Vetos, brechas e petróleo: o olhar da imprensa sobre o licenciamento ambiental

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Eutalita Bezerra*

Nas duas últimas semanas, neste observatório, as análises versaram em torno do chamado PL da Devastação, o Projeto de Lei que dispõe sobre o Licenciamento Ambiental no Brasil e que já tramitava há mais de 20 anos. A temática foi explorada inicialmente por Isabelle Rieger e Ilza Maria Tourinho Girardi em publicação que abordou os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do referido projeto.

Em texto mais recente, Débora Gallas abordou a cobertura sobre a demanda para que o presidente Lula vetasse todo o projeto. Na ocasião, avaliou se que a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto, destacando a presença do assunto em veículos de imprensa de renome. Ocorre que, na última sexta (8), último dia do prazo, Lula sancionou o projeto com 63 vetos. Deste modo, entendemos a necessidade de retomar o assunto neste observatório, agora, com a finalidade de avaliar de que maneira se deu a cobertura da decisão presidencial em grandes veículos.

Para tanto, buscamos no Google por “veto + Lula + Licenciamento Ambiental” e escolhemos aleatoriamente as primeiras publicações com data de 8/8/25. Encontramos a do portal G1, que publicou texto extenso, intitulado Lula veta 63 trechos de nova lei que muda regras de licenciamento ambiental. Destacamos que o título foi mudado, conforme a URL na qual aparecem os dizeres “Lula sanciona com vetos projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental”. A opção por retirar a menção ao ‘enfraquecimento das regras’ na versão final nos parece sintomática. 

A publicação dividiu a decisão do presidente em nove pontos principais, e ainda trouxe, dentre outras explicações , a tentativa do governo de equilibrar os pratos, com ministros contrários e favoráveis ao PL; a análise dos ambientalistas – citando Greenpeace e SOS Mata Atlântica; e as principais polêmicas do texto, com destaque para a proposta de autodeclaração para atividades de baixo impacto.

Na mesma data, o portal G1 também publicou o texto Entenda o que muda com vetos ao projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental. A publicação traz a visão de representantes de entidades ambientais; esclarece os vetos e suas justificativas, aponta os próximos passos e os bastidores da decisão presidencial, além de esclarecer os trâmites anteriores do projeto e finalizando com a preocupação com a possível exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

O Estadão, por sua vez, foi mais crítico. No texto “Licenciamento ambiental: Lula sanciona com 63 vetos projeto e edita MP que atende Alcolumbre”, o veículo de comunicação traz desde o título a preocupação com a exploração de petróleo, que citamos anteriormente. Indicando que é um interesse do senador Davi Alcolumbre, cujo estado seria o principal recebedor de royalties no caso de prospecção do combustível fóssil.
 
Já o Metrópoles não aprofunda a discussão. O subtítulo da publicação Lula sanciona mudanças no licenciamento ambiental, mas veta 63 pontos aponta a crítica dos ambientalistas ao projeto. Já no texto, indica o aceno de Lula a Alcolumbre e cita muito brevemente os trechos vetados. O UOL, por sua vez, destacou o projeto que segue ao congresso com modificações no PL propostas pelo governo.  O repórter também cita pontos sensíveis do projeto, marcando, também, a emenda patrocinada pelo presidente do Senado.

Na cobertura sobre a sanção presidencial, os grandes veículos mantiveram espaço para as vozes dissidentes, garantindo destaque às manifestações de ambientalistas. Também foram firmes, a maioria deles, em destacar o jogo político que não se encerra após o “voto” de Lula. O desafio agora é aprofundar o debate: investigar as brechas que ainda podem permitir retrocessos e acompanhar de perto os desdobramentos políticos do “toma lá, dá cá” que se desenha após a decisão de Lula. Uma imprensa vigilante e responsiva pode não impedir todas as investidas contra o meio ambiente, mas é fundamental para reduzir os espaços por onde a boiada insiste em tentar passar.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: eutalita@gmail.com

Meio ambiente também é hard news: demanda por veto total ao PL da Devastação repercute em grandes jornais

Foto: Fabio Rodrigues- Pozzebom/Agência Brasil

Por Débora Gallas*

Aprovado pela Câmara dos Deputados em 17 de julho, o PL que fragiliza o licenciamento ambiental  no Brasil pode ser sancionado ou vetado pelo presidente Lula até 8 de agosto. Representantes da sociedade civil pressionam pelo veto total do chamado de PL da Devastação, que ameaçará ainda mais a saúde, a subsistência e a qualidade de vida da população, conforme avaliam especialistas da Organização das Nações Unidas.

O objetivo desta análise é verificar se a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto. Ou seja, se a cobertura se limitou ao “fato quente” – o aval dos deputados –, ou se os veículos seguiram acompanhando o debate, reconhecendo que a decisão ainda não está encerrada.

Observou-se que os principais jornais do país repercutiram os argumentos contrários à sanção ao longo da última semana. Levantamento de notícias publicadas entre 21 e 28 de julho em Folha, Estadão e O Globo, com a palavra-chave “licenciamento ambiental”, mostra que os três veículos destacaram o posicionamento do Observatório do Clima, coalizão que reúne cerca de 100 entidades ambientalistas. Folha e O Globo, por exemplo, noticiaram a nota técnica divulgada pelo Observatório no dia 24, que recomenda o veto total do PL ao presidente Lula.

O texto de Gabriel Gama publicado na Folha em 25 de julho destaca ainda a recomendação e a avaliação de Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, de que a Licença Ambiental Especial (LAE), mecanismo do PL que permite acelerar a licença de empreendimentos tido como estratégicos – como a exploração de petróleo na foz do Amazonas –, deve ser completamente suprimida porque vincula diretamente o licenciamento a pressões políticas.

O texto de Luís Felipe Azevedo e Lucas Altino publicado em O Globo em 24 de julho também traz no título a recomendação de veto total, mas foca nas consequências políticas do PL para o presidente Lula – dividido entre a ala ambientalista do governo, representada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ala desenvolvimentista, que abrange o ministro da Casa Civil, Rui Costa.  Na mesma semana, o jornal também deu espaço ao posicionamento de entidades vinculadas ao agronegócio e à indústria, que defendem a sanção integral do PL alegando necessidade de “modernização” do Estado.

Já o Estadão não noticiou a nota técnica do Observatório do Clima, mas repercutiu, em texto de Isabela Moya (21/7), a análise de Marcio Astrini, diretor da entidade, em sua coluna na Rádio Eldorado. Ele relaciona a necessidade de veto de Lula à credibilidade do Brasil como nação comprometida com a preservação ambiental, especialmente a quatro meses da COP30, em Belém. O projeto também foi citado, ainda que de forma indireta, na entrevista de Roberta Jansen com Francilene Procópio Garcia, nova presidente da SBPC, que criticou a ausência da ciência nas decisões sobre meio ambiente.

Apesar das lacunas da cobertura desses veículos após a aprovação do projeto no Senado, em maio deste ano, há um reconhecimento crescente de que pautas ambientais fazem parte da agenda política e econômica. Embora o Congresso tenha promovido retrocessos em favor de interesses setoriais, é positivo que o jornalismo passe a dar espaço a vozes críticas – que encontram na imprensa um espaço para debate diante de um Legislativo pouco receptivo às demandas da sociedade civil.

Contudo, conforme os pressupostos do jornalismo ambiental, é essencial ir além do contraditório imediato. É preciso considerar a complexidade dos fenômenos ambientais e sua relação com decisões políticas. É importante aprofundar, por exemplo, as repercussões do PL sobre eventos globais como a COP30 e a incorporação de evidências científicas nas políticas públicas – assuntos que foram apenas tangenciados pelos veículos analisados.

Esse tipo de cobertura não pode depender apenas do esforço individual de jornalistas especializados. Deve orientar o direcionamento editorial dos veículos, com compromisso com o interesse público. Meio ambiente também é hard news: merece espaço constante e coberturas aprofundadas.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.


Flexibilização x antiambientalismo: os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do PL da devastação

Votação do PL 2159/2021 no dia 16 de julho na Câmara dos Deputados.
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Nesta última semana, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2159/2021, que fragiliza as regras para o licenciamento ambiental. O chamado PL da devastação agora segue para sanção do presidente Lula, que pode vetar trechos ou todo o texto da proposta. O projeto já tramitava há 21 anos no Congresso e tinha como apoiadores setores da agricultura e da pecuária, como a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), que afirma que as novas regras vão desburocratizar processos para obtenção de licenças ambientais, segundo o portal G1. Os termos “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura”  estão aparecendo nos editoriais da imprensa hegemônica, enquanto veículos independentes focam na possível destruição ambiental causada pela aprovação. 

O portal G1 também menciona o enfraquecimento do licenciamento ambiental e pondera sobre a possibilidade de obras de alto impacto. O portal usa os termos de flexibilização para se referir às normas do PL. Em análises anteriores também no Observatório de Jornalismo Ambiental, na época de outra votação em maio deste ano que tratava sobre o PL, as colegas Eloisa Loose e Nico Costamilan analisaram o posicionamento de três jornais mainstream (Estadão, Folha de São Paulo e O Globo) e entenderam que a ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.

Em Porto Alegre, o Jornal do Comércio, voltado à economia e negócios, republicou a coluna de Edgar Lisboa, em que destacam a flexibilização para implementação de empreendimentos. Em relação à imprensa internacional, o jornal The Guardian afirma que o PL enfraquece drasticamente o licenciamento ambiental. 

Já a mídia alternativa, como no caso do Brasil de Fato, critica a medida e sublinha que o projeto aprovado ignora a crise climática e facilita o autolicenciamento para o agronegócio e a mineração. O portal Intercept foca na relação dos congressistas com o meio ambiente, e confirma que esse é a disposição mais anti ambientalista da Câmara na história, mais ainda que no governo Bolsonaro.

*Isabelle Rieger é jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
E-mail: belle.rieger@gmail.com

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.
E-mail: ilza.girardi@gmail.com

Os desafios do Brasil como anfitrião: expectativas internacionais e contradições internas expostas

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Fernanda Vargas* e Alice Balbé**

Em novembro de 2025, o Brasil sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), reunindo líderes globais para discutir o enfrentamento da crise climática. Para além das discussões acerca da mitigação, adaptação, financiamento e transição energética justa, o preparo e o gerenciamento da COP-30, em Belém, no Pará, têm sido intensamente discutidos e criticados no país e internacionalmente, especificamente no que tange como o país sede da conferência lida com a emergência climática em seu próprio território. O jornal alemão DW já questionou: “O Brasil está abandonando suas promessas climáticas?”. A menos de cinco meses da COP-30, também discutem-se as armadilhas diplomáticas que precisarão ser desfeitas para o avanço em acordos climáticos centrais como a eliminação dos combustíveis fósseis e a redução do desmatamento. 

No começo de 2025, se confirmou a construção da estrada de quatro faixas que cortará dezenas de milhares de hectares da Floresta Amazônica. Segundo o governo, a ação se deve para facilitar o trânsito do evento que vai receber mais de 50 mil pessoas. O fato não repercutiu de forma positiva na cobertura internacional pela incoerência com as políticas ambientais que precisam ser tomadas pelo Brasil, tendo sido motivo de piada em Portugal em comentário na Rádio Comercial.

A repercussão negativa cresceu no mês de julho com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, chamado de “Lei da Devastação”. No jornal português Público, é referida essa aprovação, dizendo que “coloca o presidente Lula numa “saia justa” perante a comunidade internacional”. No espanhol El País, a aprovação foi considerada uma “ameaça ao planeta”. O jornal The Guardian explica que essa proposta desmantela a regulamentação “na agricultura, na mineração e na energia, aumentando o risco de destruição generalizada” indo contra os compromissos do país no combate às mudanças climáticas. 

Apesar da diminuição do desmatamento em 32% no ano passado, segundo o MapBiomas, o governo decepcionou ambientalistas em outras áreas, especialmente pela defesa à exploração de petróleo. O jornal britânico ainda refere-se ao Brasil como realizador de um “leilão do direito à exploração de petróleo meses antes de sediar a Cúpula Climática da ONU”, ação apoiada pelo presidente Lula que visa transformar o país no quarto produtor de petróleo do mundo.

Com a repercussão internacional em grande parte negativa sobre o gerenciamento de pautas e o planejamento técnico do Brasil para sediar a cúpula, questiona-se, a partir desses espaços de cobertura, quais as reais possibilidades e contradições que um evento desse porte evidencia. Mais do que isso, nos mostra quais são os verdadeiros desafios políticos e econômicos que rondam o debate acerca das disputas climáticas vigentes na COP-30. 

* Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática e no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

** Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

Clima tenso: guerras comerciais e militares ofuscam e comprometem combate à crise climática

Foto: Reprodução/Instagram/@realdonaldtrump

Por Heverton Lacerda*

Em uma semana dominada por notícias sobre os reflexos econômicos do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a relação com a tornozeleira de Jair Bolsonaro, pautas sobre questões climáticas e a COP-30 perderam espaço na imprensa brasileira.

No entanto, uma importante matéria da jornalista Eliane Oliveira, publicada nas edições impressa e digital de O Globo no dia 23 de junho, indica que a pressão do presidente dos Estados Unidos por mais gastos militares de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça verbas contra mudança climática na COP. Ela informa que os gastos militares totalizaram cerca de R$15,3 trilhões em 2024, considerando a soma dos valores de todos os países. A meta de investimento para combater a crise climática é chegar a “algo em torno de R$7 trilhões por ano, até 2035, conforme acordado em 2024, durante a COP-29, no Azerbaijão”. 

Conforme a matéria, embaixadores europeus e o presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, expressaram a preocupação de que essa realocação de verbas possa ter um impacto direto nos investimentos ambientais, inclusive nas preparações e nos resultados da COP-30, que será sediada em Belém, no Brasil, em novembro.

A diretora-executiva da COP, Ana Toni, uma das entrevistadas por Oliveira, metaforicamente descreve a crise climática como uma “guerra silenciosa” que intensifica a pobreza e a desigualdade, argumentando que os conflitos comerciais e militares não só causam destruição, mas também desviam fundos da “batalha mais urgente” contra as mudanças climáticas.

A entrevistada ainda afirma que o setor de defesa contribui para as emissões de gases poluentes, mas suas emissões não são contabilizadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o que impede um monitoramento completo de seu impacto ambiental. Neste ponto, percebe-se um bom aproveitamento do espaço editorial para analisar um elemento que pode ser significativo nos cálculos sobre o tempo que nos resta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Afinal, é preciso considerar que ultrapassamos o limite de 1,5ºC acima da média pré-industrial seis anos antes do previsto pelo IPCC. Ainda que não esteja configurada uma nova média, o pico antecipado acima de 1.5ºC é preocupante e precisa ser considerado um fator relevante para revisões de cenários.

As guerras, assim como os gastos militares ampliados, precisam ser inseridos nos cálculos, pois podem representar mais emissões de gases poluentes e menos recursos para ajudar a solucionar a crise climática.

Outro ponto relevante da matéria é o fato de que manter em pauta questões climáticas, mesmo sem a relação direta com notícias factuais – em especial as tragédias -, é positivo. Isso ajuda a contextualizar o tema a partir de uma perspectiva sistêmica, um pressuposto do Jornalismo Ambiental que busca superar a fragmentação e a descontinuidade da cobertura jornalística.  

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

IA também pode ser pauta para o jornalismo ambiental

Foto: Freepik

Por Débora Gallas*

Proferida em 26 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determina a remoção proativa de conteúdos ilegais pelas plataformas digitais deu novo fôlego à discussão sobre os limites e responsabilidades desses serviços. No jornalismo ambiental, que se baseia no princípio da precaução, o tempo das redes é incompatível com o do bom exercício profissional. Assim, a tensão entre o jornalismo e as big techs já mereceria atenção porque a lógica das redes confunde, distrai e aliena, prejudicando o entendimento sobre a complexidade do mundo e sobre a conexão entre os fenômenos.

Contudo, há também um impacto material que precisa ser repercutido pelo jornalismo: a infraestrutura necessária para processar o volume cada vez maior de dados compartilhados através de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X e Youtube – potencializados pela popularização da inteligência artificial generativa.

Por isso, é oportuna a série de reportagens “A boiada da IA”, do site The Intercept Brasil em colaboração com a AI Accountability Network, iniciativa do Pulitzer Center. Assinado por Laís Martins, o especial investiga o impacto de projetos para instalação de data centers no Brasil. Os data centers são edificações que demandam uso intensivo de recursos naturais – da energia para que suas máquinas sejam capazes de atender aos comandos dos usuários de serviços digitais à água para resfriar os equipamentos.

A quarta reportagem da série, publicada em 23 de junho, revela o projeto de instalação de data center no município gaúcho de Eldorado do Sul, que teve mais de 80% das residências atingidas pelas inundações de maio de 2024. Chama a atenção a aquisição, pela empresa Scala AI, de terreno fora da área de risco de alagamento enquanto a população afetada pelo desastre segue no aguardo de moradias em lugar seguro. O poder público, por sua vez, se limita a comemorar a transformação do município em um polo tecnológico.

Segundo a quinta reportagem, publicada em 3 de julho, um projeto de data center no município cearense de Caucaia estima que o consumo diário de energia das instalações será equivalente ao consumo diário residencial de 2,2 milhões de brasileiros. Quem assina oficialmente o projeto é a empresa Casa dos Ventos, mas investigação anterior do site apontou que a empresa chinesa ByteDance, dona do TikTok, é quem irá ocupar as instalações.

A reportagem acerta ao ponderar a alegação da Casa dos Ventos de que o abastecimento de energia será realizado por parques eólicos e solares. Afinal, o fato de a geração de energia não causar a emissão de gases de efeito estufa não significa geração sem impactos ambientais. É papel do jornalismo se debruçar sobre as consequências, na vida da população, de iniciativas do setor privado e de decisões políticas que as corroboram.

Por isso, mais investigações jornalísticas são bem-vindas para ajudar o público a dimensionar a crescente presença da inteligência artificial e das plataformas digitais em nosso cotidiano – inclusive suas repercussões ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Chegou a hora da Dubai Gaúcha enfrentar o clima

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Por Carine Massierer*

Este artigo não é sobre Dubai, nem tampouco sobre a Porto Alegre em si, mas trata de uma das possíveis causas das constantes inundações que afetam a capital gaúcha, para que possamos refletir sobre a ação humana e a importância de uma comunicação não ludibriada com as obras de expansão, que acabam sendo “naturalizadas” nos cenários urbanos e modernos das cidades.

A afirmação “Porto Alegre já era Dubai antes de Dubai ser Dubai” é uma hipérbole que compara o desenvolvimento da capital gaúcha com o da cidade árabe, especialmente em relação a grandes projetos de aterro e urbanização. Em Porto Alegre foram muitas etapas de aterramentos. Os primeiros, ocorreram no século 19 com pequenos avanços e depois foram feitas ampliações significativas no centro histórico e na zona portuária. Na década de 1950, houve um grande projeto de aterramento na Avenida Praia de Belas, iniciado em 1956. Além disso, a expansão para as zonas Sul e Norte também ocorreu e foi concluída até o final de 1970. 

As maiores áreas de aterros foram construídas após a famosa enchente de 1941, um evento com o qual muitos consideravam que nunca encontrariam, mas que voltou a assombrar a população em maio de 2024, quando o estado do Rio Grande do Sul — e, em especial, sua capital — enfrentou a maior catástrofe de sua história. A imprensa, naquele momento, acabou trazendo o tema à tona, mas isso não serviu nem para uma mudança de postura da população com relação ao rio e muito menos para a discussão e ação política.

A imagem abaixo mostra o tamanho do problema em 2024 onde todas as áreas de aterro da capital alagaram:   

Imagem da publicação no Instagram nas páginas de @portoalegreoficial e @portoalegre com o seguinte título: Todos os ATERROS de Porto Alegre ALAGARAM. Publicação de 2024. Disponível no link: https://www.instagram.com/p/C7WZHHPuGue/?hl=pt

Nesta semana novos alagamentos ocorreram, apesar do cenário ser diferente do registrado em abril de 2024, quando os acumulados chegaram a 800 milímetros de chuva concentrados, comparados aos cerca de 500 milímetros deste ano.

Porém, a pane voltou a se instaurar entre os habitantes das áreas aterradas e a imprensa passou a monitorar a pauta e publicar todo o tempo matérias em nível local e nacional, como pode ser acompanhado pelo link: https://goo.su/qT6t39X

O que as pessoas não levam em conta é que o rio volta a tomar o seu curso um dia e que as mudanças climáticas existem e se tornaram parte da rotina diária dos humanos, que invadiram os espaços e os recursos hídricos em prol do progresso.

Chegou a hora da Dubai Gaúcha, Porto Alegre, enfrentar o clima novamente. É a natureza cobrando as ações humanas que seguem desenfreadas. Nesta semana, os humanos que vivem nestas terras seguem “tremendo nas bases” porque a busca por modernizar a área central e expandir a área urbana fizeram com que a água do Lago Guaíba e a ampliação do vento Sul novamente alagasse a parte mais próxima a ele.

Como ressalta Canclini em Cidadãos Substituídos por Algoritmos, as mudanças que fizemos inadvertidamente acabaram comprometendo todo o sistema e agora enfrentamos um colapso ecológico. Para enfrentar o clima é preciso a mudança de postura, inclusive da imprensa que praticamente não tocou no tema dos aterramentos diante das catástrofes das enchentes neste ano.

Ou seja, mesmo que os alagamentos voltem a ocorrer em áreas que foram aterradas e se tornem o centro das preocupações da população, as consequências, a cada novo evento climático que ocorre, são o centro dos debates e das ações midiatizadas, mas as causas, no caso os aterramentos, não voltam às discussões políticas e nem como manchetes na imprensa.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

Gado ilegal, desmatamento e disputas narrativas na Reserva Chico Mendes: o que diz (e omite) o jornalismo?

Foto: Reprodução/ICMBio

Por Gabriella de Barros*

Em junho de 2025, a retirada de cerca de 400 bois criados ilegalmente dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, reacendeu o debate sobre os limites da conservação, a ocupação ilegal da Amazônia e a atuação do Estado. A ação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) ocorreu após um aumento expressivo de 56% no desmatamento da área protegida, apenas nos primeiros meses deste ano.

A repercussão foi imediata, tanto na imprensa local quanto na nacional, mas revelou divergências importantes no modo como os veículos narraram o conflito: para alguns, tratou-se de uma ação legítima de fiscalização ambiental; para outros, uma medida “agressiva” contra pequenos produtores. Esse jogo
de enquadramentos, omissões e disputas narrativas revela muito sobre a fragilidade da cobertura ambiental no Brasil.

Criada em 1990, a Reserva Chico Mendes é símbolo do movimento extrativista e da luta de seringueiros liderados por Chico Mendes. Contudo, nos últimos anos a área tem sofrido com invasões, grilagem e uso ilegal para pecuária extensiva, uma atividade incompatível com as finalidades da
reserva.

O ICMBio já havia alertado sobre o avanço da atividade ilegal, mas a reação à operação de retirada dos bois gerou polarização na cobertura midiática. Em especial, veículos locais destacaram o descontentamento de moradores que alegam “falta de alternativa econômica”, enquanto a imprensa nacional se concentrou em contextualizar a ação como necessária diante da pressão ambiental.

O que diz a cobertura jornalística?

Uma análise preliminar mostra que:

● Agências internacionais (como a AP) destacaram a divisão entre moradores da reserva: alguns denunciam a degradação ambiental, outros defendem a pecuária como único sustento possível.

● Veículos nacionais como O Globo e Folha abordaram a operação com foco institucional, destacando a ação do ICMBio, mas sem aprofundar as causas estruturais do desmatamento ou o histórico de flexibilização da proteção na área.

● Faltam vozes extrativistas e de lideranças locais comprometidas com o uso sustentável, que poderiam oferecer uma visão mais equilibrada sobre os conflitos na reserva. Além disso, poucos veículos contextualizaram o episódio com o cenário político mais amplo, como a pressão de setores do agronegócio e do legislativo por mudanças no status de áreas protegidas e a
necessidade de implementar uma reforma agrária mais ampla para fornecer alternativa econômica a trabalhadores da produção familiar

O que falta ser dito?

A operação do ICMBio é importante, mas o foco da imprensa ainda tende a girar em torno do “choque” da remoção, com pouca análise estrutural. Algumas lacunas na cobertura merecem atenção:

● Quais políticas públicas sustentam a permanência do extrativismo na reserva?

● O Estado oferece alternativas reais à pecuária ilegal dentro da unidade?

● Quem ocupa hoje essas terras e qual a origem do avanço do gado?

● Qual a cobertura histórica da imprensa sobre os sucessivos ataques à Reservas Extrativistas (RESEX) ?

Sem ao menos essas questões, o risco é cair na armadilha do factual isolado onde a retirada dos bois parece uma ação repentina e sem contexto, e a ocupação irregular da área protegida é tratada como um problema pontual, naturalizando práticas como a supressão vegetal e o avanço da pecuária como
algo inevitável ou até mesmo cultural.

O episódio da retirada de bois da Reserva Chico Mendes não é apenas uma questão de fiscalização ambiental. É um retrato de um embate antigo entre dois modelos: o do extrativismo sustentável, coletivo e histórico e o da apropriação individualista baseada na criação de gado, no lucro e na devastação.

O jornalismo ambiental tem o dever de ir além das versões oficiais e buscar as vozes dos territórios, dos defensores da floresta e daqueles que lutam por uma Amazônia viva. Contar essa história melhor, com profundidade, memória e justiça é parte do papel de um jornalismo comprometido com o futuro.

* Mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Atualmente, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integra o Grupo
de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI) da UEPG e o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental da UFRGS. Desenvolve pesquisas voltadas para a cobertura jornalística, insegurança alimentar, desigualdades sociais, meio ambiente e mudanças climáticas.

A reprodução midiática da violência de gênero sofrida por Marina Silva

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Lula Marques / Agência Brasil

Na última semana, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi convidada para participar da Comissão de Infraestrutura do Senado em razão da criação de unidade de conservação da na Margem Equatorial, na Foz do Rio Amazonas, no Norte do Brasil. É nesta região que a Petrobras quer explorar petróleo. Marina defende que o Ibama faça um trabalho técnico seguindo as leis ambientais.

Ainda nessa reunião, foi debatido o asfaltamento da BR-319, estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). O tema é delicado no governo Lula há alguns anos. Enquanto parlamentares defendem que a rodovia possa diminuir o isolamento de estados como o Amazonas e Roraima do resto do país, defensores ambientais alertam que o asfaltamento seria vetor do desmatamento desenfreado na Amazônia.

Embora convidada para ser ouvida, a ministra foi alvo de ataques dos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Marcos Rogério (PL-RO) e Plínio Valério (PSDB-AM). Enquanto Valério dizia que “mulher merece respeito, a ministra não” – o mesmo que, em março deste ano, já havia dito que queria enforcá-la –, Rogério acrescentava que a ministra deveria “se pôr no seu lugar”. Ela exigiu um pedido de desculpas para permanecer na audiência, mas não foi ouvida. Acabou deixando a reunião, sem ter apoio de nenhum político presente.

O episódio foi repercutido por diferentes veículos de imprensa, mas nem sempre evidenciando as causas estruturais que sustentam o repúdio à notória defensora da natureza. Este Observatório fez uma análise das notícias (excluindo, portanto, textos opinativos) entre os dias 27 de março e 3 de junho de 2025. Em grande parte dos veículos hegemônicos, não houve discussão acerca da intersecção entre a proteção ambiental e a violência política de gênero, que atravessam a situação.

O jornal O Globo ouviu o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que afirmou que, além de negar a possibilidade de pedir desculpas à ministra sob justificativa de que “não entra mais em casa”, afirma que o mundo está “chato” com a “cobrança de machismo”. O texto reproduziu as falas do parlamentar e as de Marina proferidas na audiência, mas ouviu apenas a versão de Valério na matéria. Apesar de usar o termo “ofendida” e “alvo de ataques”, outra notícia também se limitou a reproduzir os discursos no Congresso, sem um contexto maior sobre os motivos discutidos nas ofensas.

Já o Estadão publicou pelo menos 10 notícias sobre o acontecimento, além de outras três colunas de opinião. A única matéria que relaciona os ataques com a posição de liderança que Marina ocupa na área ambiental ouviu uma representante do clima do Reino Unido, que afirmou que Marina é respeitada mundialmente pela sua coragem e ressaltou a necessidade de haver mais mulheres na vida pública.

As demais notícias apenas repercutiram as falas e os posicionamentos de solidariedade de autoridades, mas sem, de fato, contextualizar os motivos dos ataques e sua relação com a violência política de gênero e a defesa do meio ambiente. Destaca-se que os textos relacionam o episódio como um “bate-boca”, com ressalvas para o uso da palavra “machismo”.

A Folha de S. Paulo seguiu na mesma linha. Foram identificadas seis colunas de opinião e oito notícias sobre o tema. A maioria dos textos encaixam-se no que chamamos de “jornalismo declaratório”, voltando-se mais para os benefícios econômicos, caso as propostas discutidas no Congresso sejam aprovadas, e menos para os impactos ambientais. Uma das matérias traz a informação de que o senador que hostilizou Marina assinou proposta que torna a matriz energética mais poluente e eleva a conta de luz dos brasileiros. Informa que ele assina propostas cujos conteúdos são inseridos sem relação com o tema principal, o que privilegia interesses de grupos parlamentares específicos – termo conhecido como “jabuti” no contexto político brasileiro. O texto evidencia o paradoxo entre a facilidade de assinar acordos de um lado, passando “boiadas” (termo popularizado pelo ex-ministro Salles), e os entraves relacionados à proteção do meio ambiente de outro. Quando o assunto é meio ambiente, enfrenta-se muita resistência dos atores que enxergam o tema apenas como entrave ao crescimento econômico; soma-se a isso a questão de gênero, que desafia a estrutura de poder estabelecida, dominada por homens. 

A BBC News produziu uma notícia que, além de contextualizar os motivos pelos quais a ministra foi ofendida, destacou que esse não foi o primeiro ataque do senador à Marina.  Aqui, há falas de outras ministras e da primeira-dama Janja da Silva, que se manifestaram em apoio à titular do ministério, salientando a gravidade do episódio de misoginia e “machismo” – palavra usada sem ressalvas no texto.

Por mais que algumas matérias tragam contextos relacionados aos impactos ambientais, pouco foi visto nos veículos hegemônicos a respeito das violências sofridas por Marina como algo a ser discutido, não apenas um episódio isolado. Uma exceção foi a reportagem da Agência Pública, publicada no dia seguinte, que apurou que ataques à Marina são reincidentes, mas não prioritários no Senado. A possibilidade de punição pela fala misógina proferida por Plínio Valério em março deste ano está parada na Comissão de Ética do Senado Federal, em exame técnico preliminar. O texto da Pública lembra que um pedido de abertura de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar foi feito logo após a fala, mas que não levou, até agora, a nenhuma punição ao senador. A matéria reforça a ideia de que a responsabilização por ações de combate a violência política de gênero seguem ineficientes, abrindo brechas para novos casos.

O Brasil de Fato, ao ouvir uma socioambientalista, ressaltou o padrão de perseguição que sofre quem defende a pauta ambiental, e que Marina Silva, uma mulher negra da Amazônia, devido à agenda que representa, é alvo de setores da extrema direita e da ala negacionista do Congresso.

A repercussão maior na produção de notícias ocorreu nos veículos mainstream, mas a maioria se limitou a reproduzir as falas dos parlamentares e a reação da ministra, pouco aprofundando as razões que a tornam alvo no contexto político de permissão para o avanço da agenda econômica neoliberal. Percebe-se que veículos especializados e independentes, ainda que tenham produzido menos notícias, trouxeram mais elementos sobre a relação da defesa ambiental e a posição de Marina como mulher negra da Amazônia, que reivindica outra política ambiental.

Além de expor a questão da violência política de gênero, é importante evidenciar a conexão da pauta ambiental com a desqualificação das mulheres em posição de liderança que defendem a preservação de seus territórios. Ativistas ambientais são perseguidos e assassinados, e, mesmo em espaços supostamente democráticos, defensores do bem comum sofrem violências rotineiramente. O fato da ministra ser mulher e amazônida traz aspectos que agudizam o quadro de intolerância dos setores mais conservadores da sociedade, que buscam manter tudo como está em prejuízo da maioria da população. 

*Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório de Jornalismo Ambiental. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br

A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O Projeto de Lei n.º 2.159/2021, aprovado na última quarta-feira (21/05) pelo Senado Federal,  altera as regras para o licenciamento ambiental no país. Alterar as regras é um modo tímido de dizer que o projeto detona a atual legislação ambiental em um “golpe de morte”, como descrito pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, durante evento em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade. A necessidade de uma atualização da Lei Geral para o Licenciamento Ambiental é  defendida tanto por ambientalistas quanto por setores do agronegócio e da  infraestrutura – a alta burocratização custa ao Estado e judicializa processos em excesso, que barram iniciativas e empreendimentos pelo Brasil. No entanto, a atualização da lei precisa ser concordante com a legislação ambiental atual, assim como com a Constituição – como o princípio da proibição do retrocesso em direito ambiental.

O PL inclui entre suas várias mudanças a Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que dispensa a análise vigente pela autodeclaração (de boa-fé) do responsável, que irá cumprir com as exigências de proteção ambiental. O projeto, em sua versão atual, permite que empreendimentos avancem mesmo com pareceres contrários de órgãos fiscalizadores; limita a área de impacto ambiental avaliada e a consulta às comunidades locais, que seriam afetadas diretamente. Inclusive, terras indígenas e quilombolas em avaliação (ainda não demarcadas) não serão consideradas, diminuindo as suas presenças nos processos. 

A proposta busca “simplificar”, “flexibilizar”, “desburocratizar”, “facilitar” e“reordenar” os processos de licenciamento para empreendimentos de baixo e alto impacto poluente pelo Brasil. Essas aspas são de notícias da última semana, de 19 até 27 de maio, analisadas com o objetivo de observar como os principais jornais mainstream do País, O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, têm repercutido o assunto. Após a coleta dos conteúdos que tratam sobre a pauta, identificamos o posicionamento editorial dos veículos, assim como a frequência e enfoque da cobertura noticiosa no período.

Os três veículos analisados publicaram editoriais sobre o tema. Na Folha de S.Paulo, a crítica ao PL centrou-se  no governo Lula, destacando que o governo não teria uma política ambiental clara – ora endossando os discursos de Marina Silva, ora satisfazendo os interesses da bancada ruralista. 

O editorial d’O Globo também critica o PL, sinalizando que ele pode ter efeito contrário, tornando ainda mais lento e complicado o licenciamento ambiental no Brasil, com mais judicialização e contestações de eventuais problemas. O editorial ainda indica a destruição do meio ambiente como prejudicial para os negócios, destacadamente a agropecuária. Para o veículo, a suposta oposição entre o crescimento econômico  e a preservação do meio ambiente é “falsa e enganadora”, sendo ambos necessários. 

Já o Estadão, posicionou-se de forma contrastante,  apoiando a aprovação do projeto. Para o veículo, o processo atual é visto como “entrave descabido ao desenvolvimento do País”, especialmente para pastas ligadas à infraestrutura. O editorial também utiliza os recentes dados do MapBiomas para defender a “mudança de foco do combate ao desmate para as atividades criminosas, como a grilagem, o garimpo ilegal (…)”. Para o jornal, as críticas ao projeto como habilitador do desmatamento não condizem com a realidade, já que “há uma minoria que desmata muito, e é para esse grupo que os órgãos de controle devem apontar suas baterias.”

Na Folha de S. Paulo, das 14 publicações sobre o tema no período, 5 são de colunistas (textos de opinião); e 8 são notícias, sendo 7 de autoria da Folha e uma da BBC, e todas localizadas na editoria Ambiente. Essas notícias contextualizam a proposta do PL como via para acelerar a implementação de atividades econômicas, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. 

A exploração de petróleo é defendida pelo atual presidente e tem entre seus opositores o próprio governo por via do Ministério do Meio Ambiente. O governo Lula, no entanto, ainda não declarou se será contra ou a favor do projeto, e como vai se posicionar quando este chegar ao plenário. Nas matérias da Folha, o projeto foi mencionado diversas vezes como uma derrota para Marina Silva, que estaria isolada no governo. Também, em todas as notícias da Folha, estavam presentes contrapontos dos danos ambientais possibilitados pelo PL. Em 6 das 7 matérias autorais foram mencionadas as comunidades tradicionais que seriam afetadas.

No jornal O Globo, das 30 publicações encontradas, 14 faziam parte de blogs e colunas, e 16 eram notícias. Das 16, 9 estavam na editoria Brasil, 7 na editoria Meio Ambiente, e uma na editoria Política. Todas as notícias tinham contraponto sobre impacto ambiental, e 6 mencionaram povos tradicionais no processo de licenciamento. Ambos os jornais trouxeram uma cobertura similar sobre o PL, apresentando os enfoques ambientais e econômicos.

Já no Estadão,  das  14 publicações sobre o tema, 5 eram textos opinativos (um deles da relatora do projeto, Tereza Cristina), e 9 eram notícias. Das notícias autorais, 7 estavam na editoria de Economia, e 2 estavam na editoria de Sustentabilidade. Além de um foco bastante econômico e com pouca abertura para discussão sobre a oposição ao projeto, apenas uma notícia cita comunidades tradicionais no projeto de lei. 

O breve acompanhamento realizado demonstra que no âmbito da produção noticiosa os veículos mainstream trazem os contrapontos – embora o Estadão tenha centrado a cobertura na economia e explicitado em seu editorial os benefícios de um regramento mais flexível para os empreendedores. Folha de S. Paulo e O Globo se dedicaram mais ao tema com perspectiva ambiental e atenção às comunidades tradicionais, embora seja possível questionar as intenções que atravessam seus editoriais, para além da própria discussão do PL. A ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.

Pelo seu alcance e histórico, os veículos mainstream seguem sendo atores importantes, que influenciam o debate público. Logo, estarmos atentos a como esse assunto é reportado importa para compreender as reações sociais acerca do debate. O licenciamento ambiental é um tema bastante técnico e complexo que nem sempre atrai o interesse de públicos não especializados ou daqueles que não possuem interesses interligados. Entretanto, este é um procedimento que busca garantir maior cuidado com o meio ambiente, que diz respeito a todos nós.

A influência da cobertura de um tema por  jornais mainstream é concreta: pauta a agenda pública, as discussões de políticas públicas, as demandas e os protestos comunitários, e até a mudanças na legislação. O enquadramento de uma notícia contribui com o entendimento que os leitores terão sobre o tema, e como vão inseri-lo nos seus significados de mundo. No caso de temáticas do meio ambiente, o isolamento da discussão em editorias exclusivas à “sustentabilidade” e “meio ambiente”, ou restritas a pequenos poréns em notícias econômicas, alinham-se à exclusão sistemática da pauta, reforçando a separação entre aspectos sociais, econômicos e ambientais.

* Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista do Observatório de Jornalismo Ambiental E-mail: nicocostamilan@gmail.com

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.