
Palácio Farroupilha. Crédito: Raquel Teixeira Pereira
Por Cláudia Herte de Moraes* e Franchesco de Oliveira Y Castro**
As eleições gerais de 2026 acontecem em um contexto marcado por desafios que ultrapassam a disputa entre candidaturas e projetos de governo. No Rio Grande do Sul, estado que nos últimos anos vivenciou de forma intensa os impactos de eventos climáticos extremos, a discussão sobre o clima ocupa um espaço cada vez mais relevante no debate público. As inundações de 2024, os episódios recorrentes de estiagem e as chuvas intensas nos últimos anos evidenciam que a questão climática já faz parte da realidade da população gaúcha.
Desta forma, as eleições colocam em disputa questões relacionadas à prevenção de desastres, reconstrução, adaptação das cidades, recursos hídricos, habitação e proteção ambiental, que passam a fazer parte de um debate que interessa à população. A própria atuação contínua da Defesa Civil estadual diante de riscos de inundação, chuvas e outros eventos extremos evidencia a permanência desse cenário de vulnerabilidade.
Recentemente, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) publicou um Manifesto Ecopolítico sobre as questões ambientais e democráticas que estão em jogo nas eleições gerais deste ano. No documento, observamos amplas indicações para tratar o tema da emergência climática com variadas formas de proteção ambiental e uso cuidadoso de nosso ambiente. Entre outras, constam ações para preservar os biomas, como o resgate dos fatores protetivos do Código Ambiental e Florestal; fortalecer a autonomia e a estrutura dos setores de fiscalização e licenciamento ambiental; ampliar a proteção às águas e a qualificação dos conselhos de bacia; promover a alimentação agroecológica e priorizar atividades agrícolas que conservem a biodiversidade.
Esse contexto pede uma reflexão sobre como o jornalismo traz ao campo político e eleitoral as propostas relacionadas às questões ambientais e climáticas. Para identificar como o tema ambiental aparece neste início de campanha eleitoral, realizamos uma busca no Google pelos termos “eleições 2026, Rio Grande do Sul e questões ambientais”. O levantamento encontrou apenas dois textos que introduzem o debate ambiental.
A coluna de Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), publicada em (o)eco, coloca as eleições de 2026 no contexto da emergência climática e defende que a questão ambiental deve ocupar uma posição central na avaliação das candidaturas ao legislativo. O texto parte da ocorrência de ondas de calor, secas, incêndios, enchentes e deslizamentos para argumentar que governar, diante do cenário atual, exige capacidade de antecipar e administrar os riscos.
Bocuhy argumenta sobre aquilo que considera necessário para o exercício do poder público, abordando temas como segurança hídrica, infraestrutura, saúde pública, ocupação territorial, energia e segurança alimentar. A coluna também critica tanto o negacionismo climático quanto o reconhecimento superficial da crise, associado pelo autor ao Greenwashing, quando uma organização tenta parecer mais sustentável do que realmente é. A relação entre o tempo limitado dos mandatos e as consequências ambientais de longo prazo também é destacada, mostrando que decisões tomadas durante um período de mandato podem produzir efeitos por décadas e atravessar gerações.
A ciência aparece como um dos principais elementos de sustentação da argumentação, enquanto o texto também valoriza a articulação entre conhecimento científico, saberes territoriais e participação social, defendendo que diferentes formas de conhecimento devem ser consideradas na construção de políticas climáticas.
O segundo material foi apresentado pelo G1 RS. Nesta matéria, o site contextualizou o tema “proteção contra as cheias”, apontado como a grande expectativa e preocupação da população gaúcha, tendo em vista os recentes episódios de extremos climáticos vivenciados no território. No entanto, não houve intervenção jornalística relevante, pois a abordagem foi apenas apresentar o que cada partido registrou no plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral.
Desta forma, nesses primeiros dias da campanha eleitoral, o jornalismo pautou a importância do tema, porém ainda não deu espaço a reportagens ou aproximações críticas quanto aos planos apresentados. Falta confrontar as promessas impressas com a prática de cada partido e dos grupos políticos ao longo dos últimos anos, especialmente como votam e fazem a gestão ambiental quando estão no poder, numa fase anterior e distante da decisão das urnas. Se o jargão popular diz que “o papel aceita tudo”, cresce a responsabilidade do jornalismo de analisar cada proposta trazida ao debate, criticando as propostas vazias ou apenas retóricas. A crise climática não dá trégua e não cabe mais no tempo de mandatos; é uma questão grave e preocupante que exige ações urgentes e responsabilidades de longo prazo.
Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.
**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.
