Pauta ambiental nas eleições também envolve atenção à trajetória dos territórios

Crédito: Erick Corrêa Semor – Pixabay

Por Ângela Camana*

Na última semana este Observatório discutiu como pautas ambientais têm sido ignoradas ao longo da cobertura das eleições no Brasil, ainda que o país aguarde por efeitos intensos do El Niño neste ano. Bem que no jornalismo vinculado aos grandes conglomerados esta ausência siga em voga, há poucos dias o portal InfoAmazônia contrariou esta tendência ao iniciar a série especial Eleições em Mapas, a qual relaciona a pauta ambiental e as escolhas políticas do eleitorado amazônico. Ao cruzar dados da expansão de atividades de exploração predatória da terra (como o agronegócio e a mineração) com o avanço eleitoral do conservadorismo na região, a série nos ajuda a compreender o lugar ocupado pela agenda ambiental na política hoje. E mais: escancara como as informações estão disponíveis, cabendo ao jornalismo a vontade e a disponibilidade de explorá-las com cuidado e rigor.

Publicado em 9 de setembro, o primeiro texto da série – Dinheiro do agronegócio cresce, e voto em partidos pró-clima encolhe na Amazônia – relaciona o crescimento das cadeias de commodities agropecuárias na Amazônia Legal com o declínio do voto em partidos pró-clima. Para elaborar esta definição, jornalistas mapearam os posicionamentos dos parlamentares e dos partidos quanto a agendas e propostas que se relacionam com a questão climática. Em tempo: explicar a construção dos índices e as fontes dos dados, disponibilizando-os, é mais um acerto do InfoAmazônia, revelando transparência e contribuição ativa ao controle público.

A iniciativa avança na já conhecida, mas não por isso menos necessária, reflexão sobre o desencontro entre agendas conservadoras e pautas ambientalistas. Neste sentido, a preservação e o fomento da sociobiodiversidade são temas associados a grupos que são entendidos como ameaças ao projeto político que interessa às antigas e novas direitas, como são os povos originários, entidades ambientalistas e o público acadêmico. Na Amazônia brasileira, onde as agendas de manutenção da vida dos e nos territórios e a expansão vertiginosa do agronegócio se chocam, isso tem efeitos perceptíveis nas trajetórias eleitorais recentes, como indica a série do InfoAmazônia.

Em uma época na qual as limitações colocadas pela ausência de recursos nas redações parecem ser a justificativa padrão para a ausência de análises de fôlego, a série do InfoAmazônia nos mostra como é possível fazer um jornalismo de profundidade sem necessariamente empreender longas viagens de reportagem. Os dados públicos, quando bem trabalhados, também contam histórias – e o bom jornalismo deve saber escutar.

Revisão: Sérgio Pereira, integrante do GPJA.

*Jornalista e socióloga. Professora na Faculdade de Ciências Sociais da UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: angelacamana@ufpa.br

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