A devastação retorna à pauta: entre a derrota política e o risco sistêmico

Por Cláudia Herte de Moraes*

São Paulo SP 02/08/2025 Marcha do clima, passeata na Avenida Paulista contra o PL da devastação. São Paulo, SP. 2 de agosto de 2025. Foto: Roberto Parizotti.

Em geral, os temas ambientais são complexos, refletindo a própria vida em sociedade. Em contraposição, a tônica do Jornalismo, em alguma medida, reside na possibilidade de simplificar a realidade para apresentar ao leitor um panorama dos principais pontos da pauta. Em um cenário de intensa disputa política pós-COP30, selecionei duas reportagens para observar o tratamento dado à derrubada dos vetos do presidente Lula na Lei Geral do Licenciamento Ambiental (popularmente chamada de “PL da Devastação”), ocorrida nesta semana. Escolhi ambas por serem detalhadas, permitindo identificar diferentes aspectos e refletir sobre como o Jornalismo pode atuar na vigilância e na fiscalização da agenda ecológica no Brasil.

A reportagem da Agência Pública focou no significado do fato, encarado como uma derrota para os ambientalistas e a base do governo. O texto detalhou o retorno de pontos perigosos, como a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC) para projetos de médio potencial poluidor, modalidade na qual se encaixam as barragens de Mariana e Brumadinho. Já a BBC News abordou a fragilização das normas e a insegurança territorial aos povos tradicionais. Neste caso, o foco na derrota política do governo também veio acompanhado da descrição dos pontos que voltaram ao arcabouço legal e que reduzem a proteção ambiental, tais como a regionalização de critérios, a ampliação da LAC, a diminuição da defesa da Mata Atlântica e a não vinculação de pareceres de órgãos como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Executivo cogita a judicialização (STF) como resposta.

As reportagens analisadas mostram que há ênfase na contextualização. A BBC, ao mencionar a judicialização e a iminente “guerra de flexibilizações” entre estados, ilustra uma cobertura sistêmica, conectando o ato político (do Legislativo) às esferas jurídica, econômica e federativa. A Pública reforça essa conexão ao ligar o LAC aos desastres de Mariana e Brumadinho, conferindo peso histórico e social ao risco iminente.

Os textos usam a voz de autoridades técnicas e ambientais (Ibama, MMA, ONGs) demonstrando que o saber ambiental foi uma lente importante para a apuração. Observei que há um tom de alerta e advertência, ao preverem o aumento do desmatamento e a insegurança jurídica, diretamente alinhado com o Princípio da Precaução. O Jornalismo, neste caso, atua como um sistema de alarme social, amplificando as vozes que buscam antecipar e evitar o dano irreversível.

Embora as reportagens tragam informações importantes e contextualizadas, diante do cenário de destruição, constatei que ainda há espaço para aprofundamentos, especialmente em direção à transformação social. Os textos citam o argumento dos defensores do PL (que apontam maior “segurança jurídica” e/ou a possibilidade de maior “desenvolvimento”) de forma superficial, geralmente em uma única frase. O indicado é aprofundar a lógica por trás do lobby e dos argumentos pró-flexibilização. É fundamental entender o que o chamado setor produtivo espera e como essa agenda se articula no Congresso, expondo, por exemplo, os interesses da bancada ruralista. A reportagem deve investigar se esses interesses são contemplados economicamente e até mesmo se o produto do agro brasileiro, sem fiscalização, perde valor e competitividade em mercados externos exigentes.

Percebi que a complexidade da derrubada de vetos (56 de 63) e dos mecanismos legais (LAC, regionalização dos critérios) pode ser densa para o público leigo. A indicação aqui seria melhorar a qualidade da informação com o uso estratégico de recursos visuais que detalhem o retrocesso ambiental e a dinâmica dos vetos de forma mais didática e acessível.

Adotar o tom da derrota do Executivo pode ser um risco, desviando o foco do problema estrutural. A ideia é que o Jornalismo assuma a responsabilidade de ir além da reação política imediata. Para isso, é preciso manter a cobertura constante sobre os impactos concretos da nova lei, associados ao aumento do desmatamento e a novos desastres socioambientais. Cobrar a responsabilização dos parlamentares que derrubaram os vetos, e sugerir alternativas e soluções é uma proposição da função política do jornalismo ambiental, servindo para orientar a ação do cidadão, e não apenas sua indignação.

 Em conclusão, posso afirmar que as duas reportagens representam um avanço na cobertura ambiental brasileira, agindo com as lentes do jornalismo ambiental ao expor a gravidade de uma decisão legislativa que foi contrária à posição de inúmeras organizações sociais, ambientalistas e científicas. Mas, para consolidar-se como agente para a mudança de pensamento e não apenas de informação, deve refinar sua prática na desconstrução das narrativas do lobby (a partir da pluralidade de perspectivas e da qualificação da informação), trazendo para si o compromisso com o monitoramento a longo prazo dos impactos, garantindo que a “vitória” do Congresso sobre os vetos não se torne uma derrota permanente para o interesse público.

*Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br 

Como a imprensa brasileira avaliou a COP30: tensões, omissões e avanços limitados

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Nadja Nobre*

A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.

Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.

Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.

O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.

A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.

Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.

A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.

Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.

No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.

Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.

A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.

* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.

Enquanto discutimos o mapa do caminho, o futuro nos escapa

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Franchesco de Oliveira* e Cláudia Herte de Moraes**

Depois de dias intensos em Belém, a COP-30 deixa de ser apenas um encontro global e se torna um ponto de virada (ou de cobrança) para o mundo. Agora, no pós-COP-30, é hora de olhar para além dos discursos e avaliar o que realmente ficou: os compromissos firmados, as tensões expostas, os avanços possíveis e as lacunas que persistem. Entre análises que apontam divergências internas, acordos considerados tímidos e expectativas não atendidas por cientistas, ambientalistas e negociadores, estamos em um momento decisivo para entender o que, de fato, mudou e o que ainda permanece na agenda climática mundial.

A conferência terminou com promessas de acelerar a transição energética, elevar o financiamento climático e estabelecer mecanismos mais rígidos de adaptação. Houve avanços, mas também frustrações: os países maiores emissores ainda resistem a metas vinculantes, e o financiamento aos países do Sul Global continua marcado por burocracias e disputas políticas. Ainda assim, Belém deslocou o eixo das discussões: a urgência climática tem território, tem povo, tem nome. E tem pressa. 

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, acompanhamos a preparação e a realização da COP-30 a partir de diferentes abordagens e jornalismos. Podemos afirmar que a pauta se consolidou como mais relevante e mais aprofundada nesta edição do evento, realizado no coração da Amazônia. A atmosfera e a proximidade da COP-30 trouxeram elementos de destaque para o debate sobre a emergência climática que, afinal, já está sendo vivenciada de forma avassaladora no mundo. 

Para a análise do Nexo, mesmo com a inclusão de temas na COP que geralmente passam ao largo da visibilidade midiática (justiça racial, gênero e participação social com a Cúpula dos Povos), o ponto central sobre os combustíveis fósseis e desmatamento foi considerado vago e incapaz de reparar minimamente a dívida histórica do Norte Global com o Sul Global. Neste sentido, a reportagem analisada colabora para um debate mais aprofundado sobre as causas do aquecimento global e não apenas sobre as consequências já sentidas em vários cantos do mundo. 

Da mesma forma, a BBC destacou que a COP-30 terminou sob o peso das ausências, sobretudo a dos Estados Unidos, e de um texto final que frustrou ambientalistas ao não incluir qualquer referência aos “mapas do caminho” para abandonar os combustíveis fósseis e zerar o desmatamento, duas das propostas centrais defendidas por Lula. Embora o “Mutirão Global” tenha sido saudado por evitar a implosão do Acordo de Paris, o recuo diante da pressão de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China, marcou um dos pontos mais sensíveis da conferência. Ainda assim, a BBC apontou avanços moderados, como o aumento do financiamento para adaptação agora com a meta de triplicar até 2035, a inclusão histórica do termo “afrodescendentes” nos documentos oficiais e a adoção de 59 indicadores globais para medir a capacidade de adaptação climática. Ou seja, o veículo destacou o avanço da justiça racial, incorporando uma visão mais complexa da questão climática que é socioambiental em sua base.

Para o G1 a palavra que resume a COP30 é frustração. A principal decepção foi a ausência total de menções aos combustíveis fósseis nos documentos finais, assim como  nos textos de Nexo e BBC.  O portal inclui uma avaliação de que  houve avanços simbólicos, como a inclusão inédita de referências a afrodescendentes. Indicou ainda que para a ONU, a falta de ambição reflete a conjuntura geopolítica fragmentada, com os Estados Unidos ausentes, a União Europeia enfraquecida e China relutante em assumir liderança. Observamos que a análise do G1 trouxe a visão da governança global, de forma indireta, indicando que para a construção de um caminho ainda há fortes entraves de Estados negacionistas e/ou pressionados pelas elites econômicas que atuam globalmente.

Diante desse conjunto de avanços pequenos e problemas que continuam sem solução, os textos do pós-COP funcionam como um alerta: o mundo não está discutindo apenas metas, mas o que ainda é possível evitar diante da crise climática. Belém mostrou a força dos povos da floresta, das vozes que quase nunca são ouvidas e da pressão social que tenta mudar o centro das decisões. 

Ficou evidente que as grandes potências defendem de forma cada vez mais aguerrida os seus interesses ligados aos combustíveis fósseis e que a política internacional segue dividida. Relembramos aqui uma análise deste Observatório sobre a cobertura da COP-28, em 2023, que tratava do mesmo tema: o abandono dos combustíveis fósseis é uma exigência de nosso tempo

Durante a “barqueata” que integrou a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30, o cacique Raoni disse: “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro.” O pós-COP-30 não é um encerramento, e sim um aviso: o planeta continua cobrando medidas concretas enquanto muitos países ainda hesitam em agir. O relógio climático não para e a história vai registrar quem escolheu empurrar o problema para depois, enquanto o futuro escapava.

*Franchesco de Oliveira é graduando em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Uma semana e muitos impasses: a cobertura da imprensa sobre as negociações da COP-30

Ato da Cúpula dos Povos pela Amazônia na Baía do Guajará, em Belém, durante a COP30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Por Alice Balbé* e Caroline Garcia**

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-30, terminou e tem repercutido na cobertura midiática pela falta de consenso sobre as pautas principais e pela aguardada conclusão das negociações políticas. As discussões na primeira COP no Brasil seguem em Belém, no Pará, até o dia 21 de novembro de 2025.

A luta contra os combustíveis fósseis e o financiamento climático têm sido um dos principais desafios nas negociações das COPs. Os principais impasses estão em torno do financiamento climático robusto, da adaptação, da eliminação dos combustíveis fósseis e da transparência nas metas nacionais (NDCs). A CBN caracterizou a primeira semana como de “avanços mínimos e pressão”, a BBC Brasil como um “cabo de guerra” entre custeio e investimento no petróleo e o Estadão como “morna”. A Folha de SP destacou o clima de tensão política, a tentativa brasileira de assumir protagonismo e a busca por novas estratégias para destravar negociações em temas sensíveis ao futuro da governança climática global.

Já a Reuters explicou o processo de discussões que exige consenso entre os 194 países envolvidos e descreveu que um dos impasses para os acordos é o próprio modelo de votação. Lembrando que um dos acordos para “eliminar gradualmente” o uso global de carvão foi diluído após uma objeção de última hora da Índia na COP-26, em Glasgow, em 2021. No entanto, discutir mudanças na estrutura das negociações pode comprometer ainda mais as tentativas de acordos, que já lidam com políticas anti-clima, como dos Estados Unidos, que não enviaram delegados à COP-30. 

O Colabora destacou os ineditismos e o protagonismo no Brasil, com a promessa do “Mapa do Caminho”, que segue fora da agenda principal, mas em negociações, e com a aprovação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Também houve destaque para o tema da desinformação ter entrado na agenda e para a mobilização social com o protagonismo indígena sem precedentes. 

A inclusão da desinformação na agenda oficial refletiu uma preocupação inédita. Seguindo uma tendência de grande volume de publicações nas redes sociais nos primeiros dias da COP (Balbé; Carvalho, 2017) e diante do desafio de enfrentar desinformação, foi realizado um monitoramento nas redes sociais TikTok, Instagram e X. O jornal GLOBO revelou que, só no primeiro dia do evento, mais de 1.114 postagens foram classificadas como falsas. Os dados mostram que esses conteúdos foram publicados por perfis de oposição ao governo, contendo informações falsas, descontextualizadas e imagens manipuladas. Esses dados reforçam a importância do lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima liderada pelo Brasil e que, por enquanto, conta com a assinatura de 11 países e visa trazer uma resposta institucional ao impacto da desinformação em contextos climáticos.

A COP-30 tem a maior participação de povos originários em três décadas de conferências do clima, resultado de uma articulação inédita com o governo federal. Dados da Agência Brasil destacam o feito: cerca de 400 representantes indígenas atuam credenciados nas salas de negociação oficial, enquanto uma aldeia montada em Belém reúne aproximadamente 3 mil pessoas de etnias do Brasil, de outras regiões da América Latina e de comunidades tradicionais da África e Ásia. 

Por outro lado, é um duplo momento dos povos originários: a participação inédita e a luta contínua por mais voz. Nas ruas, apelos pela demarcação de terras e denúncias sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, como repercutiu o jornal O Povo. Essas manifestações representam uma retomada do espaço de protesto público, após duas edições de COP realizadas em países com fortes restrições à mobilização civil no Egito (COP-27) e Emirados Árabes (COP-28).

Além das pautas políticas, questões logísticas também ganharam destaque. A CNN Brasil repercutiu críticas à organização do evento, incluindo falhas de segurança, no abastecimento de água nos banheiros e problemas de refrigeração nos pavilhões. O incômodo gerado entre a sociedade civil foi tal que a ONU chegou a enviar uma carta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, criticando a estrutura e exigindo ajustes imediatos, uma medida incomum por parte da organização.

De forma geral, a cobertura trouxe um misto de “primeiros passos” dados e de expectativa para as reuniões políticas que se iniciam esta semana. Qual será o protagonismo que o Brasil quer assumir? Qual será o legado da primeira COP na Amazônia?

*Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

**Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista de iniciação à popularização da ciência no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: carol.diasgarcias@gmail.com

Referência:

BALBÉ, A. D.; CARVALHO, A. (2017). As mudanças climáticas no Twitter: a ascendência da mídia e da política. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 40. https://doi.org/10.5380/dma.v40i0.49047

“O agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental.

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A importância da cobertura crítica do jornalismo não hegemônico na COP-30

Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

Assuntos latentes nas discussões que circundam a COP-30, a começar no próximo dia 11 em Belém do Pará, como a exploração de petróleo na Amazônia, são temas que, por vezes, perpetuam-se apenas em discussões ambientadas nesses espaços formais. Entretanto, a popularização destas pautas ambientais e climáticas são essenciais e intrinsecamente ligadas à formulação de uma agenda justa e eficaz acerca de ações de adaptação e mitigação.   

Tendo em vista a relevância da COP-30, um dos eventos mais importantes que guiam as tomadas de decisões acerca do clima e do ambiente no âmbito global, é pertinente avaliar quais são os veículos que estão tratando destes assuntos de forma aprofundada e crítica.

É a partir da cobertura realizada pela mídia não hegemônica que a população pode entrar em contato com olhares mais criteriosos sobre o que representa, no caso em questão, a autorização pelo governo federal à exploração de petróleo em uma região estratégica ao equilíbrio climático e por sediar a COP 30. 

O jornalismo não hegemônico, também denominado de alternativo, contra hegemônico, independente, de oposição, se refere às práticas jornalísticas de meios com posição comprometida e engajada com o “combate à injustiça social, sendo, muitas vezes, fortemente relacionado com os movimentos sociais, com escala de influência mais limitada na sociedade, estrutura econômica mais instável e, na maioria das vezes, atuando sem fins lucrativos” (Loose, 2020, p.39).

A exploração de petróleo na Foz do Amazonas representa um duro golpe para quem quer mudar a trajetória das mudanças climáticas e vê nas discussões da Conferência uma saída ambiental que barre a produção de combustíveis fósseis. 

O site do Sumaúma, um dos projetos jornalísticos não hegemônicos mais relevantes atualmente na cobertura da COP-30, traz a notícia sobre a exploração do petróleo na região com uma crítica frontal e contundente ao governo Lula, apontando ministros que eram favoráveis à perfuração de poços e como ocorreu a aprovação e liberação do Ibama, bem como as repercussões, sob forte pressão política. A partir do texto, o leitor entende o enredamento governamental com o Congresso e a inação presidencial diante do avanço dos interesses políticos e petrolíferos. Além disso, a notícia expõe a contradição da decisão a poucos dias da realização da COP.

A cobertura realizada pelo veículo jornalístico O Eco, o qual se dedica a evidenciar os avanços e desafios acerca do cenário ambiental e climático no país, traz também uma visão crítica da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, além de ressaltar os efeitos  negativos da exploração gera ao meio ambiente. A matéria enfatiza o risco de acidentes e a extrema poluição climática que este movimento causará ao ambiente e como tal atitude está sendo vista no cenário internacional.

De mesmo modo, o  #Colabora, expôs, na última semana, a denúncia feita por ONGs ao governo acerca da exploração no foz do Amazonas.  A matéria apresenta, de forma crítica ao governo, o ativismo conjunto de outras organizações que lutam pela justiça climática e que, por vezes, não tem visibilidade na cobertura hegemônica. O veículo ressalta a importância do reconhecimento destas atuações ambientalistas realizadas por populações indígenas, ribeirinhas, pescadoras e outras organizações no debate ambiental e climático no Brasil. 

Diante dos apontamentos aqui apresentados, verificamos a necessidade de que meios não comprometidos com os interesses da indústria petrolífera produzam notícias e circulem. Muitas vezes, a tomada de consciência sobre os problemas ambientais só é possível nestas alternativas. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS) e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (CNPq/UFRGS) . E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

Referência:

LOOSE, E. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/220347. Acesso: 01.nov.2025

Vozes indígenas e quilombolas seguem à margem da cobertura antes da COP-30

Indígenas descem a esplanada dos ministérios em direção ao STF para a realização de uma vigília contra o Marco Temporal. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**

Cerca de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas, estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações, secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna, de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.


Essa questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a 21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67 delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação aos eventos climáticos extremos.


Além das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil, em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.


Mas, ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.


Por outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.

A pouca atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas mais eficazes para todos nós.


*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.
**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Projetos jornalísticos e formações climáticas para comunicadores crescem com a realização da COP no Brasil

Reunião virtual do Conselho de Segurança da ONU. Foto: Wikicommons

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em preparação para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que será sediada em Belém, no Pará (PA), o jornalismo brasileiro apresenta iniciativas para informar o público sobre o evento sob diferentes perspectivas: econômica, política, ambiental, social, cultural, entre outras. Similar ao que ocorreu na Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) e na Rio+10 (Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável), reconhece-se um esforço de organizações jornalísticas e não jornalísticas  para ampliar o debate ambiental e, em alguns casos, qualificar a cobertura sobre a COP.

Veículos com linhas editoriais diferentes, sobretudo independentes e/ou especializados, procuram informar de modo educativo sobre o que é a Conferência, sua função e o que se pode esperar da sua realização no Brasil. Projetos como podcasts exclusivos sobre o evento, bem como episódios específicos sobre o tema crescem em número nas plataformas digitais. 

O podcast “Tempo Quente”, criado em 2022 pela Rádio Novelo para falar de mudanças climáticas, por exemplo, realiza nesse ano o especial “Esquenta pra COP30”, em parceria com a Agência Pública e o Observatório do Clima. Outros podcasts e programas que evidenciam essa preocupação com o entendimento do evento e o que está por trás de sua realização (o enfrentamento das mudanças climáticas) são: “COP Meio Cheio, Meio Vazio”, do Brazil Journal; “Entrando no Clima”, do ((o))eco; “Las Niñas”, de Carol Prolo e Natalie Unterstell. Dentre os temas mais abordados, estão: o financiamento climático, a governança global, o papel dos combustíveis fósseis, a transição energética e o protagonismo de comunidades tradicionais na tomada de decisões pelo clima. 

Entre veículos públicos, como a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que será emissora anfitriã, estão sendo intensificadas a produção de conteúdos especiais em preparação para a COP-30, em novembro em Belém (PA). A mobilização da EBC inclui parcerias, como o acordo com a Funtelpa (Fundação Paraense de Radiodifusão), para ampliar o alcance da cobertura; a veiculação de interprogramas na TV Brasil sobre os biomas brasileiros; reportagens especiais nos telejornais; programas temáticos e boletins nas rádios; e iniciativas nas redes sociais e veículos governamentais.

Presente de forma recorrente na programação de programas diários como O Assunto, do G1, e Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, a COP-30 está sendo mais discutida e evidenciada pelo jornalismo tradicional do que em edições anteriores. Isso se deve ao ineditismo de sua realização na Amazônia brasileira e também ao foco internacional que as decisões pró-ambiente ganham.

Veículos independentes, como ((o))eco, Sumaúma e Agência Pública, debruçam-se sobre aspectos nem sempre presentes na cobertura oficial do evento, bastante atreladas às fontes políticas. Em matéria da última semana de Lorena de Paula, o Sumaúma tratou da desigualdade em Belém e como ela implica até na diferença de calor sofrido pelos moradores da cidade. Segundo dados da reportagem “Na Belém da COP30, até a sombra é desigual”, há uma diferença de até 8 graus Celsius entre bairros ricos e pobres na capital paraense.

Em notícia assinada por Cristiane Prizibisczki no veículo ((o))eco em julho, o leilão realizado pela Agência Nacional de Petróleo é destacado junto à fala da presidência brasileira da COP sobre transição energética. Na publicação “Em semana de leilão de petróleo, Brasil fala à comunidade internacional sobre transição energética” as informações da semana foram apresentadas com questionamentos de enfrentamento às contradições políticas e econômicas. 

Por ser uma profissão orientada para a factualidade, na qual a questão “tempo” é fator de decisão sobre as pautas, as expressões “em ano de COP”, “a x meses da COP” ou  “a poucas semanas da COP” têm sido usadas de maneira repetida e quase clichê pelos jornalistas em 2025. No entanto, esse momentus pode ser útil para popularizar a problematização de questões ambientais com mais espaço midiático do que tradicionalmente identificamos. A partir disso, iniciativas independentes dão exemplo de contextualização e questionamento jornalístico diante de notícias e reportagens rasas e declaratórias na mídia hegemônica. 

 Foco na cobertura jornalística 

A poucas semanas da COP-30 em Belém, intensificam-se as menções ao evento na mídia. Em meio à problemas logísticos, bate-bocas diplomáticos, crises políticas internas e projetos ambientais numerosos, é fácil que um comunicador perca de vista suas prioridades na hora da cobertura e se disperse quanto à pautas, fontes e abordagens. Visando a complexidade que é cobrir um evento de tal magnitude, diversas entidades, organizações e associações jornalísticas organizaram ao longo do ano iniciativas para a preparação de profissionais. 

Entre alguns projetos mapeados estão cursos online, seminários, webnários, palestras, materiais e guias para os jornalistas interessados. A grande maioria dessas iniciativas é produzida por veículos independentes, organizações não-governamentais e associações de jornalismo. 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em parceria com a Transparência Internacional e da Agence Française de Développement, disponibilizou ao final de 2024 um curso gratuito sobre democracia ambiental e climática, com o objetivo de preparar para a COP. Neste ano, a Abraji disponibilizou também o curso “COP30 em pauta”, com apoio do Itaú e do site ((o))eco.  

Outras formações com o mesmo objetivo foram “COP30: o essencial para cobrir o evento”, da InfoAmazônia, “Cobertura climática e COPs: ferramentas, fontes e narrativas para jornalistas e comunicadores”, da Knight Center, e “Mudanças Climáticas: Agricultura na era da produtividade e sustentabilidade, da Embrapa e do Sebrae.

Entre os desafios da cobertura está a desinformação, que se espalha com o objetivo de manipular grupos, sustentar teorias conspiratórias, desacreditar figuras públicas ou movimentos políticos e até gerar lucro por meio de cliques. Seus impactos podem ser graves e podem influenciar percepções sobre temas cruciais, como a crise climática. Em momentos decisivos como a conferência em Belém seus efeitos tornam-se ainda mais perigosos, exigindo que jornalistas redobrem a atenção diante das redes. Pensando nisso, a Agência France-Presse (AFP), promove atualmente um treinamento online sobre desinformação climática para jornalistas com apoio da Embaixada da França no Brasil.

Além de formações online, iniciativas presenciais especializadas também vêm ocorrendo neste ano, como as Formações para Comunicadores Populares das Baixadas de Belém, pelo Na Cuia e o Fundo Casa Socioambiental. 

Com seminários, o Instituto Clima e Sociedade; o Observatório da Imprensa, a Associação Brasileira de Imprensa e Federação das Indústrias do Estado do Pará também realizaram ações para jornalistas. 

O Pulitzer Center abriu uma chamada especial no início de 2025 para propostas de subsídios voltadas à cobertura da COP30. Jornalistas, editores e veículos de mídia independentes puderam enviar projetos que abordem temas ambientais considerados essenciais para a conferência.

A Associação de Jornalismo Digital, em parceria com a InfoAmazonia e com o Instituto Serrapilheira lançou em maio o edital “Sala Colaborativa: Construção de Coberturas Socioambientais no ano da COP no Brasil”, projeto para produção de pautas e produção jornalística sobre questões socioambientais, focados nos estados da Amazônia Legal.

Outra iniciativa é a “Central Belém: Clima com a Natureza na COP30”, criada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com Nature4Climate, The Nature Conservancy Brasil e o PNUMA, que busca apoiar e conectar jornalistas na sua cobertura do evento. O projeto oferece suporte editorial, acesso a especialistas e fontes locais, além de oficinas, webinars e visitas de campo. A proposta é fortalecer narrativas que deem visibilidade a vozes diversas e ampliem a compreensão global sobre o papel da Amazônia nas soluções climáticas.

Ações para o público 

Além de formações para comunicadores, organizações e universidades planejaram iniciativas voltadas para todos os interessados no evento, com diferentes enfoques pelo Brasil. O Fundo Casa Socioambiental e a Rede Comuá lançaram a publicação “Rumo à COP 30”, guia voltado especialmente para comunidades locais, povos tradicionais, periferias urbanas periféricas, comunicadores, jornalistas, educadores populares e o público em geral.

O Observatório do Clima, com o projeto nacional Estação Central da COP, convidou a criação de espaços de informação e formação para grupos diversos (escolas, comunidades, coletivos, etc.) sobre a Conferência através de materiais e orientações disponibilizadas.

Além disso, ao longo de 2025 ocorrem iniciativas de universidades, como o podcast “Vozes do Clima” do PET Educom Clima da UFSM, e o “De olho na COP”, do Observatório de Jornalismo Ambiental do Grupo de Pesquisa em Jornalismo (CNPq/UFRGS), também em parceria com o PET Educom Clima. Esses dois projetos procuram, através do jornalismo e da extensão universitária, aproximar a comunidade dos debates e discussões que acontecerão na COP-30, e que perpassam a sua realização.

Dentre a parcela de iniciativas mencionada, percebe-se a valorização do jornalismo independente, de veículos e organizações comunitárias, locais e especializadas em comunicação engajada com a causa ambiental. É possível notar, também, preocupação com uma cobertura qualificada, aprofundada e consciente da COP-30. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Imprensa brasileira ignora os nexos internacionais que antecedem a COP 30

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Eutalita Bezerra*

A Assembleia Geral da ONU, realizada de 23 a 29 de setembro, em Nova York, já mereceu atenção neste observatório. Na publicação veiculada no último dia 26, Luciano Velleda discutiu a abordagem do jornalismo sobre o discurso do presidente brasileiro durante o referido evento. Considerando a importância da assembleia e o fato de que esta precede a realização da conferência das partes, a COP 30, que será realizada no Brasil em novembro, retornamos aos veículos de imprensa a fim de entender o que, além da fala de Lula, foi notícia, naquele contexto.

Pesquisa realizada na ferramenta de busca do Google utilizando como palavras-chave “Assembleia Geral da ONU” e “COP 30” na aba de notícias retornou 62 publicações, das quais foram selecionadas apenas aquelas veiculadas durante o evento.

Em 23 de setembro, o site de Carta Capital destacou a conversa entre Lula e a Presidenta do Peru, Dina Boluarte, que aconteceu à margem da Assembleia. De acordo com a publicação, citando o Planalto, Boluarte teria confirmado a presença na COP-30 e expressado “interesse em fortalecer a cooperação bilateral para superar alguns dos desafios que afetam a região, como a insegurança alimentar, a escassez de conexões viárias e o crime organizado”.

Na mesma data, o site do jornal paraense O Liberal divulgou o início da assembleia. Na publicação “Líderes mundiais discursam na Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque“, o veículo destaca que “a reunião acontece no momento em que a comunidade internacional se prepara para a COP 30, que será realizada em Belém, em 2025, e outros encontros multilaterais voltados a questões ambientais e humanitárias”.

Em 27 de setembro, o site da Rádio França Internacional (RFI) publicou sobre o discurso do presidente de Cabo Verde durante a Assembleia Geral da ONU: “Cabo Verde exige limite do aquecimento do planeta a 1,5 graus centígrados”. De acordo com a reportagem, Antonio Correia e Silva saudou a realização concomitante da Reunião Especial sobre o Clima, convocada pelo secretário geral, António Guterres, e pelo presidente do Brasil, Lula da Silva, em preparação para a COP 30. Ele também afirmou que “A COP de Belém representa um momento crucial para a implementação plena do Acordo de Paris e para garantir que a ambição climática se traduza em acções justas.”

Já em 29 de setembro, o site O Progresso Digital republicou material da ONU News, segundo o qual  “CEO da COP30, Ana Toni, diz que reunião na ONU reforça otimismo com evento”. Trata-se da única publicação que trouxe mais aprofundamento sobre as implicações do que foi discutido na Assembleia e a Conferência; um balanço feito pela diretora executiva da COP30. Não à toa, produzido pela própria ONU.

Em síntese, o levantamento revela que apenas quatro publicações deram atenção explícita à interlocução entre a Assembleia Geral da ONU e a COP 30. Mesmo nesses casos, o tratamento foi pontual, com exceção do material da ONU News. O quadro evidencia uma lacuna importante: a cobertura jornalística não aproveitou a oportunidade para relacionar um dos mais relevantes fóruns multilaterais do planeta à conferência que o Brasil sediará em 2025.

A baixa conexão entre os dois eventos mostra como a imprensa brasileira ainda prioriza discursos individuais, em especial o do presidente da República, em detrimento da construção de narrativas que permitam ao público compreender os nexos diplomáticos e ambientais mais amplos. Esse recorte reforça a necessidade de um jornalismo ambiental atento aos processos internacionais, capaz de iluminar os caminhos que conduzem à COP 30 e de situar a sociedade brasileira diante da centralidade do país nas negociações climáticas globais.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Visibilidade indígena na COP-30: entre a luta por protagonismo e silenciamentos recentes

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

A COP-30 que ocorrerá em Belém (PA), no Brasil, em novembro de 2025, tem como um de seus objetivos correlatos ser mais inclusiva e participativa. Acredita-se que a pressão que os grupos sociais e populações marginalizadas com interesse direto no tema influencie as negociações de leis e políticas internacionais para combater o aquecimento global e alcançar metas climáticas. Em carta, André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, coloca as pessoas como centro do debate sobre o clima, o que põe em evidência a importância da participação de diferentes representações. 

A organização do evento vem realizando esforços para viabilizar a maior participação das comunidades indígenas. Em agosto, alguns movimentos foram observados em três frentes. Primeiro, a organização oficial anunciou o calendário de dias temáticos para debates alinhados à Agenda de Ação, com o intuito de envolver a sociedade e interessados na proposição de soluções reais para o clima – haverá um período especial para destaque aos povos indígenas (17-18 de novembro). Ainda, no segundo movimento, a presidência da COP-30 ressaltou que “as comunidades tradicionais são as mais vulneráveis aos efeitos da crise climática e que por essa razão precisam ocupar o protagonismo nas discussões da agenda de resposta às mudanças do clima”. Por fim, a própria assessoria de imprensa da COP-30 intensificou a comunicação sobre as vias de acesso à participação  dos povos indígenas — mas não só —, demonstrando uma tentativa de mudança contundente na narrativa da conferência ao buscar posicionar estes atores como agentes fundamentais da transformação necessária para a mitigação e adaptação das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. Portanto, cabe uma indagação situada sobre como os meios de comunicação estão dando visibilidade a esses movimentos. 

No veículo O Globo, percebe-se que, apesar de o site contar com seção específica chamada “COP30 Amazônia”, grande parte das notícias giram em torno das polêmicas sobre os altos custos de hospedagem em Belém (PA). Em maio, consta uma única notícia sobre as vivências indígenas e ribeirinhas na crise climática que serão levadas ao evento por representantes de organizações destes povos. 

Em outros veículos locais, como Pará Terra Boa, a ênfase da cobertura centra-se, sobretudo, em notícias de cunho internacional sobre a conferência, pouco situada na participação de comunidades locais, como indígenas e ribeirinhas. Além disso, quando cita a participação de famílias agricultoras, por exemplo, é comum que a notícia enfatize outras atividades de abastecimento e menos a atuação política-social destas populações. 

Portanto, é visível que a COP-30 e sua organização precisam inserir no debate lideranças de movimentos que representam comunidades presentes nos diferentes territórios. Mais do que isso, trazer estas pessoas para o centro da discussão também na cobertura midiática é essencial para dar visibilidade a decisões que guiarão o futuro do nosso planeta. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática (ComClima) e do Grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade, ambos da UFRGS. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com