Jornalismo ambiental e a arte de contar boas histórias, mesmo que sejam más

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

*Por Ursula Schilling

Em tempos de #ForaSalles e de Cúpula do Clima, pode parecer difícil disputar espaço para outras abordagens sobre a pauta ambiental, mas é necessário e, felizmente, há exemplos de que é possível. Chamo a atenção para a reportagem publicada no site The Intercept Brasil, “Syngenta sabia dos riscos de agrotóxico que matou 100 mil pessoas, mas preferiu lucrar”, sobre a omissão da referida empresa no manejo do herbicida “paraquate”, um dos seus produtos mais vendidos. O químico, que é extremamente tóxico para humanos, segundo a matéria, também “perturba as membranas celulares das plantas e interfere no processo de fotossíntese, de modo que os efeitos podem ser vistos dentro de algumas horas. Por funcionar com tanta rapidez, o paraquate foi celebrado como um avanço significativo quando foi introduzido nos anos 1960”.

A longa reportagem levou em consideração 400 documentos, e o esforço de investigação resultou numa história bem apurada e com uma série de elementos. Se levar informações qualificadas ao leitor/espectador é a premissa básica do profissional de imprensa, o bom jornalismo também é, como diz o jargão, a arte de contar histórias — ainda que sejam más histórias. O desenvolvimento adequado, rítmico e consistente da narrativa envolve o leitor e, assim, ajuda a promover o engajamento no tema, em especial numa área que, como pontuado neste Observatório, necessita de ativa militância para que seja cotidianamente pautado pela opinião pública.

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

Considerando a necessidade de uma perspectiva sistêmica para a cobertura midiática ambiental e não isolada das pautas cotidianas, o tema em questão — agrotóxicos — parece ainda pouco explorado, sobretudo nos meios de comunicação de massa. No caso de um portal como o The Intercept, a pauta recebeu um espaço grande o suficiente para atestar a importância do assunto. O tom é de denúncia, e o primeiro acerto se dá logo no título: sem meias palavras, destaca-se a importante informação — por vezes silenciada ou naturalizada nas coberturas-padrão — de que agrotóxicos, literalmente, matam.

Ao aprofundar o tema, no entanto, há um foco excessivo na questão da ingestão deliberada do paraquate (em suicídios), não trazendo um elemento central para a denúncia: estes produtos são usados em larga escala em lavouras de todo tipo, e os alimentos produzidos a partir da agricultura tradicional, que se vale de tais recursos para ganhar produtividade, vão para os nossos pratos. Haveria, certamente, espaço para uma melhor amarração, para uma abordagem que não desse a impressão de que o problema está em tomar deliberadamente uma dose do veneno. De qualquer forma, são importantes os fatos e dados trazidos pela matéria, mostrando a lógica da empresa e os efeitos funestos dela decorrentes.

Cabe reiterar ainda que, para o tipo de jornalismo que vai na contramão do desmonte das redações e da sobrecarga dos seus profissionais, é preciso uma porção de recursos fundamentais: humanos (jornalistas com condições dignas de trabalho e capacitados), materiais (para pesquisa, deslocamentos e tudo o mais necessário para uma boa apuração) e imateriais (tempo, coragem e retaguarda para fazer frente à oposição de gigantes da indústria de sementes e agroquímicos, por exemplo). Não é fácil fazer jornalismo de qualidade, mas torna-se cada vez mais imprescindível.

*Jornalista e membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O ambiente é ponto central da geopolítica – e do jornalismo

Por Débora Gallas Steigleder*

Por muito tempo, os estudos sobre jornalismo no Brasil destacaram a pouca recorrência das pautas ambientais no universo das hard news – aquelas notícias que ganham as manchetes e destacam os acontecimentos de grande impacto na atualidade. Na última semana, porém, a repercussão sobre a postura do governo Bolsonaro na Cúpula do Clima promovida pelos Estados Unidos evidenciou que os tempos são outros. O evento, que teve início em 22 de abril, ofuscou pautas de efemérides que normalmente seriam encontradas sobre a data festejada na ocasião: o Dia da Terra.  Em algum passado não tão distante, a data renderia apenas uma lista de fatos curiosos.

O enfrentamento às mudanças climáticas é a ordem do dia nas discussões diplomáticas, e o jornalismo começa a reverberar a urgência percebida pela comunidade científica e pelas comunidades afetadas. A movimentação da cobertura foi ainda anterior ao pronunciamento dos líderes mundiais, na tentativa de compreender o contexto político e econômico que moldaria a estratégia discursiva a ser adotada por Jair Bolsonaro para o encontro. Podcasts como Café da Manhã (Folha de S. Paulo/Spotify) e O Assunto (Globo), por exemplo, tiveram episódios dedicados às expectativas da participação brasileira na Cúpula do Clima, já prevendo que o presidente brasileiro precisaria esconder sua orientação negacionista para não espantar investimentos no país.     

Os programas ressaltaram que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil tem origem no desmatamento e recordaram a denúncia de cientistas e de organizações não-governamentais      sobre a omissão do governo federal em relação aos crimes ambientais, especialmente no âmbito do Ministério do Meio Ambiente. Também ressaltaram que tal desmonte atinge sobretudo os povos indígenas, enfim reconhecidos como importantes atores no debate sobre clima pelo jornalismo hegemônico. De fato, a cobertura jornalística parece compreender a transversalidade da pauta ao abordar a relação conflituosa entre sociedade e natureza. No Portal G1, por exemplo, os desdobramentos do discurso de Bolsonaro foram manchete em diversas editorias ao longo do dia, como Mundo, Política e Natureza     .

Porém, o destaque da cobertura foram as possíveis sanções econômicas que o governo estadunidense pode impor ao Brasil caso o país não apresente resultados que indiquem comprometimento com a meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050, uma vez que a gestão de Joe Biden busca reposicionar o país como liderança nas articulações geopolíticas internacionais a partir da pauta climática. É necessário, portanto, que a cobertura jornalística siga atenta aos desdobramentos das negociações que envolvem as políticas ambientais – do âmbito local aos encontros de líderes globais.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Voo químico sobre vidas humanas em Nova Santa Rita

Por Sérgio Pereira*

Poucos dias após conquistarem uma liminar na Justiça Federal, produtores de orgânicos da pequena Nova Santa Rita (RS) ficaram surpresos ao avistarem uma aeronave sobrevoando as suas casas. Afinal, o recurso judicial justamente impedia a aplicação aérea de agrotóxicos em propriedades vizinhas devido à contaminação de seus cultivos pela chamada deriva (quando a aplicação de herbicida é levada pelo vento para fora do local desejado e atinge outras áreas). O mais surpreendente foi que o bimotor começou a dar rasantes sobre o assentamento Santa Rita de Cássia II do MST, pulverizando plantações, moradias, estufas e pessoas.
O caso, ocorrido no dia 16 de março, resultou em um boletim de ocorrência na Polícia Civil e em diversos atendimentos em uma unidade básica de saúde próxima. Produtores e familiares relataram que sentiram sintomas como náuseas, irritação nas vias respiratórias e dores de cabeça após terem inalado o produto liberado do avião. Além do prejuízo financeiro com o despejo de veneno sobre as plantações de orgânicos.
Na semana passada, a informação era que a Polícia Federal, a partir de um pedido do Ministério Público Federal, deve investigar a denúncia, que se confirmada revelará, na verdade, não apenas um crime, mas também uma estratégia revoltante nesta guerra entre grandes produtores e pequenos agricultores de orgânicos: o uso deliberado de pesticida como arma química sobre vidas humanas.
A notícia de Nova Santa Rita, divulgada dois dias depois do ocorrido no site do MST, não teve o mesmo interesse por parte da imprensa gaúcha, apesar de envolver a aplicação de veneno diretamente sobre as casas do assentamento e pelos casos de intoxicação, cujas consequências à saúde poderiam ser mais graves. O jornal Correio do Povo, por exemplo, ignorou a denúncia em suas versões impressa e digital.
Zero Hora, o jornal de maior repercussão no Estado, também não deu espaços para a notícia em sua versão on-line. Já em sua edição impressa, publicou na coluna de agronegócio um tópico na edição conjunta de 20 e 21 de março, cinco dias após o ocorrido e com o título genérico “Pulverização em área de orgânicos”. A nota apresenta como fonte o advogado das famílias de assentados e deixa a entender apenas que houve o descumprimento da liminar deferida pela Justiça Federal.
Na edição seguinte, no entanto, ZH abriu espaço idêntico para a manifestação dos acusados. O texto “Pulverização em Nova Santa Rita” traz a versão apresentada pelo advogado dos grandes produtores. Em sua defesa, eles alegam que o bimotor era usado somente para treinamento e negam a aplicações de pesticidas diretamente sobre o Santa Rita de Cássia II.
O jornal Diário de Canoas, que cobre o município de Nova Santa Rita, publicou em seu site uma notícia mais aprofundada no dia 22: “PC investiga avião que pulverizou agrotóxicos de forma irregular”. As fontes citadas eram a prefeita do município, um delegado de Polícia e um diretor do sindicato que representa as empresas de aviação agrícola. Nenhum agricultor do assentamento foi ouvido. Dois dias depois, o mesmo DC abriu página de sua versão impressa com o título “Não existem provas de pulverização irregular”, novamente sem citar declarações das vítimas e dando amplo espaço para o advogado dos acusados e o sindicato das empresas de aviação. A mesma notícia também foi postada no site do DC no mesmo dia.


O melhor exemplo de cobertura por parte da imprensa foi do site do jornal Extra Classe, ligado ao Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e de circulação restrita. Dois dias após o ataque, o portal já denunciava o caso, ouvindo os agricultores e seu advogado e trazendo o seguinte título: “Aeronave clandestina pulveriza veneno sobre assentamento do MST em Nova Santa Rita”.
Os grandes veículos de imprensa em geral reservam sua cobertura rural para o modelo do chamado agribussines, desviando de temas considerados polêmicos e abrindo generosos espaços somente após tragédias de grande repercussão. Lamentável, no entanto, é terem desconsiderado o risco às vidas humanas envolvidas neste caso de Nova Santa Rita e não buscarem uma cobertura menos superficial e mais próxima da verdade.

  • Jornalista, mestrando em Comunicação e Informação. E-mail: spimprensa@gmail.com

Jornalismo da casa de garrafa de vidro

Por Míriam Santini de Abreu*

Pululam sem parar notícias e reportagens que buscam mostrar as alternativas dos brasileiros empobrecidos para sobreviver. O desespero – como usar lenha na falta de gás para cozinhar – vira “resiliência” e capacidade “empreendedora”. A reportagem do Globo Repórter intitulada “Ameaçadas de despejo, mãe e filha erguem casa com mais de 4 mil garrafas tiradas do lixo”, disponível em https://glo.bo/2PqUURa, enquadra-se nessa abordagem (1). Mas, tal como o vidro, na reportagem insinuam-se facetas que deixam a luz passar.

“Foi um trabalho de formiguinha e de muita consciência ambiental”, define a reportagem, ao se referir às incontáveis vezes que as duas mulheres recolheram garrafas jogadas no manguezal de uma praia de Itamaracá, em Pernambuco, para construir a moradia, aprendendo inclusive técnicas de construção.

Está-se diante da práxis inventiva, da prática criadora de que fala o sociólogo francês H. Lefebvre. O fazer humano de duas mulheres excepcionais para restaurar no cotidiano, sozinhas, o direito de morar. Mas a reportagem, ainda evocando o pensamento de Lefebvre, não tira a máscara das coisas para revelar as relações sociais. Nos quase 10 minutos não há menção a qualquer instância do poder público que possa dar sentido ao trabalho imposto à mãe e filha, abordando a dificuldade de pagar aluguel e/ou comprar moradia no mercado imobiliário, principalmente com os recursos públicos cada vez mais escassos e o fim dos grandes programas habitacionais.

Mesmo a ideia do reuso de materiais não se potencializa por não implicar a indústria no compromisso com o que produz. Fica apenas a menção genérica ao “descarte sem respeito à natureza”. Uma abordagem socioambiental, ainda que breve, não faria a reportagem resvalar para o discurso tão em voga de que “enfrentar desafios e vencer” – como anuncia o programa – depende unicamente da capacidade de resiliência dos indivíduos.

Mas há brechas notáveis na reportagem, como dar o conhecer o cotidiano de mãe e filha, as dificuldades pelas quais passaram, a amorosa trama que as une no cotidiano, e, em especial, a fala das duas sobre a dureza da existência, agravada por serem negras em um país que se ergueu sob os ombros de escravizados. A repórter entra na casa – algo raro, antes ou agora, na pandemia, iniciativa ligada ao fato de a casa ser ela própria uma personagem. Lá dentro estão as delicadezas do morar, a colcha de fuxico, as almofadas coloridas, os quadros, os objetos da cozinha. “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreveu o filósofo G. Bachelard. A repórter mostra rotinas como o preparo dos alimentos e o trabalho da filha, que estuda moda – tendo que gastar seis horas por dia para ir à faculdade – e cuida de um pequeno brechó nos fundos do terreno, divulgando nas redes sociais as peças vestidas por modelos negros.

Ao final da reportagem, a abertura da imagem aérea mostra a casa e, progressivamente, o seu entorno, o litoral recortado e habitado, a lembrar que cabe ao jornalismo desvendar por inteiro a experiência vivida no espaço, um produto social sobre qual a pequena casa de vidro tem, potencialmente, muito a contar.

1 – A reportagem foi exibida em 26 de março passado como parte de um programa intitulado “Conheça histórias de brasileiros que são exemplos de resiliência com o Globo Repórter” que continha, entre outras, a história de mãe e filha.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br