A falta da cobertura sobre os efeitos colaterais do “progresso”

Imagem: Labeurb/Unicamp

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

Muitos veículos publicaram nesta semana notícias contando qual era a situação de Brumadinho cinco anos depois do rompimento da barragem de rejeitos da empresa Vale, aproveitando a rememoração do acontecimento, que completa cinco anos neste 25 de janeiro. Contudo, algumas matérias, como a do Uol e a do Valor Econômico,  tratam dos avanços realizados pela mineradora em termos de organização nas buscas das vítimas ainda não encontradas, dos programas realizados e, sobretudo, dos montantes já desembolsados para reparação da  tragédia, que vitimou 270 pessoas, duas delas grávidas. Em ambos os casos citados, na nota de rodapé, consta a seguinte informação: “a jornalista viajou a convite da Vale”. 

Embora seja papel do jornalismo ficar atento ao desenrolar dos fatos e as efemérides costumam ser usadas como ganchos para pautar novamente o tema no debate público, tais notícias evidenciam o ponto de vista da empresa causadora do crime. Os questionamentos e efeitos negativos em cascata, ainda visíveis em Brumadinho, são minimizados em prol dos feitos daquela que segue lucrando a partir da destruição.

Na matéria do Valor Econômico, com 12 links que destacam o nome Vale,  apresenta-se a narrativa de como o processo está bem encaminhado: “Erramos sim, mas o objetivo é tentar acertar para evitar novas tragédias. Dentro da reparação, tudo vem sendo construído com as comunidades”, afirmou Gleusa Jesué, diretora de reparação da Vale.” Outra fonte ouvida nesta notícia é Flávia Soares, gerente de fomento econômico da reparação da empresa, que também apresenta aspectos positivos do processo de reparação, que, é sempre bom recordar, é uma obrigação legal.

A jornalista dá espaço para Josiane Melo, integrante da diretoria da Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos da Tragédia do Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), porém o foco escolhido é a responsabilização de outros, neste caso o ex-presidente da Vale Fabio Schvartsman e a consultoria Tüv Süd. Por fim, o texto destaca a influência econômica que a mineradora segue tendo na cidade devastada: o Programa de Transferência de Renda (PTR) “traz para a região aumento de 50% na renda familiar”, demonstrando o impacto da empresa sobre os recursos do município.

De outra forma, na coluna de Eliane Trindade, da Folha de S. Paulo, a cobertura destaca os impactos sociais, ambientais e econômicos, relatando o adoecimento físico e psicológico de moradores, o inchaço populacional e a elevação do custo de vida em Brumadinho. Neste texto critica-se a divulgação dos valores pagos como indenização como sendo algo descolado das perdas e que geraria ganância. Além disso, pontua-se que PTR, chamado de “bolsa tragédia”, representa mais de 20% do PIB de Brumadinho, sendo uma renda indispensável para boa parte da população que vive uma realidade bem diferente do contexto pré-rompimento, ainda que tenha previsão de acabar em 2025.

O texto evidencia o processo de vulnerabilização da população que segue sobrevivendo às consequências do desastre. Uma das faltas trazidas pela jornalista resume: “É uma cidade doente em vários sentidos. É doente economicamente, pela dependência, e mentalmente, porque o luto se espalha de forma grave”. Tal situação, onde os interesses econômicos encobrem os reais problemas e o progresso é representado como algo inevitável, que requer certos sacrifícios (quase sempre daqueles que nada ganham com o aumento do PIB), deve ser visibilizada pelo jornalismo, uma profissão orientada para o interesse público. 

Esse sistema que privilegia o lucro de poucos à custa do sofrimento de muitos se repete em vários cantos do Brasil. Desde 2018, mais de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas devido ao risco ‘iminente’ de desabamento da mina de sal-gema da Braskem, localizada em Maceió (AL). Tremores de terra, rachaduras, afundamento do solo entre dez centímetros e um metro e meio fizeram com que cinco bairros do município sucumbissem. 

Como uma tentativa de remediar o irremediável, a Braskem já havia efetuado cerca de 18,5 mil pagamentos até outubro de 2023, totalizando R$ 3,85 bilhões em compensações por danos materiais e auxílios financeiros. Em média, cada pagamento realizado equivalia a aproximadamente R$ 207 mil. No entanto, considerando despesas cartorárias e honorários advocatícios, o valor líquido recebido pelas famílias é estimado em torno de R$ 113 mil. 

De acordo com as famílias afetadas, os valores não têm sido justos e são insuficientes para reparar os danos causados. Segundo elas, o baixo valor recebido tem obrigado as pessoas a morarem em lugares mais distantes, periféricos e com infraestrutura deficitária, forçando até mesmo o deslocamento de famílias para outras cidades. No documentário “A Braskem passou por aqui: a catástrofe de Maceió”, lançado em 2021, moradores dos bairros atingidos relatam que não se sentiram ouvidos pela imprensa. “A Globo veio fazer ‘materiazinha’ de seis minutos, mas tem que fazer uma coisa ampla. […]. Talvez seja porque a empresa seja muito poderosa”, disse um dos moradores.  

 A omissão da imprensa local no caso Braskem demonstra bem como o respeito ao meio ambiente e à dignidade das pessoas pode ser relativizado quando há vantagens econômicas em jogo. Esse foi um dos assuntos mais comentados no final do ano, mas deve seguir na mira de jornalistas, afinal o risco de novos afundamentos é iminente, trazendo uma série de prejuízos que seguem sendo negados pela Braskem. 

A Rádio Novelo publicou nesta semana um episódio sobre o que muitos chamam de “maior tragédia urbana do mundo”, contando como, desde a década de 1970, o setor consegue impor suas versões por meio do poder econômico. O rastro deixado pela Samarco em Mariana, pela Vale em Brumadinho e pela Braskem em Maceió são crimes socioambientais entendidos quase como um “efeito colateral” de um “progresso” a ser alcançado. Em um cenário em que a busca incessante pelo lucro muitas vezes resulta em impactos negativos para milhares de pessoas, para a fauna e flora, o jornalismo tem como responsabilidade ouvir e amplificar as histórias, os desafios e as resistências das comunidades afetadas. 

Ao fornecer um espaço para essas vozes, o jornalismo não apenas informa, mas também sensibiliza o público sobre as realidades enfrentadas por aqueles que vivem nas proximidades de áreas de mineração (ou outras atividades poluidoras). Se o interesse público é pressuposto da prática jornalística, é inquestionável que sejam priorizadas as dimensões reais das consequências da exploração desmedida que afeta as diversas formas de vida. O uso prioritário e recorrente do enquadramento econômico, baseado em números e a um suposto “desenvolvimento”, colabora para a naturalização de zonas de sacrifício e o apagamento das injustiças ambientais.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Resistências e negociações à exploração de combustíveis fósseis

Imagem: Instituto Arayara

Por Patrícia Kolling*

Além de ser o principal ponto de impasse no acordo final da conferência global sobre o clima (COP-28), assinado na quarta-feira (13/12), em Dubai, os combustíveis fósseis também foram pauta no Brasil, devido a um leilão de mais de 600 blocos de petróleo e gás em diferentes partes do país. Enquanto o acordo final, sugeriu uma transição energética, em que os países devem se “afastar dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de uma forma justa, ordenada e equitativa”. O Brasil teve 197 novos blocos para exploração de petróleo sendo arrematados.

A imprensa reforçou a contradição do governo brasileiro, que participou com sua maior comitiva na COP 28, que apresentou números de redução de desmatamento, que teve no discurso do presidente cobranças de ações para que o mundo se torne menos dependente dos combustíveis fósseis. E que, por outro lado, deseja pular da oitava posição de exportador de petróleo para a quarta. Detalhe: o leilão da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aconteceu no mesmo dia que o acordo foi assinado, e a imprensa local já sinalizava isso: “O leilão de petróleo do Brasil um dia depois da COP28″ (Nexo Jornal) e “Leilão de petróleo pós-COP28 é bomba de emissões, diz ONG” (Folha de S.Paulo).  A contrariedade do governo já havia sido abordada no observatório da semana passada.

A abordagem dos temas polêmicos e contraditórios pela imprensa é interessante, por permitir a compreensão contextualizada das temáticas, em suas perspectivas ambientais, econômicas e sociais, entendendo conflitos, interesses e prejuízos, para assim o leitor formar uma opinião sobre o assunto.  O programa Como é que é?, da TV Folha, na quarta-feira, entrevistando a editora de Ambiente do jornal, Giuliana Toledo, promoveu exatamente essa reflexão sobre os interesses do Brasil em explorar petróleo, criticando as posições do governo e mostrando a força do poder econômico sobre o ambiental. O Globo destacou que mais de 80% das emissões de gases do efeito estufa são provocadas pelo petróleo, gás e carvão. Mas, esses combustíveis também representam grande parte da energia que o planeta consome diariamente, além de ser um negócio global que gera lucros diários superiores a R$ 15 bilhões

Assim, se compreende porque a assinatura do acordo em Dubai, não foi nada fácil, inclusive atrasou em um dia o final do evento, pois enquanto alguns países queriam uma linguagem direta sobre a eliminação dos combustíveis fósseis, os países exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Iraque, cujo desenvolvimento está ligado aos combustíveis não aceitaram. O consenso foi pelo termo “transition away”, por apresentar uma ambiguidade que agradou os países mais resistentes, pois indica mudança com flexibilidade.

A imprensa brasileira ressaltou essa ambiguidade, deixando evidente que o acordo aprovado na COP 28 não prevê o fim dos combustíveis fósseis, mas sugere uma transição das “energias que provocaram o aquecimento do planeta”. O texto propõe “triplicar a capacidade energética renovável” e “dobrar a eficiência energética média” até 2030. A imprensa mostrou que o acordo, como diz o site G1, foi positivo, mas ineficiente em medidas concretas para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.  O site G1, que foi didático, explicando aspectos positivos e negativos de todos os pontos acordados.

No Brasil, a resistência foi das organizações ambientais, quilombolas e indígenas, que realizaram mobilizações contra o leilão. O Instituto Internacional Arayara pautou a imprensa sobre a quantidade de carbono emitida na atmosfera brasileira (2,3 milhões toneladas de carbono na atmosfera anualmente) e quanto os novos blocos aumentariam essas emissões.  O leilão foi apelidado de “leilão do fim do mundo”, porque além do seu potencial poluidor, dezenas das áreas oferecidas estão sobre unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas. O Instituto ajuizou ações públicas contra o leilão de 77 blocos, que contradiziam as diretrizes da ANP.

Conforme notícia no site do Instituto dos blocos ajuizados, 94% não tiveram ofertas e apenas 4 foram adquiridos. “Os 11 blocos da cadeia de montes submarinos de Fernando de Noronha não receberam ofertas. Territórios Quilombola ameaçados não receberam ofertas. 5.617 habitantes seriam impactados. Três blocos arrematados colocam em risco 5 territórios indígenas”.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

A dicotomia do Brasil na COP 28 e a cobertura midiática

Imagem: Chris LeBoutillier / Unsplash

Por Janaína Capeletti*

O Brasil está presente na 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, com a maior delegação entre as 195 nações participantes. São cerca de 2.400 inscrições do governo, setor privado e sociedade civil. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é composta por 13 ministros e outros tantos parlamentares e representantes de empresas estatais.  

O país chegou ao evento com a ambição de liderar mundialmente o enfrentamento da crise climática e de cobrar do mundo o cumprimento do Acordo de Paris. Na sessão de abertura da Conferência, o presidente do Brasil fez um discurso forte, aproveitando a oportunidade para chamar a atenção das potências mundiais pelo cumprimento de compromissos estabelecidos para o enfrentamento do aquecimento global. A imprensa repercutiu. Na CNN, a matéria “Lula critica países que ‘lucram com a guerra’ e cobra redução de combustíveis fósseis na COP28” destacou a fala do presidente cobrando os países por ações concretas de descarbonização.  

“O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. De discursos eloquentes e vazios. Precisamos de atitudes concretas. Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?”, questionou o presidente.

Além de apresentar resultados obtidos na atual gestão, como a redução do desmatamento, o evento foi palco para o lançamento mundial do Plano de Transformação Ecológica do país. Também foi anunciada a proposta de criação do Fundo Floresta Tropical para Sempre (FFTS), que proverá recursos para ajudar cerca de 80 nações detentoras de florestas, como o próprio Brasil, a conservá-las.

Contudo, já no início do evento, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, divulgou a adesão do Brasil na OPEP+, grupo estendido da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Questionado sobre a contradição entre discurso e ação, Lula disse que a participação do Brasil no cartel do petróleo será para “convencer” os países à transição energética. O mal-estar foi completado pelo presidente da Petrobrás anunciando que a empresa tem intenção em criar um braço no Oriente Médio.

As mensagens dúbias transmitidas pelo Brasil no início do evento tiveram ampla cobertura da mídia nacional e internacional. Como as matérias dos jornais Valor Econômico “Petróleo respinga em ‘liderança verde’ de Lula na COP 28“, Folha de São Paulo “Lula confirma na COP28 entrada na Opep+ para ‘convencer’ países a abandonar petróleo“, o Blog do Noblat no Metrópoles “Contradições de Lula na COP28 (por Hubert Alquéres)“, Reuters “Lula says Brazil’s participation in OPEC+ is to stop oil producers using fossil fuels“, The Guardian “Lula’s bid to style himself climate leader at Cop28 undermined by Opec move” e Le Monde “COP28: Heads of state call for action but remain divided on fossil fuels“.

Os holofotes estão sob o Brasil não à toa, o país recebeu da Climate Action Network (CAN), uma associação de 1.300 ONGs de mais de 120 países, o prêmio “Fóssil do Dia”, entregue diariamente durante a COP a alguma “personalidade”. O pesquisador Paulo Artaxo escreveu artigo para a Academia Brasileira de Ciências, comentando o fato.  

A imprensa não se absteve de apontar as incoerências da posição brasileira, contudo, sem aprofundamentos sobre as consequências de tais políticas. Dentre as exceções, a reportagem de Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública, “Na COP28, Lula mostra lição de casa sobre Amazônia, mas reforça contradição com petróleo,” apresenta a contextualização do tema e sua repercussão. Na mesma linha, o site Sumaúma publicou uma excelente entrevista com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que se mostra na disputa pela liderança verde na América Latina. O colombiano divulgou na COP que seu país decidiu não assinar novos contratos de exploração de carvão, petróleo e gás. E por fim, a análise da jornalista Daniela Chiaretti: “Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28, enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir” também apresenta com lucidez a disputa regional pelo protagonismo verde.

A crise climática que nos encontramos demonstra a urgência de ações e não de discursos. É importante que o jornalismo seja vigilante e aponte as inconsistências das posições políticas. Entre os pressupostos do jornalismo ambiental está a responsabilidade na promoção da mudança de pensamento. Engajar a sociedade por meio de informações consistentes, contextualizadas, próximas de sua realidade é dever do jornalismo e de fundamental importância no momento em que o planeta se encontra.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.


Onde está a pluralidade de vozes? 

Imagem: rafapress/Shutterstock

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção. 

As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.

Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.

Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul.A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.

Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza. 

A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala. 

Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?

Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com.
** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.

As imagens da crise climática: do catastrofismo à banalização dos riscos

Imagem: Captura de tela do jornal SP1, afiliada à Rede Globo, exibido no dia 17 de novembro de 2023

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

“Sextou! Véspera de feriadão e a gente está por aqui. Estamos na praia ou não estamos, Jacqueline Brazil? Faz de conta que estamos na praia nesta véspera de feriadão”, disse o jornalista Alan Severiano a sua colega de bancada. “Esse céu azul… Vai ser mais um dia quente no litoral e aqui na capital, onde as temperaturas vão ficar maiores que ontem. Previsão para hoje? 36 graus. Tá bom para você, Alan?”, respondeu Jacqueline.  

Esse foi o diálogo de abertura da edição de sexta-feira (17) do telejornal SP1, emissora paulista afiliada à Rede Globo, protagonizado pelos jornalistas enquanto entravam ao vivo no estúdio sentados em cadeiras de praia e usando óculos escuros. A cena criada em tom descontraído trazia a previsão da onda de calor que assolou diversos estados do Sudeste e Centro-Oeste na última semana – se tornando um grande exemplo do que não se deve fazer no jornalismo quando os riscos climáticos são a pauta.

A informação foi trazida com humor, fazendo referência à praia – algo culturalmente associado às férias e momentos de lazer. Contudo, as temperaturas próximas dos 40 graus, e com sensação térmica atingindo os 60 graus, acarretaram uma busca por atendimento médico. Só no Rio de Janeiro, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), as unidades de emergência e urgência atenderam uma pessoa a cada duas horas com sintomas causados pelo calor extremo durante todo o fim de semana na cidade. Foram casos envolvendo insolação, queimaduras de segundo grau devido ao uso de bronzeadores ou relacionados à combinação de doenças crônicas com o calor. 

Uma cobertura jornalística “mais leve” diante de eventos climáticos extremos não apenas flerta com o negacionismo climático como presta um desserviço à saúde pública na medida em que, ao representar as altas de temperatura de forma positiva, faz com que os cidadãos não se sintam ameaçados ou não percebam o quanto podem ser impactados com os riscos iminentes das mudanças do clima. As notícias sobre as marcas históricas de calor no Brasil têm sido ilustradas, de modo geral, por fotos de pessoas à beira-mar ou em piscinas, como observamos nas matérias publicadas pela Folha de S.Paulo “Rio bate novo recorde de calor do ano com 42,5°C neste sábado (18)”, pelo Estadão “Sensação térmica chega a 52ºC às 8h da manhã em bairro da zona oeste do Rio” e pela GZH “São Paulo registra dia mais quente do ano e Rio tem sensação térmica de 50°C”. Tais escolhas podem gerar representações e percepções de que há, enfim, algo positivo para o brasileiro na crise climática: a possibilidade de desfrutar mais dias como aqueles vividos em uma época específica, onde geralmente não é preciso trabalhar e na qual o descanso é possível.

O fato é que, para a maioria da população, refrescar-se na praia ou na piscina nem sempre é uma opção. Na rotina do dia a dia, exercer as atividades de estudo e trabalho sob altas temperaturas impacta diretamente na concentração, disposição e, consequentemente, no desempenho das atividades em razão do estresse térmico elevado. Além dos prejuízos à saúde já citados (que podem, em situações extremas, causar mortes), as altas temperaturas podem afetar de forma significativa o setor agrícola, gerando perda de alimentos e aumento dos preços. O calor extremo também está relacionado à maior ocorrência de incêndios, o que resulta em sobreposição de riscos.

Um estudo realizado pelos pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que quase todos os brasileiros percebem as mudanças climáticas e acreditam que as ações humanas são responsáveis por elas, porém nem todos entendem a gravidade da crise climática. Segundo o levantamento, 94% das pessoas sabem que estamos passando por uma mudança climática e 91% entendem que o fenômeno é causado principalmente pela atividade humana. No entanto, apenas 56% acreditam que o cenário seja grave. 

A comunicação visual da emergência climática é um dos grandes desafios que precisam ser encarados pelo jornalismo. Estudos empíricos já demonstraram que imagens ligadas às catástrofes podem ocasionar paralisia ou apatia por parte dos públicos, não os encorajando a se envolver no enfrentamento do problema. Focar em representações trágicas pode gerar um alerta imediato, mas, a depender de sua frequência e do conjunto de informações que são apresentadas, pode contribuir com a naturalização do caos. 

Por outro lado, discursos otimistas, sobretudo associados ao desenvolvimento da ciência, como a geoengenharia, tendem a reforçar a ideia de que haverá alguma saída no futuro próximo e, portanto, não precisamos nos preocupar ou mudar nosso estilo de vida agora. Aproveitar a onda de calor para curtir uma praia segue nessa lógica: enfatiza um possível “benefício”, de curto prazo e destinado a uma minoria, enquanto minimiza as reais consequências negativas, que afetam a maioria, especialmente as populações mais vulnerabilizadas, e ignoram o efeito cascata, de médio e longo prazos.

Embora não existam fórmulas sobre como ilustrar a crise climática de modo a sensibilizar as pessoas de sua urgência e gravidade, há de se ter cuidado com a banalização dos riscos que permeiam a questão. Não há como noticiar a previsão de ondas de calor de forma descontraída, sem destacar os perigos da situação e formas de preveni-los ou minimizá-los. Essa escolha imprudente, de retratar uma notícia séria com leveza, está mais preocupada em atrair audiência do que com o interesse público. Não há como reduzir a solução das temperaturas extremas a um mergulho. Repensar as imagens que ilustram a cobertura climática é responsabilidade de todos aqueles que se comprometem com a acurácia da informação. 

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A luta e o fardo de Lúcio Flávio Pinto

A trajetória de Lúcio Flávio Pinto se confunde com a defesa da Amazônia / Imagem: Cedida por Lúcio Flávio Pinto ao site Mongabay

Por Sérgio Pereira*

A Rádio Novelo presenteou seus ouvintes no dia 9 de novembro com uma produção jornalística sensível, histórica e, por que não dizer, essencial. A reportagem em formato podcast intitulada “O fardo que carregamos” aborda, em dois atos, “histórias sobre como levar o mundo nas costas”, nas palavras da própria produtora carioca.

Ambos os atos são dignos de aplausos, mas ficarei aqui restrito ao primeiro, que enfoca o drama vivido pelo jornalista, professor e escritor Lúcio Flávio Pinto, de 74 anos. Estamos tratando aqui de um dos maiores jornalistas ambientais do Brasil, que há quase 60 anos dedica sua vida à defesa da Amazônia. Prova disso, em 2021, a Universidade Federal do Amapá lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa  em reconhecimento à sua trajetória.

Vencedor de quatro Prêmios Esso, o maior do jornalismo brasileiro, Lúcio Flávio lançou em 1987 o “Jornal Pessoal”, impresso criado para divulgar o que os outros jornais do Pará, seu Estado natal, temiam tornar público.

Bueno nos lembra que o Jornalismo Ambiental deve propor-se política, social e culturalmente engajado, porque “só desta forma conseguirá encontrar forças para resistir às investidas e pressões de governos, empresas e até de universidades e institutos de pesquisa, muitos deles patrocinados ou reféns dos grandes interesses”. Lúcio Flávio sabe disso como ninguém. Suas denúncias contra poderosos empresários do Norte do país lhe renderam dezenas de processos, ameaças de morte e agressões físicas. Mas nada disso o fez desistir da luta.

Agora, no entanto, o jornalista tem pela frente um adversário implacável: a Doença de Parkinson, diagnosticado há alguns anos. Em julho último, lamentavelmente, ele revelou em seu blog que estava largando o jornalismo diário por causa da moléstia, logo após se dar conta de um equívoco cometido em uma de suas postagens.

O texto, intitulado “Perdão, leitores”, traz a corajosa confissão: “Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva. Poderia continuar sem mudança minha atividade, apoiado no fato, comprovado cientificamente, de que não seria um erro voluntário, mas devido à doença, sobre a qual, nessas circunstâncias, não exerço controle”, reconheceu Lúcio Flávio.

Diante dessa perda irreparável para o Jornalismo, a Rádio Novelo produziu o primeiro ato de seu episódio 51, “O fardo que carregamos”, oferecendo aos ouvintes um resumo da trajetória do jornalista paraense e relatando o seu drama. A reportagem assinada por Flora Thomson-Deveaux vale cada segundo.

Dominado por grande carga emocional, Lúcio Flávio relata no podcast de pouco mais de uma hora os seus primeiros passos na profissão, fala sobre a decisão de lançar seu próprio jornal e relaciona alguns dos obstáculos que enfrentou nestes mais de 50 anos em defesa da Amazônia. E ainda expõe a sua doença e a difícil decisão que precisou tomar em nome da ética e da fidelidade aos seus leitores: deixar o jornalismo diário.

Lúcio Flávio, como um bom jornalista, encontra na elaboração de analogias uma ferramenta para racionalizar os fatos. “A Amazônia sempre foi vítima da modernização compulsória; da geração de dólar como atividade principal na Amazônia; do avanço das frentes econômicas; da segurança nacional pela povoação da região e pela transformação da floresta que abriga e esconde as pessoas em hidroelétricas, rodovias, cidades…  Eu me sinto como se eu fosse um símbolo da destruição da Amazônia. Eu me sinto uma pessoa em processo de destruição”, desabafa.

Hoje lhe incomoda as limitações da doença, principalmente os lapsos de memória. Mas ele se sente como “um soldado que não pode abandonar o front”, como se estivesse traindo a sua causa, traindo a sua razão de viver, que sempre foi a Amazônia.

Lúcio Flávio, no entanto, tem buscado formas de conservar viva a chama do jornalismo que sempre lhe manteve aquecido. Nos últimos meses, ele tem republicado em seu blog antigas reportagens. É a sua forma de continuar na ativa e uma oportunidade para que tenhamos acesso aos seus trabalhos premiados. São valiosas aulas de jornalismo .

Não podemos carregar o fardo de Lúcio Flávio, mas podemos (e devemos) reverenciá-lo por sua imensa trajetória. Devemos lhe agradecer por sua devoção em prol da Amazônia, por sua coragem em enfrentar o desenvolvimentismo governamental mesmo durante a ditatura militar, por sua abnegação. E por suas mais de cinco décadas dedicadas ao Jornalismo Ambiental.

Em tempo: não deixe de ouvir também o segundo ato de “O fardo que carregamos”, de autoria da jornalista Bia Guimarães: a história de Alessandra e seu doloroso processo de cura diante de um violento trauma.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, Curitiba, Editora UFPR, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897. Acesso em: 14 Nov. 2023.


Manchetes sobre desmatamento encobrem parte importante do problema

Mapa mostra as áreas sob risco / Imagem: Plataforma PrevisIA

Por Heverton Lacerda*

No dia 9 de novembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou os números do desmatamento na Amazônia entre agosto de 2022 e julho de 2023. No período, a área desmatada foi de 9.001 km², segundo o órgão do governo federal, com base no relatório anual do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).

As manchetes da imprensa, em geral, destacaram da seguinte forma:

G1: Inpe: taxa de desmatamento na Amazônia cai 22%
Folha de São Paulo: Desmatamento na Amazônia fica abaixo de 10 mil km2 pela primeira vez desde 2018
Poder 360: Desmatamento na Amazônia tem redução de 22% em 1 ano
Congresso em Foco: Desmatamento na Amazônia cai 22% em 2023. AP e PA puxam a queda
Gazeta do Brasil: Inpe: Desmatamento na Amazônia tem queda de 22,3%
CNN Brasil: Desmatamento na Amazônia cai 22% em um ano, mas onda de queimadas preocupa

Ainda que seja possível perceber uma ampliação do nível de detalhes e aprofundamento nas matérias jornalísticas sobre meio ambiente nos últimos anos, o que já era de se esperar, em função da previsível e fartamente anunciada ampliação da crise climática no último meio século, os enfoques ainda carecem de contextualização. No caso específico dos números do desmatamento na Amazônia, a comparação está sendo feita e divulgada com os mesmos parâmetros percentuais que se mede, por exemplo, os índices da inflação ou do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, o destaque está para a variação entre períodos, sejam eles mensais ou anuais, quando, na verdade, o que mais importa neste caso da supressão de área de floresta pelo desmatamento é o total e, ainda, o aumento contínuo, mês a mês, ano a ano.

Algumas matérias chegam a avançar, apresentando informações sobre a complexidade da questão, quando apontam, por exemplo, que a floresta tem perdido sua circunferência de proteção (zona de amortecimento) e que isso afeta mesmo o interior mais profundo da mata, ou ainda que a qualidade natural de alguns setores já não apresentam mais a mesma diversidade que protege o ecossistema.

O gráfico do Inpe apresentado na matéria do G1, com dados de 2001 a 2023, mostra que o recorde do desmatamento foi de 27,7 mil km² em 2004 (não consta no gráfico do G1, mas o Inpe informa que o maior desmatamento registrado desde a criação do sistema Deter foi em 1995, com 29 mil km² desmatados). O texto do G1 também ressalta que 2012 foi o ano que teve a menor área desmatada, 4,5 mil km². Em geral, as matérias também destacam os esforços dos governos para diminuir o desmatamento a partir de 2004, assim como a retomada da ampliação de áreas desmatadas no governo Jair Bolsonaro.

No entanto, um número importante e que não aparece é o resultado da soma do desmatamento, que, de 2001 até hoje, apresenta um total de 235.102  km² de área suprimida da Amazônia. Outros números ainda precisam entrar nessa contabilidade ambiental para que não se perca a dimensão total do que está acontecendo com a Amazônia. Em 2013, na ocasião do aniversário de 25 anos do Prodes, foi publicado no site do Inpe um número ainda mais impactante: a Amazônia, conforme dados de satélite, já havia perdido “752 mil km², cerca de 19% da floresta original”, na época.

Ou seja, as manchetes que se limitam a informar números parciais, ainda que estejam corretas, acabam por encobrir parte importante do problema, a sua dimensão total. É evidente que nem toda a informação cabe em uma manchete, mas quando nem o miolo do texto apresenta dados fundamentais, podemos estar com algum problema sério (e simples) para resolver. Duas sugestões de manchetes, para que encontrem variações criativas, são Desmatamento da Amazônia continua aumentando; Desmatamento cresce e atinge X% da floresta amazônica. A variação anual da taxa poderia ficar para a linha de apoio. São escolhas editoriais que podem auxiliar o leitor a ter uma compreensão mais apurada da gravidade o desmatamento na Amazônia.

*Jornalista, ativista ambiental, especialista em Ciências Humanas, mestrando no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCPM/UFRGS) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Procura-se a faceta “ambiental” dos problemas urbanos no jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.

A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.

A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.

A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

A falta de crítica da imprensa sobre o mercado de carbono

Imagem: Peter Werkman/Unplash

Por Janaína C. Capeletti

A Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou no início de outubro, o projeto de lei (PL) 412 de 2022, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Aprovado de forma terminativa, o PL já tramita na Câmara do Deputados.

O texto do PL institui um órgão regulador, denominado de Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), que será o responsável por determinar os setores da economia sujeitos a tetos de emissões e por conceder permissões de emissão às empresas. Cada uma dessas autorizações de emissão, chamadas de Cotas Brasileiras de Emissões (CBE), equivale a uma tonelada de CO2 ou o equivalente em outros gases de efeito estufa.

Ficam sujeitas ao SBCE empresas e pessoas físicas que emitirem acima de 10 mil toneladas de gás carbônico equivalente (tCO2e) por ano, que devem monitorar e informar suas emissões e remoções anuais de gases de efeito estufa. Quem emitir acima de 25 mil toneladas de CO2 ficará sujeito a regras mais rígidas, com previsão de sanções e multas para os casos do descumprimento de metas.

Resumidamente, no mercado de carbono, os setores regulados recebem permissões para emitir uma certa quantidade de gases poluentes. Quem emitir menos que a sua cota pode vender o seu saldo positivo para empresas que excederam os seus limites de poluição.

O valor de cada crédito de carbono depende do mercado onde ele é negociado. No mercado voluntário, o crédito tende a ser mais caro do que o do mercado regulado. Hoje, no Brasil, existe somente o mercado voluntário de carbono, no qual qualquer empresa, pessoa ou governo pode gerar ou comprar créditos de carbono, que são auditados por uma entidade independente, porém, não são contados nas metas de redução de emissões de países no Acordo de Paris. Ou seja, a demanda nos mercados voluntários de carbono não surge a partir de um teto regulatório, mas de empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar ou neutralizar sua pegada de carbono, e de investidores que exigem que as empresas de seu portfólio se tornarem neutras ou zero carbono.

O mercado de carbono não é novidade. Fala-se nele desde o Protocolo de Quioto, em 1997. No Brasil, contudo é uma expressão que tem aparecido na mídia com mais frequência nos últimos anos, especialmente com o boom do ESG (Environmental, Social and Governance) e dos compromissos empresariais com a sustentabilidade.

A aprovação do PL foi noticiada em grandes veículos, que além de explicarem o conteúdo da proposta do legislativo, destacaram a ausência no texto da regulamentação ao agronegócio. A Frente Parlamentar Agropecuária negociou com a relatora do projeto, a senadora Leila Barros (PDT/DF), para que o agro ficasse de fora. A justificativa é que não existem formas precisas para medir a emissão de carbono de atividades do campo e que os principais mercados de carbono do mundo não incluem a agricultura e nem a pecuária.

Um estudo inédito do Observatório do Clima, lançado na terça-feira (24/10), estima que os sistemas alimentares responderam em 2021 por 73,7% (1,8 bilhão de toneladas) das 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa lançadas pelo país na atmosfera. Conforme Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, “esse relatório deveria ser lido pelos representantes do agronegócio e pelo governo como um chamado à responsabilidade”.

Assim, voltando à repercussão do PL, os veículos de imprensa cumpriram o seu papel em noticiar o fato, explicar o contexto, como os sites do Globo Rural, da CNN Brasil, do Valor Econômico, do Estadão. Alguns destacaram a falta de inclusão do agro como JOTA e o Money Times. O site O Eco analisa, por meio da opinião de dois especialistas, como ficará a regulamentação sem o agro. O Capital Reset também propõe uma reflexão sobre o tema.

Apesar de ser um tema complexo e de relevância socioambiental para o Brasil, não são percebidas nestas coberturas nenhuma preocupação com os pressupostos do Jornalismo Ambiental. Nota-se que as notícias não propõem um questionamento sobre a real eficácia do mercado de carbono em tempos de emergência climática, ou se é uma solução eficaz para contribuir com a descarbonização do país. Este tipo de cobertura também não prioriza a aproximação com o leitor não especializado. Não há a intenção de engajar e envolver o público para uma tomada de posição ou para uma reflexão sobre o tema.

O assunto ainda é embrionário no Brasil, integra a agenda do atual Governo Federal e do mercado. Assim, mesmo que utópico, se faz necessário insistir para que a imprensa, de modo geral, amplie o olhar para a complexidade do tema e busque abarcar vozes, saberes e alternativas que expandam o debate vigente de forma mais crítica.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Queimadas no Amazonas: também cabe ao jornalismo apurar responsabilidades

Imagem: Camila Garce Idesam/Flickr

Por Débora Gallas*

Ciclonesenchentescalor recordeseca… Relatar as causas e consequências desses eventos climáticos extremos na vida da população tem sido desafiador para jornalistas brasileiros. É possível observar que a sobreposição de emergências afeta diretamente a cobertura: a imprensa nacional não tem dado a merecida atenção às queimadas que assolam a região metropolitana de Manaus pelo menos desde setembro.

É verdade que o assunto esteve em pauta em grandes portais como FolhaValor e g1 especialmente entre os dias 11 e 13 de outubro, período em que a qualidade do ar em Manaus se tornou uma das piores do mundo. A cobertura desses veículos inclui fontes da ciência para explicar como os efeitos do fenômeno El Niño e a degradação ambiental contribuem para que a cidade seja tomada por fumaça, vinda sobretudo de focos no município de Autazes e nas adjacências da BR-319, que liga Manaus e Porto Velho. Também são ouvidas fontes oficiais, que explicam onde estão os principais focos de queimadas e quais providências que estão sendo tomadas, como a prisão de suspeitos de atear fogo em áreas de floresta.

As matérias publicadas na última semana carecem, porém, de alguma apuração própria desses veículos no local dos fatos. Diante de outro gravíssimo acontecimento que atinge o estado – a seca histórica de rios amazônicos – e de pautas igualmente urgentes de outras editorias – como a guerra entre Israel e Hamas –, há o risco de as atenções se dividirem e o tema sumir do noticiário assim que a fumaça se dissipar e o problema parecer controlado. É interessante lembrar que, em agosto de 2019, bastou que uma nuvem cinza encobrisse o céu de São Paulo para que as queimadas na Amazônia tomassem o noticiário nacional e a ação apelidada de “dia do fogo”, apurada primeiramente pelo jornal paraense Folha do Progresso, ganhasse repercussão em todo o país.

Leitores de todo o país certamente podem contar com a cobertura qualificada de veículos locais. Ainda em julho, reportagem de Amazônia Real apontava a previsão de cientistas sobre o aumento dos focos de queimadas no maior bioma do Brasil durante o ápice da estação seca – justamente o mês de outubro. Alerta semelhante foi realizado por Vocativo em 8 de setembro, que destacou a possibilidade de piora da fumaça que já tomava Manaus naquele momento. Mais recentemente, Vocativo repercutiu a coletiva de Marina Silva em Manaus no dia 13 de outubro, em que a ministra destacou a origem criminosa dos incêndios. Amazônia Real, por sua vez, está em campo para destacar os prejuízos diretos das queimadas à saúde pública.

Apesar do árduo trabalho dos veículos independentes na abordagem das causas e consequências, urge que, em um evento com essa gravidade, os gestores de veículos que se apresentam como nacionais – e possuem estrutura e financiamento condizentes com tal pretensão – mobilizem ampla base de correspondentes ou repórteres freelancers locais para reforçar a investigação jornalística. A sociedade precisa conhecer os CPFs e CNPJs envolvidos na destruição para lhes atribuir as devidas responsabilidades – e o jornalismo é essencial para que essas e outras informações de interesse público venham à tona. Afinal, como falar de solução para crise ambiental sem haver conhecimento sobre a origem dos problemas?

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).