
Crédito: NOAA
Por Luciano Velleda*
“Fortes chuvas que atingiram RS já são os primeiros efeitos do El Niño, afirmam meteorologistas” O título da matéria do G1, no último dia 29 de junho, é um exemplo recente de como o tema do fenômeno El Niño tem mobilizado a imprensa do Rio Grande do Sul. Desde que os cientistas e as previsões meteorológicas começaram a indicar a possibilidade de um forte El Niño em 2026/2027, a questão tem sido abordado frequentemente na mídia gaúcha.
No começo de junho, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do El Niño. Segundo a agência, há 63% de probabilidade do fenômeno se tornar muito forte, talvez um dos maiores desde 1950. No Brasil, os efeitos do El Niño são secas nas regiões Norte e Nordeste e muita chuva na Região Sul. O mesmo G1 publicou outra matéria também em junho, sob o título “El Niño já está atuando, confirma agência dos EUA: saiba quais as consequências possíveis para o RS”.
No jornal Zero Hora, o tema El Niño foi abordado ainda em janeiro, com a matéria “Fim do La Niña? Começo do El Niño? As possíveis mudanças climáticas no RS em 2026”, já antecipando a preocupação com o fenômeno num estado marcado pela tragédia da inundação de maio de 2024. O tema voltou a ser abordado outras vezes por Zero Hora, como em abril, com a matéria “El Niño pode chegar mais cedo ao Rio Grande do Sul? Veja por que o fenômeno está se antecipando”, e em maio, com o título “El Niño antes do esperado? Alerta preocupa Rio Grande do Sul”.
O jornal Correio do Povo, o segundo maior do RS, também tem abordado o assunto. Em abril, publicou um longo artigo, “Fenômeno El Niño volta a ameaçar o Rio Grande do Sul” e, em junho, outras duas matérias: “El Niño começa a influenciar o clima e pode aumentar as chuvas no RS nas próximas semanas” e “Para agilizar resposta a emergências climáticas, ministro da Saúde inaugura base regional da Força Nacional do SUS no RS”.
Em comum, todas as reportagens explicam o que é o fenômeno El Niño e destacam suas consequências, principalmente para o Rio Grande do Sul, citando que a intensidade do fenômeno está relacionada com as mudanças climáticas. Todavia, as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala.
Em junho, reportagem da TV Bandeirantes mostrou que o El Niño tem sido um dos temas mais pesquisados pelos internautas gaúchos. O tema ocupou também a TV Pampa, em maio, com a matéria “Novo fenômeno El Nino deve ter impacto climático no RS a partir do segundo semestre”.
Veículos de imprensa locais também tem dado destaque para a previsão de um forte El Niño em 2026. É o caso, por exemplo, do tradicional grupo ABC+, que abrange diversos municípios da região do Vale dos Sinos e que, ainda em fevereiro, publicou a reportagem “El Niño: Transição para o fenômeno que traz chuva excessiva ao RS já começou; entenda os impactos”. O mesmo foi feito pelo jornal Gazeta, de Santa Cruz do Sul, em junho, sob o título: “El Niño é confirmado e preocupa especialistas no Rio Grande do Sul”, e pela TV Cachoeira, com a reportagem “El Niño avança e liga alerta no Rio Grande do Sul”. Novamente, as reportagens deixam de lado a relação da influência humana com as mudanças climáticas e com o próprio El Niño.
Dois dos principais veículos da chamada mídia independente também tem dado destaque para a previsão do fenômeno. Na última semana de junho, o Sul21 publicou duas notas, ambas originalmente feitas pela Agência Brasil: “Com foco no El Niño, IBGE apresenta ferramenta para prevenir desastres” e “Ministério da Saúde lança plano para enfrentar El Niño e mudanças climáticas”. O tema foi igualmente abordado em junho pelo Brasil de Fato, com o título “El Niño confirmado: o que o Rio Grande do Sul pode esperar com a volta do fenômeno?”. De todas, a reportagem do Brasil de Fato é a exceção, por ser a mais aprofundada e a que apresenta o melhor contexto do fenômeno, um dos pressupostos do jornalismo ambiental.
Por fim, no plano político, o governo estadual publicou, em maio, a nota técnica “El Niño 2026-27: Evolução e possíveis impactos no Estado do Rio Grande do Sul” e, mais recentemente, o governador Eduardo Leite publicou um vídeo em rede social afirmando que o estado está “mais preparado para os eventos climáticos”. Assim como nas matérias da imprensa, a relação do El Niño com as mudanças climáticas – que, por sua vez, são impulsionadas pela ação humana, não está presente no documento oficial ou na fala do governador. Desse modo, tanto o governante quanto a imprensa passam a impressão do El Niño ser apenas um fenômeno da natureza sobre o qual a humanidade não tem conexão e, portanto, nada pode fazer, nem hoje e nem no futuro.
Revisão: Cláudia Herte de Moraes, integrante do GPJA.
*Luciano Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
