Observatório de Jornalismo Ambiental

Onde está a pluralidade de vozes? 

Imagem: rafapress/Shutterstock

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção. 

As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.

Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.

Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul.A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.

Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza. 

A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala. 

Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?

Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com.
** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.

As imagens da crise climática: do catastrofismo à banalização dos riscos

Imagem: Captura de tela do jornal SP1, afiliada à Rede Globo, exibido no dia 17 de novembro de 2023

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

“Sextou! Véspera de feriadão e a gente está por aqui. Estamos na praia ou não estamos, Jacqueline Brazil? Faz de conta que estamos na praia nesta véspera de feriadão”, disse o jornalista Alan Severiano a sua colega de bancada. “Esse céu azul… Vai ser mais um dia quente no litoral e aqui na capital, onde as temperaturas vão ficar maiores que ontem. Previsão para hoje? 36 graus. Tá bom para você, Alan?”, respondeu Jacqueline.  

Esse foi o diálogo de abertura da edição de sexta-feira (17) do telejornal SP1, emissora paulista afiliada à Rede Globo, protagonizado pelos jornalistas enquanto entravam ao vivo no estúdio sentados em cadeiras de praia e usando óculos escuros. A cena criada em tom descontraído trazia a previsão da onda de calor que assolou diversos estados do Sudeste e Centro-Oeste na última semana – se tornando um grande exemplo do que não se deve fazer no jornalismo quando os riscos climáticos são a pauta.

A informação foi trazida com humor, fazendo referência à praia – algo culturalmente associado às férias e momentos de lazer. Contudo, as temperaturas próximas dos 40 graus, e com sensação térmica atingindo os 60 graus, acarretaram uma busca por atendimento médico. Só no Rio de Janeiro, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), as unidades de emergência e urgência atenderam uma pessoa a cada duas horas com sintomas causados pelo calor extremo durante todo o fim de semana na cidade. Foram casos envolvendo insolação, queimaduras de segundo grau devido ao uso de bronzeadores ou relacionados à combinação de doenças crônicas com o calor. 

Uma cobertura jornalística “mais leve” diante de eventos climáticos extremos não apenas flerta com o negacionismo climático como presta um desserviço à saúde pública na medida em que, ao representar as altas de temperatura de forma positiva, faz com que os cidadãos não se sintam ameaçados ou não percebam o quanto podem ser impactados com os riscos iminentes das mudanças do clima. As notícias sobre as marcas históricas de calor no Brasil têm sido ilustradas, de modo geral, por fotos de pessoas à beira-mar ou em piscinas, como observamos nas matérias publicadas pela Folha de S.Paulo “Rio bate novo recorde de calor do ano com 42,5°C neste sábado (18)”, pelo Estadão “Sensação térmica chega a 52ºC às 8h da manhã em bairro da zona oeste do Rio” e pela GZH “São Paulo registra dia mais quente do ano e Rio tem sensação térmica de 50°C”. Tais escolhas podem gerar representações e percepções de que há, enfim, algo positivo para o brasileiro na crise climática: a possibilidade de desfrutar mais dias como aqueles vividos em uma época específica, onde geralmente não é preciso trabalhar e na qual o descanso é possível.

O fato é que, para a maioria da população, refrescar-se na praia ou na piscina nem sempre é uma opção. Na rotina do dia a dia, exercer as atividades de estudo e trabalho sob altas temperaturas impacta diretamente na concentração, disposição e, consequentemente, no desempenho das atividades em razão do estresse térmico elevado. Além dos prejuízos à saúde já citados (que podem, em situações extremas, causar mortes), as altas temperaturas podem afetar de forma significativa o setor agrícola, gerando perda de alimentos e aumento dos preços. O calor extremo também está relacionado à maior ocorrência de incêndios, o que resulta em sobreposição de riscos.

Um estudo realizado pelos pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que quase todos os brasileiros percebem as mudanças climáticas e acreditam que as ações humanas são responsáveis por elas, porém nem todos entendem a gravidade da crise climática. Segundo o levantamento, 94% das pessoas sabem que estamos passando por uma mudança climática e 91% entendem que o fenômeno é causado principalmente pela atividade humana. No entanto, apenas 56% acreditam que o cenário seja grave. 

A comunicação visual da emergência climática é um dos grandes desafios que precisam ser encarados pelo jornalismo. Estudos empíricos já demonstraram que imagens ligadas às catástrofes podem ocasionar paralisia ou apatia por parte dos públicos, não os encorajando a se envolver no enfrentamento do problema. Focar em representações trágicas pode gerar um alerta imediato, mas, a depender de sua frequência e do conjunto de informações que são apresentadas, pode contribuir com a naturalização do caos. 

Por outro lado, discursos otimistas, sobretudo associados ao desenvolvimento da ciência, como a geoengenharia, tendem a reforçar a ideia de que haverá alguma saída no futuro próximo e, portanto, não precisamos nos preocupar ou mudar nosso estilo de vida agora. Aproveitar a onda de calor para curtir uma praia segue nessa lógica: enfatiza um possível “benefício”, de curto prazo e destinado a uma minoria, enquanto minimiza as reais consequências negativas, que afetam a maioria, especialmente as populações mais vulnerabilizadas, e ignoram o efeito cascata, de médio e longo prazos.

Embora não existam fórmulas sobre como ilustrar a crise climática de modo a sensibilizar as pessoas de sua urgência e gravidade, há de se ter cuidado com a banalização dos riscos que permeiam a questão. Não há como noticiar a previsão de ondas de calor de forma descontraída, sem destacar os perigos da situação e formas de preveni-los ou minimizá-los. Essa escolha imprudente, de retratar uma notícia séria com leveza, está mais preocupada em atrair audiência do que com o interesse público. Não há como reduzir a solução das temperaturas extremas a um mergulho. Repensar as imagens que ilustram a cobertura climática é responsabilidade de todos aqueles que se comprometem com a acurácia da informação. 

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A luta e o fardo de Lúcio Flávio Pinto

A trajetória de Lúcio Flávio Pinto se confunde com a defesa da Amazônia / Imagem: Cedida por Lúcio Flávio Pinto ao site Mongabay

Por Sérgio Pereira*

A Rádio Novelo presenteou seus ouvintes no dia 9 de novembro com uma produção jornalística sensível, histórica e, por que não dizer, essencial. A reportagem em formato podcast intitulada “O fardo que carregamos” aborda, em dois atos, “histórias sobre como levar o mundo nas costas”, nas palavras da própria produtora carioca.

Ambos os atos são dignos de aplausos, mas ficarei aqui restrito ao primeiro, que enfoca o drama vivido pelo jornalista, professor e escritor Lúcio Flávio Pinto, de 74 anos. Estamos tratando aqui de um dos maiores jornalistas ambientais do Brasil, que há quase 60 anos dedica sua vida à defesa da Amazônia. Prova disso, em 2021, a Universidade Federal do Amapá lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa  em reconhecimento à sua trajetória.

Vencedor de quatro Prêmios Esso, o maior do jornalismo brasileiro, Lúcio Flávio lançou em 1987 o “Jornal Pessoal”, impresso criado para divulgar o que os outros jornais do Pará, seu Estado natal, temiam tornar público.

Bueno nos lembra que o Jornalismo Ambiental deve propor-se política, social e culturalmente engajado, porque “só desta forma conseguirá encontrar forças para resistir às investidas e pressões de governos, empresas e até de universidades e institutos de pesquisa, muitos deles patrocinados ou reféns dos grandes interesses”. Lúcio Flávio sabe disso como ninguém. Suas denúncias contra poderosos empresários do Norte do país lhe renderam dezenas de processos, ameaças de morte e agressões físicas. Mas nada disso o fez desistir da luta.

Agora, no entanto, o jornalista tem pela frente um adversário implacável: a Doença de Parkinson, diagnosticado há alguns anos. Em julho último, lamentavelmente, ele revelou em seu blog que estava largando o jornalismo diário por causa da moléstia, logo após se dar conta de um equívoco cometido em uma de suas postagens.

O texto, intitulado “Perdão, leitores”, traz a corajosa confissão: “Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva. Poderia continuar sem mudança minha atividade, apoiado no fato, comprovado cientificamente, de que não seria um erro voluntário, mas devido à doença, sobre a qual, nessas circunstâncias, não exerço controle”, reconheceu Lúcio Flávio.

Diante dessa perda irreparável para o Jornalismo, a Rádio Novelo produziu o primeiro ato de seu episódio 51, “O fardo que carregamos”, oferecendo aos ouvintes um resumo da trajetória do jornalista paraense e relatando o seu drama. A reportagem assinada por Flora Thomson-Deveaux vale cada segundo.

Dominado por grande carga emocional, Lúcio Flávio relata no podcast de pouco mais de uma hora os seus primeiros passos na profissão, fala sobre a decisão de lançar seu próprio jornal e relaciona alguns dos obstáculos que enfrentou nestes mais de 50 anos em defesa da Amazônia. E ainda expõe a sua doença e a difícil decisão que precisou tomar em nome da ética e da fidelidade aos seus leitores: deixar o jornalismo diário.

Lúcio Flávio, como um bom jornalista, encontra na elaboração de analogias uma ferramenta para racionalizar os fatos. “A Amazônia sempre foi vítima da modernização compulsória; da geração de dólar como atividade principal na Amazônia; do avanço das frentes econômicas; da segurança nacional pela povoação da região e pela transformação da floresta que abriga e esconde as pessoas em hidroelétricas, rodovias, cidades…  Eu me sinto como se eu fosse um símbolo da destruição da Amazônia. Eu me sinto uma pessoa em processo de destruição”, desabafa.

Hoje lhe incomoda as limitações da doença, principalmente os lapsos de memória. Mas ele se sente como “um soldado que não pode abandonar o front”, como se estivesse traindo a sua causa, traindo a sua razão de viver, que sempre foi a Amazônia.

Lúcio Flávio, no entanto, tem buscado formas de conservar viva a chama do jornalismo que sempre lhe manteve aquecido. Nos últimos meses, ele tem republicado em seu blog antigas reportagens. É a sua forma de continuar na ativa e uma oportunidade para que tenhamos acesso aos seus trabalhos premiados. São valiosas aulas de jornalismo .

Não podemos carregar o fardo de Lúcio Flávio, mas podemos (e devemos) reverenciá-lo por sua imensa trajetória. Devemos lhe agradecer por sua devoção em prol da Amazônia, por sua coragem em enfrentar o desenvolvimentismo governamental mesmo durante a ditatura militar, por sua abnegação. E por suas mais de cinco décadas dedicadas ao Jornalismo Ambiental.

Em tempo: não deixe de ouvir também o segundo ato de “O fardo que carregamos”, de autoria da jornalista Bia Guimarães: a história de Alessandra e seu doloroso processo de cura diante de um violento trauma.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, Curitiba, Editora UFPR, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897. Acesso em: 14 Nov. 2023.


Manchetes sobre desmatamento encobrem parte importante do problema

Mapa mostra as áreas sob risco / Imagem: Plataforma PrevisIA

Por Heverton Lacerda*

No dia 9 de novembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou os números do desmatamento na Amazônia entre agosto de 2022 e julho de 2023. No período, a área desmatada foi de 9.001 km², segundo o órgão do governo federal, com base no relatório anual do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).

As manchetes da imprensa, em geral, destacaram da seguinte forma:

G1: Inpe: taxa de desmatamento na Amazônia cai 22%
Folha de São Paulo: Desmatamento na Amazônia fica abaixo de 10 mil km2 pela primeira vez desde 2018
Poder 360: Desmatamento na Amazônia tem redução de 22% em 1 ano
Congresso em Foco: Desmatamento na Amazônia cai 22% em 2023. AP e PA puxam a queda
Gazeta do Brasil: Inpe: Desmatamento na Amazônia tem queda de 22,3%
CNN Brasil: Desmatamento na Amazônia cai 22% em um ano, mas onda de queimadas preocupa

Ainda que seja possível perceber uma ampliação do nível de detalhes e aprofundamento nas matérias jornalísticas sobre meio ambiente nos últimos anos, o que já era de se esperar, em função da previsível e fartamente anunciada ampliação da crise climática no último meio século, os enfoques ainda carecem de contextualização. No caso específico dos números do desmatamento na Amazônia, a comparação está sendo feita e divulgada com os mesmos parâmetros percentuais que se mede, por exemplo, os índices da inflação ou do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, o destaque está para a variação entre períodos, sejam eles mensais ou anuais, quando, na verdade, o que mais importa neste caso da supressão de área de floresta pelo desmatamento é o total e, ainda, o aumento contínuo, mês a mês, ano a ano.

Algumas matérias chegam a avançar, apresentando informações sobre a complexidade da questão, quando apontam, por exemplo, que a floresta tem perdido sua circunferência de proteção (zona de amortecimento) e que isso afeta mesmo o interior mais profundo da mata, ou ainda que a qualidade natural de alguns setores já não apresentam mais a mesma diversidade que protege o ecossistema.

O gráfico do Inpe apresentado na matéria do G1, com dados de 2001 a 2023, mostra que o recorde do desmatamento foi de 27,7 mil km² em 2004 (não consta no gráfico do G1, mas o Inpe informa que o maior desmatamento registrado desde a criação do sistema Deter foi em 1995, com 29 mil km² desmatados). O texto do G1 também ressalta que 2012 foi o ano que teve a menor área desmatada, 4,5 mil km². Em geral, as matérias também destacam os esforços dos governos para diminuir o desmatamento a partir de 2004, assim como a retomada da ampliação de áreas desmatadas no governo Jair Bolsonaro.

No entanto, um número importante e que não aparece é o resultado da soma do desmatamento, que, de 2001 até hoje, apresenta um total de 235.102  km² de área suprimida da Amazônia. Outros números ainda precisam entrar nessa contabilidade ambiental para que não se perca a dimensão total do que está acontecendo com a Amazônia. Em 2013, na ocasião do aniversário de 25 anos do Prodes, foi publicado no site do Inpe um número ainda mais impactante: a Amazônia, conforme dados de satélite, já havia perdido “752 mil km², cerca de 19% da floresta original”, na época.

Ou seja, as manchetes que se limitam a informar números parciais, ainda que estejam corretas, acabam por encobrir parte importante do problema, a sua dimensão total. É evidente que nem toda a informação cabe em uma manchete, mas quando nem o miolo do texto apresenta dados fundamentais, podemos estar com algum problema sério (e simples) para resolver. Duas sugestões de manchetes, para que encontrem variações criativas, são Desmatamento da Amazônia continua aumentando; Desmatamento cresce e atinge X% da floresta amazônica. A variação anual da taxa poderia ficar para a linha de apoio. São escolhas editoriais que podem auxiliar o leitor a ter uma compreensão mais apurada da gravidade o desmatamento na Amazônia.

*Jornalista, ativista ambiental, especialista em Ciências Humanas, mestrando no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCPM/UFRGS) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Procura-se a faceta “ambiental” dos problemas urbanos no jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.

A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.

A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.

A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

A falta de crítica da imprensa sobre o mercado de carbono

Imagem: Peter Werkman/Unplash

Por Janaína C. Capeletti

A Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou no início de outubro, o projeto de lei (PL) 412 de 2022, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Aprovado de forma terminativa, o PL já tramita na Câmara do Deputados.

O texto do PL institui um órgão regulador, denominado de Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), que será o responsável por determinar os setores da economia sujeitos a tetos de emissões e por conceder permissões de emissão às empresas. Cada uma dessas autorizações de emissão, chamadas de Cotas Brasileiras de Emissões (CBE), equivale a uma tonelada de CO2 ou o equivalente em outros gases de efeito estufa.

Ficam sujeitas ao SBCE empresas e pessoas físicas que emitirem acima de 10 mil toneladas de gás carbônico equivalente (tCO2e) por ano, que devem monitorar e informar suas emissões e remoções anuais de gases de efeito estufa. Quem emitir acima de 25 mil toneladas de CO2 ficará sujeito a regras mais rígidas, com previsão de sanções e multas para os casos do descumprimento de metas.

Resumidamente, no mercado de carbono, os setores regulados recebem permissões para emitir uma certa quantidade de gases poluentes. Quem emitir menos que a sua cota pode vender o seu saldo positivo para empresas que excederam os seus limites de poluição.

O valor de cada crédito de carbono depende do mercado onde ele é negociado. No mercado voluntário, o crédito tende a ser mais caro do que o do mercado regulado. Hoje, no Brasil, existe somente o mercado voluntário de carbono, no qual qualquer empresa, pessoa ou governo pode gerar ou comprar créditos de carbono, que são auditados por uma entidade independente, porém, não são contados nas metas de redução de emissões de países no Acordo de Paris. Ou seja, a demanda nos mercados voluntários de carbono não surge a partir de um teto regulatório, mas de empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar ou neutralizar sua pegada de carbono, e de investidores que exigem que as empresas de seu portfólio se tornarem neutras ou zero carbono.

O mercado de carbono não é novidade. Fala-se nele desde o Protocolo de Quioto, em 1997. No Brasil, contudo é uma expressão que tem aparecido na mídia com mais frequência nos últimos anos, especialmente com o boom do ESG (Environmental, Social and Governance) e dos compromissos empresariais com a sustentabilidade.

A aprovação do PL foi noticiada em grandes veículos, que além de explicarem o conteúdo da proposta do legislativo, destacaram a ausência no texto da regulamentação ao agronegócio. A Frente Parlamentar Agropecuária negociou com a relatora do projeto, a senadora Leila Barros (PDT/DF), para que o agro ficasse de fora. A justificativa é que não existem formas precisas para medir a emissão de carbono de atividades do campo e que os principais mercados de carbono do mundo não incluem a agricultura e nem a pecuária.

Um estudo inédito do Observatório do Clima, lançado na terça-feira (24/10), estima que os sistemas alimentares responderam em 2021 por 73,7% (1,8 bilhão de toneladas) das 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa lançadas pelo país na atmosfera. Conforme Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, “esse relatório deveria ser lido pelos representantes do agronegócio e pelo governo como um chamado à responsabilidade”.

Assim, voltando à repercussão do PL, os veículos de imprensa cumpriram o seu papel em noticiar o fato, explicar o contexto, como os sites do Globo Rural, da CNN Brasil, do Valor Econômico, do Estadão. Alguns destacaram a falta de inclusão do agro como JOTA e o Money Times. O site O Eco analisa, por meio da opinião de dois especialistas, como ficará a regulamentação sem o agro. O Capital Reset também propõe uma reflexão sobre o tema.

Apesar de ser um tema complexo e de relevância socioambiental para o Brasil, não são percebidas nestas coberturas nenhuma preocupação com os pressupostos do Jornalismo Ambiental. Nota-se que as notícias não propõem um questionamento sobre a real eficácia do mercado de carbono em tempos de emergência climática, ou se é uma solução eficaz para contribuir com a descarbonização do país. Este tipo de cobertura também não prioriza a aproximação com o leitor não especializado. Não há a intenção de engajar e envolver o público para uma tomada de posição ou para uma reflexão sobre o tema.

O assunto ainda é embrionário no Brasil, integra a agenda do atual Governo Federal e do mercado. Assim, mesmo que utópico, se faz necessário insistir para que a imprensa, de modo geral, amplie o olhar para a complexidade do tema e busque abarcar vozes, saberes e alternativas que expandam o debate vigente de forma mais crítica.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Queimadas no Amazonas: também cabe ao jornalismo apurar responsabilidades

Imagem: Camila Garce Idesam/Flickr

Por Débora Gallas*

Ciclonesenchentescalor recordeseca… Relatar as causas e consequências desses eventos climáticos extremos na vida da população tem sido desafiador para jornalistas brasileiros. É possível observar que a sobreposição de emergências afeta diretamente a cobertura: a imprensa nacional não tem dado a merecida atenção às queimadas que assolam a região metropolitana de Manaus pelo menos desde setembro.

É verdade que o assunto esteve em pauta em grandes portais como FolhaValor e g1 especialmente entre os dias 11 e 13 de outubro, período em que a qualidade do ar em Manaus se tornou uma das piores do mundo. A cobertura desses veículos inclui fontes da ciência para explicar como os efeitos do fenômeno El Niño e a degradação ambiental contribuem para que a cidade seja tomada por fumaça, vinda sobretudo de focos no município de Autazes e nas adjacências da BR-319, que liga Manaus e Porto Velho. Também são ouvidas fontes oficiais, que explicam onde estão os principais focos de queimadas e quais providências que estão sendo tomadas, como a prisão de suspeitos de atear fogo em áreas de floresta.

As matérias publicadas na última semana carecem, porém, de alguma apuração própria desses veículos no local dos fatos. Diante de outro gravíssimo acontecimento que atinge o estado – a seca histórica de rios amazônicos – e de pautas igualmente urgentes de outras editorias – como a guerra entre Israel e Hamas –, há o risco de as atenções se dividirem e o tema sumir do noticiário assim que a fumaça se dissipar e o problema parecer controlado. É interessante lembrar que, em agosto de 2019, bastou que uma nuvem cinza encobrisse o céu de São Paulo para que as queimadas na Amazônia tomassem o noticiário nacional e a ação apelidada de “dia do fogo”, apurada primeiramente pelo jornal paraense Folha do Progresso, ganhasse repercussão em todo o país.

Leitores de todo o país certamente podem contar com a cobertura qualificada de veículos locais. Ainda em julho, reportagem de Amazônia Real apontava a previsão de cientistas sobre o aumento dos focos de queimadas no maior bioma do Brasil durante o ápice da estação seca – justamente o mês de outubro. Alerta semelhante foi realizado por Vocativo em 8 de setembro, que destacou a possibilidade de piora da fumaça que já tomava Manaus naquele momento. Mais recentemente, Vocativo repercutiu a coletiva de Marina Silva em Manaus no dia 13 de outubro, em que a ministra destacou a origem criminosa dos incêndios. Amazônia Real, por sua vez, está em campo para destacar os prejuízos diretos das queimadas à saúde pública.

Apesar do árduo trabalho dos veículos independentes na abordagem das causas e consequências, urge que, em um evento com essa gravidade, os gestores de veículos que se apresentam como nacionais – e possuem estrutura e financiamento condizentes com tal pretensão – mobilizem ampla base de correspondentes ou repórteres freelancers locais para reforçar a investigação jornalística. A sociedade precisa conhecer os CPFs e CNPJs envolvidos na destruição para lhes atribuir as devidas responsabilidades – e o jornalismo é essencial para que essas e outras informações de interesse público venham à tona. Afinal, como falar de solução para crise ambiental sem haver conhecimento sobre a origem dos problemas?

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Racismo ambiental persiste na cobertura das inundações em Santa Catarina

Imagem: Satélite do Google Maps mostra situação da véspera na barragem. Acesso: 12 out. 2023, 15h.

Por Eliege Fante*

Poucos dias após o alívio com a decisão do STF, contrária à tese do marco temporal, os povos originários da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ sofrem com reveses dos governos e da grande imprensa.

A pressa é inimiga da apuração jornalística, ainda mais quando há um desequilíbrio no acesso às fontes oficiais. Relacionado à cobertura do fechamento das comportas da Barragem Norte, ocorrido sábado (07/10), no município de José Boiteaux (SC), situada no Território Indígena (T.I.) Xokleng, Guarani e Kaingang (Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ), vimos, ouvimos e lemos repetições de discursos de fontes oficiais do governo de Santa Catarina, em espaço desproporcional e em detrimento de outras fontes desta pauta: as indígenas. Espalhar informações simplificadas e limitadas gera o risco de produzir desinformação e de colher comentários racistas contra os povos originários e de ódio de todos os lados.

“A diversidade de racionalidades é o maior patrimônio da espécie”, lemos neste texto do falecido geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves, cujo destaque incentiva a escuta plural de todas as partes envolvidas numa pauta. Neste sentido, traremos a seguir informações relevantes a serem consideradas na produção jornalística dada a complexidade do tema, e que mesmo disponíveis, não são trazidas ao grande público.

Sobre o racismo ambiental, diferentemente do que vem sendo noticiado, o governo de Santa Catarina não teria cumprido o acordo com os povos da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ. É o que consta na decisão judicial da manhã desta quinta-feira (12/10), a qual determina que União e Estado de Santa Catarina tem 24 horas para cumprir as “medidas mitigatórias acordadas e assentadas”, e que o estado catarinense deve “apresentar relatório técnico relativo à operação excepcional da barragem (com eventuais recomendações de novas intervenções – abertura/fechamento de comportas), considerando as previsões e ocorrências de novas precipitações na bacia coletora”. As referidas medidas constantes na decisão judicial publicada no final da noite de 07 de outubro, são sete: Desobstrução e melhoria das estradas; Equipe de atendimento de saúde em postos 24 horas; Três barcos para atendimento da comunidade; Ônibus para atendimento da comunidade até a cidade; Água potável na aldeia; Fornecimento de cestas básicas; Ficou acordado que após as comportas serem fechadas algumas casas ficarão submersas e por esse motivo deverão ser construídas novas casas para essas famílias, em local seguro e longe do nível do rio.

Sobre o racismo ambiental, a Barragem Norte é uma das três no estado utilizadas para conter cheias do Rio Itajaí-Açu, cuja capacidade de reserva de 355 milhões de metros cúbicos de água pode causar alagamentos e até inundação em uma área de aproximadamente 870 hectares do Território Indígena Laklãnõ Xokleng. É importante utilizar o conversor de Hectômetro para demonstrar o real volume de água. Estes fatos já foram registrados em cheias anteriores, daí o clamor dos indígenas (dias antes de 07/10) pelo não fechamento das duas comportas diante da grave ameaça de deixar embaixo d’água diversas aldeias do T.I. Essas e outras fundamentais informações constam no documentário de 2015 “Enchente – O outro lado da Barragem Norte”, de 37 minutos, que expõe as desumanas condições vivenciadas no território desde a construção da Barragem Norte. A internet e as redes sociais facilitam uma aproximação entre comunicadores e jornalistas indígenas, por isso é necessário buscar informações em perfis como o da Juventude Xokleng e da comunicadora Ingrid Satere Mawé.

Sobre o racismo ambiental, se o fechamento das comportas está relacionado com a manutenção da data da Oktoberfest em Blumenau (início em 11/10), este foi um debate adjacente aos impactos do evento climático extremo em Santa Catarina, mas presente nas redes sociais indígenas e de direitos humanos. O Cacique Alison Voia de Lima da Aldeia Sede da T.I. Laklãnõ Xokleng confirma (07/10/2023) o posicionamento da sua comunidade de não fechamento das comportas da barragem do território indígena. E contou o que ouviu durante a reunião com autoridades do estado de Santa Catarina: “Por causa dessas comportas que estão abertas a oktober vai ser suspendida por uma semana.

Além do Cacique Xokleng, o prefeito de Taió, Alexandre Purnhagen, também aludiu ao megaevento, na noite de terça (10/10), o fechamento de comportas da barragem do município. Ao pedir a reabertura das comportas à autoridade estadual da Defesa Civil, o prefeito afirmou: “Eu vou culpar a Oktoberfest. Taió também faz parte deste estado. Eu não estou preocupado com bilheteria de Oktober, eu estou preocupado com vida de taioense. Vocês precisam abrir estas comportas. Blumenau não precisa ter todas as ruas na condição de seco.

Diferentemente da reivindicação indígena, o pedido do prefeito de Taió teria sido atendido horas depois, considerando a notícia do governo estadual sobre a abertura gradativa das comportas das barragens (Sul, em Ituporanga, e Oeste, em Taió), exceto da Barragem Norte, a que atinge o território indígena. Mas, a notícia do início da tarde desta quinta-feira (12/10) apresenta a situação das três barragens como fechadas

O megaevento turístico iniciou em Blumenau, na véspera deste feriado de Dia das Crianças, apesar do alerta vigente da Defesa Civil de alto risco de “temporais localizados em todo o estado com possibilidade de chuvas fortes, descargas elétricas, ventos intensos e queda de granizo. Alagamentos, deslizamentos, enxurradas e inundações graduais, o risco permanece muito alto”. Mas, foi suspenso novamente, na manhã do feriado, devido aos riscos de alagamentos no município. O retorno da programação ficou para o final da tarde desta sexta-feira (13/10).

Sobre o racismo ambiental, o relato da indigenista Georgia Fontoura sobre a reunião realizada na tarde de sábado (07/10), na T.I. Laklãnõ Xokleng, aponta o descumprimento, pelo governo catarinense, do acordo feito através do secretário de infraestrutura do estado com as demais autoridades, “de enviar mantimentos, barco, remédios e atender as famílias isoladas e atingidas pela cheia do lago de contenção”, considerando a desativação desde 2014 e não execução do plano de contingência. Três dias depois, Georgia publicou informações mais completas no artigo “As chuvas e os bugreiros” com outros indigenistas na Revista Fórum. E, sobre a mesa de negociação de domingo (08/10), o deputado Marquito (Psol) relata o pedido ao governador de Santa Catarina para que mantivesse o acordo firmado com os indígenas através do secretário. “A motivação do governador de ter colocado as forças de segurança e ter fechado as comportas sem uma análise técnica e política foi um grande erro”, afirmou.

Enquanto isso, a preferência na cobertura de pautas que ligam indígenas à violência, como aponta o Minimanual Como cobrir temas indígenas, confirmou-se na cobertura do chamado “confronto” entre indígenas e polícia militar na noite de 07 de outubro para o fechamento das duas comportas. É urgente problematizar:

1 – “as consequências que poderá provocar na vida e no território desta população, cuja sobrevivência também passou a estar em risco. Questiona-se ainda o uso excessivo da força que resultou em indígenas feridos”, conforme Nota da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);

2 – as declarações da Defesa Civil estadual referente aos impactos negativos causados pela barragem no T.I. Laklãnõ Xokleng na palestra “de instrução e sensibilização sobre a presença indígena em Santa Catarina e Blumenau para policiais militares do 10º Batalhão da PM”;

3 – a condenação em 2017, segundo indigenistas, do estado de Santa Catarina, da União e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em “implementar ações compensatórias e de segurança relativas à Barragem Norte”, o que não teria sido cumprido;

4 – a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de rejeitar a tese do marco temporal em processos demarcatórios, que é favorável ao povo da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ, após um dos maiores julgamentos da história do STF, foram onze sessões. O julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 1017365 está relacionado a um pedido do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina de reintegração de posse de uma área localizada em parte da Reserva Biológica do Sassafrás (SC). A tese da repercussão geral (Tema 1.031), a partir deste julgamento, será utilizada na resolução de ao menos 226 casos semelhantes.   

No decorrer da semana, notícias continuaram insistindo na culpabilização do povo indígena. Referente à veiculação de informações sobre a suposta negativa de abertura das comportas, o cacique Setembrino Camlen esclareceu que esta decisão é da defesa civil e do governo do estado. “Não é que a comunidade não está deixando operar a barragem, a comunidade não vai impedir que a equipe faça o trabalho que quer fazer. Estamos aqui num momento difícil, a comunidade está se deslocando das aldeias, estão ilhados, tem casa deslizando, então o pessoal está vindo com medo e por isso estão acampando.” Há mesmo muito a ser ouvido. O jornalismo possui as condições, mas a grande imprensa brasileira conseguirá mudar o padrão de cobertura?

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.

A causa da tragédia é o El Niño. Será?

Nasa capta imagem do El Niño / Imagem: Sentinel-6 Michael Freilich/Nasa

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

Em toda a sua extensão, o Brasil tem vivenciado uma série de ocorrências de eventos climáticos extremos. Enquanto o Rio Grande do Sul tenta se recuperar após a passagem de nove ciclones em apenas três meses, estados da Região Norte enfrentam uma das mais graves estiagens de sua história. Os rios da região amazônica estão se transformando em bancos de areia, minando as possibilidades de deslocamento das populações — não é possível ir à escola nem aos postos de saúde. No Rio Negro, as embarcações encalham, prejudicando o abastecimento de água potável e alimento para os ribeirinhos. O combustível também não chega para fins de iluminação. Em outros pontos, a baixa profundidade e o aquecimento das águas têm causado a mortandade de peixes e mamíferos aquáticos, como no Lago Tefé em que mais de 100 botos foram encontrados mortos. Soma-se a isso a facilidade de expansão dos focos de incêndio em razão das temperaturas, estiagem e descida do nível das águas dos rios.

Esse cenário observado nos últimos meses pode, em parte, ser atribuído à influência do El Niño, caracterizado pelo aumento de chuvas no sul e secas prolongadas no norte e nordeste, combinado com o aquecimento do Oceano Atlântico Norte. Os dois fenômenos inibem a formação de nuvens e chuvas no Norte do País, o que acentua as características típicas do chamado “verão amazônico”, que costuma ser mais seco. Entretanto, de acordo com especialistas, a intensificação desses fenômenos precisa ser vista a partir de um contexto mais amplo, de transformação do ambiente e alteração do que até então se conhecia sobre o clima.

No caso da seca histórica que afeta os estados da Região Norte, a combinação do desmatamento e das queimadas na Floresta Amazônica tem relação direta, pois prejudicam a capacidade que o bioma possui de produzir umidade e de reter gases do efeito estufa. Por conta disso, a região se torna mais suscetível aos mais variados tipos de desastres climatológicos. Carlos Nobre, climatologista, explica que a seca, quando somada ao desmatamento da região, desregula o oferecimento de chuvas e prolonga esse período: “Em todo o sul da Amazônia, nós temos mais de 35% de áreas desmatadas e degradadas. Durante a estação seca, a Amazônia recicla muita água, cerca de 4,5 mm de água por dia. São 4,5 litros de água por metro quadrado de floresta. Já na pastagem muito degradada, ela recicla no máximo 1,5 mm. Com isso, há menos vapor de água na atmosfera, menos chuva durante a estação seca”.

Desde agosto — quando a seca no Amazonas ganhou repercussão nacional — o Portal g1 tem realizado a cobertura dos impactos no âmbito social, econômico e ambiental. No entanto, percebe-se que ao focalizar nos efeitos imediatos, o g1 acaba por não relacionar a situação com o desmatamento e com a crise do clima. 

Foram analisadas 47 notícias publicadas no período de 1º de agosto a 3 de outubro de 2023. O filtro das matérias foi realizado no buscador disponível no site do g1, por meio das palavras-chave “seca”, “estiagem” e “Amazonas”. 

Desse total, apenas quatro notícias estabelecem uma conexão entre o evento extremo de seca e as mudanças climáticas. São elas: “Especialistas analisam causas dos fenômenos climáticos catastróficos dos últimos meses no planeta”; “Seca fora do normal em rios da Amazônia tem relação com El Niño e aquecimento do Atlântico Norte; entenda” (traz uma citação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva); “Sem água na torneira, comida mais cara: o suplício das famílias em seca histórica na Amazônia” (apresenta a análise de José Genivaldo Moreira, doutor em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos e professor da Universidade Federal do Acre); e “Temperatura em lago no AM chegou a 40ºC em dia com pico de morte de botos; instituto soma 125 mortes” (entrevista Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisas em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá).

Além disso, verificou-se que o enquadramento predominante é sobre os efeitos imediatos, sem trazer uma contextualização que relacionasse a degradação do bioma com o agravamento da estiagem. Quando há uma tentativa de explicação sobre as causas do problema, detém-se em mencionar a combinação de fatores naturais, construindo uma (falsa) ideia de inevitabilidade. Como ocorre nas matérias “Seca no Amazonas deixa cidade em emergência, afeta navegação e dificulta acesso a água potável”, que traz uma nota da Defesa Civil atribuindo a intensificação da seca e o aquecimento anormal nas águas somente ao fenômeno El Niño, e “O que é o fenômeno El Niño e como ele vai afetar o inverno”, que chega a afirmar em determinado trecho do texto que não há nenhuma relação entre El Niño e o aquecimento global, embora na sequência diga que as mudanças climáticas podem alterar fenômenos como esse. A afirmação é dúbia e gera desinformação. Especialistas já apontam o aquecimento global como um fator determinante da frequência e da intensidade do fenômeno. Tal abordagem invisibiliza o debate da responsabilidade da atuação humana no desequilíbrio climático.

A devastação da floresta é um propulsor da emergência climática, que tende a ser mais sentida justamente por aqueles que dependem diretamente da natureza para sua sobrevivência e não conseguem manter seus modos de vida. Com um tempo mais seco e escassez de água, os incêndios terão mais chance de se propagar e alimentar ainda mais o contexto de superaquecimento ou fervura climática. Uma crise humanitária, com aumento de doenças respiratórias decorrentes das queimadas, e falta de água e comida, está em curso. Mais de 170 mil pessoas já foram impactadas e outras ainda deverão ser atingidas, pois a previsão é de um processo longo e intenso. 

O Jornalismo tende a reportar os desastres longos, como é o caso das secas, quando se evidenciam situações-limite em que a possibilidade de ação está na fase de resposta, dificultando a cobrança por ações de mitigação e prevenção a partir da invisibilidade, do apagamento da questão na agenda pública. Diante das manifestações frequentes da crise ambiental, cabe aos jornalistas incluírem o clima como valor-notícia não apenas na cobertura dos extremos, mas no rol das pautas cotidianas. Só assim poderemos conectar causas e consequências, e, tomara, agir sobre o planeta de forma mais responsável.

*Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Estamos preparados para as consequências das mudanças climáticas?

Imagem: Silvio Avila/Getty Images

Por Carine Massierer*

A pergunta pode gerar choques, mas parece que alguns seres humanos só conseguem realmente crer que as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano quando ciclones, vendavais e outros eventos climáticos batem às suas portas e causam prejuízos materiais, emocionais ou levam vidas. Isto é o que tem ocorrido no mês de setembro, no Rio Grande do Sul, e as notícias sobre o tema tomam contam das manchetes em rádios, jornais, canais televisivos e até na Internet, como aparece na imagem abaixo:

Imagem: Print da página inicial do buscador Bing.com

Uma dessas notícias é a publicada em 26 de setembro no Site G1 (Setembro é o mês mais chuvoso de Porto Alegre em 107 anos, aponta Inmet | Rio Grande do Sul ), que mostra que este mês já é o mais chuvoso em 107 anos em Porto Alegre, capital gaúcha. A fonte da informação é o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que aponta como maior índice desde 1916, quando a medição passou a ser registrada. Em 1941, a precipitação pluviométrica chegou a 405,5 mm e, em 2023, até o dia 26 de setembro, está em 413,8mm. As informações acabam deixando as pessoas apreensivas e o total de atingidos pelos desastres aumenta a cada dia.

O número de pessoas afetadas pelas enchentes tem se ampliado e uma das matérias que chama a atenção para isso é a publicada na Folha de São Paulo em 24 de setembro: Chuva: Registro de desastres foi recorde em 2022 no Brasil – 24/09/2023 – Ambiente – Folha (uol.com.br). Segundo dados da Defesa Civil Nacional, que dão origem a esse texto do jornal, as chuvas atingiram o maior índice em 2022, num período de dez anos. A matéria é muito bem elaborada e contém uma análise sobre o aumento de vítimas e a ligação com momentos em que ocorreram eventos extremos. Além disso, os jornalistas entrevistaram um professor da Universidade de São Paulo (USP), um meteorologista, o coordenador de articulação política da Frente Nacional dos Prefeitos eapresentaram dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), do Ministério da Ciência e Tecnologia, dentre outras fontes de informação. O texto é informativo, qualificado e um alerta que aponta, inclusive, que os dados de 2023 ainda não estão consolidados, mas que, pelo andar das coisas, é um ano em que alguns estados, especialmente o Rio Grande do Sul, vêm sendo destroçados pelo poder das chuvas intensas.

E não fomos avisados disto? Sim, fomos, pelos pesquisadores brasileiros e mundiais, pelos ambientalistas, há mais de 50 anos, e pela imprensa nas últimas décadas. Nesta matéria de março de 2023, de GZH (Qual a diferença entre El Niño e La Niña?), já haviam informações sobre as intercorrências causadas pelo La Niña e que o El Niño passaria a alterar os padrões climáticos neste ano, o que já havia sido anunciado em final de 2022 pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês).

Se, desde 2022, os anúncios foram feitos, de fato espera-se que não só os governos se preparem para a adaptação e mitigação da crise climática, mas também cada ser humano faça a sua parte. No momento atual, estamos vivenciando as mudanças climáticas, mas, na prática, nem criamos o diálogo e entendimento de que a Comunicação de Riscos é peça chave na gestão de risco em âmbito público, privado e governamental, e nem pensamos em estratégias para a adaptação e mitigação climáticas a curto, médio e longo prazo.

Há muito para fazer, mas o importante é arregaçar as mangas e começar a tratar e dialogar, de forma séria e centrada, sobre as mudanças climáticas, para dirimir as consequências avassaladoras para a vida na Terra.

Leia mais em: La comunicación del cambio climático, una herramienta ante el gran desafío.

*Jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).