveu invadi-lo, na base do fato consumado… Começaram, então, os intempestivos e abusivos aterros, ou seja, a ocupação do rio, a mão armada, pela cidade. …Isto num lugar em que pode faltar tudo, menos terra” (Barco de Papel – Ed. Globo, Porto Alegre, 1979, p. 12-14). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oKnTY8fBxDY.

Imagem: Reprodução do filme “Habitantes do Arroio”

  • Substantivo Feminino: premiado com Menção Honrosa na Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (São Paulo) e no Festival de Cine Latinoamericano de Trieste (Itália), essa preciosidade de Daniela Sallet e Juan Zapata resgata o trabalho de duas pioneiras na defesa do meio ambiente no RS: Magda Renner e Giselda Castro. Lançado em 2017 (63 minutos), o filme conta com importantes depoimentos sobre essas gaúchas que em pleno anos de chumbo se dedicaram à causa ambiental. Destaca a importância de José Lutzenberger para a adesão das duas militantes na causa ecológica, além de mostrar como funcionava a sinergia entre as amigas e como ambas ajudaram a levar as batalhas gaúchas e brasileiras para o mundo. Trata-se de uma verdadeira aula de história sobre a luta ecológica no Rio Grande do Sul no século passado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3lQNHxLzHFE. E para quem quiser saber mais sobre as vidas e obras de Magda e Giselda, recomendo o livro “Pioneiros da ecologia: breve história do Movimento Ambientalista no Rio Grande do Sul”, de Elmar Bones e Geraldo Hasse (Já Editores, 2002, 214 páginas).

Imagem: Reprodução do filme “Substantivo Feminino”

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

Referências

Dossiê Viventes – O pampa viverá. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1211/dossie-viventes-o-pampa-vivera. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Habitantes do Arroio. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1676/habitantes-do-arroio. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Substantivo feminino. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1117/substantivo-feminino. Acesso em: 08 Jul. 2024.

De chuvas no RS a fogo no Pantanal e estiagem na Amazônia, jornalismo deve tecer relações entre fenômenos

Imagem: Isabelle Rieger

Débora Gallas*

No noticiário, o ineditismo e a grandiosidade dos eventos iniciam ciclos de atenção que mobilizam o público em torno da pauta quente do momento. Passado algum tempo do despontar da novidade, a narrativa pode ganhar verniz de “mais do mesmo” e tornar o público menos engajado. Em tempos nos quais estamos superexepostos à informação, é fácil iniciar um novo ciclo ao tomarmos conhecimento sobre outro assunto mais recente e que também desperta nosso senso de urgência.

Tal processo pode ser perverso especialmente para o jornalismo ambiental porque dá a entender que os fenômenos são isolados – justamento o contrário do que o jornalismo ambiental defende. Se nos últimos meses o assunto predominante no noticiário nacional foi o excesso de água no Rio Grande do Sul, essa cobertura vai minguando aos poucos, mesmo que parte da população siga desassistida e que ainda haja disputa, por exemplo, sobre as medidas necessárias para a recuperação do estado.

Enquanto isso, emergem notícias sobre outro tópico preocupante: o combate aos incêndios no Pantanal, que tem sido pauta recorrente no Jornal Nacional, da TV Globo, nas últimas semanas. Assim como as enchentes no Rio Grande do Sul, o assunto não é necessariamente novo, tendo em vista que o bioma já havia sido gravemente atingido pelo fogo em 2020.

Mas, assim também como no caso gaúcho, o ciclo de atenção é despertado pelos tristes recordes associados à intervenção humana nos ambientes naturais. As queimadas de agora são ainda piores do que as de 2020, e ainda nem estamos no período mais crítico da estação seca, quando essas ocorrências são mais comuns no bioma.

Nesse contexto, é fundamental que jornalistas recorram à ciência para explicar a conexão entre esses fenômenos, que são cada vez mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas e à degradação dos biomas. Um levantamento da plataforma MapBiomas sobre a perda de mais de 30% da superfície de água no Brasil entre 1985 e 2023 foi fio condutor de um episódio do podcast O Assunto, do G1, em 8 de julho.

O programa menciona que o Pantanal foi o bioma mais afetado, com 61% da perda de água no país, o que contribui para a crise atual e para a descaracterização desta que se trata da maior planície alagável do planeta. Além disso, o coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, ressalta que o bloqueio da umidade sobre o norte do Rio Grande do Sul, por conta de fatores como a mudança na temperatura do Oceano Atlântico, agravou tanto as chuvas no estado como a estiagem ao norte.

O podcast alerta, ainda, para o novo período de seca que se inicia na Amazônia, lembrando do paradoxo que existe em habitantes da maior bacia hidrográfica do mundo, a do rio Amazonas, sofrerem com a sede. Por fim, Rosa frisa a responsabilidade de representantes do agronegócio, setor que depende diretamente da boa gestão da água e que precisa recusar o negacionismo científico para se adequar às mudanças, cada vez mais aceleradas, das condições climáticas.

Este é um bom exemplo de como o jornalismo pode se aprofundar nos fenômenos cujos impactos já sentimos na pele. Além de ouvir a ciência para basear essa narrativa, jornalistas podem flexibilizar o ciclo de atenção, tecendo relações entre as transformações que vêm ocorrendo nos biomas brasileiros.

Para aprimorar a compreensão do público sobre de quem são as responsabilidades pelo cenário atual, o jornalismo pode apostar em mais investigações de fôlego sobre causas e consequências dessas crises. Desta forma, o assunto pode se manter no noticiário a partir de abordagens que se aprofundam no tema e, ao mesmo tempo, o situam em um cenário complexo de transformações ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução

Retomada da vida cotidiana com a descida das águas torna o desafio ainda maior / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger** e Ilza Maria Tourinho Girardi*

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 mostrará seus efeitos a longo prazo. Passados dois meses do início, mais de 90% dos municípios revivem os impactos. Foram atingidos tanto o meio urbano, quanto rural e litoral. Inclusive na capital gaúcha, a inundação persiste em pontos como no bairro Guarujá, na Zona Sul de Porto Alegre. No centro e em bairros vizinhos, o alagamento foi controlado. Neste contexto, meios hegemônicos estão focando em notícias voltadas para a reconstrução do estado, ou seja, em um suposto jornalismo de soluções. Como se o enfrentamento da tragédia fosse igual para todos os moradores das áreas atingidas, independentemente de classe social, raça e gênero. Como se não houvesse responsabilidades também dos governos estadual e municipal a serem cobradas. 

Zero Hora anunciou um compromisso que remete ao jornalismo de soluções: uma nova seção “com reportagens especiais sobre obras, projetos, mobilizações, bons exemplos, negociações, cobranças de promessas e tudo que diz respeito ao maior desafio já vivido pelos gaúchos”. No entanto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) conceitua o jornalismo de soluções como “uma prática jornalística criteriosa como todo o jornalismo deve ser”. A questão é que o fio condutor da reportagem é uma solução. Ou seja, é a cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais. 

Quando falamos de um evento com essa magnitude e complexidade, como foram as enchentes de maio nos municípios gaúchos, é difícil achar soluções rápidas e simples. A posterior tentativa de retomada da vida cotidiana com a descida das águas e o aparecimento da lama tornam o desafio ainda maior. Para que um evento climático extremo agravado por interferência humana não aconteça de novo, precisamos de uma mudança radical na forma de produção. Por isso, necessitamos de perspectivas como a do decrescimento e pós-extrativismo  de Alberto Acosta e Ulrich Brand, que caminham para um cenário de justiça social e ambiental. 

Na contramão desta ideia, a capa da Zero Hora do último final de semana chamava para a reportagem “Mesmo sem recorde, colheita de soja deve ajudar na retomada gaúcha”. Quando entramos no texto, descobrimos mais do mesmo: não há crítica nem aos agrotóxicos apesar da conhecida edição de 2024 do Atlas dos Agrotóxicos informar que: “a despeito dos ganhos econômicos, o uso destas substâncias tem ocasionado um severo impacto na saúde da população brasileira: entre 2010 e 2019, 56.870 pessoas foram intoxicadas com agrotóxicos no Brasil. Há, assim, uma média de 5687 casos por ano, ou 15 pessoas diariamente”. Um severo impacto não computado pela economia do agronegócio!

Ainda, para a soja avançar nessas áreas, significa que tem que haver supressão da vegetação nativa. Dados produzidos pelo MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa. Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja e da silvicultura. 

Desta forma, a economia da qual a Zero Hora se refere é apenas material. Não se leva em conta os danos na saúde das pessoas afetadas na cadeia de produção de soja, assim como não são mencionados os impactos ambientais do plantio extrativista deste grão. Sendo esta uma das reportagens destacadas da edição de final de semana, parece que só há um caminho para a retomada na economia gaúcha e que ele passa, obrigatoriamente, pela soja. Esta apresentação em forma de solução é, na verdade, uma outra forma de semear monofuturos sem espaço para a pluralidade. 

No entanto, enquanto repórteres, editores e comentaristas, devemos ao público uma prática engajada na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Defendemos que isso faz parte dos pressupostos da área do Jornalismo Ambiental, que visa uma prática decolonial e respeitosa com todos os seres. 

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.