Na mesma semana em que nações se reuniram para dar início à Copa do Mundo da FIFA, outro importante evento acontecia: representantes de quase 200 países se encontravam na Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), na Alemanha, encerrada na última quinta-feira, dia 18. A cúpula é considerada um espaço técnico preparatório para a 31ª. Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que ocorre em novembro, copresidida por Turquia e Austrália. A cobertura da imprensa brasileira sobre esta rodada de negociações foi escassa e a repercussão foi dominada por um tom de frustração quanto às possibilidades de avanço rumo a acordos robustos.
A abordagem de caráter mais analítico ficou a cargo de veículos especializados e de mídias vinculadas à sociedade civil organizada, notadamente o Observatório do Clima, cuja crítica foi reproduzida por numerosas páginas. A meta global de adaptação e o financiamento público para o combate às mudanças climáticas foram questionados, o que representa um retrocesso nos debates experimentados na COP30, em Belém. Após intensa cobertura da conferência na Amazônia, o jornalismo tem perdido a oportunidade de oferecer desdobramentos da realização deste megaevento no Brasil, o que compromete a qualidade da informação climática – algo crucial no momento hoje vivido.
Na imprensa de referência, a abordagem foi centrada em agendas especificas, como é o caso da pauta do Canal Rural sobre as proposições do agronegócio para a COP31. Já na Exame e na Folha de S. Paulo, a discussão foi centrada nos ataques à ciência que marcaram a conferência: Índia, China e Arábia Saudita se movimentaram para adiar a publicação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne e chancela as evidências científicas sobre a crise climática. O grupo ainda questionou a necessidade já acordada no âmbito do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C. Em resposta, uma coalizão encabeçada por representantes de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá insistiu na capacidade da ciência de informar sobre as melhores decisões.
A despeito de enfatizarem os efeitos da ausência dos Estados Unidos nas negociações e caracterizarem Bonn como uma “batalha geopolítica” em função dos ataques ao conhecimento científico, a maioria dos textos sobre a conferência destaca o caráter eminentemente técnico do encontro. O não-reconhecimento de que a crise climática – e os mecanismos de enfrentamento a ela – são embebidos de política fragilizam ainda mais a já capenga cobertura sobre o clima e as COPs. A cobertura “técnica” em nada é neutra: ela própria despolitiza os espaços de debate climático e toda a estrutura de encontros, dissensos e negociações que os sustenta. Que o jornalismo possa, então, renunciar a abstrações e passar a traduzir as disputas de Bonn e das COPs em termos de poder: quem decide, quem financia, quem adia.
Revisão: Eutalita Bezerra, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com
A Copa do Mundo da FIFA iniciou na última semana, trazendo coberturas sobre calor extremo e seus impactos nos jogos, nos atletas, jornalistas e na torcida. Segundo relatório e pacote informativo divulgado pela ONU Mudança do Clima (UNFCCC), o público deve perceber sinais visíveis das adaptações às altas temperaturas no esporte em 2026: ritmo de jogo mais lento, substituições precoces, mudanças táticas, toalhas refrescantes, pausas para hidratação, toalhas refrescantes, coletes com gelo e possíveis interrupções e mudanças de horário.
Ondas de calor estão se tornando cada vez mais frequentes, intensas e perigosas devido às mudanças climáticas, e nenhum país anfitrião da Copa do Mundo atualmente escapa das temperaturas extremas. Devido aos possíveis riscos à saúde, a FIFA vem tomando decisões estratégicas em relação ao clima nos últimos anos: em 2022, o país-sede, o Qatar, modificou a data da competição, transferindo-a do verão para o inverno; e, em 2026, determinou um intervalo de três minutos para hidratação dos jogadores em cada tempo.
Na última semana, este Observatório analisou as notícias publicadas em veículos jornalísticos brasileiros sobre o excesso de calor na Copa do Mundo. Entre pesquisas e materiais amplamente divulgados neste mês, a ONU criou uma página interativa sobre a Copa do Mundo que aborda clima, refugiados e direitos humanos; manifestos e pesquisas de cientistas norte-americanos foram amplamente divulgados em veículos jornalísticos dos EUA nos últimos meses; e o executivo da UNFCCC, Simon Stiell, declarou que as pausas para hidratação devem servir como um lembrete dos impactos do aquecimento global e da necessidade da luta pela redução das emissões de GEE e da transição energética.
Tais iniciativas foram repercutidas nas notícias quando mencionam o excesso do calor, ainda que algumas delas apenas se detenham ao impacto da temperatura extrema nos corpos dos jogadores e como as seleções estão se adaptando. Outras trazem as pesquisas e alertas da ciência recentemente divulgados articulando com os efeitos das mudanças climáticas no evento.
Em matéria online do Fantástico desta segunda-feira (15) foi apresentada a estratégia da seleção belga para adaptar o organismo dos jogadores ao calor intenso: sessões de sauna de mais de 20 minutos após os treinamentos. Sobre a mesma estratégia inusitada, GE, Lance! e Estadão Conteúdo (republicadas no Correio do Povo e no O Dia), não tocaram no gritante aspecto climático do tema. As notícias têm uma lacuna de falta de aprofundamento e ligação do fenômeno com as mudanças climáticas – fala-se do calor extremo, mas não se menciona o que causou esse cenário.
O clima está nas pautas cotidianas mais que nunca, mas, mesmo assim, precisamos nos manter vigilantes de como podemos melhorar as coberturas jornalísticas, mesmo as esportivas e de entretenimento. Algumas frases de contextualização sobre as mudanças climáticas já fazem a diferença no entendimento dos leitores, que terão oportunidade de relacionar o fenômeno global com diferentes questões do seu dia a dia.
Como compartilhado no pacote informativo da UNFCCC para jornalistas, como emissoras, comentaristas e repórteres, esse é um momento importante para explicar aos leitores e telespectadores o que está acontecendo, para além do inusitado ou curioso. As mudanças climáticas são relevantes a tudo que ocorre em nosso tempo, inclusive no esporte favorito de boa parte do mundo.
* Estudante de Jornalismo da UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: nicocostamilan@gmail.com.
** Professora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
No dia 8 de junho é celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. A data foi proposta em 1992, durante a Cúpula da Terra (Rio-92), no Rio de Janeiro, numa iniciativa do International Centre for Ocean Development (ICOD) do Canadá e do Ocean Institute of Canada, e foi oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas (ONU) em 2008. Os oceanos são fundamentais para a vida em nosso planeta, pois além de abrigarem a maior biodiversidade do mundo, produzem oxigênio e são reguladores do clima terrestre. A data também assinala o Dia do Oceanógrafo, que é o profissional dedicado ao seu estudo e cuidado.
Em tempos em que um El Niño de intensidade moderada a forte é anunciado com probabilidade de ocorrer a partir do próximo semestre, podendo provocar chuvas intensas, ventos fortes e inundações no Rio Grande do Sul e seca nas regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a data deveria ser assinalada pelos jornais de Porto Alegre. A cidade foi uma das atingidas pelo desastre hidrológico de 2024. Conforme pesquisadores como Rualdo Menegat, Porto Alegre, por exemplo, ainda não está preparada para um novo evento como o ocorrido há dois anos, pois muitas obras de proteção não foram concluídas, nem mesmo há um indicativo de como a população deve agir se a situação se repetir.
Esta análise parte do entendimento de que jornais publicados em Porto Alegre deveriam assinalar a data e mostrar a relação do El Niño com o aquecimento anormal do mar provocado pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa em função da matriz energética, que não muda, pois empresas e governos arranjam desculpas para continuar explorando petróleo e carvão.
Foram verificadas as edições do dia 8 de junho dos jornais Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul e Diário Gaúcho, que são representantes da imprensa hegemônica do Rio Grande do Sul. O jornal Zero Hora foi encartado numa “capa promocional” com propaganda da PUC-RS com seus projetos na área ambiental e tecnológica. A primeira página da capa é bem impactante, pois a arte dá a sensação de que o jornal está embarrado, com foto de casas submersas na água cheia de lama, lembrando a inundação de 2024. A manchete é “Cuidar da Terra já não é mais um projeto futuro”. Na frase de apoio vemos: “Nos últimos 5 anos, os desastres climáticos aumentaram em 250% no Brasil e cientistas apontam a tendência de mais eventos extremos nos próximos anos, com o RS entre as regiões mais suscetíveis”. No pé da página temos três chamadas: “Desmatamento: Em 2024, perdemos por minuto o equivalente à área de 18 campos de futebol em florestas primárias”; “Biodiversidade: Mais de 75% das espécies do mundo já foram extintas e 1 milhão podem sumir na próxima década”; “Educação: 40% dos currículos de educação básica não citam mudanças climáticas.”
Como se trata de uma “capa promocional” não há nenhuma chamada para uma matéria no interior do jornal. O Dia Mundial dos Oceanos não foi lembrado. Na página 2, no Informe Especial, há uma nota com o número 2 e título A ONU e o El Niño, com um pequeno texto falando sobre a origem do fenômeno, relacionado ao aumento da temperatura do oceano na superfície no centro e no leste do Oceano Pacífico Equatorial. O texto apresenta as consequências desse aumento da temperatura, mas nenhuma informação sobre as razões antrópicas para que isso ocorra.
O Correio do Povo, por sua vez, apresenta a mesma capa como informe publicitário da PUC-RS. O Dia Mundial dos Oceanos e o Dia do Oceanógrafo são lembrados no Editorial, na página 8. O texto destaca a importância do Oceanógrafo, identificando as atividades que o profissional desenvolve voltadas para “identificar o panorama da vida marinha, seus recursos, riscos, como no aquecimento global (…)”. Além disso, destaca a atuação dos profissionais nas zonas costeiras, lagos e rios, nas inundações, em projetos de desassoreamento dos rios. O último parágrafo afirma que “como organismo vivo que é, a Terra não pode prescindir de ter respeitados todos os seus itens vitais” e seu o nível de degradação “precisa ser contido com celeridade”. Na verdade, nada é dito sobre os oceanos e sua importância na regulação da temperatura do Planeta e nem sobre sua biodiversidade. Nem ao menos são mencionadas questões factuais que conectam diretamente o Rio Grande do Sul ao oceano. Exemplos são a recente criação do Parque Nacional do Albardão, em Santa Vitória do Palmar, o maior parque marinho do Brasil, que protege espécies aquáticas importantes, como as toninhas. Podemos também lembrar do projeto de construção de porto em Arroio do Sal, no Litoral Norte, que pode afetar a biodiversidade local e as formações costeiras, segundo críticos.
O Diário Gaúcho não mencionou o Dia Mundial dos Oceanos. Sua manchete anuncia “Novos imóveis também nas periferias da capital”. A frase de apoio destaca que os “Programas de moradia popular ajudam a impulsionar o “boom” de lançamentos do mercado imobiliário em 2026”. O assunto também foi destaque na capa de Zero Hora: Lançamentos de imóveis na capital crescem e reforçam retomada do setor.” O tema não será analisado aqui, mas sabe-se que a capital possui um alto número de imóveis vazios, inclusive prédios públicos, que poderiam ser utilizados para moradias populares, precisando, portanto, projetos governamentais para esse fim.
O Jornal O Sul ignorou o Dia Mundial dos Oceanos. O mesmo ocorreu com o Jornal do Comércio. Dos cinco jornais analisados, somente um citou minimamente a data. Essa ausência impressiona pela falta de informação ou de sensibilidade relacionada à importância dos oceanos para regular a temperatura da Terra, além de sua riqueza em biodiversidade, que também é ameaça pela poluição dos mares em especial pelos plásticos. Esses, aliás, são produzidos a partir do petróleo e do gás natural. A cobertura também mostra a desconexão com a formação do El Niño, que é uma preocupação dos gaúchos, que lamentavelmente não tem uma visão sistêmica sobre a natureza.
Existem diversos manuais de Jornalismo sobre cobertura de meio ambiente, desastres climáticos, além de seminários e cursos sobre a matéria. Infelizmente a pressão do trabalho impede os jornalistas de buscarem mais informações e aprenderem sobre esses temas que são essenciais a vida humana e dos demais seres. O que está acontecendo com o Jornalismo? Os pressupostos epistemológicos do Jornalismo Ambiental são uma orientação sobre como fazer Jornalismo, mas se tais pressupostos são desconhecidos, a função social do Jornalismo, estudada no início da faculdade, nos alerta que a informação é um direito do cidadão. Os jornais existem para informar a sociedade sobre o que está acontecendo e pode afetar sua vida. Os interesses mercadológicos não deveriam afetar o conteúdo editorial. Frequentemente tais interesses afetam a qualidade de vida da população, pois para muitos a poluição ainda é sinônimo de emprego e desenvolvimento e aumento de seus lucros.
*Professora Titular aposentada da UFRGS, Professora Colaboradora do PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.
Revisão: Débora Gallas Steigleder, jornalista, mestre e doutora em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.
Celebrado em 1º de junho, o Dia Mundial do Leite foi criado pela Food and Agriculture Organization para destacar a importância nutricional, econômica e social do leite em diferentes países. No Brasil, a data coincide com um momento de intenso debate sobre as importações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai, as medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e os impactos dessa disputa sobre produtores e consumidores.
Ao analisar o conjunto das notícias, observa-se que a cobertura é fortemente orientada por uma perspectiva econômica. Concentram-se nos impactos das importações sobre a competitividade dos produtores brasileiros, nas oscilações dos preços pagos ao produtor, nas decisões governamentais relacionadas ao comércio internacional e nos possíveis reflexos dessas medidas para a inflação dos alimentos.
As fontes mais presentes são representantes do governo, entidades do setor leiteiro, especialistas em mercado e organizações ligadas à produção agropecuária. Nesse enquadramento, a disputa é apresentada principalmente como um conflito entre dois interesses legítimos: a proteção dos produtores nacionais e a manutenção de preços acessíveis para os consumidores.
A própria suspensão das medidas antidumping é justificada, nas matérias, pela preocupação com os preços dos alimentos e seus efeitos sobre o consumidor final. Dessa forma, a cobertura constrói uma narrativa em que a principal questão é econômica, como equilibrar a renda dos produtores brasileiros com a necessidade de evitar aumentos no preço do leite e de seus derivados.
O que as matérias deixam de lado
Embora a cobertura jornalística ofereça informações relevantes sobre mercado, comércio exterior e inflação, chama atenção a ausência de discussões ambientais mais amplas relacionadas à cadeia produtiva do leite. Pouco ou nada é mencionado sobre os impactos das mudanças climáticas na produção leiteira, mesmo em um contexto no qual secas, enchentes e eventos climáticos extremos vêm afetando a agropecuária em diferentes regiões da América do Sul. Também não aparecem reflexões sobre a vulnerabilidade dos sistemas alimentares diante das transformações climáticas ou sobre os desafios de construir modelos de produção mais sustentáveis.
Da mesma forma, as matérias não exploram como a permanência ou o desaparecimento de pequenos produtores pode afetar a organização dos territórios rurais, a segurança alimentar e a resiliência das cadeias de abastecimento. O debate fica concentrado nas dimensões comerciais e econômicas, enquanto aspectos socioambientais permanecem periféricos ou ausentes.
A disputa em torno do leite importado do Mercosul mostra que questões aparentemente econômicas também são questões ambientais. Discutir a produção de alimentos significa discutir território, clima, modos de vida rurais e a capacidade das sociedades de garantir abastecimento sustentável em um cenário de crescente instabilidade climática. Essa talvez seja a principal pauta ausente em boa parte da cobertura recente: não apenas quanto custa produzir leite, mas qual modelo de produção e de sistema alimentar está sendo construído para o futuro.
Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA
* Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).
Uma grande fatia do RS desprotegida e ignorada por parte da imprensa. Imagem: Bruno Correa Rodrigues
Por Sérgio Pereira*
O Pampa tem sido tema recorrente neste Observatório. Não poderia ser diferente, já que estamos tratando de um bioma que apesar de ocupar grande parte do território do Rio Grande do Sul tem sua importância praticamente ignorada pelos principais veículos de comunicação do Estado.
Ganchos para abordar o tema não faltam. Por exemplo, no dia 13 de maio, o MapBiomas, que faz o monitoramento ambiental brasileiro, divulgou levantamento inédito sobre a fragmentação da vegetação nativa dos seis biomas.
O consórcio explica que “fragmentação é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de vegetação nativa são divididas em porções remanescentes cada vez menores e mais isoladas por conta do desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades. Os efeitos negativos do desmatamento são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas”. Ou seja, quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação, sintetiza o pesquisador Dhemerson Conciani.
Conforme o mapeamento, todos os biomas apresentaram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas (1986-2023). “O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente”, informa o texto de divulgação. Já o Pampa aparece em terceiro lugar, com 285% de crescimento. Depois surgem o Cerrado, com 172%, a Caatinga, com 90%, e a Mata Atlântica, com 68%.
Os três principais jornais do RS (Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio) ignoraram completamente o levantamento em suas versões impressas. O Correio do Povo, no entanto, foi o único dos três jornais a dar a notícia em seu site, no mesmo dia 13, com o título “Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos, diz MapBiomas”, texto reproduzido da Agência Brasil.
Na realidade, a imprensa hegemônica gaúcha praticamente retirou o Pampa de suas pautas. A triste situação ambiental do principal bioma gaúcho não causa mais espanto aos jornalistas. Com exceção dos veículos alternativos, os principais jornais decidiram abraçar o agronegócio, principalmente o da soja, que tem ampliado sua área no Estado de forma impressionante. O MapBiomas denunciou, no ano passado, que 45,6% do bioma gaúcho estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico em 2024, com predomínio do uso agrícola. E, conforme o consórcio, a área plantada com soja cresceu de 827 mil hectares para 3,2 milhões de hectares do Pampa entre 1985 e 2024, um aumento de 385%.
No dia 27 de maio, novo gancho. O Governo do RS divulgou em seu portal de notícias que o Estado apresentou queda na taxa de desmatamento em 2025, a partir de relatório elaborado pelo MapBiomas. Zero Hora e Correio do Povo incluíram a notícia em suas versões on-line. A matéria de Zero Hora tem o mérito de analisar o levantamento, já que em 2024 a inundação e os deslizamentos de terra resultaram em uma perda de vegetação de 70%. Os três diários, no entanto, nada registraram em suas edições impressas.
O ambiente digital, importante destacar, não permite avaliar a hierarquia editorial concedida ao fato. Primeiro que não há transparência sobre o número de visualizações (os veículos possuem ferramentas de métrica, mas não divulgam os dados). Segundo, porque não há como saber, algumas horas após a postagem, se a notícia ganhou ou não destaque na capa do site. Terceiro, as empresas cobram pelo acesso. É possível, portanto, destacar ou esconder uma informação na plataforma virtual.
Esse silêncio dos jornais tradicionais gaúchos cria um ambiente propício para a exploração desenfreada. Assim, os interesses coletivos, que deveriam predominar no jornalismo, ficam relegados a um segundo plano, favorecendo setores econômicos poderosos.
Como ensina o professor Wilson Bueno, o “jornalismo ambiental é, antes de tudo, jornalismo (que é o substantivo, o núcleo da expressão) e deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2007, p. 14). E o resto, como definiu Millôr, é armazém de secos e molhados.
Revisão: Luciano Velleda, integrante do GPJA
*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com
Pesquisa da Rede Campos Sulinos em andamento nos campos da Estação Experimental Agronômica da UFRGS. Foto: Clara Naressi
Por Eliege Fante*
Um dos projetos de leis antiambientais mais citados pela imprensa nessa semana é o PL 364/2019, que foi aprovado pelos deputados nessa terça-feira (19/05) para ir à análise e votação no Senado. Caso passe nessa casa legislativa, a recomendação de cientistas é pelo veto do Governo Federal. Essa postura não é novidade: há seis anos esse PL tem o rechaço de integrantes e de órgãos governamentais técnicos, de pesquisadores de universidades, de entidades, associações e instituições, enfim, de todos que são reconhecidos pelo trabalho na proteção da biodiversidade brasileira.
Não obstante, a imprensa em geral repete, desde o início do trâmite, o discurso de autores e de apoiadores do referido PL, o qual pretende viabilizar a desproteção da biodiversidade campestre a uma escala estimada em 48 milhões de hectares no país, distribuídos entre todos os biomas, inclusive os predominantemente florestais como a Amazônia. O problema de a imprensa fazer essa repetição reside em veicular dois erros jornalísticos e que dificultam a compreensão do público sobre o que está em jogo na disputa entre quem é contrário e quem é favorável ao PL 364/2019.
O primeiro erro da imprensa é manter, desde 2012, o nome “Código Florestal” e “novo Código Florestal” para a nova lei, a Lei 12.651 de Proteção da Vegetação Nativa. A mudança do nome não foi em vão: revogou a Lei 4771/1965 que instituía o novo Código Florestal e demarcou a ampliação da proteção para todos os biomas e ecossistemas brasileiros. Portanto, ignorar isso é omitir que áreas não florestais têm o mesmo status legal de proteção e é negar-se a compreender e a aprender o papel ecológico dos demais biomas. Neste sentido, chama a atenção a abertura destoante do texto atual feito pela Revista Fórum que discorre sobre os campos, mas intitula as matas.
Em raras exceções, a imprensa chegou a veicular o equívoco prescrito no PL 364 de considerar como área rural consolidada aquelas áreas dos imóveis rurais com campo nativo que tiveram o uso antrópico por meio da atividade agrossilvipastoril preexistente a 22 de julho de 2008, ainda que como coluna, como aqui: “imprudente presunção de que os ecossistemas campestres nativos tradicionalmente utilizados pela atividade pecuária seriam, invariavelmente, áreas rurais consolidadas”.
Entre outros cientistas ouvidos sobre o PL 364/2019, o professor do Instituto de Biociências da UFRGS e coordenador do grupo de pesquisas Rede Campos Sulinos Valério Pillar explica que o uso pastoril conserva a biodiversidade campestre conforme demostram os resultados dos estudos. Assinala, também, que sendo a vegetação nativa campestre anterior à florestal, a presença de campo nativo não indica o desmatamento da área. Finalmente, para dirimir as dúvidas, recomenda a todos expressarem “supressão de vegetação nativa” quando ocorrer a conversão (o mesmo que destruição, devastação) da vegetação nativa para outros usos, tais como implantar lavouras, construir moradias, urbanizar, etc. Dessa forma, esse é o segundo erro jornalístico verificado nesses anos todos, já que desmatamento aplica-se apenas onde houve floresta, como informa a notícia do IHU Humanitas.
“A confusão terminológica também tem culpa do Ministério do Meio Ambiente, que coloca destruição de vegetação nativa como desmatamento”, afirma Valério Pillar. Segundo o professor, o termo “desmatamento” implica o desaparecimento de florestas, também chamada de vegetação lenhosa. “O problema do Pampa não é desmatamento, é a destruição da vegetação campestre nativa. Infelizmente, a divulgação é feita como se estivesse em queda”, diz Pillar.
A simplificação errônea veiculada pela imprensa, por meio do uso de desmatamento em vez de supressão da vegetação nativa, viola o compromisso ético de profissionais jornalistas, os quais assistiram algumas vezes seus títulos e textos serem alterados por editores e chefes, maculando a rigorosa pesquisa e apuração realizada com as fontes da ciência. A consequência é dificultar ainda mais a compreensão sobre a real ameaça defendida pelo PL 364, que é (1) livrar da regularização áreas convertidas indevidamente e (2) dispensar de autorização futura para o corte de vegetação nativa campestre ou nativa em regeneração. Portanto, esse resultado é muito mais do que “flexibilizar” o que estabelece a Lei 12.651/2012, significa anular a imprescindível proteção da biodiversidade campestre tão rica e tão importante quanto a florestal para a sociedade. Até mesmo a comunicação pública erra ao meramente repetir um dos principais argumentos do deputado autor do PL, que distrai o público afirmando: “não há previsão de autorização de corte de árvores no projeto”.
Diversos documentos científicos podem auxiliar a imprensa. “There are more than just trees and forests to be conserved and restored” (“há mais do que apenas árvores e florestas para serem conservadas e restauradas”) é o título da carta aberta de cientistas denunciando a grave situação do Cerrado. Em “Brazil’s natural grasslands under attack” (“Os campos nativos do Brasil estão sob ataque”), cientistas denunciam especificamente o PL 364/2019. E em “Campos e savanas precisam entrar no debate público sobre conservação e restauração ecológica”, cientistas justificam a compensação ambiental e restauração ecológica, “desmistificando tabus” difundidos a respeito desse tipo de vegetação que constitui a tão falada e incompreendida ou negada, megabiodiversidade brasileira, da qual toda a população depende dos benefícios. Sem esquecer o trauma pós-enchente de 2024 no Rio Grande do Sul e a previsão do super El Niño neste segundo semestre, o benefício da regulação hídrica se destaca.
Revisão: Eutalita Bezerra e Luciano Velleda, integrantes do GPJA.
*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e atua como jornalista no serviço público gaúcho.
Imagem da Usina Hidrelétricade Belo Monte. Crédito: Ângela Camana
Por Ângela Camana*
Na semana em que se completam dez anos de inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situada em Altamira, no Pará, o jornalismo – tão afeito a efemérides deste tipo – apresenta uma abordagem insuficiente diante desta obra repleta de controvérsias. A ausência de conteúdos de maior fôlego impede o aprofundamento desejado na história e nos efeitos desta obra que marcou a Amazônia e o Brasil: dez anos passados, o que este acontecimento nos ensina? Ou em bem-vinda autocrítica: como o próprio jornalismo tomou parte no conflito instaurado pelo desenvolvimento e futuro desejável da região?
O texto de Nadia oferece aos leitores uma perspectiva de como a vida de um rio e, por conseguinte, de comunidades inteiras que o habitavam foi desorganizada, em um processo repleto de controvérsias técnicas e burocráticas. A repórter acompanha o caso há uma década e já dedicou outras publicações ao tema. Neste sentido, o seu texto nesta semana é exemplar de um jornalismo de longa duração, que não permite que pautas sensíveis sejam facilmente esquecidas ou superficialmente reportadas.
Destacar efemérides sem qualquer exercício de reflexão acerca dos efeitos das datas e acontecimentos rememorados é sintoma de um jornalismo praticado sob o signo da urgência e sem compromisso com a memória compartilhada. Insuficiente, portanto, do ponto de vista do interesse público. Resta questionar se, não fosse o manifesto lançado por entidades engajadas com a luta por justiça aos afetados, os dez anos de Belo Monte seriam lembrados. Veículos locais e nacionais têm divulgado a carta aberta “Belo Monte: dez anos de operação, mais de uma década de danos sem reparação”, mas não avançam oferecendo outros dados e perspectivas para além do que a própria correspondência informa. Mais do que um reconhecimento de boas práticas jornalísticas, a repercussão do manifesto mostra como a sociedade civil organizada é capaz de agendar e apelar à imprensa – e não apenas de esperar por ela.
Tema de numerosas teses e dissertações, inclusive no que tange os discursos da imprensa a seu respeito, a hidrelétrica também figurou em especiais jornalísticos, como o A Batalha de Belo Monte, de 2013, para citar apenas um exemplo. Completados dez anos da primeira turbina a entrar em operação no Xingu e proliferando denúncias que vão da morte do rio a violações de direitos de indígenas, ribeirinhos e pescadores artesanais, era de se esperar que a pauta fosse retomada com o mesmo fôlego.
Revisão: Eloisa Beling Loose, integrante do GPJA.
* Ângela Camana é jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental(CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com.
A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.
Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.
Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.
O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.
A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.
Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.
A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.
Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.
No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.
Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.
A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.
* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.
Por Franchesco de Oliveira* e Cláudia Herte de Moraes**
Depois de dias intensos em Belém, a COP-30 deixa de ser apenas um encontro global e se torna um ponto de virada (ou de cobrança) para o mundo. Agora, no pós-COP-30, é hora de olhar para além dos discursos e avaliar o que realmente ficou: os compromissos firmados, as tensões expostas, os avanços possíveis e as lacunas que persistem. Entre análises que apontam divergências internas, acordos considerados tímidos e expectativas não atendidas por cientistas, ambientalistas e negociadores, estamos em um momento decisivo para entender o que, de fato, mudou e o que ainda permanece na agenda climática mundial.
A conferência terminou com promessas de acelerar a transição energética, elevar o financiamento climático e estabelecer mecanismos mais rígidos de adaptação. Houve avanços, mas também frustrações: os países maiores emissores ainda resistem a metas vinculantes, e o financiamento aos países do Sul Global continua marcado por burocracias e disputas políticas. Ainda assim, Belém deslocou o eixo das discussões: a urgência climática tem território, tem povo, tem nome. E tem pressa.
Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, acompanhamos a preparação e a realização da COP-30 a partir de diferentes abordagens e jornalismos. Podemos afirmar que a pauta se consolidou como mais relevante e mais aprofundada nesta edição do evento, realizado no coração da Amazônia. A atmosfera e a proximidade da COP-30 trouxeram elementos de destaque para o debate sobre a emergência climática que, afinal, já está sendo vivenciada de forma avassaladora no mundo.
Para a análise do Nexo, mesmo com a inclusão de temas na COP que geralmente passam ao largo da visibilidade midiática (justiça racial, gênero e participação social com a Cúpula dos Povos), o ponto central sobre os combustíveis fósseis e desmatamento foi considerado vago e incapaz de reparar minimamente a dívida histórica do Norte Global com o Sul Global. Neste sentido, a reportagem analisada colabora para um debate mais aprofundado sobre as causas do aquecimento global e não apenas sobre as consequências já sentidas em vários cantos do mundo.
Da mesma forma, a BBC destacou que a COP-30 terminou sob o peso das ausências, sobretudo a dos Estados Unidos, e de um texto final que frustrou ambientalistas ao não incluir qualquer referência aos “mapas do caminho” para abandonar os combustíveis fósseis e zerar o desmatamento, duas das propostas centrais defendidas por Lula. Embora o “Mutirão Global” tenha sido saudado por evitar a implosão do Acordo de Paris, o recuo diante da pressão de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China, marcou um dos pontos mais sensíveis da conferência. Ainda assim, a BBC apontou avanços moderados, como o aumento do financiamento para adaptação agora com a meta de triplicar até 2035, a inclusão histórica do termo “afrodescendentes” nos documentos oficiais e a adoção de 59 indicadores globais para medir a capacidade de adaptação climática. Ou seja, o veículo destacou o avanço da justiça racial, incorporando uma visão mais complexa da questão climática que é socioambiental em sua base.
Para o G1 a palavra que resume a COP30 é frustração. A principal decepção foi a ausência total de menções aos combustíveis fósseis nos documentos finais, assim como nos textos de Nexo e BBC. O portal inclui uma avaliação de que houve avanços simbólicos, como a inclusão inédita de referências a afrodescendentes. Indicou ainda que para a ONU, a falta de ambição reflete a conjuntura geopolítica fragmentada, com os Estados Unidos ausentes, a União Europeia enfraquecida e China relutante em assumir liderança. Observamos que a análise do G1 trouxe a visão da governança global, de forma indireta, indicando que para a construção de um caminho ainda há fortes entraves de Estados negacionistas e/ou pressionados pelas elites econômicas que atuam globalmente.
Diante desse conjunto de avanços pequenos e problemas que continuam sem solução, os textos do pós-COP funcionam como um alerta: o mundo não está discutindo apenas metas, mas o que ainda é possível evitar diante da crise climática. Belém mostrou a força dos povos da floresta, das vozes que quase nunca são ouvidas e da pressão social que tenta mudar o centro das decisões.
Ficou evidente que as grandes potências defendem de forma cada vez mais aguerrida os seus interesses ligados aos combustíveis fósseis e que a política internacional segue dividida. Relembramos aqui uma análise deste Observatório sobre a cobertura da COP-28, em 2023, que tratava do mesmo tema: o abandono dos combustíveis fósseis é uma exigência de nosso tempo
Durante a “barqueata” que integrou a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30, o cacique Raoni disse: “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro.” O pós-COP-30 não é um encerramento, e sim um aviso: o planeta continua cobrando medidas concretas enquanto muitos países ainda hesitam em agir. O relógio climático não para e a história vai registrar quem escolheu empurrar o problema para depois, enquanto o futuro escapava.
*Franchesco de Oliveira é graduando em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.
**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.
A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-30, terminou e tem repercutido na cobertura midiática pela falta de consenso sobre as pautas principais e pela aguardada conclusão das negociações políticas. As discussões na primeira COP no Brasil seguem em Belém, no Pará, até o dia 21 de novembro de 2025.
A luta contra os combustíveis fósseis e o financiamento climático têm sido um dos principais desafios nas negociações das COPs. Os principais impasses estão em torno do financiamento climático robusto, da adaptação, da eliminação dos combustíveis fósseis e da transparência nas metas nacionais (NDCs). A CBN caracterizou a primeira semana como de “avanços mínimos e pressão”, a BBC Brasil como um “cabo de guerra” entre custeio e investimento no petróleo e o Estadãocomo “morna”. A Folha de SPdestacou o clima de tensão política, a tentativa brasileira de assumir protagonismo e a busca por novas estratégias para destravar negociações em temas sensíveis ao futuro da governança climática global.
Já aReuters explicou o processo de discussões que exige consenso entre os 194 países envolvidos e descreveu que um dos impasses para os acordos é o próprio modelo de votação. Lembrando que um dos acordos para “eliminar gradualmente” o uso global de carvão foi diluído após uma objeção de última hora da Índia na COP-26, em Glasgow, em 2021. No entanto, discutir mudanças na estrutura das negociações pode comprometer ainda mais as tentativas de acordos, que já lidam com políticas anti-clima, como dos Estados Unidos, que não enviaram delegados à COP-30.
O Colaboradestacou os ineditismos e o protagonismo no Brasil, com a promessa do “Mapa do Caminho”, que segue fora da agenda principal, mas em negociações, e com a aprovação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Também houve destaque para o tema da desinformação ter entrado na agenda e para a mobilização social com o protagonismo indígena sem precedentes.
A inclusão da desinformação na agenda oficial refletiu uma preocupação inédita. Seguindo uma tendência de grande volume de publicações nas redes sociais nos primeiros dias da COP (Balbé; Carvalho, 2017) e diante do desafio de enfrentar desinformação, foi realizado um monitoramento nas redes sociais TikTok, Instagram e X. O jornal GLOBO revelou que, só no primeiro dia do evento, mais de 1.114 postagens foram classificadas como falsas. Os dados mostram que esses conteúdos foram publicados por perfis de oposição ao governo, contendo informações falsas, descontextualizadas e imagens manipuladas. Esses dados reforçam a importância do lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima liderada pelo Brasil e que, por enquanto, conta com a assinatura de 11 países e visa trazer uma resposta institucional ao impacto da desinformação em contextos climáticos.
A COP-30 tem a maior participação de povos originários em três décadas de conferências do clima, resultado de uma articulação inédita com o governo federal. Dados daAgência Brasil destacam o feito: cerca de 400 representantes indígenas atuam credenciados nas salas de negociação oficial, enquanto uma aldeia montada em Belém reúne aproximadamente 3 mil pessoas de etnias do Brasil, de outras regiões da América Latina e de comunidades tradicionais da África e Ásia.
Por outro lado, é um duplo momento dos povos originários: a participação inédita e a luta contínua por mais voz. Nas ruas, apelos pela demarcação de terras e denúncias sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, como repercutiu o jornal O Povo. Essas manifestações representam uma retomada do espaço de protesto público, após duas edições de COP realizadas em países com fortes restrições à mobilização civil no Egito (COP-27) e Emirados Árabes (COP-28).
Além das pautas políticas, questões logísticas também ganharam destaque. ACNN Brasil repercutiu críticas à organização do evento, incluindo falhas de segurança, no abastecimento de água nos banheiros e problemas de refrigeração nos pavilhões. O incômodo gerado entre a sociedade civil foi tal que a ONU chegou a enviar uma carta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, criticando a estrutura e exigindo ajustes imediatos, uma medida incomum por parte da organização.
De forma geral, a cobertura trouxe um misto de “primeiros passos” dados e de expectativa para as reuniões políticas que se iniciam esta semana. Qual será o protagonismo que o Brasil quer assumir? Qual será o legado da primeira COP na Amazônia?
*Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com
**Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista de iniciação à popularização da ciência no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: carol.diasgarcias@gmail.com
Referência:
BALBÉ, A. D.; CARVALHO, A. (2017). As mudanças climáticas no Twitter: a ascendência da mídia e da política. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 40. https://doi.org/10.5380/dma.v40i0.49047