
Plantação sofre com a seca. Crédito: Janilson Furtado – Unsplash
Por Débora Gallas*
O mês de setembro começou com dois alertas globais da Organização das Nações Unidas. O primeiro é a iminente superação do limite de 1,5ºC no aquecimento do planeta em relação aos níveis pré-industriais, limite este definido pelos 195 signatários do Acordo de Paris em 2015. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, a perspectiva de transposição dessa barreira exige urgente mobilização para acelerar a transição energética, reduzir emissões e ampliar a proteção aos ambientes naturais, como florestas e oceanos.
O segundo alerta, com base nos dados da Organização Meteorológica Mundial, diz respeito à probabilidade próxima de 100% de persistência do fenômeno El Niño até fevereiro de 2027. Catalisado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o El Niño já influencia a temperatura global e pode potencializar a ocorrência dos eventos climáticos extremos, como secas, inundações e ondas de calor.
O início de setembro também marca os últimos momentos da campanha para as eleições presidenciais brasileiras de 2026. E uma busca pelos termos “eleições” + “mudanças climáticas” ou “El Niño” em 7 de setembro de 2026 mostra que os temas são cobertos em paralelo em editorias diferentes. Ainda que as mudanças climáticas e uma temporada de efeitos intensos do El Niño possam expor populações que vivem em áreas de risco, comprometer a produção agrícola e aumentar a suscetibilidade dos biomas brasileiros (exigindo, portanto, planos urgentes de adaptação a essa realidade ambiental), a discussão quase não aparece na cobertura eleitoral brasileira para além de algumas declarações de candidatos.
A busca por registros que conciliassem ambos os temas retornou apenas uma notícia de Correio Braziliense, que repercutiu em 4 de setembro uma entrevista do presidente Lula à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte (CE). Na ocasião, o candidato à reeleição pelo PT disse que o governo vem se preparando há meses para possíveis efeitos do El Niño com medidas como o armazenamento de alimentos para o caso de problemas na produção e a compra de veículos para facilitar a distribuição dos itens à população. O texto, no entanto, limita-se a reproduzir as declarações de Lula, e não encontramos outros esforços maiores de reportagem sobre o tema na imprensa.
Antes disso, o tema havia sido mal abordado na sabatina de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional em 28 de agosto, quando o candidato do PL não corrigiu suas falas negacionistas do passado ao ser questionado por Renata Vasconcellos sobre se ainda acreditava que aquecimento global não existia. Além disso, o senador afirmou que a forma mais efetiva de mitigar os efeitos dos eventos climáticos extremos seria investir em saneamento básico – sem que a resposta fosse contestada com a exigência de medidas mais específicas aos efeitos das mudanças climáticas antes que Bolsonaro mudasse de assunto por conta própria.
Mesmo quando alguma questão ambiental pede entrada no noticiário pela via do escândalo político do momento, há pouco esforço de cobertura sobre essa intersecção. Em 3 de setembro, a jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, revelou um diálogo entre o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusações de fraudes na gestão do Banco Master. O contato realizado em março de 2025 foi motivado pelo interesse de seu ex-assessor e advogado, Thiago Rodrigues de Faria, em destravar um ativo minerário – uma espécie de direito à exploração de um recurso mineral.
Apesar da repercussão do contato no restante da imprensa, poucos veículos contextualizaram o pedido de Nikolas. Segundo busca realizada na ferramenta Google Notícias em 7 de setembro, apenas o jornal Estado de Minas explicou que a firma advocatícia de Faria mantinha um contrato com uma empresa investigada por extração ilegal de minério de ferro, que também atuava negociando os direitos da mineradora Topázio Ambiental, incluindo uma barragem com alto risco de rompimento em Ouro Preto. As informações não são recentes — a apuração está relacionada à cobertura da Operação Rejeito, da Polícia Federal, que em 2025 revelou um esquema de fraudes ambientais em Minas Gerais. Mas ainda falta saber de que forma exatamente o Banco Master beneficiaria o negócio de Faria com tais ativos minerários e se tinham relação com algum ilícito investigado pela PF.
O tema mereceria continuidade a partir de uma abordagem preventiva, como preconiza o Jornalismo Ambiental, tendo em vista que os desastres de mineração com epicentro no rompimento de barragens em Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019, além de devastarem comunidades locais inteiras, contaminaram toda uma bacia hidrográfica e até mesmo uma porção do litoral brasileiro. Assim como já conhecemos os riscos em deixar a população suscetível às mudanças climáticas sem medidas de precaução e adaptação, conhecemos bem as consequências de uma aposta política e financeira no extrativismo predatório, que prioriza a geração de riqueza ante a proteção dos ecossistemas e a segurança das pessoas.
Cobrar ações de Estado diante da crise climática e questionar atores envolvidos na possível interferência sobre a gestão dos nossos bens naturais são prismas de um mesmo problema. E nada disso está em pauta a menos de um mês das eleições.
Revisão: Ângela Camana
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.
