O jornalismo e as questões culturais indígenas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

Nesta observação olharei para dois textos que se relacionam. Um deles publicado no G1, na semana passada, Índios usam tablets, celulares e drones para monitorar castanhais e mapear áreas de coleta em MT e o outro publicado no El País, Por que os indígenas são a chave para proteger a biodiversidade planetária . Este último tem como base um relatório da ONU que destaca que nas terras habitadas pelos povos originários o desaparecimento de espécies é mais lento que no resto do mundo.

Ambos trazem à tona a reflexão sobre a relação dos indígenas com o meio ambiente e as áreas onde vivem. Pelos indígenas, a terra, a floresta, os animais, e outros recursos naturais não são explorados intensiva e ininterruptamente até a sua exaustão. Como diz a especialista do Instituto Socioambiental, Nurit Bensusan, no El País, por conhecerem intimamente a floresta, com rapidez eles identificam impactos que podem estar atingindo-a e mudam de atitudes, por exemplo, deixam de caçar em determinada área se ela está de alguma forma sendo afetada. O objetivo maior, então, não é a exploração econômica até a exaustão da área, mas, a manutenção harmoniosa da relação com a fauna, flora, rios e terras para as atuais e futuras gerações. A matéria do G1 demonstra esse aspecto, falando da coleta das castanhas, que garante subsistência sem a necessidade de derrubar a floresta.

Porém, dificilmente o jornalismo consegue olhar para essas questões sob a perspectiva da cultura indígena, em que os aspectos econômicos não aparecem em primeiro lugar. Já no subtítulo do texto, o jornalista do G1 ressalta que os castanhais são fonte de renda para os indígenas. Durante o texto o jornalista também evidencia outros aspectos relacionados a comercialização do produto, como a obtenção do Selo Nacional de Agricultura Familiar Indígena, garantindo credibilidade ao produto e rentabilidade, o preço da comercialização da castanha e a quantidade coletada.

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site El País

Outro aspecto que nos chama atenção nos dois textos, e que é frequente nos materiais jornalísticos, é a não valorização das fontes indígenas. No texto do G1, quem fala são os técnicos do projeto do Projeto Pacto nas Águas. No texto do El País são os especialistas do ISA, Funai e Greenpeace. O dirigente indígena Dinamam Tuxá somente é chamado a falar sobre questões políticas.

A matéria do G1 ressalta, porém, a integração do uso de novas tecnologias aos conhecimentos tradicionais, desmistificando a ideia de que ao terem acesso a celulares, computadores e drones eles deixariam de ser indígenas. É necessário ter presente que, como a nossa, as culturas indígenas não são estáticas. Elas mudam ao longo do tempo e incorporam muitas das inovações utilizadas por grupos sociais diferenciados. Além disso, mesmo se relacionando com os não-índios, os povos indígenas mantêm suas identidades e se afirmam como grupos étnicos diferenciados, portadores de tradições próprias. A identidade étnica, ou seja, a consciência de pertencimento a um determinado povo, não se apaga com uso da tecnologia, mas pelo contrário se fortalece no jogo complexo entre o “tradicional” e o “novo”, o “próprio” e o “estrangeiro”.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

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