Enquanto o Pantanal queima, Jornal Nacional elogia o agronegócio

Fonte: Captura de tela do Jornal Nacional

Por Nicoli Saft*

Durante essa primeira semana de setembro, o Jornal Nacional dedicou quase seis minutos para falar bem do agronegócio, em duas reportagens. De segunda à sexta-feira, as queimadas que destroem os biomas Pantanal e Amazônia foram noticiadas em uma nota coberta de 39 segundos que apresentou dados das queimadas do mês de agosto, divulgadas pelo Inpe.

No sábado, dia cinco, o telejornal destinou um pouco mais de 5 minutos a pautas relativas ao meio ambiente, um tempo considerável quando falamos de jornalismo televisivo. Foram cerca de 40 segundos sobre uma operação contra garimpo ilegal no Pará, o mesmo tempo em uma nota sobre as causas dos incêndios no Pantanal, e uma reportagem de quase 4 minutos sobre as implicações do desmatamento na economia. Mesmo com esse tempo, o foco da emissora está nas questões econômicas. O Brasil retornou para recessão este ano, e entendo que é necessário falar sobre os impactos econômicos das queimadas, entretanto, também é preciso discutir sobre os fatores que contribuem para o aumento do desmatamento e apontar o agronegócio também como um vilão nessa história.

As reportagens sobre o agronegócio  foram feitas pelo repórter Bruno Bortolozo, através da TV Centro América. afiliada da Rede Globo no Mato Grosso. A primeira , de segunda-feira, 31 de agosto, aborda a tecnologia utilizada no plantio de commodities. Com o auxílio de satélites e inteligência artificial, é possível saber exatamente qual a área mais produtiva da propriedade e qual necessita maior cuidado. Com a umidade sendo monitorada, as máquinas são programadas a parar quando está muito seco, devido ao risco de incêndio na plantação. Um dos entrevistados, o engenheiro de sistemas Flávio Tarasoff,  um aplicativo para monitorar a produção de alimentos/bens desde a origem, devido ao aumento da preocupação com o respeito aos protocolos “ambientalmente sustentáveis” e com a comprovação de que o produto não é proveniente de área de desmate ou reserva indígena”. Entretanto, mesmo que a fala de Tarasoff toque em alguns pontos importantes, por ela estar isolada acaba não se destacando. Na própria fala também fica perceptível a prioridade com o mercado consumidor, e não o meio ambiente.

Na segunda reportagem, de quarta-feira, 02 de setembro, o foco é o crescimento das exportações para a China – o principal produto é a soja, mas a exportação de carne bovina deu um salto, e os pecuaristas preveem um aumento nas vendas de carne suína. William Bonner, quando chama a reportagem, coloca o setor agropecuário quase como um modelo ao elogiar a sua resistência frente ao impacto da pandemia.

As notas sobre as queimadas, nas edições de terça-feira, dia 1º de setembro, e de sábado, dia 05 de setembro, são breves e não apontam as causas. A primeira nota apresenta os dados que indicam que este foi o pior mês de agosto em número de queimadas no Pantanal em 14 anos, segundo o Inpe.  As queimadas na Amazônia no mês de agosto foram a segundas piores dos últimos nove anos, atrás apenas de 2019.  A segunda nota  aponta o resultado de perícias iniciais das queimadas no MT que culpam, em grande parte, as ações humanas. A nota não indica quais são as causas  apontadas pela perícia, as quais podemos ver nessa matéria da Agência Brasil. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal (RPPN) , o incêndio foi causado para a criação de área de pasto para gado (algo que vimos nas queimadas da Amazônia no ano passado), já em local chamado de Fazenda São José, a fogo foi provocado para a extração de mel. Alguns incêndios foram acidentais, mas também causados pela ação do homem e/ou do agronegócio, como é possível perceber em máquinas agrícolas que pegaram fogo e em acidentes de carro. Existe também a possibilidade de que as secas que auxiliam o fogo serem resultado da atual Emergência Climática, como apontado por pesquisadores nesta reportagem da BBC News Brasil, embora afirmem que ainda são necessários alguns anos para entender a atual estiagem.

A única reportagem do Jornal Nacional que discute as queimadas mais do que 40 segundos  já  apresenta uma visão capitalista: os investimentos estrangeiros diminuíram. A destruição das florestas é lamentada, não pela perda da biodiversidade, ou pelo impacto no clima, ou até mesmo devido ao prejuízo cultural dos povos indígenas, mas sim em razão da perda do dinheiro estrangeiro. Os fundos de investimento cobram maior fiscalização do governo, entretanto, a reportagem não cita o agronegócio como um causador do desmatamento, sobre o qual podemos ver nesta reportagem da Mongabay . Constato uma triste ironia, a chamada do âncora cita o Dia da Amazônia, 05 de setembro, uma justificativa para pautar sobre o meio ambiente. O Jornal Nacional, nessa semana, não promoveu uma ligação entre as queimadas e o agronegócio, mesmo quando os entrevistados citaram o perigo de máquinas agrícolas pegarem fogo. É necessário entender que o agronegócio não é um exemplo para o Brasil, como aponta a segunda reportagem aqui mencionada. Ele é um dos causadores do afastamento de investimentos estrangeiros, mas a perda não é somente econômica. As florestas do Pantanal e da Amazônia continuam a arder, para em breve, virarem pasto e monoculturas.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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