Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Incêndios florestais em pauta

Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu

Por Leticia Menezes Pasuch*                                                 

A realidade da crise climática, que aumenta de forma global, é uma pauta recorrente na mídia, sobretudo diante dos seus impactos. Publicada no site da Revista Galileu no dia 16 de março de 2022, a notícia “Incêndios causaram perda de um terço das florestas do planeta” traz um estudo tecnológico inédito sobre as tendências globais de perdas florestais, divulgado no periódico Frontiers in Remote Sensing, que publica pesquisas associadas a ciência e tecnologia.

A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.

No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.

De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.

A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).

Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.

GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

Estamos à mercê de qual cobertura?

Imagem: Print do topo da notícia publicada pelo G1 em 09.03.2022.

Por Clara Aguiar*

No dia 9 de março de 2022, artistas, lideranças indígenas, movimentos sociais e parlamentares da oposição se reuniram em frente ao Congresso Nacional para protestar contra o chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de projetos de lei proposto pelo governo de Jair Bolsonaro que prevê a flexibilização do licenciamento ambiental, a ampliação do uso de agrotóxicos e a liberação da mineração em Terras Indígenas. Idealizado pelo cantor Caetano Veloso, o “Ato pela Terra” contou com a participação de 17 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Apesar da multidão, minutos após o encerramento do ato, a Câmara dos Deputados aprovou o requerimento de urgência do PL nº 191/2020, que regulamenta a exploração de minérios em terras indígenas, inclusive em territórios habitados por povos isolados.

A aprovação do requerimento de urgência do PL foi título de matérias em diversos jornais do Brasil. No G1, a notícia Câmara aprova urgência para votação de projeto sobre mineração em terras indígenas, em um primeiro momento, parece se destacar ao adotar uma abordagem contextualizada que apresenta a proposta do projeto, os argumentos a favor e contra e o que o PL representaria na prática. No entanto, a matéria não é capaz de explicar ao leitor a complexidade socioambiental que envolve o PL 191/2020. Embora a proposta do projeto tenha como objetivo regulamentar uma prática que gera consequências nocivas para o meio ambiente e que possivelmente colocaria em riscos à vida de povos originários, esse aspecto parece ter sido esquecido. Em nenhum momento, o texto traz uma análise mais aprofundada de fontes especialistas em relação aos impactos que ocorrem na atividade de mineração.

Nesta notícia, observa-se um jornalismo declaratório devido ao predomínio de fontes oficiais, já que somente personalidades políticas foram consultadas: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), o líder da Oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE) e a deputada indígena Joenia Wapichana. Quando o meio ambiente está em pauta, Wilson Bueno defende que é preciso “ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2008, p.111).

Apesar do PL estar intrinsecamente ligado às questões socioambientais, o enquadramento não foi além do político. A matéria se limitou a abordar de forma jurídica o projeto em si e não explicou as problemáticas por trás de sua proposta. “Ele [jornalista] precisa ter uma visão mais abrangente do tema porque caso contrário, irá fechar o seu foco, restringir as suas fontes e ficar à mercê de informações ou dados que servem a determinados interesses” (BUENO, 2007, p. 377). Sob a ótica do jornalismo ambiental, a abordagem empregada pelo G1 não incorporou uma visão sistêmica que induz o leitor a relacionar a dimensão ambiental e social com o fato noticiado. A cobertura poderia ter investido em uma maior apuração que buscasse uma leitura crítica, com o emprego de conhecimento especializado e maior representatividade de fontes não governamentais que colocasse em perspectiva a problemática socioambiental.

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

BUENO, W. C. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. In: GIRARDI, I. M. T.; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo Ambiental: Desafios e Reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. pp.105-118.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

Cobertura sobre Atafona: para pensar além da destruição

Imagem: Reprodução da notícia analisada – Ruínas de casa na Praia de Atafona, engolida pelo mar. Erosão transforma paisagem em cenário apocalíptico Foto: Mauro Pimentel/AFP

Por Valentina Bressan*

Em 14 de fevereiro de 2022, foi publicada no portal online do jornal O Globo
uma notícia sobre o balneário de Atafona, que fica na cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro. O mote da matéria é que a água do mar está avançando rapidamente sobre a costa, destruindo as casas no litoral.

Embora a notícia traga pontos interessantes e de interesse público, muito do conteúdo da matéria recai nos clichês de um jornalismo que pode pretender-se ambiental, mas ainda não chega a ter o “caráter revolucionário” proposto por Wilson Bueno (2007, p.17). O sociólogo John Hannigan afirma que “a cobertura ambiental dos meios de comunicação social é, em larga medida, limitada e moldada pelas mesmas limitações de produção que governavam o trabalho noticioso em geral” (2000, p.87).

Na matéria d’O Globo, a apuração e redação não foram feitas por um repórter próprio do veículo, mas por uma correspondente uruguaia da Agence France-Presse (AFP). Deslocar o repórter até Atafona seria, certamente, mais custoso economicamente do que contratar uma agência noticiosa.

O segundo ponto, que fala sobre o espaço do portal destinado ao jornalismo ambiental, é a editoria. No site d’O Globo, a matéria está dentro da editoria “RIO”. Isso não é necessariamente negativo, já que, segundo Eduardo Gerarque (2018), é preciso que o Jornalismo tenha uma visão sistêmica, transversal dos assuntos ambientais. Contudo, por outro lado, isso também diz muito sobre o “não-lugar” que o tema, muitas vezes, ocupa na mídia tradicional.

Quanto ao enquadramento, a frase da linha fina, “Devido a uma combinação de fatores naturais e humanos, o mar avança até 6 metros por ano […],  evidencia o foco dado ao tema ao longo da matéria. Nos moldes do que aponta Carlos Walter Porto-Gonçalves (2004), é feita uma separação entre homem e natureza. Essa oposição entre cultura e natureza fica aparente: é o mar quem é capaz de destruir casas, de engolir o balneário.

No lide, a notícia traz o fato de que o aquecimento global é responsável pela intensificação da erosão no litoral de Atafona, porém as informações são superficiais: o uso que o homem fez da água nas últimas décadas e a construção de casas, que eliminou as dunas e a vegetação. Entretanto, o
aquecimento global é desconectado das “causas humanas”, como se este não fosse também intensificado pelas ações das pessoas.

A situação do balneário é descrita como apocalíptica, incomum e, embora os critérios de noticiabilidade do Jornalismo orientem para o novo e o improvável, esta abordagem não é a ideal para o Jornalismo Ambiental, pois não dá conta de conectar os acontecimentos com os contextos sociais.

Ainda que sejam consultadas múltiplas fontes de informação, não há um aprofundamento das causas e consequências, impedindo que haja uma ligação entre os aspectos locais e globais. Em vez disso, a notícia fica focada no “sal da cobertura noticiosa”, como afirma Hannigan: os danos e as perdas humanas, mas que não trazem a contextualização esperada para compreendermos a complexidade dos fatos ambientais.

* Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: val.bressan@gmail.com.

Indústria têxtil: produção excessiva ou necessidade de reciclagem?

Imagem: Print da reportagem exibida no Fantástico com os caminhos possíveis para o problema de destinação de roupas e sobras de tecidos.

Por Eloisa Beling Loose*


Há muito lixo têxtil no mundo. A reportagem especial do Fantástico do último domingo, de quase 15 minutos, apresentou milhões de toneladas de roupas e tecidos que sobram da fabricação das peças e são acumuladas em praias ou desertos, sem nova utilidade para a humanidade e responsáveis por sérios prejuízos ambientais. As imagens são impactantes.

A reportagem trata dos impactos desse descarte inadequado e assinala que a decomposição pode demorar muito: as malhas de algodão, por exemplo, podem levar 20 anos enquanto as de materiais sintéticos, como poliéster, podem persistir no ambiente por até 400 anos. Entretanto, a causa da produção massiva recebe pouco enfoque na reportagem. Por que mesmo são produzidas tantas peças? Quem precisa de tanta roupa? Qual é o tamanho do lucro que está por trás de tanto desperdício?

De acordo com dados do relatório Fios da Moda, realizado pelo Instituto Modefica e FGV, são produzidas quase 9 bilhões de novas peças por ano no Brasil, o que representa uma média de 42 novas peças de roupa por pessoa. Se os recursos naturais são finitos, por que estamos produzindo em uma escala tão desproporcional às nossas reais necessidades?

O foco na reciclagem e reaproveitamento, escolha da reportagem, é necessário, porém não dá conta das razões irracionais que promovem uma cultura de consumismo diretamente associada à degradação da natureza em prol do lucro. A economia circular, baseada na otimização dos recursos a partir da redução, reutilização, recuperação e reciclagem, é bem-vinda, mas será a real solução para mitigar os danos de um sistema massivo que propositalmente se torna obsoleto em um curto tempo?

A responsabilidade pelo descarte da indústria têxtil é questionada, citando a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, segundo a qual os geradores teriam que cuidar da destinação adequada das sobras, mas fica claro que, na prática, a lei não está sendo cumprida. Uma das fontes ouvidas, representante do setor têxtil, busca desviar o assunto da responsabilização. O poder público repete que não há condições para fiscalizar todas as empresas.

O consumo exacerbado, motivado pelos baixos preços e desejo incessante de sempre vestir algo novo, acarreta um ciclo constante de compra, uso e descarte. Esse sistema, conhecido como fast fashion, tem contribuído para as mudanças das paisagens naturais que recebem toneladas de resíduos têxteis e, mesmo com iniciativas positivas (como a experiência do Clube de Mães no Brasil e do mercado de Kantamanto em Gana, sinalizadas pela reportagem), não consegue romper com a raiz do problema.

A rápida descartabilidade dos produtos, cerne de muitas indústrias nos dias de hoje, além de ser dependente da exploração constante dos recursos da natureza, deriva em montantes sem precedentes de produtos subutilizados. Enquanto a exploração seguir sendo economicamente vantajosa, não haverá razão para que o mercado opte por materiais reciclados. Ao naturalizar o modus operandi da indústria, apenas respostas paliativas e sempre insuficientes serão possíveis.

* Jornalista, pesquisadora e professora. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Possível impacto da mineração no turismo visibiliza pauta ambiental


Água turva e barrenta em Alter do Chão, Santarém, Pará, pode ser consequência da mineração.
Imagem: Julia Dolce – InfoAmazonia

Por Patrícia Kolling

Nas últimas semanas, os danos socioambientais causados pelo garimpo ilegal, realizado em terras amazônicas, tornaram-se novamente pauta na imprensa brasileira. Existe a suspeita de que os sedimentos da mineração na bacia do rio Tapajós, estejam influenciando na coloração das águas das praias de Alter do Chão, Santarém (Pará), região conhecida como caribe amazônico. O site InfoAmazonia, no dia 19 de janeiro, trouxe a notícia de que as águas do rio Tapajós, conhecidas pela transparência e efeito verde azulado, estão barrentas e turvas, apresentando um tom amarronzado.  A matéria destaca que em abril do ano passado um levantamento realizado pelo InfoAmazonia, em parceria com a Earthrise Media, havia revelado a mancha de poluição dos garimpos de ouro na bacia do Tapajós estendida por 500 quilômetros rio abaixo, entre os municípios de Jacareacanga e Santarém. Na época, o levantamento, apresentado no site através de um infográfico muito didático, mostrando a diferença das áreas e rios afetados de 1984 até 2021, não obteve grande impacto noticioso. Provavelmente, muitas comunidades tradicionais, de pescadores, indígenas e moradores da região estariam sendo impactadas por essa poluição ao longo dos anos.

Neste ano, porém, quando os possíveis danos da mineração, chegaram à região turística de Alter do Chão, podendo impactar economicamente, o tema conquistou repercussão nacional. O Jornal Nacional apresentou duas matérias sobre o assunto. Uma no dia 19 de janeiro, destacando a mudança da coloração da água e a preocupação quanto a poluição que ela traz, e mostrando o crescimento do garimpo na bacia do Tapajós. A notícia cita dados da Polícia Federal sobre o despejo, pelo garimpo, de 7 milhões de toneladas de rejeitos no Tapajós, e de uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), que detectou altos níveis de mercúrio no sangue dos moradores de Santarém.

Cinco dias depois, o tema voltou a ser notícia no Jornal Nacional, apresentando imagens aéreas e de satélites, que mostram o rio Tapajós sendo invadido pela lama dos rios Crepori e Jamannxim. “Em julho de 2019, a mancha de lama já era visível na região de Santarém. Em 2020, a linha ficou ainda mais forte e, em julho de 2021, a mancha estava ainda mais intensa”, diz a notícia, mostrando que o problema já é antigo, mas somente agora teve destaque ao atingir uma região visitada por muitos turistas.

O importante nessas matérias jornalísticas, além do factual, é que auxiliam o público a compreender os impactos do garimpo no ecossistema como um todo. A bióloga da UFOPA, Heloisa Meneses, entrevistada pelo InfoAmazonia destaca que, além de causar uma alteração visível na cor do rio, a atividade garimpeira ilegal impacta a composição biótica da água, o funcionamento das cadeias alimentares e, consequentemente, os ecossistemas aquáticos. A matéria do Jornal Nacional ressalta os riscos da poluição da água tanto para as populações tradicionais, como para toda a população amazônica. O coordenador do Mapbiomas, Cesar Diniz complementa que: “A chegada de sedimento garimpeiro até próximo da foz é um problema ambiental e humano muito grave. Essa é a preocupação. Mesmo na seca, o carreamento de sedimentos do Tapajós, até próximo de sua foz no Amazonas, está preocupantemente alto”. O InfoAmazonia mostra que a poluição nos rios amazônicos tem uma conexão direta com impactos ambientais que estão sendo observados no Oceano Atlântico, com a floração de enormes massas de macroalgas, em especial o sargaço, no mar do Caribe.

Mesmo trazendo muitas informações sobre os prejuízos do garimpo ao meio ambiente e a população, os meios de comunicação foram cautelosos em responsabilizar o garimpo pela mudança de coloração da água. O InfoAmazonia, citando a bióloga da Universidade Federal do Oeste do Pará, Heloisa Meneses, diz que um conjunto de fatores, como as alterações climáticas, pode ser responsável pela mudança de coloração da água, “no qual o garimpo e o desmatamento têm um papel importante por serem dois potenciais poluidores”, avalia Meneses. Ela explica que que além de liberar resíduos na água, a atividade garimpeira promove a “movimentação do solo”. “Tudo isso altera a dinâmica dos rios, do ponto de vista químico-físico e biológico”.

A notícia da BBC Brasil, publicada também pela Folha de São Paulo, trouxe o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Ao explicar sobre a vazão dos rios e as características da coloração das águas, ele ressaltou que a melhor maneira de determinar a causa da água barrenta no Tapajós em Alter do Chão, seria analisar o conteúdo dessa água. “Essa análise conseguiria distinguir a argila oriunda do Amazonas, da lama proveniente de garimpo”, diz o geólogo. Seja por prudência ao responsabilizar uma atividade econômica tão poderosa como a mineração por esse dano ambiental, ou por responsabilidade com a informação jornalística, a contextualização e abrangência na apuração e abordagem do tema são importantes para a informação do leitor e telespectador.

* Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia.

Velhas promessas e novas questões: a Baía de Guanabara e a privatização do saneamento

Imagem: Baía de Guanabara. Fonte: Pixabay

Por Michel Misse Filho*


Importante cartão-postal brasileiro e recorrente pauta jornalística ambiental, não é novidade dizer que a Baía de Guanabara padece de um processo de poluição que vem de décadas. Desde 2001, o 18 de janeiro é o Dia Estadual da Baía de Guanabara, ocasião menos celebrativa do que reflexiva, que remonta ao crime ambiental decorrente do vazamento de um duto da Petrobrás, com graves consequências para o ecossistema — sobretudo no fundo da baía, longe dos bairros turísticos.


A data deste ano vem acompanhada de “velhas novidades” para a região. A concessão do saneamento básico para a iniciativa privada promete a resolução do histórico problema nos municípios do entorno da baía, como São Gonçalo e cidades da Baixada Fluminense, na periferia metropolitana, que contam com alguns dos piores índices de tratamento de esgoto do Brasil¹; junto às favelas, elas também detêm as maiores concentrações de pessoas pobres e negras da região metropolitana.


Ao longo das últimas semanas, a baía foi assunto em três matérias publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo. A primeira, “Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição”, faz uma boa retrospectiva das muitas promessas fracassadas de despoluição e apresenta dados sobre saneamento e qualidade da água. Mas a notícia, de fato, é a implantação de um sistema emergencial (o “coletor de tempo seco”), ao longo dos próximos cinco anos, antes do sistema tradicional de esgoto (o “separador absoluto”). Para que se diminua o passivo ambiental da baía de forma mais rápida e com menor custo, o esgoto seguirá sendo escoado nas redes pluviais, mas será coletado e tratado antes do despejo nos rios — nos dias de chuva, todavia, o sistema não dá vazão, as comportas se abrem e a poluição segue o curso. Ficam adiadas, assim, as obras definitivas de saneamento de residência por residência; e permanecem os valões de esgoto na porta das casas e os riscos à saúde da população. A controvérsia é bem colocada e trabalhada pelo jornalista, com bons argumentos de ambos os lados: no fundo, estaria a despoluição de um ambiente sendo priorizada em relação à saúde das pessoas?


A resposta não é trivial, o assunto não é leviano e o consenso mais palpável é que os dois sistemas, em algum momento, precisam ser concretizados de forma complementar num modelo duplo. A segunda matéria da Folha, no entanto, dá pistas sobre interesses privados e alertas à sociedade. Numa entrevista com o presidente da concessionária, a promessa de limpar a Praia de Botafogo em cinco anos intitula a matéria, jogando luz sobre o principal cartão-postal da cidade. A recuperação da baía é tratada como oportunidade de projeção internacional da empresa; e, por que não, podemos supor, de avalizar e justificar a privatização do saneamento Brasil afora. Um olhar atento ainda deve questionar as implicações imobiliárias do empreendimento, sobretudo pela dificuldade — admitida na entrevista — de tornar balneáveis as praias da periferia, próximas à Ilha do Governador.

Longe de uma discussão que contraponha pessoas e ambiente em polos distintos, é preciso garantir que os benefícios de lazer, econômicos, sanitários etc. de uma eventual despoluição contemplem toda a população da desigual baía. A terceira e última matéria, por fim, retoma pontos já conhecidos da população, como a triste constatação de que os botos-cinza, presentes no brasão municipal, tendem ao desaparecimento; e o bom exemplo da preservação e recuperação de manguezais da região. Que desenterremos, do fundo da lama dos mangues do recôncavo, a esperança de uma baía economicamente indutora, ambientalmente rica e socialmente igualitária.

¹O Ranking de Saneamento 2021 do Instituto Trata Brasil coloca quatro cidades do entorno da baía entre as dez piores do Brasil em tratamento de esgoto — as únicas fora da região Norte.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

Patrimônio material e imaterial em Ouro Preto na cobertura jornalística

Imagem: Deslizamento do Morro da Forca que destruiu um casario histórico em Ouro Preto. 
Fonte: Redes Sociais, autor(a) desconhecido(a).

Por Matheus Cervo*

Os extremos climáticos na América do Sul se tornam cada vez mais parte do nosso cotidiano. Logo após a passagem de 2021 para 2022, tivemos a presença de uma grande onda de calor no sul do continente e fortes chuvas registradas em Minas Gerais e na Bahia – fenômenos que não podem ser desconectados do colapso climático que segue em curso.

Não é surpresa que esses extremos estejam atingindo parte do nosso patrimônio histórico e social, visto que isso tem acontecido de forma cada vez mais agressiva. Como mais um evento desse tipo, o aumento das chuvas em Minas Gerais causou a destruição de um casario histórico no Morro da Forca em Ouro Preto devido a um deslizamento de terra no dia 13 de janeiro. Com isso, uma parte do jornalismo brasileiro se debruçou sobre o ocorrido para discutir a situação da memória brasileira frente a esses fenômenos climáticos.

O G1 fez uma matéria chamada “Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto convive com áreas de risco e danos ao casario histórico”. Ela se destaca por ter buscado especialistas de diferentes áreas para entender não só a destruição em si, mas o que pode ser feito para que se tenha um resguardo das edificações históricas do nosso país. Entre eles, foram mencionadas falas de uma professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) do departamento da Arquitetura e do Urbanismo, explicações de um geólogo e estudos sobre áreas de risco do Serviço Geológico do Brasil/CPRM. Além disso, tentaram entrar em contato com a administração municipal de Ouro Preto e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), assim como trouxeram alguns dados antigos para mostrar que os deslizamentos de terra e as perdas ao patrimônio não são novidades nessa cidade.

O evento causou tanta comoção aos profissionais que se preocupam com a questão da memória que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) se pronunciou com uma nota no dia 14 afirmando que foi uma grande perda para toda a humanidade – o que foi resumido e noticiado pelo jornal O Estado de São Paulo. Essa grande mobilização da organização internacional se deve ao fato de Ouro Preto ser a primeira cidade brasileira inscrita na década de 1980 na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, sendo uma cidade que é monitorada pelo Centro do Patrimônio Mundial. Não é trivial salientar que a diretora ressaltou que medidas protetivas são ainda mais importantes em meio ao avanço das mudanças climáticas, o que foi noticiado pelo Estadão.

Percebe-se que, até aqui, cumpre-se com a necessidade de buscar pela complexidade dentro do jornalismo, especialmente nessa imbricação de áreas que estudam as questões ambientais relacionadas com a preservação do patrimônio nacional. Contudo, ainda dentro da discussão sobre memória e sociedade, é possível dizer que a cobertura desses fatos carece de uma discussão mais aprofundada acerca do patrimônio imaterial que se refere às sociabilidades e modos de vida existentes nesses locais. Depois desse evento que foi seguido de alguns outros deslizamentos noticiados, surgiram diversas matérias afirmando que Ouro Preto tem mais de 300 áreas de risco, sendo que 882 residências estão nessas regiões. Saíram notícias mostrando que 80 famílias foram removidas do bairro Taquaral e diversos serviços foram evacuados como forma de precaução.

Por isso, como o jornalismo ambiental poderia noticiar esses desastres ao patrimônio brasileiro sem prezar somente pelo material? Não seriam as formas de sociabilidade e as construções históricas de modos de vida específicos desses locais patrimônios imateriais tão importantes quanto as edificações? Não seriam elas também formas tão importantes de resguardo quanto a materialidade da nossa memória brasileira? São essas questões que ficam pungentes para aprofundamento dessa discussão sobre o que realmente é o patrimônio mundial da humanidade e como o jornalismo (assim como organizações como a Unesco) poderiam ter uma noção mais abrangente de como a memória se mantém viva na sociedade através das suas dimensões imateriais.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.

Desafios da cobertura jornalística sobre os impactos do Plano Diretor

Imagem: Captura de tela da entrevista do Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*


Os jornalistas que cobrem “Geral” ou “Cidade” sabem o tamanho do desafio de tornar atrativas as notícias e reportagens sobre mudanças no Plano Diretor, que, segundo o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2011), é o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana do município. As mudanças mexem de forma direta no cotidiano dos moradores, mas explicar isso significa compreender a disputa pelo solo urbano e dar a entender termos como “gabarito”, “capacidade de suporte”, “potencial construtivo” e “coeficiente de aproveitamento”, assim como dezenas de siglas que nomeiam as áreas da cidade. Duas capitais do Sul, Florianópolis e Porto Alegre, estão discutindo alterações nos planos diretores, e os jornalistas se deparam com esse desafio.


Em Florianópolis, a cobertura jornalística sobre o tema expressa a realidade local de mídia, onde o grupo NSC, ex-RBS, tem magra cobertura local, e o grupo ND, ex-RIC, ligado ao grupo Record, alinha-se ao discurso da prefeitura e do empresariado. A prefeitura realizou Audiência Pública em 17 de dezembro e irá promover outras 14 em janeiro para apresentar as mudanças no Plano Diretor, desconsiderando críticas dos movimentos sociais organizados. Essas críticas se relacionam à forma, ao conteúdo e à organização do processo, em plena temporada de verão e com casos crescentes de contaminação por covid-19. As críticas não aparecem nas poucas notícias e raríssimas reportagens publicadas nos veículos dos dois grupos e, nas colunas e editoriais, são atribuídas a “grupos ideológicos de esquerda”, historicamente chamados de “os contra”, como na coluna de Moacir Pereira, comentarista político de longa data demitido do grupo NSC e contratado pelo grupo ND.


Desde o início de dezembro passado, quando a prefeitura apresentou a proposta de mudança do Plano Diretor, até agora, às vésperas das audiências para ouvir a população sobre os rumos da chamada “Ilha da Magia”, esses veículos não se prestaram a apresentar a proposta de forma detalhada e ouvir quem é crítico aos planos da atual administração. A cobertura se limita aos releases enviados pela prefeitura e às entrevistas de secretários e empresários descontentes com a mobilização do movimento popular, que tem obtido até agora vitórias na justiça para suspender as Audiências Públicas agendadas para janeiro. Nesse ínterim, em meio ao calor do verão e ao temor pelo recrudescimento da pandemia, a população da capital catarinense, a depender da cobertura jornalística local, pouco ou nada saberá do que planejam os gestores para mudar o uso do solo da cidade.


Já um bom exemplo de como um veículo pode oferecer informação de qualidade apareceu dia 7 de janeiro no site de notícias Sul21, que publicou entrevista pingue-pongue com o prefeito de Porto Alegre intitulada “Sebastião Melo: ‘O Plano Diretor que vamos mandar para a Câmara será bastante liberal’”. As perguntas permitem ao prefeito expressar o projeto para a cidade, mas não deixam de explorar contradições, aprofundar afirmações vagas e apresentar exemplos concretos em que o discurso oficial contradiz a prática da prefeitura. Também é visível o conhecimento dos jornalistas sobre a história da cidade e as ações de administrações anteriores, quando perguntam, por exemplo, se os projetos em curso estão mantendo o legado de preocupação ambiental de Porto Alegre. É importante assinalar que o Sul21 publicou em julho do ano passado um especial, intitulado “Que Porto é esse: quem ganha com as transformações na capital”, com sete reportagens repletas de entrevistas, dados e fotografias que oferecem ao leitor um prato colorido e apetitoso para compreender a disputa pelo espaço urbano na capital gaúcha. Os veículos de Florianópolis estão devendo um prato desses na cobertura dos impactos da mudança do Plano Diretor local.


*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo.