Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Para esta análise escolhemos algumas publicações do jornal Zero Hora, em sua edição digital, e do Sul21, que colocaram em circulação informações que poderiam ter auxiliado os eleitores na escolha da pessoa que vai governar a cidade no próximo período, caso a questão climática e o desastre que atingiu Porto Alegre não fossem esquecidos por quase 50% dos porto-alegrenses na hora de apertar o botão na urna eleitoral.

Com o título “Porto Alegre lança Plano de Ação Climática para reduzir emissão de gases do efeito estufa e diminuir impactos de eventos extremos”, Zero Hora publicou no dia 26 de setembro uma matéria apresentando os detalhes do plano: “(…) é resultado de cooperação técnica entre a prefeitura de Porto Alegre e o Banco Mundial, firmada durante a Conferência Mundial pelo Clima (COP27)”. Conforme o jornal, a “parceria viabilizou a contratação de uma consultoria técnica formada pela WayCarbon, em consórcio com o ICLEI América do Sul, e as empresas Ludovino Lopes Advogados e Ecofinance Negócios”. ZH informa que o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre reconheceu que o plano já deveria ter sido lançado e que o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do governo do Estado não foi consultado para a elaboração do plano, pois o comitê foi lançado há três meses. Estranhamente, o plano foi lançado no final da campanha eleitoral, quando na verdade já deveria estar pronto há anos.

Para quem já esqueceu, vamos aos fatos.

No dia 29 de janeiro de 2016, Porto Alegre foi atingida por uma forte tempestade com ventos de até 100 km/h, provocando grandes danos nos parques, nas ruas, nas residências, prédios comerciais, hospitais, além de muito pavor nos porto-alegrenses. O evento denominado de microexplosão aconteceu por volta das 22h, quando a temperatura atingia em torno de 40 graus e grande número de pessoas estava nas ruas e nos bares da cidade.

 A cidade ficou sem luz, sem internet, sem sinal de celular, com vias interrompidas devido à queda de árvores. O Parque Marinha do Brasil foi devastado e muita gente precisou ser atendida no Pronto Socorro devido aos ferimentos. Outras cidades gaúchas já haviam passado pelo problema em outros momentos ou passaram depois.

Anos antes, em 27 de março de 2004, a cidade de Torres e o sul de Santa Catarina foram atingidos pelo furacão Catarina, com ventos de 180 km/h, assustando, provocando grandes danos e deixando 11 mortos e pessoas feridas.

Em 2006, o Greenpeace lançou o documentário e o relatório Mudanças do clima, mudanças de vida, com depoimento de pessoas atingidas pelos efeitos “das mudanças climáticas na Amazônia, no Nordeste, no Sul e na zona litorânea brasileira. (…) O relatório e o documentário mostram ainda as relações entre a destruição da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e o aquecimento global, e como o desmatamento e as queimadas fazem do Brasil o quarto maior emissor de gás carbônico do planeta.” O lançamento do documentário em Porto Alegre impactou ambientalistas e a imprensa que compareceram na solenidade.

Voltando para 2024, em 26 de abril o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), emitiu um alerta de tempestades para o estado. Durante o mês de maio vivemos a maior tragédia climática de todos os tempos.

Vários foram os eventos extremos, relatórios da ONU, alertas dos cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e das universidades brasileiras, mas o negacionismo climático dos políticos brasileiros deram o tom para que o país, estados e cidades retardassem o planejamento das medidas de enfrentamento e adaptação para orientar a população no momento da emergência. O ranço atingiu até a forma como o movimento ecológico foi tratado. No entanto, em pleno período eleitoral, Porto Alegre lança seu Plano de Ação Climática.

Retomando a análise, notamos que o desastre climático que atingiu a cidade não teve a presença qualificada ao longo da campanha. O tema foi mencionado em editoriais, em notícias quase sempre de forma superficial. Em raras exceções o tema foi aprofundado. O assunto deveria estar no radar dos candidatos, eleitores e veículos da imprensa. Deveria ser tratado com profundidade diariamente.

Poucas matérias se destacaram na última semana relacionando as inundações e enchentes de maio às mudanças climáticas e à flexibilização da legislação ambiental.

Na edição de 4 de outubro, o Sul21 traz a matéria “Eleições 2024: gestão de risco deve ser prioridade em Porto Alegre”, produzida pela Agência Brasil, destacando a avaliação do professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS sobre a campanha eleitoral. Para ele, o desastre que atingiu Porto Alegre não está tendo a centralidade merecida nas campanhas eleitorais. “Esse tema deveria estar de modo central, porque não se trata apenas de recuperar e fazer obras de proteção, mas se trata fundamentalmente de ter uma agenda política e administrativa que possa mostrar para a cidade que é possível enfrentar tempos severos no século 21 morando aqui em Porto Alegre. E isso é um tema que não pode ficar para um outro momento que não esse, que é o momento de definição do destino da cidade”.

Para o professor Menegat, a pauta está presente de um modo muito fraco tanto por parte dos candidatos a prefeito quando dos candidatos à Câmara dos Vereadores. Para ele, a comunidade deve participar da elaboração das estratégias de gestão de risco da cidade. “Precisa ser articulado de um ponto de vista científico e comunitário. Precisa estar na palma da mão dos moradores de cada comunidade, que deve saber dos riscos, das vulnerabilidades do lugar em que vivem e principalmente também em termos de elaborar planos de emergência, planos de prevenção, de desenvolver uma inteligência social do lugar que habilite essas comunidades a terem uma perspectiva de segurança e ao mesmo tempo de saber agir quando é necessário”.

Em matérias publicadas em setembro por GZH, os candidatos que foram para o segundo turno em Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT) apresentam visões distintas quanto à preservação ambiental e gestão dos recursos naturais da cidade, especialmente no contexto das recorrentes enchentes e da crise climática.

Sebastião Melo, atual prefeito, destacou a importância da governança climática em seu discurso. Propôs a criação de um plano de contingência para mitigar desastres, mencionando a recuperação e manutenção dos sistemas de drenagem e proteção contra cheias. No entanto, essa proposta contrasta fortemente com a realidade enfrentada durante sua gestão. As enchentes de maio de 2024 expuseram falhas críticas em sua administração, evidenciando a incapacidade do governo municipal em cumprir promessas de manutenção e melhorias na infraestrutura. Muitos dos sistemas de drenagem permanecem negligenciados, as casas de bombas sem funcionamento adequado, e a falta de uma política preventiva eficaz contribuiu para a vulnerabilidade da cidade frente às chuvas intensas.

Além disso, a visão de Sebastião Melo em relação ao meio ambiente tem se mostrado insuficiente para enfrentar os desafios climáticos de maneira abrangente. A proposta de combinar crescimento urbano com preservação ambiental não tem sido bem-sucedida na prática, resultando em degradação dos recursos naturais, como morros, banhados e cursos d’água. O enfoque excessivo em respostas emergenciais, em vez de planejamento e prevenção, revela uma compreensão limitada da complexidade da crise ambiental. O modelo de desenvolvimento promovido por Melo frequentemente favorece projetos de expansão urbana sem a devida consideração dos impactos ambientais de longo prazo.

Em contraste, Maria do Rosário adotou uma postura mais crítica ao modelo de gestão atual e à visão de Melo sobre o meio ambiente. Defendeu um novo modelo de governança ambiental que não apenas reaja aos desastres, mas que também previna e integre a sustentabilidade ao planejamento urbano. Sua proposta de transformar Porto Alegre em uma “cidade esponja” e criar corredores verdes reflete uma abordagem mais sistêmica e integrada, voltada para a adaptação da cidade às mudanças climáticas. Rosário também critica a falta de manutenção contínua dos sistemas de drenagem e a terceirização de responsabilidades na gestão pública, práticas que ela identifica como causas centrais para os desastres recentes.

A gestão ambiental de Porto Alegre, especialmente durante o período de Melo, tem deixado a desejar, conforme Rosário. Embora discursos sobre governança climática sejam recorrentes, a falta de ações concretas e sustentáveis tem resultado em consequências graves para a cidade. Para que Porto Alegre se torne verdadeiramente resiliente, é fundamental que a administração municipal adote práticas que priorizem a preservação ambiental de forma proativa, com políticas que vão além das respostas emergenciais e que integrem o meio ambiente ao planejamento urbano, em vez de tratá-lo como uma questão secundária.

Já o jornal Sul21 publicou no dia 3 de outubro entrevistas com os candidatos Felipe Camozzato, do Partido Novo, e Maria do Rosário, do PT. Os demais candidatos se recusaram a dar entrevista.

Maria do Rosário criticou a forma com a atual administração lida com a questão ambiental. Disse que a falta de conservação do sistema de defesa de enchentes de Porto Alegre gerou uma tragédia que tem “uma dimensão ambiental, que é o resultado de toda a falta de cuidado global com a natureza, mas aqui em Porto Alegre temos uma tragédia de gestão, que chegou ao seu esgotamento”. Afirmou também que não vai terceirizar responsabilidades, nem privatizar os espaços públicos. Pretende inaugurar um novo sistema de gestão com profundo compromisso ambiental, com corredores verde, cidade esponja, que já existe aqui e com o funcionamento do Comitê da Bacia do Guaíba. Afirmou ainda que pretende valorizar a inteligência pública para antecipar os problemas e fazer a gestão de risco da cidade.

Felipe Camozzato mencionou a responsabilidade do atual prefeito pela falta de manutenção do sistema de proteção contra as enchentes, mas também de administrações anteriores. Disse que pretende reconstruir e manter o sistema de proteção contra cheias da cidade e combinar a preservação ambiental cuidando dos morros, cursos d’água, banhados e matas, mesclando com o crescimento urbano.

Esperávamos encontrar matérias nas quais os jornalistas fossem mais incisivos e demonstrassem engajamento, como ocorreu no jornal Sul 21.

As investigações realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS apontam várias indicações de como fazer uma cobertura de temas ambientais de forma adequada. Uma delas é o engajamento do jornalista na defesa do meio ambiente, o que exige saber ambiental e o comprometimento com a mudança de pensamento. O jornalista uruguaio Victor Bacchetta inspira o fazer jornalístico afirmando que o jornalismo ambiental “considera os efeitos da atividade humana, desde a ciência e a tecnologia em particular, sobre o planeta e a humanidade. Deve contribuir, portanto, com a difusão de temas complexos e análise de suas implicações políticas, culturais e éticas. É um jornalismo que procura desenvolver a capacidade das pessoas para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. (Bacchetta, p.18, 2000)

Na cobertura até o segundo turno é importante que o jornalismo cumpra a sua função de informar e explore os modelos de gestão que estão em disputa. Não devemos esquecer que para estar de acordo com os compromissos assumidos na COP 211, de limitar o aumento da temperatura do planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, todas as cidades devem voltar-se para a preservação ambiental e o prefeito deverá administrar com a natureza e não contra ela.

Referências

BACCHETA, Victor. El Periodismo Ambiental. In: BACCHETTA, Victor.(coord.) Ciudadania Planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Montevideo, IFEJ, 2000.

1COP 21 é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorreu em Paris em 2015, quando os 195 países presentes, se comprometeram a limitar o aumento da temperatura do Planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Como Zero Hora pauta a questão climática no contexto eleitoral de POA

Imagem:  Isabelle Rieger/Sul21

Por Daniela Neves* e Caroline Fraga **

Fortes chuvas voltaram ao Rio Grande do Sul nesta semana, reforçando a importância de discutir a gestão ambiental e preventiva dos municípios e do governo. A uma semana das eleições municipais, é possível fazer uma análise de como um dos principais periódicos do Estado, o Zero Hora, pautou o tema das enchentes associado com as eleições.

Esta análise é feita dentro do conceito de agenda setting (Traquina, 1995) que indica a forma com que a mídia tradicional agenda alguns temas, em detrimento de outros. Os estudos de definição de agenda midiática partem do princípio de que, quando o assunto é pautado, ajuda a despertar interesse nas questões salientadas pela mídia (Brasil e Capella, 2015).

Como pesquisadoras que acompanham a interface das eleições com o clima, no âmbito do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, analisamos as edições impressas entre 16 de agosto, início oficial da campanha, e 23 de setembro, em um total de 39 dias. O foco foi observar como a questão climática e a repercussão do desastre que eclodiu em maio em Porto Alegre aparecem na cobertura das eleições municipais.

Nas edições da primeira semana de campanha, o periódico não produziu material que relacionasse as eleições à enchente. Porém, na segunda semana, a partir de 25 de agosto, o tema apareceu na fala dos candidatos. Na edição do dia 25, em publicação que relatava a campanha de rua dos prefeituráveis, o texto cita uma fala do atual prefeito Sebastião Melo (MDB) dizendo que a atual gestão não poderia ser “a única responsável pelo sistema de proteção contra cheias”. Ainda declarou que “já tem soluções em andamento, como as obras de recuperação dos diques do Sarandi, na Zona Norte” .

Nos dias 28 e 29, ganha destaque em ZH o resultado de uma pesquisa eleitoral, pela qual os porto-alegrenses opinam sobre as maiores preocupações, o que exigirá atenção do futuro prefeito: a enchente foi citada por 33% dos eleitores (Pesquisa Quest – Período: de 24 a 26 de agosto; amostra: 900 entrevistados; margem de erro: três pontos percentuais para mais ou menos, nível de confiança: 95%; registro: RS-09561/2024 no TSE).

Na terceira semana avaliada, três matérias falaram sobre o pleito: início do horário eleitoral, conteúdo dos planos de governo e a cobertura de uma reunião dos candidatos com entidades. Os conteúdos foram mais “expositivos”, além de nenhum ter sido exclusivamente referente à enchente.

Entre o final de agosto e 5 de setembro, apenas duas publicações falavam sobre eleições e enchentes.

O jornal ZH pautou claramente o assunto no dia 10 de setembro, ao falar sobre a substituição, ou não, do Muro da Mauá. Contextualiza sobre os projetos para modificação do muro de contenção e, após esse texto amplo da situação, pergunta aos quatro candidatos (as) se são a favor ou contrários à substituição do muro.

Na semana de 16 a 23 de setembro, chama atenção como a enchente aparece em discussões diversas em eventos de campanha, como encontro com entidades empresariais. No evento, os candidatos se posicionam sobre a responsabilidade pelos estragos ocorridos na cidade. O atual prefeito volta a afirmar que a gestão não pode ser responsabilizada, enquanto candidatos de oposição dizem que o desastre não foi uma surpresa e que a gestão municipal poderia ter agido para prevenir e gerir melhor a situação.

Das edições analisadas no período, em uma o tema partiu da redação, na pergunta realizada aos candidatos sobre o Muro da Mauá. No restante, algumas declarações de candidatos sobre a questão enchente aparecem dentro de publicações cujos ganchos das matérias são outros assuntos.

Referências

BRASIL, Felipe G., CAPELLA, Ana Cláudia. O Processo de Agenda-Setting para os Estudos das Políticas Públicas. Revista de Pesquisa em Políticas Públicas. Edição nº 06 – 1º Semestre de 2015.

TRAQUINA, Nelson. “O paradigma da agenda-setting: Redescoberta do poder do jornalismo”. In: Revista ComunIcação e Linguagens. Lisboa: 1995.

*Daniela Neves é doutora em Ciência Política e professora do curso de Administração Pública e Políticas Públicas da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA).

**Caroline Fraga é estudante do curso de Jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis – Uniritter.

Jornalismo e o “espírito da época” nas cheias de maio

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Sérgio Pereira*

O jornal, a revista que não tenha conseguido mais manter sua conexão com o espírito da época se acaba sem poder ser salvo” (Groth, 2006, p. 207) Essa frase do jornalista alemão, publicada na década de 1960, parece dizer o óbvio, mas a história da humanidade é uma contínua repetição de equívocos óbvios.

No caso da imprensa gaúcha em setembro de 2024, a citação de Otto Groth nos remete à maior catástrofe climática já vivida no Estado e, claro, sua repercussão nas eleições municipais deste ano.

Estamos a 16 dias das urnas e grande parte dos cenários ainda parece incerto na maioria das capitais brasileiras. É o caso de Porto Alegre, com as pesquisas, até o momento, indicando que provavelmente haverá segundo turno. O fator que todos imaginavam que seria fundamental na balança de votos – era o que se dizia há algumas semanas– seria a catástrofe ambiental de maio deste ano, a maior enchente registrada na história do Rio Grande do Sul. Afinal, foram mais de 170 mortos, milhares de famílias desabrigadas e mais de 400 cidades atingidas.

Na verdade, só saberemos o verdadeiro peso das cheias e inundações nas urnas após a contagem final dos votos, ainda na noite de 6 de outubro ou no dia 27 do mesmo mês, caso se confirme o segundo turno na capital gaúcha. Pesquisa espontânea, registrada na Justiça Eleitoral com o número RS-02917/2024, publicada na página 3 da edição de 4 de setembro do Correio do Povo (veja aqui a postagem no site do jornal) apontava que há cerca de 40% de eleitores que ainda não sabem em quem irão votar. E outros 13% indicam que votarão branco ou nulo.

A pesquisa espontânea, cabe lembrar, pergunta em quem o entrevistado votará, sem apresentar a lista de concorrentes como no caso da estimulada. A espontânea é aplicada para verificar a lembrança do eleitor em relação candidatos e também ajuda a aferir o grau de importância que dá ao assunto. O panorama, portanto, é de mais incertezas do que confirmações.

Enquanto isso, em uma breve análise, os veículos de imprensa hegemônicos do RS, aparentemente com a desculpa de não tentar influenciar os eleitores, têm tratado o maio de 2024 de forma burocrática, com raras exceções. As matérias sobre o tema agora estão mais restritas a expor a demora na chegada e aplicação dos recursos financeiros prometidos. Pouco se escreve sobre responsabilização, que é o ponto reforçado pelos(as) principais oponentes ao atual mandatário da capital gaúcha.

Numa análise da cobertura da imprensa gaúcha envolvendo as tags “eleições” e “enchente”, um dos destaques positivos fica por conta do Correio do Povo, que entre os dias 20 e 21 de agosto entrevistou os quatro principais concorrentes à prefeitura de Porto Alegre especificamente sobre a catástrofe deste ano. Com a cartola “Os candidatos e as cheias”, o impresso reservou uma página e meia para cada um dos principais disputantes do pleito responderem sobre alguns pontos das chuvas severas de maio. As matérias, assinadas pelas jornalistas Flavia Bemfica e Mauren Xavier, abordaram questões como soluções emergenciais, projetos futuros, recursos financeiros para as obras, muro da Mauá, o retorno ou não do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), sistema de alertas, casas de bombas, parcerias privadas, entre outras. A série pode ser acessada nos links, pela ordem de postagem: candidato 1, candidata 2, candidata 3, candidato 4.

Já de 27 a 30 de agosto, o CP entrevistou os quatro postulantes a vice-prefeito. O material, creditado ao jornalista Diego Nuñez, foi mais generalista, com o objetivo principal de apresentar esses concorrentes, muitas vezes não tão conhecidos, mas que eventualmente podem até acabar assumindo no lugar do titular por um grande período. Desta vez, o tema “cheias”, em alguns casos, sequer apareceu, ou por ausência de questionamento ou por omissão dos próprios entrevistados, já que todos tiveram a chance de responder sobre os principais desafios da cidade. Vídeos com as entrevistas dos vices podem ser conferidas em “Eleições 2024: conheça os candidatos à vice-prefeitura de Porto Alegre”.

O Correio do Povo merece reconhecimento principalmente pelas entrevistas com os quatro concorrentes majoritários enfocando a enchente. O leitor do CP teve a oportunidade de tomar conhecimento sobre a visão do seu candidato em relação à pior tragédia climática vivida pelos habitantes de Porto Alegre. Aqui, o jornal cumpriu com eficiência a sua finalidade de informar. Como nos lembra Mar de Fontcuberta (apud REGINATO, 2019 p. 34), “uma pessoa desinformada é incapaz de tomar decisões adequadas nos diversos âmbitos da vida”. E é justamente isso que estamos precisando agora, mais do que nunca, de informação qualificada que nos permita não esquecer o “espírito da época” e tomar as decisões mais importantes. Como nos ensinaram as cheias de maio, uma escolha equivocada agora poderá ser fatal mais adiante.

Referências

GROTH, Otto. Tarefas da pesquisa da ciência da cultura. In: MAROCCO, B.; BERGER, C. (Orgs.) A Era Glacial do Jornalismo: teorias sociais da imprensa. Porto Alegre: Sulina. v. 1 (2006). p.182-310.

REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do Jornalismo. Florianópolis: Editora Insular, 2019.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.


Enchentes e seus desdobramentos na disputa pelos votos na eleição de Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Patrícia Kolling*

Na sexta-feira, dia 30, iniciou a propaganda eleitoral de rádio e televisão dos candidatos à prefeitura do Porto Alegre. Como era de se esperar, as ações para evitar futuras enchentes foram abordadas pelos três candidatos com propaganda no rádio e tv. A imprensa noticiou o conteúdo dos primeiros programas, descrevendo cenários e reproduzindo falas e deu espaço para a questão ambiental. No site e  jornal Correio do Povo o tema esteve na manchete “Enchentes pautam o primeiro dia da propaganda no rádio e tv”. Já na Zero Hora a chamada foi: “Como foi o primeiro programa de TV dos candidatos a prefeito de Porto Alegre”.

O Correio do Povo destacou a abordagem diferenciada de cada um dos candidatos sobre o tema. A candidata Juliana Brizola, conforme o jornal, “tratou o trauma das enchentes de um modo suave, falando de um sentimento “ferido” que a cidade precisa recuperar, destacando a importância de recomeçar e construir uma vida nova”. Conforme o jornal, a candidata citou novamente as enchentes ao enfatizar: “É hora de saber quem segurou a tua mão e quem largou a tua mão nestes últimos tempos. Porto Alegre precisa de confiança, de alguém que garanta segurança”. O jornal Zero Hora não relacionou a fala de Juliana Brizola sobre confiança com as enchentes.

O candidato e atual prefeito Sebastião Melo, conforme o Correio do Povo, iniciou o programa ressaltando os eventos climáticos enfrentados por nações de todo o mundo. O site cita Melo evidenciando que os eventos de maio foram “a maior enchente”, e que “não precisa de culpados, mas de soluções”. O material ainda mostra Melo solidário diante de pessoas que perderam bens, casas e negócios e agradecendo aos voluntários. O Jornal Zero Hora também destacou os eventos climáticos no resto do mundo e a solidariedade do candidato aos atingidos.

O Correio do Povo informou que a candidata Maria do Rosário reforçou a necessidade constante da manutenção do sistema contra as cheias. A notícia reforça que a candidata elencou ações iniciais que pretende adotar contra novas inundações. O Jornal Zero Hora destacou Rosário ressaltando providências que pretende tomar para prevenir as cheias e realizar obras de proteção da cidade.

Os textos publicados pela Zero Hora e o Correio do Povo trazem literalmente uma descrição dos programas da propaganda eleitoral dos candidatos, em nenhum momento contextualizando ou questionando as falas. Provavelmente, o imediatismo da publicação e a proposta da pauta, de noticiar o que foi apresentado nos programas, impediram a abordagem mais crítica. Precisamos considerar que nos programas, os candidatos não aprofundaram as temáticas, não especificando como iriam efetivar muitas das promessas e nem detalhando projetos de cuidados ambientais a longo prazo. Espera-se que os dois maiores veículos de comunicação do Estado, nas próximas semanas, façam uma análise aprofundada, considerando a complexidade ambiental.

O site de notícias Sul 21 e o Matinal não trouxeram nenhuma notícia sobre a propaganda eleitoral no rádio e tv, porém, ambos noticiaram como as enchentes aparecem nos planos de governo dos candidatos. O Sul 21 fez isso em matéria publicada no dia 28 de agosto, descrevendo as propostas de cada candidato e contabilizando quantas vezes as palavras enchente e dique aparecem nos planos.

Já o Matinal reproduziu um texto da Agência Pública, em 05/09, com a manchete: “Após tragédia, clima entra nos planos de candidatos a Porto Alegre, mas com limitações”. Para produzir o texto a Agência Pública acessou os planos de governo, acompanhou debates e entrevistas e ouviu especialistas.

O texto destaca que a tragédia fez com que os candidatos inserissem em seus planos propostas mais ou menos concretas para lidar com a mudança do clima. Porém, os especialistas alertam que os candidatos não deixam claro como as medidas serão implementadas ou atualizadas e trazem poucas alternativas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Guilherme Marques, destaca a falta de atenção às ações mais ligadas à governança, como planos de contingência, revisão do Plano Diretor, criação de órgãos voltados a questão do clima e implantação de sistemas de monitoramento e alerta.

A abordagem do site Matinal, uma análise crítica e questionadora dos planos dos candidatos, com a participação de especialistas, permite ao eleitor compreender o que há de concreto e o que são apenas promessas nas falas/planos dos candidatos.  Além disso, oportuniza pensar o meio ambiente em toda a sua complexidade, pensando que as cheias não podem ser vistas como algo isolado, mas como consequência de todo um desequilíbrio ambiental. Seria interessante, porém, se o site tivesse apresentado uma análise mais detalhada de cada plano de governo.

Para encerrar citamos as entrevistas que a Rádio Gaúcha, programa Atualidades, está fazendo com os candidatos do dia 02 a 11 de setembro. Até ontem, dia 05, quatro candidatos haviam sido entrevistados. A primeira pergunta em todas as entrevistas foi sobre as enchentes, instigando os candidatos a falarem sobre as medidas que tomariam para evitar problemas com as chuvas. Os candidatos citam obras e ações que irão fazer, se eleitos. Uma pergunta dos jornalistas chamou atenção: houve questionamento sobre medidas especiais para preservar o aeroporto e as estações de trens. Porém, não faltaria uma pergunta sobre medidas especiais para preservar os bairros mais carentes do município e certamente muito afetados?

Como formadora de opinião, a imprensa precisa superar a superficialidade, e questionar os candidatos sobre as possíveis atitudes para prevenir e mitigar as causas e consequências dos desastres ambientais, tão urgente no mundo, e especialmente no RS, que ainda sofre com os efeitos da tragédia. Esperava-se que jornalistas, que estiveram à frente da cobertura, estivessem mais incisivos nos questionamentos aos candidatos, trazendo ao debate as responsabilidades, as causas, as relações com a crise climática e as ações de que podem promover mudanças a médio e longo prazo, além de questões sobre justiça climática.

Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

A questão climática no centro das eleições de Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose **

A capital gaúcha, assim como centenas de cidades do Rio Grande do Sul, foi fortemente afetada pelo desastre climático que eclodiu no início de maio. Um impacto que persiste de diferentes maneiras a depender da região e das condições socioeconômicas de quem perdeu muito. Com o calendário das eleições municipais já anunciado, partidos e políticos tiveram que rever suas estratégias e incluir um rol de palavras que até então pouco apareciam nos discursos e propostas de governo, como mitigação, adaptação e resiliência.

Já no final de junho, GZH reportava que os pré-candidatos estavam reavaliando alianças e propostas a fim de contemplar em suas campanhas a perspectiva da prevenção aos riscos climáticos e também medidas para reconstruir Porto Alegre. Na reportagem é mencionado que “[a] despeito das diferenças políticas e ideológicas, todas as candidaturas procuraram o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) para auxiliar na busca por maior proteção aos eventos climáticos”. O IPH, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tornou-se um dos protagonistas no gerenciamento das enchentes, como referência para a tomada de decisões acerca do enfrentamento do desastre.

A dinâmica eleitoral alterou-se, ainda que não existam novidades em termos de candidatos. A pauta das eleições voltou-se para os desafios impostos pela crise climática a partir das consequências das enchentes. Desde falar sobre a manutenção das casas de bombas, o reforço das estruturas de contenção das cheias e a melhoria do sistema de alerta até a adequada destinação dos resíduos. Vários veículos (GZH, Correio do Povo, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo e Sul21, por exemplo) destacaram que as eleições de Porto Alegre devem discutir respostas para a tragédia climática sentida na pele pelos moradores.

Em uma entrevista concedida à Agência Pública sobre como os desastres climáticos podem influenciar a eleição de prefeitos, o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas Ítalo Soares destacou que já existem estudos significativos mostrando que os eleitores consideram fenômenos climáticos ao escolher seus líderes. Secas e enchentes podem ser vistas como falhas na gestão de políticas públicas, como planejamento urbano, saneamento básico, manejo de resíduos e fluxos de água, entre outros. Com o agravamento dos fenômenos climáticos extremos, a relação entre eles e as eleições deve se tornar cada vez mais evidente.

Os desastres podem ser entendidos como eventos externos ao sistema político que exigem uma resposta do Estado. Eles introduzem na agenda governamental situações que necessitam de gerenciamento rápido e podem expor falhas crônicas do governo, como deficiência técnica, falta de orçamento, corrupção e violência estatal. Nesse contexto, a crise climática pode representar um fator constante de tensão na democracia, desafiando a legitimidade do sistema político. Nesse sentido, o jornalismo precisa dar visibilidade às disputas que cercam o debate sobre clima, desastres e governança de riscos.

No cenário eleitoral de Porto Alegre, a série de entrevistas “Os Candidatos e as Cheias”, do Correio do Povo, visa descobrir as propostas para ações emergenciais diante das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, como reparação de diques, casas de bombas e fechamento de comportas, além de questões sistêmicas mais amplas. Perguntas como “O que o senhor/senhora fará a partir de 1º de janeiro para evitar novas enchentes na cidade?” e “O Muro da Mauá será mantido ou removido?” buscam entender as medidas estruturais que podem impactar tanto a curto quanto a médio prazo, dependendo de sua manutenção ou remoção.

Há também perguntas sobre a gestão dos recursos hídricos, como “O senhor/senhora pretende privatizar o Dmae?” e “O senhor/senhora considera recriar o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) ou uma estrutura similar?”. Para propostas de longo prazo, a série questiona sobre sistemas de alerta e a viabilidade financeira das ações, com perguntas como “Como financiar essas ações? Como garantir recursos para isso?” e “O senhor/senhora contratará consultorias internacionais?”. Além disso, há questões sobre o início das ações e a responsabilidade pela drenagem pluvial urbana, como “Por onde o senhor/senhora começará as ações?” e “Quem será responsável pela drenagem pluvial urbana?”. Muitas dessas perguntas abordam medidas que podem parecer paliativas, se não forem integradas em um plano abrangente.

Importante notar que, embora exista uma ênfase sobre os desdobramentos do desastre e o que seria necessário para evitar outros, as causas acerca do que nos trouxe até aqui, relacionadas ao que se entende hegemonicamente como desenvolvimento, não foram questionadas e nem trazidas pelos candidatos. Quanto da vegetação nativa foi suprimida no RS, agravando as consequências das enchentes? Como a flexibilização das normas ambientais está relacionada com os impactos das chuvas intensas? Por que o cuidado ambiental é desvinculado das respostas mais imediatistas sobre enfrentamento da crise climática?

Percebe-se que as perguntas e respostas da série “Os Candidatos e as Cheias”, assim como grande parte dos enquadramentos jornalísticos, tendem a abordar predominantemente aspectos técnicos, sem promover uma discussão mais profunda e ampliada, que extrapole soluções mais imediatistas. Esse enfoque acaba por limitar o papel do jornalismo no debate sobre a educação ambiental diante dos eventos extremos e a necessária mudança de mentalidade diante da emergência climática. Esta é uma visão recorrente daqueles que ainda fragmentam as pautas e os conhecimentos, dificultando que os públicos percebam que há relações entre as decisões econômicas, políticas, sociais, culturais e ambientais. Um dos esforços do Jornalismo Ambiental é evidenciar uma leitura sistêmica dos acontecimentos, visibilizando as conexões ocultas mencionadas por Fritjof Capra.

Além das ações emergenciais para lidar com as cheias, os jornalistas poderiam ter questionado os candidatos sobre estratégias integradas para enfrentar as causas dos eventos extremos e a formação de uma cultura de percepção de riscos de desastres. Questionamentos sobre a implementação de campanhas educativas sobre riscos climáticos e a organização de exercícios de simulação de desastres para preparar a população a fim de fornecer instruções claras sobre o que se deve fazer em situações de iminência ou ocorrência de desastres. Poderiam trazer à tona a falta de cultura de prevenção. Debater os fatores que geraram a vulnerabilização das pessoas e que ampliaram sua exposição às chuvas e enchentes também é algo que requer mais atenção dos jornalistas, sobretudo em tempos de campanha eleitoral. Não há como falar de soluções para um problema sem expor e rever o que desencadeou o contexto para a eclosão do desastre.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente

Toneladas de lixo foram geradas durante a calamidade que assolou o estado / Imagem: Carine Massierer

Por Carine Massierer*

Memórias e histórias de gaúchos foram parar no lixo quando a água ocupou os lares, durante as enchentes de maio e junho de 2024, tornando-se a maior calamidade vivida até então. Montanhas de resíduos passaram a integrar a realidade visual de ruas e parques transformados em espaços de descarte dos bens materiais que sobraram quando a água tomou o seu leito em muitos rios do Rio Grande do Sul. Estes despojos e seu destino representam um risco à população se não houver um planejamento adequado.

A geração de resíduos pós enchentes tomou as páginas de jornais em maio e impressionou os cidadãos que andavam pelas ruas dos municípios: O que fazer; qual o destino dos entulhos no Rio Grande do Sul? (uol.com.br); Enchentes deixam 47 milhões de toneladas de entulho no RS, aponta levantamento | CNN Brasil; Enchentes deixarão quase 47 milhões de toneladas de lixo no RS | Metrópoles (metropoles.com); Volume de entulho de construção gerado no RS pelas enchentes pode chegar a 46 milhões de toneladas, mostra levantamento  | GZH (clicrbs.com.br), Cuidados após enchentes: especialistas orientam sobre a limpeza da casa e o que fazer com móveis e utensílios | Fantástico | G1 (globo.com), Imagens mostram Porto Alegre tomada por lixo após água começar a baixar (correiobraziliense.com.br), Lixo das chuvas no RS: catadores não conseguem trabalhar (apublica.org), dentre outros.

Em junho a situação ainda chocava a população e a imprensa repercutia o tema, mas já não com tanto espaço comparado ao mês anterior: Lixo após inundações em Porto Alegre gera montanhas de entulho e medo de contaminação – BBC News Brasil; Após um mês de calamidade, gaúchos não conseguem retomar rotina | Agência Brasil (ebc.com.br), Inundações no Rio Grande do Sul: ‘Olhar para tudo isso é desesperador’; a rotina de um gari em meio à limpeza dos restos das enchentes – BBC News Brasil .

Em julho o tema sofreu um arrefecimento e poucos textos retrataram os encaminhamentos quanto ao lixo gerado pós enchentes: Resíduos recolhidos após enchente em Porto Alegre representam 30 campos de futebol com 1 metro de altura, diz prefeitura | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), Aterro que recebia entulhos da enchente tem operação suspensa no RS; entenda os motivos | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), As enchentes no Rio Grande do Sul e os impactos sanitários (synergiaconsultoria.com.br). Neste mês, somente em Porto Alegre, foram coletadas 92 mil toneladas de resíduos e em São Leopoldo, 285 mil. Além destes, outros tantos municípios foram afetados e não se têm números que evidenciem a relevância desta pauta.

Em agosto o tema parece ter sido silenciado pela falta de registros de matérias na internet até então. Isto preocupa porque as montanhas de lixo seguem visíveis e o seu destino não parece integrar uma política ambiental (conforme relatam matéria de maio, junho e julho), o que faz com que o tema seja esquecido na agenda pública. “Fixar a agenda é fixar o calendário dos acontecimentos. É definir o que é importante e o que não é. […] É criar o clima no qual será recebida a informação. É fixar não só o que vai ser discutido, mas como e por quem” (Barros Filho, 2008, p. 159).

Kitzinger e Reilly (2002) apontam que, embora haja preocupação dos jornalistas, os temas de risco não atraem tanto para a cobertura em razão da falta de concretude da pauta ou por não ter entrado na agenda pública ou política, gerando algum valor-notícia atrativo ao jornalismo. Além disto, o risco refere-se a projeções e os jornalistas trabalham com acontecimentos, mas a manifestação do risco pode ser um gatilho necessário para a produção jornalística. É, por isso, que riscos ambientais e consequências são geralmente apresentados somente durante os desastres e catástrofes – e agora estão sendo silenciados.

Desta forma, é preciso que o jornalismo esteja presente fazendo o seu papel social na comunicação de riscos e acompanhando também as consequências ao meio ambiente e aos seres humanos, como é o caso do destino adequado deste expressivo volume de resíduos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Edição de Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências:

BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 2008.

KITZINGER, Jenny; REILLY, Jacquie. Ascensão e queda de notícias de risco. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2002

De chuvas no RS a fogo no Pantanal e estiagem na Amazônia, jornalismo deve tecer relações entre fenômenos

Imagem: Isabelle Rieger

Débora Gallas*

No noticiário, o ineditismo e a grandiosidade dos eventos iniciam ciclos de atenção que mobilizam o público em torno da pauta quente do momento. Passado algum tempo do despontar da novidade, a narrativa pode ganhar verniz de “mais do mesmo” e tornar o público menos engajado. Em tempos nos quais estamos superexepostos à informação, é fácil iniciar um novo ciclo ao tomarmos conhecimento sobre outro assunto mais recente e que também desperta nosso senso de urgência.

Tal processo pode ser perverso especialmente para o jornalismo ambiental porque dá a entender que os fenômenos são isolados – justamento o contrário do que o jornalismo ambiental defende. Se nos últimos meses o assunto predominante no noticiário nacional foi o excesso de água no Rio Grande do Sul, essa cobertura vai minguando aos poucos, mesmo que parte da população siga desassistida e que ainda haja disputa, por exemplo, sobre as medidas necessárias para a recuperação do estado.

Enquanto isso, emergem notícias sobre outro tópico preocupante: o combate aos incêndios no Pantanal, que tem sido pauta recorrente no Jornal Nacional, da TV Globo, nas últimas semanas. Assim como as enchentes no Rio Grande do Sul, o assunto não é necessariamente novo, tendo em vista que o bioma já havia sido gravemente atingido pelo fogo em 2020.

Mas, assim também como no caso gaúcho, o ciclo de atenção é despertado pelos tristes recordes associados à intervenção humana nos ambientes naturais. As queimadas de agora são ainda piores do que as de 2020, e ainda nem estamos no período mais crítico da estação seca, quando essas ocorrências são mais comuns no bioma.

Nesse contexto, é fundamental que jornalistas recorram à ciência para explicar a conexão entre esses fenômenos, que são cada vez mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas e à degradação dos biomas. Um levantamento da plataforma MapBiomas sobre a perda de mais de 30% da superfície de água no Brasil entre 1985 e 2023 foi fio condutor de um episódio do podcast O Assunto, do G1, em 8 de julho.

O programa menciona que o Pantanal foi o bioma mais afetado, com 61% da perda de água no país, o que contribui para a crise atual e para a descaracterização desta que se trata da maior planície alagável do planeta. Além disso, o coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, ressalta que o bloqueio da umidade sobre o norte do Rio Grande do Sul, por conta de fatores como a mudança na temperatura do Oceano Atlântico, agravou tanto as chuvas no estado como a estiagem ao norte.

O podcast alerta, ainda, para o novo período de seca que se inicia na Amazônia, lembrando do paradoxo que existe em habitantes da maior bacia hidrográfica do mundo, a do rio Amazonas, sofrerem com a sede. Por fim, Rosa frisa a responsabilidade de representantes do agronegócio, setor que depende diretamente da boa gestão da água e que precisa recusar o negacionismo científico para se adequar às mudanças, cada vez mais aceleradas, das condições climáticas.

Este é um bom exemplo de como o jornalismo pode se aprofundar nos fenômenos cujos impactos já sentimos na pele. Além de ouvir a ciência para basear essa narrativa, jornalistas podem flexibilizar o ciclo de atenção, tecendo relações entre as transformações que vêm ocorrendo nos biomas brasileiros.

Para aprimorar a compreensão do público sobre de quem são as responsabilidades pelo cenário atual, o jornalismo pode apostar em mais investigações de fôlego sobre causas e consequências dessas crises. Desta forma, o assunto pode se manter no noticiário a partir de abordagens que se aprofundam no tema e, ao mesmo tempo, o situam em um cenário complexo de transformações ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução

Retomada da vida cotidiana com a descida das águas torna o desafio ainda maior / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger** e Ilza Maria Tourinho Girardi*

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 mostrará seus efeitos a longo prazo. Passados dois meses do início, mais de 90% dos municípios revivem os impactos. Foram atingidos tanto o meio urbano, quanto rural e litoral. Inclusive na capital gaúcha, a inundação persiste em pontos como no bairro Guarujá, na Zona Sul de Porto Alegre. No centro e em bairros vizinhos, o alagamento foi controlado. Neste contexto, meios hegemônicos estão focando em notícias voltadas para a reconstrução do estado, ou seja, em um suposto jornalismo de soluções. Como se o enfrentamento da tragédia fosse igual para todos os moradores das áreas atingidas, independentemente de classe social, raça e gênero. Como se não houvesse responsabilidades também dos governos estadual e municipal a serem cobradas. 

Zero Hora anunciou um compromisso que remete ao jornalismo de soluções: uma nova seção “com reportagens especiais sobre obras, projetos, mobilizações, bons exemplos, negociações, cobranças de promessas e tudo que diz respeito ao maior desafio já vivido pelos gaúchos”. No entanto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) conceitua o jornalismo de soluções como “uma prática jornalística criteriosa como todo o jornalismo deve ser”. A questão é que o fio condutor da reportagem é uma solução. Ou seja, é a cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais. 

Quando falamos de um evento com essa magnitude e complexidade, como foram as enchentes de maio nos municípios gaúchos, é difícil achar soluções rápidas e simples. A posterior tentativa de retomada da vida cotidiana com a descida das águas e o aparecimento da lama tornam o desafio ainda maior. Para que um evento climático extremo agravado por interferência humana não aconteça de novo, precisamos de uma mudança radical na forma de produção. Por isso, necessitamos de perspectivas como a do decrescimento e pós-extrativismo  de Alberto Acosta e Ulrich Brand, que caminham para um cenário de justiça social e ambiental. 

Na contramão desta ideia, a capa da Zero Hora do último final de semana chamava para a reportagem “Mesmo sem recorde, colheita de soja deve ajudar na retomada gaúcha”. Quando entramos no texto, descobrimos mais do mesmo: não há crítica nem aos agrotóxicos apesar da conhecida edição de 2024 do Atlas dos Agrotóxicos informar que: “a despeito dos ganhos econômicos, o uso destas substâncias tem ocasionado um severo impacto na saúde da população brasileira: entre 2010 e 2019, 56.870 pessoas foram intoxicadas com agrotóxicos no Brasil. Há, assim, uma média de 5687 casos por ano, ou 15 pessoas diariamente”. Um severo impacto não computado pela economia do agronegócio!

Ainda, para a soja avançar nessas áreas, significa que tem que haver supressão da vegetação nativa. Dados produzidos pelo MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa. Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja e da silvicultura. 

Desta forma, a economia da qual a Zero Hora se refere é apenas material. Não se leva em conta os danos na saúde das pessoas afetadas na cadeia de produção de soja, assim como não são mencionados os impactos ambientais do plantio extrativista deste grão. Sendo esta uma das reportagens destacadas da edição de final de semana, parece que só há um caminho para a retomada na economia gaúcha e que ele passa, obrigatoriamente, pela soja. Esta apresentação em forma de solução é, na verdade, uma outra forma de semear monofuturos sem espaço para a pluralidade. 

No entanto, enquanto repórteres, editores e comentaristas, devemos ao público uma prática engajada na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Defendemos que isso faz parte dos pressupostos da área do Jornalismo Ambiental, que visa uma prática decolonial e respeitosa com todos os seres. 

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

A responsabilidade da imprensa hegemônica na catástrofe climática do RS

Imagem: As ruas de Porto Alegre em indesejada simbiose com o Guaíba / Isabelle Rieger / Sul21

Por Sérgio Pereira*

O Rio Grande do Sul busca se reerguer de sua maior tragédia ambiental. Até o momento, foram mais de 170 mortos, centenas de feridos e milhares de desabrigados. O cenário é de grande destruição, o que resultou na quase paralisação do estado desde o início de maio. O Aeroporto Internacional Salgado Filho segue fechado, a rodoviária de Porto Alegre e o trem metropolitano ficaram por dias inoperantes, hospitais e escolas foram inundados, como também diversos prédios públicos.

A imediata reação da sociedade diante desse quadro foi, inicialmente, priorizar a preservação da vida. Todos os esforços foram direcionados para resgates, atendimento médico, acolhimento e apoio às vítimas. “Não é hora de procurar culpados”, era o que diziam não apenas os supostos culpados, mas também representantes da imprensa hegemônica gaúcha.

O que não se observa na grande mídia é justamente uma discussão sobre as suas responsabilidades, principalmente no que se refere à omissão frente aos possíveis riscos ambientais. Ao silenciar, esse Jornalismo não só se prepara apenas para “cobrir catástrofes, mas ele próprio é cúmplice do desastre” (Loose, Camana e Belmonte, 2017, p. 12).

Após as chuvas de setembro e novembro de 2023, em menor volume que as da enchente de maio de 2024, mas também bastante intensas, fica a pergunta: porque o Jornalismo hegemônico gaúcho não se interessou em verificar as reais condições dos sistemas de proteção existentes em Porto Alegre (muro da Avenida Mauá, comportas, casas de bombas, diques)?

Loose, Camana e Belmonte elencam três razões para que os jornalistas não se sintam estimulados em cobrir riscos ambientais: “1) a incerteza científica por si só, típica dos riscos, não atrai os jornalistas, que buscam concretudes; 2) se não há uma medida do governo ou outra instituição em relação à prevenção, é muito provável que o risco seja ignorado e, portanto, não percebido – o que desencoraja  o  valor-notícia  da  estória;  e  3)  o  risco  refere-se  a  projeções  e  os  jornalistas  trabalham  com  acontecimentos  –  a  manifestação  do  risco  é  um  gatilho necessário para a produção jornalística” (2017, p. 4).

A realidade atual das redações é outro ingrediente a ser pesado nesta hora. Nos últimos anos, jornais gaúchos dispensaram diversos profissionais experientes com o objetivo de reduzir custos. As redações diminuíram de tamanho e no lugar dos “dinossauros” foram contratados jovens atualizados nas novas tecnologias e cada vez mais multitarefas, mas sem os “calos” fundamentais da profissão diante dos grandes desafios. Com isso, os veículos perderam um conhecimento valioso para oferecer aos seus leitores.

O fim da setorização nas editorias também colabora para esse distanciamento das chamadas pautas de alerta. Aquela figura do jornalista figura frequente nas repartições públicas, colecionador de fontes, conhecedor dos atalhos está praticamente extinta. Quantas pautas premiadas nasceram da informação de cocheira ou da mera observação do setorista nesse acompanhamento presencial!  

O papel da imprensa na polêmica envolvendo a autorização para importação de arroz por parte do Governo Federal é outro ponto a analisar. Muitas foram as críticas em relação à medida. O que pouco se fala agora é que foi a imprensa que alertou, dias antes do anúncio, para a possibilidade de faltar o produto no mercado, o que resultou em uma corrida consumista ainda mais intensa.

Em 30 de abril, GZH chamava atenção para os estragos no setor rural provocados pelas chuvas, que ainda estavam recém iniciando no RS. A postagem “Vídeo: lavoura de arroz é inundada após chuvarada; efeitos se multiplicam no campo” já apontava para prejuízos na agricultura, com destaque para o arroz e a soja.

No dia seguinte, GZH voltou a abordar o tema: “Por que a chuva intensa trará perdas importantes na produção do RS”. A declaração do presidente de entidade que representa os arrozeiros indicava para grandes danos ao setor: “É cedo para precisar as perdas, mas uma coisa é certa: o prejuízo não é pequeno, porque em muitas regiões passou de 300 milímetros a chuva”.

No dia 2 de maio, o Correio do Povo postou a reportagem  “Chuvas isolam produtores rurais do RS”. No texto, o CP abordava também a questão do arroz, informando que lavouras estavam inundadas. O jornal se utiliza de uma nota oficial da entidade representativa dos orizicultores, que “colocou-se à disposição e reiterou seu ‘compromisso em garantir a segurança alimentar do povo brasileiro, apesar das incontáveis dificuldades e instabilidades enfrentadas pelos produtores rurais’”.

Quatro dias depois, o mesmo jornal alertava para a falta de produtos nos mercados: “Em algumas cidades do RS já faltam produtos nos supermercados”. Um dos produtos ausentes nas prateleiras era justamente o arroz, como destacava o texto.

Cabe aqui lembrar o caso também da Jovem Pan News (JP), que no dia 7 de maio veiculou reportagem em seu canal de TV com o título “Produção de arroz do RS deve ter prejuízo de R$ 68 milhões”. A matéria especulava sobre a possibilidade de elevação nos preços do cereal nas gôndolas dos mercados e nos índices de inflação. A JP, porém, não escutou nenhum produtor ou entidade representativa da categoria, tendo como fonte principal uma consultoria privada.

Impossível relacionar aqui todos os veículos do país que divulgaram o sumiço de produtos nos comércios locais e também levantaram estimativas de prejuízos no setor rural após as chuvas de maio.

A decisão do governo de importar arroz, portanto, veio ao encontro do que relatava a imprensa em geral, em rápida ação justamente com o objetivo de repor estoques e evitar os preços abusivos. A divulgação dos dados sobre a cesta básica pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no início de junho comprova que o cereal foi o segundo produto que registrou a maior elevação de preço em maio, com 13,24% de aumento. E várias foram as notícias, em diversas partes do Brasil, de arroz com preços exorbitantes nas prateleiras dos mercados.

Uma autoanálise por parte do Jornalismo nesta hora seria importante até em nome de sua sobrevivência. A credibilidade se solidifica com os acertos, mas também na admissão do erro, do exagero, da abordagem equivocada. E neste momento, em que o Jornalismo encontra a concorrência das redes sociais, da superoferta de informações, dos “fatos alternativos”, conquistar a confiança do consumidor de notícias passou a ser ainda mais fundamental.  

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

LOOSE, Eloisa Beling; CAMANA, Ângela; BELMONTE, Roberto Villar. A (não) cobertura dos riscos ambientais: debate sobre silenciamentos do jornalismo. Revista Famecos: mídia, cultura e tecnologia, v. 24, n. 3, p. 1-18, 2017.

O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul

Imagem: Isabelle Rieger/Sul 21

Por Míriam Santini de Abreu*

Veículos independentes como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo ambiental.

O Sul21, no dia 6 de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano Velleda, detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a construção de barragens em áreas de preservação da natureza.

O Brasil de Fato RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre, ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a reportagem intitulada “Em bairro ‘esquecido’ de Porto Alegre (RS), enchente faz emergir solidariedade”, assinada por Murilo Pajolla e publicada no dia 27 de maio.

Outra reportagem do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente, Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21 de maio, repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram (@clguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.

Com o título “O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades”, o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.

No dia 22 de maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” , assinada por Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos estaduais e municipais.

As reportagens mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os acima citados.

A designação de imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e 2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa – jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem tais iniciativas.

Este artigo toma o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no debate público.

Nesta direção, prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na imprensa tradicional. Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).

É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos.

Referências

LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990.

SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente