
Nico Costamilan* e Eloisa Loose**
Desde o início de março, a imprensa local tem coberto as discussões que cercam a votação do do novo Plano Diretor de Porto Alegre. Entre disputas partidárias que se conectam a diferentes interesses sobre os rumos da capital, mais de 500 emendas foram apresentadas. As emendas são propostas de modificações, acréscimos ou supressões feitas ao texto original. Neste caso, o texto original parte de alterações propostas ao Plano Diretor anterior, que vigora desde o ano 2000. No campo político, as emendas são mecanismos que também servem para adiar ou transformar a pauta, uma forma de medir forças com os opositores. Mas, o que essas decisões implicam no nosso dia a dia?
Nesta análise, o Observatório analisou as notícias publicadas por alguns dos veículos que acompanharam as discussões do Plano Diretor no último mês, a saber: GZH, Matinal, Correio do Povo, Jornal do Comércio e Brasil de Fato. A seleção das notícias foi feita a partir de buscas no Google Notícias e nos sites de cada veículo. Buscamos identificar os pontos mais mencionados sobre o planejamento da cidade e como são reportadas as consequências desta decisão para a qualidade de vida dos moradores, proteção ambiental, prevenção de desastres e adaptação às mudanças climáticas.
É importante recordar que a capital dos gaúchos ficou parcialmente debaixo d’água em 2024. Assim, é esperado que, na oportunidade de atualizar e melhorar o planejamento urbano, isso seja necessariamente feito de modo a garantir uma cidade mais resiliente e preparada para enfrentar a intensificação dos eventos extremos climáticos, já assinalados pelos cientistas. No entanto, os debates acalorados na Câmara Municipal evidenciam que essa preocupação não é consensual. Há uma tentativa, por parte da oposição, de inclusão das medidas adaptativas e supressão de outras que agravariam a situação, em caso da deflagração de um desastres semelhante ao já vivido; por outro lado, uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano.
Por um lado, a base parlamentar de oposição ao governo do prefeito Sebastião Melo tenta incluir emendas que visam ampliar a proteção ambiental, a exemplo da manutenção do conceito de área livre permeável e vegetada, criação de corredores ecológicos, proteção de plantas raras, manutenção da função ecológica de topos de morros, além de propostas relacionadas à segurança hídrica e, especialmente, à questão das ilhas de calor, que podem ser ampliadas com a liberação para aumentar a altura de prédios em alguns pontos da cidades. Por outro lado, percebe-se uma uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano e amplia as facilidades para o mercado de especulação imobiliária. E como esse embate repercute na vida dos moradores de Porto Alegre?
Na cobertura realizada por GZH, a relação entre as votações do Plano Diretor com o meio ambiente foi pouco apresentada. Entre as várias matérias curtas sobre as movimentações na Câmara, não houve aprofundamento das questões criticadas por ambientalistas – mesmo mencionando que “críticos” sem nome “dizem que” e “apontam que” existem diversos pontos problemáticos no Plano em questão. A cobertura é descritiva das sessões, mas simplista e fechada no acontecimento do dia ou da semana, sem contextualização. A única menção à enchente identificada nessas notícias foi feita em uma coluna de opinião de Rodrigo Lopes. Quem quiser ler mais pode acessar matérias do último ano sobre possíveis problemas urbanísticos.
Já no Correio do Povo, as sessões da Câmara são cobertas de forma objetiva, mas também há matérias explicativas e que tratam dos impactos causados pelas alterações feitas no Plano Diretor. São citadas falas de vereadores de ambas as alas. Como um bom exemplo de abordagem, a matéria “Às vésperas dos 254 anos, Porto Alegre discute novo Plano Diretor enquanto debate melhorias no saneamento”, de Felipe Faleiro, pauta(repete palavra da manchete) a votação, a concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) e adaptações climáticas devido às inundações de 2024, de forma a relacionar as votações noticiadas ao futuro na cidade.
No Brasil de Fato RS, as notícias trazem críticas explícitas aos erros e possíveis danos ambientais. A posição do veículo sobre o assunto se mostra clara ao dar destaque às falas de vereadores da oposição em notícias e quase não traz as justificativas governistas. De imediato, lembram os impactos das inundações e mencionam a necessidade de adaptações climáticas.
Já no Jornal do Comércio, que frequentemente aborda o Plano Diretor pela coluna Pensar a Cidade, da jornalista Bruna Suptitz, as notícias são informativas sobre as decisões de cada sessão. No mês analisado, a coluna não aprofundou nenhuma crítica ambiental feita ao texto original proposto, nem às diferentes emendas.
A Matinal traz contextualizações amplas e críticas ambientais claras(?) à revisão do Plano, com destaque para a reportagem “Prédio de 40 andares em áreas de inundação: os erros do Plano Diretor de Porto Alegre”, de Claudia Bueno e Naira Hoffmeister. Nela, as autoras relacionam a crise climática com o planejamento urbano, a especulação imobiliária e os riscos de desastres na capital.
Ao analisar as coberturas do último mês, fica claro que é possível trazer informações objetivas sobre o debate político da cidade sem esquecer que o meio ambiente está intrinsecamente ligado ao urbanismo. A circulação de pessoas, o transporte, o número de áreas verdes, a adaptação de ruas, edifícios e de toda uma capital para lidar com chuvas extremas, calor extremo, e muito mais. A crise climática exige que as cidades mudem, e rápido. Sob as lentes do Jornalismo Ambiental, comprometido com a mudança de pensamento, precisamos trazer a reflexão para que os veículos locais articulem as mudanças climáticas às notícias diárias.
A questão climática não deve ser apenas mencionada no momento em que há um desastre e no qual a Praça da Alfândega só pode ser acessada com caiaques, ela está imbricada em todas as discussões sobre onde e como vivemos. A prática de um jornalismo míope, focado apenas no registro do fato imediato, é um desserviço público. Urge que a visão sistêmica seja endossada pelo campo jornalístico e aplicada, ainda que parcialmente, na produção constante de notícias.
*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS, bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com
**Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
