Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Para esta análise escolhemos algumas publicações do jornal Zero Hora, em sua edição digital, e do Sul21, que colocaram em circulação informações que poderiam ter auxiliado os eleitores na escolha da pessoa que vai governar a cidade no próximo período, caso a questão climática e o desastre que atingiu Porto Alegre não fossem esquecidos por quase 50% dos porto-alegrenses na hora de apertar o botão na urna eleitoral.

Com o título “Porto Alegre lança Plano de Ação Climática para reduzir emissão de gases do efeito estufa e diminuir impactos de eventos extremos”, Zero Hora publicou no dia 26 de setembro uma matéria apresentando os detalhes do plano: “(…) é resultado de cooperação técnica entre a prefeitura de Porto Alegre e o Banco Mundial, firmada durante a Conferência Mundial pelo Clima (COP27)”. Conforme o jornal, a “parceria viabilizou a contratação de uma consultoria técnica formada pela WayCarbon, em consórcio com o ICLEI América do Sul, e as empresas Ludovino Lopes Advogados e Ecofinance Negócios”. ZH informa que o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre reconheceu que o plano já deveria ter sido lançado e que o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do governo do Estado não foi consultado para a elaboração do plano, pois o comitê foi lançado há três meses. Estranhamente, o plano foi lançado no final da campanha eleitoral, quando na verdade já deveria estar pronto há anos.

Para quem já esqueceu, vamos aos fatos.

No dia 29 de janeiro de 2016, Porto Alegre foi atingida por uma forte tempestade com ventos de até 100 km/h, provocando grandes danos nos parques, nas ruas, nas residências, prédios comerciais, hospitais, além de muito pavor nos porto-alegrenses. O evento denominado de microexplosão aconteceu por volta das 22h, quando a temperatura atingia em torno de 40 graus e grande número de pessoas estava nas ruas e nos bares da cidade.

 A cidade ficou sem luz, sem internet, sem sinal de celular, com vias interrompidas devido à queda de árvores. O Parque Marinha do Brasil foi devastado e muita gente precisou ser atendida no Pronto Socorro devido aos ferimentos. Outras cidades gaúchas já haviam passado pelo problema em outros momentos ou passaram depois.

Anos antes, em 27 de março de 2004, a cidade de Torres e o sul de Santa Catarina foram atingidos pelo furacão Catarina, com ventos de 180 km/h, assustando, provocando grandes danos e deixando 11 mortos e pessoas feridas.

Em 2006, o Greenpeace lançou o documentário e o relatório Mudanças do clima, mudanças de vida, com depoimento de pessoas atingidas pelos efeitos “das mudanças climáticas na Amazônia, no Nordeste, no Sul e na zona litorânea brasileira. (…) O relatório e o documentário mostram ainda as relações entre a destruição da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e o aquecimento global, e como o desmatamento e as queimadas fazem do Brasil o quarto maior emissor de gás carbônico do planeta.” O lançamento do documentário em Porto Alegre impactou ambientalistas e a imprensa que compareceram na solenidade.

Voltando para 2024, em 26 de abril o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), emitiu um alerta de tempestades para o estado. Durante o mês de maio vivemos a maior tragédia climática de todos os tempos.

Vários foram os eventos extremos, relatórios da ONU, alertas dos cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e das universidades brasileiras, mas o negacionismo climático dos políticos brasileiros deram o tom para que o país, estados e cidades retardassem o planejamento das medidas de enfrentamento e adaptação para orientar a população no momento da emergência. O ranço atingiu até a forma como o movimento ecológico foi tratado. No entanto, em pleno período eleitoral, Porto Alegre lança seu Plano de Ação Climática.

Retomando a análise, notamos que o desastre climático que atingiu a cidade não teve a presença qualificada ao longo da campanha. O tema foi mencionado em editoriais, em notícias quase sempre de forma superficial. Em raras exceções o tema foi aprofundado. O assunto deveria estar no radar dos candidatos, eleitores e veículos da imprensa. Deveria ser tratado com profundidade diariamente.

Poucas matérias se destacaram na última semana relacionando as inundações e enchentes de maio às mudanças climáticas e à flexibilização da legislação ambiental.

Na edição de 4 de outubro, o Sul21 traz a matéria “Eleições 2024: gestão de risco deve ser prioridade em Porto Alegre”, produzida pela Agência Brasil, destacando a avaliação do professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS sobre a campanha eleitoral. Para ele, o desastre que atingiu Porto Alegre não está tendo a centralidade merecida nas campanhas eleitorais. “Esse tema deveria estar de modo central, porque não se trata apenas de recuperar e fazer obras de proteção, mas se trata fundamentalmente de ter uma agenda política e administrativa que possa mostrar para a cidade que é possível enfrentar tempos severos no século 21 morando aqui em Porto Alegre. E isso é um tema que não pode ficar para um outro momento que não esse, que é o momento de definição do destino da cidade”.

Para o professor Menegat, a pauta está presente de um modo muito fraco tanto por parte dos candidatos a prefeito quando dos candidatos à Câmara dos Vereadores. Para ele, a comunidade deve participar da elaboração das estratégias de gestão de risco da cidade. “Precisa ser articulado de um ponto de vista científico e comunitário. Precisa estar na palma da mão dos moradores de cada comunidade, que deve saber dos riscos, das vulnerabilidades do lugar em que vivem e principalmente também em termos de elaborar planos de emergência, planos de prevenção, de desenvolver uma inteligência social do lugar que habilite essas comunidades a terem uma perspectiva de segurança e ao mesmo tempo de saber agir quando é necessário”.

Em matérias publicadas em setembro por GZH, os candidatos que foram para o segundo turno em Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT) apresentam visões distintas quanto à preservação ambiental e gestão dos recursos naturais da cidade, especialmente no contexto das recorrentes enchentes e da crise climática.

Sebastião Melo, atual prefeito, destacou a importância da governança climática em seu discurso. Propôs a criação de um plano de contingência para mitigar desastres, mencionando a recuperação e manutenção dos sistemas de drenagem e proteção contra cheias. No entanto, essa proposta contrasta fortemente com a realidade enfrentada durante sua gestão. As enchentes de maio de 2024 expuseram falhas críticas em sua administração, evidenciando a incapacidade do governo municipal em cumprir promessas de manutenção e melhorias na infraestrutura. Muitos dos sistemas de drenagem permanecem negligenciados, as casas de bombas sem funcionamento adequado, e a falta de uma política preventiva eficaz contribuiu para a vulnerabilidade da cidade frente às chuvas intensas.

Além disso, a visão de Sebastião Melo em relação ao meio ambiente tem se mostrado insuficiente para enfrentar os desafios climáticos de maneira abrangente. A proposta de combinar crescimento urbano com preservação ambiental não tem sido bem-sucedida na prática, resultando em degradação dos recursos naturais, como morros, banhados e cursos d’água. O enfoque excessivo em respostas emergenciais, em vez de planejamento e prevenção, revela uma compreensão limitada da complexidade da crise ambiental. O modelo de desenvolvimento promovido por Melo frequentemente favorece projetos de expansão urbana sem a devida consideração dos impactos ambientais de longo prazo.

Em contraste, Maria do Rosário adotou uma postura mais crítica ao modelo de gestão atual e à visão de Melo sobre o meio ambiente. Defendeu um novo modelo de governança ambiental que não apenas reaja aos desastres, mas que também previna e integre a sustentabilidade ao planejamento urbano. Sua proposta de transformar Porto Alegre em uma “cidade esponja” e criar corredores verdes reflete uma abordagem mais sistêmica e integrada, voltada para a adaptação da cidade às mudanças climáticas. Rosário também critica a falta de manutenção contínua dos sistemas de drenagem e a terceirização de responsabilidades na gestão pública, práticas que ela identifica como causas centrais para os desastres recentes.

A gestão ambiental de Porto Alegre, especialmente durante o período de Melo, tem deixado a desejar, conforme Rosário. Embora discursos sobre governança climática sejam recorrentes, a falta de ações concretas e sustentáveis tem resultado em consequências graves para a cidade. Para que Porto Alegre se torne verdadeiramente resiliente, é fundamental que a administração municipal adote práticas que priorizem a preservação ambiental de forma proativa, com políticas que vão além das respostas emergenciais e que integrem o meio ambiente ao planejamento urbano, em vez de tratá-lo como uma questão secundária.

Já o jornal Sul21 publicou no dia 3 de outubro entrevistas com os candidatos Felipe Camozzato, do Partido Novo, e Maria do Rosário, do PT. Os demais candidatos se recusaram a dar entrevista.

Maria do Rosário criticou a forma com a atual administração lida com a questão ambiental. Disse que a falta de conservação do sistema de defesa de enchentes de Porto Alegre gerou uma tragédia que tem “uma dimensão ambiental, que é o resultado de toda a falta de cuidado global com a natureza, mas aqui em Porto Alegre temos uma tragédia de gestão, que chegou ao seu esgotamento”. Afirmou também que não vai terceirizar responsabilidades, nem privatizar os espaços públicos. Pretende inaugurar um novo sistema de gestão com profundo compromisso ambiental, com corredores verde, cidade esponja, que já existe aqui e com o funcionamento do Comitê da Bacia do Guaíba. Afirmou ainda que pretende valorizar a inteligência pública para antecipar os problemas e fazer a gestão de risco da cidade.

Felipe Camozzato mencionou a responsabilidade do atual prefeito pela falta de manutenção do sistema de proteção contra as enchentes, mas também de administrações anteriores. Disse que pretende reconstruir e manter o sistema de proteção contra cheias da cidade e combinar a preservação ambiental cuidando dos morros, cursos d’água, banhados e matas, mesclando com o crescimento urbano.

Esperávamos encontrar matérias nas quais os jornalistas fossem mais incisivos e demonstrassem engajamento, como ocorreu no jornal Sul 21.

As investigações realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS apontam várias indicações de como fazer uma cobertura de temas ambientais de forma adequada. Uma delas é o engajamento do jornalista na defesa do meio ambiente, o que exige saber ambiental e o comprometimento com a mudança de pensamento. O jornalista uruguaio Victor Bacchetta inspira o fazer jornalístico afirmando que o jornalismo ambiental “considera os efeitos da atividade humana, desde a ciência e a tecnologia em particular, sobre o planeta e a humanidade. Deve contribuir, portanto, com a difusão de temas complexos e análise de suas implicações políticas, culturais e éticas. É um jornalismo que procura desenvolver a capacidade das pessoas para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. (Bacchetta, p.18, 2000)

Na cobertura até o segundo turno é importante que o jornalismo cumpra a sua função de informar e explore os modelos de gestão que estão em disputa. Não devemos esquecer que para estar de acordo com os compromissos assumidos na COP 211, de limitar o aumento da temperatura do planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, todas as cidades devem voltar-se para a preservação ambiental e o prefeito deverá administrar com a natureza e não contra ela.

Referências

BACCHETA, Victor. El Periodismo Ambiental. In: BACCHETTA, Victor.(coord.) Ciudadania Planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Montevideo, IFEJ, 2000.

1COP 21 é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorreu em Paris em 2015, quando os 195 países presentes, se comprometeram a limitar o aumento da temperatura do Planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Jornalismo e o “espírito da época” nas cheias de maio

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Sérgio Pereira*

O jornal, a revista que não tenha conseguido mais manter sua conexão com o espírito da época se acaba sem poder ser salvo” (Groth, 2006, p. 207) Essa frase do jornalista alemão, publicada na década de 1960, parece dizer o óbvio, mas a história da humanidade é uma contínua repetição de equívocos óbvios.

No caso da imprensa gaúcha em setembro de 2024, a citação de Otto Groth nos remete à maior catástrofe climática já vivida no Estado e, claro, sua repercussão nas eleições municipais deste ano.

Estamos a 16 dias das urnas e grande parte dos cenários ainda parece incerto na maioria das capitais brasileiras. É o caso de Porto Alegre, com as pesquisas, até o momento, indicando que provavelmente haverá segundo turno. O fator que todos imaginavam que seria fundamental na balança de votos – era o que se dizia há algumas semanas– seria a catástrofe ambiental de maio deste ano, a maior enchente registrada na história do Rio Grande do Sul. Afinal, foram mais de 170 mortos, milhares de famílias desabrigadas e mais de 400 cidades atingidas.

Na verdade, só saberemos o verdadeiro peso das cheias e inundações nas urnas após a contagem final dos votos, ainda na noite de 6 de outubro ou no dia 27 do mesmo mês, caso se confirme o segundo turno na capital gaúcha. Pesquisa espontânea, registrada na Justiça Eleitoral com o número RS-02917/2024, publicada na página 3 da edição de 4 de setembro do Correio do Povo (veja aqui a postagem no site do jornal) apontava que há cerca de 40% de eleitores que ainda não sabem em quem irão votar. E outros 13% indicam que votarão branco ou nulo.

A pesquisa espontânea, cabe lembrar, pergunta em quem o entrevistado votará, sem apresentar a lista de concorrentes como no caso da estimulada. A espontânea é aplicada para verificar a lembrança do eleitor em relação candidatos e também ajuda a aferir o grau de importância que dá ao assunto. O panorama, portanto, é de mais incertezas do que confirmações.

Enquanto isso, em uma breve análise, os veículos de imprensa hegemônicos do RS, aparentemente com a desculpa de não tentar influenciar os eleitores, têm tratado o maio de 2024 de forma burocrática, com raras exceções. As matérias sobre o tema agora estão mais restritas a expor a demora na chegada e aplicação dos recursos financeiros prometidos. Pouco se escreve sobre responsabilização, que é o ponto reforçado pelos(as) principais oponentes ao atual mandatário da capital gaúcha.

Numa análise da cobertura da imprensa gaúcha envolvendo as tags “eleições” e “enchente”, um dos destaques positivos fica por conta do Correio do Povo, que entre os dias 20 e 21 de agosto entrevistou os quatro principais concorrentes à prefeitura de Porto Alegre especificamente sobre a catástrofe deste ano. Com a cartola “Os candidatos e as cheias”, o impresso reservou uma página e meia para cada um dos principais disputantes do pleito responderem sobre alguns pontos das chuvas severas de maio. As matérias, assinadas pelas jornalistas Flavia Bemfica e Mauren Xavier, abordaram questões como soluções emergenciais, projetos futuros, recursos financeiros para as obras, muro da Mauá, o retorno ou não do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), sistema de alertas, casas de bombas, parcerias privadas, entre outras. A série pode ser acessada nos links, pela ordem de postagem: candidato 1, candidata 2, candidata 3, candidato 4.

Já de 27 a 30 de agosto, o CP entrevistou os quatro postulantes a vice-prefeito. O material, creditado ao jornalista Diego Nuñez, foi mais generalista, com o objetivo principal de apresentar esses concorrentes, muitas vezes não tão conhecidos, mas que eventualmente podem até acabar assumindo no lugar do titular por um grande período. Desta vez, o tema “cheias”, em alguns casos, sequer apareceu, ou por ausência de questionamento ou por omissão dos próprios entrevistados, já que todos tiveram a chance de responder sobre os principais desafios da cidade. Vídeos com as entrevistas dos vices podem ser conferidas em “Eleições 2024: conheça os candidatos à vice-prefeitura de Porto Alegre”.

O Correio do Povo merece reconhecimento principalmente pelas entrevistas com os quatro concorrentes majoritários enfocando a enchente. O leitor do CP teve a oportunidade de tomar conhecimento sobre a visão do seu candidato em relação à pior tragédia climática vivida pelos habitantes de Porto Alegre. Aqui, o jornal cumpriu com eficiência a sua finalidade de informar. Como nos lembra Mar de Fontcuberta (apud REGINATO, 2019 p. 34), “uma pessoa desinformada é incapaz de tomar decisões adequadas nos diversos âmbitos da vida”. E é justamente isso que estamos precisando agora, mais do que nunca, de informação qualificada que nos permita não esquecer o “espírito da época” e tomar as decisões mais importantes. Como nos ensinaram as cheias de maio, uma escolha equivocada agora poderá ser fatal mais adiante.

Referências

GROTH, Otto. Tarefas da pesquisa da ciência da cultura. In: MAROCCO, B.; BERGER, C. (Orgs.) A Era Glacial do Jornalismo: teorias sociais da imprensa. Porto Alegre: Sulina. v. 1 (2006). p.182-310.

REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do Jornalismo. Florianópolis: Editora Insular, 2019.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.


Há cortina de fumaça nas eleições municipais?

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Eutalita Bezerra*

Nas homes dos portais de notícia do Rio Grande do Sul, não é difícil visualizar menções à fumaça das queimadas que chegou ao estado nos últimos dias, mudando o horizonte de Porto Alegre. Por outro lado, quando se colocam em perspectiva as publicações destes veículos sobre as eleições que irão ditar os rumos da gestão ambiental no município nos próximos anos, a questão climática ainda é pouco abordada. Já a fumaça sequer existe.

Numa avaliação das publicações feitas por GZH em setembro, apenas quatro publicações abordaram a pauta eleitoral fazendo menção a qualquer tema relacionado ao meio ambiente. Nenhuma delas abordou as queimadas. Fizemos, então, um exercício contrário: o de observar como as publicações sobre as queimadas implicavam o ente público. O levantamento apontou 18 publicações sobre o assunto, dos quais três traziam fontes da administração pública, sendo estado e município.

Todas as inserções, cabe dizer, foram feitas no mesmo dia, 10/9. Citando a administração pública municipal no que concerne às queimadas, a primeira publicação afirma que “A instalação de medidores da qualidade do ar em Porto Alegre, prometida pela prefeitura na COP 28, não tem data para ocorrer”. A publicação contextualiza a situação, questionando a gestão municipal sobre o assunto. O órgão a se manifestar é a Secretaria de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), que explica sobre a etapa de aquisição do referido material – ainda sequer entrou em fase licitatória. O órgão, em nota, ainda transfere a responsabilidade pelo monitoramento do ar ao estado.

A resposta do estado é a mesma utilizada na notícia “Em dia com sol alaranjado, Porto Alegre tem qualidade do ar “insalubre”, segundo agência suíça”. Nesta, o repórter traz como uma das fontes a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado. Em nota, o órgão afirma que a qualidade do ar no município é boa, conforme monitoramento da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), informação que contrasta com a de outra fonte citada na matéria, a agência suíça IQ Air, segundo a qual “a qualidade do ar em Porto Alegre nesta terça-feira (10) está “insalubre””.

Imagem: Print da matéria da GZH

A terceira publicação está focada no município. Em “Secretaria da Saúde de Porto Alegre divulga orientações para população se proteger do efeito das fumaças no RS” ,  a administração municipal assume protagonismo, indicando como os afetados pela situação podem mitigar seus impactos. O comunicado filia-se ao Ministério da Saúde ao admitir condutas simples que podem proteger a população dos efeitos nocivos da fumaça. Percebemos, com esta análise, que, mesmo que se avalie a situação das queimadas como uma questão maior que o município, é também nele – e a partir dele – que as repercussões na saúde pública mais se manifestarão. Desta forma, ao jornalismo, quando atua no tema “Eleições”, caberia questionar os candidatos sobre problemas ambientais, não excluindo estes que já nos afetam de maneira urgente, permitindo, também, que a população entenda a quem e como se pode cobrar atenção a estes problemas.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Enchentes e seus desdobramentos na disputa pelos votos na eleição de Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Patrícia Kolling*

Na sexta-feira, dia 30, iniciou a propaganda eleitoral de rádio e televisão dos candidatos à prefeitura do Porto Alegre. Como era de se esperar, as ações para evitar futuras enchentes foram abordadas pelos três candidatos com propaganda no rádio e tv. A imprensa noticiou o conteúdo dos primeiros programas, descrevendo cenários e reproduzindo falas e deu espaço para a questão ambiental. No site e  jornal Correio do Povo o tema esteve na manchete “Enchentes pautam o primeiro dia da propaganda no rádio e tv”. Já na Zero Hora a chamada foi: “Como foi o primeiro programa de TV dos candidatos a prefeito de Porto Alegre”.

O Correio do Povo destacou a abordagem diferenciada de cada um dos candidatos sobre o tema. A candidata Juliana Brizola, conforme o jornal, “tratou o trauma das enchentes de um modo suave, falando de um sentimento “ferido” que a cidade precisa recuperar, destacando a importância de recomeçar e construir uma vida nova”. Conforme o jornal, a candidata citou novamente as enchentes ao enfatizar: “É hora de saber quem segurou a tua mão e quem largou a tua mão nestes últimos tempos. Porto Alegre precisa de confiança, de alguém que garanta segurança”. O jornal Zero Hora não relacionou a fala de Juliana Brizola sobre confiança com as enchentes.

O candidato e atual prefeito Sebastião Melo, conforme o Correio do Povo, iniciou o programa ressaltando os eventos climáticos enfrentados por nações de todo o mundo. O site cita Melo evidenciando que os eventos de maio foram “a maior enchente”, e que “não precisa de culpados, mas de soluções”. O material ainda mostra Melo solidário diante de pessoas que perderam bens, casas e negócios e agradecendo aos voluntários. O Jornal Zero Hora também destacou os eventos climáticos no resto do mundo e a solidariedade do candidato aos atingidos.

O Correio do Povo informou que a candidata Maria do Rosário reforçou a necessidade constante da manutenção do sistema contra as cheias. A notícia reforça que a candidata elencou ações iniciais que pretende adotar contra novas inundações. O Jornal Zero Hora destacou Rosário ressaltando providências que pretende tomar para prevenir as cheias e realizar obras de proteção da cidade.

Os textos publicados pela Zero Hora e o Correio do Povo trazem literalmente uma descrição dos programas da propaganda eleitoral dos candidatos, em nenhum momento contextualizando ou questionando as falas. Provavelmente, o imediatismo da publicação e a proposta da pauta, de noticiar o que foi apresentado nos programas, impediram a abordagem mais crítica. Precisamos considerar que nos programas, os candidatos não aprofundaram as temáticas, não especificando como iriam efetivar muitas das promessas e nem detalhando projetos de cuidados ambientais a longo prazo. Espera-se que os dois maiores veículos de comunicação do Estado, nas próximas semanas, façam uma análise aprofundada, considerando a complexidade ambiental.

O site de notícias Sul 21 e o Matinal não trouxeram nenhuma notícia sobre a propaganda eleitoral no rádio e tv, porém, ambos noticiaram como as enchentes aparecem nos planos de governo dos candidatos. O Sul 21 fez isso em matéria publicada no dia 28 de agosto, descrevendo as propostas de cada candidato e contabilizando quantas vezes as palavras enchente e dique aparecem nos planos.

Já o Matinal reproduziu um texto da Agência Pública, em 05/09, com a manchete: “Após tragédia, clima entra nos planos de candidatos a Porto Alegre, mas com limitações”. Para produzir o texto a Agência Pública acessou os planos de governo, acompanhou debates e entrevistas e ouviu especialistas.

O texto destaca que a tragédia fez com que os candidatos inserissem em seus planos propostas mais ou menos concretas para lidar com a mudança do clima. Porém, os especialistas alertam que os candidatos não deixam claro como as medidas serão implementadas ou atualizadas e trazem poucas alternativas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Guilherme Marques, destaca a falta de atenção às ações mais ligadas à governança, como planos de contingência, revisão do Plano Diretor, criação de órgãos voltados a questão do clima e implantação de sistemas de monitoramento e alerta.

A abordagem do site Matinal, uma análise crítica e questionadora dos planos dos candidatos, com a participação de especialistas, permite ao eleitor compreender o que há de concreto e o que são apenas promessas nas falas/planos dos candidatos.  Além disso, oportuniza pensar o meio ambiente em toda a sua complexidade, pensando que as cheias não podem ser vistas como algo isolado, mas como consequência de todo um desequilíbrio ambiental. Seria interessante, porém, se o site tivesse apresentado uma análise mais detalhada de cada plano de governo.

Para encerrar citamos as entrevistas que a Rádio Gaúcha, programa Atualidades, está fazendo com os candidatos do dia 02 a 11 de setembro. Até ontem, dia 05, quatro candidatos haviam sido entrevistados. A primeira pergunta em todas as entrevistas foi sobre as enchentes, instigando os candidatos a falarem sobre as medidas que tomariam para evitar problemas com as chuvas. Os candidatos citam obras e ações que irão fazer, se eleitos. Uma pergunta dos jornalistas chamou atenção: houve questionamento sobre medidas especiais para preservar o aeroporto e as estações de trens. Porém, não faltaria uma pergunta sobre medidas especiais para preservar os bairros mais carentes do município e certamente muito afetados?

Como formadora de opinião, a imprensa precisa superar a superficialidade, e questionar os candidatos sobre as possíveis atitudes para prevenir e mitigar as causas e consequências dos desastres ambientais, tão urgente no mundo, e especialmente no RS, que ainda sofre com os efeitos da tragédia. Esperava-se que jornalistas, que estiveram à frente da cobertura, estivessem mais incisivos nos questionamentos aos candidatos, trazendo ao debate as responsabilidades, as causas, as relações com a crise climática e as ações de que podem promover mudanças a médio e longo prazo, além de questões sobre justiça climática.

Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente

Toneladas de lixo foram geradas durante a calamidade que assolou o estado / Imagem: Carine Massierer

Por Carine Massierer*

Memórias e histórias de gaúchos foram parar no lixo quando a água ocupou os lares, durante as enchentes de maio e junho de 2024, tornando-se a maior calamidade vivida até então. Montanhas de resíduos passaram a integrar a realidade visual de ruas e parques transformados em espaços de descarte dos bens materiais que sobraram quando a água tomou o seu leito em muitos rios do Rio Grande do Sul. Estes despojos e seu destino representam um risco à população se não houver um planejamento adequado.

A geração de resíduos pós enchentes tomou as páginas de jornais em maio e impressionou os cidadãos que andavam pelas ruas dos municípios: O que fazer; qual o destino dos entulhos no Rio Grande do Sul? (uol.com.br); Enchentes deixam 47 milhões de toneladas de entulho no RS, aponta levantamento | CNN Brasil; Enchentes deixarão quase 47 milhões de toneladas de lixo no RS | Metrópoles (metropoles.com); Volume de entulho de construção gerado no RS pelas enchentes pode chegar a 46 milhões de toneladas, mostra levantamento  | GZH (clicrbs.com.br), Cuidados após enchentes: especialistas orientam sobre a limpeza da casa e o que fazer com móveis e utensílios | Fantástico | G1 (globo.com), Imagens mostram Porto Alegre tomada por lixo após água começar a baixar (correiobraziliense.com.br), Lixo das chuvas no RS: catadores não conseguem trabalhar (apublica.org), dentre outros.

Em junho a situação ainda chocava a população e a imprensa repercutia o tema, mas já não com tanto espaço comparado ao mês anterior: Lixo após inundações em Porto Alegre gera montanhas de entulho e medo de contaminação – BBC News Brasil; Após um mês de calamidade, gaúchos não conseguem retomar rotina | Agência Brasil (ebc.com.br), Inundações no Rio Grande do Sul: ‘Olhar para tudo isso é desesperador’; a rotina de um gari em meio à limpeza dos restos das enchentes – BBC News Brasil .

Em julho o tema sofreu um arrefecimento e poucos textos retrataram os encaminhamentos quanto ao lixo gerado pós enchentes: Resíduos recolhidos após enchente em Porto Alegre representam 30 campos de futebol com 1 metro de altura, diz prefeitura | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), Aterro que recebia entulhos da enchente tem operação suspensa no RS; entenda os motivos | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), As enchentes no Rio Grande do Sul e os impactos sanitários (synergiaconsultoria.com.br). Neste mês, somente em Porto Alegre, foram coletadas 92 mil toneladas de resíduos e em São Leopoldo, 285 mil. Além destes, outros tantos municípios foram afetados e não se têm números que evidenciem a relevância desta pauta.

Em agosto o tema parece ter sido silenciado pela falta de registros de matérias na internet até então. Isto preocupa porque as montanhas de lixo seguem visíveis e o seu destino não parece integrar uma política ambiental (conforme relatam matéria de maio, junho e julho), o que faz com que o tema seja esquecido na agenda pública. “Fixar a agenda é fixar o calendário dos acontecimentos. É definir o que é importante e o que não é. […] É criar o clima no qual será recebida a informação. É fixar não só o que vai ser discutido, mas como e por quem” (Barros Filho, 2008, p. 159).

Kitzinger e Reilly (2002) apontam que, embora haja preocupação dos jornalistas, os temas de risco não atraem tanto para a cobertura em razão da falta de concretude da pauta ou por não ter entrado na agenda pública ou política, gerando algum valor-notícia atrativo ao jornalismo. Além disto, o risco refere-se a projeções e os jornalistas trabalham com acontecimentos, mas a manifestação do risco pode ser um gatilho necessário para a produção jornalística. É, por isso, que riscos ambientais e consequências são geralmente apresentados somente durante os desastres e catástrofes – e agora estão sendo silenciados.

Desta forma, é preciso que o jornalismo esteja presente fazendo o seu papel social na comunicação de riscos e acompanhando também as consequências ao meio ambiente e aos seres humanos, como é o caso do destino adequado deste expressivo volume de resíduos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Edição de Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências:

BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 2008.

KITZINGER, Jenny; REILLY, Jacquie. Ascensão e queda de notícias de risco. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2002

Eleições no horizonte: pauta ambiental municipal e o papel do jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Eleições municipais no radar, e as pautas mais comuns começam a se suceder: transporte público, guardas municipais, creches, filas nos postos de saúde etc. — assuntos da maior importância, é claro. O que nem sempre aparece como prioridade, contudo, são as pautas ambientais urbanas. Do acesso às áreas verdes ao esgotamento sanitário, da dragagem de rios à prevenção de desastres, a tendência é a pauta ambiental urbana ficar no segundo plano do debate, com a possível e triste exceção de cidades que passaram por desastres climáticos recentes e têm o assunto em alta.

A histórica negligência com que o tema é tratado no Brasil não é exatamente uma novidade. Talvez uma possível resposta esteja nas desigualdades arraigadas na sociedade brasileira: se por um lado as pautas ambientais mais ligadas a uma natureza “pura” e à preservação de ecossistemas parecem distantes da maior parte da população — ainda que sua degradação produza imagens chocantes de incêndios e desmatamentos transmitidas na televisão —, por outro lado há uma miríade de problemas ambientas básicos atingindo a maior parte da população, mas justamente a parcela com menor voz do debate público. É, também, a mesma população que sofre com os outros muitos problemas das cidades brasileiros e que dividem o noticiário.

Se a pauta ambiental urbana, em tese, mais urgente para uma parcela da sociedade — aquela ausente de saneamento, convivendo com lixões, esgoto a céu aberto e ilhas de calor — do que para a parcela prevalecente do debate público, é papel do jornalismo inverter as estruturas de poder e prioridades, dando a devida atenção ao tema. Ainda que raro, um ótimo exemplo é esta reportagem da Folha de São Paulo advertindo para o descumprimento do prazo de municípios brasileiros para acabarem com os lixões até o atual ano — meta estabelecida no longínquo ano de 2010. A matéria aponta que ainda restam mais de 1500 lixões e quase 600 aterros controlados, locais de armazenamento de 43% do lixo gerado em 2022, o equivalente a mais de 33 milhões de toneladas de resíduos. Ainda que não aprofunde na questão, a matéria apresenta um ótimo mapa-gráfico que evidencia as desigualdades subjacentes aos territórios: a proporção de lixões é maior nos estados do Norte e Nordeste. Não é difícil supor que, mesmo dentro dessas cidades, é nos bairros mais pobres que os lixões estão localizados.

O papel do jornalismo em produzir reportagens sobre estes problemas é contínuo, ao longo de todo o ano evidenciando o absurdo urbano-ambiental de nossas cidades. No entanto, em meses de eleições municipais a responsabilidade é ainda maior: é preciso levar essas pautas aos debates eleitorais e estimular sua introdução nas campanhas.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Mais do que carvão: por um jornalismo que acredite noutras potencialidades da economia candiotense 

Imagem: Candiota Natural – Sociedade, cultura e ambiente mostra rica sociobiodiversidade assim como o jornal local conta a história brasileira e a cultura gaúcha através dos seis sítios arqueológicos em Candiota. / Print da tela do documentário 

Por Eliege Fante* e Eutalita Bezerra**

Residem no Rio Grande do Sul as duas usinas que mais emitiram gases do efeito estufa no país, segundo os dados mais recentes do Instituto de Energia e Meio Ambiente. A despeito desses números, abordados anteriormente neste Observatório, a defesa da exploração carvoeira em Candiota (10.710 pessoas, IBGE, 2022), na Campanha Gaúcha, onde localizam-se as referidas termelétricas, predomina nas notícias da imprensa gaúcha. Entre 2021 e 2024 somente Zero Hora publicou 27 notícias abordando aspectos relacionados ao polo carboquímico. Já Correio do Povo, Sul21 e Brasil de Fato (RS) publicaram um menor número sobre esse tema, variando entre cinco e oito notícias cada um deles. Em comum, as fontes políticas locais e empresariais vinculadas à cadeia produtiva do carvão mineral. Há menos de um mês, a BBC Brasil publicou – e tantos outros meios republicaram – uma abordagem destacando os habitantes que não são “contra o planeta” por defenderem essa mineração.

A notícia O futuro incerto da cidade gaúcha movida ao combustível mais poluente do mundo: ‘Não somos contra o planeta’ é sensível ao modo de viver de uma parcela importante do município de Candiota (RS). Ao mesmo tempo, faz parecer que essa é a única forma de sobrevivência daquela população, obliterando outras cadeias produtivas presentes no município: 11 tipos de pecuária, incluindo gado de corte e de leite e a ovinocultura com produção de lã (IBGE, 2022); 561 estabelecimentos agropecuários sendo 22 tipos de lavoura permanente, como de frutas, e 18 tipos de lavoura temporária incluindo soja, outros grãos e outras culturas (IBGE, 2017). Sem esquecer da presença das comunidades indígenas e quilombolas, entre os oito povos e comunidades tradicionais do Pampa, que têm direitos reconhecidos através da Convenção 169 (ratificada em 2002). 

Candiota não é somente a sede da maior poluente do Brasil. É berço de lugares que merecem destaque na imprensa, como a Rede de Sementes Bionatur, que completa 27 anos no município. O presidente Alcemar Inhaia conta que, desde uma ação judicial vitoriosa para evitar a construção de uma barragem da mineração próxima aos empreendimentos da cooperativa, estão sendo um pouco mais ouvidos. Essa notícia de 2022 destaca a necessária “proteção de centenas de famílias assentadas na região de Candiota/Hulha Negra”. Em entrevista, disse: “Recentemente realizamos um seminário conjunto com outras entidades para construir uma proposta para o município, dialogando o que é a transição energética e o que é Candiota sem carvão. Candiota não é só carvão. Há quase 30 anos vimos a expansão da soja pelo bioma Pampa e resistimos com a nossa rede de produção de sementes orgânicas certificadas, que envolve cinco estados mais municípios da nossa região. Candiota é agrícola, a maior parte da população está na zona rural”. Destaque-se que o referido seminário não foi vislumbrado como notícia em nenhum dos veículos analisados, tomando como palavras-chave “carvão + candiota”. 

Também em comum nas notícias, identificou-se as preocupações dos setores de que as decisões (pela continuidade ou não da exploração do carvão) fossem tomadas “de fora”. Porém, considerando-se as fontes ouvidas nas notícias, os setores distintos da mineração muito pouco participam. Em algumas reportagens, acadêmicos pontuam sobre suas pesquisas relacionadas ao tema ou organizações não governamentais. Aqui destaca-se a fala do biólogo Francisco Milanez (Agapan) em 2023 neste sentido: “É importantíssimo que se fale de transição, mas é preciso que se fale com toda a população, nós queremos também ser ouvidos”. Não obstante o ambientalista não seja um morador de Candiota, alerta “que as melhores alternativas para que a transição seja efetiva ainda não foram colocadas à mesa, seja por demandarem custos mais altos em sua implementação ou por representarem perspectivas de lucros menores para as empresas envolvidas no processo”. 

No que tange aos “de dentro”, para manter a analogia, o Movimento pela soberania popular na mineração (MAM) tem trabalhado em Candiota visando a um novo modelo de mineração. De acordo com Iara Reis, dirigente nacional do MAM, em entrevista, o ponto fulcral em Candiota é que o grande capital desconsidera toda a cultura econômica daquele território. “Precisamos pensar que aquele território sempre teve uma economia. Há várias cadeias produtivas para serem pensadas naquela região […] A mineração traz desenvolvimento e lucro apenas para uma parcela da população.” 

Para comprovar, basta que se considere o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) do Rio Grande do Sul de 2013 a 2020: somente em 2020 Candiota ultrapassou a média estadual em desenvolvimento. Chama atenção que, mesmo figurando na primeira metade do ranking dos municípios (174 de 497) neste Índice, o maior valor foi atribuído ao bloco renda (posição 47), já que no bloco educação a posição é 249 e no bloco saúde é 459, dados não tão positivos e que jogam Candiota da metade para o final do ranking. Além disso, embora o percentual de 94% do esgoto tenha sido tratado em 2022, apenas 37,9% da população residente com abastecimento de água é atendida com esgotamento sanitário e 47,2% é atendida por serviço de abastecimento de água (consulta em agosto de 2024). Portanto, qual a real condição de vida dos habitantes de Candiota se a riqueza material gerada não reflete bem-estar ou um bem viver para toda a população? O primeiro passo para promover essa distribuição equilibrada pode ser horizontalizar a escuta e mobilizar a participação dos distintos grupos candiotenses. Aqui entra o jornalismo! 

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. gippcom@gmail.com

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq. eutalita@gmail.com

Bioma Pampa, arroio Dilúvio, Magda Renner e Giselda Castro para ver e rever

Imagem: Reprodução

Por Sérgio Pereira*

Após a pior catástrofe climática já registrada no Rio Grande do Sul, a hora é de reflexão, planejamento e, principalmente, arregaçar as mangas. Neste momento, devemos nos valer não somente da ciência e da experiência, mas também precisamos olhar para trás e buscar respostas para os nossos erros. Buscar, assim, referências para projetar um futuro desta vez com base na proteção e respeito ao meio ambiente e na preservação da vida. Com base nesta ideia, gostaria de sugerir três filmes gaúchos com temática ambiental e que nos ajudam a compreender os rumos de uma sociedade que ignorou os avisos da natureza e, por causa disso, sofreu as consequências.

Antes disso, no entanto, é preciso fazer um justo reconhecimento e, ao mesmo tempo, divulgar um serviço de utilidade pública. No ano passado, a Cinemateca Paulo Amorim (Rua dos Andradas, 736, Centro Histórico de Porto Alegre/RS) passou a disponibilizar valioso serviço de consulta para pesquisadores, estudiosos e fãs de cinema em geral: o Portal do Cinema Gaúcho. Trata-se de um rico banco de dados sobre produções, de ficção e não ficção, cujo berço é o Rio Grande do Sul. É uma ferramenta de fácil manuseio e totalmente gratuita.

O portal foi concebido, entre 2019 e 2022, por Fatimarlei Lunardelli e Glênio Póvoas durante a vigência do Núcleo de Pesquisa, Informação e Memória do Instituto Estadual de Cinema (IECINE), na gestão de José Teixeira de Brito. Os trabalhos foram coordenados pelo jornalista, pesquisador, cineasta e professor Glênio Póvoas, em um trabalho minucioso de funcionários da Cinemateca Paulo Amorim e da Casa de Cultura Mario Quintana, estagiários do IECINE, além do próprio Póvoas, Fatimarlei e Rodrigo Figueiredo Nunes.

Os filmes indicados abaixo estão listados no portal e são recomendados também para quem hoje se dedica ou pretende no futuro se especializar em Jornalismo Ambiental (JA). São três documentários que não tratam diretamente de JA, mas que abordam a questão ambiental por diferentes aspectos e com profundidade. São obras que merecem ser vistas, revistas e divulgadas, todas disponíveis no YouTube:

  • Dossiê Viventes – O Pampa Viverá: dirigido por Tiago Rodrigues, esse longa de 2018 (duração de 86 minutos) mostra a luta de comunidades da bacia do Rio Camaquã contra projeto de instalação de uma mineradora de chumbo. Com imagens belíssimas do Pampa, o documentário reúne depoimentos importantes e fundamentais para compreender a importância do bioma gaúcho, o mais ameaçado do Brasil. Ou, como define o escritor e cineasta Tabajara Ruas, “um pedaço profundo do Rio Grande”. O filme conta com depoimentos de biólogos, ambientalistas, indígenas, juristas, povos ribeirinho, autoridades e quilombolas contra a exploração das mineradoras. Essa batalha ecológica, por sinal, consagra-se vitoriosa, pelo menos por enquanto. Muitos dos pressupostos do Jornalismo Ambiental estão evidentes no documentário, como pluralidade de vozes, engajamento, contextualização e o Princípio da Precaução. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MIXozp6SZQE. Para os interessados nesse episódio histórico, sugiro o artigo “Herdeiros de um modo de vida: midiativismo contra a ameaça de mineração no rio Camaquã”, de Claudia Herte de Moraes e Eliege Maria Fante (Revista de Comunicação Dialógica, 2020, p. 39-61).

Imagem: Reprodução do filme “Dossiê Viventes”

  • Habitantes do Arroio: esse documentário interativo de 2010 (103 minutos) foi dirigido por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Rafael Devos. Nascido de um projeto acadêmico, o filme tem o mérito de expor o conflito e interdependência entre diferentes grupos sociais, instituições e técnicos da área ambiental, cuja linha comum é a utilização das águas do poluído Dilúvio, arroio que corta parte da cidade de Porto Alegre. O filme começa com um plano aéreo, sem cortes, cobrindo toda a extensão do arroio, da Barragem do Sabão até o Guaíba. Questões como história, saneamento, urbanização, educação ambiental, infraestrutura, entre outras, são abordadas pelas pessoas que residem ou trabalham em volta do Dilúvio. Logo na abertura, as palavras do escritor Carlos Reverbel que dizem tudo: “O rio estava em seu lugar, como manda o figurino. Eis senão quando a cidade resolveu invadi-lo, na base do fato consumado… Começaram, então, os intempestivos e abusivos aterros, ou seja, a ocupação do rio, a mão armada, pela cidade. …Isto num lugar em que pode faltar tudo, menos terra” (Barco de Papel – Ed. Globo, Porto Alegre, 1979, p. 12-14). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oKnTY8fBxDY.

Imagem: Reprodução do filme “Habitantes do Arroio”

  • Substantivo Feminino: premiado com Menção Honrosa na Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (São Paulo) e no Festival de Cine Latinoamericano de Trieste (Itália), essa preciosidade de Daniela Sallet e Juan Zapata resgata o trabalho de duas pioneiras na defesa do meio ambiente no RS: Magda Renner e Giselda Castro. Lançado em 2017 (63 minutos), o filme conta com importantes depoimentos sobre essas gaúchas que em pleno anos de chumbo se dedicaram à causa ambiental. Destaca a importância de José Lutzenberger para a adesão das duas militantes na causa ecológica, além de mostrar como funcionava a sinergia entre as amigas e como ambas ajudaram a levar as batalhas gaúchas e brasileiras para o mundo. Trata-se de uma verdadeira aula de história sobre a luta ecológica no Rio Grande do Sul no século passado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3lQNHxLzHFE. E para quem quiser saber mais sobre as vidas e obras de Magda e Giselda, recomendo o livro “Pioneiros da ecologia: breve história do Movimento Ambientalista no Rio Grande do Sul”, de Elmar Bones e Geraldo Hasse (Já Editores, 2002, 214 páginas).

Imagem: Reprodução do filme “Substantivo Feminino”

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

Referências

Dossiê Viventes – O pampa viverá. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1211/dossie-viventes-o-pampa-vivera. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Habitantes do Arroio. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1676/habitantes-do-arroio. Acesso em: 07 Jul. 2024.

Substantivo feminino. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2024. Disponível em: https://www.cinematecapauloamorim.com.br//portaldocinemagaucho/1117/substantivo-feminino. Acesso em: 08 Jul. 2024.

Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução

Retomada da vida cotidiana com a descida das águas torna o desafio ainda maior / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger** e Ilza Maria Tourinho Girardi*

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 mostrará seus efeitos a longo prazo. Passados dois meses do início, mais de 90% dos municípios revivem os impactos. Foram atingidos tanto o meio urbano, quanto rural e litoral. Inclusive na capital gaúcha, a inundação persiste em pontos como no bairro Guarujá, na Zona Sul de Porto Alegre. No centro e em bairros vizinhos, o alagamento foi controlado. Neste contexto, meios hegemônicos estão focando em notícias voltadas para a reconstrução do estado, ou seja, em um suposto jornalismo de soluções. Como se o enfrentamento da tragédia fosse igual para todos os moradores das áreas atingidas, independentemente de classe social, raça e gênero. Como se não houvesse responsabilidades também dos governos estadual e municipal a serem cobradas. 

Zero Hora anunciou um compromisso que remete ao jornalismo de soluções: uma nova seção “com reportagens especiais sobre obras, projetos, mobilizações, bons exemplos, negociações, cobranças de promessas e tudo que diz respeito ao maior desafio já vivido pelos gaúchos”. No entanto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) conceitua o jornalismo de soluções como “uma prática jornalística criteriosa como todo o jornalismo deve ser”. A questão é que o fio condutor da reportagem é uma solução. Ou seja, é a cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais. 

Quando falamos de um evento com essa magnitude e complexidade, como foram as enchentes de maio nos municípios gaúchos, é difícil achar soluções rápidas e simples. A posterior tentativa de retomada da vida cotidiana com a descida das águas e o aparecimento da lama tornam o desafio ainda maior. Para que um evento climático extremo agravado por interferência humana não aconteça de novo, precisamos de uma mudança radical na forma de produção. Por isso, necessitamos de perspectivas como a do decrescimento e pós-extrativismo  de Alberto Acosta e Ulrich Brand, que caminham para um cenário de justiça social e ambiental. 

Na contramão desta ideia, a capa da Zero Hora do último final de semana chamava para a reportagem “Mesmo sem recorde, colheita de soja deve ajudar na retomada gaúcha”. Quando entramos no texto, descobrimos mais do mesmo: não há crítica nem aos agrotóxicos apesar da conhecida edição de 2024 do Atlas dos Agrotóxicos informar que: “a despeito dos ganhos econômicos, o uso destas substâncias tem ocasionado um severo impacto na saúde da população brasileira: entre 2010 e 2019, 56.870 pessoas foram intoxicadas com agrotóxicos no Brasil. Há, assim, uma média de 5687 casos por ano, ou 15 pessoas diariamente”. Um severo impacto não computado pela economia do agronegócio!

Ainda, para a soja avançar nessas áreas, significa que tem que haver supressão da vegetação nativa. Dados produzidos pelo MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa. Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja e da silvicultura. 

Desta forma, a economia da qual a Zero Hora se refere é apenas material. Não se leva em conta os danos na saúde das pessoas afetadas na cadeia de produção de soja, assim como não são mencionados os impactos ambientais do plantio extrativista deste grão. Sendo esta uma das reportagens destacadas da edição de final de semana, parece que só há um caminho para a retomada na economia gaúcha e que ele passa, obrigatoriamente, pela soja. Esta apresentação em forma de solução é, na verdade, uma outra forma de semear monofuturos sem espaço para a pluralidade. 

No entanto, enquanto repórteres, editores e comentaristas, devemos ao público uma prática engajada na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Defendemos que isso faz parte dos pressupostos da área do Jornalismo Ambiental, que visa uma prática decolonial e respeitosa com todos os seres. 

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Pequenas notícias, grandes negócios

Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Por Heverton Lacerda (@hevertonlacerda)*

Simples alteração na legislação ambiental ganha pouco destaque na imprensa, mas tem grande potencial de agravar impactos ecológicos.

Diferente das grandes catástrofes ambientais, provocadas tanto por eventos climáticos extremos, acidentes ou crimes ecológicos que causam grandes danos, mortes e comoção social, pequenas alterações na legislação ambiental até surgem no radar das grandes redações, mas não ganham o destaque necessário em função dos impactos que promovem.

É o caso da Lei nº 14.876, de 31 de maio de 2024, que modifica a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938 de 1981) e exclui o cultivo de eucalipto, entre outras espécies de árvores plantadas para fins de corte, da lista de atividades consideradas potencialmente poluidoras e utilizadoras de recursos ambientais. A lei foi proposta pelo senador Álvaro Dias (Podemos), ex-governador do Paraná, e teve a sanção do presidente Lula. Com a medida, as empresas de silvicultura, que produzem monoculturas de eucalipto, pinus e outras espécies, não precisam mais de licenciamento ambiental, nem pagar a Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental (TCFA) ao Ibama. Na prática, a nova lei flexibiliza a legislação, enfraquece o sistema de fiscalização e desonera grandes empresas de celulose, inclusive multinacionais, como é o caso da chilena CMPC, com operação no Rio Grande do Sul, e gigantes do setor como Klabin,  Suzano, Bracell, Arauco e Internacional Paper, com atuação no Mato Grosso do Sul, entre outras. 

Um estudo da Universidade Federal de Lavras – Erosão hídrica pós-plantio em florestas de eucalipto na bacia do rio Paraná, no leste do Mato Grosso do Sul – aponta que a erosão hídrica, o desgaste provocado na superfície terrestre por ação das chuvas, interfere na cobertura do solo e influencia no escoamento das águas. Esse fator seria um gancho (termo jornalístico) perfeito para relacionar, por exemplo, com as situações que ampliaram os impactos das enchentes em comunidades do Rio Grande do Sul.  A questão poderia ser relacionada com o corte de matas ciliares das margens do rio Taquari que tiraram as proteções do curso d’água e, respectivamente, das cidades atingidas pelo alagamento.

O tema da legislação da silvicultura é tão importante e está tão ligado às questões ecológicas e climáticas que a falta de debate – ou da promoção do amplo debate pela imprensa – gera um vácuo de informação perigoso, que só interessa às motivações políticas e econômicas do negócio.

Em setembro de 2023, o portal Sul 21, que tem dado grande atenção à pauta ambiental no Rio Grande do Sul, noticiou que “Sob crítica de ambientalistas, Consema aprova novo Zoneamento Ambiental da Silvicultura”. Na linha de apoio da manchete, o jornalista Luciano Velleda expõe que “Áreas de plantio poderão ser quatro vezes maior, com potencial de causar mais perda dos campos nativos do Pampa”.  Naquele período, os gaúchos também enfrentavam problemas com as enchentes. Ao jornalismo do Sul 21, que tem ambientalistas entre suas fontes, não faltou faro para perceber que “Enquanto o governo estadual e a sociedade civil se mobilizam para socorrer a população das cidades do Vale do Taquari devastadas pela enchente que já matou 48 pessoas, enquanto especialistas e ambientalistas debatem as causas e consequências da mudança climática e como isso afeta o Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou, na última quinta-feira (14), a atualização do Zoneamento Ambiental para a Atividade da Silvicultura (ZAS) no estado”. Essa “atualização” amplia a área infestada por pinus e eucaliptos de, aproximadamente, um milhão para mais de quatro milhões de hectares.

A aprovação pelo Consema é criticada porque o órgão, que deveria servir para aprovar políticas de proteção ambiental, está dominado por entidades do setor empresarial e tem maioria decisiva do governo gaúcho, que, por sua vez, nas gestões de Eduardo Leite (PSDB), e na anterior, de José Ivo Sartori (MDB), está à serviço do mesmo setor empresarial que domina o Conselho. As alterações do ZAS, que até então tinha redação dos técnicos ambientais da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do RS (Fepam), foram feitas às pressas, nos mesmos moldes (modus operandi) do que foi executado na flexibilização do Código Estadual do Meio Ambiente pelo governo Leite em 2019, que alterou diversos dispositivos legais em apenas 75 dias, um contraste com a construção do Código original, que foi debatido com a sociedade durante nove anos e aprovado por unanimidade. Um tema dessa magnitude e proporção não deveria ser alterado apenas em gabinetes.

A reflexão que proponho aqui não está, necessariamente, ligada à existência ou à falta de inclusão das notícias nas páginas e telas da imprensa, mas sim à forma como os fatos ambientais são tratados por jornalistas e veículos.

Na linha oposta do exemplo que apresentei acima, do Sul 21, uma mídia não-hegemônica – nos termos propostos pela pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e professora da Ufrgs Eloisa Loose Beling –, trago uma concepção de abordagem publicada pela jornalista Gisele Loeblein no jornal Zero Hora, um veículo hegemônico com relações comerciais com os setores do agronegócio e da silvicultura. A chamada da pequena matéria, pouco mais do que uma nota, que apresenta apenas um lado da questão, promete oferecer respostas para “O que muda com a lei que tirou as florestas plantadas da lista de atividades poluidoras”. Logo no primeiro parágrafo, a jornalista diz que “A implementação no Rio Grande do Sul da lei federal que exclui a silvicultura das atividades consideradas poluidoras precisa passar por análise do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema)”. Para o leitor que não conhece o contexto do Consema, como explicado acima, pode parecer que a lei só passará a integrar a regulamentação estadual após um órgão de proteção ambiental aprova-la. Isso seria o suficiente para tranquilizar esse leitor. Mas a matéria não para por aí, ela segue com a nota da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (faltou a palavra “Infraestrutura”, que passou a fazer parte do nome da Secretaria no governo Leite).

Imagem: Captura de tela portal gaúchazh.clicrbs.com.br

Percebe-se que a nota da Secretaria é a informação que abre a matéria, dizendo que precisa “passar pela análise do Consema”. As demais falas que integram a matéria são do presidente da Indústria Brasileira de Árvores, Paulo Hartung, que comemorou a medida e criticou os “entraves burocráticos” que “vinham ‘travando investimentos’”; e do representante da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes, que informa haver uma projeção de ampliação de 322 mil hectares de “floresta plantada” para o período 2020 a 2023.

Neste caso, não foram ouvidos ambientalistas, nem pesquisadores das universidades sobre o tema, um caso claro de desinformação proposital em um veículo da maior empresa jornalística do Rio Grande do Sul, o Grupo RBS, afiliado à Rede Globo.

Espero que, com a reflexão sobre esse tema – que pode parecer menor do que realmente é, daí o título “Pequenas notícias, grandes negócios”, inspirado no tradicional programa “Pequenas empresas, grandes negócios” –, tenhamos conseguido, mais do que apontar o dedo para um ou outro exemplo, colaborar com o processo de amadurecimento e evolução de um jornalismo consciente diante das pautas ambientais. Uma prática jornalística com visão abrangente sobre os reflexos e interconexões ecológicas, sociais e, inclusive, de relações geopolíticas relacionadas ao uso e exploração do ambiente natural para fins comerciais e de sobrevivência, é fundamental.

Temos o desafio de abordar temas complexos, muitas vezes vitais, e prepara-los para serem apresentados à sociedade com integridade, linguagem adequada e uso de recursos disponíveis para propiciar maior compreensão às pautas e exercer a confiabilidade inerente à nossa profissão, entregando informações fidedignas e importantes.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).