Depois das eleições, a COP-27

Imagem: Reprodução de notícia do Mongabay

Por Eloisa Beling Loose*

A principal pauta brasileira segue sendo a eleição presidencial, que será definida no segundo turno, no próximo dia 30. Contudo, a crise ambiental não dá trégua e em breve teremos mais uma oportunidade de avançar no enfrentamento climático: de 7 a 18 de novembro ocorre a 27ª Conferência das Partes (COP-27) em Sharm el-Sheikh, no Egito. A um mês do encontro, o País ainda apresenta incertezas sobre os rumos da política ambiental, que demonstra ter perspectivas opostas a depender do candidato que vencerá nas urnas.

A questão ambiental é um assunto que divide os candidatos: enquanto um entende que a destruição da natureza é um mal necessário para o progresso (algo que já foi comprovado por estudos que não corresponde à realidade: áreas desmatadas não significam melhora nos indicadores econômicos, como divulgou recentemente o Mongabay) o outro pretende restabelecer uma liderança no debate internacional e combater o desmatamento ilegal. Como assinala o Amazônia Real, a Amazônia é alvo de dois projetos de futuro bastante diferentes para o Brasil – o que afeta diretamente a maneira como lidaremos com a emergência climática em curso.

Enquanto a decisão não chega, o que vários analistas e jornalistas já destacaram é que o caminho será árduo de qualquer forma. Com a eleição de parlamentares mais conservadores e alinhados com o crescimento econômico de curto prazo (às custas de muita devastação e injustiças ambientais), pode-se esperar mais flexibilização da legislação ambiental e outros projetos antiambientais. A revista piauí trouxe uma reportagem sobre as possibilidades que se desenham com um novo perfil de Senado, afirmando que foi eleito “Um congresso mais hostil ao meio ambiente”.

Além do descaso com a proteção ambiental, verifica-se que não há gestão para minimizar riscos e danos, mesmo diante das evidências científicas que a intensificação das mudanças climáticas causará eventos extremos cada vez mais frequentes, na qual as populações mais vulnerabilizadas são as que mais sofrem. O Globo divulgou que 99% do orçamento destinado a prevenção de desastres foi cortado para 2023.

Os efeitos climáticos não aguardam enquanto decidimos quem vai governar nosso País. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já declarou que a Guerra da Ucrânia impactou a discussão de ações mais ambiciosas, inclusive notando retrocessos no setor privado, porém a crise do clima não cessa. Alguém ainda duvida que o cenário é sério?

O jornalismo, em diferentes formatos e linhas editoriais, tem buscado evidenciar o desafio ambiental que se apresenta, baseado em dados e fatos, respaldados pela ciência. Esse é o grande assunto não apenas da COP-27, mas de todo nosso tempo. É a pauta que nos acompanhará por muitos e muitos anos. Cabe a todos nós colaborar para que seu enfoque deixe de ser catastrofista e passe a relatar a transição para uma humanidade mais consciente de suas decisões.

*Jornalista, professora e pesquisadora. Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, e em Comunicação. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

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As queimadas na agricultura familiar no estado do Amazonas

Imagem: Print de manchete do G1 em 25/09/2022.

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

A narrativa das queimadas na Amazônia brasileira por parte da mídia hegemônica tem despertado as atenções de uma forma quase sempre alarmista. Mesmo considerando apenas a área de território do estado do Amazonas, estamos falando de uma extensão de terras fabulosas, que até mesmo pela sua localização central no continente sul-americano torna difícil o acesso e a exploração dos recursos naturais existentes nas terras, águas e florestas.

A matéria de Matheus Castro trata sobre as queimadas acontecidas no estado do Amazonas em setembro de 2022 apresenta o fenômeno de forma alarmista, sem levar em consideração que a população local necessita preparar áreas para a agricultura visando a produção de alimentos. Segundo Matheus Castro, somente em quatro dias – de 21 a 24 de setembro – foram registrados 1.043 focos de queimadas, totalizando 7.286 focos de calor somente no mês de setembro. O consolidado para o ano de 2022 seria de 17.798 incêndios, o pior cenário desde 1998, quando o INPE começou a fazer o monitoramento das queimadas. Esse seria o pior mês de setembro desde 1998. Matheus Castro apenas cita que os focos de queimadas se concentram nos municípios periféricos do do Amazonas: Lábrea e Boca do Acre, ambos no sul do Estado do Amazonas.

Ainda que o autor da matéria cite como fonte o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a generalização das queimadas pelo estado do Amazonas oculta a finalidade do uso do fogo. Do total de 17.198 focos de incêndio, o autor não apresenta o total da área queimada, muito menos o porquê do uso do fogo.

Não estou aqui negando a destruição que se vem fazendo há décadas, principalmente no chamado círculo de fogo, no sul do estado do Pará, chegando já a atingir terras do sul do Amazonas. Contudo, a generalização, como consta ma matéria do G1/AM citada, é levar a opinião pública ao erro.

Caso o autor, Matheus Castro, consultasse dados existentes no site do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), poderia concluir que praticamente toda a agricultura praticada no estado do Amazonas é desenvolvida por agricultores familiares, que para a limpeza do terreno e o preparo do solo para o plantio, necessariamente lançam mão do fogo como mecanismo de preparo da área tanto no ecossistema de terra firme quanto no de várzea.

Segundo o Instituto, nesse ano o total de hectares trabalhados com agricultura no estado do Amazonas foi de 38.571 hectares, cultivados com as culturas de milho, feijão, arroz, mandioca, malva, guaraná, banana, açaí, abacaxi, cupuaçu e laranja, distribuídos por 33.778 produtores. Na terra firme o porte das árvores e a dureza das madeiras dificultam a retirada das galhadas e o arranquio dos tocos de porte avantajado; já no ecossistema de várzea, mesmo sendo a vegetação de menor porte ou rasteira, quase sempre gramíneas, ainda assim faz-se necessário o uso do fogo.

Levando em consideração o tamanho das áreas cultivadas por cada família, geralmente variando de meio a dois hectares percebe-se logo que o impacto ambiental, levando-se em conta o tamanho da região amazônica, é possível de ser absorvido pela floresta. Normalmente na terra firme é cultivada a mandioca para a produção de farinha, uma das bases da alimentação das famílias que residem na zona rural, a proteína é obtida dos peixes e já bem pouco da carne de caça.

No ecossistema de várzea são cultivadas as culturas de ciclo curto, como melancia, milho, jerimum, feijão caupi, hortaliças de várias espécies – o agricultor aproveita a riqueza natural dos solos de várzea. Na área de influência da região metropolitana da cidade de Manaus já se pratica uma agricultura de porte comercial, com o plantio de fruteiras como a laranja, o abacaxi, coco e maracujá.

No estado do Amazonas mesmo a pecuária também é praticada em propriedades de pouca extensão territorial, diferentemente do Pará, que possui criatórios que ocupam milhares de hectares cultivados com capim. Conclui-se que a matéria foge dos princípios do jornalismo ambiental, já que este, segundo Wilson da Costa Bueno (2007), “deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios”.

Referências:

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO E FLORESTAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS. Disponível em: http://www.idam.am.gov.br/ater/producao-vegetal/. Acesso em: 27/09/2022.

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, jornalismo e meio ambiente: teoria e pesquisa.São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com

Tudo precisa ir a algum lugar (ou: meu copinho vai para o oceano)

Por Reges Schwaab*

Toneladas de plástico. O Brasil é o maior poluidor plástico da América Latina, conta uma das reportagens sobre problemáticas socioambientais que merecem destaque nestas últimas semanas. Em texto para O Eco, a atenta Paulina Chamorro, realizadora do @vozesdoplaneta.podcast, costura dados estarrecedores sobre a poluição plástica e algumas considerações importantes que ela ouviu desde a mais recente Conferência dos Oceanos. Em seu perfil no Instagram, a jornalista compartilha uma frase marcante no evento realizado em Lisboa, em julho passado. A poluição plástica no mar é como um derramamento de óleo lento e constante. E muito intenso. Na reportagem, a participação exponencial e ativa do nosso país como um dos propulsores do problema é destaque.

Daqui, mandamos 325 mil toneladas de plástico direto para os mares todos os anos. Aquele nosso “inocente” copinho descartável de café deve estar lá, portanto. Ou um dos muitos garfinhos para os bolos de aniversário vida afora. Ou uma das tantas coisas de plástico que já tivemos em casa. Ou, pelo menos, os fragmentos do “inocente” copinho descartável de café, do garfinho, da sacolinha. Com certeza estão lá. Todos participamos disso. Nosso cotidiano descartável está impregnado de plástico de uso único. Não há política pública contundente que possa frear essa linha de frente da destruição do planeta.

Um modo acelerado de levar a vida está ramificado por todos os lados, mas desconectado de tudo. Se lembrássemos, conscientes, do percurso do copinho plástico, se fôssemos atentos às conexões, o descartável não teria tanto espaço. Ainda não é assim, no entanto. “Tudo se conecta com tudo o mais”, diz uma das quatro leis informais da ecologia de Commoner. Só que não prestamos atenção. Em casa, no trabalho, em nossa cidade, em nosso país, em Brasília.

A imensidão de plástico que embrulha nossa vida e a de outros seres (que não optaram pelo plástico) está, em geral, na trilha da fabricação de embalagens e outros itens descartáveis. A reportagem contabiliza 2,95 milhões de toneladas produzidas por ano. Exemplificando: é o equivalente à produção de 500 bilhões de unidades de itens de uso único no Brasil. Como o “copinho” e o “garfinho”. E “tudo precisa ir a algum lugar”, continua Commoner na segunda lei informal da ecologia.

A terceira lei é: “a natureza sempre tem razão”. Isso faz pensar em muita coisa, inclusive no fato de que uma fruta, que tem casca, não precisaria estar embalada em isopor e coberta de filme plástico, para ficar em um exemplo corriqueiro.  Commoner termina: “nada vem do nada”, a quarta lei informal da ecologia. É o que assinalamos antes, as coisas estão absolutamente interligadas. Não é um papo de jovem místico, é lógica e observação.

Nós já sabemos disso, em termos gerais. Esse conceito faz sentido para nós. Mas nossa compreensão é apenas intelectual, não é da ordem de uma ética internalizada, refletida. Já lemos que não existe nada isolado no nosso sistema terrestre. Mesmo assim, seguimos descartando a vida, permeando tudo que é possível com plástico, enviado rapidamente a cantos do planeta. Nosso plástico já forma continentes no mar, está depositado na Antártida. Depois volta até nós, pois ingerimos microplástico todos os dias.

Outro alerta muito pertinente da matéria é o de que “reciclável” não quer dizer que seja, efetivamente, reciclado. Na sociedade descartável e desatenta, o selo de reciclável serve muito bem à nossa tentativa de sermos “legais” e termos a consciência tranquila. De fato, todavia, fazemos pouco ou quase nada. Valorizamos mais as opções passíveis de foto nas redes sociais. Na sociedade de selos e símbolos pouco perenes, seguimos achando que o destino final do saco de recicláveis – lixo seco que separamos (ainda bem!) – é algum lugar perto da nossa casa, no máximo. Algo bacana parece que vai acontecer, porém não temos real dimensão ou a informação completa sobre todo processo com os resíduos que geramos.

Quando andamos pelas cidades antes da coleta de resíduos, o cenário é arrasador. Se pegarmos uma ponta disso, se puxarmos os fios, se multiplicarmos o que vemos em escala ampla, podemos ter alguma noção do tipo de realidade que nossa sociedade está construindo. E não é a realidade de um futuro distante. Por isso, trata-se de uma pauta que precisa estar sempre no horizonte de forma insistente. O jornalismo precisa ajudar a puxar cada um desses fios.

A reportagem de Paulina Chamorro é reflexo de uma apuração importante, capaz de fazer alguma ranhura na casca grossa dos nossos hábitos desatentos. Junto, levanta também o olhar sobre as questões macro, que dependeriam de ação política e governamental, tão distante quanto a possibilidade de uma sociedade sustentável (o que não nos impede de seguir construindo um caminho). A nossa vida está aqui, está na Amazônia, está no córrego que passa no fundo da nossa cidade, está no meio do oceano. Nossa vida está conectada a tudo, em toda parte. As conexões são incalculáveis. Em geral, é uma pena, permanecemos embalados pela incompreensão de qual é o nosso lugar nisso tudo.

Já abordamos a problemática em outros textos aqui no Observatório. Você pode vê-los aqui.

* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Sumaúma: um portal de jornalismo no centro da floresta

Imagem: Reprodução do portal Sumaúma

Por Patrícia Kolling*

Na última semana, o Brasil e o mundo ganharam um novo portal de jornalismo, o Sumaúma, intitulado “Jornalismo do Centro do Mundo”. O portal/newsletter pretende trazer notícias e grandes reportagens produzidas diretamente da Amazônia, a partir do olhar dos povos da floresta. O manifesto de lançamento do projeto destaca que este se “propõe a debater e jogar luz aos temas urgentes que colocam a Amazônia no epicentro da questão ambiental do planeta”. Os criadores do projeto acreditam que, em um mundo em colapso climático, os centros mais essenciais “não são Washington ou Pequim, não são os bunkers do sistema financeiro, mas os enclaves de vida do qual depende a nossa sobrevivência, como os oceanos, as florestas tropicais, os vários biomas”.

A jornalista e escritora Eliane Brum e o jornalista britânico Jonathan Watts, editor de meio ambiente do The Guardian, são os idealizadores do projeto, que conta com a participação das jornalistas Carla Jimenez, Verônica Goyzueta e Talita Bedinelli, e a parceria da rede de comunicadores indígenas Rede Wayuri. O projeto tem sede em Altamira, no Pará, e terá como base um conselho com pessoas representativas da floresta.

Sumaúma é uma das maiores árvores da Amazônia. Ela é majestosa e traz na memória dos povos indígenas e da floresta inúmeras histórias. Por isso, foi escolhida para dar nome ao portal, que segundo o manifesto quer contar histórias dos povos que vivem na Amazônia, a partir da sua perspectiva, e permitir que essas vozes se propaguem.

Sumaúma é um portal de notícias e um newsletter em português, inglês e espanhol, além da Rádio Sumaúma, que produzirá um podcast quinzenal contando os bastidores e análises das reportagens publicadas. O podcast é comandando por Elizângela Baré, mulher indígena de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Na sua primeira edição, o portal já mostrou a que se propõe, ouvindo as mulheres do povo Yanomami. Mulheres que não falam português e que vivem num território cada vez mais controlado pelo garimpo ilegal, sendo vítimas de violências que dificilmente são expostas. “Escolhemos escutar as mulheres Yanomami porque entendemos que Sumaúma nasce em um tempo de guerra, a guerra contra a natureza e seus povos que está levando o planeta à catástrofe climática e à sexta extinção em massa de espécies”. Nas guerras, são as mulheres, adultas e crianças, as mais silenciadas e as que mais sofrem, destaca Eliane Brum, no texto de abertura do portal.

Para garantir fidelidade à fala das indígenas, buscando “alcançar a palavra exata e a interpretação precisa”, a reportagem foi produzida com a ajuda de duas tradutoras, uma indígena Yanomami e uma antropóloga com 15 anos de experiência com povos originários. Ou seja, o portal pretende realmente trazer com profundidade as situações vivenciadas pelos povos da floresta, penetrando nas suas “entranhas”. Além da informação e da fala das fontes, os textos descrevem situações e locais vividos, o que permite ao leitor entrar no espaço da reportagem e, vivenciar os dramas vividos.

É um jornalismo que exige muita coragem, pois como diz a reportagem: “Sabíamos que seria muito difícil alcançar as regiões dominadas pelo garimpo, porque os criminosos controlam não só o chão, mas também o ar”. Para fazer a reportagem, com apoio de organizações parceiras, as mulheres foram retiradas dos seus territórios e levadas para lugares em que pudessem falar e se expressar em segurança. “Botamos em curso uma complexa operação de jornalismo em território de guerra, uma guerra cujas forças são tão desproporcionais que a palavra mais exata seria massacre.”

Segundo o que afirma em sua apresentação, o objetivo do portal é ser muita mais que uma plataforma de jornalismo ambiental ou de meio ambiente, embora sua proposta se encaixe perfeitamente nos pressupostos defendidos pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e na tentativa de ambientalizar o fazer jornalístico. Sinaliza-se aqui a necessidade de pontuar o que, de fato, é compreendido por esse jornalismo ambiental, que não representa a produção de Sumaúma. “Nossa compreensão dos mundos não é compartimentada: entendemos que a crise climática atravessa todos os temas e é assim que deve ser tratada pelo jornalismo.” Destaca o texto: “Só podemos cobrir a brutalidade de uma minoria humana capaz de provocar uma extinção em massa de espécies e colocar suas próprias crianças em risco de um futuro hostil se compreendermos que a guerra contra a natureza é configurada pelas relações de poder determinadas por raça, gênero, classe e também espécie”. Acreditamos, que se os povos indígenas fizerem efetivamente parte deste projeto, a complexidade da questão ambiental será expressada nos textos de forma natural.

Ao propor-se a atuar como laboratório para a formação de jornalistas que moram na Amazônia, o projeto pretende ser um espaço em que alma da floresta seja transmitida em texto e áudios, tornando-se um canal influente para trabalhar em benefício do futuro do planeta. Como destacam os fundadores, “por enquanto é um projeto semente”, e por ser um projeto de jornalismo independente, depende da colaboração dos leitores e ouvintes para sua sobrevivência financeira (para apoiar: https://apoia.se/sumaumajornalismo).

É na esperança de que a união de jornalistas renomados, experientes e influentes, juntamente com a sabedoria dos povos da floresta possa dar certo, que encerramos este texto. Acreditamos que esse tipo de prática, que conecta, que sente, que expressa, seja o futuro do jornalismo, com o potencial de provocar mudanças nas mentes e nos corações da sociedade. Desejamos coragem e determinação aos criadores, e que consigam colocar em prática tudo que vislumbram, desejando vida longa ao projeto e a este jornalismo de verdade.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal do Mato Grosso – Campus Araguaia.

A falsa neutralidade na cobertura da questão ambiental nas eleições

Imagem: Reprodução de Rede Brasil Atual.

Por Matheus Cervo*

Com o início das campanhas eleitorais no Brasil  em 16 de agosto, o jornalismo começou a cobrir mais ativamente as mensagens que vêm sendo transmitidas pelas campanhas dos presidenciáveis. Não é inesperado que muitos veículos de comunicação se voltem para as possíveis propostas de governo direcionadas à questão ambiental, após quatro anos de notícias sobre os enormes impactos ambientais negativos devidos à atuação do atual governo federal. Como memória disso e de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lembramos que houve um aumento de 56,6% da média de desmatamento anual da Amazônia de 2019 à 2022 em comparação com o período anterior (2016 à 2018).

Contudo, mesmo com a realidade dos últimos quatro anos e com a quantidade enorme de dados científicos sobre a questão, a cobertura sobre as propostas dos presidenciáveis tem se dado através de um debate raso e meramente declaratório em muitos veículos. Como exemplo disso, podemos ver a matéria do Uol acerca da declaração de Bolsonaro sobre as áreas indígenas protegidas fazerem o mapa do Brasil parecer com um “corpo com catapora” – um país pintado com áreas protegidas que “afetariam o agronegócio e o homem do campo”. Essa matéria, publicada no dia 26 de agosto, não faz nada além de declarar o que foi dito pelo candidato à reeleição, apenas aumentando ainda mais o alcance da falácia sobre um assunto complexo, que poderia ter sido debatido com pesquisas sérias na área e importantes vozes que atualmente abordam esse tema. O mesmo é feito pelo Portal Terra que, apesar de fazer um compilado de falas dos principais quatro presidenciáveis sobre a questão do marco temporal às terras indígenas, não se posiciona sobre o tema com dados e pesquisas, tratando o debate como meras opiniões equivalentes a serem consideradas.

Essa falta de profundidade afeta várias questões ambientais dentro do jornalismo que pauta as eleições, como as matérias que cobrem as propostas em relação ao agronegócio e as possibilidade de reforma agrária no Brasil. O jornal Correio do Estado publicou uma matéria no dia nove de setembro sobre as declarações de Ciro Gomes, candidato do PDT, sobre a temática. O tom novamente foi meramente declaratório, expandindo as falas do presidenciável sobre a força do agronegócio como o setor econômico “que leva o Brasil nas costas”. Além disso, a matéria apenas reescreve as falas do candidato sobre o “problema econômico do agronegócio” relacionado com o consumo de fertilizantes externos da Rússia e da Ucrânia, o que o faz pensar em medidas para criar autonomia brasileira na produção de fertilizantes. Essa tonalidade neutra do Correio do Estado faz com que não haja nenhuma discussão real e científica sobre as propostas – como faz o projeto O Joio e O Trigo que mostra que a investigação sobre os impactos do uso de agrotóxicos ocasiona perseguições e mortes no nosso país.

Por isso, qual deve ser o papel da cobertura das propostas dos presidenciáveis ao meio ambiente dentro do jornalismo ambiental? Sem dúvida, não deve ser um jornalismo que se pretende neutro e, para isso, opera simplesmente através da declaração do que está sendo dito por diferentes candidatos. Ao contrário, deve tomar posição através da memória do que temos vivido nos últimos quatro anos e deve retomar a fala de inúmeros pesquisadores na área para que tenhamos um entendimento melhor de quais são as propostas mais adequadas que juntam pensamento político e pensamento acadêmico/científico.

* Cientista Social/Antropólogo. Mestre em Comunicação. Atual doutorando em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS.

Preocupação ambiental das populações: pesquisa compara países e temas

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

Como medir a preocupação da população com questões ambientais — mais especificamente, as mudanças climáticas? Não é uma questão trivial, mas uma pesquisa da Ipsos Global Advisor realizada em 27 países, em junho de 2022, buscou responder. São duas as informações principais e que mais chamam a atenção: o Brasil está em penúltimo lugar entre os países cuja população trata o tema como prioridade, apenas à frente da Argentina; por outro lado, 77% dos brasileiros externalizaram preocupação com os impactos da emergência climática no país.          

Num olhar raso, o resultado pareceria contraditório. Não é. Acontece que a pesquisa mede — e a matéria publicada n’O Globo corretamente contextualiza isto —, num primeiro momento, a proporção de pessoas que trata as mudanças climáticas como assunto prioritário. Não surpreendentemente, os países que figuram no ranking dos mais desenvolvidos do mundo ficaram nas primeiras posições, com exceção da Índia, variando entre 20% e 31% dos entrevistados; o Brasil soma 4%, enquanto a média global foi de 16%. Embora numa análise mais especulativa do que assertiva, o que podemos interpretar do outro questionamento da pesquisa (em que três quartos dos brasileiros estão preocupados) é que a liderança de países do Norte Global não se trata apenas de uma questão “educacional”. A prioridade de preocupação com as mudanças climáticas é, por certo, relacional: países devassados pela alta da inflação, fome, crise econômica, violência etc. colocam a crise climática num segundo escalão — o que não significa, necessariamente, que a desprezem.

De qualquer forma, ainda que a ampla maioria dos brasileiros pareça preocupada com o tema, é preciso cada vez mais apresentar para a população a relação intrínseca entre as questões ambientais e os outros fatores, sociais, urbanos e econômicos, que afligem a população. A atuação contra as mudanças climáticas é, necessariamente, socioeconômica, e com impactos proporcionalmente maiores para os países e populações mais pobres. É aí que entra o papel da imprensa, como reiteradamente pontuamos neste Observatório, de não estar limitado à exposição factual dos acontecimentos e desastres ambientais, ou das longínquas reuniões políticas sobre o clima: é necessário que a conexão entre meio ambiente e a vida real das pessoas perpasse, inexoravelmente, a produção do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Incêndios florestais em pauta

Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu

Por Leticia Menezes Pasuch*                                                 

A realidade da crise climática, que aumenta de forma global, é uma pauta recorrente na mídia, sobretudo diante dos seus impactos. Publicada no site da Revista Galileu no dia 16 de março de 2022, a notícia “Incêndios causaram perda de um terço das florestas do planeta” traz um estudo tecnológico inédito sobre as tendências globais de perdas florestais, divulgado no periódico Frontiers in Remote Sensing, que publica pesquisas associadas a ciência e tecnologia.

A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.

No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.

De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.

A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).

Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.

GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

Estamos à mercê de qual cobertura?

Imagem: Print do topo da notícia publicada pelo G1 em 09.03.2022.

Por Clara Aguiar*

No dia 9 de março de 2022, artistas, lideranças indígenas, movimentos sociais e parlamentares da oposição se reuniram em frente ao Congresso Nacional para protestar contra o chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de projetos de lei proposto pelo governo de Jair Bolsonaro que prevê a flexibilização do licenciamento ambiental, a ampliação do uso de agrotóxicos e a liberação da mineração em Terras Indígenas. Idealizado pelo cantor Caetano Veloso, o “Ato pela Terra” contou com a participação de 17 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Apesar da multidão, minutos após o encerramento do ato, a Câmara dos Deputados aprovou o requerimento de urgência do PL nº 191/2020, que regulamenta a exploração de minérios em terras indígenas, inclusive em territórios habitados por povos isolados.

A aprovação do requerimento de urgência do PL foi título de matérias em diversos jornais do Brasil. No G1, a notícia Câmara aprova urgência para votação de projeto sobre mineração em terras indígenas, em um primeiro momento, parece se destacar ao adotar uma abordagem contextualizada que apresenta a proposta do projeto, os argumentos a favor e contra e o que o PL representaria na prática. No entanto, a matéria não é capaz de explicar ao leitor a complexidade socioambiental que envolve o PL 191/2020. Embora a proposta do projeto tenha como objetivo regulamentar uma prática que gera consequências nocivas para o meio ambiente e que possivelmente colocaria em riscos à vida de povos originários, esse aspecto parece ter sido esquecido. Em nenhum momento, o texto traz uma análise mais aprofundada de fontes especialistas em relação aos impactos que ocorrem na atividade de mineração.

Nesta notícia, observa-se um jornalismo declaratório devido ao predomínio de fontes oficiais, já que somente personalidades políticas foram consultadas: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), o líder da Oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE) e a deputada indígena Joenia Wapichana. Quando o meio ambiente está em pauta, Wilson Bueno defende que é preciso “ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2008, p.111).

Apesar do PL estar intrinsecamente ligado às questões socioambientais, o enquadramento não foi além do político. A matéria se limitou a abordar de forma jurídica o projeto em si e não explicou as problemáticas por trás de sua proposta. “Ele [jornalista] precisa ter uma visão mais abrangente do tema porque caso contrário, irá fechar o seu foco, restringir as suas fontes e ficar à mercê de informações ou dados que servem a determinados interesses” (BUENO, 2007, p. 377). Sob a ótica do jornalismo ambiental, a abordagem empregada pelo G1 não incorporou uma visão sistêmica que induz o leitor a relacionar a dimensão ambiental e social com o fato noticiado. A cobertura poderia ter investido em uma maior apuração que buscasse uma leitura crítica, com o emprego de conhecimento especializado e maior representatividade de fontes não governamentais que colocasse em perspectiva a problemática socioambiental.

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

BUENO, W. C. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. In: GIRARDI, I. M. T.; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo Ambiental: Desafios e Reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. pp.105-118.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.