Para encontrar as respostas, precisamos fazer as perguntas

Imagem: captura de tela do site The Intercept Brasil
*Ursula Schilling

Para que serve o jornalismo?

Faço essa pergunta, logo de começo, pois pretendo que esse texto verse sobre questionamentos, não somente sobre respostas. É comum esperarmos que o jornalismo nos revele aspectos da vida, pela cobertura de acontecimentos. É possível e previsível que ele faça isso. Mas, considerando seu papel social e seu potencial transformador da realidade, é importante que ele nos leve a pensar, a fazer o exercício reflexivo de entender o que está sob a superfície dos fatos noticiados.

Para ilustrar isso, parecem-me pertinentes duas matérias publicadas pelo The Intercept Brasil na última semana, que problematizam a questão da produção de lixo plástico e seu destino. A agência de notícias norte-americana, que se descreve como combativa e com liberdade editorial, divulgou informações de que a Coca-Cola seria a maior produtora do resíduo no mundoe que, mais do que isso, promoveria o discurso de “marca amiga do meio ambiente” na direção contrária daquilo que pratica. O texto traz dados de relatório internacional que elenca as corporações mais poluidoras do planeta. Tire um tempo para a leitura e veja que há ali, certamente, marcas “queridas” por todos nós e que, certamente, ao menos um item delas temos em casa.

Imagem: Pixabay

O caro leitor, a cara leitora pode estar pensando: mas e as manchas de óleo no Litoral do Nordeste? E as queimadas na Amazônia? Não seriam esse tópicos mais pertinentes para um Observatório de Jornalismo Ambiental?

Definitivamente essas temas, que têm ocupado os noticiários, merecem a devida atenção e uma análise continuada e cuidadosa. Mas eu garanto: o centro da minha reflexão tem relação com tudo isso. Por quê? Porque o que acontece com o ambiente tem causas, tem uma raiz. E são essas causas, a história que a história não conta, como cantou a Mangueira no carnaval 2019, que muitas vezes nem tangenciam a cobertura midiática, que precisam estar no nosso radar e na nossa mira.

Trecho do conteúdo do TIB provoca: “A duvidosa honraria recebida pela Coca-Cola, de figurar por dois anos seguidos como a maior responsável global pela produção de resíduos plásticos, vai de encontro à imagem de liderança ambiental cuidadosamente construída pela empresa”. Aqui está o eixo questionador. As instituições fazem o que realmente dizem fazer?

Não se trata de uma cruzada contra as marcas, de demonizar este ou aquele rótulo, mas de um movimento crítico em relação a todo um sistema produtivo, ancorado numa lógica de consumo muito bem estabelecida e dificil de ser revista.

Trata-se, também, de tirar das costas do consumidor o jugo exclusivo da culpa pelo caos ambiental que aí está. Veja bem, você e eu somos responsáveis por isso (também). Nossos hábitos contribuem, direta ou indiretamente, para a degradação assustadora e quase irreversível da Terra (no caso, a nossa casa). Mas se há consumo, há produção,e é essa instância que precisa ser cada vez mais questionada. É uma equação, com vários envolvidos.

Também não nos iludamos. Sozinho o Jornalismo (compreendidos aqui os jornalistas e sua rotina cada vez mais precarizada de trabalho) não poderá fazer frente à máquina de guerra do capitalismo. É uma luta inglória desafiar o discurso do desenvolvimento e o marketing competente pró-consumo. Um fio de esperança estaria, talvez, no jornalismo independente, uma vez que os veículos de comunciação tradicionais, a indústria da mídia, se mantém a custa dos espaços que vende. Vende para quem? Para quem anuncia. E quem anuncia? E, assim, entramos num looping infinito.

Para onde vai todo o lixo que produzimos? Como funciona, de fato, nossa cadeia produtiva? As empresas, grandes ou pequenas, que usam recursos da natureza e para ela devolvem resíduos, cumprem seus prometidos? E os governos? São comprometidos com a sociedade e o mundo onde ela está e deverá permancer? Ou dançam a dança do capital, protegendo e encobrindo as forças do mercado? Por que as praias do Nordeste brasileiro estão cobertas de petróleo? Por que a Amazônia arde em chamas? Por que os rios morrem? Por que nossas alimentos estão mais envenedados do que nunca? Por quê? Por quê? Por quê?

É um raciocínio simples, quase elementar, percebem? Mas quantos de nós consegue ativar essas interrogações nas atividades do dia a dia, especialmente as relacionadas a consumo (quase todas)?

E voltamos ao princípio: para que serve o jornalismo? Para manter em pauta essas perguntas, enquanto todos nós, não só os jornalistas, precisamos buscar pelas respostas.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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