Repercussão da exploração na Foz do Amazonas, às vésperas da COP-30, escancara discursos ambientais vazios 

Breve análise da cobertura da Folha de S. Paulo indica a crítica à falta de comprometimento com as pautas da COP-30

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose* 

A menos de um mês da realização da 30ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que busca discutir caminhos para o enfrentamento da emergência climática, a Petrobras recebeu a licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas, próxima à costa do Amapá. A exploração de pesquisa por petróleo na região estava em negociação desde o início do ano, e exigia múltiplos pareceres técnicos de segurança contra vazamentos e de asseguração à biodiversidade local. A licença é para o primeiro poço, mas deve destravar uma corrida por reservas na área. 

O governo defende a proposta de exploração do que denomina “riqueza”, e esteve em embate com o Ibama pela licença. A área, antes de ser licenciada, já estava incluída no primeiro leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que ocorreu em junho, e vem despertando grande interesse econômico e político. No leilão, a ANP concedeu 34 blocos exploratórios, 19 localizados na bacia da Foz do Amazonas.

Arte: Petrobras/Divulgação

A justificativa principal para seguirmos ampliando a indústria do petróleo – e agravando a crise climática – é econômica: as reservas seriam uma importante garantia para o Brasil,  possibilitando, inclusive, a transição energética. Aí está uma das maiores contradições da política ambiental do Brasil nos tempos recentes. 

Nosso Observatório, nesta semana, faz uma breve análise da repercussão dessa licença do Ibama, às vésperas da COP-30, num dos maiores veículos do País, a Folha de São Paulo. De 15 a 22 de outubro, a Folha publicou 25 matérias que mencionam a expressão “Foz do Amazonas”. 

De 15 a 19 outubro, antes da licença ser  liberada pelo Ibama, a editoria Ambiente já informava movimentos do presidente do Congresso Nacional,  Davi Alcolumbre, para derrubada de vetos de Lula no senado, por interesse na Foz do Amazonas. Através da Licença Ambiental Especial, dispositivo presente no conhecido  “PL da Devastação”,  empreendimentos estratégicos ao governo têm o seu processo agilizado. Também nesse período, a Folha informou que a Petrobras apresentou os últimos esclarecimentos técnicos para o Ibama, e quanto a petroleira gastou com as medidas para evitar danos ambientais – no mesmo texto, indica que a exploração é aprovada pela maioria da população, segundo o Datafolha. 

Na imediata repercussão da notícia de liberação da licença, de 20 a 22 de outubro, houveram 20 publicações na Folha. Dessas, 15 eram notícias e reportagens, a maioria delas publicada na editoria Ambiente (12) , depois na editoria da Economia (2) e Política (1). Das notícias e reportagens analisadas, 8 mencionaram a sua proximidade com a COP-30; 7 trouxeram os riscos ambientais da exploração; 5 mencionaram as contradições com a transição energética defendida pelo governo; 5 realizaram entrevistas com ambientalistas ou mencionaram as principais críticas; e apenas 3 mencionaram os possíveis danos aos povos indígenas da região. 

Dividindo-se entre notícias declaratórias, com os discursos do governo federal, da Petrobras e da ANP, de justificativa econômica para a exploração da Foz, e matérias que trazem as nuances dos riscos ambientais e sociais à exploração, a Folha parece se preocupar em trazer as críticas sobre o fato. No entanto, vale mencionar que essa repercussão ocorre majoritariamente na editoria dedicada ao meio ambiente, e “outros pontos de vista” aparecerem rapidamente e raramente em matérias factuais sobre a exploração. Isso representa, do ponto de vista do Jornalismo Ambiental, um problema, ao encapsular grande parte da discussão em um único espaço dentro do jornal.

Chama atenção a matéria sobre falas de Janja da Silva na última terça (21), ao defender a licença do Ibama para a Petrobras: “A gente não pode negar a importância que ainda têm os combustíveis fósseis para o desenvolvimento do país”, e “É utópico achar que, de um dia para o outro, a gente vai deixar de usar combustível fóssil”. O texto da Folha questiona as contradições da primeira-dama que, no mesmo dia, esteve em um evento sobre transição energética na Sorbonne, e parece não ver problema algum com a perfuração de uma nova área no País. E a matéria lembra: a autorização foi dada à Petrobras a 20 dias da COP-30. 

Foto: Felipe Werneck/Ibama – Wikimedia

Também no mesmo período, a Folha publicou um editorial com a opinião do veículo: “Apostar em combustível fóssil é olhar para trás”, destacando os movimentos do governo federal como retrocessos na transição energética. Enquanto a opinião declarada da Folha é contra o combustível fóssil, cabe contínua análise sobre o tamanho da plataforma dada aos discursos petroleiros na editoria de economia e nos seus conteúdos patrocinados. 

Enquanto o Brasil se coloca como líder global da transição energética e do combate às mudanças climáticas, continua a investir nos recursos fósseis.  Na Assembleia-Geral, o presidente Lula afirmou em seu discurso de abertura que a COP-30, liderada pelo Brasil, será a COP da verdade: “o momento dos países comprovarem seu compromisso com o planeta”, disse. O compromisso do Brasil, um mês depois, parece ser o de garantir suas reservas de petróleo ao extrair mais matéria prima comprovadamente desastrosa e diretamente ligada às mudanças climáticas. O fim dos combustíveis fósseis foi recentemente silenciado no discurso do presidente Lula na ONU, como analisado no Observatório pelo colega Luciano Velleda

Em meio à flexibilização das licenças ambientais no País (já construídas de olho na Margem Equatorial) e  o discurso de que reservas de petróleo pagarão pela transição, a licença para a pesquisa na Foz do Amazonas era, infelizmente, só questão de tempo. Enquanto a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia, com todo o seu poder de decisão e recursos, não alinharem seus planos de futuro às metas do Acordo de Paris, à estratégia nacional de mitigação definida no Plano Clima e à meta de redução de emissões do Brasil, o discurso brasilero apenas não faz sentido.

A transição energética justa não depende necessariamente de novas explorações de petróleo, mas do impulsionamento de energias renováveis (de verdade). Fazer circular os discursos que apontam alternativas ao petróleo e entender as contradições que envolvem o cuidado com o ambiente e a falácia do desenvolvimentismo também são finalidades de um jornalismo responsável e orientado para o interesse público.

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O Pampa, o jornalismo gaúcho e o juiz Wakefield 

Por Sérgio Pereira*

Em “Traffic” (2000), filme do laureado diretor Steven Soderbergh, o ministro da Suprema Corte Robert Wakefield (interpretado por Michael Douglas) ganha notoriedade por seu incansável combate às drogas. Essa fama o leva a assumir o cargo de chefe do departamento de combate ao tráfico dos EUA. O magistrado vive entre viagens, palestras e reuniões, todas envolvendo o foco de sua luta moral. Na sua visão, o tráfico de narcóticos está corroendo as entranhas do país e é preciso agir. Um dia, no entanto, tudo muda na sua vida quando, para seu espanto, descobre que sua única filha, a adolescente Caroline (papel de Erika Christensen), era uma dependente química. Ele então decide se retirar da vida pública para priorizar a reabilitação da filha, que acredita ter negligenciado enquanto se dedicava à causa antidrogas. 

Wakefield é mais do que um personagem, é um símbolo da visão equivocada que por vezes nos absorve e nos faz lançar o olhar para aquilo que está distante, desprezando o que está bem abaixo dos nossos olhos. 

Saindo agora da ficção, podemos refletir que equívoco idêntico ao do ministro Wakefield pode ser observado em grande parte da imprensa. Por exemplo, quando veículos regionais dão espaço para noticiar ações de facções que agem longe de sua área de abrangência, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou o Comando Vermelho (CV), sem se preocupar com o crime organizado em seus estados. Ou quando repercutem toda e qualquer declaração polêmica do alto comando de Brasília, mas desprezam falas controversas de importantes políticos locais. 

E também é o que acontece em geral com o jornalismo gaúcho quando o assunto envolve o Bioma Pampa. Destruição na Amazônia, queimadas no Pantanal, tragédias ambientais mundo afora, por exemplo, ganham mais espaço na imprensa do RS do que a destruição ambiental que acontece de forma gradativa na metade sul do Estado. 

Na semana passada, por exemplo, o Mapbiomas divulgou novo relatório sobre o bioma sulino. Conforme o estudo, o Pampa hoje é o segundo bioma brasileiro com o menor percentual de cobertura de vegetação nativa (fica atrás apenas da Mata Atlântica). A rede global e multi-institucional, formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, revela ainda que, no ano passado, “45,6% do Pampa estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico, com predomínio do uso agrícola (agricultura e mosaico de usos: 41%) e da silvicultura (4%), além de outros, como áreas urbanas e mineração”. 

O Mapbiomas também denuncia que o Pampa, de 1985 a 2024, registrou a maior perda proporcional de vegetação nativa nos últimos 40 anos dentre todos os biomas brasileiros. Um dos principais motivos para essa redução é o crescimento voraz do plantio da soja. Conforme a análise técnica, entre 1985 e 2024, “a área plantada com essa oleaginosa passou de 827 mil hectares para 3,2 milhões de hectares – um aumento de 385%”. 

Apesar da gravidade dos dados revelados, a imprensa gaúcha, que invariavelmente se orgulha de valorizar a cobertura local, praticamente ignorou o alerta. Nas edições impressas, os tradicionais Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio nada trouxeram. Uma rara exceção foi uma nota de 1,2 mil caracteres, sem assinatura, na plataforma digital GZH, com o título “Áreas ocupadas por atividades humanas ultrapassam a cobertura de vegetação nativa do Pampa”. O texto pinça dados do texto divulgado pelo Mapbiomas, sem contextualizar, sem repercutir o fato com autoridades fiscalizadoras, grupos ambientais ou até mesmo com os representantes do setor do agronegócio ou da soja especificamente.  

Ao contrário dos veículos gaúchos, no entanto, os sites da revista Veja, da CNN Brasil e do Brasil de Fato souberam valorizar a notícia. O texto da Veja, por sinal, assinado pelo jornalista Ernesto Neves, abre no melhor estilo, alertando que o Bioma Pampa “vive uma erosão silenciosa”. E é esse silêncio que está contribuindo para a destruição do bioma sulino.  

*Jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Mudanças climáticas no topo do mundo

Foto: Wikicommons

Por Ângela Camana*

Na semana em que o mistério envolvendo o assassinato de Odete Roitman, no remake da novela Vale Tudo, fez parar o Brasil, outra cena angustiante tem emergido nos noticiários: são centenas de montanhistas que, desde o final de semana, estão à espera de resgate no Monte Everest. A ocorrência de fortes tempestades de neve deixou sitiadas cerca de 200 pessoas, que estão acampadas a quase 5 mil metros de altitude; outras 350 já foram resgatadas. Uma morte devido à exposição ao frio foi registrada. O jornalismo internacional tem repercutido sobreviventes que relatam jamais terem vivenciado um episódio climático desta magnitude, corroborados por guias da região que dizem que neste ano “o clima não está normal”. Pesquisadores argumentam que as mudanças climáticas estão tornando mais intensas as monções, o que torna imprevisíveis e irregulares fenômenos como rajadas de chuva.

Este episódio não é o primeiro do tipo registrado no pico mais alto do mundo. Em 2023, um dos anos com maior registros de acidentes fatais envolvendo montanhistas, a Reuters repercutiu a alegação de especialistas que as mudanças do clima eram responsáveis por pelo menos 17 mortes no Everest. No Brasil, canais como o podcast O Assunto e o The Conversation destacaram como as transformações ambientais e o turismo de massa têm impactado as geleiras, que sofreram redução de mais de 25% quando comparadas a 1970.

Não é novidade para aqueles que se dedicam ao tema das mudanças do clima e sua intersecção com a comunicação que o risco e a incerteza são objetos de difícil abordagem, haja vista que escapam aos critérios de noticiabilidade predominantes no jornalismo. Igualmente já se sabe e se argumenta que as mudanças climáticas nos colocam diante de um imponderável que ultrapassa editorias. O recente episódio no ponto mais alto do mundo é exemplar destas duas considerações.

Ao jornalismo em geral tem bastado republicar notícias de agências internacionais sobre os esforços de salvamento, acompanhadas de vídeos desoladores. Quando muito, os portais apresentam duas frases de especialistas não nominados sobre as alterações nos regimes de chuva. Não há esforço de contextualização, tampouco de qualificação das informações recebidas. Uma lástima, já que o drama humanitário e ambiental vivido no Everest escancara que as mudanças do clima impedem a manutenção da vida como a conhecemos. O esporte e o turismo não escapam às alterações, e as imagens das centenas de sitiados no topo do mundo não nos deixam negar. O que está sendo reportado, contudo, não faz jus ao momento vivido: ao não nos permitir ver para além dos frames do espetáculo trágico dos montanhistas, o jornalismo também nos nega o conhecimento de riscos climáticos, sociais e éticos muito mais amplos.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: angela.camana@hotmail.com

As exclamações e os silêncios de Lula na ONU

Por Luciano Velleda*

O esperado discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (23), teve pouco mais de 18 minutos, tempo que se mostrou suficiente para o mandatário brasileiro dar recado sobre alguns dos assuntos mais urgentes na conjuntura política mundial.

Lula defendeu a democracia e o multilateralismo, criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão política e econômica, definiu como genocídio o massacre em Gaza perpetrado por Israel, abordou a guerra entre Ucrânia e Rússia, e ainda defendeu a Justiça brasileira e a legalidade do julgamento que condenou a 27 anos de prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre tantos temas quentes da geopolítica atual, menos de três minutos do discurso foram dedicados à crise climática. E foram, ao fim, três minutos que ocuparam as manchetes de alguns veículos de imprensa do Brasil, escolhidos para essa análise por sua posição de destaque e tradição no jornalismo brasileiro. Em comum entre eles, o destaque de que a COP 30, em Belém, será a “COP da verdade”, a COP para os líderes mundiais mostrarem seu compromisso com o planeta.

O G1, por exemplo, intitulou: “Na ONU, Lula chama conferência do clima no Brasil de ‘COP da verdade’ e reforça importância de presença de líderes mundiais”. A Folha S.Paulo disse: “União Europeia atrasa meta climática, e Lula cobra países em discurso na ONU”. O jornal Valor decidiu pela manchete: “COP30 será momento para líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula na ONU”, quase igual muito ao destaque da Band Jornalismo: “COP 30 será momento de líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula”.

O Correio Brasiliense optou pela manchete: “Lula cobra ação climática e defende reforma global em discurso na ONU”, enquanto a Exame escolheu uma frase emblemática do discurso do presidente brasileiro: “Lula na Assembleia da ONU: ‘Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática’”.

Ao longo dos textos, os veículos repercutiram os três minutos ambientalistas do discurso na ONU, como a ênfase de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, a redução do desmatamento ilegal na Amazônia brasileira, o anúncio do lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende remunerar os países que mantêm suas florestas em pé, assim como a forte crítica feita aos países que ainda não apresentaram suas novas metas de redução de emissões de gases causadores do aquecimento global, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs).

“Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas [as NDCs], caminharemos de olhos vendados para o abismo”, declarou Lula, uma das frases de efeito destacadas pela imprensa. Os desafios enfrentados pelas nações em desenvolvimento devido a mudança do clima enquanto os países ricos “usufruem de padrão de vida obtido às custas de 200 anos de emissões” foi outra frase do presidente que repercutiu.

Um olhar mais crítico ao discurso veio de dois veículos jornalísticos especializados em meio ambiente, ambos dando voz a análise feita pelo Observatório do Clima, entidade que reúne 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais.

O site(o) eco trouxe para sua manchete uma contradição de Lula ao dizer: “Fim dos combustíveis fósseis fica de fora do discurso de Lula na ONU”. O veículo ressaltou que,  para organizações brasileiras, “o pronunciamento foi correto, mas nada mais do que isso”.

Repercutindo a nota oficial do Observatório do Clima, (o) eco ponderou que a “fala de Lula foi apenas ‘correta’, mas previsível, já que o líder brasileiro tinha na pauta muitas outras questões, como a defesa da soberania nacional e o tarifaço americano, regulação das plataformas digitais, conflitos armados e crise no multilateralismo”.

O veículo ainda destacou o trecho final da nota do Observatório do Clima, a qual diz: “Quem estava esperando um discurso do grande líder climático do Sul Global que arrancou aplausos do mundo em 2022 na COP 27, no Egito, pode ter se frustrado: a fala de Lula não foi a de um anfitrião de uma conferência do clima decisiva para garantir um futuro seguro para a humanidade”.

O mesmo trecho também foi enfatizado pelo site climainfo, entretanto, reproduzindo o parágrafo completo da nota do Observatório do Clima, que finaliza assim: “Porém, o mundo e o Brasil de 2025 tampouco são os de novembro de 2022. A COP30 precisará triunfar num ambiente político e geopolítico muito desfavorável, e esse climão fica evidente em tudo que Lula disse e principalmente no que não disse”.

Segundo a análise proposta pelo Observatório do Clima, a COP30, em Belém, poderá ficar marcada mais pelo silêncio ensurdecedor da omissão diante da crise climática, do que pelas afirmações de quem tem a obrigação de agir. Enquanto isso, os eventos extremos da natureza ocorrem no mundo todo cada vez mais frequentes, cada vez mais intensos.

*Luciano M. Velleda é jornalista, sócio do Sul21 e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Um olho no peixe da camada de ozônio, outro no gato da crise climática

Imagem de satélite da terra à noite. Fonte: Joshua Stevens / NASA / Miguel Román / Goddard Flight Center

Por Cláudia Herte de Moraes *

A cobertura jornalística sobre a recuperação da camada de ozônio em 16 de setembro, embora positiva e informativa, ainda carece de uma contextualização que conecte o tema de forma aprofundada às mudanças globais e à noção de limites planetários. Nas notícias do Dia Internacional para Preservação da Camada de Ozônio, a informação divulgada pelo Relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostra que a região da estratosfera atingiu os seus melhores níveis em décadas.

 Ao observar as notícias, o ponto fraco foi a falta de explicação sobre o fato de que a camada de ozônio é apenas um dos limites que a humanidade está conseguindo reverter. Entre os nove limites planetários, seis foram ultrapassados, como a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, mudanças no uso do solo (especialmente por desmatamento e urbanização), fluxos bioquímicos (contaminação por fósforo e nitrogênio devido ao uso excessivo de fertilizantes), novas entidades (por exemplo, microplásticos) e uso de água doce (já em níveis críticos). A acidificação dos oceanos é um dos limites próximos da violação e somente dois são considerados seguros: além do ozônio estratosférico, está a carga de aerossóis.

Print de tela na busca das principais notícias sobre o tema (17 de set. 2025) Fonte: Autora

A contextualização importa para que o leitor entenda que o enfrentamento à crise ambiental é interconectado; são limites interdependentes. No caso do G1, a matéria indica o avanço de forma celebrativa, com uso das fontes oficiais, sem fazer essa conexão com outros limites planetários de alto risco. 

A abordagem fragmentada em notícias pode gerar uma percepção equivocada de que “o meio ambiente está sendo consertado”, diminuindo a urgência de ações em outras frentes. O jornalismo, neste caso, perde a oportunidade de exercer sua função educativa, sem trazer as conexões entre causas e consequências de forma abrangente. 

Outro ponto de atenção no trabalho jornalístico é que as fontes oficiais são essenciais, como a ONU e os dados científicos, porém é preciso lembrar das populações que podem ser atingidas ou que já sofreram com os efeitos de impactos ambientais noticiados. Por exemplo, seria o caso de trazer à memória do público o que a luta contra a destruição da camada de ozônio mobilizou milhares de cientistas, ativistas, movimentos socioambientais de décadas atrás e que, por conta dessa pressão, os acordos foram efetivados. Um texto bem posicionado neste sentido foi da Deutsche Welle, publicado no portal Terra: A história de sucesso da recuperação da camada de ozônio.

Aproximar esse tema do leitor é uma indicação importante para que as pessoas percebam a relevância dos fatos em seu cotidiano. A menção, por exemplo, sobre como a recuperação da camada de ozônio impacta as taxas de câncer de pele no Brasil foi lembrada, mas outras questões que afligem nosso país poderiam ser destacadas. Por que não usar esse exemplo de cooperação global para inspirar as soluções locais, mostrando como a agricultura pode se organizar para secas ou enchentes? 

Por fim, a cobertura peca ao olhar apenas para o passado, celebrando o sucesso do Protocolo de Montreal. Porém, ao pensarmos sob o princípio da precaução, que orienta o jornalismo a olhar para o futuro e alertar sobre novos riscos, a conquista histórica pode ser um importante alerta: quais as novas substâncias químicas não regulamentadas podem ameaçar a atmosfera? Como os substitutos dos CFCs (os HFCs) impactam o aquecimento global? Como observar as conexões entre os limites planetários que ainda necessitam de cuidado, regulamentação, regeneração? Celebrar o passado não pode ofuscar a necessidade de vigilância para o futuro.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática.
E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Guaíba: mineração de areia, riscos ambientais e a cobertura da imprensa

Por Gabriella de Barros*

Após mais de uma década de disputas judiciais e paralisação, o governo do Rio Grande do Sul projeta liberar até dezembro de 2025 a mineração de areia no Guaíba. A medida é baseada em um zoneamento ambiental elaborado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), em cumprimento a decisões judiciais que exigiram regras específicas para a atividade. O movimento busca encerrar um impasse que se arrasta desde 2013, mas levanta dúvidas sobre governança, transparência e os limites de exploração de um corpo hídrico sensível e estratégico.

O Guaíba é ecologicamente complexo. Independentemente da definição geográfica, rio, lago ou estuário, a região abriga ecossistemas interdependentes, fundamentais para biodiversidade, abastecimento humano e regulação hídrica. Alterações no leito por dragagens ou extrações de areia podem gerar efeitos em cascata: erosão em margens urbanas, mudanças nas correntes, assoreamento e impactos diretos sobre captações de água potável. Diante das enchentes históricas de 2024, que já evidenciaram a vulnerabilidade climática do sistema, a retomada da mineração sem estudos robustos de cenários futuros soa precipitada.

O zoneamento em consulta pública foi anunciado como resposta a essas preocupações, mas apresenta inconsistências importantes. Entidades como a Fundação Curicaca identificaram fragilidades metodológicas: ausência de detalhamento de pesquisas socioeconômicas, falta de integração entre estudos temáticos e carência de sobreposição das áreas mais sensíveis à mineração. Em vez de indicar claramente zonas de exclusão, o documento delega ao licenciamento caso a caso decisões que deveriam ser tomadas de forma estratégica. O resultado é um instrumento que mais abre brechas do que estabelece salvaguardas ambientais.

Na cobertura da imprensa, portais como Sul21 e GZH destacaram sobretudo o cronograma do governo e os possíveis efeitos econômicos da liberação. O G1 trouxe análises visuais sobre bancos de areia formados após as enchentes, explicados por pesquisadores da UFRGS. Embora esses materiais informem o leitor sobre a conjuntura, raramente incluem fontes destoantes da narrativa governamental, como a própria Curicaca, a Assema (Associação dos Servidores da Secretaria Estadual do Meio Ambiente) ou a Asfepam (Associação dos Servidores da Fepam). Essas vozes têm alertado há anos para os limites técnicos da mineração, a defasagem tecnológica do setor e os riscos de comprometer áreas de extrema sensibilidade ambiental. Ao não ouvi-las, a cobertura reduz a pluralidade do debate e fortalece uma visão de que a retomada é um processo inevitável.

A mineração de areia no Guaíba não é apenas uma questão de desenvolvimento econômico, é um tema que envolve segurança hídrica, justiça socioambiental e adaptação climática. A liberação da atividade, diante de estudos frágeis e pressões políticas, pode se configurar como um equívoco grave. Mais do que nunca, é necessário que a imprensa cumpra seu papel crítico, abrindo espaço para as vozes que destoam do discurso oficial e dando centralidade à ciência independente e às comunidades impactadas.

Referências:

Sul21. Zoneamento ambiental deve permitir mineração de areia no Guaíba após nove anos de suspensão. Publicado em 9 set. 2025. Disponível em: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2025/09/zoneamento-ambiental-deve-permitir-mineracao-de-areia-no-guaiba-apos-nove-anos-de-suspensao/.

GZH. Governo do RS planeja liberar mineração de areia do Guaíba até dezembro, após 12 anos de disputa judicial. Publicado em 27 ago. 2025. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2025/08/governo-do-rs-planeja-liberar-mineracao-de-areia-do-guaiba-ate-dezembro-apos-12-anos-de-disputa-judicial-cmex4yq6d01cf01e99k25r2b3.html.

G1 RS. “Ilhas se formam, ilhas são destruídas”, diz pesquisador sobre banco de areia formado no Guaíba após enchente no RS. Publicado em 25 jul. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/07/25/ilhas-se-formam-ilhas-sao-destruidas-diz-pesquisador-sobre-banco-de-areia-formado-no-guaiba-apos-enchente-no-rs-veja-imagens.ghtml.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

“Liberar desinformação pode ter consequências diretas na segurança das pessoas”, afirma especialista

Roda Viva/Reprodução

Por Valéria Baptista*

Jaqueline Sordi é bióloga e jornalista especializada em pautas ambientais. Doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também Especialista em Sustentabilidade pela Universidade da Califórnia (UCLA). Publica em veículos nacionais e internacionais como Sumaúma, Agência Lupa, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Mongabay e Skeptical Science.

Em 2020, recebeu financiamento do Google News Initiative para desenvolver o projeto Lupa na Ciência, focado no combate à desinformação sobre a covid-19. O projeto se tornou referência no país durante a pandemia. Em 2021, foi um dos cinco profissionais de comunicação indicados para o Prêmio Comunique-se na categoria Sustentabilidade, considerado o “Oscar” do jornalismo no Brasil. Em 2023, foi uma das três brasileiras vencedoras do programa Disarming Disinformation, do International Center For Journalists (ICFJ), focado no combate à desinformação científica e ambiental.

Em 2024, teve uma de suas reportagens publicadas em Sumaúma premiada pelo Digital Media Americas Awards. Atualmente é gerente de engajamento do Greenpeace no projeto COP-30.

Nesta entrevista, concedida no âmbito da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, Sordi destaca as implicações da desinformação climática e maneiras de combatê-la.

Valéria Baptista (VB) – Segundo pesquisa do DataFolha divulgada em 1º/05/2025, a parcela de brasileiros que nega os riscos das mudanças climáticas aumentou nos últimos meses. A pesquisa informa que o índice passou de 5% em junho de 2024 para 9% em abril de 2025. O número já havia subido para 7% em outubro de 2024, sinalizando uma tendência de alta entre os que minimizam as ameaças do aquecimento global. Os dados mostram, contudo, que a maioria da população ainda considera as mudanças climáticas um risco real:  53% dos entrevistados afirmam que o perigo é imediato, outros 35% dizem que os impactos afetarão as próximas gerações, somando 88% de percepção de risco – patamar inferior aos 94% registrados em junho e aos 92% de outubro do ano passado. Sobre a percepção pública da crise climática, pode-se dizer que as pessoas estão abertas para a informação climática e dispostas a cooperar no enfrentamento da crise?

Jaqueline Sordi (JS) – Eu entendo que sim, porque – nos últimos anos – as pessoas estão sofrendo tão diretamente as consequências da crise climática que acabam se tornando mais abertas para receber informações e para internalizar que a crise climática realmente existe. Elas estão cada vez mais abertas para as informações sobre o assunto, principalmente porque isso afeta diretamente a vida delas; no entanto, por se tratar de um tema tão difícil e complexo, tão cheio de dúvidas e de medos, também abre um caminho muito fértil para a desinformação climática. Uma das estratégias da desinformação é exatamente trazer soluções fáceis e respostas absolutas para questões complexas como a crise climática. Em um momento em que as pessoas estão mobilizadas, em que a emoção fala mais alto que a razão, elas acabam buscando essas estratégias como uma forma de conforto. E ao mesmo tempo que as pessoas estão no momento atual mais abertas à informação, estão também mais suscetíveis à desinformação.

VB – A desinformação climática vai na contramão da educação ambiental provocando um desserviço à causa ambiental, já que consegue muitas vezes ter um efeito danoso junto à opinião pública. Qual o papel da educação ambiental no combate à desinformação climática?

JS – A educação ambiental tem um papel fundamental. A gente precisa ter uma base conceitual sobre meio ambiente, sobre a natureza e sobre a nossa relação com a natureza muito bem estabelecida e internalizada para não ficar vulnerável aos discursos falsos, aos discursos de negação. E essa base só é possível pela educação primária, ou seja, desde a infância. A gente vê nas gerações que cresceram distantes da natureza e cada vez mais nas que estão crescendo as consequências disso, que é exatamente essa vulnerabilidade de acreditar nessas narrativas. E isso é muito pela deficiência dessa conexão com a natureza, não só com a ciência da natureza, mas também com a conexão física da natureza. De entender que fazemos parte de algo maior. As nossas gerações cresceram muito com a ideia de humanos de um lado e natureza do outro como sendo coisas diferentes e separadas. E essa ideia já não se sustenta mais, porque já sabemos que o mundo não funciona dessa forma. Essa deficiência nesta percepção acaba nos deixando vulneráveis. Eu entendo que a educação ambiental trabalhada na forma de reaproximar desde a infância e acabar com a construção da ideia de homem e natureza como algo separado é fundamental para não nos deixar mais vulneráveis a essas narrativas.

VB – Uma pesquisa da Broadminded realizada ao longo do mês de janeiro de 2025 entrevistou pessoas de seis países da América Latina sobre a Meta e o uso de suas redes sociais. Um dos tópicos foi a mudança na política de moderação de conteúdo e o fim do programa de checagem da empresa. Nesta pesquisa, 77% dos brasileiros discordam que disseminar notícias falsas seja “direito democrático”. Os brasileiros foram os que mais rejeitaram a mudança, com 41% discordando dela por acreditarem que a medida pode favorecer a disseminação de notícias falsas e discurso de ódio. Outros 34% disseram concordar por se tratar de liberdade de expressão. Os que concordam que remover iniciativas de checagem de fatos das plataformas de social media representa uma ameaça direta à democracia somam 54%. Diante disso, quais são as consequências da desinformação para a sociedade em geral?

JS –Asconsequências da desinformação são extremamente danosas. Liberar discursos de ódio sob o argumento da liberdade de expressão pode ter consequências diretas na segurança das pessoas. E liberar desinformação também. Eu entendo que, sobre essas medidas, é preciso ter um debate mais aprofundado sobre a moderação das redes, porque estamos entrando em um universo completamente novo. Antigamente a informação era passada de um para muitos, de poucos para muitos, e esses poucos trabalhavam com uma base de um processo de curadoria, de checagem de informação. Mas hoje em dia isso não existe mais. Só que essa nova realidade nos foi imposta sem que houvesse uma reflexão sobre ela. E hoje estamos vendo as consequências disso. Então, o ideal seria: parar tudo, dar um passo atrás e ver que potencial dano pode causar e, dessa forma, minimizar. Eu defendo a ideia de lugares de checagem, de restrição de publicações desde que não sejam vinculados a um viés político, mas sim científico.

VB – As redes sociais são um terreno fértil para a propagação de desinformação devido ao fácil acesso e ao grande número de pessoas conectadas. Como combater a desinformação climática neste contexto?

JS – Temos uma frente maior, que é a de combater a raiz do problema, que está dentro de grandes estratégias de desinformação oriundas de grandes empresas com interesses outros nessas narrativas, ou seja, interesses de manter o status quo. Um exemplo é a indústria do petróleo que, para manter o lucro, nega as consequências desse modelo de produção. Nós temos um trabalho maior que é o de mudar esse espectro mais complicado próprio da indústria. Mas também temos estratégias que cada um pode aplicar e exercer para evitar esse tipo de situação, entre as quais está em saber identificar uma notícia falsa, cuidar antes de circular, sempre desconfiar de informações que vêm com verdades absolutas, soluções mágicas ou certezas que contrariam o senso comum por mais atrativas que sejam. E também em situações de vulnerabilidade em que o emocional acaba falando mais alto que o racional, por exemplo, quando houve a enchente no RS. É aconselhável ter isso em mente para manter o racional sempre atento e não se deixar levar por essas narrativas que são muito atrativas nesses momentos.

VB – Devido às últimas chuvas intensas ocorridas no mês de junho no RS, alguns políticos levantaram a discussão de que a formação de bancos de areia no rio Guaíba agravaria as enchentes, sendo necessário fazer o desassoreamento do rio. No entanto, especialistas rebatem essa teoria dizendo que os bancos de areia são um tipo de formação geológica que ocorre devido a um processo natural de sedimentação e que a dragagem do rio Guaíba seria desnecessária. O que separa a desinformação climática de um ponto de vista distinto sobre uma questão como essa, por exemplo?

JS – Temos que pensar que a questão traz um ponto de vista político e um ponto de vista científico. A política não tem o papel de assumir o lugar da ciência. Os políticos têm que ouvir a ciência e, a partir do que a ciência diz, tomar as decisões. É claro que a ciência quase nunca traz certezas absolutas, pois ela é feita de consensos, é feita de maiorias que levam para um mesmo caminho. Então, o papel político é sempre ouvir e tentar entender quais são os consensos e como agir a partir daí. Discordâncias sempre vão haver. Para que as melhores iniciativas sejam tomadas, as iniciativas mais corretas ou menos danosas, temos que entender que a ciência não é feita de certezas absolutas, lembrando que em diversos casos dentro da própria ciência vamos ouvir opiniões divergentes. Em propostas do âmbito político as tomadas de decisões têm mais chances de acerto quando há espaço para discussão científica. Acredito que falta um pouco dessa capacidade que a gente perdeu de dialogar, de discutir, de entender diferentes pontos, de entender o que é ciência e o que não é, e quais são as limitações da própria ciência.

VB – Nesta questão fiquei pensando no público em geral que fica na dúvida sobre qual lado tem razão. Mas aí entra o papel da escola, não é mesmo?

JS – Talvez não precise abrir tanto essas divergências, mas sim mostrar o que é consenso ou quais são os caminhos possíveis. Isso precisa ficar claro que foi feito a partir de discussões científicas. Mas, é claro, entra o papel da escola, dos veículos de comunicação e da própria política.

VB – O homem se afastou da natureza especialmente a partir da Revolução Industrial e da intensificação da urbanização. O que o homem contemporâneo precisa mudar na sua relação com a natureza, em tempos de crise climática, de maneira que seja possível construir uma sociedade consciente, colaborativa e crítica com relação às questões ambientais?

JS –O homem precisa voltar a ouvir quem nunca se afastou da concepção de que homem e natureza são uma coisa só. Temos aí milhares de pessoas, povos indígenas, comunidades tradicionais que há milênios vivem em harmonia com a natureza. Não se afastaram desse conceito e, por isso, são exemplos de como viver sem destruir. O nosso modelo de sociedade já se mostrou insustentável, e a gente precisa aprender a escutar quem ainda vive num modelo de vida sustentável. E quem tem a resposta para essa pergunta são esses povos.

VB – Em uma de suas matérias, você cita as falsas dicotomias como uma das cinco estratégias usadas para manipular e confundir a opinião pública. Como exemplo disso, grupos de interesse econômico divulgam a falsa ideia de que desenvolvimento e preservação estão em lados opostos. Poderia falar sobre essa falsa dicotomia e apontar quais interesses estariam por trás desse tipo de desinformação climática?

JS – A gente tem a ideia de que o modelo de sociedade ocidental no qual vivemos representa desenvolvimento, mas, na verdade, ele representa um modelo de exploração insustentável com relação aos recursos que a gente tem. Na verdade, a gente nem deveria chamar de recursos. Eu usei esse termo para que fique mais fácil de entender. Não são recursos, e sim elementos naturais. A gente associa a ideia de desenvolvimento a esse nosso modelo, mas hoje em dia já se sabe que esse modelo não representa necessariamente desenvolvimento, porque é um modelo insustentável. As grandes indústrias que se sustentam  a partir desse modelo seguem alimentando essa narrativa para continuar lucrando e manter o status quo. E essa é a falsa dicotomia. A gente pode entender que desenvolvimento está muito mais ligado a estabelecer uma relação com o meio ambiente sem destruí-lo, que, no final das contas, é uma relação muito mais complexa, mais tecnológica e muito mais intensa e profunda do que esse modelo de chegar a um local, explorar, retirar recursos e ir embora. Essa falsa dicotomia está também relacionada muito com a apropriação da ideia de um desenvolvimento que não condiz mais com a realidade.

VB – A educação para a cidadania já se comprovou um processo lento na sociedade brasileira devido principalmente ao baixo investimento em políticas públicas por parte dos governos. Não dá para esperar que a sociedade atinja a maturidade nesse aspecto, ou seja, é preciso agir rápido com medidas de mitigação no que se refere à emissão de gases de efeito estufa, já que eventos extremos estão acontecendo com muita frequência. Como podemos ter esperança de que a sociedade capitalista vai se engajar na luta para salvar o planeta, a própria vida e a das gerações futuras?

JS – Acredito que temos que trabalhar com três frentes: uma a curto prazo, outra a médio e outra a longo prazo. A frente a curto prazo seria pensar em medidas que estão inseridas na lógica atual para tentar mitigar e adiar, porque a gente precisa reduzir as emissões. A gente não vai conseguir mudar esse sistema econômico nem tampouco reeducar o homem na sua relação com a natureza agora. Então temos essa dicotomia e precisamos trabalhar dentro da própria lógica para implementar ações de redução – seja por meio da própria tecnologia de captura de carbono, seja por investimento em energia renovável, seguindo o modelo de produção, só que dentro da energia renovável. E aí pensar a médio prazo em políticas públicas que ajudem nesse sentido, políticas tanto de educação como de redução de desmatamento, de taxação para poluentes entre outras; e medidas a longo prazo, sendo a principal delas a que está dentro dessa questão mais profunda da educação, a de educar pela escola, pelos sistemas de educação, retrabalhando a questão ambiental a partir de uma nova perspectiva que não separa o homem da natureza. O desafio tem que ser encarado nessas três frentes, senão fica impossível mesmo, já que não dá tempo de a gente mudar o modelo de sistema econômico atual para resolver a crise climática, porque quando a gente conseguir fazer isso o planeta já terá acabado.

*Revisora de Textos da UFRGS. Cursou a disciplina Jornalismo e Meio Ambiente em 2025/1, quando produziu essa  entrevista sob orientação da professora Eloisa Loose.

O eco de fatos ambientais diante do Princípio da Precaução

Por Heverton Lacerda*

O deserto de notícias sobre pautas ambientais nesta semana nos portais dos principais jornais do Brasil me chamou a atenção. A percepção foi ampliada a partir da ciência de que há pautas ambientais importantes a serem noticiadas e analisadas. Um exemplo é a decisão judicial que, por precaução, suspendeu as atividades de uma usina termelétrica e uma mina de carvão em Candiota (RS) por falta de atenção aos planos climáticos do Estado gaúcho e da União. A notícia ficou circunscrita, basicamente, ao âmbito de alguns portais gaúchos de notícias, os chamados alternativos, e na RBS TV de Bagé, emissora da rede RBS (afiliada à Globo) que cobre a região onde fica a mina, na cidade de Candiota. Trata-se de uma ação civil pública que cobra a responsabilidade da União, do Estado e de órgãos públicos, a exemplo do Ibama, para que as mudanças climáticas não fiquem ainda mais graves. A notícia da RBS TV, segundo conversa que tive com a repórter que fechou a pauta, apresentou as demandas da ação e entrevistou representantes dos réus. 

A partir dessa percepção, fui pesquisar no portal O Eco, um veículo de imprensa especializado em pautas sobre o meio ambiente, para me certificar dessa impressão sobre a falta de notícias. Não foi surpresa constatar a existência de uma série de matérias e reportagens importantes. 

É compreensível e de amplo conhecimento no campo do jornalismo, que, por diversos aspectos e circunstâncias, há a necessidade de priorizar pautas. No entanto, aponto aqui duas observações. A primeira é que pautas como Nem Taís Araujo nem o público estão felizes com a mudança dos rumos de Raquel em ‘Vale Tudo’, publicada pela Folha de São Paulo, e Grêmio anuncia a contratação de Arthur: “Eu bati o pé pra voltar. É minha casa! Minhas raízes!”, do portal GZH (Rádio Gaúcha e Zero Hora), encontram facilmente espaços nesses veículos hegemônicos, enquanto temas ambientais, a exemplo dos citados acima, ficam de fora. O jornalismo tem produzido cada vez mais entretenimento, que é uma produção “leve”, que gera audiência, no lugar de promover o debate de assuntos de interesse público.  

A segunda observação é que o Princípio da Precaução ainda não está devidamente assimilado pelo jornalismo geral, visto que, em boa parte, continua-se priorizando notícias de tragédias ambientais para ecoar o tema meio ambiente. Espera-se que o risco se torne desastre para, então, tratar das decisões equivocadas e que beneficiam apenas grupos econômicos, prejudicando a compreensão de que o meio ambiente está em tudo, inclusive em nós, o tempo todo.

Pressuposto teórico do jornalismo ambiental, o Princípio da Precaução é um conceito que orienta para a tomada de decisões em situações onde há incerteza científica sobre riscos de um dano, especialmente no contexto ambiental. Ele pode servir de base para decisões sobre pautar notícias ambientais que não sejam necessariamente tragédias. A ideia central é exatamente a intenção de tentar evitar que tragédias aconteçam. O jornalismo tem condições de fazer isso, e estará realizando um papel extraordinário, se atentar para esse princípio.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
E-mail: heverton.lacerda@ufrgs.br

A água nas torneiras, o peixe que alimenta, o rio que é parente

Gustavo Lima/Arquivo Pessoal/Observatório de Jornalismo Ambiental

Por Patrícia Kolling*

Uma matéria publicada na Folha de S. Paulo relata que os níveis dos reservatórios de água em São Paulo estão abaixo dos registrados na crise hídrica de 2015. O texto traz dezenas de números para mostrar que o quadro é mais grave do que há 10 anos, quando a região viveu a maior crise hídrica de sua história. Os níveis dos mananciais estão caindo desde 2023 e a previsão é de que o mês de agosto será mais seco que o normal. O texto informa que “as chuvas só devem voltar com força suficiente para recuperar os reservatórios no fim de setembro, quando iniciar a primavera, a tendência é que o nível atual continue a baixar diariamente”.

Apesar das empresas responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo dizerem não acreditar em uma nova crise hídrica, devido aos investimentos em infraestrutura de abastecimento, a situação exige preocupação, pois especialistas alertam que os últimos anos têm sido muito secos, e que entre as causas estão as mudanças climáticas e o desmatamento.

Quando se fala em desmatamento, é preciso dizer que ele acontece bem longe de São Paulo e apesar das áreas desmatadas na Amazônia terem diminuído, os números de desmatamento no Cerrado continuam a crescer. São as raízes profundas das plantas do Cerrado que abastecem os lençóis freáticos. É na região do Cerrado que estão oito das doze bacias hidrográficas do país. “Estudo do Instituto Cerrados, em parceria com o ISPN [Instituto Sociedade, População e Natureza], aponta que 88% de 81 bacias hidrográficas do bioma já tiveram redução de vazão causada pelo desmatamento entre 1985 e 2022.”

Enquanto em São Paulo a água pode faltar novamente nas torneiras e chuveiros, a série Exlcuídos do Clima, da Folha de S. Paulo mostra que para algumas populações o problema é ainda maior. A reportagem apresenta a situação do Quilombo Águas do Miranda, em Bonito (MS), localizado às margens do rio que dá nome à comunidade.  Para as famílias, a água do rio é fonte de renda, com a prática do turismo e da pesca artesanal. Com as secas constantes e as queimadas dos últimos anos, o nível das águas dos rios diminuiu e, consequentemente, a redução na quantidade de oxigênio na água levou à mortandade de peixes. Famílias que viviam da pesca e do turismo tiveram que buscar outras fontes de renda. “Aí você vai no rio para pegar um peixe para comer, você não pega, porque não tem. Quem sabe se virar, se vira de qualquer maneira”, reflete um morador da comunidade. Apesar das dificuldades, os moradores não desejam sair do quilombo, pois ali formam uma comunidade em que todos se ajudam.  Apesar do repórter manifestar uma preocupação com a perda dos costumes culturais da comunidade, ele não explora no texto aspectos relacionais e culturais da comunidade entre si e com o rio.

Mais ao norte do país, na Terra Indígena Xipaya, do Povo Indígena Xipai, passa o rio Iriri, que é o maior de Altarmira, sudoeste do Pará. “É como parte da família. O Rio sempre foi Rio, e Xipai sempre foi Xipai. São corpos diferentes entrelaçados como um só”, escreve Wajã Xipai, no portal Sumaúma. Para falar sobre o rio, a repórter indígena foi conversar com quem muito o conhece, os anciões da aldeia.  E, como ela diz, mergulhou nele até se afundar, ou seja, se aprofundou na temática “para que quem falasse fosse o próprio Iriri”.  Ela conta que o dia a dia dos Xipai gira em torno do rio. “As famílias saem para pescar nos pedrais em frente ao porto da aldeia ou mais distante dali. Às vezes, passam a tarde inteira na beira do Rio. As mães lavam roupa ou se banham. As crianças, que na maioria já sabem nadar, brincam na água […]. Os homens saem para a pesca, e as mulheres esperam que eles voltem para preparar os peixes para a refeição da família. À noite, as famílias se juntam numa roda e contam histórias do que viram e viveram no Rio ou na mata”. Dos indígenas, ela ouviu sobre a morte dos peixes, a cor esverdeada do rio, a falta de chuvas e que o rio não enche mais como antes. Com especialistas, ela foi entender por que isso acontece. No ano passado, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico declarou situação crítica de escassez hídrica no Rio Xingu e no Rio Iriri, seu afluente.

Do sudeste ao norte do Brasil, esses três textos jornalísticos relatam, de formas diferentes, cenários da escassez de água no Brasil. Mostram, em números, em relatos e em histórias, como a falta de água impacta, de diferentes formas, a vida das pessoas, da fauna e da flora. São textos que estão em editorias e veículos diferentes, mas que se conectam não só pela temática da água, mas também pelo relato das pessoas. Sob a perspectiva do jornalismo ambiental, o ideal seria que esses três textos fossem base para um texto apenas, em que os leitores pudessem compreender as verdadeiras relações que existem entre água da torneira, as raízes do cerrado não desmatado, o peixe que é alimento, as crianças brincando no rio e a cosmovisão indígena que compreende o rio como parente. Porém, é preciso compreender que na maioria dos veículos de comunicação as práticas de produção não permitem a abrangência complexa das pautas, não oferecendo aos repórteres tempo e condições financeiras para a apuração. Mas, vale a reflexão, será que nós jornalistas já estamos preparados para de tirar as temáticas das caixinhas das editorias e conectá-las nas mais diferentes esferas da vida, como um rio se liga a seus afluentes e povos.  

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Vetos, brechas e petróleo: o olhar da imprensa sobre o licenciamento ambiental

Por Eutalita Bezerra*

Nas duas últimas semanas, neste observatório, as análises versaram em torno do chamado PL da Devastação, o Projeto de Lei que dispõe sobre o Licenciamento Ambiental no Brasil e que já tramitava há mais de 20 anos. A temática foi explorada inicialmente por Isabelle Rieger e Ilza Maria Tourinho Girardi em publicação que abordou os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do referido projeto.

Em texto mais recente, Débora Gallas abordou a cobertura sobre a demanda para que o presidente Lula vetasse todo o projeto. Na ocasião, avaliou se que a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto, destacando a presença do assunto em veículos de imprensa de renome. Ocorre que, na última sexta (8), último dia do prazo, Lula sancionou o projeto com 63 vetos. Deste modo, entendemos a necessidade de retomar o assunto neste observatório, agora, com a finalidade de avaliar de que maneira se deu a cobertura da decisão presidencial em grandes veículos.

Para tanto, buscamos no Google por “veto + Lula + Licenciamento Ambiental” e escolhemos aleatoriamente as primeiras publicações com data de 8/8/25. Encontramos a do portal G1, que publicou texto extenso, intitulado Lula veta 63 trechos de nova lei que muda regras de licenciamento ambiental. Destacamos que o título foi mudado, conforme a URL na qual aparecem os dizeres “Lula sanciona com vetos projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental”. A opção por retirar a menção ao ‘enfraquecimento das regras’ na versão final nos parece sintomática. 

A publicação dividiu a decisão do presidente em nove pontos principais, e ainda trouxe, dentre outras explicações , a tentativa do governo de equilibrar os pratos, com ministros contrários e favoráveis ao PL; a análise dos ambientalistas – citando Greenpeace e SOS Mata Atlântica; e as principais polêmicas do texto, com destaque para a proposta de autodeclaração para atividades de baixo impacto.

Na mesma data, o portal G1 também publicou o texto Entenda o que muda com vetos ao projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental. A publicação traz a visão de representantes de entidades ambientais; esclarece os vetos e suas justificativas, aponta os próximos passos e os bastidores da decisão presidencial, além de esclarecer os trâmites anteriores do projeto e finalizando com a preocupação com a possível exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

O Estadão, por sua vez, foi mais crítico. No texto “Licenciamento ambiental: Lula sanciona com 63 vetos projeto e edita MP que atende Alcolumbre”, o veículo de comunicação traz desde o título a preocupação com a exploração de petróleo, que citamos anteriormente. Indicando que é um interesse do senador Davi Alcolumbre, cujo estado seria o principal recebedor de royalties no caso de prospecção do combustível fóssil.
 
Já o Metrópoles não aprofunda a discussão. O subtítulo da publicação Lula sanciona mudanças no licenciamento ambiental, mas veta 63 pontos aponta a crítica dos ambientalistas ao projeto. Já no texto, indica o aceno de Lula a Alcolumbre e cita muito brevemente os trechos vetados. O UOL, por sua vez, destacou o projeto que segue ao congresso com modificações no PL propostas pelo governo.  O repórter também cita pontos sensíveis do projeto, marcando, também, a emenda patrocinada pelo presidente do Senado.

Na cobertura sobre a sanção presidencial, os grandes veículos mantiveram espaço para as vozes dissidentes, garantindo destaque às manifestações de ambientalistas. Também foram firmes, a maioria deles, em destacar o jogo político que não se encerra após o “voto” de Lula. O desafio agora é aprofundar o debate: investigar as brechas que ainda podem permitir retrocessos e acompanhar de perto os desdobramentos políticos do “toma lá, dá cá” que se desenha após a decisão de Lula. Uma imprensa vigilante e responsiva pode não impedir todas as investidas contra o meio ambiente, mas é fundamental para reduzir os espaços por onde a boiada insiste em tentar passar.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: eutalita@gmail.com