
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**
A pouco mais de quatro meses da COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil e tem como sede Belém, os altos preços de hospedagem na capital do Pará têm sido um entrave debatido em âmbito internacional. A situação foi amplamente discutida no encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que encerrou em 26 de junho em Bonn, na Alemanha. Os preços de locações estão três vezes mais altos do que a média cobrada em conferências dos anos anteriores, condição que pode prejudicar a participação dos países e delegações ativistas da sociedade civil que apresentam menos recursos financeiros. O governo federal chegou a anunciar uma plataforma de hospedagem que concentraria informações mais detalhadas, mas, até o momento, não houve avanços, gerando incertezas de ONGs e órgãos internacionais sobre a vinda ao evento.
Os impasses decorrentes da situação foram divulgados pela imprensa, mas em grande parte, principalmente nos veículos hegemônicos, apenas tratando da crise diplomática e de como o país está sendo visto internacionalmente. Entre as notícias analisadas sobre o tema nas últimas semanas, de 25 de maio a 1º de julho, O Globo trouxe a informação de que, caso não haja rapidez na solução para hospedagem, o Brasil pode receber a formalização de um pedido de mudança de sede da conferência.
No entanto, verificou-se que a cobertura prioriza a tensão entre o setor hoteleiro, o governo federal e os relatos de representantes de delegações internacionais, com declarações e posicionamentos entre a Secretaria Nacional do Consumidor, o Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA). Uma das matérias encontradas para esta análise ouviu um representante de uma ONG internacional ambientalista, que afirma temer que o cenário impossibilite a participação de países em desenvolvimento na discussão do financiamento climático.
O Estadão tratou dos desafios logísticos da conferência, como falta de leitos e alto preço cobrado das estadias, o que levaria delegações a reduzir o tamanho de participantes. Porém, apesar da infraestrutura ter problemas, a presidência do Brasil para o evento foi “muito bem vista” nas reuniões preparatórias para a COP realizadas em Bonn. O destaque dado para a visão da presidência reforça a ideia de que o problema da hospedagem é algo que tem menor peso diante das vantagens de trazer o evento para a Amazônia. Isso também pode ser refletido em matéria do UOL, que traz fala do presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, em Bonn, minimizando as dificuldades decorrentes dessa questão, afirmando que a “dimensão simbólica” do evento é mais importante. Essa ideia ignora os impasses econômicos e sociais existentes em Belém e que colocam em risco a participação popular e acessível nas discussões climáticas, pelos visíveis problemas logísticos e de infraestrutura, ressaltando a imagem que o país pode passar.
Apenas uma reportagem do Estadão voltou-se para as dificuldades financeiras impedirem as participações ao ouvir um embaixador da Noruega, país que mais doa para o Fundo Amazônia, que afirma que os altos custos em Belém são motivo de preocupação, com risco real de que muitos países e representantes da sociedade civil não consigam arcar com os custos de participação. A matéria afirma que lideranças de outros países, como China, Alemanha e Reino Unido, têm expressado ao governo brasileiro temores sobre a infraestrutura para receber as comitivas oficiais e representantes da sociedade civil.
A Folha de S.Paulo informou sobre o atraso da plataforma de hospedagem da COP-30, e que países enviaram cartas expressando preocupação quanto às acomodações, mas não recebem respostas adequadas do Brasil. Uma fonte ouvida pela reportagem, que representa organizações civis, comenta que a questão do alojamento também envolve inclusão, mas o comentário é breve.
Outra matéria, também priorizando as polêmicas, relata que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou cada um dos grandes hotéis da cidade, pedindo dados detalhados sobre a evolução anual das tarifas e comparações entre os valores praticados na festa anual do Círio de Nazaré, e em resposta, o Sindicato dos Hotéis acusou o governo federal de querer fazer “imposição de preços”.
A mídia alternativa expandiu a pauta para debater as consequências de uma possível ausência de atores-chave na tomada de decisões na conferência por conta dos altos valores. O portal Sumaúma, além de informar que os encontros fechados em Bonn levantaram dúvidas sobre a viabilidade da realização da COP em Belém e que países podem formalizar pedido para a mudança da sede, também lembrou que os preços em Belém são três vezes mais altos do que a média cobrada nas conferências passadas, podendo inviabilizar a participação dos países com menos recursos e de ativistas da sociedade civil.
Uma matéria do Brasil de Fato destacou como os problemas logísticos podem afetar ambientalistas e ativistas que não dispõem de financiamento, gerando incerteza sobre quem conseguirá participar. Ainda chama a atenção para o fato dos recursos estarem sendo empregados na faixa da cidade com infraestrutura já consolidada, ressaltando que os leitos provisórios não darão origem a habitações permanentes.
A matéria traz o debate da falta de política habitacional para Belém ao detalhar que, ao mesmo tempo que é a segunda capital do Brasil com aluguel mais caro – com o risco de que o valor do aluguel siga alto após a conferência –, mais da metade da população da região metropolitana vive em favelas com ausência de sistema de esgoto e abastecimento de água, convivendo com o racismo ambiental. Este Observatório já identificou como as desigualdades estão presentes na cobertura preparatória da COP-30.
A escolha de Belém como sede da COP-30 representa um momento simbólico para o país. Ainda que os desafios logísticos possam acontecer em outras conferências e em outros países, é pertinente recordar que a capital é uma das que sofre com a emergência climática e com a injustiça ambiental. Essa realidade reforça a necessidade de atenção de autoridades para a cidade, não apenas para uma conferência – como o fato da capital do Pará estar “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento, para drenagem pluvial e urbanização de ruas, que são essenciais para minimizar alagamentos, como retrata reportagem do Infoamazônia em parceria com a Carta Amazônia, mas que foram paralisadas diversas vezes ao longo de quase três décadas.
Mais do que evidenciar as capacidades de uma cidade sediar ou não um evento internacional, cabe sublinhar que as manifestações da sociedade civil são parte das COPs. O impedimento da participação em razão dos altos custos de acomodação é mais uma barreira impedindo um debate mais amplo do enfrentamento acerca da emergência climática. Do que adianta trazer uma COP para o Brasil se até mesmo os brasileiros estão sendo afastados da conferência? Afinal, esta COP é para quem?
* Jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: leticiampasuch@gmail.com.
** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
