As respostas do Pampa para as mudanças climáticas 

Imagem: Representantes de sindicatos, associações e de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Só faltou mesmo a grande imprensa. / Eliege Fante

Por Eliege Fante* e Carine Massierer**

Esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, o bioma sulino possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

Temos ouvido a respeito das soluções baseadas na Natureza e da bioeconomia, especialmente nos últimos dias durante a COP29. São dois conceitos recentes e já apontados por especialistas como chaves para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, bem como adaptar a economia visando manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius.

A pecuária familiar em campo nativo no Rio Grande do Sul, tradicional e secular modo de vida e de geração de renda onde humanos e natureza vivem ancestralmente em harmonia, consiste numa possibilidade efetiva para contribuir com a mitigação do aquecimento global. Os resultados das pesquisas científicas acumulam-se há pelo menos quatro décadas, mas na grande imprensa, este tema quase não aparece.

Considerando que a grande mídia brasileira fez coberturas diárias da COP29, teria sido uma excelente oportunidade ofertar conteúdos que aproximassem as preocupações das nações com as nossas lidas diárias que podem contribuir, na prática, para um futuro sustentável, como é o caso dessa pecuária em campo nativo.

Em paralelo a COP29, aconteceu o Seminário da Pecuária familiar das Palmas, em Bagé (RS), (dias 22 e 23 de novembro) com representantes de sindicatos e associações, de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Não faltaram autoridades, as fontes oficiais preferidas pela grande imprensa. Sem contar que teria sido válido ouvir os próprios pecuaristas familiares ainda mais porque estamos às vésperas do Dia do Bioma Pampa, 17 de dezembro.

O Seminário reuniu cientistas, técnicos e pecuaristas que conclamam o reconhecimento da pecuária familiar gaúcha em campo nativo enquanto conservadores da biodiversidade pampeana como alertava o título do evento: “300 anos de invisibilidade”.

Durante o evento o médico veterinário da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba, afirmou (aqui gravado) que os pecuaristas, apesar de invisibilizados, contribuem com sua lida para a segurança alimentar sem agredir o meio ambiente: “nós manejamos através da pecuária uma conservação permanente da cobertura do solo com este tamanho de biodiversidade que aqui tem (ao menos 45 espécies da flora campestre por metro quadrado), a água que cai, infiltra, alimenta os repositórios de água subterrâneos, corre para a sanga, da sanga para o arroio, do arroio para o rio, do rio para a lagoa, da lagoa para o mar, daí evapora, e volta na forma de chuva. Portanto, ao produzir carne também produzimos água no sentido de que o ciclo da água permanece funcionando. Nós sequestramos carbono; essa região é um dos maiores depósitos de carbono acumulado do Rio Grande do Sul na forma dessa vegetação composta por campo conservado e mato. Ninguém reconhece isso.”

Qual a parcela de responsabilidade da grande imprensa sobre essa falta de reconhecimento? A invisibilidade deste tema na mídia brasileira não é coerente com a emergência das mudanças climáticas. Temos que fazer coberturas mais amplas: “A ocupação das pessoas é um dos maiores desafios enfrentados e, nós aqui, não precisamos ir para a cidade se não quisermos. Podemos ficar fazendo vida, história, cultura, produzindo alimentos de alta qualidade através do uso da luz do sol, da água da chuva e conservando a biodiversidade,” disse Borba a respeito da autonomia dessa pecuária em campo nativo.

Enquanto o desenvolvimento do Rio Grande do Sul é planejado por governos e corporações transnacionais de forma dependente do pacote tecnológico da monocultura da soja e do eucalipto, e de irrigação, ou seja, do uso crescente do recurso finito e escasso que é a água, é de assaz interesse público saber que existe uma atividade econômico-produtiva que mantém as famílias no meio rural, que sustenta, que não polui, que absorve o carbono da atmosfera e que “produz” água.

Todos temos que compreender e difundir os potenciais do bioma Pampa a partir da sua rica biodiversidade: o recorde de 63 espécies diferentes de plantas em um metro quadrado, redunda na imensa riqueza faunística e no “buffet” mais rico do Brasil disponível aos rebanhos. Já na Amazônia, a pecuária desmata e está levando o mega bioma ao ponto de não retorno!

A prática do jornalismo requer essa escuta horizontalizada, ampla, diversificada, produtora de conhecimento e educadora ao repercutir as tecnologias sociais parceiras da melhor ciência da conservação das espécies do planeta. Mais de uma dezena de fontes de alta relevância (internacional, inclusive) circularam neste evento local, mas de alcance e de interesse global neste momento histórico ímpar.  

*Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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