Lançado na semana passada, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil indicou, pela primeira vez na série histórica, queda no desmatamento em todos os biomas do país. Os dados, que se referem a 2024, são da iniciativa MapBiomas, que há seis anos reúne informações sobre a perda de vegetação nativa no Brasil. As chamadas dos principais portais de jornalismo destacam a tendência de queda, mas, quando muito, relegam à linha de apoio o fato de que os dados ainda são alarmantes.
Ultrapassando a Amazônia, o bioma com maior área desmatada é o Cerrado, pelo segundo ano consecutivo. A região conhecida como Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou 75% dos mais de 650 mil hectares perdidos no bioma. Já no acumulado de 2019 a 2024, o Pará, onde neste ano se realiza a COP-30, é o estado com maior área desmatada com cerca de 2 milhões de hectares suprimidos.
Estes dados não são triviais, já que correspondem justamente a regiões cuja força motriz tem sido o agronegócio. De acordo com a série histórica do MapBiomas, 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil esta conectada à expansão de fronteira agropecuária. O Brasil de Fato foi o único veículo a destacar este dado, convocando outros dados para além do release amplamente divulgado na imprensa e criticando, inclusive o desmatamento considerado legal, nos marcos do Código Florestal.
Também chama a atenção que o relatório pondera o papel do desastre ocorrido no Rio Grande do Sul: o estado passou a ocupar o terceiro lugar dentre os estados da Mata Atlântica com maiores perdas de vegetação nativa em 2024. Isso se dá em função dos eventos climáticos extremos, que desencadeiam deslizamentos de encostas, revelando mais uma face da intrincada relação entre desmatamento e mudanças climáticas.
Com uma cobertura que foca em números, sem esforço amplo de contextualização, o desmatamento e a perda de vegetação nativa se resumem a dados abstratos. Após o recente desmantelamento das políticas ambientais e de monitoramento, evidente que qualquer redução nos índices de desmatamento representa um alívio, mas falta ao jornalismo abordar com seriedade os vetores desta derrubada – e quem lucra com estas atividades extrativas.
*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com
Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**
Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção.
As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.
Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.
Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul. “A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.
Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza.
A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala.
Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?
Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.
*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com. ** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.