O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente

Toneladas de lixo foram geradas durante a calamidade que assolou o estado / Imagem: Carine Massierer

Por Carine Massierer*

Memórias e histórias de gaúchos foram parar no lixo quando a água ocupou os lares, durante as enchentes de maio e junho de 2024, tornando-se a maior calamidade vivida até então. Montanhas de resíduos passaram a integrar a realidade visual de ruas e parques transformados em espaços de descarte dos bens materiais que sobraram quando a água tomou o seu leito em muitos rios do Rio Grande do Sul. Estes despojos e seu destino representam um risco à população se não houver um planejamento adequado.

A geração de resíduos pós enchentes tomou as páginas de jornais em maio e impressionou os cidadãos que andavam pelas ruas dos municípios: O que fazer; qual o destino dos entulhos no Rio Grande do Sul? (uol.com.br); Enchentes deixam 47 milhões de toneladas de entulho no RS, aponta levantamento | CNN Brasil; Enchentes deixarão quase 47 milhões de toneladas de lixo no RS | Metrópoles (metropoles.com); Volume de entulho de construção gerado no RS pelas enchentes pode chegar a 46 milhões de toneladas, mostra levantamento  | GZH (clicrbs.com.br), Cuidados após enchentes: especialistas orientam sobre a limpeza da casa e o que fazer com móveis e utensílios | Fantástico | G1 (globo.com), Imagens mostram Porto Alegre tomada por lixo após água começar a baixar (correiobraziliense.com.br), Lixo das chuvas no RS: catadores não conseguem trabalhar (apublica.org), dentre outros.

Em junho a situação ainda chocava a população e a imprensa repercutia o tema, mas já não com tanto espaço comparado ao mês anterior: Lixo após inundações em Porto Alegre gera montanhas de entulho e medo de contaminação – BBC News Brasil; Após um mês de calamidade, gaúchos não conseguem retomar rotina | Agência Brasil (ebc.com.br), Inundações no Rio Grande do Sul: ‘Olhar para tudo isso é desesperador’; a rotina de um gari em meio à limpeza dos restos das enchentes – BBC News Brasil .

Em julho o tema sofreu um arrefecimento e poucos textos retrataram os encaminhamentos quanto ao lixo gerado pós enchentes: Resíduos recolhidos após enchente em Porto Alegre representam 30 campos de futebol com 1 metro de altura, diz prefeitura | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), Aterro que recebia entulhos da enchente tem operação suspensa no RS; entenda os motivos | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), As enchentes no Rio Grande do Sul e os impactos sanitários (synergiaconsultoria.com.br). Neste mês, somente em Porto Alegre, foram coletadas 92 mil toneladas de resíduos e em São Leopoldo, 285 mil. Além destes, outros tantos municípios foram afetados e não se têm números que evidenciem a relevância desta pauta.

Em agosto o tema parece ter sido silenciado pela falta de registros de matérias na internet até então. Isto preocupa porque as montanhas de lixo seguem visíveis e o seu destino não parece integrar uma política ambiental (conforme relatam matéria de maio, junho e julho), o que faz com que o tema seja esquecido na agenda pública. “Fixar a agenda é fixar o calendário dos acontecimentos. É definir o que é importante e o que não é. […] É criar o clima no qual será recebida a informação. É fixar não só o que vai ser discutido, mas como e por quem” (Barros Filho, 2008, p. 159).

Kitzinger e Reilly (2002) apontam que, embora haja preocupação dos jornalistas, os temas de risco não atraem tanto para a cobertura em razão da falta de concretude da pauta ou por não ter entrado na agenda pública ou política, gerando algum valor-notícia atrativo ao jornalismo. Além disto, o risco refere-se a projeções e os jornalistas trabalham com acontecimentos, mas a manifestação do risco pode ser um gatilho necessário para a produção jornalística. É, por isso, que riscos ambientais e consequências são geralmente apresentados somente durante os desastres e catástrofes – e agora estão sendo silenciados.

Desta forma, é preciso que o jornalismo esteja presente fazendo o seu papel social na comunicação de riscos e acompanhando também as consequências ao meio ambiente e aos seres humanos, como é o caso do destino adequado deste expressivo volume de resíduos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Edição de Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências:

BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 2008.

KITZINGER, Jenny; REILLY, Jacquie. Ascensão e queda de notícias de risco. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2002

Eleições no horizonte: pauta ambiental municipal e o papel do jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Eleições municipais no radar, e as pautas mais comuns começam a se suceder: transporte público, guardas municipais, creches, filas nos postos de saúde etc. — assuntos da maior importância, é claro. O que nem sempre aparece como prioridade, contudo, são as pautas ambientais urbanas. Do acesso às áreas verdes ao esgotamento sanitário, da dragagem de rios à prevenção de desastres, a tendência é a pauta ambiental urbana ficar no segundo plano do debate, com a possível e triste exceção de cidades que passaram por desastres climáticos recentes e têm o assunto em alta.

A histórica negligência com que o tema é tratado no Brasil não é exatamente uma novidade. Talvez uma possível resposta esteja nas desigualdades arraigadas na sociedade brasileira: se por um lado as pautas ambientais mais ligadas a uma natureza “pura” e à preservação de ecossistemas parecem distantes da maior parte da população — ainda que sua degradação produza imagens chocantes de incêndios e desmatamentos transmitidas na televisão —, por outro lado há uma miríade de problemas ambientas básicos atingindo a maior parte da população, mas justamente a parcela com menor voz do debate público. É, também, a mesma população que sofre com os outros muitos problemas das cidades brasileiros e que dividem o noticiário.

Se a pauta ambiental urbana, em tese, mais urgente para uma parcela da sociedade — aquela ausente de saneamento, convivendo com lixões, esgoto a céu aberto e ilhas de calor — do que para a parcela prevalecente do debate público, é papel do jornalismo inverter as estruturas de poder e prioridades, dando a devida atenção ao tema. Ainda que raro, um ótimo exemplo é esta reportagem da Folha de São Paulo advertindo para o descumprimento do prazo de municípios brasileiros para acabarem com os lixões até o atual ano — meta estabelecida no longínquo ano de 2010. A matéria aponta que ainda restam mais de 1500 lixões e quase 600 aterros controlados, locais de armazenamento de 43% do lixo gerado em 2022, o equivalente a mais de 33 milhões de toneladas de resíduos. Ainda que não aprofunde na questão, a matéria apresenta um ótimo mapa-gráfico que evidencia as desigualdades subjacentes aos territórios: a proporção de lixões é maior nos estados do Norte e Nordeste. Não é difícil supor que, mesmo dentro dessas cidades, é nos bairros mais pobres que os lixões estão localizados.

O papel do jornalismo em produzir reportagens sobre estes problemas é contínuo, ao longo de todo o ano evidenciando o absurdo urbano-ambiental de nossas cidades. No entanto, em meses de eleições municipais a responsabilidade é ainda maior: é preciso levar essas pautas aos debates eleitorais e estimular sua introdução nas campanhas.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Mais do que carvão: por um jornalismo que acredite noutras potencialidades da economia candiotense 

Imagem: Candiota Natural – Sociedade, cultura e ambiente mostra rica sociobiodiversidade assim como o jornal local conta a história brasileira e a cultura gaúcha através dos seis sítios arqueológicos em Candiota. / Print da tela do documentário 

Por Eliege Fante* e Eutalita Bezerra**

Residem no Rio Grande do Sul as duas usinas que mais emitiram gases do efeito estufa no país, segundo os dados mais recentes do Instituto de Energia e Meio Ambiente. A despeito desses números, abordados anteriormente neste Observatório, a defesa da exploração carvoeira em Candiota (10.710 pessoas, IBGE, 2022), na Campanha Gaúcha, onde localizam-se as referidas termelétricas, predomina nas notícias da imprensa gaúcha. Entre 2021 e 2024 somente Zero Hora publicou 27 notícias abordando aspectos relacionados ao polo carboquímico. Já Correio do Povo, Sul21 e Brasil de Fato (RS) publicaram um menor número sobre esse tema, variando entre cinco e oito notícias cada um deles. Em comum, as fontes políticas locais e empresariais vinculadas à cadeia produtiva do carvão mineral. Há menos de um mês, a BBC Brasil publicou – e tantos outros meios republicaram – uma abordagem destacando os habitantes que não são “contra o planeta” por defenderem essa mineração.

A notícia O futuro incerto da cidade gaúcha movida ao combustível mais poluente do mundo: ‘Não somos contra o planeta’ é sensível ao modo de viver de uma parcela importante do município de Candiota (RS). Ao mesmo tempo, faz parecer que essa é a única forma de sobrevivência daquela população, obliterando outras cadeias produtivas presentes no município: 11 tipos de pecuária, incluindo gado de corte e de leite e a ovinocultura com produção de lã (IBGE, 2022); 561 estabelecimentos agropecuários sendo 22 tipos de lavoura permanente, como de frutas, e 18 tipos de lavoura temporária incluindo soja, outros grãos e outras culturas (IBGE, 2017). Sem esquecer da presença das comunidades indígenas e quilombolas, entre os oito povos e comunidades tradicionais do Pampa, que têm direitos reconhecidos através da Convenção 169 (ratificada em 2002). 

Candiota não é somente a sede da maior poluente do Brasil. É berço de lugares que merecem destaque na imprensa, como a Rede de Sementes Bionatur, que completa 27 anos no município. O presidente Alcemar Inhaia conta que, desde uma ação judicial vitoriosa para evitar a construção de uma barragem da mineração próxima aos empreendimentos da cooperativa, estão sendo um pouco mais ouvidos. Essa notícia de 2022 destaca a necessária “proteção de centenas de famílias assentadas na região de Candiota/Hulha Negra”. Em entrevista, disse: “Recentemente realizamos um seminário conjunto com outras entidades para construir uma proposta para o município, dialogando o que é a transição energética e o que é Candiota sem carvão. Candiota não é só carvão. Há quase 30 anos vimos a expansão da soja pelo bioma Pampa e resistimos com a nossa rede de produção de sementes orgânicas certificadas, que envolve cinco estados mais municípios da nossa região. Candiota é agrícola, a maior parte da população está na zona rural”. Destaque-se que o referido seminário não foi vislumbrado como notícia em nenhum dos veículos analisados, tomando como palavras-chave “carvão + candiota”. 

Também em comum nas notícias, identificou-se as preocupações dos setores de que as decisões (pela continuidade ou não da exploração do carvão) fossem tomadas “de fora”. Porém, considerando-se as fontes ouvidas nas notícias, os setores distintos da mineração muito pouco participam. Em algumas reportagens, acadêmicos pontuam sobre suas pesquisas relacionadas ao tema ou organizações não governamentais. Aqui destaca-se a fala do biólogo Francisco Milanez (Agapan) em 2023 neste sentido: “É importantíssimo que se fale de transição, mas é preciso que se fale com toda a população, nós queremos também ser ouvidos”. Não obstante o ambientalista não seja um morador de Candiota, alerta “que as melhores alternativas para que a transição seja efetiva ainda não foram colocadas à mesa, seja por demandarem custos mais altos em sua implementação ou por representarem perspectivas de lucros menores para as empresas envolvidas no processo”. 

No que tange aos “de dentro”, para manter a analogia, o Movimento pela soberania popular na mineração (MAM) tem trabalhado em Candiota visando a um novo modelo de mineração. De acordo com Iara Reis, dirigente nacional do MAM, em entrevista, o ponto fulcral em Candiota é que o grande capital desconsidera toda a cultura econômica daquele território. “Precisamos pensar que aquele território sempre teve uma economia. Há várias cadeias produtivas para serem pensadas naquela região […] A mineração traz desenvolvimento e lucro apenas para uma parcela da população.” 

Para comprovar, basta que se considere o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) do Rio Grande do Sul de 2013 a 2020: somente em 2020 Candiota ultrapassou a média estadual em desenvolvimento. Chama atenção que, mesmo figurando na primeira metade do ranking dos municípios (174 de 497) neste Índice, o maior valor foi atribuído ao bloco renda (posição 47), já que no bloco educação a posição é 249 e no bloco saúde é 459, dados não tão positivos e que jogam Candiota da metade para o final do ranking. Além disso, embora o percentual de 94% do esgoto tenha sido tratado em 2022, apenas 37,9% da população residente com abastecimento de água é atendida com esgotamento sanitário e 47,2% é atendida por serviço de abastecimento de água (consulta em agosto de 2024). Portanto, qual a real condição de vida dos habitantes de Candiota se a riqueza material gerada não reflete bem-estar ou um bem viver para toda a população? O primeiro passo para promover essa distribuição equilibrada pode ser horizontalizar a escuta e mobilizar a participação dos distintos grupos candiotenses. Aqui entra o jornalismo! 

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. gippcom@gmail.com

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. eutalita@gmail.com

Racismo ambiental: mídia independente traz debate silenciado no jornalismo corporativo

Centro Histórico de Porto Alegre – 13/05/24 / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Thayssa Kruger* e Cláudia Herte de Moraes **

As fortes chuvas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 atingiram 474 dos 478 municípios do estado, deixando mais de 380 mil pessoas desalojadas e resultando em 182 óbitos, conforme dados atualizados da defesa civil. Embora o estado como um todo tenha sido afetado, a disparidade socioeconômica faz com que alguns sofram mais que outros. Ao acompanhar os desdobramentos da tragédia, os bairros que mais foram afetados, quem são as pessoas desabrigadas e quais as ocupações mais sofrem com a falta de preparo e responsabilidade do estado? Isso nos remete ao conceito de “justiça climática” e/ou “racismo ambiental”, definições pouco abordadas nos veículos de comunicação tradicionais.

O termo “racismo ambiental” foi criado na década de 1980 pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., em meio a protestos contra depósitos de resíduos tóxicos no condado de Warren, no estado da Carolina do Norte (EUA), onde a maioria da população era negra. No contexto atual, a expressão é utilizada para denunciar que os impactos das mudanças climáticas recaem de forma injusta sobre a população historicamente marginalizada. Ou seja, pessoas racializadas e empobrecidas sentirão mais as consequências da poluição e degradação ambiental e agora do aquecimento global. 

Mais de 8 milhões de brasileiros estão expostos a esta nova face do racismo ambiental, vivendo em áreas de risco de deslizamento de terra, inundações e enxurradas. No Rio Grande do Sul, foi constatado que quase 85 mil gaúchos residem em zonas de perigo. O relatório do Observatório das Metrópoles, revela que as regiões mais afetadas são habitadas por indivíduos de baixa renda, predominando pessoas pretas ou pardas. É o caso de bairros como Humaitá, Sarandi e Rubem Berta, em Porto Alegre, e de Mathias Velho, em Canoas, entre os mais afetados pelas recentes cheias. A análise dos dados, combinada com as queixas dos moradores sobre a demora na ação do governo e a má comunicação, torna ainda mais urgente a necessidade do debate sobre o racismo ambiental.

Ao pesquisar como o racismo ambiental estava sendo explorado na GZH, jornal de maior relevância no RS, a resposta apesar de entristecer não nos surpreende: o termo não foi título ou pauta de reportagem sequer uma vez no último ano. 

O jornalismo tem o compromisso de informar sobre questões de interesse público e mobilizar politicamente os cidadãos. Em relação às questões ambientais, o jornalismo deve abordar a complexidade e a interseccionalidade envolvidas na emergência climática para engajar a sociedade sobre a urgência do tema. No entanto, o jornalismo tradicional, ao tratar de questões ambientais, carece desse aprofundamento e continua utilizando os antigos enquadramentos que simplificam os problemas decorrentes da crise climática, vilanizando a natureza pelas tragédias ambientais, isentando políticos da responsabilidade e focando apenas no imediato. 

Por mais que a tragédia ocorrida no estado gaúcho tenha colocado a pauta ambiental em destaque nos jornais mais importantes do estado e do país, o assunto ainda não foi explorado no quesito das desigualdades sociais. Após três meses dos fenômenos extremos vivenciados em várias regiões do Estado e na capital Porto Alegre, a reconstrução com justiça ambiental precisaria entrar na pauta. Mesmo que a imprensa atue mais forte nos momentos de crise, para quem foi atingido e perdeu tudo, a crise está longe de acabar.

Decidimos olhar para o jornalismo independente a fim de compreender como as vulnerabilidades sociais são discutidas dentro da pauta ambiental pela mídia independente. Destacamos 5 reportagens que contextualizam os fatos e abordam as questões das injustiças sociais. As reportagens são dos veículos #Colabora, Agência Pública, Alma Preta, ((o))Eco e Matinal Jornalismo publicadas entre abril e julho deste ano.  Foram localizadas pelo buscador google com os termos “justiça climática” e “racismo ambiental”. 

Cada veículo aborda o tema de maneira diferente. A reportagem publicada pelo #Colabora em 4 de abril discute as intensas ondas de calor no Rio de Janeiro e o impacto do aumento da temperatura na vida das pessoas mais pobres, que não têm recursos financeiros para suportar os dias quentes. A matéria da Agência Pública, de 4 de junho, relata o medo dos indígenas de perderem suas terras durante as chuvas que assolaram o estado. A falta de demarcação das terras fez com que muitos relutassem em deixar suas casas à medida que a água avançava. A luta por demarcação é antiga, mas eventos como esse evidenciam ainda mais a necessidade de abordar essa questão.

A reportagem da Alma Preta, publicada em 28 de junho, explora como o racismo ambiental prejudica o desenvolvimento de crianças negras. A matéria inclui uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e o relato de uma mãe e seu filho, revelando como a falta de saneamento básico afeta negativamente o desenvolvimento de crianças negras e periféricas na primeira infância.

Em 2 de julho, o jornal ((o))Eco publicou uma reportagem sobre os efeitos dos eventos extremos e do aumento das temperaturas na saúde de trabalhadores que passam o dia ao ar livre, frequentemente em trabalhos informais, na América Latina. A matéria apresenta dados de diversas pesquisas para enfatizar a necessidade de um debate sobre o tema e ações de adaptação. A reportagem do Matinal Jornalismo, de 17 de julho, complementa a anterior ao tratar dos impactos e perdas sofridos pelos agricultores devido às secas e enchentes. A matéria traz relatos de pessoas que perderam tudo (ou quase tudo) devido às chuvas que começaram na última semana de abril no Rio Grande do Sul, contextualizando como esses eventos extremos afetam sua produção e, consequentemente, suas vidas.

As mídias independentes, na contramão do jornalismo corporativo, têm se engajado socialmente visando o engajamento socioambiental. A análise das reportagens revela o compromisso dessas mídias em destacar as vulnerabilidades sociais dentro da pauta ambiental e climática. Enquanto o jornalismo corporativo se limita a simplificações, factualidades e críticas superficiais, saudamos o trabalho dos jornais independentes por sua abordagem abrangente, que contribuem significativamente para a conscientização e o debate sobre racismo ambiental.

 * Graduanda em Jornalismo na UFSM, voluntária de Iniciação Científica no Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: thayssa.kruger@acad.ufsm.com

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Bioma Pampa, arroio Dilúvio, Magda Renner e Giselda Castro para ver e rever

Imagem: Reprodução

Por Sérgio Pereira*

Após a pior catástrofe climática já registrada no Rio Grande do Sul, a hora é de reflexão, planejamento e, principalmente, arregaçar as mangas. Neste momento, devemos nos valer não somente da ciência e da experiência, mas também precisamos olhar para trás e buscar respostas para os nossos erros. Buscar, assim, referências para projetar um futuro desta vez com base na proteção e respeito ao meio ambiente e na preservação da vida. Com base nesta ideia, gostaria de sugerir três filmes gaúchos com temática ambiental e que nos ajudam a compreender os rumos de uma sociedade que ignorou os avisos da natureza e, por causa disso, sofreu as consequências.

Antes disso, no entanto, é preciso fazer um justo reconhecimento e, ao mesmo tempo, divulgar um serviço de utilidade pública. No ano passado, a Cinemateca Paulo Amorim (Rua dos Andradas, 736, Centro Histórico de Porto Alegre/RS) passou a disponibilizar valioso serviço de consulta para pesquisadores, estudiosos e fãs de cinema em geral: o Portal do Cinema Gaúcho. Trata-se de um rico banco de dados sobre produções, de ficção e não ficção, cujo berço é o Rio Grande do Sul. É uma ferramenta de fácil manuseio e totalmente gratuita.

O portal foi concebido, entre 2019 e 2022, por Fatimarlei Lunardelli e Glênio Póvoas durante a vigência do Núcleo de Pesquisa, Informação e Memória do Instituto Estadual de Cinema (IECINE), na gestão de José Teixeira de Brito. Os trabalhos foram coordenados pelo jornalista, pesquisador, cineasta e professor Glênio Póvoas, em um trabalho minucioso de funcionários da Cinemateca Paulo Amorim e da Casa de Cultura Mario Quintana, estagiários do IECINE, além do próprio Póvoas, Fatimarlei e Rodrigo Figueiredo Nunes.

Os filmes indicados abaixo estão listados no portal e são recomendados também para quem hoje se dedica ou pretende no futuro se especializar em Jornalismo Ambiental (JA). São três documentários que não tratam diretamente de JA, mas que abordam a questão ambiental por diferentes aspectos e com profundidade. São obras que merecem ser vistas, revistas e divulgadas, todas disponíveis no YouTube:

  • Dossiê Viventes – O Pampa Viverá: dirigido por Tiago Rodrigues, esse longa de 2018 (duração de 86 minutos) mostra a luta de comunidades da bacia do Rio Camaquã contra projeto de instalação de uma mineradora de chumbo. Com imagens belíssimas do Pampa, o documentário reúne depoimentos importantes e fundamentais para compreender a importância do bioma gaúcho, o mais ameaçado do Brasil. Ou, como define o escritor e cineasta Tabajara Ruas, “um pedaço profundo do Rio Grande”. O filme conta com depoimentos de biólogos, ambientalistas, indígenas, juristas, povos ribeirinho, autoridades e quilombolas contra a exploração das mineradoras. Essa batalha ecológica, por sinal, consagra-se vitoriosa, pelo menos por enquanto. Muitos dos pressupostos do Jornalismo Ambiental estão evidentes no documentário, como pluralidade de vozes, engajamento, contextualização e o Princípio da Precaução. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MIXozp6SZQE. Para os interessados nesse episódio histórico, sugiro o artigo “Herdeiros de um modo de vida: midiativismo contra a ameaça de mineração no rio Camaquã”, de Claudia Herte de Moraes e Eliege Maria Fante (Revista de Comunicação Dialógica, 2020, p. 39-61).

Imagem: Reprodução do filme “Dossiê Viventes”

  • Habitantes do Arroio: esse documentário interativo de 2010 (103 minutos) foi dirigido por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Rafael Devos. Nascido de um projeto acadêmico, o filme tem o mérito de expor o conflito e interdependência entre diferentes grupos sociais, instituições e técnicos da área ambiental, cuja linha comum é a utilização das águas do poluído Dilúvio, arroio que corta parte da cidade de Porto Alegre. O filme começa com um plano aéreo, sem cortes, cobrindo toda a extensão do arroio, da Barragem do Sabão até o Guaíba. Questões como história, saneamento, urbanização, educação ambiental, infraestrutura, entre outras, são abordadas pelas pessoas que residem ou trabalham em volta do Dilúvio. Logo na abertura, as palavras do escritor Carlos Reverbel que dizem tudo: “O rio estava em seu lugar, como manda o figurino. Eis senão quando a cidade resolveu invadi-lo, na base do fato consumado… Começaram, então, os intempestivos e abusivos aterros, ou seja, a ocupação do rio, a mão armada, pela cidade. …Isto num lugar em que pode faltar tudo, menos terra” (Barco de Papel – Ed. Globo, Porto Alegre, 1979, p. 12-14). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oKnTY8fBxDY.

Imagem: Reprodução do filme “Habitantes do Arroio”

  • Substantivo Feminino: premiado com Menção Honrosa na Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (São Paulo) e no Festival de Cine Latinoamericano de Trieste (Itália), essa preciosidade de Daniela Sallet e Juan Zapata resgata o trabalho de duas pioneiras na defesa do meio ambiente no RS: Magda Renner e Giselda Castro. Lançado em 2017 (63 minutos), o filme conta com importantes depoimentos sobre essas gaúchas que em pleno anos de chumbo se dedicaram à causa ambiental. Destaca a importância de José Lutzenberger para a adesão das duas militantes na causa ecológica, além de mostrar como funcionava a sinergia entre as amigas e como ambas ajudaram a levar as batalhas gaúchas e brasileiras para o mundo. Trata-se de uma verdadeira aula de história sobre a luta ecológica no Rio Grande do Sul no século passado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3lQNHxLzHFE. E para quem quiser saber mais sobre as vidas e obras de Magda e Giselda, recomendo o livro “Pioneiros da ecologia: breve história do Movimento Ambientalista no Rio Grande do Sul”, de Elmar Bones e Geraldo Hasse (Já Editores, 2002, 214 páginas).

Imagem: Reprodução do filme “Substantivo Feminino”

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

Referências

Dossiê Viventes – O pampa viverá. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1211/dossie-viventes-o-pampa-vivera. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Habitantes do Arroio. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1676/habitantes-do-arroio. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Substantivo feminino. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1117/substantivo-feminino. Acesso em: 08 Jul. 2024.

De chuvas no RS a fogo no Pantanal e estiagem na Amazônia, jornalismo deve tecer relações entre fenômenos

Imagem: Isabelle Rieger

Débora Gallas*

No noticiário, o ineditismo e a grandiosidade dos eventos iniciam ciclos de atenção que mobilizam o público em torno da pauta quente do momento. Passado algum tempo do despontar da novidade, a narrativa pode ganhar verniz de “mais do mesmo” e tornar o público menos engajado. Em tempos nos quais estamos superexepostos à informação, é fácil iniciar um novo ciclo ao tomarmos conhecimento sobre outro assunto mais recente e que também desperta nosso senso de urgência.

Tal processo pode ser perverso especialmente para o jornalismo ambiental porque dá a entender que os fenômenos são isolados – justamento o contrário do que o jornalismo ambiental defende. Se nos últimos meses o assunto predominante no noticiário nacional foi o excesso de água no Rio Grande do Sul, essa cobertura vai minguando aos poucos, mesmo que parte da população siga desassistida e que ainda haja disputa, por exemplo, sobre as medidas necessárias para a recuperação do estado.

Enquanto isso, emergem notícias sobre outro tópico preocupante: o combate aos incêndios no Pantanal, que tem sido pauta recorrente no Jornal Nacional, da TV Globo, nas últimas semanas. Assim como as enchentes no Rio Grande do Sul, o assunto não é necessariamente novo, tendo em vista que o bioma já havia sido gravemente atingido pelo fogo em 2020.

Mas, assim também como no caso gaúcho, o ciclo de atenção é despertado pelos tristes recordes associados à intervenção humana nos ambientes naturais. As queimadas de agora são ainda piores do que as de 2020, e ainda nem estamos no período mais crítico da estação seca, quando essas ocorrências são mais comuns no bioma.

Nesse contexto, é fundamental que jornalistas recorram à ciência para explicar a conexão entre esses fenômenos, que são cada vez mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas e à degradação dos biomas. Um levantamento da plataforma MapBiomas sobre a perda de mais de 30% da superfície de água no Brasil entre 1985 e 2023 foi fio condutor de um episódio do podcast O Assunto, do G1, em 8 de julho.

O programa menciona que o Pantanal foi o bioma mais afetado, com 61% da perda de água no país, o que contribui para a crise atual e para a descaracterização desta que se trata da maior planície alagável do planeta. Além disso, o coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, ressalta que o bloqueio da umidade sobre o norte do Rio Grande do Sul, por conta de fatores como a mudança na temperatura do Oceano Atlântico, agravou tanto as chuvas no estado como a estiagem ao norte.

O podcast alerta, ainda, para o novo período de seca que se inicia na Amazônia, lembrando do paradoxo que existe em habitantes da maior bacia hidrográfica do mundo, a do rio Amazonas, sofrerem com a sede. Por fim, Rosa frisa a responsabilidade de representantes do agronegócio, setor que depende diretamente da boa gestão da água e que precisa recusar o negacionismo científico para se adequar às mudanças, cada vez mais aceleradas, das condições climáticas.

Este é um bom exemplo de como o jornalismo pode se aprofundar nos fenômenos cujos impactos já sentimos na pele. Além de ouvir a ciência para basear essa narrativa, jornalistas podem flexibilizar o ciclo de atenção, tecendo relações entre as transformações que vêm ocorrendo nos biomas brasileiros.

Para aprimorar a compreensão do público sobre de quem são as responsabilidades pelo cenário atual, o jornalismo pode apostar em mais investigações de fôlego sobre causas e consequências dessas crises. Desta forma, o assunto pode se manter no noticiário a partir de abordagens que se aprofundam no tema e, ao mesmo tempo, o situam em um cenário complexo de transformações ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução

Retomada da vida cotidiana com a descida das águas torna o desafio ainda maior / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger** e Ilza Maria Tourinho Girardi*

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 mostrará seus efeitos a longo prazo. Passados dois meses do início, mais de 90% dos municípios revivem os impactos. Foram atingidos tanto o meio urbano, quanto rural e litoral. Inclusive na capital gaúcha, a inundação persiste em pontos como no bairro Guarujá, na Zona Sul de Porto Alegre. No centro e em bairros vizinhos, o alagamento foi controlado. Neste contexto, meios hegemônicos estão focando em notícias voltadas para a reconstrução do estado, ou seja, em um suposto jornalismo de soluções. Como se o enfrentamento da tragédia fosse igual para todos os moradores das áreas atingidas, independentemente de classe social, raça e gênero. Como se não houvesse responsabilidades também dos governos estadual e municipal a serem cobradas. 

Zero Hora anunciou um compromisso que remete ao jornalismo de soluções: uma nova seção “com reportagens especiais sobre obras, projetos, mobilizações, bons exemplos, negociações, cobranças de promessas e tudo que diz respeito ao maior desafio já vivido pelos gaúchos”. No entanto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) conceitua o jornalismo de soluções como “uma prática jornalística criteriosa como todo o jornalismo deve ser”. A questão é que o fio condutor da reportagem é uma solução. Ou seja, é a cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais. 

Quando falamos de um evento com essa magnitude e complexidade, como foram as enchentes de maio nos municípios gaúchos, é difícil achar soluções rápidas e simples. A posterior tentativa de retomada da vida cotidiana com a descida das águas e o aparecimento da lama tornam o desafio ainda maior. Para que um evento climático extremo agravado por interferência humana não aconteça de novo, precisamos de uma mudança radical na forma de produção. Por isso, necessitamos de perspectivas como a do decrescimento e pós-extrativismo  de Alberto Acosta e Ulrich Brand, que caminham para um cenário de justiça social e ambiental. 

Na contramão desta ideia, a capa da Zero Hora do último final de semana chamava para a reportagem “Mesmo sem recorde, colheita de soja deve ajudar na retomada gaúcha”. Quando entramos no texto, descobrimos mais do mesmo: não há crítica nem aos agrotóxicos apesar da conhecida edição de 2024 do Atlas dos Agrotóxicos informar que: “a despeito dos ganhos econômicos, o uso destas substâncias tem ocasionado um severo impacto na saúde da população brasileira: entre 2010 e 2019, 56.870 pessoas foram intoxicadas com agrotóxicos no Brasil. Há, assim, uma média de 5687 casos por ano, ou 15 pessoas diariamente”. Um severo impacto não computado pela economia do agronegócio!

Ainda, para a soja avançar nessas áreas, significa que tem que haver supressão da vegetação nativa. Dados produzidos pelo MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa. Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja e da silvicultura. 

Desta forma, a economia da qual a Zero Hora se refere é apenas material. Não se leva em conta os danos na saúde das pessoas afetadas na cadeia de produção de soja, assim como não são mencionados os impactos ambientais do plantio extrativista deste grão. Sendo esta uma das reportagens destacadas da edição de final de semana, parece que só há um caminho para a retomada na economia gaúcha e que ele passa, obrigatoriamente, pela soja. Esta apresentação em forma de solução é, na verdade, uma outra forma de semear monofuturos sem espaço para a pluralidade. 

No entanto, enquanto repórteres, editores e comentaristas, devemos ao público uma prática engajada na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Defendemos que isso faz parte dos pressupostos da área do Jornalismo Ambiental, que visa uma prática decolonial e respeitosa com todos os seres. 

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Pequenas notícias, grandes negócios

Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Por Heverton Lacerda (@hevertonlacerda)*

Simples alteração na legislação ambiental ganha pouco destaque na imprensa, mas tem grande potencial de agravar impactos ecológicos.

Diferente das grandes catástrofes ambientais, provocadas tanto por eventos climáticos extremos, acidentes ou crimes ecológicos que causam grandes danos, mortes e comoção social, pequenas alterações na legislação ambiental até surgem no radar das grandes redações, mas não ganham o destaque necessário em função dos impactos que promovem.

É o caso da Lei nº 14.876, de 31 de maio de 2024, que modifica a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938 de 1981) e exclui o cultivo de eucalipto, entre outras espécies de árvores plantadas para fins de corte, da lista de atividades consideradas potencialmente poluidoras e utilizadoras de recursos ambientais. A lei foi proposta pelo senador Álvaro Dias (Podemos), ex-governador do Paraná, e teve a sanção do presidente Lula. Com a medida, as empresas de silvicultura, que produzem monoculturas de eucalipto, pinus e outras espécies, não precisam mais de licenciamento ambiental, nem pagar a Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental (TCFA) ao Ibama. Na prática, a nova lei flexibiliza a legislação, enfraquece o sistema de fiscalização e desonera grandes empresas de celulose, inclusive multinacionais, como é o caso da chilena CMPC, com operação no Rio Grande do Sul, e gigantes do setor como Klabin,  Suzano, Bracell, Arauco e Internacional Paper, com atuação no Mato Grosso do Sul, entre outras. 

Um estudo da Universidade Federal de Lavras – Erosão hídrica pós-plantio em florestas de eucalipto na bacia do rio Paraná, no leste do Mato Grosso do Sul – aponta que a erosão hídrica, o desgaste provocado na superfície terrestre por ação das chuvas, interfere na cobertura do solo e influencia no escoamento das águas. Esse fator seria um gancho (termo jornalístico) perfeito para relacionar, por exemplo, com as situações que ampliaram os impactos das enchentes em comunidades do Rio Grande do Sul.  A questão poderia ser relacionada com o corte de matas ciliares das margens do rio Taquari que tiraram as proteções do curso d’água e, respectivamente, das cidades atingidas pelo alagamento.

O tema da legislação da silvicultura é tão importante e está tão ligado às questões ecológicas e climáticas que a falta de debate – ou da promoção do amplo debate pela imprensa – gera um vácuo de informação perigoso, que só interessa às motivações políticas e econômicas do negócio.

Em setembro de 2023, o portal Sul 21, que tem dado grande atenção à pauta ambiental no Rio Grande do Sul, noticiou que “Sob crítica de ambientalistas, Consema aprova novo Zoneamento Ambiental da Silvicultura”. Na linha de apoio da manchete, o jornalista Luciano Velleda expõe que “Áreas de plantio poderão ser quatro vezes maior, com potencial de causar mais perda dos campos nativos do Pampa”.  Naquele período, os gaúchos também enfrentavam problemas com as enchentes. Ao jornalismo do Sul 21, que tem ambientalistas entre suas fontes, não faltou faro para perceber que “Enquanto o governo estadual e a sociedade civil se mobilizam para socorrer a população das cidades do Vale do Taquari devastadas pela enchente que já matou 48 pessoas, enquanto especialistas e ambientalistas debatem as causas e consequências da mudança climática e como isso afeta o Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou, na última quinta-feira (14), a atualização do Zoneamento Ambiental para a Atividade da Silvicultura (ZAS) no estado”. Essa “atualização” amplia a área infestada por pinus e eucaliptos de, aproximadamente, um milhão para mais de quatro milhões de hectares.

A aprovação pelo Consema é criticada porque o órgão, que deveria servir para aprovar políticas de proteção ambiental, está dominado por entidades do setor empresarial e tem maioria decisiva do governo gaúcho, que, por sua vez, nas gestões de Eduardo Leite (PSDB), e na anterior, de José Ivo Sartori (MDB), está à serviço do mesmo setor empresarial que domina o Conselho. As alterações do ZAS, que até então tinha redação dos técnicos ambientais da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do RS (Fepam), foram feitas às pressas, nos mesmos moldes (modus operandi) do que foi executado na flexibilização do Código Estadual do Meio Ambiente pelo governo Leite em 2019, que alterou diversos dispositivos legais em apenas 75 dias, um contraste com a construção do Código original, que foi debatido com a sociedade durante nove anos e aprovado por unanimidade. Um tema dessa magnitude e proporção não deveria ser alterado apenas em gabinetes.

A reflexão que proponho aqui não está, necessariamente, ligada à existência ou à falta de inclusão das notícias nas páginas e telas da imprensa, mas sim à forma como os fatos ambientais são tratados por jornalistas e veículos.

Na linha oposta do exemplo que apresentei acima, do Sul 21, uma mídia não-hegemônica – nos termos propostos pela pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e professora da Ufrgs Eloisa Loose Beling –, trago uma concepção de abordagem publicada pela jornalista Gisele Loeblein no jornal Zero Hora, um veículo hegemônico com relações comerciais com os setores do agronegócio e da silvicultura. A chamada da pequena matéria, pouco mais do que uma nota, que apresenta apenas um lado da questão, promete oferecer respostas para “O que muda com a lei que tirou as florestas plantadas da lista de atividades poluidoras”. Logo no primeiro parágrafo, a jornalista diz que “A implementação no Rio Grande do Sul da lei federal que exclui a silvicultura das atividades consideradas poluidoras precisa passar por análise do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema)”. Para o leitor que não conhece o contexto do Consema, como explicado acima, pode parecer que a lei só passará a integrar a regulamentação estadual após um órgão de proteção ambiental aprova-la. Isso seria o suficiente para tranquilizar esse leitor. Mas a matéria não para por aí, ela segue com a nota da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (faltou a palavra “Infraestrutura”, que passou a fazer parte do nome da Secretaria no governo Leite).

Imagem: Captura de tela portal gaúchazh.clicrbs.com.br

Percebe-se que a nota da Secretaria é a informação que abre a matéria, dizendo que precisa “passar pela análise do Consema”. As demais falas que integram a matéria são do presidente da Indústria Brasileira de Árvores, Paulo Hartung, que comemorou a medida e criticou os “entraves burocráticos” que “vinham ‘travando investimentos’”; e do representante da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes, que informa haver uma projeção de ampliação de 322 mil hectares de “floresta plantada” para o período 2020 a 2023.

Neste caso, não foram ouvidos ambientalistas, nem pesquisadores das universidades sobre o tema, um caso claro de desinformação proposital em um veículo da maior empresa jornalística do Rio Grande do Sul, o Grupo RBS, afiliado à Rede Globo.

Espero que, com a reflexão sobre esse tema – que pode parecer menor do que realmente é, daí o título “Pequenas notícias, grandes negócios”, inspirado no tradicional programa “Pequenas empresas, grandes negócios” –, tenhamos conseguido, mais do que apontar o dedo para um ou outro exemplo, colaborar com o processo de amadurecimento e evolução de um jornalismo consciente diante das pautas ambientais. Uma prática jornalística com visão abrangente sobre os reflexos e interconexões ecológicas, sociais e, inclusive, de relações geopolíticas relacionadas ao uso e exploração do ambiente natural para fins comerciais e de sobrevivência, é fundamental.

Temos o desafio de abordar temas complexos, muitas vezes vitais, e prepara-los para serem apresentados à sociedade com integridade, linguagem adequada e uso de recursos disponíveis para propiciar maior compreensão às pautas e exercer a confiabilidade inerente à nossa profissão, entregando informações fidedignas e importantes.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

A responsabilidade da imprensa hegemônica na catástrofe climática do RS

Imagem: As ruas de Porto Alegre em indesejada simbiose com o Guaíba / Isabelle Rieger / Sul21

Por Sérgio Pereira*

O Rio Grande do Sul busca se reerguer de sua maior tragédia ambiental. Até o momento, foram mais de 170 mortos, centenas de feridos e milhares de desabrigados. O cenário é de grande destruição, o que resultou na quase paralisação do estado desde o início de maio. O Aeroporto Internacional Salgado Filho segue fechado, a rodoviária de Porto Alegre e o trem metropolitano ficaram por dias inoperantes, hospitais e escolas foram inundados, como também diversos prédios públicos.

A imediata reação da sociedade diante desse quadro foi, inicialmente, priorizar a preservação da vida. Todos os esforços foram direcionados para resgates, atendimento médico, acolhimento e apoio às vítimas. “Não é hora de procurar culpados”, era o que diziam não apenas os supostos culpados, mas também representantes da imprensa hegemônica gaúcha.

O que não se observa na grande mídia é justamente uma discussão sobre as suas responsabilidades, principalmente no que se refere à omissão frente aos possíveis riscos ambientais. Ao silenciar, esse Jornalismo não só se prepara apenas para “cobrir catástrofes, mas ele próprio é cúmplice do desastre” (Loose, Camana e Belmonte, 2017, p. 12).

Após as chuvas de setembro e novembro de 2023, em menor volume que as da enchente de maio de 2024, mas também bastante intensas, fica a pergunta: porque o Jornalismo hegemônico gaúcho não se interessou em verificar as reais condições dos sistemas de proteção existentes em Porto Alegre (muro da Avenida Mauá, comportas, casas de bombas, diques)?

Loose, Camana e Belmonte elencam três razões para que os jornalistas não se sintam estimulados em cobrir riscos ambientais: “1) a incerteza científica por si só, típica dos riscos, não atrai os jornalistas, que buscam concretudes; 2) se não há uma medida do governo ou outra instituição em relação à prevenção, é muito provável que o risco seja ignorado e, portanto, não percebido – o que desencoraja  o  valor-notícia  da  estória;  e  3)  o  risco  refere-se  a  projeções  e  os  jornalistas  trabalham  com  acontecimentos  –  a  manifestação  do  risco  é  um  gatilho necessário para a produção jornalística” (2017, p. 4).

A realidade atual das redações é outro ingrediente a ser pesado nesta hora. Nos últimos anos, jornais gaúchos dispensaram diversos profissionais experientes com o objetivo de reduzir custos. As redações diminuíram de tamanho e no lugar dos “dinossauros” foram contratados jovens atualizados nas novas tecnologias e cada vez mais multitarefas, mas sem os “calos” fundamentais da profissão diante dos grandes desafios. Com isso, os veículos perderam um conhecimento valioso para oferecer aos seus leitores.

O fim da setorização nas editorias também colabora para esse distanciamento das chamadas pautas de alerta. Aquela figura do jornalista figura frequente nas repartições públicas, colecionador de fontes, conhecedor dos atalhos está praticamente extinta. Quantas pautas premiadas nasceram da informação de cocheira ou da mera observação do setorista nesse acompanhamento presencial!  

O papel da imprensa na polêmica envolvendo a autorização para importação de arroz por parte do Governo Federal é outro ponto a analisar. Muitas foram as críticas em relação à medida. O que pouco se fala agora é que foi a imprensa que alertou, dias antes do anúncio, para a possibilidade de faltar o produto no mercado, o que resultou em uma corrida consumista ainda mais intensa.

Em 30 de abril, GZH chamava atenção para os estragos no setor rural provocados pelas chuvas, que ainda estavam recém iniciando no RS. A postagem “Vídeo: lavoura de arroz é inundada após chuvarada; efeitos se multiplicam no campo” já apontava para prejuízos na agricultura, com destaque para o arroz e a soja.

No dia seguinte, GZH voltou a abordar o tema: “Por que a chuva intensa trará perdas importantes na produção do RS”. A declaração do presidente de entidade que representa os arrozeiros indicava para grandes danos ao setor: “É cedo para precisar as perdas, mas uma coisa é certa: o prejuízo não é pequeno, porque em muitas regiões passou de 300 milímetros a chuva”.

No dia 2 de maio, o Correio do Povo postou a reportagem  “Chuvas isolam produtores rurais do RS”. No texto, o CP abordava também a questão do arroz, informando que lavouras estavam inundadas. O jornal se utiliza de uma nota oficial da entidade representativa dos orizicultores, que “colocou-se à disposição e reiterou seu ‘compromisso em garantir a segurança alimentar do povo brasileiro, apesar das incontáveis dificuldades e instabilidades enfrentadas pelos produtores rurais’”.

Quatro dias depois, o mesmo jornal alertava para a falta de produtos nos mercados: “Em algumas cidades do RS já faltam produtos nos supermercados”. Um dos produtos ausentes nas prateleiras era justamente o arroz, como destacava o texto.

Cabe aqui lembrar o caso também da Jovem Pan News (JP), que no dia 7 de maio veiculou reportagem em seu canal de TV com o título “Produção de arroz do RS deve ter prejuízo de R$ 68 milhões”. A matéria especulava sobre a possibilidade de elevação nos preços do cereal nas gôndolas dos mercados e nos índices de inflação. A JP, porém, não escutou nenhum produtor ou entidade representativa da categoria, tendo como fonte principal uma consultoria privada.

Impossível relacionar aqui todos os veículos do país que divulgaram o sumiço de produtos nos comércios locais e também levantaram estimativas de prejuízos no setor rural após as chuvas de maio.

A decisão do governo de importar arroz, portanto, veio ao encontro do que relatava a imprensa em geral, em rápida ação justamente com o objetivo de repor estoques e evitar os preços abusivos. A divulgação dos dados sobre a cesta básica pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no início de junho comprova que o cereal foi o segundo produto que registrou a maior elevação de preço em maio, com 13,24% de aumento. E várias foram as notícias, em diversas partes do Brasil, de arroz com preços exorbitantes nas prateleiras dos mercados.

Uma autoanálise por parte do Jornalismo nesta hora seria importante até em nome de sua sobrevivência. A credibilidade se solidifica com os acertos, mas também na admissão do erro, do exagero, da abordagem equivocada. E neste momento, em que o Jornalismo encontra a concorrência das redes sociais, da superoferta de informações, dos “fatos alternativos”, conquistar a confiança do consumidor de notícias passou a ser ainda mais fundamental.  

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

LOOSE, Eloisa Beling; CAMANA, Ângela; BELMONTE, Roberto Villar. A (não) cobertura dos riscos ambientais: debate sobre silenciamentos do jornalismo. Revista Famecos: mídia, cultura e tecnologia, v. 24, n. 3, p. 1-18, 2017.

A repercussão internacional do desastre climático do Rio Grande do Sul

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Michel Misse Filho*

O Rio Grande do Sul sofreu o maior desastre ambiental de sua história, e um dos maiores nacionais, num evento climático sem precedentes em território brasileiro. A cobertura da grande imprensa nacional foi intensa — ainda que incompleta — e veículos independentes tiveram importância de trazer à tona elementos políticos ofuscados do noticiário tradicional, como abordado na última coluna deste observatório. Quanto à cobertura internacional hegemônica, torna-se evidente o lugar secundário de crises climáticas quando ocorridas em países do sul global.

Não é como se o desastre tivesse sido pelas principais mídias ocidentais, mas a ocorrência de um evento de tal magnitude num país do norte global levaria a coberturas de seus semelhantes numa ordem de grandeza próxima, por exemplo, à destruição de New Orleans pelo furacão Katrina. Não foi o que se viu no caso gaúcho: há a publicação de matérias noticiando o desastre em seus primeiros dias, mas um esvaziamento do tema ao longo das semanas seguintes de maio e da intensificação do evento.

Começamos por uma pequena matéria da CNN, que comenta brevemente a influência do aquecimento global, logo antes de, surpreendentemente, citar apenas uma ajuda de Elon Musk frente à tragédia. A rede de notícias britânica BBC também publicou uma matéria bastante factual sobre o evento, ainda no início da tragédia, que também cita as mudanças climáticas. Já o New York Times publicou três matérias sobre o evento desde o seu início. A primeira é uma matéria curta, noticiando o início dos acontecimentos. Já a segunda (Imagens de uma cidade brasileira debaixo d’água) é uma boa reportagem, longa, contando a experiência de moradores atingidos e uma entrevista com Mercedes Bustamante, importante pesquisadora brasileira com experiência no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresentando algumas das causas climáticas do evento e a severidade da situação. Após esta matéria, publicada ainda no início do desastre, há uma lacuna de semanas sem noticiar o caso: o vácuo de notícias é interrompido por uma matéria que trata dos milhares de animais domésticos sem lar — e, desde então, mais nada se noticiou sobre o assunto. Dentre os principais veículos hegemônicos, quem fez uma matéria em tom de “balanço geral” do desastre, ainda que pequena e incompleta, foi a revista The Economist, enfatizando como as mudanças climáticas estão deixando eventos extremos mais frequentes na região  gaúcha. Nos outros veículos tradicionais ocidentais, pouco se noticiou para além dos padrões verificados nas matérias citadas, com a quase totalidade das notícias ainda no início do desastre.

A análise da repercussão internacional ocidental de um evento gravíssimo como o ocorrido mostra um holofote para um país do sul global menor do que o esperado, ainda que as mudanças climáticas sejam, supostamente, pauta importante destes jornais. O ofuscamento de desastres nos países em desenvolvimento acaba por espelhar, ainda, a ausente ajuda dos países desenvolvidos aos efeitos da crise climática  — o presidente Lula já havia cobrado as nações ricas neste sentido, em 2023, após enchentes na mesma região do Rio Grande do Sul. Concluímos que as injustiças climáticas são materiais e simbólicas: promovem perdas materiais e humanas proporcionalmente maiores para as populações mais vulneráveis, percorrendo os territórios em escala intraurbana, doméstica e internacional; mas tais desigualdades também atravessam os mecanismos simbólicos, nas redes de comunicação internacional, evidenciando territórios “mais importantes” do que outros.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.