Clima tenso: guerras comerciais e militares ofuscam e comprometem combate à crise climática

Foto: Reprodução/Instagram/@realdonaldtrump

Por Heverton Lacerda*

Em uma semana dominada por notícias sobre os reflexos econômicos do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a relação com a tornozeleira de Jair Bolsonaro, pautas sobre questões climáticas e a COP-30 perderam espaço na imprensa brasileira.

No entanto, uma importante matéria da jornalista Eliane Oliveira, publicada nas edições impressa e digital de O Globo no dia 23 de junho, indica que a pressão do presidente dos Estados Unidos por mais gastos militares de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça verbas contra mudança climática na COP. Ela informa que os gastos militares totalizaram cerca de R$15,3 trilhões em 2024, considerando a soma dos valores de todos os países. A meta de investimento para combater a crise climática é chegar a “algo em torno de R$7 trilhões por ano, até 2035, conforme acordado em 2024, durante a COP-29, no Azerbaijão”. 

Conforme a matéria, embaixadores europeus e o presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, expressaram a preocupação de que essa realocação de verbas possa ter um impacto direto nos investimentos ambientais, inclusive nas preparações e nos resultados da COP-30, que será sediada em Belém, no Brasil, em novembro.

A diretora-executiva da COP, Ana Toni, uma das entrevistadas por Oliveira, metaforicamente descreve a crise climática como uma “guerra silenciosa” que intensifica a pobreza e a desigualdade, argumentando que os conflitos comerciais e militares não só causam destruição, mas também desviam fundos da “batalha mais urgente” contra as mudanças climáticas.

A entrevistada ainda afirma que o setor de defesa contribui para as emissões de gases poluentes, mas suas emissões não são contabilizadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o que impede um monitoramento completo de seu impacto ambiental. Neste ponto, percebe-se um bom aproveitamento do espaço editorial para analisar um elemento que pode ser significativo nos cálculos sobre o tempo que nos resta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Afinal, é preciso considerar que ultrapassamos o limite de 1,5ºC acima da média pré-industrial seis anos antes do previsto pelo IPCC. Ainda que não esteja configurada uma nova média, o pico antecipado acima de 1.5ºC é preocupante e precisa ser considerado um fator relevante para revisões de cenários.

As guerras, assim como os gastos militares ampliados, precisam ser inseridos nos cálculos, pois podem representar mais emissões de gases poluentes e menos recursos para ajudar a solucionar a crise climática.

Outro ponto relevante da matéria é o fato de que manter em pauta questões climáticas, mesmo sem a relação direta com notícias factuais – em especial as tragédias -, é positivo. Isso ajuda a contextualizar o tema a partir de uma perspectiva sistêmica, um pressuposto do Jornalismo Ambiental que busca superar a fragmentação e a descontinuidade da cobertura jornalística.  

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

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