Nepal, a carta da vez: como o jornalismo constrói os números de uma tragédia

Montanha Himalaia. Crédito: Pixabay

Por Gabriella de Barros*

O Nepal passa a ser a carta da vez nas tragédias climáticas que assolam o planeta. No ano passado, o vilarejo Blatten, na Suíça, passou por uma condição semelhante, em proporções menores, mas que também aterrorizou a população local. Felizmente, naquela ocasião, apenas uma morte foi registrada. No Nepal, entretanto, o número de mortos aumenta a cada nova busca realizada. A catástrofe ocorreu na montanha Langtang Lirung, o cume mais alto de uma subcordilheira dos Himalaias, localizada a cerca de cinco quilômetros da fronteira com o Tibete.

Em acontecimentos climáticos dessa magnitude, é comum que o número de mortos apareça em destaque nas notícias. Afinal, um dos fatores que orientam a cobertura jornalística é o imediatismo, que se torna fundamental diante da necessidade de acompanhar os acontecimentos à medida que novas informações são apresentadas. Nesse contexto, o jornalismo também disputa espaço com a desinformação, que podem dificultar a chegada de dados corretos à sociedade. Em notícias publicadas por O Globo e UOL, por exemplo, foi abordada a decisão da China de punir dez pessoas por divulgarem informações falsas ao aumentarem o número de mortos no Nepal, dado que não correspondia à realidade divulgada pelos órgãos oficiais.

A cobertura realizada por diferentes veículos brasileiros permite observar como a atualização do número de mortos se torna parte central da narrativa sobre a tragédia no Nepal. Na CNN Brasil, a matéria publicada em 31 de agosto traz no título a informação de que as mortes “sobem para 939”, enquanto o subtítulo destaca que o novo balanço registra 20 mortes a mais e uma redução de mais de 300 desaparecidos em relação aos números divulgados anteriormente naquele mesmo dia. No texto, o veículo informa que o número de 939 mortos foi divulgado pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres (NDRRMA), enquanto o balanço anterior registrava 903 mortos no país.

A Itatiaia, também em 31 de agosto, utiliza os 939 mortos como informação principal do título: “Nepal registra 939 mortes devido à enchente; buscas entram no 5º dia”. O subtítulo acrescenta que o número de desaparecidos chegou a 3.925. No corpo da matéria, os números são atribuídos às autoridades locais e, além dos dados referentes ao Nepal, são apresentados os números do lado do Tibete com 16 mortos e 546 desaparecidos. A matéria relaciona a atualização dos números à continuidade das buscas, destacando que os socorristas seguem trabalhando pelo quinto dia.

O Globo, por sua vez, apresenta uma escolha diferente no título ao afirmar que o “número de mortos após enchentes e deslizamentos entre Nepal e Tibete se aproxima de mil” e associa a informação a um “novo balanço”. Em vez de destacar diretamente o número de 939 mortos, como fazem a CNN Brasil e Itatiaia, o veículo utiliza uma expressão aproximativa. Essa escolha é relevante porque evidencia que a contagem das vítimas ainda está em processo de atualização.

A comparação entre as três matérias demonstra que o número de mortos não é simplesmente reproduzido pelo jornalismo, mas atualizado e enquadrado de diferentes maneiras. CNN Brasil e Itatiaia optam por apresentar o número exato de 939 mortos em seus títulos, enquanto O Globo prefere utilizar a expressão “se aproxima de mil”. Ao mesmo tempo, a CNN evidencia de forma mais explícita a variação dos dados ao comparar o novo balanço de 939 mortos com os 903 registrados anteriormente.

Essa diferença de abordagem permite observar uma característica importante da cobertura jornalística de tragédias, os números das vítimas funcionam, ao mesmo tempo, como informação factual e como recurso para dimensionar a gravidade do acontecimento. A escolha entre apresentar um número exato ou uma aproximação não é apenas uma questão de estilo. Ela também interfere na maneira como o leitor compreende a dimensão da tragédia e a situação das buscas.

Nesse contexto, a atualização constante dos números destaca um dos desafios da cobertura jornalística de acontecimentos dessa natureza. A CNN Brasil mostra que, no mesmo dia, o balanço passou de 903 para 939 mortos e de 4.247 para 3.925 desaparecidos no Nepal. A Itatiaia, por sua vez, apresenta os mesmos 939 mortos e 3.925 desaparecidos, vinculando esses números à continuidade das operações de busca.

Assim, acompanhar uma tragédia em tempo real exige que o jornalismo concilie o imediatismo com a necessidade de confirmar e contextualizar os dados. O número de mortos pode mudar conforme novas informações são contabilizadas, e cada atualização precisa deixar claro ao leitor que se trata de um balanço referente a determinado momento. Nesse sentido, informar rapidamente não significa apenas divulgar o número mais recente, mas também indicar sua origem e situá-lo dentro do processo de busca e contabilização das vítimas.

A questão se torna ainda mais relevante quando se considera que o número de mortos possui forte impacto na construção da narrativa sobre uma tragédia. A transformação de 903 em 939 mortos, por exemplo, não representa apenas uma atualização estatística, ela altera a dimensão percebida do acontecimento. Por isso, a apuração e a atribuição dos dados são fundamentais para que a urgência da cobertura não produza uma falsa sensação de precisão em uma situação que ainda está em desenvolvimento.

É justamente nesse ponto que a cobertura de tragédias climáticas coloca um desafio particular ao jornalismo: como conciliar o imediatismo, necessário para acompanhar uma emergência em andamento, com a responsabilidade de não transformar estimativas, informações preliminares ou dados ainda não confirmados em números definitivos. Mais do que informar rapidamente, é necessário garantir que os números apresentados sejam confirmados e contextualizados, evitando que a urgência da cobertura contribua para a própria circulação da desinformação.

Revisão: Profa.Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi, líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

Deixe um comentário