Bots, automação de dados e o jornalismo no encalço do garimpo

Por Mathias Lengert*

Imagem: InfoAmazônia. Bot do Amazônia Minada mapeia requerimentos minerários em áreas protegidas.

Nas redes sociais, especialmente no Twitter, robôs estão se tornando ferramentas ágeis para que jornalistas atualizem os leitores – e a si próprios – sobre informações de interesse público, sendo especialmente relevantes na cobertura de questões ambientais. Essas contas automatizadas, também chamadas de bots, são programadas com o auxílio de algoritmos para monitorar acontecimentos, decisões judiciais e colaborar com a transparência de dados.

A automação de dados favorece o rápido acesso a informações brutas e possibilita uma atuação jornalística aprofundada, que dispõe de mais tempo para investigar os dados levantados. Entre diversas iniciativas, três projetos estão vinculados à proposições ambientais, o bot do Amazônia Sufocada, que emite alertas sobre focos de queimadas nesse bioma, e o bot do Amazônia Minada, responsável por monitorar requerimentos de mineração em terras indígenas e unidades de conservação da Amazônia, ambos gerenciados pelo InfoAmazônia com apoio do Rainforest Journalism Found e do Pulitzer Center; e o Robotox, um projeto da Agência Pública e da Repórter Brasil, que informa sobre os agrotóxicos liberados pelo governo federal.

Embora essas ferramentas estejam alinhadas com um interesse por informações instantâneas, sem tratamento, elas não dispensam a responsabilidade do jornalista em contextualizar em seus textos os dados coletados pelos bots. Ao promover interrelações de um acontecimento com as suas circunstâncias, o jornalismo explora o contexto de dados e informações, até então fragmentados, e apresenta distintas realidades aos leitores. 

As pautas ambientais, como o avanço sórdido do garimpo em terras indígenas, por exemplo, demandam atenção para sua complexidade e urgência. A partir do bot Amazônia Minada, o InfoAmazônia organiza os dados e direciona as suas reportagens para essas necessidades. Ao investigar os recorrentes ataques de garimpeiros aos Yanomami, os dados do projeto indicaram que ao menos um terço de seu território estava sendo requerido para mineração na Agência Nacional de Mineração (ANM), uma área equivalente ao tamanho da Bélgica. Em reportagem recente, o veículo denuncia os pedidos de uma cooperativa de mineração para explorar uma série de territórios indígenas. Para isso, o InfoAmazônia mapeou os dados disponibilizados pelo Sistema de Informação Geográfica da Mineração, da ANM, além de questionar autoridades.

Enquanto os retrocessos da especulação e invasões em terras indígenas possuem o apoio de integrantes do governo de Jair Bolsonaro, o jornalismo do InfoAmazônia, por sua vez, realiza um significativo trabalho de monitoramento da destruição da floresta, seja a partir de dados ou da escuta de indivíduos impactados, e assim, contextualiza os impasses da exploração de minérios no ambiente amazônico. A automação de dados, por sua vez, é uma aliada produtiva ao jornalismo, permitindo que as investigações se estruturem a partir dos fatos mais alarmantes, sem deixar de promover interlocuções com o público.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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