Mais do que carvão: por um jornalismo que acredite noutras potencialidades da economia candiotense 

Imagem: Candiota Natural – Sociedade, cultura e ambiente mostra rica sociobiodiversidade assim como o jornal local conta a história brasileira e a cultura gaúcha através dos seis sítios arqueológicos em Candiota. / Print da tela do documentário 

Por Eliege Fante* e Eutalita Bezerra**

Residem no Rio Grande do Sul as duas usinas que mais emitiram gases do efeito estufa no país, segundo os dados mais recentes do Instituto de Energia e Meio Ambiente. A despeito desses números, abordados anteriormente neste Observatório, a defesa da exploração carvoeira em Candiota (10.710 pessoas, IBGE, 2022), na Campanha Gaúcha, onde localizam-se as referidas termelétricas, predomina nas notícias da imprensa gaúcha. Entre 2021 e 2024 somente Zero Hora publicou 27 notícias abordando aspectos relacionados ao polo carboquímico. Já Correio do Povo, Sul21 e Brasil de Fato (RS) publicaram um menor número sobre esse tema, variando entre cinco e oito notícias cada um deles. Em comum, as fontes políticas locais e empresariais vinculadas à cadeia produtiva do carvão mineral. Há menos de um mês, a BBC Brasil publicou – e tantos outros meios republicaram – uma abordagem destacando os habitantes que não são “contra o planeta” por defenderem essa mineração.

A notícia O futuro incerto da cidade gaúcha movida ao combustível mais poluente do mundo: ‘Não somos contra o planeta’ é sensível ao modo de viver de uma parcela importante do município de Candiota (RS). Ao mesmo tempo, faz parecer que essa é a única forma de sobrevivência daquela população, obliterando outras cadeias produtivas presentes no município: 11 tipos de pecuária, incluindo gado de corte e de leite e a ovinocultura com produção de lã (IBGE, 2022); 561 estabelecimentos agropecuários sendo 22 tipos de lavoura permanente, como de frutas, e 18 tipos de lavoura temporária incluindo soja, outros grãos e outras culturas (IBGE, 2017). Sem esquecer da presença das comunidades indígenas e quilombolas, entre os oito povos e comunidades tradicionais do Pampa, que têm direitos reconhecidos através da Convenção 169 (ratificada em 2002). 

Candiota não é somente a sede da maior poluente do Brasil. É berço de lugares que merecem destaque na imprensa, como a Rede de Sementes Bionatur, que completa 27 anos no município. O presidente Alcemar Inhaia conta que, desde uma ação judicial vitoriosa para evitar a construção de uma barragem da mineração próxima aos empreendimentos da cooperativa, estão sendo um pouco mais ouvidos. Essa notícia de 2022 destaca a necessária “proteção de centenas de famílias assentadas na região de Candiota/Hulha Negra”. Em entrevista, disse: “Recentemente realizamos um seminário conjunto com outras entidades para construir uma proposta para o município, dialogando o que é a transição energética e o que é Candiota sem carvão. Candiota não é só carvão. Há quase 30 anos vimos a expansão da soja pelo bioma Pampa e resistimos com a nossa rede de produção de sementes orgânicas certificadas, que envolve cinco estados mais municípios da nossa região. Candiota é agrícola, a maior parte da população está na zona rural”. Destaque-se que o referido seminário não foi vislumbrado como notícia em nenhum dos veículos analisados, tomando como palavras-chave “carvão + candiota”. 

Também em comum nas notícias, identificou-se as preocupações dos setores de que as decisões (pela continuidade ou não da exploração do carvão) fossem tomadas “de fora”. Porém, considerando-se as fontes ouvidas nas notícias, os setores distintos da mineração muito pouco participam. Em algumas reportagens, acadêmicos pontuam sobre suas pesquisas relacionadas ao tema ou organizações não governamentais. Aqui destaca-se a fala do biólogo Francisco Milanez (Agapan) em 2023 neste sentido: “É importantíssimo que se fale de transição, mas é preciso que se fale com toda a população, nós queremos também ser ouvidos”. Não obstante o ambientalista não seja um morador de Candiota, alerta “que as melhores alternativas para que a transição seja efetiva ainda não foram colocadas à mesa, seja por demandarem custos mais altos em sua implementação ou por representarem perspectivas de lucros menores para as empresas envolvidas no processo”. 

No que tange aos “de dentro”, para manter a analogia, o Movimento pela soberania popular na mineração (MAM) tem trabalhado em Candiota visando a um novo modelo de mineração. De acordo com Iara Reis, dirigente nacional do MAM, em entrevista, o ponto fulcral em Candiota é que o grande capital desconsidera toda a cultura econômica daquele território. “Precisamos pensar que aquele território sempre teve uma economia. Há várias cadeias produtivas para serem pensadas naquela região […] A mineração traz desenvolvimento e lucro apenas para uma parcela da população.” 

Para comprovar, basta que se considere o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) do Rio Grande do Sul de 2013 a 2020: somente em 2020 Candiota ultrapassou a média estadual em desenvolvimento. Chama atenção que, mesmo figurando na primeira metade do ranking dos municípios (174 de 497) neste Índice, o maior valor foi atribuído ao bloco renda (posição 47), já que no bloco educação a posição é 249 e no bloco saúde é 459, dados não tão positivos e que jogam Candiota da metade para o final do ranking. Além disso, embora o percentual de 94% do esgoto tenha sido tratado em 2022, apenas 37,9% da população residente com abastecimento de água é atendida com esgotamento sanitário e 47,2% é atendida por serviço de abastecimento de água (consulta em agosto de 2024). Portanto, qual a real condição de vida dos habitantes de Candiota se a riqueza material gerada não reflete bem-estar ou um bem viver para toda a população? O primeiro passo para promover essa distribuição equilibrada pode ser horizontalizar a escuta e mobilizar a participação dos distintos grupos candiotenses. Aqui entra o jornalismo! 

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. gippcom@gmail.com

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. eutalita@gmail.com

Quem ganha com a exploração do carvão?

Imagem: Eletrobras CGT Eletrosul

Por Eutalita Bezerra*

De acordo com o Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, que visa a “tornar públicas vozes que lutam por justiça ambiental de populações frequentemente discriminadas e invisibilizadas pelas instituições e pela mídia”, estão em andamento no Brasil, atualmente, doze conflitos gerados por termoelétricas. Um deles diz respeito ao Complexo Termelétrico de Candiota, na Campanha Gaúcha, que figurou no jornalismo nesta semana – com pompas – após anúncio da chegada de uma nova indústria.

O vultuoso investimento de R$ 420 milhões foi o grande destaque das publicações referentes ao projeto Ferroligas Candiota, que vai fabricar, no Polo Carboquímico de Candiota, uma liga metálica a partir do carvão. Em publicação veiculada no Correio do Povo do último dia 10, por exemplo, as únicas menções à questão ambiental envolvida são declaratórias e entreguistas: o governador Eduardo Leite teria afirmado que “o governo tem compromisso com o desenvolvimento sustentável, destacando a importância da responsabilidade ambiental para impulsionar a economia estadual”. O trecho destaca, ainda, que é papel do governo garantir “que a emissão de licenças ambientais seja baseada em análises detalhadas e em conformidade com a legislação”.

Do mesmo modo, o secretário do Desenvolvimento Econômico do estado foi ouvido, retomando a questão do meio ambiente. Conforme o texto, ele teria destacado “os esforços do governo para agilizar as análises relacionadas ao meio ambiente”. Já o prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador, teria focado sua atenção exclusivamente na possível geração de empregos. Apesar de ser tratado como tábua de salvação, é preciso destacar sempre que a exploração de carvão em Candiota traz graves problemas, além de nem sempre ser considerada uma boa opção do ponto de vista econômico.

Em 2022, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) publicou o Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas segundo o qual “Entre as dez usinas com mais baixa eficiência energética, cinco são movidas a carvão. Entre as piores estão Pampa Sul e Candiota III, com apenas 27% de eficiência.” Candiota III também foi considerada a usina a carvão mineral com a maior taxa de emissão entre todas as que forneceram energia ao Sistema Interligado Nacional em 2020, ano-base da pesquisa. Tudo isso colocou Candiota como um dos municípios mais emissores de gases do efeito estufa no país na mesma ocasião.

Há que se destacar, também, retomando o Mapa de Conflitos, que vários problemas de saúde e ambientais foram relatados desde a instalação das usinas termelétricas no município, culminando com a recomendação, em 2011, por parte do Ministério Público Federal, da suspensão da licença de operação de uma das usinas, além da paralisação e adequação de outras duas, pelo não cumprimento das exigências mínimas de controle da poluição emitida.
Abrir mão de tratar sobre estas questões quando se fala de Polo Carboquímico é um precedente perigoso que, nas grandes empresas de comunicação do Rio Grande do Sul, tem sido o habitual. Não se trata de negar a importância da geração de empregos e de receitas aos municípios, mas de estabelecer à custa de que isso está sendo possível.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio Ambiente. eutalita@gmail.com.