Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Paulo Guedes e o perigo do jornalismo declaratório

Imagem: captura de tela do site G1
Por Nicole Saft*

Na semana passada, ocorreu em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial. O Brasil esteve lá representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Eis que na terça-feira, dia 21, nosso nobre ministro faz a seguinte declaração: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Essas frases foram proferidas enquanto ele comentava a relação entre o meio ambiente e a indústria. Pelo que o ministro explicou depois, ele estava se referindo aos países que já destruíram suas florestas e são ricos, que eles agora coseguem se preocupar com o meio ambiente, enquanto o Brasil, por ser ainda um país pobre, tem outras questões mais urgentes.

A infeliz declaração foi título de matérias em diversos jornais, G1 e Folha de S. Paulo   como exemplos. E o jornalismo declaratório ataca novamente. Essas matérias em nenhum momento problematizam a fala de Paulo Guedes, apenas situam a declaração. No governo Bolsonaro, frases “polêmicas” de nossos comandantes ganham manchetes toda semana.  Mesmo depois de um ano, parece que ainda não sabemos como lidar com elas. Damos atenção? Nos revoltamos? Acusamos de “cortina de fumaça”? Não acredito que haja uma resposta certa, mas sei como o jornalismo não deveria tratar essas declarações.

Paulo Guedes é uma figura de autoridade. Segundo Datafolha de dezembro, o ministro é aprovado por 39% das pessoas que souberam identificá-lo. Ou seja, quando um veículo de jornalismo coloca como título “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza – diz Paulo Guedes” e a matéria não fornece informações contrárias, muita gente tende a acreditar que o que o ministro diz é verdade. Nós lemos a matéria a partir de vieses previamente estabelecidos de “Eu apoio Paulo Guedes” ou “Eu não apoio Paulo Guedes”, e como não há um aprofundamento da discussão, só confirmamos o que achávamos da questão.

Mesmo aqueles que são contra o governo, contra Paulo Guedes, podem pasar desapercebidos pela declaração e acreditar que é verdade. Isso porque, como mostra os estudos do psicólogo Daniel Gilbert nos anos 90, não acreditar em uma sentença envolve um segundo passo ativo de descrença, após o primeiro passo natural e passivo de acreditar que o que ouvimos e lemos é verdade. Essa inclusive é uma das facilidades de se propagar desinformação, a qual devemos combater. É um dos grandes perigos do jornalismo declaratório.

E para a discussão da questão de se são os pobres os maiores inimigos do meio ambiente, deixo algumas sugestões. Nesse último sábado, dia 25, completou-se um ano do crime de Brumadinho. Um ano que o rompimento da barragem da Mina do Feijão causou a morte de 259 pessoas. E esse é um crime ambiental que tem culpado, e não é a pobreza. A Vale, responsável pela barragem – também uma das empresas responsáveis por despejar 39 milhões de m³ de lama tóxica no Rio Doce no crime de Mariana em 2015 – já recuperou seu valor de mercado e agora atua buscando lucro. Como mostra a reportagem do Fantástico desse domingo, a empresa sabia os riscos de rompimento da barragem, mas não agiu a respeito. 

Essa discussão vai de encontro a outra, uma disputa semântica. Antropoceno é um conceito utilizado por diversos cientistas para caracterizar o período geológico em que vivemos, marcado pelas mudanças causadas pela ação humana. É um conceito que surgiu na década de 80 e desde lá ganha popularidade. Antropoceno é uma época demarcada pela capacidade humana de intervenção na Terra a partir da industrialização. Entretanto, o termo ainda é discutido, como mostra o artigo do professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Dr. Eduardo Álvares da Silva Barcelos no volume 31 da Revista Iberoamericana de Economia Ecológica. O artigo aborda um outro termo para definir esta era, Capitaloceno. Conforme conta Barcelos, em 2013, o historiador ambiental Jason Moore lançou a seguinte pergunta:

Estamos realmente vivendo o Antropoceno – com seu retorno a um ponto de vista curiosamente eurocêntrico da humanidade e sua confiança em noções e recursos bem estabelecidos e consolidados de seu determinismo tecnológico – ou estamos vivendo o Capitaloceno, uma era histórica formada por relações que privilegiam a acumulação interminável de capital?

O conceito surge mais como uma crítica a uma determinada narrativa do tempo do que como uma proposta de mudança de termo. Serve para não nos acomodarmos com a ideia de que não há alternativas, afinal destruir o meio ambente é da “natureza do homem”. Uma ideia no mesmo estilo de “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. 

Quando pensamos na fala do ministro não ligamos diretamente a Brumadinho, mas podemos. Podemos ligar a outras várias discussões em andamento. Enquanto o jornalismo se mantém “chapa branca” e puramente declaratório, a desinformação se espalha. Então, será que o jornalismo não deveria fornecer informação de qualidade para que o leitor tire suas conclusões e ter a responsabilidade de refletir sobre o que está sendo dito?

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Potencialidades e carências no jornalismo local sobre meio ambiente

Por Débora Gallas Steigleder *

Conforme a terceira edição do Atlas da Notícia, publicada no final de 2019, aproximadamente 75% dos municípios da Região Sul do Brasil são enquadrados como desertos ou quase desertos de notícias, onde não há quaisquer veículos jornalísticos ou, na melhor das hipóteses, existem apenas um ou dois deles. Viamão, município vizinho à capital sul-riograndense, Porto Alegre, não está enquadrado enquanto deserto de notícias, pois possui dez veículos listados em pesquisa no realizada no site do projeto. No entanto, foi difícil encontrar textos jornalísticos sobre o tema escolhido para análise desta semana no Observatório: o projeto de implantação de aterro sanitário na área rural do município, nas proximidades da Aldeia Guarani Cantagalo e de propriedades de produção de alimentos orgânicos.

Proposto pela Prefeitura de Viamão no início de 2019, o projeto recebeu inúmeras críticas da população local, repercutidas à época por veículos regionais de grande expressividade, como os jornais Zero Hora e Correio do Povo. Pelo fato de a comunidade local seguir mobilizada contra o empreendimento e por conta do agendamento de uma consulta pública pela Prefeitura, realizada na última terça-feira, 14 de janeiro, era de se esperar que as mídias locais estivessem atentas aos desdobramentos desse debate público de relevância para o município. Porém, afora postagens de cidadãos e figuras públicas nas redes sociais, não localizamos cobertura jornalística sobre o acontecimento.

De acordo com busca na ferramenta Google Notícias no dia 15 de janeiro, a única menção de caráter jornalístico à audiência pública aparece em texto do jornal Brasil de Fato publicado em sete de janeiro. O foco da notícia, no entanto, é a aprovação do Projeto de Lei 185/2019, que obriga a aprovação legislativa para instalação de empreendimentos de aterro sanitário, reciclagem e manuseio de lixo no município. Em buscas realizadas individualmente nos portais de veículos locais e regionais, nenhuma menção à realização de audiência pública ou aos desdobramentos do debate sobre a instalação do aterro sanitário – assim como no site da Prefeitura Municipal de Viamão.

Na página do Facebook Correio Viamonense, a qual conta com mais de 12 mil curtidas e se intitula enquanto empresa de mídia com sede em Viamão, há um post com foto da audiência pública e texto contrário ao projeto. Embora não apareça no Atlas da Notícia e seu conteúdo possa não ser caracterizado enquanto jornalismo por replicar textos e imagens sem indicar fonte ou por compartilhar postagens de perfis pessoais, por exemplo, é possível crer que tal página seja resultado de uma ação popular a fim de repercutir assuntos de interesse público. Isto porque, em comparação, a página do Diário de Viamão, veículo listado no Atlas da Notícia e que conta com mais de 23 mil curtidas, não publica quaisquer atualizações desde o dia 4 de janeiro.

Na série O jornalismo no Brasil em 2020, o fortalecimento do jornalismo local foi apontado por Nina Weingrill como uma urgência frente ao crescimento dos desertos de notícias. E são iniciativas da própria comunidade que podem suprir o vazio informativo, ainda que soluções para a sobrevivência financeira precisem ser testadas e aprimoradas. No caso de temas ambientais, esta necessidade é ainda mais evidente. Pautas relevantes para atuais e futuras gerações de comunidades heterogêneas como a população rural de Viamão, em vias de ser diretamente impactada pelo empreendimento do aterro sanitário, seguem invisibilizadas no contexto de crise do jornalismo enquanto instituição e modelo de negócios. 

Imagem 1: Resultado de busca por veículos do município de Viamão no portal Atlas da Notícia
Imagem 2: Resultado de busca no Google Notícias com os termos “aterro sanitário Viamão”

Imagem 3: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook Correio Viamonense

Imagem 4: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook do vereador Guto Lopes

Imagem 5: Resultado de busca de notícias mais recentes no site do Diário de Viamão
*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

“O homem é o que a terra, ou o solo, faz dele.”

Imagem: Ana Maria Primavesi (Divulgação)
Por Eliege Fante*

Em acordo com a frase do título, pode muito bem ser por isso que o ser humano anda tão adoecido, subnutrido ou tentando completar a sua nutrição buscando minerais, vitaminas, etc., além das refeições. Ou o que responderia Ana Maria Primavesi, se é que já não respondeu em um dos trabalhos entre as centenas que estão disponíveis para o nosso conhecimento no site que leva o seu nome.O solo da agricultura em grande escala ou empresarial, aquela das monoculturas e das commodities, vem sendo maltratado sob a pulverização de um número cada vez maior de agrotóxicos (em quantidade e toxicidade). Imaginemos o impacto sobre quatro quintos das terras do país, que segundo notícia da Agência Brasil, ainda em 2014 estavam sob o poder das médias e grandes propriedades rurais.

O manejo do solo era considerado errado pela agrônoma e pioneira da agroecologia em 1980. Em notícia veiculada em Zero Hora à época, ela afirmava que o Brasil não tinha uma política nacional de conservação de solos: “Quando se permite o desmatamento de enormes áreas, não existe política de conservação do solo”. Lembremos das queimadas provocadas nos estados do bioma amazônico em agosto de 2019, ações que ainda não cessaram por completo. E a mudança do clima também preocupava há 40 anos: “Existem leis que não são cumpridas e a modificação do clima, que tanto reclamam, está havendo em decorrência de uma intromissão sem planejamento”. As leis não só não são cumpridas como têm sido muito alteradas.

É o caso do “novo” Código do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. Nos últimos 15 anos foram noticiadas as demandas dos setores produtivos por atualização, flexibilização, modernização das regras, etc. Antes de terminar o primeiro ano de mandato, o governador Eduardo Leite (PSDB, 2019-2022) conseguiu a aprovação por maioria dos deputados do projeto de lei 431 de 2019 que tinha 480 alterações, definidas e escritas não se sabe por quem, conforme reportado pelo jornal Extra Classe no mês passado.

Recordemos que em 2009, o projeto de lei (PL) 154 do Executivo (Yeda Crusius, PSDB, 2007-2010) propunha “mesclar” todos os códigos em um só: o ambiental, o florestal, o de recursos hídricos e de solos (CP, 28 out. 2009). Mas foi tanta inconstitucionalidade que a Associação do Ministério Público sugeriu aos deputados que não o levassem ao plenário da Assembleia para votação (CP, 10 nov. 2009). E assim aquele PL acabou arquivado.

No Brasil pós-Golpe de 2016 com a radicalização do discurso neoliberal o “novo” Código foi publicado no Diário Oficial de 9 de janeiro de 2020, como Lei 15.434 que “Institui o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do RS”, ignorando a já instituída Lei 11.520 de 2000 e trabalhada por quase uma década com diversificada participação de atores sociais. Em acordo com as próprias demandas dos setores produtivos para uma alteração nesta lei, não teria sido mais adequado o verbo “Atualiza” do que “Institui”?

Ana Maria Primavesi, a agrônoma que faleceu aos 99 anos no quinto dia de 2020, dialogou por oito décadas com inúmeros atores sociais e de todas as classes. Que a pertinência do seu exemplo e de seus ensinamentos para o presente seja reconhecida também pelos jornalistas, a quem cabe informar a sociedade sobre a cronologia e as consequências do desmonte das políticas públicas ambientais.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Que calor, que horror, menos pavor e mais consciência ambiental!  

Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios, mas o maior deles é contribuir para que a população mude suas posturas e reveja sua forma de vida, de interação com o meio ambiente e se torne consciente de que as mudanças climáticas são reais. Prova disto são as ondas de calor que vêm afetando o mundo de Norte a Sul e que são apenas noticiadas quando os prejuízos passam a afetar nossos bolsos, as temperaturas se tornam quase insuportáveis, pessoas e animais estão morrendo e as plantações destinadas a nossa alimentação estão sendo perdidas em função da escassez de chuvas.

As coisas estão mudando faz tempo, mas raros são os espaços na imprensa corporativa e raros são os momentos minimamente dedicados às mudanças climáticas. O tema merece muito mais cobertura e não só quando o calor chega a temperaturas nunca antes alcançadas na história de diferentes países e causa pavor, como na matéria publicada no site do G1 no dia 04/01/20, como mostra a manchete abaixo:

CM artigo OJA - sobe para 23 numero de incendios

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1 acompanhada de vídeo

O incômodo pela ausência de mudanças do clima na imprensa e aí não me refiro somente a imprensa comercial, mas também a falta de iniciativas de produção de matérias por parte das assessorias de imprensa e de pessoas ligadas a organizações da sociedade civil e suas redes, por agências de jornalismo investigativo, dentre outros. Muito se deve a falta de investimento político (pois as mudanças do clima não são tema que atraia votos) e financeiro, o que deveria ser diferente em razão da importância civilizacional, como são as mudanças no clima da Terra.

A mudança do clima em si tem valor-notícia para permanecer no hard news, mas não permanece. Ela somente vira pauta quando situações extremadas preocupam a sociedade, afetam o mercado financeiro e causam perdas nas lavouras, como no registro feito pela Globo no telejornal Hora Um, em 03/01/20, para retratar as faltas de chuvas no Rio Grande do Sul registradas desde o final de 2019, aliadas a altas temperaturas.

falta de chuva e temperaturas altas

Imagem – Captura de tela de matéria publicada no site do G1 na Hora Um da Notícia

O tema é pouco noticiado e sem regularidade, e nem mesmo o Observatório do Clima que poderia ser um espaço de consulta e abrir frente a uma ampliação de espaços para o tema na imprensa brasileira, não tem conseguido mudar a situação apesar de assumir a responsabilidade importante de noticiar e cobrar ativamente o governo.

Enfim, compartilho da ideia do jornalista Ulisses Capozzoli, de que “a mídia é de fundamental importância para a conscientização, especialmente na educação para um presente e futuro cada vez mais exigentes, de um ponto de vista ambiental, entre outros. E aí aparece o paradoxo: o desafio de conscientizar a própria mídia” para a importância do tema e a mudança de postura da população.

Antes que o calor nos mate, façamos do pavor um motivo de mudança de postura pessoal e de convencimento de que o jornalismo precisa sim ter assumir uma posição: estar ao lado do meio ambiente e da vida.

 

Referência:

CAPOZZOLI, Ulisses. Aquecimento global e a consciência da mídia. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/ciencia/aquecimento-global-e-a-consciencia-da-midia/ . Acesso em: 05 de janeiro de 2020.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

Imagem: Captura de tela do site G1 Brasil
*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Imagem: Captura de tela do site Veja

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As narrativas restaurativas do podcast Mamilos

Imagem: captura de tela – Juliana Wallauer e Cris Bartis praticam um jornalismo de peito aberto no podcast Mamilos
Roberto Villar Belmonte*

O Pulitzer, principal prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, anunciou, dia 5 de dezembro, uma nova categoria: reportagem em áudio. “O renascimento do jornalismo em áudio nos últimos anos deu origem a uma extraordinária variedade de histórias de não ficção”, reconheceu Dana Canedy, administradora da premiação. Em parte isso ocorre em função do sucesso de público dos podcasts, fenômeno também observado no Brasil. Por aqui, um dos programas semanais de maior audiência é o Mamilos, produzido e apresentado por Juliana Wallauer e Cris Bartis desde 2014.

A proposta das duas é colocar semanalmente no ar o que elas chamam de narrativas restaurativas, uma espécie de jornalismo de paz para compreender temas polêmicos da atualidade. “Estamos mais preocupadas em criar pontes do que provar pontos”, afirmou Cris Bartis em um TEDx Talks em junho. Suas fontes sempre têm algo interessante pra dizer, mas também são pessoas interessadas em ouvir. “A gente conversa pra conectar, para mostrar nossa humanidade, pra mostrar que tem gente envolvida”, disse a apresentadora.

O episódio 229, Alter do Chão: paraíso em disputa , que foi ao ar dia 9 de dezembro, trouxe uma novidade ao programa. As duas apresentadoras estiveram no interior do Pará colocando em prática uma técnica de reportagem fundamental e que vem sendo destacada com frequência nesse observatório: a imersão. Por coincidência, elas foram convidadas por um dos brigadistas presos em novembro pela Polícia Civil local.

O convite foi feito após o programa “Povos Indígenas: de onde viemos e para onde vamos“, que foi ao ar em agosto desse ano com Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, e Adriana Ramos, especialista em políticas socioambientais e associada do Instituto Socioambiental (ISA).

Mamilos não é um podcast de jornalismo ambiental. Mas o jornalismo de peito aberto realizado nesse programa permite uma abordagem em profundidade dos temas. As narrativas restaurativas não apenas ajudam a construir pontes, mas também ampliam a compreensão do público acerca de temas polêmicos que exigem diferentes pontos de vista para serem tratados. No contexto brasileiro, não é pouca coisa: “Nossa busca, com curiosidade e humildade, é desenvolver um jornalismo construtivo, de soluções, não violento”.

O podcast Mamilos não reproduz notícias em excesso, característica presente em muitos podcasts jornalísticos, que acaba truncando a narrativa, ao invés de ajudar. A edição de áudio é muito bem feita, o que permite um mergulho na conversa das duas apresentadoras. O episódio Alter do chão: Paraíso em Disputa tem quase duas horas, mas a conversa flui de uma maneira agradável.

A observação de ambas, baseada em entrevistas em off para preservar as fontes que vivem na região conflagrada, e as conversas gravadas com os convidados permitem um reflexão profunda sobre a região: “Nessa jornada nos envolvemos em conversas que nos fizeram refletir sobre o direito à terra, a forma como ela é distribuída, como a especulação imobiliária age e afeta as comunidades, como um apanhado de pessoas de diferentes lugares do mundo, com diferentes sonhos e interesses podem formar uma comunidade. Essa expedição contou com muitos convidados. Só é possível pra entender o lugar vivendo o lugar e falando com as pessoas de lá. Muitas conversas foram feitas com gravador e sem gravador”.

Mamilos em estúdio já era um programa diferenciado, pela abordagem em profundidade. Esse episódio sobre Alter do Chão, que resultou de uma jornada no interior do Pará, reafirma a importância da observação, da reportagem, da proximidade com o acontecimento. As apresentadoras não têm uma formação jornalística clássica, não passaram pelas grandes redações do país, mas com essa proposta de narrativa restaurativa produzem um programa jornalístico fora da curva.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).