As imagens da crise climática: do catastrofismo à banalização dos riscos

Imagem: Captura de tela do jornal SP1, afiliada à Rede Globo, exibido no dia 17 de novembro de 2023

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

“Sextou! Véspera de feriadão e a gente está por aqui. Estamos na praia ou não estamos, Jacqueline Brazil? Faz de conta que estamos na praia nesta véspera de feriadão”, disse o jornalista Alan Severiano a sua colega de bancada. “Esse céu azul… Vai ser mais um dia quente no litoral e aqui na capital, onde as temperaturas vão ficar maiores que ontem. Previsão para hoje? 36 graus. Tá bom para você, Alan?”, respondeu Jacqueline.  

Esse foi o diálogo de abertura da edição de sexta-feira (17) do telejornal SP1, emissora paulista afiliada à Rede Globo, protagonizado pelos jornalistas enquanto entravam ao vivo no estúdio sentados em cadeiras de praia e usando óculos escuros. A cena criada em tom descontraído trazia a previsão da onda de calor que assolou diversos estados do Sudeste e Centro-Oeste na última semana – se tornando um grande exemplo do que não se deve fazer no jornalismo quando os riscos climáticos são a pauta.

A informação foi trazida com humor, fazendo referência à praia – algo culturalmente associado às férias e momentos de lazer. Contudo, as temperaturas próximas dos 40 graus, e com sensação térmica atingindo os 60 graus, acarretaram uma busca por atendimento médico. Só no Rio de Janeiro, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), as unidades de emergência e urgência atenderam uma pessoa a cada duas horas com sintomas causados pelo calor extremo durante todo o fim de semana na cidade. Foram casos envolvendo insolação, queimaduras de segundo grau devido ao uso de bronzeadores ou relacionados à combinação de doenças crônicas com o calor. 

Uma cobertura jornalística “mais leve” diante de eventos climáticos extremos não apenas flerta com o negacionismo climático como presta um desserviço à saúde pública na medida em que, ao representar as altas de temperatura de forma positiva, faz com que os cidadãos não se sintam ameaçados ou não percebam o quanto podem ser impactados com os riscos iminentes das mudanças do clima. As notícias sobre as marcas históricas de calor no Brasil têm sido ilustradas, de modo geral, por fotos de pessoas à beira-mar ou em piscinas, como observamos nas matérias publicadas pela Folha de S.Paulo “Rio bate novo recorde de calor do ano com 42,5°C neste sábado (18)”, pelo Estadão “Sensação térmica chega a 52ºC às 8h da manhã em bairro da zona oeste do Rio” e pela GZH “São Paulo registra dia mais quente do ano e Rio tem sensação térmica de 50°C”. Tais escolhas podem gerar representações e percepções de que há, enfim, algo positivo para o brasileiro na crise climática: a possibilidade de desfrutar mais dias como aqueles vividos em uma época específica, onde geralmente não é preciso trabalhar e na qual o descanso é possível.

O fato é que, para a maioria da população, refrescar-se na praia ou na piscina nem sempre é uma opção. Na rotina do dia a dia, exercer as atividades de estudo e trabalho sob altas temperaturas impacta diretamente na concentração, disposição e, consequentemente, no desempenho das atividades em razão do estresse térmico elevado. Além dos prejuízos à saúde já citados (que podem, em situações extremas, causar mortes), as altas temperaturas podem afetar de forma significativa o setor agrícola, gerando perda de alimentos e aumento dos preços. O calor extremo também está relacionado à maior ocorrência de incêndios, o que resulta em sobreposição de riscos.

Um estudo realizado pelos pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que quase todos os brasileiros percebem as mudanças climáticas e acreditam que as ações humanas são responsáveis por elas, porém nem todos entendem a gravidade da crise climática. Segundo o levantamento, 94% das pessoas sabem que estamos passando por uma mudança climática e 91% entendem que o fenômeno é causado principalmente pela atividade humana. No entanto, apenas 56% acreditam que o cenário seja grave. 

A comunicação visual da emergência climática é um dos grandes desafios que precisam ser encarados pelo jornalismo. Estudos empíricos já demonstraram que imagens ligadas às catástrofes podem ocasionar paralisia ou apatia por parte dos públicos, não os encorajando a se envolver no enfrentamento do problema. Focar em representações trágicas pode gerar um alerta imediato, mas, a depender de sua frequência e do conjunto de informações que são apresentadas, pode contribuir com a naturalização do caos. 

Por outro lado, discursos otimistas, sobretudo associados ao desenvolvimento da ciência, como a geoengenharia, tendem a reforçar a ideia de que haverá alguma saída no futuro próximo e, portanto, não precisamos nos preocupar ou mudar nosso estilo de vida agora. Aproveitar a onda de calor para curtir uma praia segue nessa lógica: enfatiza um possível “benefício”, de curto prazo e destinado a uma minoria, enquanto minimiza as reais consequências negativas, que afetam a maioria, especialmente as populações mais vulnerabilizadas, e ignoram o efeito cascata, de médio e longo prazos.

Embora não existam fórmulas sobre como ilustrar a crise climática de modo a sensibilizar as pessoas de sua urgência e gravidade, há de se ter cuidado com a banalização dos riscos que permeiam a questão. Não há como noticiar a previsão de ondas de calor de forma descontraída, sem destacar os perigos da situação e formas de preveni-los ou minimizá-los. Essa escolha imprudente, de retratar uma notícia séria com leveza, está mais preocupada em atrair audiência do que com o interesse público. Não há como reduzir a solução das temperaturas extremas a um mergulho. Repensar as imagens que ilustram a cobertura climática é responsabilidade de todos aqueles que se comprometem com a acurácia da informação. 

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Procura-se a faceta “ambiental” dos problemas urbanos no jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.

A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.

A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.

A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Direito pouco divulgado

ONU tem reconhecido o direito das crianças a um mundo limpo e saudável / Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Por Sérgio Pereira*

Duas notícias recentes envolvendo decisões inéditas na área do direito ambiental tiveram discreta repercussão na imprensa hegemônica brasileira. O jornalismo, devemos lembrar sempre, é uma ferramenta fundamental para a construção de uma consciência cidadã.

No último dia 28, pela primeira vez, um comitê das Nações Unidas reconheceu que todas as crianças têm direito a um meio ambiente limpo e saudável. A decisão do Comitê para os Direitos da Criança da ONU foi fundamentada a partir da análise de um tratado internacional. “Os Estados têm que garantir um meio ambiente limpo, saudável e duradouro para respeitar, proteger e cumprir os direitos das crianças”, justificou o documento.

Poucos dias antes, ainda em agosto, a imprensa estadunidense tomou conhecimento da inédita sentença da juíza Kathy Seeley, do estado de Montana (EUA), que decidiu que “os jovens têm o direito constitucional a um ambiente saudável”. Na argumentação, ela concluiu que houve falha por parte do Estado ao não considerar as mudanças climáticas quando da avaliação de novos projetos.

Decisões judiciais semelhantes ocorreram recentemente também na Alemanha e na Colômbia. E em julho do ano passado, a ONU já havia aprovado uma resolução declarando que todas as pessoas no planeta têm direito a um meio ambiente saudável. Aos poucos, o mundo legal vai tomando consciência de que é preciso instituir garantias para que as próximas gerações tenham direito a um mundo melhor.

A imprensa nacional, no entanto, não encontrou relevância nesses fatos. Praticamente ignoradas nas versões impressas, essas notícias foram ofertadas ao leitor brasileiro apenas em pequenas doses, nas plataformas digitais.

No caso da primeira notícia citada, a versão on-line da Folha de S.Paulo e o UOL trouxeram a informação, mas fazem parte da exceção. “Todas as crianças têm direito a um meio ambiente limpo e saudável, diz ONU” foi o título do texto postado pelos dois portais. Contudo, essa notícia não chegou a ser selecionada para o jornal impresso do grupo, a Folha de S. Paulo.

A decisão da juíza Kathy Seeley ganhou um pouco mais de repercussão. Além da Folha de S. Paulo, o Estado de São Paulo, O Globo e Terra divulgaram a notícia. Entre os jornais gaúchos, Zero Hora ofereceu aos seus assinantes a notícia em GZH, mas os editores não reservaram espaço na versão impressa do jornal. Os sites e os impressos do Correio do Povo e do Jornal do Comércio também nada divulgaram.

Para o uruguaio Victor Bacchetta (2000, p.18), o Jornalismo Ambiental (JA) deve estimular a capacidade das pessoas “para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. A defesa do cidadão e da cidadania são pressupostos enraizados não apenas no JA, mas em qualquer ramo do jornalismo. E a primeira medida desse propósito é elementar: fazer com que aquilo que é relevante chegue até o seu destinatário, o leitor.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências:

BACCHETTA, Victor L. El periodismo ambiental. In: BACCHETTA, Victor L. (coord.). Ciudadanía planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Paris, IFEJ-FES, 2000.

As dificuldades na cobertura de um bioma campestre

Pesquisa encontra até mais de 50 espécies de plantas/metro quadrado no campo nativo pampeano. Como restaurar tamanha biodiversidade campestre? – Imagem: Eliege Fante/Rede Campos Sulinos.

Por Eliege Fante*

A recente boa notícia do governo gaúcho sobre o plantio de “800 mil mudas no bioma pampa”, ler aqui e aqui, denotando resultados de Projeto iniciado em 2018 “a partir de dados alarmantes sobre o bioma pampa, entre eles, a diminuição de quatro milhões de hectares de área entre 1985 e 2021 (de 18,2 mi/ha para 14 mi/ha)”, foi repetida por grande parte da imprensa, através de rádios como a Guaíba e outras do interior do estado, tevês e internet. Por conhecermos as adversidades enfrentadas pelos jornalistas para realizarem os seus trabalhos, entre outros obstáculos diante do extremado enxugamento das redações, cabe problematizar esta mera repetição/republicação com a imprensa-empresa.

A publicação dos chamados relises é comum, bem como a necessidade conhecida por jornalistas, de complementar as informações que veiculam. Uma semana depois, outro relise foi meramente repetido, só que a respeito da renovação do Projeto, tendo sido exaltado pelo governo e igualmente por GZH, entre outros veículos de imprensa. O fato é que os relises republicados anunciam benefícios para o Pampa, mas afirmam que o recurso provém do cumprimento de débitos de Reposição Florestal Obrigatória (RFO), ou seja, relacionado às áreas florestais.

RFO destinada à recuperação de áreas na Mata Atlântica faz sentido, mas não tem o mesmo peso para a conservação de um bioma predominantemente campestre como o Pampa. É importante, sim; mas o desmatamento no Pampa é muito menor do que a supressão de campos, tendo sido de 3 mil hectares em 2022 segundo o MapBiomas. E a Rede Campos Sulinos estima que a supressão de vegetação campestre no Pampa tenha sido, em média, de 145 mil hectares por ano entre 2012 e 2020. Esta é a maior perda de vegetação nativa entre todos os biomas brasileiros, e os pesquisadores se perguntam quanto dessa supressão foi autorizada de acordo com a Lei 12.651/2012 (que não é Código Florestal, é Lei de Proteção a Vegetação Nativa). Fica aí sugerida uma pauta para a imprensa.

“No Pampa, o que faz sentido é restaurar campos nativos, haja vista a perda anual de milhares de hectares”, comentou um especialista. O uso de recursos da RFO na recuperação de campos nativos do Pampa seria uma boa notícia, porém essa confirmação depende do envio de um pedido de informação, pois, na notícia consta apenas que “A RFO é uma medida legal para compensação ou reparação ambiental pela supressão ou manejo de vegetação nativa. A cada árvore suprimida, o empreendedor precisa compensar as perdas com valores equivalentes a outras 15 mudas”. O exemplo da árvore não facilita a compreensão ainda mais que o gravíssimo risco de extinção encontra-se na vegetação campestre característica do Rio Grande do Sul e da matriz cultural.

Urge qualificar a produção dessas notícias por meio da escuta de fontes diversificadas, especialmente de técnicos dos órgãos ambientais, que igualmente são fontes oficiais do Estado. Ou seguiremos festejando a circulação de informações incompletas quando poderiam evidenciar as demais ações cabíveis e, o mais importante, eficazes para evitar a extinção do Pampa. E a primeira delas é “Dar imediato cumprimento ao previsto na Lei n° 12.651/2012, implementando a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com exigência de Reserva Legal, representando no mínimo 20% da área total das propriedades rurais do bioma Pampa”, conforme explicitado na Carta Aberta da Coalizão pelo Pampa.

Afinal, quantas notícias a imprensa publicou sobre o uso produtivo das áreas de reserva legal no Pampa, onde o manejo pastoril é permitido e merece ser incentivado? Enquanto isso, predominam as notícias sobre a conversão do Pampa através dos incentivos às lavouras, em especial de soja, mas também de arroz, milho e eucaliptos. Por fim, é preciso ultrapassar a ideia falaciosa de que áreas de campo com pecuária são de uso consolidado, porque o manejo pastoril conserva a biodiversidade do Pampa. Para tanto, a imprensa-empresa tem que aceder à escuta de fontes diversificadas, bem como pautar as recomendações técnicas dos órgãos ambientais para estancar a supressão da vegetação nativa campestre.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.

Aumentam as mortes violentas na Amazônia: onde está a cobertura dos crimes ambientais?

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Ângela Camana*

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicizou na semana passada seu relatório anual, no qual estão compilados os principais dados sobre a violência no Brasil registrada em 2022. O Anuário Brasileiro da Segurança Pública há mais de 15 anos reúne informações oriundas de órgãos oficiais de todos os estados da federação, como as polícias e as secretarias. Os maiores veículos de comunicação enfatizaram as mudanças no panorama nacional, produzindo rankings da violência e destacando seus efeitos sobre os mais vulneráveis. O relatório informa que, a exemplo de 2021, o número de mortes violentas na Amazônia segue crescendo, informação que ganhou certo destaque na imprensa; no ano passado, pouco se repercutiu a especificidade da região em sua escalada da violência, como avaliou este Observatório.

O Anuário indica uma intrincada relação entre os conflitos por terra, o desmatamento e o garimpo ilegal nos estados amazônicos, afirmando que as disputas foram intensificadas pela ampliação da presença do narcotráfico na região. Ou seja, grupos criminosos de grande porte ligados ao tráfico de drogas agora se dedicam também a atividades ilegais historicamente violentas, processo do qual resulta uma associação entre os crimes ambientais e a violência letal.

Ainda que a repercussão do Anuário até aqui tenha sido mais atenta às dimensões ambientais da violência, especialmente na Amazônia, esta ainda parece ser uma lacuna nas coberturas empreendidas pela imprensa. Ao longo do ano, as pautas que dão conta desta relação se resumem à publicização de estudos e relatórios. O crescimento do “narcogarimpo”, problema grave a ser encarado pelo país, pode ser uma oportunidade para que o jornalismo faça transbordar o “ambiente” para além de editorias de sustentabilidade.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Quando os termômetros (do Norte Global) estouram: o pico de notícias

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

O assunto do texto desta semana não poderia ser outro, senão a onda de calor extremo que assola o hemisfério Norte neste verão, batendo recordes atrás de recordes nas temperaturas e sendo amplamente noticiada. A primeira semana de julho foi a mais quente da história, e as duas maiores economias (não por acaso, também as mais poluidoras) do mundo — Estados Unidos e China — viram os termômetros dispararem para mais de 52ºC na China. Coincidentemente, na mesma semana as duas potências retomaram, após um ano, o diálogo sobre a questão climática.

A onda de calor é avassaladora também pela Europa, Japão e Oriente Médio — no Irã, a sensação de calor chegou a incríveis 66 ºC em um aeroporto, acima da marca suportável pelo corpo humano. O jornal O Globo publicou essa e outras reportagens, próprias ou de agências internacionais, numa cobertura ampla sobre o tema nos últimos dias. O jornal possui uma subeditoria de Mundo chamada “Clima e Ciência”, e um panorama geral do assunto pode ser encontrado nesta matéria, que lista, em quatro pontos, a magnitude da onda de calor. Já o Brasil, situado no hemisfério Sul, também não passa ileso: o calor por ora dá trégua, mas os eventos climáticos extremos seguem firmes, como o ciclone extratropical que atingiu boa parte do país. Sobre eventos extremos no nosso país, o jornal publicou um podcast especial na última semana.

O aumento das notícias sobre as mudanças climáticas parece evidente, mas é mais sintomático do que uma boa notícia: espelha a emergência climática em curso, embora o pico de notícia seja sempre, em todos os anos, durante o verão dos países ricos. De qualquer forma, pode e deve ajudar ao aumento do chamado “letramento climático” na população, abordado em coluna da Folha de São Paulo, e tido como fundamental para a pressão por formulações de políticas para o clima. Esperamos que não seja tarde demais.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Altos índices de desmatamento e desconhecimento sobre o Cerrado: a mídia precisa fazer seu papel

Imagem: José Cícero/Agência Pública

Por Patrícia Kolling*

Notícias recheadas com muitos números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informavam no final da semana passada a queda nos índices de desmatamento na Amazônia. Segundo notícia do site uol, a queda foi de 33,6% no primeiro semestre de 2023, em comparação ao mesmo período do ano passado. Os números foram divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, na quinta-feira, dia 06.

Enquanto, porém, os números de desmatamento na Amazônia Legal estão caindo, como resultado de muitas ações do atual governo, o bioma Cerrado registrou aumento de 21,1% no desmatamento no primeiro semestre. Segundo dados do Deter/Inpe, citados pela notícia da Agência Pública, foram desmatados 4.407,7 km² no bioma até 30 de junho. Somando os índices de Cerrado e Amazônia, foram desmatados 7.056,5 km² entre janeiro e junho, 7,4% a menos do que no mesmo período do ano anterior, quando a soma foi de 7.625,5 km².  A notícia também destaca na área do estado de Mato Grosso, que congrega a Amazônia Legal, o desmatamento cresceu 7,1%, ante os seis primeiros meses de 2022, registrando 905,3 km² de corte raso. “O Estado foi o mais desmatado da região – o que não ocorria desde 2017 – e respondeu por 34,1% da perda florestal na Amazônia Legal em 2023. A área equivale a 573 Parques do Ibirapuera”, ressalta o texto. Interessante destacar que Mato Grosso, tem parte do seu território no bioma Amazônia, parte no bioma Cerrado e outra parte no Pantanal.

O site G1 somente publicou sobre o assunto no domingo, dia 09 de julho, e buscou contextualizar o cenário, com o texto: “Porque o desmatamento cai na Amazônia e aumenta no Cerrado?“, ouvindo especialistas e justificando os dados. O texto atribui a redução do desmatamento na Amazônia a retomada das cobranças de multas a infratores ambientais, a intensificação da fiscalização e o retorno da aplicação desembargos em áreas que cometeram crimes ambientais.

Já quanto ao Cerrado, a matéria apresenta como principais desafios: as dificuldades de monitorar autorizações para o desmatamento liberadas por órgãos ambientais regionais, o fato das áreas de cadastro (CAR) liderarem o desmatamento, sendo que 76% dos alertas foram registrados em áreas cujos donos são cadastrados, além da falta de reconhecimento do território ocupado por povos tradicionais, sendo que só 8% do bioma são legalmente protegidos com unidades de conservação. O texto também destaca que o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado ainda está em elaboração, enquanto o plano da Amazônia existe desde 2004.

Uma reportagem publicada, em junho pela BBC Brasil, já destacou esse assunto “Como a destruição do Cerrado é ofuscada por ‘prioridade’ a Amazônia” . O texto traz uma importante reflexão sobre as diferenças de prioridades entre os biomas, como: a legislação mais permissiva no Cerrado em relação a Amazônia e o Código Florestal, que protege 80% da mata localizada em áreas privadas na Amazônia, enquanto apenas 20% a 35% das áreas de Cerrado são reservas legais. Portanto, a lei estabelece uma proporção quase oposta para os dois biomas. Na reportagem, os especialistas argumentam que essas diferenças não fazem sentido “já que as duas áreas estão fortemente relacionadas e dependem uma da outra para sobreviver. Todos os rios da margem direita do Amazonas dependem da água das entranhas do Cerrado.(…) Se o Cerrado morrer, metade da Amazônia morre junto”.  

A reportagem faz importantes comparações e reflexões sobre aspectos econômicos, políticos, de legislação e sociais que envolvem o Cerrado. Mostra que o bioma não é considerado patrimônio, como a Amazônia, não é foco de políticas públicas e não desperta atenções internacionais. Consequentemente, também não é pauta da cobertura midiática nacional e internacional.

O texto também caracteriza esse que é o segundo maior bioma brasileiro, mostrando a sua importância na distribuição das águas das bacias hidrográficas e que ele concentra 1/3 da biodiversidade brasileira. Ou seja, é uma reportagem que se contextualiza com profundidade o tema, o que é fundamental, pois como dizem os especialistas no texto: “A população não conhece o Cerrado e, portanto, não luta para defendê-lo”. E neste aspecto os veículos jornalísticos tem responsabilidades. Enquanto a Amazônia está na pauta dos principais veículos de comunicação nacionais e internacionais, qual é o espaço que o bioma Cerrado ocupa? Quando se fala da sua biodiversidade? Da importância dele para a regulação do clima? De suas características de raízes profundas para a manutenção das águas subterrâneas? Da sua importância para a produção de alimentos?

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

O dia mais quente da história e a necessária virada na cobertura sobre mudanças climáticas

Imagem: Canva

Por Débora Gallas*

Esta segunda, 3 de julho de 2023, recebeu o título de “dia mais quente da história”, de acordo com as medições da temperatura média global realizadas desde 1979 pelos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos. Diversos veículos do Brasil e do Exterior, repercutiram o ineditismo, explicando se tratar de um efeito direto das mudanças climáticas e do El Niño, fenômeno que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico e influencia eventos como chuvas, ventos e oscilações de temperatura em todo o planeta.

O triste recorde, no entanto, foi superado na terça-feira, dia 4, quando o planeta alcançou a temperatura média de 17,18°C, ultrapassando os 17,01°C do dia anterior. A notícia do portal g1 publicada em 5 de julho destacou o derretimento de gelo no Ártico por conta do calor e foi um dos artigos mais lidos do dia, dividindo o Top 5 com o noticiário de entretenimento e polícia.

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O crescente interesse do público pela temática corresponde à percepção cotidiana de que o clima do planeta está cada vez mais diferente – e imprevisível.  Publicada no mês passado, pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) Rio e Ipec Inteligência atesta que 86% da população brasileira relaciona o aquecimento global com a maior ocorrência de desastres ambientais, como noticiou a coluna Pensar a Cidade, do Jornal do Comércio.

De fato, de Norte a Sul, os efeitos das mudanças climáticas se intensificam e ganham destaque nos jornais. Amazônia e Cerrado registraram, no mês de junho, o maior número de queimadas em 16 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Isso em plena estação de chuvas no Norte do país, como observa matéria do Estadão. Enquanto isso, o Rio Grande do Sul, que ainda nem se recuperou do ciclone extratropical ocorrido no dia 16 de junho, deve ser atingido por outro evento semelhante, ainda que de proporções menores, nesta semana, relata GZH.

A população já percebe a conexão entre eventos climáticos extremos com as mudanças globais do clima descritas pela comunidade científica. O jornalismo já aborda as constatações sobre as alterações climáticas reconhecendo seu valor noticioso. O que mais fazer então para mobilizar a sociedade rumo à adaptação e à mitigação desses efeitos? Como descrito anteriormente nesse Observatório, políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas ainda não são devidamente abordadas pelo jornalismo, que pode assumir seu compromisso com o interesse público ao cobrar posicionamento dos gestores de todas as esferas do poder.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

As caras da máquina de fake news sobre aquecimento global

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Míriam Santini de Abreu*

A reportagem intitulada “Agronegócio e extrema direita impulsionam máquina de fake news sobre aquecimento global”, da Agência Pública, publicada em 30 de junho e assinada por Giovana Girardi, Cristina Amorim, Álvaro Justen e Rafael Oliveira, trata de um tema que veículos regionais comprometidos com o bom jornalismo deveriam abordar.

A reportagem informa que, por dois meses, a Pública, “com o apoio do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , analisou anúncios na Meta (Facebook e Instagram), vídeos no YouTube e outros conteúdos publicados em redes sociais e em sites noticiosos ou não, com o objetivo de rastrear quem está por trás da disseminação do negacionismo climático e da desinformação ambiental no país”.

Em fevereiro, a equipe do NetLab lançou o relatório “Panorama da Infodemia Socioambiental: uma análise multiplataforma do ecossistema brasileiro de mídia digital (2021-2023)”, que analisa as implicações sociais da propaganda, desinformação e automação em diferentes tópicos no Brasil desde 2016. Entrevistados, membros da equipe apontam a falta de regulamentação jurídica e de transparência das grandes plataformas que divulgam conteúdos falsos.

Uma das fontes da reportagem, o sociólogo Jean Miguel, professor associado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, afirma que uma parcela do agronegócio incorporou o negacionismo do aquecimento global e da ciência que revela os impactos da devastação ambiental para atingir leis ambientais específicas. Tal processo evidenciou-se ao longo do governo Bolsonaro e seu ataque sistemático à legislação ambiental federal, com graves repercussões nos estados e municípios.

A abordagem da Pública aponta caminhos para que veículos nos diferentes estados façam o mapeamento de associações, canais e atores que regionalmente promovem desinformação ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

COP 30 e o investimento em cidades-sede: a oportunidade para Belém (PA)?

Imagem: Canva

Por Michel Misse Filho*

A boa notícia foi confirmada na última semana: Belém do Pará foi oficializada como a sede de realização da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de 2025, a COP30. Pela primeira vez a Amazônia receberá uma conferência internacional deste porte sobre o clima, permitindo um contato “direto” da comunidade internacional com o principal agente climático brasileiro, que é a floresta mantida em pé (assim como os demais ecossistemas da rica biodiversidade brasileira quando são conservados). Espera-se a visita de cerca de 50 mil pessoas na cidade durante os dias do evento, divulgou a Agência Brasil, nesta que será a COP que marca os 10 anos de assinatura do Acordo de Paris.

O anúncio da sede foi acompanhado da assinatura das primeiras obras na cidade e da divulgação do montante a ser financiado pelo BNDES: cerca de R$ 5 bilhões em projetos de infraestrutura, cuja ênfase será na criação de uma Belém carbono neutro, nas palavras do presidente do banco, Aloizio Mercadante, conforme noticiou o Portal UOL. O projeto do governo paraense abarca a agenda de mobilidade urbana, com corredores de ônibus elétricos ou à gás, para redução da emissão de carbono; saneamento básico — neste caso, vale notar, o objetivo é fazer a concessão à iniciativa privada; da rede hoteleira. Por fim, preveem ainda a reforma e criação de novas áreas de lazer: além da reestruturação do histórico mercado Ver-o-Peso, a primeira obra já foi assinada pelo governo federal, e trata-se da obra de um enorme parque verde na bacia do Una, no canal de São Joaquim, com construção de áreas de lazer e investimento em saneamento da região.

Ainda é cedo para exigir análises e reportagens profundas da mídia sobre os empreendimentos, mas experiências brasileiras passadas devem nortear o caso. Não é a primeira vez que um megaevento internacional ambiental numa cidade brasileira traz, a reboque, financiamentos para obras “ambientais” na sede. O caso exemplar foi a realização da imponente Eco-92, no Rio de Janeiro, quando anunciaram as bases de financiamento do grandioso Programa de Despoluição da Baía de Guanabara. Também na ordem dos bilhões, as estações de tratamento de esgoto construídas seguem, décadas depois, operando muito abaixo de suas capacidades — e a baía está longe de ser despoluída, mesmo com uma Olimpíada em 2016 e novas promessas no caminho.

Que o exemplo do Rio de Janeiro em 1992 (e em 2016, na Olimpíada) sirva para Belém em 2025: o financiamento de obras de infraestrutura e com cunho ambiental pode partir de eventos internacionais como impulso, mas as obras devem ser finalizadas e efetivamente servir à população. A atuação do jornalismo, seja local ou nacional, que se propõe ambiental, não pode se limitar à cobertura da conferência em si e de seus bastidores: é preciso estar atento e cobrar a revitalização, para o povo, de uma das capitais mais importantes do Brasil.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.