A cobertura ambiental de 2025: o que esperar depois da COP brasileira?

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em 2025, o jornalismo de meio ambiente no Brasil lidou com uma agenda intensa: da política e legislação ambiental em chamas aos holofotes da COP-30 em Belém, que, para além da cobertura dos preparativos, contou com iniciativas de mobilização e discussão durante o ano todo. Foi possível observar notícias pautadas pela urgência na prevenção e mitigação de desastres climáticos, e mais visibilidade às demandas dos povos originários. Contudo, ainda é cedo para dizer que esses enfoques persistirão no médio e longo prazos.

Na publicação “O Jornalismo no Brasil em 2025”, da Associação Brasileira de Jornalismo e do Farol Jornalismo, veiculada no final de 2024, profissionais e pesquisadores de Jornalismo apontaram temáticas a se atentar nas coberturas. Entre elas, “Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025” da Rede Wayuri, e “Em 2025, coberturas de desastres climáticos vão exigir novos jornalismos”, fruto das observações do que foi vivenciado no Rio Grande do Sul a partir da eclosão do desastre em maio de 2024.

Uma análise retrospectiva do trabalho da imprensa ao longo deste ano indica que algumas previsões se concretizaram, mas muitos desafios persistem. Embora tenhamos tido um ano com muita cobertura ambiental, a fragmentação do assunto dificulta a compreensão da população, enfraquecendo o debate público. Mesmo com o mundo de olho na Amazônia em razão da COP, os políticos brasileiros aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (ou PL da Devastação), que prejudica a proteção do meio ambiente. 

Com o Observatório, analisamos os enquadramentos, termos e lacunas das reportagens percebidas pelo viés do Jornalismo Ambiental. Em maio, nossa análise “A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?” demonstrou que os veículos hegemônicos trouxeram contrapontos importantes ao PL, mas focaram de forma majoritária em fatores econômicos, com espaço exacerbado aos interesses do agronegócio e das petroleiras. Em agosto, Ilza Girardi e Isabelle Rieger seguiram observando de perto os termos utilizados na mídia hegemônica e independente para tratar da nova lei, sendo “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” os mais citados pela primeira, enquanto a segunda focou na possível destruição do meio ambiente causada pela aprovação. 

No texto de 2024 que buscava apontar o que estava por vir, a ampliação do debate ambiental no País estava prevista. Porém, notamos a predominância de uma perspectiva político-econômica, que favorece o desenvolvimentismo a qualquer custo. Com relação à cobertura do PL da Devastação, de forma específica, o Observatório identificou as contradições de se flexibilizar a proteção ambiental enquanto se fala cada vez mais no combate à emergência climática. 

Outra contradição marcante em 2025 foi a concessão da licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas em data próxima à realização da Conferência das Partes. Embora anfitrião da COP, o governo federal defendeu o discurso de que a exploração do petróleo viabilizaria a transição energética. Na previsão de 2024, já se apontava que “explorar petróleo para garantir a transição energética ou vender o mercado de carbono como uma saída para a crise climática são falácias que deveriam ser mais bem checadas pelo jornalismo.”

Também foi notado o amplo apelo de setores econômicos, como a mineração e o agronegócio, que contribuem para as emissões de gases de efeito estufa fazendo lobby no ano da COP, para se venderem como protagonistas das soluções climáticas. Entretanto, em alguma medida, jornalistas apenas foram porta-vozes das disputas que atravessam a questão ambiental, como se o nosso futuro neste planeta não fosse a principal pauta de interesse público da contemporaneidade.

A perspectiva de maior volume de notícias em razão  da COP-30 se realizou, sendo que muitos aspectos climáticos foram bem explicados e aprofundados na mídia. O evento impulsionou o crescimento de projetos jornalísticos especializados, cursos de formação para comunicadores e uma cobertura mais intensificada por veículos tradicionais e independentes. Neste Observatório, avançamos na produção de críticas de mídia, com o especial “De olho na COP”. A imprensa, particularmente a não hegemônica, cobriu intensamente a contradição de o Brasil sediar a COP-30 enquanto licenciava a perfuração de poços. A omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da COP-30 foi o tema mais criticado pela imprensa brasileira, que relatou a frustração do resultado da conferência.

Segundo o texto da Rede Wayuri, a importância da comunicação e dos saberes indígenas é considerada decisiva para o enfrentamento da crise climática, representando não apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. O texto vislumbrando o Jornalismo em 2025, destacava mais espaço para a comunicação popular e as redes comunitárias,.

A partir da COP-30, esse protagonismo indígena ganhou relevo. Com a maior participação de povos originários em três décadas, cerca de 400 representantes indígenas estiveram credenciados nas salas de negociação oficial. A mobilização indígena foi um fator de destaque em alguns veículos, especialmente os independentes e dedicados à pauta ambiental, sendo considerada uma grande força política.

Apesar da presença inédita, a análise da cobertura midiática durante os eventos, como a Pré-COP, realizada em Brasília, indicou que a imprensa tradicional tratou as manifestações e reivindicações de povos indígenas e quilombolas de forma tímida, deixando suas vozes à margem do debate público midiático. Em decisões cruciais, como a aprovação da Lei Geral do Licenciamento e da exploração em território ambiental sensível como a Foz do Amazonas, suas vozes continuam sendo ignoradas, com poucas execeções. Logo, a reivindicação por mais visibilidade segue sendo uma demanda dos povos indígenas – e de muitos outros grupos que não são vistos como fontes qualificadas para a elaboração de notícias. Uma luta que deve avançar nos próximos anos.

Para 2026, o Farol Jornalismo e a Abraji lançaram novamente uma publicação de previsões para o Jornalismo – e aqui destacamos o texto: “Emergência climática e integridade da informação num cenário polarizado”. Nele, os autores indicam que o tema da emergência climática é tensionado por simpatias e antipatias políticas. Com as eleições presidenciais no próximo ano e o contexto de polarização interna, é esperado crescentes ondas de desinformação e produção de falsos conteúdos com o auxílio da Inteligência Artificial. Diante desses desafios, a confiança do público no Jornalismo é evidenciada, sendo que as informações devem ser íntegras, com checagem e fundamentação de qualidade, baseadas na ciência. Essa análise destaca também a importância do jornalismo local, cuja cobertura deve questionar as falhas e pressionar o dedo nas feridas dos governos regionais por todo o Brasil.

Além disso, alertam para outra tarefa do Jornalismo: a COP não acaba quando termina. As inúmeras pautas ambientais levantadas em 2025, impulsionadas pelo evento, não podem ser esquecidas. O trabalho pela preservação do meio ambiente é contínuo e deve estar presente durante todo o ano, em todas as editorias, de forma sistêmica. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O agro que sonhava ser pop agora quer virar lição de casa

Foto: Matinal/Isabelle Rieger

Por Ilza Maria Tourinho Girardi* e Sérgio Pereira**

Ser brasileiro com consciência ambiental e de cidadania exige muita saúde ou ter um amparo psicológico permanente.

A COP30, realizada em Belém (PA) no mês de novembro, deixou muito a desejar pelas decisões aguardadas e que não aconteceram. Além disso, foi liberada a exploração, em forma de estudos iniciais, do petróleo na foz do rio Amazonas. As vozes indígenas, demais povos da floresta, dos cientistas e dos ecologistas não foram ouvidas. Nem os pedidos do cacique caiapó Raoni sensibilizaram Lula. Agora, o presidente da República pede a seus ministros das pastas de Minas e Energia, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Fazenda e da Casa Civil que elaborem o mapa para a substituição dos combustíveis fósseis. Então, por que liberar agora?

Vivemos no Brasil tempos de dissonância cognitiva. Nesse cenário político perturbador somos surpreendidos com a matéria da independente Matinal Jornalismo do dia 8 de dezembro sobre as atividades da associação De Olho no Material Escolar (DONME). Assinado pela jornalista Brenda Fernández, a reportagem “Como o agro quer controlar o que é ensinado nas escolas gaúchas” traz alerta importante para organização criada por produtores rurais e que está tentando mudar a forma como o agronegócio é abordado nas escolas públicas.

Conforme a matéria, a DONME já palestrou em 18 cidades gaúchas, a maioria conhecidas por sua tradição agrícola, como Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Pelotas, Rio Grande e Dom Pedrito, entre outras. As atividades quase sempre são realizadas em feiras agrícolas ou em formato de visita a fazendas modelos de empresas associadas ao projeto. Conforme dados da entidade, até agora, cerca de 3,7 mil alunos e professores do RS foram impactados com os seus cursos entre 2024 e 2025.

A principal missão da associação é tentar fazer prevalecer seu discurso sobre como o agronegócio é importante para a economia. “Na pauta da DONME, estão sete prioridades elencadas em uma cartilha divulgada pela associação (leia aqui) em que a entidade deixa claro os seus objetivos. Entre as propostas para o PNE, está aplicar uma prova em professores ‘inspirada na experiência bem-sucedida do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil’, aumentar a participação da sociedade na indicação de avaliadores responsáveis pela revisão dos livros e criar uma etapa em que órgãos e instituições científicas auditem ‘de forma independente’ os conteúdos dos livros antes da publicação”, relata a jornalista na reportagem.

O agro quer agora fazer prevalecer sobre o imaginário de nossos estudantes uma narrativa parcial, incompleta e, por vezes, negacionista. A exemplo do movimento de extrema direita Escola Sem Partido, a entidade tenta apagar da realidade informações sobre o agronegócio brasileiro e seus problemas. É o caso da silenciosa destruição dos biomas brasileiros, inclusive o Pampa afetado sem perdão pelo avanço da soja; do uso indiscriminado de agrotóxicos; ou do grave problema da deriva de pesticidas que afeta não somente a saúde de todos, mas também a economia de produtores de outras culturas.

As últimas notícias não têm dado descanso aos brasileiros que travam a luta ambiental e que defendem um país melhor para todos, não apenas para alguns, como a classe ruralista. É grande a força do agro, cada vez mais mecanizado, com sua majoritária bancada no Congresso Nacional determinando os rumos da política, com a predominância em nossas lavouras da monocultura da soja, exportada em sua grande maioria como ração para gado. A escola, no entanto, não é lugar para versões, mas sim um espaço para o aprendizado, a convivência social e, agora mais do que nunca, para consolidação da verdade.

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS 

E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br

**Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

A devastação retorna à pauta: entre a derrota política e o risco sistêmico

Por Cláudia Herte de Moraes*

Em geral, os temas ambientais são complexos, refletindo a própria vida em sociedade. Em contraposição, a tônica do Jornalismo, em alguma medida, reside na possibilidade de simplificar a realidade para apresentar ao leitor um panorama dos principais pontos da pauta. Em um cenário de intensa disputa política pós-COP30, selecionei duas reportagens para observar o tratamento dado à derrubada dos vetos do presidente Lula na Lei Geral do Licenciamento Ambiental (popularmente chamada de “PL da Devastação”), ocorrida nesta semana. Escolhi ambas por serem detalhadas, permitindo identificar diferentes aspectos e refletir sobre como o Jornalismo pode atuar na vigilância e na fiscalização da agenda ecológica no Brasil.

A reportagem da Agência Pública focou no significado do fato, encarado como uma derrota para os ambientalistas e a base do governo. O texto detalhou o retorno de pontos perigosos, como a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC) para projetos de médio potencial poluidor, modalidade na qual se encaixam as barragens de Mariana e Brumadinho. Já a BBC News abordou a fragilização das normas e a insegurança territorial aos povos tradicionais. Neste caso, o foco na derrota política do governo também veio acompanhado da descrição dos pontos que voltaram ao arcabouço legal e que reduzem a proteção ambiental, tais como a regionalização de critérios, a ampliação da LAC, a diminuição da defesa da Mata Atlântica e a não vinculação de pareceres de órgãos como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Executivo cogita a judicialização (STF) como resposta.

As reportagens analisadas mostram que há ênfase na contextualização. A BBC, ao mencionar a judicialização e a iminente “guerra de flexibilizações” entre estados, ilustra uma cobertura sistêmica, conectando o ato político (do Legislativo) às esferas jurídica, econômica e federativa. A Pública reforça essa conexão ao ligar o LAC aos desastres de Mariana e Brumadinho, conferindo peso histórico e social ao risco iminente.

Os textos usam a voz de autoridades técnicas e ambientais (Ibama, MMA, ONGs) demonstrando que o saber ambiental foi uma lente importante para a apuração. Observei que há um tom de alerta e advertência, ao preverem o aumento do desmatamento e a insegurança jurídica, diretamente alinhado com o Princípio da Precaução. O Jornalismo, neste caso, atua como um sistema de alarme social, amplificando as vozes que buscam antecipar e evitar o dano irreversível.

Embora as reportagens tragam informações importantes e contextualizadas, diante do cenário de destruição, constatei que ainda há espaço para aprofundamentos, especialmente em direção à transformação social. Os textos citam o argumento dos defensores do PL (que apontam maior “segurança jurídica” e/ou a possibilidade de maior “desenvolvimento”) de forma superficial, geralmente em uma única frase. O indicado é aprofundar a lógica por trás do lobby e dos argumentos pró-flexibilização. É fundamental entender o que o chamado setor produtivo espera e como essa agenda se articula no Congresso, expondo, por exemplo, os interesses da bancada ruralista. A reportagem deve investigar se esses interesses são contemplados economicamente e até mesmo se o produto do agro brasileiro, sem fiscalização, perde valor e competitividade em mercados externos exigentes.

Percebi que a complexidade da derrubada de vetos (56 de 63) e dos mecanismos legais (LAC, regionalização dos critérios) pode ser densa para o público leigo. A indicação aqui seria melhorar a qualidade da informação com o uso estratégico de recursos visuais que detalhem o retrocesso ambiental e a dinâmica dos vetos de forma mais didática e acessível.

Adotar o tom da derrota do Executivo pode ser um risco, desviando o foco do problema estrutural. A ideia é que o Jornalismo assuma a responsabilidade de ir além da reação política imediata. Para isso, é preciso manter a cobertura constante sobre os impactos concretos da nova lei, associados ao aumento do desmatamento e a novos desastres socioambientais. Cobrar a responsabilização dos parlamentares que derrubaram os vetos, e sugerir alternativas e soluções é uma proposição da função política do jornalismo ambiental, servindo para orientar a ação do cidadão, e não apenas sua indignação.

 Em conclusão, posso afirmar que as duas reportagens representam um avanço na cobertura ambiental brasileira, agindo com as lentes do jornalismo ambiental ao expor a gravidade de uma decisão legislativa que foi contrária à posição de inúmeras organizações sociais, ambientalistas e científicas. Mas, para consolidar-se como agente para a mudança de pensamento e não apenas de informação, deve refinar sua prática na desconstrução das narrativas do lobby (a partir da pluralidade de perspectivas e da qualificação da informação), trazendo para si o compromisso com o monitoramento a longo prazo dos impactos, garantindo que a “vitória” do Congresso sobre os vetos não se torne uma derrota permanente para o interesse público.

*Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br 

Como a imprensa brasileira avaliou a COP30: tensões, omissões e avanços limitados

Por Nadja Nobre*

A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.

Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.

Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.

O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.

A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.

Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.

A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.

Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.

No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.

Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.

A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.

* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.