Observatório de Jornalismo Ambiental

As respostas do Pampa para as mudanças climáticas 

Imagem: Representantes de sindicatos, associações e de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Só faltou mesmo a grande imprensa. / Eliege Fante

Por Eliege Fante* e Carine Massierer**

Esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, o bioma sulino possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

Temos ouvido a respeito das soluções baseadas na Natureza e da bioeconomia, especialmente nos últimos dias durante a COP29. São dois conceitos recentes e já apontados por especialistas como chaves para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, bem como adaptar a economia visando manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius.

A pecuária familiar em campo nativo no Rio Grande do Sul, tradicional e secular modo de vida e de geração de renda onde humanos e natureza vivem ancestralmente em harmonia, consiste numa possibilidade efetiva para contribuir com a mitigação do aquecimento global. Os resultados das pesquisas científicas acumulam-se há pelo menos quatro décadas, mas na grande imprensa, este tema quase não aparece.

Considerando que a grande mídia brasileira fez coberturas diárias da COP29, teria sido uma excelente oportunidade ofertar conteúdos que aproximassem as preocupações das nações com as nossas lidas diárias que podem contribuir, na prática, para um futuro sustentável, como é o caso dessa pecuária em campo nativo.

Em paralelo a COP29, aconteceu o Seminário da Pecuária familiar das Palmas, em Bagé (RS), (dias 22 e 23 de novembro) com representantes de sindicatos e associações, de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Não faltaram autoridades, as fontes oficiais preferidas pela grande imprensa. Sem contar que teria sido válido ouvir os próprios pecuaristas familiares ainda mais porque estamos às vésperas do Dia do Bioma Pampa, 17 de dezembro.

O Seminário reuniu cientistas, técnicos e pecuaristas que conclamam o reconhecimento da pecuária familiar gaúcha em campo nativo enquanto conservadores da biodiversidade pampeana como alertava o título do evento: “300 anos de invisibilidade”.

Durante o evento o médico veterinário da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba, afirmou (aqui gravado) que os pecuaristas, apesar de invisibilizados, contribuem com sua lida para a segurança alimentar sem agredir o meio ambiente: “nós manejamos através da pecuária uma conservação permanente da cobertura do solo com este tamanho de biodiversidade que aqui tem (ao menos 45 espécies da flora campestre por metro quadrado), a água que cai, infiltra, alimenta os repositórios de água subterrâneos, corre para a sanga, da sanga para o arroio, do arroio para o rio, do rio para a lagoa, da lagoa para o mar, daí evapora, e volta na forma de chuva. Portanto, ao produzir carne também produzimos água no sentido de que o ciclo da água permanece funcionando. Nós sequestramos carbono; essa região é um dos maiores depósitos de carbono acumulado do Rio Grande do Sul na forma dessa vegetação composta por campo conservado e mato. Ninguém reconhece isso.”

Qual a parcela de responsabilidade da grande imprensa sobre essa falta de reconhecimento? A invisibilidade deste tema na mídia brasileira não é coerente com a emergência das mudanças climáticas. Temos que fazer coberturas mais amplas: “A ocupação das pessoas é um dos maiores desafios enfrentados e, nós aqui, não precisamos ir para a cidade se não quisermos. Podemos ficar fazendo vida, história, cultura, produzindo alimentos de alta qualidade através do uso da luz do sol, da água da chuva e conservando a biodiversidade,” disse Borba a respeito da autonomia dessa pecuária em campo nativo.

Enquanto o desenvolvimento do Rio Grande do Sul é planejado por governos e corporações transnacionais de forma dependente do pacote tecnológico da monocultura da soja e do eucalipto, e de irrigação, ou seja, do uso crescente do recurso finito e escasso que é a água, é de assaz interesse público saber que existe uma atividade econômico-produtiva que mantém as famílias no meio rural, que sustenta, que não polui, que absorve o carbono da atmosfera e que “produz” água.

Todos temos que compreender e difundir os potenciais do bioma Pampa a partir da sua rica biodiversidade: o recorde de 63 espécies diferentes de plantas em um metro quadrado, redunda na imensa riqueza faunística e no “buffet” mais rico do Brasil disponível aos rebanhos. Já na Amazônia, a pecuária desmata e está levando o mega bioma ao ponto de não retorno!

A prática do jornalismo requer essa escuta horizontalizada, ampla, diversificada, produtora de conhecimento e educadora ao repercutir as tecnologias sociais parceiras da melhor ciência da conservação das espécies do planeta. Mais de uma dezena de fontes de alta relevância (internacional, inclusive) circularam neste evento local, mas de alcance e de interesse global neste momento histórico ímpar.  

*Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

De Cop em Cop, onde estão os avanços?

Imagem: Agência Senado

Por Carine Massierer*

Sempre que se aproxima uma edição da Conferência do Clima (COP) das Nações Unidas (ONU) ampliam-se os espaços para o tema ambiental na imprensa no Brasil e exterior. Nesta semana e na próxima, acontece a 29ª COP em Baku, no Azerbaijão, portanto, podemos nos preparar para várias abordagens, muitas delas resumindo a questão ambiental a disputas políticas, questões econômicas e promessas, uma vez que o evento movimenta a economia turística e tem em jogo muitos interesses.

Em 2024 se completam nove anos do Acordo de Paris, mas o ritmo de emissões de gases do efeito estufa, discutido na ocasião, não diminuiu. Pelo contrário, segundo matéria da Agência Pública, COP do Clima: os riscos a cada meio grau do aquecimento global, no ano passado as emissões cresceram 1,3% e até dezembro poderemos chegar a uma temperatura média com aumento de 1,5%C, quebrando o recorde.

Isso mostra que precisamos agir hoje para não haver uma piora da crise climática, uma vez que 2024 foi um ano de extremos. As mudanças climáticas fizeram parte de nosso dia a dia em todos os cantos do planeta, com dilúvios e longas ondas de calor que ultrapassaram os 40ºC, dentre tantos outros desastres socioambientais, como alerta Claudia Herte de Moraes, em artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental.

Observando a cobertura da COP29 e também avaliando como o tema da emergência climática impacta o debate público, percebe-se que a imprensa brasileira apenas repercute os compromissos assumidos pelo governo federal. Também se verifica que, mesmo que a população esteja mais preocupada com o tema ambiental e os desastres socioambientais, ela não demanda dos representantes que estes estejam comprometidos com as ações de fato, tanto para a diminuição das emissões, para a prevenção e adaptação aos eventos extremos. O jornalismo, portanto, não pode abrir mão da interpretação dos fatos, não deve apenas noticiar as COPs ano a ano sem contribuir, de fato, trazendo o aprofundamento dos conteúdos e complexificando essa pauta.

Imagem: Captura de tela das principais notícias do Google sobre a COP29, acesso em 13 de novembro de 2024.

A Agência Pública tem feito matérias desde antes da COP29 e está acompanhando o evento trazendo matérias mostrando se de fato há um comprometimento efetivo entre as nações para redução de emissões. O governo brasileiro manifestou a intensão para que isso ocorra e apresentou proposta e dia 11 de novembro representantes de países que estão na Conferência fizeram um acordo para aprovar o arcabouço de regras que serão usadas para criar um mercado de carbono global sob o Acordo de Paris, no qual se comprometeram com metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Esperamos de Cop em Cop, de fato, depois de nove anos do Acordo de Paris, estejamos cientes que os efeitos globais das mudanças climáticas não estão distantes e podem no afetar a qualquer momento.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

2023 foi chamado de o ano dos extremos, o que falar de 2024?

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Cláudia Herte de Moraes*

O fim de ano se aproxima e neste momento a imprensa já se organiza na tarefa de realizar reportagens especiais, retrospectivas e trazer perspectivas para o próximo período. Ao pensar sobre 2024, poderíamos dizer que foi um ano de extremos, mas 2023 já havia sido. Ano passado, o jornal O Globo titulou assim o seu especial: “2023, o ano em que o futuro de extremos e fúria das mudanças climáticas se tornou o presente: Furacões no deserto, dilúvios e longas ondas de calor de mais de 40ºC assolaram o planeta”. 

Observando a cobertura do desastre socioambiental do Rio Grande do Sul em 2024 e também como o tema da emergência climática impactou o debate público, político e eleitoral em Porto Alegre, apontou-se que, embora a população esteja mais preocupada com o tema, não demanda dos representantes que estes estejam comprometidos com as ações ambientais, tanto para a diminuição das emissões, quanto para a prevenção e adaptação aos eventos extremos. O jornalismo, portanto, não pode abrir mão da interpretação dos fatos, não deve apenas noticiar as tragédias, trazendo comoção quando a cidade estava debaixo d’água, mas necessita aprofundar e complexificar essa pauta. Como anotaram Isabelle Rieger e Ilza Girardi, o jornalismo, de maneira geral e com algumas exceções, deixou de apontar o desastre climático de forma mais aprofundada no cenário eleitoral, relacionando os projetos em disputa, e de como as escolhas e definições das políticas públicas e dos representantes eleitos são parte do problema ou da solução. O jornal Correio do Povo, em análise de Sérgio Pereira, mereceu reconhecimento ao fazer entrevistas aprofundadas com as candidaturas debatendo a questão das enchentes na capital.

Entre as principais notícias ambientais de 2024, tivemos também a intensificação de queimadas e a crise climática em diversos biomas brasileiros, particularmente na Amazônia, com uma seca histórica. Por exemplo, de janeiro a outubro, a WWF divulgou que os incêndios “cresceram 51% na Amazônia, 69,5% no Cerrado e 639% no Pantanal em comparação ao mesmo período em 2023”. As queimadas, em grande parte criminosas, aumentam os níveis de gases de efeito estufa e ameaçam a biodiversidade e a saúde pública, além de gerar impactos econômicos significativos. São muitos fatos graves neste cenário e o público pode ter dificuldade em acompanhar, daí porque Débora Gallas indica a necessidade de o jornalismo apontar e debater soluções para as crises, estabelecendo um ponto de análise para a ação.

2024 efetivamente não ficará esquecido, pois foi o ano mais quente já registrado no Hemisfério Norte, como noticiou o GZH. Estes dados saltam em vários noticiários mundo afora, assim como o espaço para as conferências internacionais. A revista Carta Capital avalia que “novembro é um mês decisivo para a agenda climática global: saímos da COP 16 de biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e seguimos para a reunião do G20 no Rio de Janeiro, a COP 29 em Baku, Azerbaijão”. Ou seja, de ano a ano, o mundo assiste às Conferências ambientais que entregam anúncios e acordos, porém com pouco impacto, já que são dificilmente convertidos em ações efetivas. Um outro exemplo, sobre a definição de como se dará o financiamento para a transição energética, tema discutido há décadas sem acordo efetivo. Com isso, o lobby do petróleo se mantém forte como podemos observar no caso brasileiro, mesmo o país sendo a sede da COP 30 em 2025 na cidade de Belém (PA), há disputa interna no governo Lula sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas no litoral do Amapá. Apesar de um recente parecer pelo indeferimento da licença ambiental, assinado por 26 técnicos, como noticiou o Clima Info, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deu prosseguimento ao processo. Na reportagem da DW, ficam evidentes os possíveis prejuízos ambientais de tal empreendimento, e de como o caso da Foz do Amazonas pode abrir precedentes para facilitar outros licenciamentos questionáveis, assim trazendo um contexto importante ao leitor. 

De uma maneira geral, encontramos diariamente notícias ambientais e climáticas, em função de que os efeitos do aquecimento global e da superexploração da natureza exaurem os limites do planeta e já fazem parte do nosso cotidiano. O jornalismo em várias frentes está atuante. No entanto, é preciso refletir sobre as formas de abordagem destes temas, para que as pessoas consigam exercer a cidadania plena de direitos, que inclui o direito ao ambiente equilibrado e à participação nas definições das políticas ambientais. Se a era dos extremos climáticos já chegou, no jornalismo é preciso abandonar a superficialidade na abordagem ambiental e climática, para dar lugar ao olhar sistêmico, como um exercício diário para a compreensão do que está em jogo na pauta climática. Portanto, cada vez mais o jornalismo precisa manter o foco para uma cobertura complexa, que evidencie os interesses, conflitos, causas, consequências, desafios e soluções. 


*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A crise climática na cobertura jornalística das catástrofes em Valência e Porto Alegre

Imagem: Valência/Espanha, 30/10/2024 , uma enchente repentina em Valência, no leste da Espanha, deixou ao menos 92 pessoas mortas, segundo as autoridades locais. A força das águas arrastou carros, transformou ruas de vilarejos em rios e interrompeu linhas ferroviárias e rodovias. /RS/Fotos Públicas

Por Míriam Santini de Abreu*

“Devastadora”, “trágica”, “catastrófica” e “apocalíptica” são adjetivos que a imprensa espanhola está usando para se referir aos efeitos da já caracterizada “maior chuva do século”, que devastou principalmente a comunidade de Valência. A imprensa brasileira também tem se utilizado dos mesmos adjetivos na cobertura. Postagens nas redes sociais estão divulgando notícias vindas do país europeu e associando o fato com as enchentes de abril/maio no Rio Grande do Sul. É oportuno, portanto, analisar a cobertura jornalística espanhola para investigar como estão posicionados os debates sobre a crise climática e a relação com a violenta DANA (depressão isolada de alto nível), fenômeno provocador das violentas chuvas e que ocorre quando o ar frio desce sobre as águas quentes do Mar Mediterrâneo.

Às 18h45 desta quarta-feira (30), o jornal El Mundo o assunto na capa, enquanto no El País, cujo slogan é “El periódico global”, as notícias mais bem posicionadas tem relação com a eleição presidencial nos Estados Unidos. No El País, a matéria principal, intitulada “95 muertos y decenas de desaparecidos en la peor gota fría del siglo en España”, destaca o mesmo fato do El Mundo, o número já confirmado de mortos: “Al menos 95 muertos y decenas de desaparecidos por la DANA”.

O El Mundo traz como primeira retranca outro fato que certamente irá merecer farta cobertura nos próximos dias: a demora do acionamento do sistema de alerta de Valência. O jornal também dá destaque para os motivos pelos quais a DANA foi tão violenta. A notícia traz análises de meteorologistas e destaca-se o seguinte trecho: “En este episodio, ha influido también un factor muy vinculado al cambio climático: la temperatura del agua del mar, pues en la costa de Valencia estaba entre un grado y dos por encima de la media en esta época del año. ‘No es una anomalía tan significativa como la de otros momentos del año, pero sin duda ha contribuido a que haya habido más lluvia’, afirma.”

Captura de tela das capas do El País e El Mundo às 18h45 de 30/10/2024

O El País aborda o fato em uma retranca de dois parágrafos na qual afirma que o Mediterrâneo mais quente que o normal, para esta época do ano, é a chave para a virulência das chuvas.

Em nota, a Metsul Meteorologia analisou dados da chuva na comunidade espanhola de Valência, comparou-os aos do desastre no Rio Grande do Sul e concluiu que a precipitação em pontos de Valência superou o acumulado em 24 horas de qualquer cidade gaúcha no evento do fim de abril e o começo de maio.  Mas, segundo a nota, “se considerado o período prolongado de instabilidade que atingiu o Rio Grande do Sul os volumes foram parecidos ou o dobro do que choveu em um só dia na região mais castigada da Espanha

Os dois veículos trazem reportagens descritivas sobre os impactos da DANA em diferentes localidades, medidas imediatas das autoridades públicas, serviços disponíveis aos atingidos, previsão meteorológica para as próximas horas e postagens de redes sociais feitas por moradores. Do ponto de vista da crítica da cobertura jornalística, seriam de grande valia estudos mais aprofundados para comparar o trabalho desenvolvido pelos jornais e jornalistas espanhóis com o dos congêneres do Rio Grande do Sul, a partir das premissas do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente

Sul21 e o jornalismo a serviço da pauta ambiental nascida no cotidiano

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*

O site de notícias independente Sul21 publicou, às vésperas do primeiro turno das Eleições 2024, a série de reportagens “Raio-X das Periferias” sobre as principais demandas de moradores dos quatro bairros mais populosos de Porto Alegre para o período eleitoral. A iniciativa, que incluiu os bairros Rubem Berta, Restinga, Sarandi e Lomba do Pinheiro (veja em bit.ly/3Ny1G25), é um exemplo significativo para relacionar cotidiano, espaço e pauta ambiental em tempos nos quais a população elege seus representantes na dita (e tão limitada) democracia representativa.  

Imagem: Print da timeline do site do jornal Sul21

No senso comum, cotidiano é o que ocorre todos os dias, o banal, o corriqueiro, o repetitivo. Mas nele também nasce a ruptura, a possibilidade de transformação social. O novo, afinal, emerge no cotidiano, e é no espaço que esse cotidiano, em sua riqueza e miséria, se realiza. As transformações pelas quais passa o jornalismo como fazer profissional e também como negócio, porém, afastam o jornalista do cotidiano e do espaço. Redações cada vez mais enxutas levam a coberturas magras, parte delas feitas por telefone ou redes sociais, levando portais noticiosos a terem “cara” de vitrine para boletim de ocorrência.

Em sentido oposto, a série do Sul21 traz diversidade de fontes e descrições expressivas do cotidiano e do espaço geográfico dos quatro bairros, onde aparece a errância de populações continuamente expulsas ou em busca de melhores condições de vida, situação agravada pela penosa tentativa de recuperação depois das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul.

A debilidade dos serviços públicos, as dificuldades de locomoção, a falta de opções de lazer – todas elas relacionadas à pauta ambiental – vão sendo apresentadas ao longo das entrevistas para expor o abandono do poder público, as promessas que não se cumprem, as tentativas de organização popular para superar as carências do cotidiano. Aparecem ainda as conquistas via Orçamento Participativo, mas também as críticas aos limites deste instrumento de liberação de recursos públicos.

A série utiliza dados do Atlas de Vulnerabilidade Social desenvolvido no curso de Geografia da UFRGS, informação do mundo acadêmico a serviço da interpretação jornalística do espaço geográfico. Na reportagem sobre o bairro Rubem Berta, aparece menção ao jornal comunitário local Fala Cohab, a revelar o papel ainda vivo da comunicação comunitária. A série de reportagens “Raio-X das Periferias” é mais uma a confirmar o importante papel do Sul21 no jornalismo gaúcho e regional. Que as vozes que carrega em seus textos tão bem encaixados sejam ouvidas e levadas em conta por quem comandar Porto Alegre pelos próximos quatro anos. 

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente

Em um mundo mais seco, jornalismo deve ser terra fértil para compartilhamento de soluções

Imagem: Isabelle Rieger

Por Débora Gallas*

As mudanças climáticas são assunto incontornável por conta de seus efeitos, como a ocorrência de secas, tempestades e inundações com maior intensidade e frequência. Consequências de eventos climáticos extremos se sucedem nos noticiários, do furacão Milton, na América do Norte, ao temporal que afetou milhões de paulistanos na última semana.

Apesar da maior intensidade e frequência também na presença dos temas ambientais na pauta do dia, a sucessão de novos acontecimentos pode soterrar a cobertura sobre os desdobramentos desses fenômenos. Nesta semana, por exemplo, a seca histórica na Amazônia ressurgiu como pauta no Jornal Nacional, o principal telejornal do Brasil, após o foco nos temas citados anteriormente.

A reportagem em questão, exibida na segunda (14), falou sobre os desafios logísticos trazidos pelo baixo nível dos rios em Manaus. O enfoque foi econômico, mostrando como a dificuldade de navegação e de acesso dos navios aos portos da região encarece até mesmo produtos típicos, como o tucumã.

Sabemos que não é possível contemplar todas as consequências da seca em uma reportagem de dois minutos, e em meio a um noticiário já tão sobrecarregado. Porém, ressaltamos que é preciso dar continuidade a essa cobertura a partir de outros recortes, visto que o jornalismo ambiental preza pela contextualização dos fenômenos, o que viabiliza inclusive a proposição de soluções.

Outras abordagens sobre a mesma problemática podem ser vistas em reportagens como a de Luis Felipe Azevedo e Lucas Altino, de O Globo, que aborda a dificuldade de caminhões cruzarem o rio Madeira em balsas, no Amazonas, visto que a diminuição do nível do rio torna a navegação mais perigosa. Ou ainda na reportagem de Nicoly Ambrosio, em Amazônia Real, que detalha os impactos da seca na qualidade de vida dos manauaras, que já passaram meses sujeitos à fumaça das queimadas.   

A seca impacta o abastecimento de água, a alimentação das pessoas, a sobrevivência de outras espécies, como os botos. Em suma, fragiliza a resiliência do bioma. Com a quebra de recordes ano a ano, precisamos assumir o princípio da precaução também no jornalismo.

Precisamos de reportagens que não somente mostrem as consequências hoje, mas que cobrem setor público e privado e que se orientem pelo que diz a ciência a fim de evitar danos tão profundos nos anos por vir. É necessário lembrar ao público de que é possível reverter o caminho destrutivo da humanidade, e a conscientização é fundamental para fortalecer a cobrança coletiva dos principais responsáveis pela crise climática.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Questões ambientais se diluem no debate público e na cobertura jornalística sobre as eleições municipais em Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Sara Feitosa*

A cobertura jornalística das eleições municipais de 2024 em Porto Alegre, no primeiro turno, revelou uma abordagem desigual ao pautar temas ambientais na agenda pública – como as enchentes de maio. Embora tenha sido um evento de grande impacto para a cidade, que poderia e deveria ter permeado o debate político, os principais veículos de comunicação da capital trataram o tema de forma bastante heterogênea e com pouca relevância.

Este é um dos resultados preliminares do estudo desenvolvido por pesquisadores de dois observatórios com sede na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) e o Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP). No estudo, buscamos mapear como, durante a campanha eleitoral, o tema das enchentes – de forma específica – e a crise do climática – de maneira mais ampla – aparecem como pauta na agenda pública, tanto no discurso dos candidatos durante o Horário de Propaganda Eleitoral Gratuita (HPEG) quanto na cobertura jornalística sobre o pleito municipal. A Investigação, que segue durante o segundo turno, reúne 17 pesquisadores e discentes dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas da UFRGS.

O estudo se justifica tanto pela magnitude das enchentes ocorridas em maio de 2024, quanto pelos sucessivos eventos climáticos registrados na cidade nos últimos anos, que evidenciam que as mudanças no clima são temas e acontecimentos do presente. Além disso, esta é a principal preocupação da população de Porto Alegre, de acordo com os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, divulgada em 27 de agosto de 2024, que perguntou aos eleitores “quais são os problemas mais graves da cidade?”. O tema das enchentes e alagamentos apareceu em primeiro lugar com 33%. 

Na observação da cobertura jornalística, acompanhamos a produção sobre eleições nos jornais Correio do Povo, Matinal Jornalismo, Sul21 e Zero Hora, entre os dias 16 de agosto a 06 de outubro, durante o primeiro turno, e seguimos entre 07 e 27 de outubro, durante a cobertura do segundo turno. Além disso, coletamos as entrevistas concedidas pelos oito candidatos à prefeitura de Porto Alegre ao Jornal do Almoço, da RBSTV, no primeiro turno, e pelos dois candidatos que disputam o segundo turno. A escolha dos veículos observados se justifica pela relevância que têm no cenário comunicacional na capital gaúcha, seja por se tratarem de redações mais tradicionais ou jornalismo de referência (Zamin, 2015) – no caso do Correio do Povo e Zero Hora – seja por serem redações independentes e nativas digitais – como Matinal Jornalismo e Sul 21. A escolha das entrevistas para o Jornal do Almoço se justifica pela audiência do telejornal. 

Os números da coleta no primeiro turno apontam 293 reportagens, matérias ou notas sobre as eleições municipais nos quatro veículos, sendo 75 relacionadas ao tema do desastre climático na cobertura das eleições. Quanto ao material audiovisual, ou seja, as entrevistas realizadas com os candidatos à prefeitura durante o Jornal do Almoço (RBSTV), a coleta resultou em 56 minutos de gravação.  A observação segue até o dia 27 de outubro. Entre os dias 07 e 16 de outubro,  os dez primeiros dias da campanha de segundo turno, coletamos 115 materiais noticiosos, sendo que 18 tratam das cheias e suas consequências, nos veículos observados. A tendência segue a mesma do primeiro turno: Correio do Povo com maior número de notícias que relacionam as eleições e o desastre climático, com 11 de 63 materiais identificados; Zero Hora, com 6 reportagens/notícias de 30 identificadas; Sul21, com 1 de 20 matérias sobre as eleições e Matinal Jornalismo não publicou nenhuma reportagem que relacione eleições e enchentes.  Em relação ao material audiovisual, coletamos 32 minutos de gravação das entrevistas concedidas ao Jornal do Almoço (RBSTV) pelos dois candidatos que disputam o segundo turno na capital gaúcha.  

Os dados consolidados sobre a coleta no primeiro turno são os seguintes: O jornal com maior número de reportagens e matérias sobre eleições que correlacionam o tema do desastre climático é o Correio do Povo, com 54 materiais noticiosos; seguido de Zero Hora, com 18; Matinal Jornalismo, com dois; e Sul21 com 1. Importante esclarecer que, por materiais noticiosos, entendemos reportagens, matérias, notas e entrevistas, desde que se refiram às eleições e ao desastre climático. Não entram, portanto, reportagens sobre ações da prefeitura ou do governo do estado voltadas à reconstrução ou reparação de estruturas da cidade que não estabeleçam vinculação com as eleições. Outra nota de esclarecimento importante  a ser feita é que, nestes dados, consideramos o veículo matriz como locus de coleta, ou seja, a edição impressa de Zero Hora e Correio do Povo (em versão digital),  e as reportagens publicadas nos sites de Matinal Jornalismo e Sul21. No caso do Matinal Jornalismo, newsletters e material não publicados no site não foram incluídos na coleta de dados. No quadro abaixo, temos uma apresentação gráfica dos resultados quantitativos da coleta do primeiro turno. 

Gráfico 1 – Dados quantitativos de materiais noticiosos que 

relacionam eleições e desastre climático 

Fonte: OJA/UFRGS

Na continuidade da pesquisa, já com os dados quantitativos do segundo turno, incluiremos também uma análise qualitativa do conteúdo do material noticioso coletado.

Os dados coletados, até o momento revelam como os veículos de comunicação de Porto Alegre lidam de maneira diversa com o tema das enchentes no contexto eleitoral. A falta de uma integração mais consistente do tema no debate público em torno das eleições municipais sugere que um evento climático dessa magnitude, com profundas repercussões na vida urbana, ainda não foi suficientemente problematizado. Se, por um lado, o Correio do Povo, se destacou pela abordagem quantitativa do tema, outros veículos parecem tê-lo tratado como secundário no debate eleitoral. Essa divergência na cobertura aponta para a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel do jornalismo em articular eventos climáticos com o futuro político e administrativo das cidades. A percepção preliminar, sem ainda uma análise qualitativa do material coletado, é que faltou um enquadramento na cobertura jornalística sobre as enchentes – de modo específico – e a mudança no clima – de modo geral – considerando as diferentes etapas de ação da gestão pública municipal quando falamos de emergência climática. Refiro-me aos diferentes estágios, como as ações de emergência, aquelas que cabem durante o acontecimento; as ações de prevenção, cujo objetivo é evitar novos desastres climáticos; ações de mitigação, voltadas para reduzir o impacto de eventos climáticos extremos que, ao que tudo indica, se tornarão cada vez mais frequentes; e, por fim, ações de adaptação, necessárias pelas mesmas razões pelas quais projetamos ações de mitigação.

A colunista de Zero Hora, Rosane de Oliveira, na coluna “Política e Poder” publicada no dia 03 de outubro, chama a atenção para o fato de que “a disputa na capital ignorou a questão ambiental”, com o que concordo totalmente. Porém, cabe também ao jornalismo pautar tais temas, articulando pautas que evidenciem a relação transversal das questões ambientais com saúde, educação, transporte público, infraestrutura urbana, cultura, lazer, enfim, todos os aspectos do viver em um centro urbano. Além de informar, que segue sendo uma função fundamental do jornalismo (Franciscato, 2005; Reginato, 2019), é necessário que o jornalismo cumpra outras funções primordiais — especialmente em tempos em que o jornalismo já não tem a exclusividade no ato informativo. Refiro-me a interpretar e analisar a realidade, ajudando o cidadão comum a entender o mundo contemporâneo. Como observa Gisele Reginato (2019): “O jornalismo deve interpretar e analisar a realidade, avaliando os fatos que acontecem e explicando-os de forma aprofundada à sociedade. É seu papel contextualizar as informações, fazendo relações entre passado e presente, entre causas e consequências”. Infelizmente, o que observamos é um debate sobre questões ambientais que ficou na superfície ou se voltou para “curiosidades”, sem aprofundamento. Um exemplo disso é uma das questões — a única sobre as enchentes — na entrevista publicada na edição de terça-feira, 08 de outubro, em Zero Hora, com o atual prefeito, que busca a reeleição. Em síntese, foi perguntado se ele tem alguma explicação para o fato de ter tido votação expressiva em bairros afetados pelas enchentes. Com todo o respeito, este é o tipo de questão que dá ao candidato a oportunidade de se auto elogiar e, obviamente, ele não perdeu a chance. Eu faria o mesmo, se fosse candidata. Outra questão que tangenciou o meio ambiente foi sobre a concessão do DMAE para a iniciativa privada, mas não houve desdobramento.

Na entrevista com a candidata de oposição que disputa o segundo turno, publicada na mesma edição de Zero Hora, de 08 de outubro, foi a candidata quem pautou o tema das enchentes. Diante das propostas apresentadas por ela, não houve uma insistência em aprofundar o tema. Por exemplo, poderiam ter sido feitas perguntas como: qual é a proposta da candidata para a redução de emissões de gases de efeito estufa na cidade? Qual o projeto de destinação de resíduos sólidos para Porto Alegre? Ou, ainda, qual a proposta para a substituição do combustível fóssil no transporte público? Enfim, há uma série de questionamentos que o jornalismo pode fazer aos candidatos, se o objetivo é tratar as questões ambientais como centrais para o viver na cidade.

Não é intenção aqui apontar o dedo para o jornalista, mas chamar para uma reflexão sobre a linha editorial que aposta na superficialidade e perde a oportunidade de assumir tarefas tão valiosas ao jornalismo, como de interpretar e analisar a realidade, além de ajudar o cidadão comum a entender o mundo em que vivemos. Se os políticos não pautam as questões ambientais na agenda pública durante as eleições, é papel do jornalismo fazê-lo. A eleição municipal é um momento privilegiado para debatermos e pensarmos em qual cidade queremos habitar, ao assumir o papel de pautar tais temas — que, talvez, as estratégias de  marketing dos candidatos queiram ignorar — o jornalismo cumpre um papel fundamental que lhe cabe nas sociedades, ou seja, colocar em primeiro plano o interesse público e contribui para consolidação da democracia e diversidade de perspectivas de como gerir a cidade. 

Por fim, penso que é fundamental para nós, do campo acadêmico, pautar e construir currículos em que as questões ambientais e o cenário de mudanças no clima e suas consequências sejam transversais na formação. Preparar jornalistas capazes de atuar profissionalmente em contexto de crise ambiental é uma tarefa para ontem. Estamos atrasados nessa missão. Como observa Ilza Girardi (2018), o jornalismo desempenha um papel essencial na sociedade, tanto ao informar quanto ao educar os cidadãos, fornecendo-lhes os meios para defender seus próprios interesses e os da coletividade. Em tempos de grandes turbulências, com ameaças contínuas ao meio ambiente, um olhar da perspectiva do jornalismo ambiental se torna indispensável, trazendo uma abordagem atenta e comprometida com a proteção da vida em todas as suas formas.

Referências

Franciscato, Carlos E. A fabricação do presente: como o jornalismo reformulou a experiência do tempo nas sociedades ocidentais. São Cristóvão: Editora UFS/Fundação Oviedo Teixeira, 2005.

Girardi, Ilza M. T, et al. Um semestre muito especial: o surgimento da primeira disciplina de Jornalismo Ambiental. Jornalismo ambiental: teoria e prática [ livro eletrônico] / organizado por Ilza Maria Tourinho Girardi … [et al.] – Dados eletrônicos – Porto Alegre: Metamorfose, 2018. 

Reginato, Gisele D. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. V.15. Florianópolis: Insular, 2019. 

Zamin, A. Jornalismo de referência: o conceito por trás da expressão. Revista FAMECOS, 21(3), 918–942, 2015.

*Professora de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Unipampa, pesquisadora do NUCOP e coordenadora de Notícias do OBCOMP.

Observação do tema desastre climático nas eleições de Porto Alegre constata descompasso entre a campanha e a preocupação da população

Imagem: Kevin David/A7 Press/Estadão Conteúdo

Por Sara Feitosa*, Fiorenza Carnielli**, Ana Noronha***, Ângelo Rockenbach****, Marihá Maris Maria***** e Matheus Oliveira******

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul e, especificamente a cidade de Porto Alegre, em maio de 2024,  e como o tema repercute nas eleições municipais na capital gaúcha é o foco de um estudo realizado pelo Observatório de Jornalismo Ambiental e Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O tema que mobilizou a agenda pública entre os meses de maio e junho é importante pela sua magnitude expressa nos números de atingidos. Em Porto Alegre, segundo dados da prefeitura, foram 160 mil e 210 pessoas atingidas; 39 mil e 422 edificações; dez bairros (Sarandi, Menino Deus, Farrapos, Humaitá, Cidade Baixa, Floresta, Ponta Grossa, Centro Histórico,São Geraldo e Arquipélago). Mais de 29 mil serviços e 5 mil 496 estabelecimentos industriais tiveram suas atividades interrompidas. Os dados indicam, ainda, que 31 unidades entre hospitais, farmácias populares e clínicas da família  e 160 escolas foram impactadas. O abastecimento de água foi suspenso para cerca de 70% da população e mais de 100 mil imóveis ficaram sem energia elétrica. 

As inundações representaram a maior catástrofe climática já registrada em Porto Alegre. O nível do lago Guaíba atingiu 5,33 metros, ultrapassando a capacidade do sistema municipal de proteção contra enchentes. A inundação foi relacionada às mudanças climáticas, que tendem a intensificar e aumentar a frequência de eventos climáticos extremos. Uma pesquisa divulgada em junho pelo centro de estudos World Weather Attribution indicou que o aquecimento global duplicou a probabilidade de chuvas intensas no Rio Grande do Sul. Além disso, o fenômeno climático El Niño, que terminou em meados de 2024, também teve impacto nesse evento. No entanto, diversos especialistas apontaram falhas na manutenção do sistema anti cheias que protege Porto Alegre. 

Considerando que 2024 é ano de eleição municipal e que a crise do clima já é algo presente no cotidiano das cidades brasileiras, decidimos observar durante a campanha eleitoral como o tema das enchentes – de modo específico – e a crise do clima – de maneira mais ampla – aparece como pauta na agenda pública, seja no discurso dos candidatos ou na cobertura jornalística. Juntamos os conhecimentos de pesquisadores e estudantes da Faculdade de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS) integrantes de dois observatórios, o de Comunicação Pública (OBCOMP) e o de Jornalismo Ambiental, para realizar um estudo durante as eleições. 

O estudo se justifica tanto pelos dados já elencados neste texto, quanto pelo fato de ser a principal preocupação da população de Porto Alegre, de acordo com os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, divulgada em 27 de agosto de 2024, em que se questionou aos eleitores “quais são os problemas mais graves da cidade” e o tema das enchentes apareceu em primeiro lugar com 33%, como mostra o gráfico abaixo. 

Gráfico 1 – Pesquisa Quaest aponta problemas de Porto Alegre segundo eleitores

Fonte: Quaest 


Estamos realizando a observação divididos em duas equipes de pesquisadores de acordo com o material de coleta e análise, ou seja, um grupo do Observatório de Comunicação Pública acompanha a propaganda eleitoral no Horário Gratuito de Propaganda  Eleitoral (HGPE) e a equipe do Observatório de Jornalismo Ambiental observa a cobertura jornalística da GZH, Correio do Povo, Matinal Jornalismo e Sul21. Além das entrevistas concedidas pelos oito candidatos à prefeitura de Porto Alegre ao Jornal do Almoço, da RBSTV, ocorridas entre os dias 23 e 27 de setembro. 

Uma dificuldade na coleta da propaganda eleitoral do HGPE é o fato de não haver nenhuma obrigação dos candidatos de manter um repositório público da propaganda eleitoral, desse modo, tivemos que buscar os programas veiculados em vários canais além dos perfis oficiais dos candidatos em redes sociais. Como não há nenhuma normatização de disponibilização posterior dos programas levados ao ar constatamos que não houve regularidade e alguns programas não foram postados em canais de mídias sociais. As plataformas utilizadas para a coleta do HGPE foram o YouTube e o reels do Instagram. 

A observação dos programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) do primeiro turno dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre mostrou que o problema público do desastre climático não foi tema predominante nas campanhas. No primeiro turno, entre 30/08/2024 e 03/10/2024, houve 30 dias de HGPE (excluindo-se os domingos em que não há programas eleitorais). Como foram três os candidatos à prefeitura com direito ao horário gratuito, o universo de observação foi de 90 programas, um de cada candidato em cada um dos 30 dias. A amostra de análise, no entanto, foi composta por 86 programas, pois não foi possível ter acesso aos programas veiculados nos dias 06/09, 28/09, 29/09 e 01/10 da candidata Juliana Brizola. 

Dos 86 programas analisados, em 44 deles, mais da metade, não há menção às enchentes, seja em relação a aspectos de causas, enfrentamento, consequências ou prevenção. O candidato que abordou o tema em menos programas foi Sebastião Melo, 11 do total de 30. O tema foi tratado em mais programas pela candidata Maria do Rosário, 19 do total de 30. A candidata Juliana Brizola incluiu o assunto em 12 dos seus 26 programas analisados. Os dados completos da observação, que vai se estender pelo segundo turno, permitirão também quantificar o tempo dedicado ao tema, a abordagem das causas, efeitos e soluções para o desastre climático, além de aspectos estratégicos da performance de cada candidato sobre o assunto. Por ora, os dados prévios permitem indicar um descompasso entre a preocupação da população expressa na pesquisa Quaest e a escolha estratégica de campanhas para a abordagem do tema das enchentes. É possível afirmar que no primeiro turno das eleições a intensidade da presença do tema da enchente na propaganda eleitoral não refletiu a força avassaladora de sua presença sobre a cidade.  

*Sara Feitosa é professora de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Unipampa, pesquisadora do NUCOP e coordenadora de Notícias do OBCOMP.

**Fiorenza Carnielli é professora de Comunicação na UFRGS, pesquisadora do NUCOP e coordenadora executiva do OBCOMP.

***Ana Noronha é graduanda de Relações Públicas na UFRGS e observadora voluntária do OBCOMP.

****Ângelo Rockenbach é graduando de jornalismo da UFRGS e observador voluntário do OBCOMP.

*****Marihá Maris Maria é graduanda de jornalismo da UFRGS e observadora voluntária do OBCOMP.

******Matheus Oliveira é graduando de Relações Públicas na UFRGS e observador voluntário do OBCOMP.

*******Este texto foi publicado originalmente no Observatório da Comunicação (OBCOM) e republicado pelo Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA). Ambos os observatórios estão atuando em parceria durante as Eleições Municipais de 2024, vigilantes na cobertura e análise dos acontecimentos.

Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Para esta análise escolhemos algumas publicações do jornal Zero Hora, em sua edição digital, e do Sul21, que colocaram em circulação informações que poderiam ter auxiliado os eleitores na escolha da pessoa que vai governar a cidade no próximo período, caso a questão climática e o desastre que atingiu Porto Alegre não fossem esquecidos por quase 50% dos porto-alegrenses na hora de apertar o botão na urna eleitoral.

Com o título “Porto Alegre lança Plano de Ação Climática para reduzir emissão de gases do efeito estufa e diminuir impactos de eventos extremos”, Zero Hora publicou no dia 26 de setembro uma matéria apresentando os detalhes do plano: “(…) é resultado de cooperação técnica entre a prefeitura de Porto Alegre e o Banco Mundial, firmada durante a Conferência Mundial pelo Clima (COP27)”. Conforme o jornal, a “parceria viabilizou a contratação de uma consultoria técnica formada pela WayCarbon, em consórcio com o ICLEI América do Sul, e as empresas Ludovino Lopes Advogados e Ecofinance Negócios”. ZH informa que o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre reconheceu que o plano já deveria ter sido lançado e que o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do governo do Estado não foi consultado para a elaboração do plano, pois o comitê foi lançado há três meses. Estranhamente, o plano foi lançado no final da campanha eleitoral, quando na verdade já deveria estar pronto há anos.

Para quem já esqueceu, vamos aos fatos.

No dia 29 de janeiro de 2016, Porto Alegre foi atingida por uma forte tempestade com ventos de até 100 km/h, provocando grandes danos nos parques, nas ruas, nas residências, prédios comerciais, hospitais, além de muito pavor nos porto-alegrenses. O evento denominado de microexplosão aconteceu por volta das 22h, quando a temperatura atingia em torno de 40 graus e grande número de pessoas estava nas ruas e nos bares da cidade.

 A cidade ficou sem luz, sem internet, sem sinal de celular, com vias interrompidas devido à queda de árvores. O Parque Marinha do Brasil foi devastado e muita gente precisou ser atendida no Pronto Socorro devido aos ferimentos. Outras cidades gaúchas já haviam passado pelo problema em outros momentos ou passaram depois.

Anos antes, em 27 de março de 2004, a cidade de Torres e o sul de Santa Catarina foram atingidos pelo furacão Catarina, com ventos de 180 km/h, assustando, provocando grandes danos e deixando 11 mortos e pessoas feridas.

Em 2006, o Greenpeace lançou o documentário e o relatório Mudanças do clima, mudanças de vida, com depoimento de pessoas atingidas pelos efeitos “das mudanças climáticas na Amazônia, no Nordeste, no Sul e na zona litorânea brasileira. (…) O relatório e o documentário mostram ainda as relações entre a destruição da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e o aquecimento global, e como o desmatamento e as queimadas fazem do Brasil o quarto maior emissor de gás carbônico do planeta.” O lançamento do documentário em Porto Alegre impactou ambientalistas e a imprensa que compareceram na solenidade.

Voltando para 2024, em 26 de abril o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), emitiu um alerta de tempestades para o estado. Durante o mês de maio vivemos a maior tragédia climática de todos os tempos.

Vários foram os eventos extremos, relatórios da ONU, alertas dos cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e das universidades brasileiras, mas o negacionismo climático dos políticos brasileiros deram o tom para que o país, estados e cidades retardassem o planejamento das medidas de enfrentamento e adaptação para orientar a população no momento da emergência. O ranço atingiu até a forma como o movimento ecológico foi tratado. No entanto, em pleno período eleitoral, Porto Alegre lança seu Plano de Ação Climática.

Retomando a análise, notamos que o desastre climático que atingiu a cidade não teve a presença qualificada ao longo da campanha. O tema foi mencionado em editoriais, em notícias quase sempre de forma superficial. Em raras exceções o tema foi aprofundado. O assunto deveria estar no radar dos candidatos, eleitores e veículos da imprensa. Deveria ser tratado com profundidade diariamente.

Poucas matérias se destacaram na última semana relacionando as inundações e enchentes de maio às mudanças climáticas e à flexibilização da legislação ambiental.

Na edição de 4 de outubro, o Sul21 traz a matéria “Eleições 2024: gestão de risco deve ser prioridade em Porto Alegre”, produzida pela Agência Brasil, destacando a avaliação do professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS sobre a campanha eleitoral. Para ele, o desastre que atingiu Porto Alegre não está tendo a centralidade merecida nas campanhas eleitorais. “Esse tema deveria estar de modo central, porque não se trata apenas de recuperar e fazer obras de proteção, mas se trata fundamentalmente de ter uma agenda política e administrativa que possa mostrar para a cidade que é possível enfrentar tempos severos no século 21 morando aqui em Porto Alegre. E isso é um tema que não pode ficar para um outro momento que não esse, que é o momento de definição do destino da cidade”.

Para o professor Menegat, a pauta está presente de um modo muito fraco tanto por parte dos candidatos a prefeito quando dos candidatos à Câmara dos Vereadores. Para ele, a comunidade deve participar da elaboração das estratégias de gestão de risco da cidade. “Precisa ser articulado de um ponto de vista científico e comunitário. Precisa estar na palma da mão dos moradores de cada comunidade, que deve saber dos riscos, das vulnerabilidades do lugar em que vivem e principalmente também em termos de elaborar planos de emergência, planos de prevenção, de desenvolver uma inteligência social do lugar que habilite essas comunidades a terem uma perspectiva de segurança e ao mesmo tempo de saber agir quando é necessário”.

Em matérias publicadas em setembro por GZH, os candidatos que foram para o segundo turno em Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT) apresentam visões distintas quanto à preservação ambiental e gestão dos recursos naturais da cidade, especialmente no contexto das recorrentes enchentes e da crise climática.

Sebastião Melo, atual prefeito, destacou a importância da governança climática em seu discurso. Propôs a criação de um plano de contingência para mitigar desastres, mencionando a recuperação e manutenção dos sistemas de drenagem e proteção contra cheias. No entanto, essa proposta contrasta fortemente com a realidade enfrentada durante sua gestão. As enchentes de maio de 2024 expuseram falhas críticas em sua administração, evidenciando a incapacidade do governo municipal em cumprir promessas de manutenção e melhorias na infraestrutura. Muitos dos sistemas de drenagem permanecem negligenciados, as casas de bombas sem funcionamento adequado, e a falta de uma política preventiva eficaz contribuiu para a vulnerabilidade da cidade frente às chuvas intensas.

Além disso, a visão de Sebastião Melo em relação ao meio ambiente tem se mostrado insuficiente para enfrentar os desafios climáticos de maneira abrangente. A proposta de combinar crescimento urbano com preservação ambiental não tem sido bem-sucedida na prática, resultando em degradação dos recursos naturais, como morros, banhados e cursos d’água. O enfoque excessivo em respostas emergenciais, em vez de planejamento e prevenção, revela uma compreensão limitada da complexidade da crise ambiental. O modelo de desenvolvimento promovido por Melo frequentemente favorece projetos de expansão urbana sem a devida consideração dos impactos ambientais de longo prazo.

Em contraste, Maria do Rosário adotou uma postura mais crítica ao modelo de gestão atual e à visão de Melo sobre o meio ambiente. Defendeu um novo modelo de governança ambiental que não apenas reaja aos desastres, mas que também previna e integre a sustentabilidade ao planejamento urbano. Sua proposta de transformar Porto Alegre em uma “cidade esponja” e criar corredores verdes reflete uma abordagem mais sistêmica e integrada, voltada para a adaptação da cidade às mudanças climáticas. Rosário também critica a falta de manutenção contínua dos sistemas de drenagem e a terceirização de responsabilidades na gestão pública, práticas que ela identifica como causas centrais para os desastres recentes.

A gestão ambiental de Porto Alegre, especialmente durante o período de Melo, tem deixado a desejar, conforme Rosário. Embora discursos sobre governança climática sejam recorrentes, a falta de ações concretas e sustentáveis tem resultado em consequências graves para a cidade. Para que Porto Alegre se torne verdadeiramente resiliente, é fundamental que a administração municipal adote práticas que priorizem a preservação ambiental de forma proativa, com políticas que vão além das respostas emergenciais e que integrem o meio ambiente ao planejamento urbano, em vez de tratá-lo como uma questão secundária.

Já o jornal Sul21 publicou no dia 3 de outubro entrevistas com os candidatos Felipe Camozzato, do Partido Novo, e Maria do Rosário, do PT. Os demais candidatos se recusaram a dar entrevista.

Maria do Rosário criticou a forma com a atual administração lida com a questão ambiental. Disse que a falta de conservação do sistema de defesa de enchentes de Porto Alegre gerou uma tragédia que tem “uma dimensão ambiental, que é o resultado de toda a falta de cuidado global com a natureza, mas aqui em Porto Alegre temos uma tragédia de gestão, que chegou ao seu esgotamento”. Afirmou também que não vai terceirizar responsabilidades, nem privatizar os espaços públicos. Pretende inaugurar um novo sistema de gestão com profundo compromisso ambiental, com corredores verde, cidade esponja, que já existe aqui e com o funcionamento do Comitê da Bacia do Guaíba. Afirmou ainda que pretende valorizar a inteligência pública para antecipar os problemas e fazer a gestão de risco da cidade.

Felipe Camozzato mencionou a responsabilidade do atual prefeito pela falta de manutenção do sistema de proteção contra as enchentes, mas também de administrações anteriores. Disse que pretende reconstruir e manter o sistema de proteção contra cheias da cidade e combinar a preservação ambiental cuidando dos morros, cursos d’água, banhados e matas, mesclando com o crescimento urbano.

Esperávamos encontrar matérias nas quais os jornalistas fossem mais incisivos e demonstrassem engajamento, como ocorreu no jornal Sul 21.

As investigações realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS apontam várias indicações de como fazer uma cobertura de temas ambientais de forma adequada. Uma delas é o engajamento do jornalista na defesa do meio ambiente, o que exige saber ambiental e o comprometimento com a mudança de pensamento. O jornalista uruguaio Victor Bacchetta inspira o fazer jornalístico afirmando que o jornalismo ambiental “considera os efeitos da atividade humana, desde a ciência e a tecnologia em particular, sobre o planeta e a humanidade. Deve contribuir, portanto, com a difusão de temas complexos e análise de suas implicações políticas, culturais e éticas. É um jornalismo que procura desenvolver a capacidade das pessoas para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. (Bacchetta, p.18, 2000)

Na cobertura até o segundo turno é importante que o jornalismo cumpra a sua função de informar e explore os modelos de gestão que estão em disputa. Não devemos esquecer que para estar de acordo com os compromissos assumidos na COP 211, de limitar o aumento da temperatura do planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, todas as cidades devem voltar-se para a preservação ambiental e o prefeito deverá administrar com a natureza e não contra ela.

Referências

BACCHETA, Victor. El Periodismo Ambiental. In: BACCHETTA, Victor.(coord.) Ciudadania Planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Montevideo, IFEJ, 2000.

1COP 21 é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorreu em Paris em 2015, quando os 195 países presentes, se comprometeram a limitar o aumento da temperatura do Planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Como Zero Hora pauta a questão climática no contexto eleitoral de POA

Imagem:  Isabelle Rieger/Sul21

Por Daniela Neves* e Caroline Fraga **

Fortes chuvas voltaram ao Rio Grande do Sul nesta semana, reforçando a importância de discutir a gestão ambiental e preventiva dos municípios e do governo. A uma semana das eleições municipais, é possível fazer uma análise de como um dos principais periódicos do Estado, o Zero Hora, pautou o tema das enchentes associado com as eleições.

Esta análise é feita dentro do conceito de agenda setting (Traquina, 1995) que indica a forma com que a mídia tradicional agenda alguns temas, em detrimento de outros. Os estudos de definição de agenda midiática partem do princípio de que, quando o assunto é pautado, ajuda a despertar interesse nas questões salientadas pela mídia (Brasil e Capella, 2015).

Como pesquisadoras que acompanham a interface das eleições com o clima, no âmbito do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, analisamos as edições impressas entre 16 de agosto, início oficial da campanha, e 23 de setembro, em um total de 39 dias. O foco foi observar como a questão climática e a repercussão do desastre que eclodiu em maio em Porto Alegre aparecem na cobertura das eleições municipais.

Nas edições da primeira semana de campanha, o periódico não produziu material que relacionasse as eleições à enchente. Porém, na segunda semana, a partir de 25 de agosto, o tema apareceu na fala dos candidatos. Na edição do dia 25, em publicação que relatava a campanha de rua dos prefeituráveis, o texto cita uma fala do atual prefeito Sebastião Melo (MDB) dizendo que a atual gestão não poderia ser “a única responsável pelo sistema de proteção contra cheias”. Ainda declarou que “já tem soluções em andamento, como as obras de recuperação dos diques do Sarandi, na Zona Norte” .

Nos dias 28 e 29, ganha destaque em ZH o resultado de uma pesquisa eleitoral, pela qual os porto-alegrenses opinam sobre as maiores preocupações, o que exigirá atenção do futuro prefeito: a enchente foi citada por 33% dos eleitores (Pesquisa Quest – Período: de 24 a 26 de agosto; amostra: 900 entrevistados; margem de erro: três pontos percentuais para mais ou menos, nível de confiança: 95%; registro: RS-09561/2024 no TSE).

Na terceira semana avaliada, três matérias falaram sobre o pleito: início do horário eleitoral, conteúdo dos planos de governo e a cobertura de uma reunião dos candidatos com entidades. Os conteúdos foram mais “expositivos”, além de nenhum ter sido exclusivamente referente à enchente.

Entre o final de agosto e 5 de setembro, apenas duas publicações falavam sobre eleições e enchentes.

O jornal ZH pautou claramente o assunto no dia 10 de setembro, ao falar sobre a substituição, ou não, do Muro da Mauá. Contextualiza sobre os projetos para modificação do muro de contenção e, após esse texto amplo da situação, pergunta aos quatro candidatos (as) se são a favor ou contrários à substituição do muro.

Na semana de 16 a 23 de setembro, chama atenção como a enchente aparece em discussões diversas em eventos de campanha, como encontro com entidades empresariais. No evento, os candidatos se posicionam sobre a responsabilidade pelos estragos ocorridos na cidade. O atual prefeito volta a afirmar que a gestão não pode ser responsabilizada, enquanto candidatos de oposição dizem que o desastre não foi uma surpresa e que a gestão municipal poderia ter agido para prevenir e gerir melhor a situação.

Das edições analisadas no período, em uma o tema partiu da redação, na pergunta realizada aos candidatos sobre o Muro da Mauá. No restante, algumas declarações de candidatos sobre a questão enchente aparecem dentro de publicações cujos ganchos das matérias são outros assuntos.

Referências

BRASIL, Felipe G., CAPELLA, Ana Cláudia. O Processo de Agenda-Setting para os Estudos das Políticas Públicas. Revista de Pesquisa em Políticas Públicas. Edição nº 06 – 1º Semestre de 2015.

TRAQUINA, Nelson. “O paradigma da agenda-setting: Redescoberta do poder do jornalismo”. In: Revista ComunIcação e Linguagens. Lisboa: 1995.

*Daniela Neves é doutora em Ciência Política e professora do curso de Administração Pública e Políticas Públicas da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA).

**Caroline Fraga é estudante do curso de Jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis – Uniritter.