Com apuração e checagem, jornalismo mostra ações antiambientais na base do desastre climático no RS

Por Patrícia Kolling*

Nesta segunda-feira, dia 20 de maio, o programa Roda Viva, da TV Cultura, foi transmitido do Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS). O entrevistado foi o governador Eduardo Leite (PSDB) e os entrevistadores um time de jornalistas gaúchos. Conforme a apresentadora Vera Magalhães, a transmissão do programa da capital gaúcha foi para que a bancada de jornalistas fosse formada por pessoas que estão à frente da cobertura jornalística da tragédia no Estado.

Preparando-se para as entrevistas, os jornalistas buscaram informações sobre as legislações ambientais aprovadas no Estado, as previsões de chuva divulgadas antecipadamente e as ações do Governo para evitar tantos danos. Elaboraram perguntas que buscavam identificar responsabilidades pelo acontecido, mostrando que não foi um acidente; e também relacionando as enchentes com as mudanças climáticas.  A jornalista Kelly Matos destacou as enchentes, temporais e ciclones que aconteceram no Estado, do final do ano passado até início deste, e questionou o governador se o estado não poderia ter feito algo, se preparado melhor, para minimizar os efeitos. Os jornalistas também questionaram sobre as mudanças no novo Código Ambiental do RS, aprovado no início do governo de Eduardo Leite, destacando a proteção do Bioma Pampa e a dispensa de autorização ambiental para algumas ações.

O governador Eduardo Leite respondeu às questões trazendo muitos dados e contextualizando situações, dizendo não negar a ciência e os alertas, mas não conseguiu descrever o que efetivamente fez para prevenir tantos prejuízos sociais e econômicos. O foco principal da fala do governador foi mostrar como o Estado está empenhado em auxiliar as pessoas desabrigadas e que ficaram sem moradias e ações para a reconstrução do RS.Muitas perguntas, porém, ficaram sem respostas concretas, como também muitas outras perguntas poderiam ter sido feitas, no sentido de mostrar a responsabilidade do Governo Gaúcho diante do acontecido, como, por exemplo, sobre os investimentos no polo carbonífero de Candiota, tema já analisado neste observatório. O chargista Luciano Veronezi trouxe a crítica e o humor às respostas do governador.

Mas o papel de fiscalizador do poder público do jornalismo não se encerrou com a entrevista do programa Programa Roda Viva. No dia seguinte, 21 de maio, os  jornalistas Amanda Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Luiz Fernando Menezes, do site Aos Fatos publicaram  “No Roda Viva, Eduardo Leite desinforma sobre responsabilidade do governo gaúcho e alertas pré-enchentes”. O site checou algumas informações e mostrou que diferente do que o governador disse os institutos meteorológicos haviam previstos altos volumes de chuvas, que tanto estados, como municípios são responsáveis por zelar pelos sistemas de prevenção de desastres, além de mostrar que o novo Código Florestal não define normas para a proteção do Bioma Pampa. Para produzir o material, o site acessou legislações, notas publicadas emitidas pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da UFRGS, reportagens veiculadas na mídia nacional e regional, retomou previsões meteorológicas e entrevistou especialistas.

O jornalista e colunista da Folha de S. Paulo, Bruno Boghossian também analisou criticamente as falas de Eduardo Leite, destacando o desconforto do governador diante das discussões sobre o desastre e ressaltando que ele não poderá se escorar por muito tempo na busca de soluções imediatas, sem a identificação dos culpados.

E os responsáveis já começam a ser apontados pela imprensa e outros setores da sociedade. A Folha de S. Paulo publicou também no dia 21, “Prefeitura de Porto Alegre foi alertada há seis anos sobre risco de falha no sistema contra enchente”. O texto relata que um parecer técnico elaborado por engenheiros municipais, em setembro de 2018, apontava falhas no sistema de bombeamento na região central de Porto Alegre. Em novembro do ano passado outro alerta foi encaminhado a prefeitura, mas até o início das chuvas as melhorias não haviam sido realizadas.

Da mesma forma, que o governador Eduardo Leite, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) foge das suas responsabilidades, classificando como narrativas mentirosas, fake news ou a recortes parciais feitos pela imprensa, informações que estão chegando à sociedade. É importante destacar que há um esforço de apuração séria e responsável, como fez a Folha de S. Paulo e o site Aos Fatos, quando há checagem das informações dadas pelas autoridades e divulgadas nas redes sociais.

Ainda no dia 21, a Carta Capital publicou a notícia “Fachin manda Leite explicar mudança na legislação ambiental do RS” . O texto explica que o Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, pede explicação na mudança da legislação ambiental do estado que deu aval à supressão de vegetação nativa em áreas de proteção permanente.

O assunto já havia sido destacado no  dia 17 de maio, em texto da Folha de S. Paulo, que dizia que a troca de vegetação nativa por soja pode ter agravado as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto informa que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa, que corresponde a 22% da cobertura original vegetal existente no estado em 1985. Cientistas apontam que a vegetação diminui a velocidade à qual a enxurrada chega ao leito dos rios; aumenta a quantidade de água infiltrada no solo, o que diminui a quantidade de água disponível para inundações e protege o solo diminuindo a quantidade de sedimentos que assoreiam os rios da região.

No final da entrevista ao Roda Viva, o governador Eduardo Leite, destaca ter se perguntado “por que o Rio Grande do Sul?” Por mais valente e resiliente que seja o povo gaúcho, a resposta à questão está bem mais relacionada a aspectos de negligência com as prioridades ambientais, que começam a ter mais espaço na cobertura jornalística sobre a tragédia das cheias na região.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

Tragédia no RS: jornalismo deve abordar causas e conexões entre eventos climáticos extremos

Crédito: Lauro Alves/SECOM

Por Débora Gallas* e Janaína C. Capeletti**

Eventos climáticos extremos estão acontecendo com cada vez mais frequência no Brasil e no mundo. A situação trágica que ocorre no Rio Grande do Sul trouxe para o vocabulário de jornalistas, autoridades e população expressões como crise climática, refugiados climáticos e ações de mitigação e adaptação.

A comoção do país ao assistir pela televisão e redes sociais um estado praticamente engolido pelas águas está promovendo uma importante reflexão, que vinha sendo adiada, apesar de reiterados alertas de cientistas e de ambientalistas.

Neste debate, o jornalismo tem uma importante função ao aprofundar o tema e não apenas cobrir as consequências. Nos últimos dias observa-se uma cobertura factual e com algumas análises sobre as políticas assumidas pelo Executivo e pelo Legislativo. Contudo, nota-se que as causas das enchentes no Rio Grande do Sul recém começaram a ser exploradas.

Especialistas em meio ambiente estão acostumados ao conceito de aquecimento global de origem humana. Sabe-se que o aumento dos gases do efeito estufa é resultado, majoritariamente, da queima de combustíveis fósseis e de emissões originárias do desmatamento. O aquecimento do planeta tem como consequência uma maior evaporação de água nos oceanos, o que cria os eventos meteorológicos extremos. Mas como esta questão está sendo apresentada pelo jornalismo?

Em uma breve análise do que está sendo publicado em veículos hegemônicos e não hegemônicos a respeito do RS nos últimos dias, verificamos que o portal Brasil de Fato, com a matéria O que o desmatamento da Amazônia tem a ver com as cheias no Rio Grande do Sul? foi um dos que conectou diretamente o desmatamento na Amazônia às enchentes no RS, apresentando três pesquisadores do tema como fontes, que explicam as consequências do desmatamento na Amazônia e o impacto no processo de regulação climática, provocando mudanças nos padrões de chuvas em regiões distantes.

Mesma iniciativa foi observada em veículos sediados na Amazônia, como Vocativo e Amazônia Real. Esse interesse sinaliza que os eventos do Rio Grande do Sul podem catalisar coberturas realizadas a milhares de quilômetros de distância, porém imprescindíveis para que o público desses veículos compreenda a complexidade da crise climática.

Já na cobertura da BBC Brasil, que também ouve especialistas, aborda as especificidades dos campos nativos que predominam no Rio Grande do Sul para avaliar as causas do imenso impacto sofrido pelo estado. Reportagem publicada em 15 de maio fala de como a destruição do bioma Pampa através do monocultivo de soja e da silvicultura também contribuiu para fragilizar a proteção do estado às fortes chuvas, já que a vegetação nativa contribuiria para a drenagem da água, por exemplo.

Com isso, também vemos que ainda há necessidade de o jornalismo expandir seu vocabulário sobre danos ambientais para além das ideias associadas à perda de biomas florestais, como “desmatamento”, já consolidadas em coberturas anteriores, e incluir a perspectiva mais ampla de perda de vegetação nativa. Ou seja, referir-se à supressão de todos os tipos de vegetação encontradas na megabiodiversidade brasileira. Isso permite que toda ameaça aos biomas – da Amazônia ao Pampa, que é campestre – possa ser compreendida como um evento com consequências diretas na vida das pessoas.

Porém, em meio ao desastre que devasta o RS, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado colocou em pauta a votação (e depois adiou) do projeto de lei 3.334/2023 que permite a redução da reserva legal em imóveis rurais localizados em municípios da Amazônia Legal. O site da CNN Brasil noticiou Em meio a desastre climático no RS, Senado vota projeto que reduz reserva legal na Amazônia, informando na sequência Senadores adiam votação na CCJ de projeto que reduz reserva legal na Amazônia. O portal O Eco também publicou a matéria Por eventualidade, projeto que reduz para 50% Reserva Legal na Amazônia sai de pauta no Senado.

Nota-se que embora estes últimos textos alertem para os pontos nefastos do projeto de lei, a oportunidade de relacionar as consequências do afrouxamento da legislação de proteção ambiental à crise atual vivida no Sul do Brasil não foi aproveitada. É necessário que o jornalismo inclua em sua cobertura o gancho que vem da política para seguir acompanhando e comunicando ao público sobre os potenciais impactos dessas decisões nos biomas brasileiros e nas populações que os habitam.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: debora.gallas@gmail.com.

**Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Acerca do cavalo no telhado: circulação e desinformação noticiosa

Crédito: GloboNews/Reprodução

Por Ada C. Machado da Silveira* e Mauricio de Souza Fanfa**

A cobertura noticiosa sobre os eventos extremos envolvendo o clima no Sul do Brasil no período de 30 de abril até o presente momento é expressiva. A emoção que acompanha os relatos considera as enchentes, responsáveis por desalojar milhares de pessoas, produzir mortes e desaparecimentos, além de abalar infraestruturas públicas (como prédios diversos, inclusive hospitais, pontes e estradas). Em meio a tudo, despontou o acontecimento da localização através de um sobrevoo de cobertura noticiosa, de um cavalo imobilizado sobre um telhado em meio à enchente que o rodeava por todos os lados.

Durante vários dias, observou-se a mobilização de agentes públicos e privados que foi deslocada para o acompanhamento da situação do cavalo, nomeado Caramelo, como uma testemunha do drama que perdura por semanas. Ela foi acompanhada pelo espanto geral em torno da contingência que fez com que um cavalo fora parar no telhado, dado que “cavalo não sobe escada”. Noticiaram o resgate o Correio Braziliense, o Correio do Povo, o g1, entre outros portais de notícias, como a CNN Brasil.

Em um mundo que pode dar adeus ao cavalo, tendo em vista a proliferação de meios de transporte abastecidos por derivados de petróleo, despontou a comoção midiática por um cavalo em meios às águas.

Como referente afetivo da liberdade, honra e galhardia, o cavalo possui a simpatia dos habitantes do Estado do Rio Grande do Sul, uma vez que está presente na iconografia e na memória popular. Caberia ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, manifestar o caráter emblemático da cena do cavalo Caramelo no telhado.

Sua resiliência, após dias ilhado e em pé, sem água ou comida, animou a resistência à intempérie. O diário Zero Hora de Porto Alegre registrou a manchete mencionando o caráter aguerrido e resiliente da população afetada.

O Portal g1 evidenciou a particular relação do Rio Grande do Sul e de seus habitantes com os cavalos. O jornal O Tempo igualmente dedicou-se a frisar o caráter emotivo do resgate de Caramelo. O cavalo Caramelo gerou a disputa de influencers, políticos e instituições.

Como relíquia afetada em meio a tragédia colossal, e que ainda segue em curso, não permitiu esquecer a perda de outros cavalos. O Portal do Holanda registrou a morte de um animal preso e submerso com água até o pescoço no mesmo município de Canoas.

Tais referências, uma com pequena repercussão, e a outra com impacto geral, remetem à condição popular desta espécie junto aos gaúchos. O IBGE registra em 2022 que há 492 mil cavalos vivendo no Rio Grande do Sul, fazendo do estado o terceiro com o maior número absoluto do Brasil.

O resgate de Caramelo surge como um lembrete de que um desastre atinge todos os seres que vivem no espaço, não apenas os humanos. Tal aspecto, no entanto, foi motivo para debates, como a posição sustentada por muitos de que haveria sensacionalismo na exploração da condição do cavalo, em detrimento da condição dos seres humanos. Esta foi a opinião expressa pelo líder do Partido Comunista Operário, Rui Costa Pimenta, no Canal 247.

Inicialmente o debate estabeleceu-se na definição de gênero do cavalo, se macho ou fêmea. Posteriormente, após o resgate pelo Corpo de Bombeiros e seus veterinários do Estado de São Paulo, houve a definição de ser um macho e, daí, o nome de Caramelo ficou estabelecido.

A propriedade do cavalo foi requisitada por muitos e, igualmente, várias celebridades dispuseram-se a adotá-lo. Foi o caso da revista Quem e do Portal Terra.

A circulação noticiosa envolvendo a presença do cavalo no telhado ganhou o mundo, registrando-se tanto na mídia corporativa como nas mídias sociais. Foi igualmente notável a repercussão na plataforma X (antigo Twitter), especialmente a presença de celebridades e figuras públicas como o presidente Lula, a primeira dama Janja e os youtubers e empresários Felipe Neto e Whindersson Nunes.

A lista com o número de tweets que podem ser filtrados da plataforma X  é longa. Apresentamos a repercussão mais numerosa:

  • 176 mil (meme brincando com como o programa Fantástico da Tv Globo mostraria o cavalo)
  • 108 mil (felipe neto querendo adotá-la)
  • 68 mil (meme sobre demonstrar emoção com o resgate)
  • 60 mil (repercutindo Janja e Lula)
  • 58 mil (“esse cavalo será símbolo da determinação do estado do rio grande do sul”, podcast sobre o Grêmio)
  • 56 mil (Janja)
  • 55 mil (republicando charge)
  • 45 mil (Janja x Whindersson)
  • 43 mil (“se você não fica feliz em ver um animal sendo salvo também, você não aprendeu nada nessa vida”)
  • 37 mil (Lula)

O vídeo mostrando Janja indo até Lula durante uma coletiva de imprensa para comunicá-lo sobre o resgate do cavalo recebeu 60 mil curtidas. Outro vídeo postado pela primeira-dama, comunicando em seu perfil o resgate do cavalo, recebeu 56 mil curtidas, agradecendo a Deus e aos voluntários envolvidos. Ele foi replicado pelo diário da capital nacional Correio Braziliense.

O Portal Poder 360 expressou seu desagrado à manifestação da primeira dama do Brasil. E foi repercutido pela revista Veja.

Outros tweets expressam a emoção com o resgate: “Tem gente achando ruim de ver essa operação pra salvar ele. Se você não fica feliz em ver um animal sendo salvo também, você não aprendeu nada nessa vida”, afirma Matheus, com 43 mil curtidas. “O cavalo Caramelo de Canoas é um guerreiro! Será patrimônio histórico brasileiro! Esse cavalo será o símbolo da determinação do estado do Rio Grande do Sul” expressa Camargo, recebendo 58 mil curtidas.

Felipe Neto mobilizou esforços para o resgate e demonstrou disposição em adotá-lo.

A repercussão internacional ganhou espaço entre a calamidade social e ambiental. O acontecimento igualmente convocou a mídia brasileira a reconhecer, como o Portal Terra ou o Portal g1. A Tv 247 dedicou-se a comentar o caso, assim como a CNN Brasil.

Até a Suécia, onde a mobilização climática conta com a figura de Greta Thunberg, dedicou-se a registrar, no diário de maior circulação, o Dagens Nyheter, o depoimento do coronel Claudio Goggia, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, sobre o resgate de Caramelo.

A preocupação com os animais nos faz lembrar de nossa responsabilidade com tais formas de vida: ainda que precárias, as operações montadas têm condições de resgatá-los. Caramelo converteu-se, assim, em ícone da crise climática a partir do drama no Rio Grande do Sul.

* Professora titular da Universidade Federal de Santa Maria. Integra seu Programa de pós-graduação em Comunicação e colabora no Mestrado profissional em Comunicação e Indústria Criativa da Universidade Federal do Pampa. Pesquisadora do CNPq. Lidera o Grupo de pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras. E-mail: ada.silveira@ufsm.br.

** Graduado em Comunicação Social – Produção Editorial, com mestrado e doutorado em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria. Realizou pós-doutorado na Sodertorn University, Suécia. E-mail: maufanfa@gmail.com.

A inserção dos refugiados e deslocados climáticos na cobertura da catástrofe no RS

Crédito: Isabelle Rieger/Sul21

Por Eloisa Beling Loose* e Cláudia Herte de Moraes**

As enchentes severas em diferentes municípios gaúchos provocaram uma fuga em massa. Muitos gaúchos tiveram que abandonar suas casas. Impossível não se comover com as imagens de desabrigados e desalojados, com poucos pertences, carregando crianças, animais domésticos e o que mais pudesse ser levado nas mãos diante do caos instalado. Para onde ir? 

A situação vivenciada por grande parte da população atingida, transmitida por canais de comunicação diversos, acabou trazendo à tona a expressão “refugiado climático”. O repórter Juliano Castro, da RBS, foi um dos primeiros a trazer essa questão para a cobertura das enchentes na televisão. Depois disso, muitos outros jornalistas e comentaristas colaboraram para popularizar a ideia de que, se não fosse a crise climática, essas pessoas não teriam que deixar suas casas.

O Nexo trouxe este debate, indicando que o uso do termo pode ser uma forma de clamar pela atenção ao desafio da emergência climática, que passa a ser cada vez mais presente na vida de milhões de pessoas no planeta. 

Na cobertura da imprensa, ao longo dos últimos dias, pode-se observar que tanto as imagens como a referência ao deslocamento humano são destacados. G1, Uol, Folha de S.Paulo e outros veículos enfatizaram a questão em seus títulos. As cidades foram abandonadas porque foram inundadas e/ou ainda apresentavam riscos de isolamento, desabastecimento, dentre outros. A imagem de “cidades fantasmas”, como foram retratadas Porto Alegre  e Eldorado do Sul,  reforçam o efeito do deslocamento massivo.

Há uma diferença entre deslocados e refugiados climáticos/ambientais: os primeiros seriam aqueles sujeitos à migração forçada por catástrofes climáticas, mas que não chegaram a atravessar fronteiras internacionais; já os refugiados são aqueles que, motivados pela mesma situação, são obrigados a deixar seu país de origem. A situação dos refugiados climáticos está inserida no Direito Internacional, com regulação específica e uma agência da ONU dedicada ao tema, a ACNUR. Juridicamente, a expressão “refugiado” não deve ser usada no caso da situação vivenciada pelos gaúchos. Ademais, é preciso ter cuidado para não banalizar o uso, já que a saída temporária das casas não é o mesmo que  não conseguir retornar para o lugar em que se vivia devido às consequências geradas pelas chuvas fortes.

No entanto, sob o ponto de vista do jornalismo, faz  sentido nomear essa consequência das enchentes com o adjetivo climático, realçando a conexão entre a intensificação das mudanças climáticas e a maior frequência dos eventos extremos. Além disso, dar visibilidade ao números de desabrigados e desalojados revela parte da dimensão da tragédia, já que ser obrigado a deixar o lugar que se vive, para além dos prejuízos materiais, traz perdas imateriais, de memórias, pertencimento e convívio, que são imensuráveis.

A crônica da jornalista Juliana Bublitz, de ZH, descreve os momentos em que os moradores de classe média da capital Porto Alegre são avisados sobre a urgência da evacuação no dia 6 de maio. A cena é de estranhamento, com ruas lotadas, impaciência, insegurança, medo, incerteza. O relato lembra o sentido de estar fora de seu lugar, traz a dimensão humana do desastre que se transfigura em tragédia diante de fatores agravantes, como a falta da manutenção do sistema de bombas que retiravam a água da cidade. Contudo, é sempre bom ressaltar, as classes vulnerabilizadas tendem a sentir esse impacto de forma mais aguda e prolongada, por não terem as mesmas condições socioeconômicas para lidar com os efeitos em cascata provocados pela eclosão do desastre.

A análise de Leonardo Sakamoto no UOL, no mesmo dia, é direta: “Não temos guerra, mas teremos cada vez mais refugiados ambientais”. Ele afirma: “tudo o que tem acontecido, ocorrido, essas pessoas mortas, ilhadas, desaparecidas, desabrigadas, e esses refugiados ambientais. [Isso] que a gente tem que cravar. O pessoal fala ‘o Brasil não tem refugiados, tragédia, vulcão, terremoto, guerra’. Tem sim!”.

O resultado dos eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul é desolador. Levando-se em conta um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental, o engajamento, pensamos que há pertinência de trazer a referência da urgência e da relevância dos fatos. Desta forma, o jornalismo demonstra sua função social e política na sociedade. Neste sentido, usar o termo refugiado climático pode ser um caminho para evidenciar a conexão com o colapso do clima. Isso aparece na reportagem do Intercept Brasil: “Segundo números da Defesa Civil, divulgados na manhã desta quarta-feira, 8, 95 mortes foram confirmadas, e há 128 pessoas desaparecidas. Mais de 158 mil gaúchos precisaram deixar suas casas por causa das enchentes que assolam o estado. Nove mil só na capital, Porto Alegre. Mais de 66 mil pessoas estão em abrigos espalhados pelos 414 municípios afetados – mais de dois terços do estado. São os chamados refugiados climáticos: pessoas submetidas a um deslocamento forçado por conta de um evento climático extremo que coloca em risco sua existência.”

No dia 8 de maio, em função da calamidade gaúcha, um projeto de lei foi apresentado pedindo a definição da condição de “deslocado interno por questões climáticas”, como informa Sakamoto. A proposta do deputado pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) diz que “Entende-se como deslocado interno por questões climáticas, qualquer pessoa, residente no Brasil, forçada a deixar seu habitat tradicional, temporária ou permanentemente, por causa de uma perturbação ambiental acentuada, desencadeada ou não por terceiros, que comprometam sua existência e/ou afete seriamente sua qualidade de vida”. O objetivo desta mudança é facilitar o acesso a políticas públicas, em especial ao financiamento da casa própria no programa Minha Casa, Minha Vida. A questão foi repercutida no UOL, por Sarah Moura. no dia 9 de maio.

Assim, embora o termo siga em discussão nos organismos internacionais de Direitos Humanos para uma definição aceita para fins jurídicos, na esfera do debate público e diante da calamidade e do sofrimento humano, acreditamos que o uso das expressões refugiado climático ou ambiental é uma forma de o jornalismo visibilizar algumas consequências humanas que nem sempre aparecem em meio à cobertura a partir dos números. Quem sabe, ao pensarmos no que sustenta a designação de um deslocado ou refugiado climático, possamos recordar que o objetivo maior de uma Nação é  dar condições dignas de vida e segurança ao seu povo. E sem cuidado ambiental isso não é possível.

* Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

RS embaixo d’água: observações neste início da cobertura do desastre

Fotografia: Isabelle Rieger

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose **

Nesta semana estamos acompanhando a cobertura da imprensa sobre mais um desastre que assola o estado do Rio Grande do Sul. Chuvas extremas provocaram alagamentos, aumentaram o volume dos rios e encharcaram encostas. A cidade de Santa registrou o maior volume de chuva no mundo nesta quarta-feira, com Bento Gonçalves, Santa Cruz do Sul e Soledade também presentes no topo do ranking, conforme dados do site Ogimet. Na mesma noite, do dia 1º de maio, o governador Eduardo Leite decretou estado de calamidade pública. Mais de 110 municípios foram atingidos; alguns deles, no Vale do Taquari, ainda se recuperavam da cheia de setembro de 2023, considerada a maior em, pelo menos, 150 anos.

Enquanto a chuva cai sem parar, a imprensa busca, em tempo real, dimensionar os impactos do que esse fenômeno climático extremo significa no cotidiano das pessoas. No feriado do Dia do Trabalhador, o Jornal do Almoço trouxe um panorama de diversas cidades atingidas pelas cheias, relatando, principalmente, as dores daqueles que tiveram que deixar suas casas e perderam tudo o que tinham. Se, por um lado, os testemunhos aproximam os telespectadores da situação e podem ser importantes impulsionadores de doações e pressão pública por resposta emergencial, por outro, podem sobrepor outras questões importantes. Para além da necessidade de empatia dos profissionais que entrevistam os afetados, pessoas em situação de alta vulnerabilidade, é preciso entender qual o propósito de tal cobertura. Quem, afinal, beneficia-se com tamanha exposição? Quem mais poderia ser ouvido? É possível reportar o desastre de outra forma? 

Também reforçamos a urgência de desnaturalizar os desastres. De forma geral, os gatilhos que desencadeiam as tragédias são tidos como os causadores. A imprensa reproduz que as chuvas matam, provocam destruição, causam estragos. Contudo, é importante pontuar que o risco de desastre decorre de uma articulação entre as ameaças naturais, que estão sendo intensificadas em magnitude e frequência pela emergência climática, e a vulnerabilidade, decorrente de aspectos sociais, econômicos e culturais. O desastre não ocorre apenas em razão de uma chuva extrema, mas também porque há ações humanas que colocam pessoas em situações frágeis, como o valor da moradia em espaços seguros e a falta de medidas preventivas ou de investimento na adaptação das construções diante dos novos cenários. Culpar as chuvas ou os temporais é um discurso que desvia o olhar dos problemas estruturais das nossas cidades e do que entendemos por desenvolvimento.

A cobertura de desastres, especialmente este com extensão e impactos inéditos, é um grande desafio. A informação correta e atualizada sobre a situação dos resgates, abrigos e fornecimento de insumos básicos, como água e alimentos, assim como de novos alertas, tem sido realizada de forma incessante por boa parte da imprensa gaúcha. A programação habitual foi suspensa para orientar a população sobre as prioridades de cada dia, auxiliar na gestão da resposta e desfazer boatos e outras formas de desinformação que geram pânico e prejudicam o trabalho de manter as pessoas a salvo de perigos.

Além disso, os jornais locais têm priorizado relatar a atuação imediata do governo – no  âmbito municipal, estadual e federal, diante dos efeitos desse evento extremo. É crucial manter a população atualizada neste momento de calamidade, no entanto, uma abordagem que se limita a apresentar os fatos de forma simplista e factual não oferece aos cidadãos uma compreensão completa das reais causas da tragédia na qual estão submetidos e das estratégias possíveis para enfrentá-las. 

É essencial que o jornalismo local também questione sobre o andamento do plano de enfrentamento do governo para prevenção, adaptação e mitigação aos efeitos das mudanças climáticas. Na matéria “Em meio à tragédia no RS, Eduardo Leite e deputado do PSOL discutem por orçamento destinado à Defesa Civil”, O Globo repercutiu as críticas feitas pelo deputado estadual da oposição Matheus Gomes (PSOL) ao governador Eduardo Leite (PSDB) sobre o baixo investimento estadual no enfrentamento da crise climática. Para o ano de 2024, o Rio Grande do Sul possui um orçamento de menos de 0,2% para enfrentar eventos climáticos. Apenas R$ 115 milhões foram investidos pelo Governo Leite nessa área, de um valor total de R$ 83 bilhões. Desse valor, somente R$ 50 mil foram destinados para a Defesa Civil. 

Vale lembrar ainda que a flexibilização das leis ambientais vai na contramão das ações de prevenção e mitigação de acontecimentos como esse. Mesmo que os tomadores de decisão reforcem o discurso que não seja hora de apontar culpados, justificando que é preciso salvar vidas e restabelecer os serviços básicos para não colapsar as cidades, a cobertura não pode silenciar sobre as decisões que tornaram a população gaúcha mais vulnerável às consequências climáticas.

No contexto atual, é inaceitável que o jornalismo trate eventos extremos como uma mera ameaça natural. O alto impacto dos desastres nas cidades é também uma consequência da falta de planejamento governamental na gestão da emergência climática. Na cobertura pós-desastre, os jornalistas devem ser mais cautelosos ao apontar o microfone para o rosto das vítimas e optar por direcioná-lo mais incisivamente ao governador (e outras autoridades competentes), buscando questioná-lo sobre o andamento de planos de curto, médio e longo prazo de adaptação e mitigação aos efeitos das mudanças climáticas.

Um último aspecto que destacamos é a pouca visibilidade da ligação entre desastres e mudanças climáticas. Embora alguns especialistas sejam entrevistados, como foi o caso do pesquisador Francisco Aquino na cobertura do dia 1º de maio no Jornal do Almoço, a mensagem deve ser consistente e não pontual.  O ponto de partida dos impactos hoje presenciados é a escolha por um sistema socioeconômico que explora a natureza em razão de benefício de curtíssimo prazo para alguns poucos, que ignora a finitude dos recursos e suas externalidades negativas. É essa forma de viver, apresentada como a única possível, que não deve ser esquecida quando um novo desastre eclode.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

O desafio da cobertura ambiental para além das catástrofes

Por Débora Gallas*

Em uma das edições do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, talvez há uns dez anos, lembro que uma participante perguntou às demais presentes: como sensibilizar as pessoas sobre os efeitos das mudanças climáticas no planeta com imagens que sejam mais próximas da gente? Ela gostaria de exemplos para além da imagem-síntese do aquecimento global àquela altura – a do urso polar ilhado por conta do derretimento de gelo no Ártico.

Infelizmente, neste momento, estamos rodeadas de imagens exemplares sobre a emergência climática. Após um 2023 marcado por alto volume de chuvas e inundações, novamente acompanhamos o noticiário sobre os eventos climáticos que atingem o Rio Grande do Sul. A população brasileira sabe que as mudanças climáticas são realidade porque sente na pele seus efeitos.

Mas, se nossa preocupação há dez anos era informar e sensibilizar as pessoas sobre esses riscos através do jornalismo porque ainda havia tempo hábil para buscar alternativas que reduzissem danos e impactos, nosso desafio hoje é manter o público engajado para além do bombardeio de informações catastróficas. A mera reprodução do discurso de fontes oficiais reforça essa sensação porque está associada, por um lado, à ideia de que a tragédia é imprevisível e, por outro, de que ela é inevitável.

Estes dois pontos estiveram presentes no discurso do governador do estado, Eduardo Leite, em dois momentos distintos. No ano passado, o argumento de que as chuvas pegaram o estado de surpresa chegou a ser contestado ao vivo pelo jornalista André Trigueiro na GloboNews. Agora, como repercutem os veículos locais, como GZH, Leite vem usando as redes sociais para compartilhar informes da Defesa Civil sobre o agravamento da situação em áreas de risco.

Acompanhar as falas oficiais é, obviamente, uma tarefa fundamental do jornalismo, mas é importante variar o tom da cobertura e incluir aspectos diversos que demonstrem a complexidade do problema. Isso pode ser feito através de um olhar crítico ao discurso desses atores frente a posicionamentos recentes que podem levar ao agravamento da crise climática, como o incentivo à exploração de carvão no Rio Grande do Sul, tema que foi objeto de análise recentemente neste Observatório.

Pode vir também da escuta de outras fontes, como as especialistas, como fez esta matéria de O Globo, mesmo à distância. Além de explicar a origem do fenômeno, o texto incluiu a perspectiva de entidades da sociedade civil que acompanham há anos, com preocupação, o impacto de atividades como a monocultura de soja, por exemplo, para a regulação climática da região.

Por fim, urgem coberturas que mostrem à população a necessidade de políticas públicas que se antecipem às catástrofes – e que há muitas propostas boas por aí, com origem nos próprios territórios impactados, porém sujeitas à vontade política para terem seu potencial transformador aumentado.

O 20º Acampamento Terra Livre, por exemplo, que reuniu milhares de indígenas de todo o país em Brasília na semana passada, buscou pautar a contribuição da luta indígena pelo território para a conservação dos ecossistemas brasileiros – luta essa que consequentemente reverbera em estratégias de resiliência do país frente às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.

Portanto, cabe ao jornalismo acompanhar esses movimentos e manter o público engajado em possíveis soluções para que não haja apenas resignação e inação diante da catástrofe.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Recorde de conflitos no campo: qual a repercussão para além do release?

Imagem: Polícia Federal / Gov

Por Ângela Camana*

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou nesta segunda-feira, dia 22, o relatório “Conflitos no Campo 2023”, publicação anual que reúne dados da violência no meio rural brasileiro. Os dados são alarmantes: o país registrou o maior número de conflitos desde 1985, quando a série começou a ser publicada. Foram 2.203 ocorrências, envolvendo 950 mil pessoas; também foi recorde a quantidade de vítimas do trabalho escravo, com 251 casos denunciados e 2.663 pessoas resgatadas. A divulgação do relatório ganhou as páginas dos principais portais de notícias no Brasil, o que indica a consolidação do trabalho da CPT nas últimas décadas. Contudo, raros foram os veículos que se dedicaram a algo mais que a simples reprodução dos dados do documento – a exceção até aqui é A Pública.

Imagem: Captura de tela

Ao buscar fontes para ampliar as possibilidades interpretativas do que o relatório informa e ao elaborar um conjunto de gráficos e representações visuais, a Pública parece levar a sério a publicação e, ainda mais, o panorama dos conflitos no campo. Isto, evidentemente, não é fortuito, já que o portal possui um Mapa dos Conflitos alimentado com os dados da própria CPT, além de rotineiramente se dedicar ao tema das disputas ambientais no Brasil.

De acordo com os dados do relatório, as disputas por terra persistem sendo o principal motor dos conflitos no campo, seguidas por confrontos em torno à água. Em paralelo, os dados da CPT informam que indígenas, pescadores, ribeirinhos, quilombolas e assentados são os grupos que mais sofrem com a violência. O único texto que busca repercutir o sentido de tais dados é, novamente, o da Pública: de fato, talvez esta seja um dos poucos, senão o único, veículo que se dedica a uma cobertura contínua dos conflitos no campo e às relações entre as disputas e a forma predatória de ocupação da terra. Justamente pela ausência desta temática em outros veículos, não deixa de ser curioso que a repercussão do relatório no G1 esteja abrigada sob a cartola “Agro” – a despeito do termo não aparecer nenhuma vez ao longo do texto. É uma pena que a relação não tenha sido mais bem explorada, para além da meia palavra na editora.

Imagem: Captura de tela

Não é novidade que, por seu caráter sistêmico, os conflitos no campo pouco repercutam, à exceção de momentos em que a violência irrompe deixando mártires – o que parece se enquadrar melhor nos valores-notícia ainda em voga no país. Ainda que o relatório da CPT seja um importante esforço de catalogação dos conflitos no Brasil e que sua publicização pelos principais veículos já represente um ganho para aqueles que se ocupam de questões fundiárias e ambientais, o jornalismo convencional, ao se concentrar na reprodução de números de release e em histórias póstumas, parece ter escolhido um perigoso caminho.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Por que um ingrediente do veneno utilizado na Guerra do Vietnã é aplicado na agricultura familiar brasileira?

Imagem: Nosso Futuro Roubado

Por Isabelle Rieger* Ilza Maria Tourinho Girardi**

No domingo, 14 de abril, o programa Fantástico, da TV Globo, colocou no ar uma reportagem de autoria do jornalista Paulo Renato Soares, denunciando a aplicação do agrotóxico agente laranja, nas fazendas do pecuarista Claudecy Oliveira Lemes, do município de Barão de Melgaço, em Mato Grosso. Conforme a reportagem, agrotóxicos com a substância 2,4-D foram jogados sobre uma camada de floresta do Pantanal, em área de 80 mil hectares, equivalente à cidade de Campinas.

A reportagem informa também que o fazendeiro tem R$5,2 bilhões em autuações, desde 2019, por danos ao bioma. Além de destruir a floresta, ele expulsou dezenas de famílias para apropriar-se de uma área de 80 mil hectares. O desfolhante foi aplicado para transformar a área em campos de pastagem para a criação de gado.

Os investigadores encontraram em uma das fazendas notas fiscais que comprovam a compra de 240 toneladas de capim, de espécie exótica para substituir a área desmatada, outro problema para a biodiversidade. Conforme Jean Carlos Ferreira, fiscal da Secretaria do Meio Ambiente de Mato Grosso, ouvido pelo repórter no local da autuação, “quando ele joga diretamente do avião, além de matar essas árvores, influencia também diretamente na fauna, principalmente na água”.

Durante três anos foram lançados sobre a área 25 agrotóxicos diferentes, dentre eles o 2,4 – D. Essa é a mesma substância desfolhante encontrada no agente laranja, veneno usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1959-1976), para tentar vencer o inimigo que se escondia sob as árvores. O jornalista entrevista o professor Vanderlei Pignati, da UFMT, que afirma que o herbicida é bastante estável e é levado pelos ventos a uns 20 ou 30 km contaminando tudo. A secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso, Mauren Lazzaretti, também ouvida pela reportagem, declarou que houve uma mudança no protocolo de medidas impostas ao infrator, que passou a arcar também com a reparação dos danos ambientais. Outras fontes, como polícia, promotora de justiça e perito, mencionaram os danos à flora e à saúde das pessoas, além da questão legal. O jornalista tentou falar com o pecuarista, mas ele não quis dar entrevista.

A reportagem com 10 minutos e 41 segundos denuncia um problema ambiental grave, no entanto, poderia ter abordado com mais profundidade os danos do 2, 4 – D. A substância lançada sobre o Vietnã, junto com o 2, 4, 5- T, continua provocando doenças, como câncer e o nascimento de crianças com anomalias devido à sua periculosidade.

De acordo com os pesquisadores Gurgel, Guedes e Friedrich, nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, foram liberados 997 agrotóxicos. Entre 2019 e 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) finalizou a avaliação de ingredientes ativos de agrotóxicos mais utilizados no Brasil 2-4 D e o glifosato, além da abamectina, tiram e paraquate.

Conforme os pesquisadores, foi constituída uma Força Tarefa composta por representantes das empresas agroquímicas que atuaram na divulgação de  informações que atestam a segurança dos produtos, desqualificando a produção científica que apontava os riscos das substâncias. Além disso, o grupo fazia pressão para interferir nas decisões do governo e do legislativo. Tal procedimento não é novidade, pois ocorre desde a aprovação da Lei 7802, Lei dos Agrotóxicos, promulgada em 1989 e que incomodou muito a indústria agroquímica e seus prepostos no congresso e no governo em diferentes épocas.

A Anvisa concluiu pela não proibição tanto do glifosato como 2,4-D, além da abamectina e tiram. Manteve a proibição somente do paraquate. No entanto, conforme estudos acadêmicos, o 2,4-D é possivelmente cancerígeno, está relacionado ao desenvolvimento do Linfoma não Hodgkin (LNH), sarcomas, câncer de cólon e leucemia. Também “pode alterar o desempenho sexual e a fertilidade, exercer efeitos tóxicos no feto e em lactentes e interferir no desenvolvimento motor, comportamental, intelectual, reprodutivo, hormonal ou imunológico, provocando aborto ou morte nos primeiros meses de vida”, de acordo com Gurgel et al. no artigo Flexibilização da regulação de agrotóxicos enquanto oportunidade para a (necro)política brasileira: avanços do agronegócio e retrocessos para a saúde e o ambiente. Outro aspecto apontado pela literatura é que pode produzir dioxinas, que são classificadas como poluentes orgânicos persistentes, reconhecidas por causarem câncer e outros problemas.

O engenheiro agrônomo Jacques Lüderitz Saldanha, curador de conteúdo do site Nosso Futuro Roubado, lembra do caso das parreiras  na região da Campanha Gaúcha, que ficaram prejudicadas pelo uso de um herbicida na soja. Tal herbicida é o 2,4-D, empregado como substituto ao glifosato/roundup, que já não mata as ‘super-ervas’. Saldanha questiona: “Está-se acompanhando os efeitos em termos de saúde de toda a população que consome soja e outros vegetais do agronegócio?”. O site informa sobre como ficou o Vietnã e sua sociobiodiversidade após a guerra, assim como as medidas compensatórias realizadas pelos Estados Unidos. Porém, isso devolve a vida ou a saúde das pessoas? E a biodiversidade?

Voltando à ação da Anvisa, percebe-se que o princípio da precaução não foi acionado pela agência, que deveria considerá-lo, caso sua finalidade seja mesmo “promover a proteção da saúde da população, por intermédio do controle sanitário da produção e consumo de produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária, inclusive dos ambientes, dos processos, dos insumos e das tecnologias a eles relacionados, bem como o controle de portos, aeroportos, fronteiras e recintos alfandegados”. (Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999). A reportagem poderia ter apontado alguns desses problemas e questionado sobre quais estudos foram considerados para a liberação do produto. A finalidade do jornalismo, além de informar corretamente a população para que essa possa exercer sua cidadania, é fazer a vigilância dos poderes.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.

Quem ganha com a exploração do carvão?

Imagem: Eletrobras CGT Eletrosul

Por Eutalita Bezerra*

De acordo com o Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, que visa a “tornar públicas vozes que lutam por justiça ambiental de populações frequentemente discriminadas e invisibilizadas pelas instituições e pela mídia”, estão em andamento no Brasil, atualmente, doze conflitos gerados por termoelétricas. Um deles diz respeito ao Complexo Termelétrico de Candiota, na Campanha Gaúcha, que figurou no jornalismo nesta semana – com pompas – após anúncio da chegada de uma nova indústria.

O vultuoso investimento de R$ 420 milhões foi o grande destaque das publicações referentes ao projeto Ferroligas Candiota, que vai fabricar, no Polo Carboquímico de Candiota, uma liga metálica a partir do carvão. Em publicação veiculada no Correio do Povo do último dia 10, por exemplo, as únicas menções à questão ambiental envolvida são declaratórias e entreguistas: o governador Eduardo Leite teria afirmado que “o governo tem compromisso com o desenvolvimento sustentável, destacando a importância da responsabilidade ambiental para impulsionar a economia estadual”. O trecho destaca, ainda, que é papel do governo garantir “que a emissão de licenças ambientais seja baseada em análises detalhadas e em conformidade com a legislação”.

Do mesmo modo, o secretário do Desenvolvimento Econômico do estado foi ouvido, retomando a questão do meio ambiente. Conforme o texto, ele teria destacado “os esforços do governo para agilizar as análises relacionadas ao meio ambiente”. Já o prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador, teria focado sua atenção exclusivamente na possível geração de empregos. Apesar de ser tratado como tábua de salvação, é preciso destacar sempre que a exploração de carvão em Candiota traz graves problemas, além de nem sempre ser considerada uma boa opção do ponto de vista econômico.

Em 2022, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) publicou o Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas segundo o qual “Entre as dez usinas com mais baixa eficiência energética, cinco são movidas a carvão. Entre as piores estão Pampa Sul e Candiota III, com apenas 27% de eficiência.” Candiota III também foi considerada a usina a carvão mineral com a maior taxa de emissão entre todas as que forneceram energia ao Sistema Interligado Nacional em 2020, ano-base da pesquisa. Tudo isso colocou Candiota como um dos municípios mais emissores de gases do efeito estufa no país na mesma ocasião.

Há que se destacar, também, retomando o Mapa de Conflitos, que vários problemas de saúde e ambientais foram relatados desde a instalação das usinas termelétricas no município, culminando com a recomendação, em 2011, por parte do Ministério Público Federal, da suspensão da licença de operação de uma das usinas, além da paralisação e adequação de outras duas, pelo não cumprimento das exigências mínimas de controle da poluição emitida.
Abrir mão de tratar sobre estas questões quando se fala de Polo Carboquímico é um precedente perigoso que, nas grandes empresas de comunicação do Rio Grande do Sul, tem sido o habitual. Não se trata de negar a importância da geração de empregos e de receitas aos municípios, mas de estabelecer à custa de que isso está sendo possível.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio Ambiente. eutalita@gmail.com.

Livro e blog sistematizam pesquisas e práticas de Jornalismo Ambiental em Santa Catarina


Capa do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina

Por Míriam Santini de Abreu*

O conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é o objeto que a equipe da Revista Pobres & Nojentas, que desde 2006 atua em Florianópolis, vem buscando consolidar. A primeira iniciativa foi o lançamento, em dezembro de 2023, do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina”, com seis artigos de jornalistas que, em momentos de sua trajetória, escreveram sobre a relação entre sociedade e natureza no estado.  A segunda foi a criação de um blog, em fevereiro passado, para reunir pesquisas na área e também sobre a história do movimento ambientalista estadual.

A primeira análise do material localizado revelou a existência de cinco Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), seis dissertações, oito artigos e dois livros. A mais antiga pesquisa localizada foi a minha dissertação de mestrado em Geografia, de 2004, analisando o discurso jornalístico sobre o desenvolvimento sustentável. O mais recente, de 2024, é a dissertação de mestrado de Camila Collato intitulada “Jornalismo ambiental em Santa Catarina: direitos humanos e da natureza sob a perspectiva dos grupos RBS e NC”, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC.

As primeiras constatações com o levantamento foram as seguintes: 1) a revisão bibliográfica das pesquisas traz o conhecimento do jornalismo em geral e do jornalismo ambiental em particular, mas as pesquisas, independentemente da orientação teórico-metodológica e dos objetos empíricos, em geral não dialogam com trabalhos anteriores, ainda que poucos, produzidos no estado; 2) em minha dissertação, que completa 20 anos em 2024, afirmo que o espaço é constitutivo do discurso jornalístico sobre meio ambiente, mas verifica-se que as marcas da formação socioespacial catarinense praticamente não são levadas em conta nas análises.

A situação é incompatível com a realidade socioespacial tão diversa de Santa Catarina e a necessidade de um jornalismo que a interprete. O geógrafo Armen Mamigonian (2003) afirma que, no decorrer do processo histórico, delinearam-se em Santa Catarina três regiões industriais importantes identificadas como a região alemã, o Oeste agroindustrial e a região carbonífero-cerâmica do Sul. Cada uma dessas regiões lida com impactos ambientais comuns, como o desmatamento e a poluição do solo e da água, mas singulares na forma como se expressam no cotidiano da população. Porém, o jornalismo catarinense não tem abordado tão complexa realidade e parte expressiva das pesquisas localizadas também não leva em conta essas particularidades socioespaciais.

A recente pesquisa de Camila Collato é importante por dialogar com trabalhos anteriores e revelar a situação da cobertura na atualidade, concluindo o seguinte: a) a cobertura privilegia uma constituição antropocêntrica de sentidos, apoiando-se em uma base científica moderna em relação ao meio ambiente, sendo este abordado majoritariamente por meio do dualismo humano x Natureza; b) é fragmentária, ao apresentar uma baixa interlocução entre áreas de conhecimento e saberes e; c) por vezes, é fatalista, ao furtar-se do papel de fomentador de um debate público crítico sobre responsabilidades e possíveis soluções diante dos problemas ambientais enfrentados pela população. A autora destaca anda a baixa participação dos cidadãos, com a predominância de fontes documentais e oficiais, e um jornalismo orientado para a construção de sentidos de apelo modernizante por meio de discursos econômicos de matriz capitalista.

A conclusão desses esforços para consolidar o conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é que os dois grupos hegemônicos mais importantes de mídia no estado, NSC e ND, desconsideram a importância de interpretar jornalisticamente a grave realidade socioambiental regional, situação que vem se agravando com o enxugamento de profissionais nas redações, restando a sites de circulação local – como O Blumenauense e a Folha Metropolitana (Joinville) – a iniciativa de manter editorias sobre o tema, ainda que não haja pesquisas direcionadas à análise do material divulgado.

Referência:

MAMIGONIAN, Armen. Projeto integrado de pesquisa: Santa Catarina – sociedade e natureza. Relatório final de pesquisa. Florianópolis, 2003.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.