O retorno do El Niño à pauta e a ausência da precaução na cobertura

Centro Histórico de Porto Alegre – 13/05/24. Foto: Isabelle Rieger

Por Débora Gallas*

O fenômeno El Niño, que consiste no aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, pode contribuir para a intensificação de eventos climáticos extremos no Brasil – em sua última ocorrência, em 2024, tivemos um período de recordes de calor, inundações no Rio Grande do Sul e seca na Amazônia. Um alerta lançado na última semana pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) afirma que há mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno novamente neste ano, a partir do trimestre agosto-setembro-outubro.

Devido à distância temporal, a nota técnica explica que o Cemaden trabalha no momento com cenários hipotéticos baseados em ocorrências passadas, como a diminuição das chuvas no Norte do Brasil e o aumento delas no Sul, além de ondas de calor nas regiões Sudeste e Centro-Oeste caso o El Niño se desenvolva. Para verificar como o jornalismo brasileiro está abordando o assunto, realizamos busca na ferramenta Google Notícias em 6 e 7 de abril pela palavra-chave “El Niño 2026”, que retornou 36 resultados.

O enquadramento focado em lembrar os eventos passados e, a partir deles, antecipar possíveis impactos regionais, foi o selecionado para repercussão na maioria dos veículos – como TV Tapajós, no Pará, Estadão, em São Paulo e ABC+, no Rio Grande do Sul. As vozes de especialistas como José Marengo, Carlos Nobre e Karina Lima, ouvidos por essas três matérias, legitimam as preocupações e contribuem para que a população compreenda as consequências do fenômeno.

Um grupo minoritário de veículos abordou as medidas necessárias de adaptação aos possíveis impactos de um El Niño. Um exemplo é a matéria de Marcelo Gonzatto em GZH, que relata o status das obras para contenção de cheias em Porto Alegre, como a reparação de diques e comportas para conter a água do Guaíba no caso de novas inundações. O Jornal Razão, de Santa Catarina, também trata das obras e iniciativas da Defesa Civil estadual para coibir cheias e deslizamentos de terra diante da possibilidade do El Niño, embora com foco na narrativa oficial, que destaca números positivos, em detrimento da apuração in loco.

O princípio da precaução, um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental, reconhece as incertezas inerentes ao campo científico, mas por isso mesmo preconiza um olhar atento às evidências de que determinado fenômeno ou acontecimento possa representar impactos negativos na relação sociedade-natureza.

Nesse sentido, entendemos ser necessário que o jornalismo questione o poder público sobre ações em andamento para proteger a população de futuros eventos climáticos extremos. De acordo com a teoria do Jornalismo Ambiental, essa abordagem deve ser complexa — conectando os fenômenos globais ao que ocorre em escala local e diversificando as fontes para ir além do discurso oficial.

As eleições de outubro podem ser um bom gancho para abordar o assunto ao longo do ano. O que os atuais governantes têm feito para nos adaptarmos ao crescente impacto desses eventos em nossas rotinas? O que potenciais candidatos propõem? É importante lembrar, ainda, que a questão climática é multifacetada e tem efeitos que vão da produção de alimentos à organização das cidades. Para além da previsão do tempo, toda a redação precisa se atentar a essas pautas potenciais de acordo com as atualizações da ciência e com os interesses da população – sobretudo da parcela que vive em áreas de risco e tem a vida mais ameaçada por secas, enchentes, tempestades e outros desastres.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq

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