Consumo pós-pandemia: temos algo a comemorar?

Imagem: Captura de tela do site de O Globo

Por Eutalita Bezerra


Com a média móvel de mortes por covid-19 em queda – mesmo com o Brasil atingindo, nos últimos dias, um patamar aterrador de 600 mil vidas perdidas -, a expectativa de retomar a vida “normalmente” já é uma realidade para diversos setores. No comércio, uma consequência esperada (e até fomentada, como abordaremos a seguir) é chamada de revenge buying, revenge shopping ou, em bom Português, consumo de vingança. O termo, que começa a se popularizar em reportagens no Brasil, traz consigo um apelo às compras derivado do período de restrição. Isso se reflete, claro, em mais pressão no planeta e leva-nos a um espiral perigoso. Mas como o jornalismo tem lidado com o assunto?

Embora o termo não seja novo, a discussão sobre revenge buying ganhou força em meados de 2020, após o confinamento na China, determinado pela pandemia do novo Coronavirus. O fenômeno social de consumo, que foi facilmente percebido pelo mercado de luxo, contou com dois momentos auge naquele país: o primeiro, online, ainda durante a quarentena; e o segundo, em compras no ambiente físico, logo após o período de distanciamento físico.

Em nosso país, no qual o lockdown nunca foi uma política pública e o comércio ficou restrito por um período muito curto de tempo, parece-nos um malabarismo enorme apostar que um possível aumento no consumo decorra das mesmas bases encontradas na China. Apesar disso, não raro localizamos o termo no jornalismo brasileiro.

Em reportagem publicada no último dia 1º deste mês, intitulada “Retorno da noite de São Paulo, abalada pela pandemia, é marcado por ‘consumo de vingança’ e incertezas” , a prática de comprar mais que o habitual (e necessário) é descrita como uma “pequena indulgência” para comemorar o fato de estar vivo (!). Tratando dos hábitos de consumo em bares e restaurantes, a discussão no texto de O Globo não ultrapassa os limites dos tão convencionais “retomada da economia” e “projeção de receita a níveis pré-pandêmicos” e o consumo exacerbado é descrito como “uma farra que não vai durar muito tempo”.

Para além do insulto, considerando a situação econômica do país, em que vísceras e aparas de pescados ou ossos de animais são vendidos para alimentação de uma população cada vez mais pobre,   sustentar a discussão de consumo como apenas uma lógica comercial, pela qual se poderia salvar a economia, é ser superficial demais. Ou, no mínimo, mal intencionado.

As consequências ambientais decorrentes de um consumo acima dos limites do planeta colocam a todos em risco. E fazê-lo para festejar a sobrevivência ou para alcançar um sentimento de completude é um contrassenso que nos empurra a passos largos para o colapso. 

O consumismo como passaporte para o bem-estar, aliás, é assunto que El Pais Brasil, explorou nos últimos dias, com uma reportagem intitulada ” Consumir procurando uma felicidade que nunca chega, como compramos para construir nossa identidade“. Nesta, destacamos:

“Ao consumo são atribuídas uma série de vantagens que ele na verdade não tem, mas o consumismo continua sendo encorajado, já que é o combustível principal do atual sistema econômico.”


Neste sentido, além de discutir as razões para o consumismo e o modo como a publicidade (ou, mais especificamente, os mais de 6000 estímulos publicitários que recebemos diariamente, como dito na reportagem) constrói a ideia de compra como terapia e atividade de lazer, a reportagem reconstitui o surgimento do consumismo como fenômeno próprio de sociedades desiguais.


No subtitulo “Contra os limites do planeta”, El Pais Brasil pontua que consumimos hoje como se tivéssemos à disposição 1,7 planetas Terra, e esse ímpeto está relacionado aos nossos valores, ao que nos emociona. Levando isso em conta, um consumo dito ecológico, sustentável e, porque não, anticapitalista pode, em vez de ser uma forma de se afastar do exagero, tornar-se mais uma opção de compra. O que muda é como estas lógicas se alinham com o que tomamos como correto. 

Assim, propiciar um entendimento mais amplo acerca das causas e consequências das nossas ações individuais – nesse caso, do consumo, seja ele por vingança ou pelo desejo de alcançar a felicidade – embora não seja a chave para a resolução dos nossos problemas ambientais, é uma maneira de construir novos valores que repercutirão na nossa tomada de decisão perante um mercado cada vez mais agressivo.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do GPJA. E-mail: eutalita@gmail.com

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