O jornalismo de imersão de Eliane Brum

Patrícia Kolling*

Ela queria “cobrir” o mundo a partir do local que entende ser o centro do mundo, a Amazônia. Para tal, em 2017, fez as malas e mudou-se de São Paulo para Altamira, no Pará. Estamos falando da jornalista e colunista Eliane Brum, que ao participar recentemente do programa Córtex, da mídia independente Estúdio Fluxo , justificou a mudança dizendo: “eu queria inverter o lugar de onde eu olho mundo e o Brasil. Eu intui que isso ia me permitir entender as coisas de uma outra forma, melhor talvez”. Após dois anos morando na Amazônia, ela destaca que já se sente de outro jeito e entende outros jeitos de ser. “A cidade é uma camisa de força de concreto sob a natureza. A gente se desconectou de tal maneira, que não se sente parte de um organismo que é vivo, que é esse planeta. Quando você começa a viver aqui, e eu fico muito na floresta, você começa a se sentir de um outro jeito, entender um outro jeito de ser. Hoje me sinto parte deste planeta de forma orgânica, carne do planeta, o meu jeito de estar nesse planeta já mudou. Mudou até a linguagem. Não tenho palavras, língua, para falar das coisas que eu percebo. Estou buscando aprender outras línguas que possam dar conta desse novo jeito de habitar esse planeta”.

Em tempos em que o jornalismo é cada vez mais produzido em frente ao computador, com o uso da internet, em salas fechadas com ar condicionado, em que a maioria das fontes são entrevistas por telefone, e-mail ou whatsApp; a jornalista Eliane Brum quebra paradigmas para ver, ouvir e sentir no corpo e na alma o que os povos da floresta vivem e tem a dizer no olho no olho. Eliane Brum tem a sensibilidade de fazer um jornalismo que valoriza a história das pessoas e famílias que são suas fontes, ou seja, a subjetividade de cada uma delas. Em Altamira ela acompanha a história de muitas famílias que foram expulsas das suas casas na beira do rio, das ilhas onde viviam, ou seja, dos espaços em que haviam constituídos suas histórias de vida, devido a construção da hidrelétrica Belo Monte. “Na minha experiência de repórter as subjetividades são tão ou mais importantes que as objetividades para produzir o que acontece”, destaca a jornalista. Essas famílias hoje moram em casas construídas pela empresa Norte Energia, administradora do projeto da hidrelétrica, em bairros isolados da cidade, distantes do rio, em casas construídas sem valorizar sua cultura e seus costumes. “A cultura daqui é de receber as pessoas e amarrar a rede. Eles fizeram casas onde não tem espaço para a rede. Casa de ribeirinho sem espaço para rede é mesma coisa que não ter cozinha”, destaca Eliane, que ao viver próximo dessas famílias e com elas conviver frequentemente consegue compreender detalhes das suas vida, que um repórter que não vivencia situações semelhantes jamais perceberia.

Entre as contradições que ela aponta estão a que essas pessoas que viviam junto ao rio e dele tiravam seu sustento, hoje não tem água nem nas torneiras. “A água das caixas d´águas não tem pressão para chegar as torneiras. Elas foram expulsas para construir uma hidrelétrica e pagam uma das energias mais cara do Brasil. Eles tinham água, luz, peixe. Eles tinham a floresta, a roça. Eles tinham os amigos, os parentes, tinham a felicidade. Eles tinham vida. E agora foram jogados aqui.”, lamenta a jornalista

No vídeo em conversa com o jornalista Bruno Torturra, Eliane faz uma reflexão sobre o que é ser rico e pobre, a partir das subjetividade de cada povo. Ela explica que para os indígenas, quilombolas, ribeirinhos ser rico é não precisar de dinheiro. “Viver na floresta é ser rico. Eles eram ricos, porque não precisavam de dinheiro. Agora precisam de dinheiro para pagar luz, água e não tem. Hoje eles são pobres urbanos”, evidencia. Neste sentido, ela ressalta a dificuldade da sociedade de visualizar diferentes tipos de povos, costumes e culturas. “A forma como as pessoas se veem e acham que o mundo é só de um jeito, torna esses povos sempre invisibilizados” destaca. Ela evidencia a necessidade de enxergar e valorizar essas “outras humanidades”

Eliane nos dá uma aula de jornalismo ambiental, com a sua capacidade de compreensão dos fatos de maneira contextualizada e conectada. Ela consegue relacionar fatos políticos, sociais, ambientais e econômicos com muita rapidez e eficiência em vários momentos da conversa.
Ao citar o cientista da terra, Antônio Nobre, ela ressalta que uma árvore grande coloca na atmosfera mil litros de água por dia. Então, ela nos chama a refletir que ao encontrarmos na rodovia Transamazônica caminhões com dezenas de toras de árvores (segundo ela são muitos transitando): “Cada árvore daquelas são mil litros de água por dia a menos na atmosfera. A floresta inteira coloca 20 trilhões de litros de água por dia. A floresta transpira e salva o mundo todos os dias. Se esta floresta acabar, e ela está neste processo, vamos viver num planeta hostil. E quem pode impedir isso são os povos da floresta, porque se existe floresta em pé é onde estão os povos da floresta. Parte desta floresta foi plantada por estes povos. Os povos são a floresta. Ao matá-la, matamos eles também”.

Ao final ela explica que considera a Amazônia como o centro do mundo, “pois em época de emergência das mudanças climáticas, não tem como controlar o aquecimento global sem ter a floresta viva”. Ao lermos os textos ou ouvirmos as falas de Eliane Brum somos tocados, porque compreendemos o todo, e qual a nossa importância no contexto da preservação ambiental, como as perspectivas teóricas do jornalismo ambiental propõe.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

A prisão dos brigadistas de Alter do Chão e um podcast

Imagem: Capa do podcast café da manhã no Spotify
Por Nicoli Saft*

Para o texto de hoje do Observatório, resolvi destacar um bom exemplo de jornalismo, e um de um meio não tradicional, mas que nos últimos anos vem ganhando cada vez mais adeptos. No podcast diário Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, o jornalismo ambiental já apareceu diversas vezes este ano, como era de se esperar em um ano que teve Brumadinho, queimadas desenfradas, petróleo no litoral nordestino e o recorde de desmatamento na Amazônia. Na última quinta-feira, 28 de novembro, o assunto foi a prisão de quatro brigadistas acusados de atear fogo em uma área de proteção ambiental de Alter do Chão em setembro. Alter do Chão é um distrito da cidade paraense Santarém, e é conhecida mundialmente pelas suas belas praias de água doce.

Os quatro homens que foram presos são voluntários da Brigada de Incêndio do local, organização fundada em 2018 pelo Instituto Aquífero Alter do Chão e que atua em conjunto do Corpo de Bombeiros no combate às queimadas da floresta. A prisão fez parte da operação Fogo do Sairé, da Polícia Civil do Pará, que também apreendeu documentos da organização não-governamental Projeto Saúde e Alegria (PSA), que atua há 30 anos na floresta fornecendo serviços de saúde para a população. Os quatro brigadistas ficaram presos de terça à quinta-feira, quando foram liberados por decisão judicial.

O podcast da Folha é apresentado usualmente por Rodrigo Vizeu e Magê Flores, mas como esta está de férias, tem sido apresentado por Victoria Azevedo, repórter da coluna Mônica Bergamo. Os apresentadores entrevistam outros jornalistas da Folha e “trazem nas manhãs de segunda à sexta, de forma leve e simples, o fundamental sobre os assuntos do momento no Brasil e no mundo”, conforme descrição do podcast no Spotify. O programa segue a linha do americano The Daily, do New York Times, apresentado por Michael Barbaro.

Os entrevistados dessa quinta-feira foram Ana Carolina Amaral, do blog Ambiência, e João Pedro Pitombo, repórter da Folha em Salvador. Primeiramente Pitombo apresenta um pouco do que foi o incêndio que destruiu uma área de cerca de 650 mil m² e que levou quatro dias para ser controlado. Pitombo também apresentou a hipótese da Polícia Civil: os brigadistas iam até a floresta, iniciavam o fogo, saíam do local e pouco depois retornavam para apagar, fazendo também imagens do fogo, que vendiam para organizações internacionais para captar doações para as brigadas e ONGs da região. Outro argumento da Polícia é que houve mau uso dos recursos das ONGs, principalmente no que se refere a uma doação da ONG WWF Brasil, que teria pago 47 mil reais para fotos do incêndio, o que a organização nega. Essas fotos teriam sido utilizadas para obter outras doações, inclusive uma de 500 mil dólares da fundação do ator Leonardo Di Caprio, fato que também é negado pela WWF.

Ana Carolina Amaral conta sobre alguns detalhes do inquérito policial, e de suas inconsistências. A partir de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia Civil montou parte de seu inquérito. Há, conforme a repórter relata, abismos entre a intenção de falas em seus contextos originais nos diálogos e a interpretações que a polícia teve. Amaral ainda chama a atenção para o perigo de que essas táticas sejam utilizadas em outras investigações para culpabilizar as mais diversas organizações.

No restante do episódio, surgem as declarações do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e os esclarecimentos da WWF. Pitomba ainda conta sobre uma reportagem que fez sobre Alter do Chão logo antes da Operação Fogo do Sairé, nela, relata sobre as pressões imobiliárias que a região vem sofrendo, além das ocupações ilegais de grileiros. O Ministério Público Federal também investiga desde setembro a causa dos incêndios e, ao contrário da Polícia Civil, aponta como causa da degradação ambiental em Alter do Chão o assédio de grileiros, a ocupação desordenada e a especulação imobiliária.

Destaco esse podcast por nos tirar um pouco daquele jornalismo impessoal e imparcial. Aqui, há uma clara rejeição à postura de trabalho adotada pela Polícia Civil do Pará e um apontamento dos possíveis culpados. Na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro resolveu culpar Leonardo Di Caprio pelos incêndios na Amazônia, embora seja uma proposição aparentemente ridícula, eu sabia exatamente do que ele estava falando. E ainda, considero podcasts um meio interessante de levar o jornalismo ambiental às pessoas. Um dos grandes problemas que enfrentamos, e sobre o qual eu mesma já falei aqui no Observatório, é o distanciamento que temos em relação aos problemas ambientais, seja as mudanças climáticas ou o petróleo no litoral nordestino. O podcast por si só traz uma proximidade com os jornalistas e com o tema discutido. Sentimos quase como se fosse um amigo nos contando uma história, e portanto, aquilo que é dito importa. Não que seja a única solução possível, é claro, mas é uma alternativa.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Microplástico nos oceanos e a necessidade jornalística de ir além da tradução de artigos científicos

Foto GPJA

Imagem: Captura de tela de matéria da BBC News
Michel Misse Filho*

Não raro observamos, nos noticiários televisivo, digital e impresso, reportagens que atentam para o problema das quantidades crescentes e absurdas de plásticos nos oceanos. Foram diversas matérias nos últimos anos, construídas com um especial enfoque, por exemplo, nas ilhas de plástico do Oceano Pacífico (somadas, compreendem uma área maior do que a de países como a França), bem como nas terríveis fotos de tartarugas, peixes e baleias envoltas em sacolas ou garrafas de refrigerante.

Muito além das fotografias espetaculares das ilhas de resíduos, a problemática do microplástico tem se mostrado notadamente importante, transpassando o sistema digestivo de inúmeros seres que habitam os oceanos – e que também chegam à nossa mesa de jantar, finalmente. Uma matéria publicada este mês pela BBC News , em seu site, é um bom exemplo para tratarmos do assunto em correlação com a divulgação científica na mídia.

Intitulada “Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes”, a notícia revela um estudo inédito, que aponta para o aparecimento de fragmentos de plásticos nos locais ricos em plâncton, como em certos “corredores” na superfície do mar onde se concentram materiais orgânicos, propiciando uma zona de maior concentração de alimentos para as larvas. Apesar de pesquisadores já desconfiarem do fato, cientificamente só se tinha a confirmação da ingestão da substância plástica em peixes adultos e, portanto, cientistas se alarmam com as consequências da ingestão dessas toxinas no estágio mais vulnerável do desenvolvimento das espécies. Em vez de tartarugas com grandes sacolas, emerge a figura dos fragmentos plásticos, menores que cinco milímetros e originados por decomposição dos plásticos maiores, agora sabidamente ingeridos desde o início da cadeia alimentar, com consequências ainda não desveladas pelos estudiosos.

A análise da matéria é uma boa oportunidade em confluir divulgação científica e a pauta do microplástico em corpos hídricos, cada vez mais recorrente. Sob o ponto de vista da ciência, a matéria cumpre o seu papel de informar, com clareza, as descobertas do estudo, traduzindo-as para um público não especializado, como deve ser de praxe na atividade jornalística. O problema, contudo, é a dificuldade em se utilizar de um gancho como esse (a própria publicação do estudo) para que se possa descortinar uma série de relações – causais ou não, contingentes ou não – que tenham a ver com o assunto mencionado. Limitar a divulgação científica na mídia à simples tradução de um artigo científico em linguagem jornalística não parece ser proveitoso nem à percepção da ciência pela sociedade, e nem ao jornalismo que, empobrecido e com redações cada vez mais enxutas, se mantém distante da rua e do olhar in loco. No caso do jornalismo ambiental, em que a divulgação científica faz parte da própria gênese de criação do campo, realçar o intercâmbio entre academia e sociedade parece ainda mais importante para que a pauta ambiental possa adquirir um olhar mais sistêmico e complexo da questão.

Sendo a próxima década (2021-2030) definida pela ONU como a “Década para a Oceanografia”, é fundamental abordar o assunto além das imagens chocantes das grandes montanhas de lixo, mas também para temas não visíveis à olho nu, mas que crescem de forma avassaladora, como a questão dos microplásticos, da acidificação dos oceanos, e da importância dos oceanos contra as mudanças climáticas. Mais do que isso, cabe também ao jornalismo ampliar o seu leque de olhares e, portanto, de perguntas: quem sabe, assim sejam ensaiadas novas respostas.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

O jornalismo que subestima acidentes nucleares nos coloca em perigo

Imagem – Captura de tela do site da BBC Brasil.
*Por Eutalita Bezerra

No último dia 21, a BBC News Mundo divulgou, com alarde uma descoberta publicada em artigo científico por pesquisadores do Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha, segundo o qual a principal causa de mortes após o acidente nuclear de Fukushima, ocorrido no Japão em 2011, não foi a radiação, mas o frio.

Se você, leitor, ainda não entendeu exatamente, é preciso saber que a informação principal também não chega tão rapidamente na publicação original. Dividido em quatro subtópicos, somente no penúltimo deles a notícia começa a esclarecer a relação entre o acidente e as mortes por frio. E, ainda assim, nos deixa com mais questões que respostas. Um desserviço?

Além de não informar em que periódico o estudo foi publicado ou como ele foi metodologicamente construído, embora admita que quase 30% da população japonesa foi avaliada, o texto afirma que, com a redução na produção de energia nuclear no Japão pós-tsunami e acidente de Fukushima, o preço da eletricidade subiu até 38% em algumas regiões do país e conectam esse aumento à redução no consumo de eletricidade para aquecimento da população. Tal mudança de comportamento, no inverno rigoroso, diz o artigo, levou a mais de 1280 mortes, ante cerca de 130 causadas diretamente pela radiação, conforme estudos citados pelos pesquisadores ouvidos por BBC News, e outras 1232 pela evacuação após o acidente.

Neste momento, já nos caberia fazer uma soma simples: 1552 mortes causadas diretamente pelo acidente são subestimadas pela reportagem – ou pelo estudo? – ao trazer já em seu título a pomposa informação de que “ A surpreendente causa de centenas de mortes após acidente nuclear de Fukushima – não é a radiação”.

Não há dúvidas de que, caso se trate de um estudo consistente, sua publicação é válida . A divulgação científica não somente é desejada como é necessária para a vida social. O que não podemos, seja no papel de divulgadores de ciência ou de jornalistas ambientais (ou não) é diminuir o impacto de um acidente nuclear, como foi o de Fukushima, que só perdeu em extensão para o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Para que a publicação fosse realmente informativa, com um olhar complexo sobre o assunto e que permitisse aos seus leitores um conhecimento substancial sobre o tema, além de apresentar o estudo seria necessário, também, informar sobre os problemas derivados de um acidente ambiental de tamanha magnitude. Não são “somente” 130 mortes pela radiação e 1232 pela desocupação. Trata-se da contaminação de toda uma região pela dispersão de toneladas de material radioativo, seja na terra no ar ou na água.

Pouco tempo após o acidente, mais precisamente em 2012, o Jornal espanhol Diagonal divulgou informações sobre o estado atual de Fukushima. A reportagem foi traduzida e publicada pela Revista IHU, que, dentre outras informações, destaca que naquele momento, passados 26 anos do acontecido em Chernobyl, que no mundo ainda existia metade da radiação que havia sido despejada no momento daquele acidente, somado, na ocasião, a todo o restante despejado por Fukushima nos oceanos. Como informações como esta, que demonstram que a extensão do dano é mundial e é possível admitir que milhões de outros organismos estão sendo afetados e seguirão sendo ao longo de milhares de anos – “o plutônio 239 tem uma vida média de cerca de 24.000 anos e com o tempo se transforma em amerício 241, outro elemento radioativo que pode ser incorporado ao organismo humano (IHU, 2012)” – subestimar a repercussão direta de um acidente nuclear é um perigo que BBC News e diversas outras mídias que publicaram este estudo sem um trabalho aprofundado (Uol e Globo.com apenas republicaram a reportagem da BBC, por exemplo) não se preocuparam em correr. Mas, acreditamos e defendemos!, deveriam.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Abordagens transversais em pautas sobre a Amazônia evidenciam a resistência do jornalismo

*Débora Gallas Steigleder

Na quarta-feira passada, 13 de novembro, assisti ao evento Conexões Amazônicas, promovido por integrantes de diversos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que têm a Amazônia como interesse de pesquisa. Na ocasião, Ilza Girardi, Eloisa Loose e Jamille Almeida representaram o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e incentivaram os participantes a refletirem sobre a importância da construção de pontes entre o conhecimento científico e os saberes das comunidades tradicionais. Também destacaram a necessidade de, na atual conjuntura de desinformação, em que há circulação de informações imprecisas ou deliberadamente enganosas, contarmos permanentemente com produções midiáticas qualificadas para além de editorias específicas, que assumam o princípio da precaução frente aos conflitos e riscos ambientais.

Muito já falamos neste Observatório, antes e depois de as queimadas criminosas na floresta amazônica dominarem o noticiário, sobre o dever do jornalismo de abordar a crise ambiental como sistêmica, na qual se conectariam as escalas global e local. A mais recente reportagem de Eliane Brum, publicada em El País em oito de novembro, é um ótimo exemplo para pensarmos a contextualização da pauta frente a este cenário. Erro de projeto coloca estrutura de Belo Monte em risco transcende escalas ao tensionar passado e futuro: ao apontar equívocos estruturais desconsiderados pelo consórcio na construção de reservatório da usina hidrelétrica, Eliane destaca que a crise climática vai piorar a situação, pois a vazão do rio Xingu já é diretamente influenciada pela derrubada da mata para a expansão do cultivo de soja na região de Volta Grande do Xingu.

A reportagem é motivada pela seguinte questão elaborada pela jornalista: “como é possível que o projeto da maior hidrelétrica da Amazônia e uma das maiores do mundo não tenha contemplado o comportamento medido e documentado do rio Xingu?”. A transversalidade da pauta fica evidente quando as fontes consultadas remetem às relações políticas e econômicas que levaram à realização do projeto de Belo Monte e às consequências do empreendimento em dimensões diversas, desde a saúde de ribeirinhos e indígenas até a dinâmica de todo um ecossistema. Além disso, a busca de conexões com outras tragédias, como o rompimento de barragens de rejeitos de mineração em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, localiza a discussão temporalmente, pois estamos falando de projetos que materializam a ideologia capitalista vigente, do desenvolvimento a qualquer custo.

Eliane Brum mostra, portanto, que a busca por novas formas de contar histórias na Internet não precisa se afastar dos elementos que compõem uma boa reportagem ambiental em qualquer mídia: abordagem aprofundada, diversidade de saberes e preocupação com as condições de existência no planeta.

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Jornada indígena: no foco da imprensa internacional, esquecida pela mídia brasileira

Imagem – Lideranças indígenas visitam 12 países da Europa. Foto Mídia Ninja.
Por Patrícia Kolling*

Desde o dia 25 de outubro, lideranças indígenas das cinco regiões brasileiras, estão percorrendo 12 países europeus na Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Em uma agenda lotada, estão reunindo-se com parlamentares, ministros, representantes de comissões internacionais, ativistas, acadêmicos, Organizações Não Governamentais (ONGs) e participando de mobilizações, debates, painéis e programas de comunicação. A Jornada, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), tem o intuito de denunciar as violações dos direitos dos povos indígenas e a destruição do meio ambiente, pelo governo atual.

A presença dos indígenas na Europa e a situação ambiental do Brasil tem sido tema de diversas reportagens na mídia em todos os países pelos quais a comitiva passou. O assunto, porém, não tem sido de muito interesse para a grande mídia brasileira.

Como, então, ficamos sabendo aqui no Brasil das atividades desta Jornada? Ficamos sabendo, porque paralelamente às atividades políticas, acontece um trabalho de assessoria de comunicação de divulgação das ações dos movimentos sociais indígenas e ambientais. Comunicação essa, que oportuniza, através das mídias sociais, a informação direta da sociedade. Junto com as lideranças que percorrem a Europa, estão indígenas comunicadores que cuidam da transmissão das informações sobre a Jornada. Em parceria com uma equipe colaborativa no Brasil e em diversos outros países, o grupo produz todos os dias releases que são encaminhados a grupos de whatsapp, veiculados nas mídias sociais e enviados a imprensa. No início de cada dia é divulgada a agenda dos eventos e no final do dia, em vídeo, um dos indígenas da comitiva faz um diário de bordo , relatando o que foi feito naquele dia e avaliando as atividades. Paralelamente, é produzido o clipping de tudo que é publicado sobre o assunto nos meios de comunicação, além de muitas fotografias e registros audiovisuais.

Felizmente, atualmente as novas tecnologias oportunizam essa outra comunicação e a transmissão de informações com uma perspectiva diferenciada da mídia hegemônica, dominada pelo poder econômico e político. Mártin-Barbero nos alerta que as tecnologias não são neutras e por isso mesmo “constitutivas dos novos modos de construir a opinião pública e das novas formas de cidadania, isto é, das novas condições em que se diz e se faz a política”. (2006, p.70)

Ou seja, temos na comunicação, que se viabiliza através das tecnologias digitais (vídeos, mídias sociais, internet) “um processo que por sua vez, introduz uma verdadeira explosão do discurso público, ao mobilizar a mais heterogênea quantidade de comunidades, associações, tribos, que ao mesmo tempo que liberam as narrativas do político, desde as múltiplas lógicas dos mundos de vida, despotencializam o centralismo burocrático da maioria das instituições, potencializando a criatividade social no desenho da participação cidadã.” (Mártin-Barbero, 2006, p. 70).

Frente a esta participação cidadã, parece que falta ao jornalismo brasileiro reconhecer as mídias e a comunicação realizada pelos movimentos sociais como legítimas, oportunizando espaços para a difusão da multiplicidade de informações, de culturas, de fatos, conhecimentos e pontos de vista.

Na semana passada, porém, dois fatos, com os critérios de noticiabilidade de atualidade, conflito e economia fizeram o tema entrar na pauta. A morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava um grupo de guardiões da Floresta, assassinado por madeireiros, e a presença da comitiva da Jornada na Bélgica solicitando a União Europeia a não ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, foram ganchos para que a Jornada fosse sutilmente citada na mídia brasileira.

Essa breve explanação, é na intenção de nos fazer refletir porque com tantas informações sendo produzidas sobre a sobrevivência ambiental do nosso país e dos nossos povos; a mídia insiste em fechar os olhos e não contextualizar a temática como poderia? Porque as questões ambientais, tão importantes para o futuro da humanidade, precisam pegar “carona” em assuntos de impactos factuais, de violência ou econômicos para serem abordadas na mídia?

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Tecnicidade, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis (Org.) Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT