Sérgio Pereira*

Área central de Porto Alegre inundada em 2024
Foto: Fotos Públicas/Gustavo Mansur/Palácio Piratini
O Rio Grande do Sul está perto de completar dois anos de sua maior tragédia climática e as consequências das cheias de abril/maio de 2024 ainda reverberam. Pelo menos 23 pessoas continuam desaparecidas (conforme o último levantamento, de agosto do ano passado), milhares de famílias seguem aguardando moradia e municípios permanecem na dependência de obras de recuperação e prevenção.
Para não permitir que o tempo feche cortinas na memória coletiva, GZH lançou em junho daquele mesmo ano o “Painel da Reconstrução”, um hotsite que “monitora as medidas de apoio financeiro provenientes dos governos federal e estadual para a recuperação do Estado”. A iniciativa merece reconhecimento pois se propõe a oferecer uma radiografia sobre os principais investimentos e compromissos pós-enchente. Torna-se, assim, um instrumento útil para controle social e cobrança de recursos públicos destinados ao restabelecimento do RS.
O painel está focado em três áreas prioritárias: infraestrutura, habitação e prevenção a novos eventos climáticos extremos. Há informações valiosas na ferramenta, que em 24 de março deste ano, data dessa consulta, havia sido atualizada 13 dias antes. A começar pelos repasses financeiros. Graças à plataforma, pode-se conferir que o Governo Federal pagou 63,8% (R$ 75,2 bilhões) dos R$ 118 bilhões prometidos. O Governo do RS, por sua vez, aplicou apenas 40,9% (R$ 4,6 bilhões) dos R$ 11,3 bilhões previstos.
Outro exemplo da relevância do levantamento diz respeito à circulação: ainda há no Estado pelo menos 15 trechos de rodovias bloqueadas, total ou parcialmente. As obras da ERS-348, entre Agudo e Dona Francisca, para citar um caso, sequer foram iniciadas.
As informações envolvendo moradias, porém, não são atualizadas há pelo menos seis meses. São mais de 25 mil habitações projetadas, conforme GZH. O portal cientifica que, até agora, foram disponibilizadas 520 temporárias pelo Estado e que o Governo Federal já entregou as chaves definitivas para 5.733 famílias pelo programa Compra Assistida.
Os dados sobre “Prevenção”, contudo, são ainda mais preocupantes. Primeiro, porque os números desse item da plataforma não são alterados há mais de oito meses. Também causa apreensão o andamento dos trabalhos das oito obras prioritárias relacionadas, nenhuma concluída. Dessas, a metade não saiu da fase de elaboração de projeto: dique em Eldorado do Sul; arroio Feijó (Porto Alegre e Alvorada); bacia do Rio do Sinos; e bacia do Rio Gravataí.
As outras quatro listadas, todas em Porto Alegre, superaram as etapas de projeto e licitação e estão em andamento: fechamento em concreto das comportas 8, 9, 10 e 13 do sistema de proteção; substituição das comportas 11, 12 e 14; manutenção de 1,4 quilômetro do chamado dique da Fiergs, na zona norte da capital; e manutenção de 3,4 quilômetros do dique do Sarandi. Os prazos previstos para o término de três dessas quatro obras estão expirados, conforme o levantamento revela. E a quarta está programada para ser concluída agora em março de 2026.
É preciso dizer que o painel poderia estar mais atualizado no campo “Prevenção”. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi noticiado o fechamento em definitivo das comportas 8, 10, 13 e 14 do sistema de proteção de Porto Alegre, mas na plataforma não consta essa informação. Nem mesmo na relação de matérias mais recentes sobre o tema, com links disponíveis logo abaixo das obras prioritárias. Essa latência acaba por comprometer sua eficiência como mecanismo de transparência e vigilância pública.
Afora a desatualização, outra questão surge: por que o painel não é mais explorado como instrumento de cobrança? Principalmente no que se refere à prevenção. Nos últimos dias, a notícia de formação de novo El Niño no Hemisfério Sul fez ligar o sinal de alerta. Conforme o instituto Climatempo, o “risco de chuva extrema sobre o Sul do Brasil é maior este ano”. O Rio Grande do Sul vai estar melhor preparado para uma nova enchente? O jornalismo pode e deve responder a esse questionamento.
O Princípio da Precaução, incorporado aos pressupostos do Jornalismo Ambiental, ensina que devemos ampliar o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardi et al., 2020). Loose e Girardi (2017) acrescentam que a noção de que o jornalista ambiental deve colaborar para o alerta e o enfrentamento dos riscos climáticos está em sintonia com sua responsabilidade de reduzir alarmismo e evitar medidas que desconsiderem as incertezas intrínsecas ao seu fenômeno.
O desastre climático de 2024, que causou a morte de 185 pessoas, deixou traumas profundos no povo gaúcho. Desde então, a cada chuva intensa, o fantasma das cheias faz ressurgir o medo de novas inundações. É missão do jornalismo estar conectado aos interesses e preocupações da sociedade. De que vale então estar de posse de um dispositivo importante e não aproveitar ao máximo o seu potencial? Afinal, ferramenta em uso não acumula poeira. Tanto na carpintaria quanto no jornalismo, esse adágio pode ser de muita utilidade.
Revisão: Ângela Camana, integrante do GPJA
*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com
Referências
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 23 mar. 2026.
LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin, v. 22, n. 2, Jul/Dez 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169150/001048279.pdf?sequence=1&isAllowed=y22(2):154-72. Acesso em: 23 mar. 2026.
