Manchas de óleo voltam a aparecer no Nordeste: uma nova chance para pluralizar a cobertura

Print UOL 22.06

Imagem: Reprodução retirada da matéria do Uol de 22/06/2020.
Por Eloisa Beling Loose*

O ano de 2019 foi um ano repleto de grandes tragédias ambientais no Brasil. Começou com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho-MG e seguiu com aquelas já há anos conhecidas desencadeadas pelas fortes chuvas (porém, provocadas por uma série de problemas de gestão e ausência de políticas públicas), especialmente no Sudeste. Depois disso, o vazamento de óleo na costa nordestina, as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia – só para citar os acontecimentos de maior envergadura. Em razão do alto impacto negativo, número de afetados, conflitos e dramaticidade envolvida em todos os casos, tais eventos permaneceram por muito tempo sob os holofotes da imprensa, sobretudo o vazamento de óleo, que ainda somava aos valores-notícia já citados o fator de ineditismo. Contudo, não basta que haja um acompanhamento da imprensa durante a tragédia. É preciso pensar no que está sendo dito, de que forma e por quem.

Na última semana voltaram a aparecer fragmentos de óleo em praias de diferentes estados do Nordeste. Conforme análises preliminares, aparentam ser do mesmo tipo daquele que se alastrou na costa do Nordeste no ano passado, decorrentes uma fase pós-vazamento, acarretada por fatores meteorológicos que revolveram o material que estava sedimentado no fundo do mar ou preso em corais. De acordo com informações divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o vazamento de óleo tinha atingido até então 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros – mas, como podemos perceber, os efeitos do vazamento não cessaram. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que esse foi o maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

As notícias recentes foram dadas por vários veículos, como G1, CNN Brasil e JC. O Uol publicou uma matéria mais extensa, na qual trata do aparecimento de restos de borracha também, lembrando que o ambiente afetado ainda não se recuperou. O reaparecimento das manchas é, no âmbito do jornalismo, um novo gancho ou gatilho, uma oportunidade para retomar esse assunto que, embora tenha sido foco de atenção da mídia por um longo período, ainda não tem respostas quanto ao volume e à origem do petróleo vazado, e nem quanto aos prejuízos e danos gerados a médio e longo prazo. Mesmo sendo uma tragédia sem precedentes por aqui, após a retirada da parte visível do problema e a falta de algum aspecto novo na investigação, suas consequências pararam de ser noticiadas.

Em levantamento feito sobre a cobertura ambiental do Jornal Nacional em 2019, o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) verificou que a primeira matéria sobre o assunto é de 27 de setembro, quase um mês depois do seu surgimento, quando as manchas já atingiam nove estados, e que o assunto permaneceu na agenda até 30 de dezembro, totalizando 63 notas ou reportagens sobre o tema ao longo dos quatro meses em análise, em 44 edições, totalizando pouco mais de duas horas de cobertura sobre o assunto. O gráfico abaixo mostra que em outubro há um volume maior de reportagens que são, aos poucos, substituídas por notas cobertas (com imagens da tragédia) e notas peladas (quando apenas os apresentadores narram alguma informação):

Gráfico JN
Fonte: GPJA (2020).

Em dezembro de 2019 há apenas duas notas de 20 segundos sobre o assunto, uma sobre o auxílio-emergencial destinado aos pescadores (13.12) e outra sobre o retorno das manchas no Ceará (30.12). O arrefecimento da atenção da imprensa se dá porque inexistem novos fatos sobre a situação e as narrativas sobre os processos e fenômenos de duração lenta (como a contaminação que persiste nas águas e na cadeia alimentar, por exemplo) são ainda desafios que se impõem, cada vez mais, à lógica jornalística de reportar o que pode é palpável.

Uma análise mais específica sobre o derramamento de óleo em questão, coordenada pelo Intervozes e denominada “O Vozes Silenciadas – a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” (2020), foi realizada a partir de veículos de abrangência nacional e regional, e corrobora com nossa análise preliminar. O estudo identifica que o tema demorou quase um mês para receber visibilidade, deixou de ser coberto mesmo quando havia questões em aberto, fez uso recorrentes de fontes oficiais (não dando voz às comunidades locais e povos tradicionais, os mais afetadas pela contaminação) e pouco discutiu as versões. Mesmo tratando do tema diariamente, as informações não tinham contraponto ou aprofundamento e se baseavam no dito “jornalismo declaratório” – alimentado por um governo descomprometido com a questão ambiental.

O reaparecimento de fragmentos de óleo é uma nova chance para que o jornalismo trate daquilo que, no calor do momento, não foi possível abordar. Mais do que atualizar o contexto do desastre, é possível ouvir todas e todos que podem narrar suas experiências diante dos sinais, às vezes, vagarosos de degradação do ambiente e das mudanças geradas em suas vidas. As considerações do estudo do Intervozes destacam que o jornalismo, em seus diferentes formatos e alcances, deve se reinventar, pois “[…] ao darem espaço privilegiado a tais atores, os veículos reforçam o seu lugar de poder e, ao não promoverem, como deveriam, o confronto de ideias com outros segmentos sociais, com igual espaço de fala, legitimam as declarações oficiais como a verdade dos fatos”.

Diante disso, seguimos acreditando que as análises científicas sobre o trabalho da imprensa possam contribuir com outras formas de registro jornalístico; que o retorno das manchas de óleo possa servir agora para uma leitura menos apurada e mais plural dos efeitos da tragédia; e que o jornalismo possa se pautar mais sobre critérios de relevância e cuidado com a vida do que com a dramaticidade ou o apelo de uma imagem.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

O que mais podemos dizer quando cobrimos chuvas intensas?

Foto chuvas intensas

Imagem: captura de tela de imagem publicada no corpo da reportagem “Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?”, publicada dia 3 de março no jornal O Estado de S. Paulo
* Por Eloisa Beling Loose

Nas últimas semanas as notícias e reportagens sobre os estragos desencadeados pelas chuvas fortes e constantes no Sudeste têm se repetido nos meios de comunicação. Fala-se muito das consequências (alagamentos, enchentes, deslizamentos, perdas materiais e mortes), mas as causas ainda são pouco evidenciadas ou apresentadas de forma parcial. Embora os governantes sejam ouvidos, essa não é a única versão que deveria ter espaço. Esse é um problema ambiental, social, cultural, político e econômico. Negar qualquer uma de suas facetas é sempre ter uma visão fragmentada e, portanto, incompleta dos fatos.

No último dia 2, após as fortes chuvas que atingiram, mais uma vez, o Rio de Janeiro, o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, afirmou que a culpa pela tragédia era das pessoas. O G1 e outros veículos repercutiram que a autoridade foi atingida por barro durante suas declarações na visita ao local afetado, já que reduziu o problema ao lixo não descartado corretamente. O prefeito culpabilizou a sociedade: “se vocês querem ajudar a nossa cidade, é conscientizar a população de que não pode jogar lixo nas encostas, não pode jogar lixo nos bueiros, não pode deixar lixo na rua. Esse é o grande problema do Rio de Janeiro”. Sim, conscientizar a população sobre a limpeza da cidade é importante, mas não é a única resposta e nem resolve por si só a questão. O que dizer sobre a responsabilidade pelo planejamento e gestão da cidade? O que as autoridades públicas têm feito para mitigar os danos das chuvas intensas? Quais as políticas públicas relacionadas à habitação? E quais são os projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, provocadoras de fenômenos extremos cada vez mais frequentes? O que está sendo feito para evitar as perdas, que costumam se repetir todo ano?

Há muitas perguntas que precisam ser reiteradas para lembrar a todos que os efeitos das chuvas são tragédias anunciadas, respaldadas por previsões científicas sólidas. Logo, não são as vítimas as culpadas. Não é possível que jornalistas reproduzam esse discurso sem questionamentos. Quem mais sofre com a falta de ação do Estado, sempre é a população mais carente, aquela com menos recursos para se prevenir e se recuperar. Ninguém escolhe residir em área de risco por ter opções.

No trabalho diário é comum que o jornalismo se detenha aos impactos, àquilo que é visível agora e afeta diretamente a vida das pessoas, como no caso da notícia Mortes por chuvas no verão no Sudeste este ano já superam as de 2019, publicada dia 3 de março pelo UOL, e Buscas por vítimas de deslizamentos são encerradas em Santos e São Vicente; operação segue em Guarujá, publicada dia 7 pelo G1. Contudo, sabe-se que, a partir de uma cobertura mais extensa sobre o assunto, é possível observar mais do que o registro e o drama dos afetados, incluindo até mesmo a perspectiva da precaução. A dificuldade se dá em manter o tema na agenda pública, pois há um momento no qual o pico de atenção midiático desaparece; assim, quando o ciclo das chuvas reinicia, o desastre tende a ser apresentado como novo e se resumir em números e declarações que não explicam o porquê estamos assistindo, mais uma vez, a mesma história.

Na contramão da ênfase sobre as consequências, cito aqui um exemplo do que poderíamos ver mais na imprensa – em quantidade e aprofundamento: a reportagem publicada no dia 3 pelo jornal O Estado de S.Paulo, de Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, no qual indaga-se: Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste? Nela são apontados diferentes elementos que agravam o que não temos condições de impedir: a força das chuvas. Nesse texto vários pontos de vista são visibilizados, relacionando os efeitos negativos das chuvas com as alterações do clima, a retirada da natureza dos centros urbanos, a ocupação desordenada, e a falta de políticas públicas que pensem no planejamento e na redução de riscos ambientais.

Mais do que naturalizar que as chuvas castigam as populações mais vulneráveis e que a responsabilidade é das próprias pessoas (que, por meio dessa lógica, elegeriam se colocar em perigo ao residir em áreas de risco), cabe ao jornalismo contextualizar as prioridades políticas dos governantes e esclarecer as razões para, ano após ano, continuarmos tratando a tragédia como algo novo, um acontecimento que irrompe da normalidade esperada. Como sublinha a reportagem de O Estado de S.Paulo, esse contexto é o “novo normal”. Como o jornalismo pode se adequar a isso? Como podemos fazer diferente diante de um cenário em que o futuro (e não apenas o presente) precisa ser considerado? Como dizer mais (no sentido de melhorar a compreensão) e pautar ações preventivas? Essas são algumas indagações que não poderiam ser lembradas pelos jornalistas apenas com a concretude dos prejuízos.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

Imagem: Captura de tela do site G1 Brasil
*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Imagem: Captura de tela do site Veja

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Relatos jornalísticos sobre a COP-25: a discussão extravasou o evento

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Imagem: Reprodução Envolverde – Carta Capital. Entrega da carta climática de povos indígenas das Américas, Caribe e Antilhas na COP-25
* Eloisa Beling Loose

Muito antes da COP-25 começar, em 2018, ela já era assunto no Brasil. Falava-se em sair do Acordo de Paris, em proteger as riquezas naturais brasileiras dos interesses estrangeiros, colocava-se em suspeição a realidade das mudanças climáticas. Por fim, em novembro daquele ano houve o cancelamento da realização da COP em solo brasileiro.

Mesmo com a retirada da candidatura para sediar a COP-25, a agenda climática no país se fez muito presente em 2019, especialmente devido ao aumento das queimadas na Amazônia, amplamente noticiado pela imprensa nacional e internacional desde agosto, e que não pode ser isolado da crise climática. O desmonte de políticas públicas ambientais brasileiras e as manifestações já sentidas na pele em diferentes lugares fomentam o debate midiático e político de forma constante. Se no começo o receio apontado era que o Brasil perdesse o protagonismo internacional na discussão das mudanças climáticas – e com isso perderia também oportunidades de investimentos e negócios -, o fim do evento revelou que o país conseguiu ir além, sendo considerado “parte do problema” por negociadores que tentam avançar no enfrentamento do clima.

A BBC já noticiava em dia 11 de dezembro que Países em desenvolvimento acusam Brasil de tentar bloquear avanço em negociações do clima e, no fim da conferência, no domingo, dia 15,  a mais longa das cúpulas do clima realizadas pela ONU, manifestou mais sinais da postura contrária do governo: “O responsável pelo último dos impasses foi o Brasil, que não aceitava inicialmente dois parágrafos incluídos no acordo que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global”, expõe o texto Após atrasos e impasses, países aprovam texto final da COP25, publicado no portal R7. A proposta de fazer algo ambicioso já (o slogan da COP-25 é “Time for Action”) foi frustrada pela priorização dos interesses econômicos nacionais, baseados em combustíveis fósseis e em uma lógica de mercado calcada na exploração da natureza.

O papel do governo brasileiro já havia sido relatado pela imprensa e também criticado. O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou claro que o “Esforço do Brasil é para conseguir recursos”, mesmo quando a finalidade da COP é outra. Muitos veículos, como G1, Uol, IG, Carta Capital e Veja, mostraram como o Brasil estava sendo malvisto quando divulgaram as anti-premiações do “Fóssil do Dia” e do “Fóssil do Ano”, reconhecimento da Rede Internacional de Ação Climática (CAN) aos países que tiveram a pior atuação na área.

O jornalista André Trigueiro, em podcast sobre a COP-25, nomeou de desastrosa a participação brasileira na Conferência, alertando para a gravidade do contexto. Também Amelia Gonzalez, em blog no G1, discute as regras feitas em torno dos mercados que buscam lucro sem considerar as pessoas, trazendo o exemplo de Belo Monte, que “ajuda que o Brasil mantenha uma boa imagem em Conferências sobre o Clima, como gerador de energia ‘limpa’, mesmo sendo um dos mais poluidores do mundo”. Em notícia do Nexo Jornal, o único aspecto positivo ressaltado recai sobre a participação da sociedade civil e outros setores e atores que buscam acordos pró-clima de forma direta, desvinculando-se do governo federal.

É importante recordar que a mudança de sede do Brasil para o Chile e depois para Madri há pouco mais de um mês da data do evento prejudicou a participação e articulação da sociedade civil, especialmente da América Latina, que contava com a oportunidade para pressionar os líderes de Estado. A colunista do El País, Eliane Brum, escreveu sobre a perda de uma oportunidade histórica, mas motivada por interesses que permitam a manutenção do status quo: “Os negociadores não querem sujar as mãos com as ruas da América Latina em diferentes tipos de convulsão. Preferem manter as negociações intermináveis em ambiente climatizado. A ironia aqui não é opcional. Querem mesmo controlar o clima do debate e não ser pressionado por aqueles que sofrem a falta de políticas públicas para enfrentamento do maior desafio da trajetória humana”. Ao promover o encontro na Europa, economicamente inviável para a participação da maioria dos impactados, pode-se pensar mais em como lucrar com os mercados de carbono e arquitetar caminhos para fazer mudanças mais brandas.

Apesar de as fontes oficiais ainda serem as mais procuradas e os discursos econômicos e políticos serem constantes nos relatos jornalísticos, percebe-se que a própria urgência de uma virada mobiliza outros atores, que passam também a ter espaços nas notícias (antes, durante e depois das COPs). Se na análise realizada a partir da cobertura de revistas brasileiras das COPs 15 e 16 identificou-se dificuldade dos veículos na construção de discursos próximos à sustentabilidade real, a perda de liderança do governo atual proporcionou que as vozes afetadas estivessem mais presentes nas matérias, como foi o caso da ativista adolescente Greta Thunberg, eleita a “Personalidade do Ano de 2019” pela revista Times e que chama a atenção para os mais vulneráveis aos riscos climáticos, e, em menor escala, da quilombola Luceli Morais Pio e da liderança indígena Sônia Guajajara.

Se houve um tempo em que a questão climática só era pautada de forma pontual, a partir da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e das próprias COPs, percebe-se que está ocorrendo, gradualmente, uma extrapolação do assunto, que está conectado com aspectos políticos, econômicos, culturais, de saúde, de segurança… Tal transversalização do tema contribui para manter a atenção pública sobre o colapso e, quiçá, sensibilização para seu enfrentamento.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que tem como o objetivo frear as emissões de gases de efeito estufa causadores da amplificação de riscos climáticos. A COP ocorre anualmente desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no mundo e discutir formas de reduzir sua intensificação e, consequentemente, seus impactos. Os delegados governamentais dos países signatários dessa Convenção são os únicos com poder de voto, mas participam também dos eventos jornalistas e membros da sociedade civil. Desde 2015, quando foi assinado um grande acordo climático global, o Acordo de Paris, as conferências anuais têm se dedicado a como colocá-lo em prática, mas os processos decisórios costumam ser longos e lentos, pois as deliberações são tomadas por consenso entre as Partes – o que exige inúmeras negociações e nem sempre acarretam medidas à altura dos desafios impostos pela emergência climática.

A COP-25 encerrou, os resultados ficaram aquém do esperado mais uma vez, notou-se a desconexão das preocupações políticas com a urgência e gravidade do problema que precisamos enfrentar, porém ainda há tempo para agir. E o jornalismo deve fazer a sua parte enquanto prática social voltada para o interesse público. Que as mudanças observadas ao longo do tempo na cobertura jornalística sobre clima tenham um ritmo maior e possam ser amplificadas para alertar a todos sobre o que está de fato em risco quando falamos de crise climática: a nossa existência nesse planeta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

“É impressionante a imprensa dar espaço para esses adultos aí”

Por Reges Schwaab*

Diz. Afirma. Duas expressões recorrentes nas manchetes dos jornais de referência, em especial em seus portais digitais. Mas não só. Nesta quarta, 14, a manchete de terça ainda se repetia: “Bolsonaro chama Greta de ‘pirralha’ e diz ser contra desmatamento ilegal”. Diz. Afirma. E o fato de alguém dizer parece desobrigar o jornalismo da apuração. A triste frase do presidente, que rodou o mundo, e fez com que Greta Thunberg alterasse sua descrição no Twitter (imagem a seguir), pode não parecer caso para uma grande análise.  Mas, na verdade, faz lembrar do contexto mais amplo da disputa de sentidos acerca da emergência climática, a bandeira de protesto de Greta e outras milhares de pessoas, luta que mobiliza jovens, ativistas e cientistas em diferentes países.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Poderíamos esperar uma grande repercussão do jornal acerca da afirmação sobre Greta? Talvez não. Mas a proposta é ver aqui outro viés. O “diz” e o “afirma” acompanham, recorrentemente, as manchetes sobre os chamados negacionistas, a quem o jornalismo resolve, em intervalos regulares, conceder espaço e mostrar que o aquecimento global não existe, ou não é fruto da intervenção humana. Isso porque todo jornal ainda insiste em se denominar “imparcial” e “comprometido com a verdade”, tendo de ouvir os “dois lados”.

“É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, foi a frase de Bolsonaro na terça. Poderíamos fazer um jogo de inversão? Melhor não, pois cairíamos no mesmo preconceito. O insulto proferido contra Greta ecoa a desconsideração da criança e de que a infância seja um lugar de saber. Então, a luta de Greta é uma pirraça infantil. E não sendo nada mais do que gritos de uma criança, por que haveriam de ser considerados? Apareceram charges retratando Bolsonaro como um bebê diante de Greta. Mas soam na mesma direção, a criança que faz pirraça diante do adulto. A luta geral vai em outro sentido.

O “impressionante”, nos parece, é que mesmo diante de pilhas de dados científicos, produzidos por diferentes correntes acadêmicas, os que negam a interferência humana no ecossistema tenham suas afirmações amplificadas em nome da encenação de pluralidade jornalística. Sobre esse tema, merece leitura o texto de Herton Escobar na ComCiência (Dar voz à mentira não é imparcialidade, é irresponsabilidade). Basta verificar, são atores que nunca participaram de um debate científico sério sobre o tema. Só dizem. Isso inclui o presidente e o ministro do Meio Ambiente brasileiros.

Na semana em que as mudanças do clima foram um dos assuntos mais comentados no Twitter, diante da COP25, a Conferência da ONU sobre o clima, o Brasil dos já crescidos segue sem entender de futuro. Na crítica de Greta, que incomodou Bolsonaro, estava a evidência da culpa pública e coletiva pelo extermínio dos indígenas e pela falta de proteção ao território da Amazônia. E como escreveu Eliane Brum no El País, se a COP 25 não frear a destruição da Amazônia, seria melhor nem ter saído de casa. Greta não diz ao vento. A despeito de críticas direcionadas a ela, que aparecem a todo momento, Greta sabe: nada foi feito efetivamente pelos senhores tão adultos, nós aí incluídos.

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Imagem: Reprodução/Greta é eleita pela Time a personalidade do ano

Para ampliar: Crise climática e justiça ambiental

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Microplástico nos oceanos e a necessidade jornalística de ir além da tradução de artigos científicos

Foto GPJA

Imagem: Captura de tela de matéria da BBC News
Michel Misse Filho*

Não raro observamos, nos noticiários televisivo, digital e impresso, reportagens que atentam para o problema das quantidades crescentes e absurdas de plásticos nos oceanos. Foram diversas matérias nos últimos anos, construídas com um especial enfoque, por exemplo, nas ilhas de plástico do Oceano Pacífico (somadas, compreendem uma área maior do que a de países como a França), bem como nas terríveis fotos de tartarugas, peixes e baleias envoltas em sacolas ou garrafas de refrigerante.

Muito além das fotografias espetaculares das ilhas de resíduos, a problemática do microplástico tem se mostrado notadamente importante, transpassando o sistema digestivo de inúmeros seres que habitam os oceanos – e que também chegam à nossa mesa de jantar, finalmente. Uma matéria publicada este mês pela BBC News , em seu site, é um bom exemplo para tratarmos do assunto em correlação com a divulgação científica na mídia.

Intitulada “Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes”, a notícia revela um estudo inédito, que aponta para o aparecimento de fragmentos de plásticos nos locais ricos em plâncton, como em certos “corredores” na superfície do mar onde se concentram materiais orgânicos, propiciando uma zona de maior concentração de alimentos para as larvas. Apesar de pesquisadores já desconfiarem do fato, cientificamente só se tinha a confirmação da ingestão da substância plástica em peixes adultos e, portanto, cientistas se alarmam com as consequências da ingestão dessas toxinas no estágio mais vulnerável do desenvolvimento das espécies. Em vez de tartarugas com grandes sacolas, emerge a figura dos fragmentos plásticos, menores que cinco milímetros e originados por decomposição dos plásticos maiores, agora sabidamente ingeridos desde o início da cadeia alimentar, com consequências ainda não desveladas pelos estudiosos.

A análise da matéria é uma boa oportunidade em confluir divulgação científica e a pauta do microplástico em corpos hídricos, cada vez mais recorrente. Sob o ponto de vista da ciência, a matéria cumpre o seu papel de informar, com clareza, as descobertas do estudo, traduzindo-as para um público não especializado, como deve ser de praxe na atividade jornalística. O problema, contudo, é a dificuldade em se utilizar de um gancho como esse (a própria publicação do estudo) para que se possa descortinar uma série de relações – causais ou não, contingentes ou não – que tenham a ver com o assunto mencionado. Limitar a divulgação científica na mídia à simples tradução de um artigo científico em linguagem jornalística não parece ser proveitoso nem à percepção da ciência pela sociedade, e nem ao jornalismo que, empobrecido e com redações cada vez mais enxutas, se mantém distante da rua e do olhar in loco. No caso do jornalismo ambiental, em que a divulgação científica faz parte da própria gênese de criação do campo, realçar o intercâmbio entre academia e sociedade parece ainda mais importante para que a pauta ambiental possa adquirir um olhar mais sistêmico e complexo da questão.

Sendo a próxima década (2021-2030) definida pela ONU como a “Década para a Oceanografia”, é fundamental abordar o assunto além das imagens chocantes das grandes montanhas de lixo, mas também para temas não visíveis à olho nu, mas que crescem de forma avassaladora, como a questão dos microplásticos, da acidificação dos oceanos, e da importância dos oceanos contra as mudanças climáticas. Mais do que isso, cabe também ao jornalismo ampliar o seu leque de olhares e, portanto, de perguntas: quem sabe, assim sejam ensaiadas novas respostas.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Livros-reportagem: o jornalismo respira em um mundo sem fôlego

Por Reges Schwaab*

A urgente abordagem qualificada das mudanças climáticas não significa pressa. Será necessário encontrar o tempo para a complexidade que o tema requer. Ela começa na compreensão individual que permita visualizar as drásticas alterações globais em curso, já documentadas por cientistas, bandeira de movimentos sociais, tema de filmes e capas de revistas e alvo do negacionismo desprovido de ética.

Já não é possível pensar nosso cotidiano sem o olhar socioambiental. A cobertura guiada por acontecimentos pontuais deve ser suplantada pela realidade implacável da emergência climática, que não escolherá lugar, hora ou fronteira, com verdadeiro potencial de alterar a vida como experimentamos hoje.

Trabalhos com rigor de apuração e abertura interpretativa são valiosas fontes de estudo. E servem a jornalistas e a toda pessoa que queira oxigenar sua compreensão dos múltiplos aspectos das mudanças climáticas.

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Imagem: Reprodução. Livro de Jonathan Safran Foer ainda sem tradução no Brasil

O escritor Jonathan Safran Foer, em “We are the weather”, não adia consequências nem decisões pela ação. As mudanças climáticas são um problema global e individual, mas essas não são hipóteses excludentes, afirma. Oferece um ensaio de grande investimento em pesquisa e forte apelo emocional. Aponta para a necessidade de ações governamentais sistêmicas e de transformação de hábitos de vida, pois o sofrimento causado pela crise do clima será irrestrito.

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 Imagem: Reprodução. David Wallace-Wells já pode ser lido em português

Elogiado por Safran Foer, “A terra inabitável”, do jornalista David Wallace-Wells, desconstrói a fantasia de que as mudanças climáticas têm ritmo lento. Traça um cenário de fome, calor, enchentes, desertificação e crise econômica, com grande capacidade de observação e prospecção. O poderoso embasamento que sustenta o livro faz pensar com assombro nas mudanças que tomarão forma ainda neste século.

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Imagem: Reprodução. Cláudio Angelo mescla reportagem, diário de viagem e relato científico

A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima”, de Claudio Angelo, dialoga com diferentes leitores sem perder o rigor. Uma “leveza” no tom do texto aparece mesmo nos detalhes do derretimento das calotas polares e nas consequências para a agricultura e para as cidades. A força do “repórter na rua”, ou “no mundo”, rende uma mescla de reportagem, diário de viagem e relato científico. As mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade, argumenta.

A literatura produzida sob a rubrica do jornalismo é campo em destaque na crítica especializada e em prêmios nacionais e internacionais. Fontes de qualidade para o debate, mesmo que o colapso seja, inevitavelmente, um componente do nosso futuro.

Para ampliar:
David Wallace-Wells – Desastres em cascata (Revista Piauí)

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo precisa ampliar entendimento sobre a atualidade para garantir pluralidade de vozes

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Imagem: Captura de tela do conteúdo publicado pela BBC Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*

A atualidade é razão de ser, critério imperativo do jornalismo. Trata-se, pois, de uma instituição baseada na cultura do tempo presente, como ressalta o professor Carlos Franciscato (2014). No entanto, à medida em que a circulação das informações se acelera e interconecta diferentes escalas, o tempo presente relatado pelo jornalismo é cada vez mais sorrateiro, escapando entre nossos dedos com tamanha rapidez que já nem mais lembramos o que exatamente nos causou tanta indignação no noticiário da semana passada.

Podemos dizer, por exemplo, que o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, proferido em 24 de setembro, foi rapidamente superado após a leva de checagem de fatos e reações inflamadas nas redes sociais que repercutiram, no máximo, até o final daquela semana. Afinal, era necessário passar à próxima pauta bombástica sobre meio ambiente e política. Em tempos de relações internacionais abaladas pela Amazônia em chamas, o cardápio é farto.

Por isso, fui positivamente surpreendida com conteúdo publicado no site da BBC Brasil em 13 de outubro. Em entrevista realizada por telefone com o cacique kayapó Raoni Metuktire, difamado por Bolsonaro à ocasião do discurso na ONU, o repórter João Fellet teve a oportunidade de retomar pontos que devem ser debatidos à exaustão no atual contexto de caos climático e humanitário.

É papel do jornalismo questionar gestos e políticas coniventes com o genocídio de populações historicamente oprimidas, desde crianças negras alvejadas durante operações policiais nas favelas até povos indígenas que se veem acuados em suas próprias terras por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pela realização de obras de grande impacto socioambiental. Dar a palavra a Raoni garante continuidade à disputa de visões de mundo evidenciada pelo posicionamento do atual governo, disputa que não se esgota nos discursos oficiais ou nas frases de efeitos proferidas em lives nas redes sociais. O debate público está em curso, e deve ser repercutido no jornalismo por meio de uma pluralidade de vozes.

Neste sentido, este movimento não deixa de ser uma recusa ao modus operandi do jornalismo meramente declaratório, que apenas traz a fala literal das autoridades sem repercutir os contrapontos de pessoas e grupos que têm legitimidade para comentar o assunto. É necessário aprendermos que estes demais atores podem, por cultura ou hábito, não seguir o mesmo tempo do jornalismo. E que sua manifestação não é menos importante por conta disto. Cabe ao jornalismo reconfigurar a percepção do tempo presente, ampliando a experiência da atualidade para além do imediato ou simultâneo através de mais detalhamentos, contextualizações e desdobramentos.

Referência:

FRANCISCATO, Carlos. O jornalismo e a reformulação da experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Brazilian Journalism Research, v.11, n.2, p.96-123, 2014.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

Quando o jornalismo vai além dos problemas: um bom exemplo sobre mudanças climáticas

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Imagem: Captura de tela da primeira página da reportagem de Zero Hora sobre mudanças climáticas
* Por Eloisa Beling Loose

A pauta ambiental é, na maioria das vezes, impulsionada por desastres, tragédias e prejuízos. Isso está relacionado não apenas aos acontecimentos mais visíveis ou concretos, que conseguem ser facilmente identificáveis pelos jornalistas na rotina de construir relatos sobre o presente, mas também aos critérios de noticiabilidade, que perpassam aspectos negativos – afinal, “notícias boas são notícias ruins”, pois são elas que prendem a atenção do público e geram desmembramentos (suítes), acarretando mais audiência e, consequentemente, maior faturamento. Inclusive existem estudos que indicam que as notícias com viés negativo são mais facilmente processadas e lembradas, chamando mais a atenção dos seres humanos (WENZEL, GERSON e MORENO, 2016). Contudo, especialmente quando falamos da cobertura da crise climática, não basta focar apenas no problema – que, dessa maneira, pode desencadear inércia ou apatia. Para que haja uma reação, sensibilização e, quiçá, uma mudança de atitude, é preciso que soluções ou boas práticas sejam visibilizadas pela imprensa.

Embora não seja tarefa difícil ampliar a abordagem dos relatos jornalísticos para além dos riscos e efeitos negativos – porque já existem muitas ações de enfrentamento em diferentes escalas -, a fragmentação típica da prática jornalística (especialmente dos veículos com produção em tempo real e diária) reproduz com muita frequência o enfoque unilateral dos problemas. É por isso que destaco, positivamente, a reportagem “O alerta climático ressoa no Sul”, de Itamar Melo, no jornal Zero Hora.

Além de expor a urgência e gravidade das mudanças do clima a partir do Rio Grande do Sul, a escala geográfica mais próxima do seu público-alvo, por meio de exemplos sentidos e acompanhados pelos gaúchos, o texto avança sobre o alarme da situação e dá espaço para apresentar medidas que podem ser feitas em nível individual e as adaptações necessárias no principal setor econômico do estado, o da agropecuária.

Ao tratar das respostas à emergência climática, tomando como gancho a repercussão dos jovens nas greves pelo clima, é possível visualizar uma perspectiva mais orientada para a ação, de um jornalismo que cumpre com a responsabilidade de informar e envolver as comunidades na resolução de seus problemas – diferente daquela cobertura centrada somente na negatividade, que provoca desânimo e desesperança. Ao pontuarmos que o Jornalismo Ambiental deve ser engajado, estamos sublinhando que é preciso construir relatos propositivos, que subsidiem de forma qualificada os cidadãos para suas tomadas de decisão.

Vale ressaltar também a consulta por fontes de informação que conhecem a realidade local, além de outras que contribuem com a contextualização de forma ampla. As mudanças climáticas são um fenômeno interdisciplinar e que se manifesta em múltiplos níveis, e os relatos jornalísticos devem refletir essa complexidade buscando ouvir diferentes vozes e investir na contextualização humanizada, que toque de alguma forma os públicos. É claro que há limites no fazer jornalístico e que nenhuma reportagem dará conta de tudo, entretanto, bons exemplos como esse, publicados frequentemente, contribuem com a formação e percepção ambiental da sociedade. Porque a crise climática, como bem lembra a reportagem, diz respeito, sobretudo, a nossa vida na Terra: “Vamos salvar a nós mesmos. Porque o planeta sobrevive. Se eu eliminar a espécie humana, a Terra volta ao equilíbrio e vive ainda bilhões de anos. E nós, será que conseguimos sobreviver se continuarmos a fazer o que estamos fazendo?” (ZH, Caderno doc, 12 e 13/10/19, p.11).

Referência:

WENZEL, Andrea; GERSON, Daniela; MORENO, Evelyn. Engaging Communities Through Solutions Journalism, 2016.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

A cobertura sobre meio ambiente entre o desenrolar de tragédias e o bom exemplo localizado

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Imagens: Capturas de tela das reportagens citadas

 

Por Michel Misse Filho*

Os grandes veículos de mídia brasileiros têm dado especial enfoque noticioso, nas últimas semanas, a dois temas ambientais: a discussão em torno da floresta amazônica –e o que ela desencadeia em termos de política externa para o Brasil, concomitantemente à realização da Assembleia Geral da ONU – e, mais recentemente e com menos ênfase, o aparecimento de petróleo cru em mais de cem praias do Nordeste.

O primeiro tema, após sucessivas reportagens e a criação de uma crise internacional para o governo, passa agora pela atuação militar nas missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Em meio às empreitadas, reportagem d’O Globo mostra que fiscais do IBAMA acusam o exército de negar apoio às ações de combate aos garimpos ilegais e focar apenas nas de incêndio – ações notadamente de maior visibilidade, afirmam funcionários do órgão ambiental. O descompasso entre as duas instituições ocorreria em função da possibilidade de destruição de equipamentos para mineração ilegal, e é fundamental levarmos em conta a desautorização pública que o governo fez, em abril, da destruição de maquinário em Rondônia – esta semana, o presidente também sustentou que o interesse na Amazônia é na mineração. Já as notícias do crime ambiental que mancha as praias do litoral nordestino passam, agora, pela investigação do rastro de origem da substância, em que a Venezuela desponta como principal suspeito, em matéria da revista Época.

O que as duas matérias têm em comum é a ascensão de um caráter cada vez mais investigativo e menos ambiental, mesmo que essas duas instâncias não sejam contraditórias entre si – muito pelo contrário, se completam. O objetivo aqui não é o de criticar a construção dessas matérias, mas notar uma trajetória aparentemente frequente na pauta ambiental: surge inicialmente com uma tragédia e, como tal, necessita de uma investigação que, ao desenrolar a história, parece ganhar autonomia jornalística frente ao próprio fato ambiental em si.

O jornalismo diário também apresenta abordagens que vão ao extremo oposto das tragédias. Deparei-me quarta-feira (02/10) com a seção “Dias melhores”, da Folha de São Paulo, que noticiou a conquista de um prêmio de sustentabilidade pela cidade sergipana de São Cristóvão, devido à sua política hídrica, com água tratada em quase 100% das casas. A pequena matéria é bonita, importante e inspiradora para outras cidades, mas também se restringe à pequena localidade.

Chama a atenção, ademais, a já conhecida dificuldade de sair da polarização “tragédia” e “bom exemplo localizado”, em que pese a necessidade de trazer complexidade aos fatos noticiados. Comumente perdem-se oportunidades de ir além do factual, podendo abarcar uma visão sistêmica, construtora de um jornalismo ambiental que fosse mais do que simples notícias sobre meio ambiente, como já foi observado e reiterado diversas vezes por pesquisadores deste Observatório.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A notícia por trás da notícia

The Intercept

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site The Intercept Brasil

 

Por Ursula Schilling*

É notória a repercussão que os temas ambientais têm tido na mídia, especialmente nos últimos meses. Infelizmente, isso não se dá pelos melhores motivos, visto que, pelo aumento do desmonte das políticas ambientais e da sistemática degradação da natureza – tamanha, que não está podendo ser ignorada – há matérias, no impresso e no online, em profusão.

Se, no início do trabalho deste Observatório, o desafio era encontrar notícias com a temática, agora, é selecionar objetos de análise em meio a muita oferta de material. Veja-se o copo meio cheio: assuntos como mudanças climáticas, desmatamento e uso de agrotóxicos, saíram das coxias informativas para as capas dos jornais.

Feito esse preâmbulo, proponho um rápido olhar sobre duas matérias publicadas nos sites The Intercept Brasil e BBC Brasil. A primeira, de 24 de agosto, intitulada “Lobistas do Partido Republicano ajudam o Brasil a recrutar empresas dos EUA para explorar a Amazônia”, traz informações sobre a possível relação da destruição da Floresta Amazônica com o movimento lobista americano, interessado em explorar os recursos naturais brasileiros. A segunda reportagem, publicação mais recente, de 14 de setembro, “O que as queimadas na Amazônia têm a ver com a economia e por que as eras Dilma e Bolsonaro fogem à regra”, traça uma linha de tempo das queimadas, estabelecendo um vínculo com questões políticas e econômicas ao longo de diferentes gestões do Governo Federal.

Um dos valores notícia é a atualidade. O aqui e o agora importam. Mas se isso é verdade, também é verdade que um acontecimento, visualizado numa linha de tempo, é constituído de passado, presente e futuro, ou seja, o que acontece hoje tem causas e terá consequências. Desde o início de agosto, quando houve uma espécie de marco zero da noticiabilidade das queimadas na Amazônia, com “o dia do fogo”, a pauta teve seu valor notícia aumentado. Mas, para além do assunto “principal”, o que há por trás das queimadas? O que é publicado nos ajuda a compreender o que acontece, por que acontece e os impactos subsequentes? Qual nossa parcela de responsabilidade nesse contexto?

Estará o jornalismo atento a essas questões? Com base nas análises recentes publicadas neste Observatório, entende-se que sim. Diversos veículos têm feio um esforço para elucidar o que acontece nos bastidores da crise ambiental sem precedentes pela qual passa o país. Mas a prática ainda se mostra esparsa.

Por isso trago os exemplos citados acima. Cada um por um viés, levanta informações para além de uma questão pontual. Abordagens como essas são importantes, para que construamos repertório e, por consequência, uma visão mais crítica. É o que se espera.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Crise internacional aumenta valor notícia da Amazônia

Capa Época

Imagem: captura de tela – Capa da revista Época da primeira semana de setembro

 

Roberto Villar Belmonte*

Em poucos meses, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu uma façanha: catapultou o valor notícia da floresta amazônica a patamares raramente vistos na imprensa brasileira pelo menos nas últimas três décadas. Essa avalancha de histórias terá um efeito de longo prazo na consciência ambiental do brasileiro que ainda não pode ser analisado. Por isso seguimos escrutinando com lupa o noticiário e passamos, a partir de hoje, a publicar nossas observações duas vezes por semana: segundas e quintas.

Reveladora é a reportagem de capa da revista Época dessa semana escrita por Sérgio Roxo, enviado especial a uma das áreas mais devastadas pelo fogo no Sul do Pará, publicada com a cartola ‘Crise Internacional’. O jornalista lá esteve no final de agosto e apurou como atua a gangue das queimadas na região e por que esses incendiários não estão presos.

“O mecanismo do desmatamento não é segredo para ninguém naquele ponto do Pará — e não há histórico de crimes ambientais cometidos por organizações não governamentais voltadas para a preservação da floresta. Nessa região, as árvores desaparecem e dão lugar a pasto”, escreveu na primeira das seis páginas de texto.

O repórter reconstrói com depoimentos uma batida realizada por policiais e fiscais do Ibama na Fazenda Ouro Verde, onde três tratores foram apreendidos e retomados à força pelo suposto proprietário incendiário, identificado como Geraldinho Palmeira, por falta de escolta armada durante o transporte dos veículos apreendidos.

Além de funcionários de fazendas vizinhas e policiais, fontes ligadas ao Ministério Público Federal e ao Instituto Socioambiental ajudaram o repórter a descrever os furos legais e a falta de política que incentivam a destruição da floresta. Ele também ouviu um fazendeiro que abandonou a prática de derrubar a mata.

Na mesma época, Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida, do jornal Folha de S.Paulo, também estiveram na região, na Terra Indígena Trincheira Bacajá, no município de São Félix do Xingu (PA). Na aldeia, eles acompanharam a chegada dos índios xikrin após retomarem área de grileiros e publicaram a história com exclusividade no dia 26 de agosto.

Nessa segunda-feira (02/09), Maisonanave publicou texto em primeira pessoa descrevendo a aventura. O título do texto deveria virar máxima do jornalismo ambiental: “Jornalismo é caminhar por horas na floresta para cobrir disputa por terra”. Oxalá fosse sempre assim.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A humanidade consome demais e o jornalismo questiona muito pouco

G1

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no G1
Por Eloisa Beling Loose*

Hoje, dia 29 de julho, muitos veículos de comunicação estão reportando a sobrecarga da Terra, limite máximo de uso dos recursos naturais que podem ser renovados sem gerar problemas ao meio ambiente (e, por consequência, à vida dos homens neste planeta). Em 2019, essa data-limite veio três dias antes que no ano de 2018.

O G1 apresenta como manchete: Planeta atinge esgotamento de recursos naturais mais cedo em toda a série histórica e o Uol aponta que: Humanidade já esgotou recursos do planeta para este ano, diz ONG. Os dois sites de notícias mais acessados do Brasil lembram que estamos consumindo 1,75 planeta por ano, sendo que nosso déficit com a natureza data da década de 1970.

O alerta, contudo, não é recorrente na prática jornalística, que tende a naturalizar o pensamento dominante de que é preciso crescer para se desenvolver. Embora o jornalismo tenha compromisso com os interesses sociais, na lógica hegemônica, na qual está inscrito, consumir é status e até solução para os problemas econômicos, políticos e sociais.

Se observarmos as editorias de Economia, por exemplo, a ênfase está no mercado e não em uma forma cooperativa e/ou equilibrada de gerir conjuntamente as necessidades da sociedade com aquelas do meio ambiente. A finitude dos recursos não é debatida, criando a falsa impressão de que nosso padrão atual é viável. O consumismo quase nunca é pauta, pois foi incorporado ao estilo de vida moderna e à própria sustentação econômica das empresas jornalísticas, dependentes por muitos anos das verbas publicitárias. As diferenças abissais de consumo entre os países também tendem a ser ocultadas e o contrário – o incentivo a um modo de vida com mais supérfluos e propenso a mais exageros – parece ser visibilizado de forma acrítica.

Apesar de as notícias de hoje sinalizarem para os custos desse excesso, advertindo para a extrapolação que estamos fazendo ano a ano e sugerindo que os indivíduos calculem sua pegada ecológica, o jornalismo não consegue avançar nessa discussão mesmo tendo uma data como gancho. Os impactos ambientais são decorrentes de políticas, de negócios, de acordos internacionais que favorecem a extração da natureza a baixo custo e a subjugação da força de trabalho da maioria dos países do mundo em detrimento de outros poucos. Cada um pode e deve fazer a sua parte, porém isso inclui as instituições e os governos. Questionar o sistema também é papel dos jornalistas.

Os silenciamentos da imprensa quanto às lógicas que conduzem a nossa realidade social produzem lacunas de entendimento e a falta de caminhos para enfrentar as situações postas pode gerar apatia – ou, o que é pior, a sensação de que não há alternativa. O que as notícias do G1 e do Uol não mencionam é que há estudos que mostram que ainda podemos reverter o quadro. De acordo com a Global Footprint Network, é possível que a Terra consiga recuperar seu equilíbrio antes de 2050, caso a gente consiga adiar o Dia de Sobrecarga de apenas cinco dias todos os anos. Para tanto, uma campanha chamada Steps to #MoveTheDate lista uma série de ações concretas para alterarmos esse cenário.

Para além de expor as problemáticas, as soluções devem aparecer e ultrapassar os comportamentos individuais. É importante refletir e investigar sobre o que mantém o consumo exacerbado da sociedade mesmo diante da informação de que isso não é uma realidade possível para todos – e nem mesmo para uma minoria a longo prazo.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O problema do distanciamento do leitor ao tratar sobre mudanças climáticas

campo gelo patagonia

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Em uma curta matéria, a jornalista Natalia A. Ramos Miranda escreve para a Agência Reuters sobre o rompimento de um campo de gelo de 12 mil quilômetros quadrados na Patagônia chilena. O G1 publicou a notícia no dia 24 de maio.

Trazendo uma entrevista com o diretor da Divisão de Neve e Geleiras na DGA (autoridade de Águas do Chile), Gino Casassa, a notícia é dada por um viés científico, mas não aprofundado. A causa do aumento de temperaturas na Cordilheira dos Andes não é mencionada e os impactos do rompimento desses blocos de gelo muito menos. Temos então dois problemas, um jornalismo que não se preocupa em aproximar o leitor do tema e que não fala diretamente da responsabilidade humana nas mudanças climáticas.

A influência humana no clima é clara, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês). A matéria poderia citar dados que apontassem nessa direção, por exemplo de que entre os cientistas do IPCC existe a confiança de 95% de que as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) resultantes das atividades humanas foram responsáveis por mais de metade da elevação média da temperatura registrada entre 1951 e 2010. Esses dados foram apresentados no quinto relatório do Painel, de 2014, que foi formulado diretamente por 259 autores de 39 países que avaliaram mais de 9200 estudos sobre o tema.

Mudanças climáticas sempre existiram. O planeta se aquece e resfria. Se não deixarmos claro que a ação humana influencia nas mudanças climáticas e os problemas que isso causa no planeta, uma visão negacionista do aquecimento global pode ser facilmente alcançada pelo leitor. Na matéria no G1 há alguns comentários nesse sentido. Para combater essa visão é necessário contextualizar as informações. As pesquisadoras Julia B. Corbett e Jessica L. Durfee publicaram em 2004 um estudo sobre a representação da mídia do aquecimento global. Segundo elas, quanto maior for a contextualização das afirmações sobre ciência climática, menor vai ser a incerteza sobre o assunto e sua importância. Quanto menor a incerteza, maior a capacidade de se fazer algo sobre.

E agora entramos no outro problema. Tratamos as mudanças climáticas como algo distante, sem impacto direto nas nossas vidas. Entretanto, o relatório do IPCC mencionado anteriormente prevê uma frequência maior de eventos extremos climáticos (tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis) com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais. Também aponta que o aumento da temperatura média do planeta tem elevado o nível do mar devido ao derretimento de calotas polares e desses campos de gelo e que isso pode causar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas.

Ao tratar somente do fato do campo de gelo ter se rompido, a matéria se distancia da realidade do leitor. Este não é motivado a pensar a fundo sobre as mudanças climáticas e a agir a respeito. A falta de contexto, a falta de ligação com o leitor os deixa só com uma pergunta na mente: mas e daí?

Um jornalismo consciente e ambiental motiva a reflexão do leitor sobre o tema tratado. Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Eloisa Beling Loose tratou sobre como o jornalismo local noticia as mudanças climáticas. Segundo ela, “a conexão do local com o global é fundamental para se pensar em outras atitudes e o jornalismo, como campo de excelência de medição e legitimação de discursos, precisa estar atento às formas com que dissemina a questão”. Para gerar a reflexão pretendida pelo jornalista, a notícia precisa estar contextualizada, é necessário mergulhar na realidade do leitor e mostrar porque o aquecimento global é importante.

Referências:

CORBETT, C. Julia; DURFEE, Jessica L. Testing public (un)certainty of science media representantions of global warming, Science Communication, v.26, n.2, 2004. p.129-151.

LOOSE, Eloisa B. Riscos climáticos no circuito da notícia local: percepção, comunicação e governança. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento). Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná, 2016.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Desafios à moda sustentável

Reportagem Época

Imagem: Captura de tela – Reportagem publicada no site da Época Negócios
Por Eutalita Bezerra*

Há alguns dias vivemos a semana Fashion Revolution. Porto Alegre, por exemplo, sediou diversas atividades alusivas ao evento cuja pauta propunha um olhar reflexivo sobre a cadeia da moda, uma das mais poluentes do mundo e que cresce exponencialmente. Época Negócios afirma em reportagem publicada no último dia 13 de maio que, hoje, a indústria da moda deixa a desejar em investimentos quando o assunto é sustentabilidade. Isto vai na contramão do que se apregoava nas discussões recentes – inclusive ao que ela mesma noticiava dois meses antes, conforme retomaremos.

Apontando como justificativa a falta de esforço conjunto dos players do mercado, Época apresenta um novo relatório publicado por consultorias internacionais que verificaram metas de sustentabilidade das labels de moda e sua efetiva aplicação, atestando que a indústria havia subido dois pontos a menos que o ano anterior neste quesito.

Época descreve o cenário catástrófico que pode se confirmar em pouco mais de 20 anos caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas por essas empresas, visto que a indústria da moda gera mais destes poluentes que todos os voos internacionais e cargas marítimas juntos. Para a mitigação, sugere, por parte das empresas, a implementação de soluções de maneira ampla e rápida. Do poder público, a criação de regras mais rígidas. Às mídias, que se mantenham atentas aos problemas do setor. Aos investidores, que apoiem marcas dedicadas à causa. E recorre, ainda, ao consumidor, propondo que este pressione as marcas que consomem, considerando que as empresas se preocupam com a sustentabilidade à medida que são demandadas pelos clientes.

A esta gama de soluções apresentadas e ao caminho possível trazido por Época, entendemos tratar-se de um olhar amplo e apurado, como propõem os preceitos do jornalismo ambiental. Além de trazer diversos vieses sobre a questão, que esclarecem desde as causas até as suas consequências, a reportagem é rica em números e em exemplos que aproximam a leitura do consumidor, afinal, a vestimenta é um dos poucos itens de consumo que é comum a tantas sociedades.

Para um enriquecimento da abordagem, e então retomamos o que foi pontuado no início, sobre a longa reportagem feita dois meses antes na mesma revista, se poderia ter ouvido outras fontes que não apenas um dos coautores do relatório. O que dizem outros interessados no assunto? As empresas concordam que têm investido menos?  O que as fez tomar passos para trás nesse caminho considerando que, conforme outros relatórios trazidos também por Época, cada vez mais o consumidor exige uma postura economicamente sustentável dessas empresas? Sobraram questões e faltaram respostas.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Por que o jornalismo deve se posicionar diante da ameaça à vegetação nativa no Brasil

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Imagem: Captura de tela – Reportagem de Daniela Chiaretti publicada no site do jornal Valor Econômico

 

Por Débora Gallas Steigleder*

A Lei de Proteção da Vegetação Nativa, popularmente denominada Código Florestal, sancionada em 2012 pela presidenta Dilma Rousseff após mais de uma década de debates no Congresso Nacional, voltou à pauta no último mês. Isto porque os senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e colega Marcio Bittar (MDB/AC) apresentaram o Projeto de Lei 2362/2019, que propõe o fim da reserva legal nos imóveis rurais de todo o País.

Publicada em 29 de abril no site do jornal Valor Econômico, a reportagem da jornalista Daniela Chiaretti busca traduzir o impacto da aprovação da proposta. O título dá destaque aos números, como é de se esperar de um veículo que costuma repercutir e informar o mercado financeiro, mas permite ao leitor visualizar a dimensão das áreas afetadas ao equivalê-las à área de “três Bahias”.

Ao longo do texto, a repórter aborda os principais pontos do PL, marcado por afirmações desprovidas de embasamento, tais como a de que o Brasil é “um dos [países] que mais preserva sua vegetação no mundo”. Tais afirmações são contrapostas às análises de uma fonte especializada, um pesquisador, cuja relevância diante do tema é justificada pela jornalista logo após o lead.

Esta postura proativa, de prezar a apuração jornalística frente à mera reprodução de versões das fontes oficiais, é um aspecto pouco verificado nas diversas pesquisas do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) sobre coberturas da mídia hegemônica** e, portanto, deve ser incentivado. Isto porque um dos princípios-chave do jornalismo ambiental é sua preocupação com o ambiente enquanto bem comum.

Na continuidade da cobertura, valeria trazer mais vozes ao texto para reforçar a complexidade do tema. A fonte especialista tem autoridade a partir do seu saber científico, mas diversos outros atores sociais também podem argumentar contra a proposta a partir de seus saberes. Porém, de forma geral, a cobertura está alinhada com o jornalismo ambiental ao já partir do pressuposto de que o PL é prejudicial à biodiversidade e à qualidade de vida das comunidades humanas. E esta postura deve ser assumida por todos os jornalismos, tanto os hegemônicos quanto os especializados em economia e finanças.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
** Uma das mais recentes publicações do Grupo atenta para a importância de envolver outros atores para além do Estado na discussão sobre possíveis soluções para situações de injustiça ambiental. Ver em: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; SILVA, Jamille Almeida da; LOOSE, Eloisa Beling. Injusticia ambiental en el periodismo: análisis de reportajes sobre contaminación por pesticidas. La trama de la comunicación, Rosario (Argentina), v.23, n.1, p.15-29, jan./jul. 2019.

 

 

 

 

 

O Jornalismo entre políticas

05.05

Imagem: Reprodução de notícia publicada no dia 18.04.19 no jornal Correio do Povo (p.6)
Por Eliege Fante*

Toda vez que leio a respeito da “ineficiência das políticas públicas” referente à redução das emissões de gases de efeito estufa causadores da mudança climática, fico pensando se seriam as políticas ambientais ou as econômicas…

O motivo da crítica às políticas públicas é o dado apresentado na notícia Aquecimento Global: Concentração de CO2 bate novo recorde histórico, publicada no site Apolo11, onde diz que “2018 registrou o quarto maior crescimento de emissão de CO2 na atmosfera nos últimos 60 anos”. Este resultado revela a distância que tomamos da ideia de voltar ao patamar de 350 ppm (partes por milhão)  – acesse a campanha 350 – de dióxido de carbono na atmosfera, já que atualmente alcançamos a presença de 410 ppm.

Uma rápida pesquisa no acervo do jornal Correio do Povo (RS) no mês de abril de 2019, através do seu buscador online, com a palavra-chave “Petrobras”, indicou a abordagem de alguns assuntos ligados ao petróleo. Sem surpresas, nenhuma menção ao iminente fim desse recurso natural.

As datas das edições encontradas foram: 12, 13, 15, 16, 18, 20 e 27 de abril. Tratar do aumento ou não do preço do diesel e da gasolina não é o suficiente, mesmo que essa seja a única abordagem do governo. Aliás, um dos papeis do Jornalismo é difundir justamente o que não é dito pelos governantes a respeito das questões de interesse público.

Pelo contrário, uma notícia local de 16 de abril, p. 5, citava a iniciativa “Gás para crescer”. Notícia anterior sobre o mesmo evento, em 12 de abril, p. 10, adiantava que a discussão seria sobre a “modernização do setor de gás natural e […] criação de um mercado nacional com oferta abundante e preços competitivos.” As palavras que destaquei seriam a justificativa para o aprofundamento da exploração do gás, também energia fóssil.

Certamente governo e empresários estão a par da mudança do clima por causa do aumento da temperatura da atmosfera, que não pode superar 2º C, mas temos atualmente 50% de chance de isso não ocorrer, visto o aumento de um grau confirmado em 2018. Então, a pergunta seria: como pretendem ou imaginam dar continuidade aos seus ramos de negócio se a sua matéria-prima original está com os anos para a exploração (ou produção) contados? (Leia Antecipar o fim do petróleo, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil).

A resposta à pergunta feita provavelmente apontaria como solução o uso de tecnologias mais modernas como o fracking (Leia mais informações sobre o assunto aqui) ou aquelas empregadas para a extração do Pré-Sal.

A notícia de 18 de abril, p. 6, reproduzida no começo da análise, abordou a ajuda aos estados com o repasse de recursos provenientes dessa exploração nos próximos anos. Se o governo brasileiro quisesse mesmo ajudar os estados, além de manter intocado o Pré-Sal, não teria determinado um teto de gastos (por 20 anos!) nas áreas da educação, saúde e segurança. As mais lembradas durante as campanhas eleitorais.

Sobre o teto, vale recordar a manifestação da Organização das Nações Unidas feita em 2016 (Brasil: teto de 20 anos para o gasto público violará direitos humanos, alerta relator da ONU): “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social.”

O governo não parece mesmo interessado em ajudar, já que as políticas públicas atuais convergem com este cenário de retrocesso social arquitetado há mais de dois anos. Afinal, o mês de abril não terminou sem o anúncio do “corte de 30% em verbas para todas as universidades federais” (veja notícia do Correio do Povo publicada no dia 30.04.19). Mais uma questão apenas repassada pela imprensa e carente de justificativas por parte do governo.

Os preceitos do Jornalismo determinam o interesse em ajudar a sociedade, trabalhando em busca de respostas às questões de interesse público. O que o público espera da nossa profissão é mais profundidade ao reportar os temas e menos repasse de informações oficiais. Podemos transcender às políticas que fixam os temas em editorias assim como em Ministérios e Secretarias dos governos.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

 

 

 

O que o Jornalismo tem a ver com a nossa água de todos os dias?

Captura de tela

Imagem: Captura de tela da reportagem publicada na Folha do Mate

 

Por Carine Massierer*

O ser humano pode ficar semanas sem comida, mas se passar de três dias sem água, pode morrer. Assim, água é um recurso essencial e nós corremos o risco, em função da poluição, de termos um dos bens mais preciosos à nossa vida, indisponível.

Daí o imperativo do Jornalismo informar à população o que está acontecendo com a água que ingerimos todos os dias. Você que lê este texto, sabe o que tem na água que bebe? Eu já imaginava que a água consumida por nós corria o risco de estar impotável, por isto, ao ver a manchete “Testes detectam 21 agrotóxicos na água que abastece Venâncio Aires”, publicada em 20/04 às 6h30min, eu fiquei apreensiva e fui ler o conteúdo.

A matéria é daquelas que nos instigam a leitura porque apresenta dados municipais e brasileiros, tabela com a descrição dos agrotóxicos encontrados no município, pesquisas a respeito, explicações de fontes diferenciadas, os perigos à saúde, os efeitos dos agrotóxicos na natureza, como foi feita a coleta da água, a fala dos envolvidos e opiniões da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e da Vigilância Sanitária. Esta matéria mesmo sendo publicada na editoria de Local, caberia na editoria de Meio Ambiente, Saúde ou qualquer outra porque aborda de forma qualificada este tema e sua transversalidade. Justamente isto é o que se propõe o Jornalismo Ambiental.

Isto demonstrou não só que o conteúdo vem sendo qualificado cada vez mais e aprofundado em jornais locais, mas mostra ainda o engajamento do veículo e sua preocupação social em deixar a par a população de que há um perigo no consumo da água em Venâncio Aires (RS).

Em virtude da importância social do tema, fui averiguar quando a matéria geradora da pauta tinha sido publicada pela Agência Pública. No dia 12/04 a matéria foi publicada no site Por Trás do Alimento, com o título “Conheça os 27 agrotóxicos encontrados na água que abastece as cidades do Brasil”, e repostada dia 15/04 no mesmo site e no da Agência Pública, com a chamada “Coquetel com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios”. A partir daí veículos de pequenas e grandes cidades do país passaram a pautar o assunto, mas e a grande imprensa da capital? Até o dia 24/04 não foram localizadas postagens na internet dos jornais Correio do Povo e Zero Hora a respeito, veículos de referência no Rio Grande do Sul.

Sendo assim, o que se pode pensar é que a ampliação dos temas de forma mais qualificada é possível ser feita em jornais não hegemônicos como, muitas vezes, são os jornais locais. O que aponta para uma nova perspectiva na modernidade, de que os espaços para matérias especializadas e aprofundadas estão se tornando cada vez menores em grandes veículos.

Enfim, independente do tamanho do veículo, é importante observar que a Agência Pública está conseguindo ser uma interpretadora e informadora de dados públicos disponíveis, levando informações de extrema importância aos meios de comunicação e a população de todo o país. Isto, sobretudo, é uma conquista para a comunicação pública e para o Jornalismo Ambiental que, segundo Girardi (2001, p. 60), “informa, forma e faz um papel educativo, cumprindo com a missão de contribuir com a construção da cidadania, desde a perspectiva local à perspectiva planetária”.

Referência:

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O jornalismo ambiental nos cursos de jornalismo. In: JACKS, Nilda et alTendências na comunicação. Porto Alegre: L&PM, 2001.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

A temática dos agrotóxicos: para cada dito, um silenciado

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Fotografia de charlesricardo/ Pixabay  

 

Por Ursula Schilling*

Os agrotóxicos são um dos temas que vêm ganhando espaço na mídia nacional, o que poderia indicar uma quebra do silenciamento sobre o assunto. Infelizmente, os destaques têm sido sobre o aumento recorde na liberação de novas licenças no país, sobre a manutenção da venda do glifosato, o agrotóxico mais utilizado em terras brasileiras, bem como sobre a contaminação na água e no solo, inclusive em áreas urbanas, o que deixa clara a utilização de tais produtos em níveis preocupantes.

No entanto, apesar da aparente atenção ao tópico, cabe a pergunta: que enfoque tem sido dado à questão? Uma rápida busca pelas notícias mais recentes trará exemplos como: Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil (BBC Brasil, fevereiro de 2019), Registro de agrotóxicos no Brasil cresce e atinge maior marca em 2018 (Folha de S.Paulo, março de 2019), 1 em 4 municípios tem ‘coquetel’ com agrotóxicos na água (Exame, abril de 2019).

Outro ponto a ser levantado é onde essas notícias estão sendo veiculadas. Isso importa, porque não basta um assunto ser abordado. Ele tem que chegar até quem o leia, assista, ouça. Vale a ressalva, pois não é incomum observar que, na maior parte, as matérias aparecem em canais segmentados, ou seja, só quem já se interessa por determinada área terá acesso a eles.

Basta o simples exercício de “dar um Google”, buscando pela expressão “agrotóxicos no Brasil 2019”. Dos dez primeiros resultados, dois são de grandes canais, a saber, Globo e Folha de S. Paulo. Os demais são de sites e veículos específicos dedicados à causa ambiental.

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Imagem: Captura de tela – busca realizada no Google

Isso não quer dizer que a grande mídia não tenha se manifestado. Programas de grandes emissoras, como o Globo Rural, da Rede Globo, tomaram sua parte no assunto. Sobre esse exemplo, vale a leitura do primeiro texto publicado neste observatório,  que destaca o fato de não só não haver uma problematização sobre o ostensivo uso dos agrotóxicos, como de existir, ao invés, uma defesa. Um dos argumentos seria a necessidade da produção de alimentos em larga escala.

Só aqui haveria um amplo espaço para contrapor a teoria malthusiana de que a população cresce mais do que a produção de alimentos. Quantas matérias questionam o desperdício de um terço da produção mundial de comida (segundo estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO)? Quantos agroecologistas são ouvidos para defender que a produção familiar é mais segura e perfeitamente viável? Quem explica a lógica por trás do fato de o Brasil utilizar substâncias proibidas em outros países? Quantas vezes se viu uma visão histórica sobre a criação dos primeiros agrotóxicos e fertilizantes durantes as duas grandes guerras?

Se resgatarmos o papel social do jornalismo, vale a provocação: o que a mídia tem falado a respeito mune as pessoas das informações necessárias para que entendam globalmente a problemática do uso indiscriminado de substâncias tóxicas naquilo que nos servirá de alimento e das consequências? Não estará o jornalismo exercendo uma função meramente denuncista ao invés de propor um olhar crítico e um debate mais polifônico?

Um começo, seria dar voz a diferentes atores nesse cenário: à indústria, aos fazendeiros, sim, mas também aos pequenos agricultores, a pesquisadores e médicos… e, claro, a quem consome o que resulta desse sistema de produção, os consumidores.

Precisamos manter a visão crítica, seja como produtores ou consumidores de conteúdo, pois, mesmo que muito já seja dito, para cada dito, há muito ainda sendo silenciado.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Agrotóxicos: qual a função e o limite do jornalismo?

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Imagem: Captura de tela – Reportagem do Globo Rural sobre os riscos dos agrotóxicos realizada por Ana Dalla Pria, Maurício Maia e Sandro Queiroz
Por Roberto Villar Belmonte*

Por que o Brasil registra tantos problemas com agrotóxicos? Essa foi a pergunta que o programa Globo Rural tentou responder nas edições dos dias 31 de março e 7 de abril com uma série de reportagens produzida no Paraná.

As reportagens abrem com a vinheta do Globo Natureza, sugerindo ao telespectador que a perspectiva apresentada seria a da natureza ou ambiental. No entanto, o enquadramento foi o do Agro é Pop: a Indústria-Riqueza do Brasil, campanha publicitária em prol do agronegócio exibida no horário nobre da emissora.

O programa comprou a resposta da indústria: O Brasil tem problemas com agrotóxicos – quase 40 mil casos de intoxicações notificados entre 2007 e 2017 – porque os agricultores usam errado o veneno.

E o modelo de agricultura intensiva implantado depois da II Guerra Mundial não estaria esgotado? Um pesquisador da Embrapa Meio Ambiente informou que não e alertou que sem agrotóxicos “traríamos uma crise mundial de alimentos. De fome”.

Perguntas que não foram feitas ao pesquisador: Quanto dinheiro o Brasil investe no desenvolvimento de tecnologias sem agrotóxicos? Quantos programas oficiais de incentivo à agroecologia existem no país? Por quê?

Para comprovar a tese do uso errado defendida pela indústria do veneno, a reportagem mostrou três casos de contaminação por uso de agrotóxicos sem equipamento de proteção individual. E de avanço de lavouras em áreas urbanas.

Se o veneno fosse usado corretamente, com as proteções e os limites determinados pela legislação, e somente quando eles realmente são necessários agronomicamente, então não haveria contaminação nem óbito. E nem prejuízos.

A perspectiva econômica foi usada para mostrar ao telespectador que o uso errado é, na verdade, dinheiro posto fora, mesmo argumento da produção limpa ou mais limpa (cleaner production) difundida pela ONU desde a Agenda 21 de 1992.

Reduzir o impacto ambiental pelo aumento da eficiência das lavouras, resultando em mais lucratividade, é o que os projetos de Agricultura de Precisão vêm tentando desde o início de sua implantação no Brasil no final do século passado.

Mas o verdadeiro problema é a eficiência? Ou seria o próprio modelo agrícola predatório e excludente? Para a lógica do desenvolvimento sustentável bancada pela indústria, e comprada pelo Globo Rural, é só uma questão de uso correto.

A função do jornalismo é aceitar a versão da indústria e da pesquisa oficial, leia-se o modelo de agricultura tropical desenvolvido pela Embrapa, ou deveria também questionar esse conceito nacional sintetizado no slogan Agro é Pop?

Antes do desenvolvimento sustentável (industrial) ser proposto pela Comissão Bruntland e referendado pela ONU no Brasil em 1992, Ignacy Sachs falava, também no âmbito das Nações Unidas, em um ecodesenvolvimento com soluções locais.

A reportagem do Globo Rural termina assim: “Os agrotóxicos estão e continuarão presentes na vida de todos nós, agricultores ou não. Então, usar menos, aplicar de forma correta, proteger os mananciais são medidas necessárias e urgentes”.

Tem razão o Globo Rural. Mas será esse o limite do jornalismo? Não estaria na hora, diante dos graves problemas de intoxicação e poluição, de enquadrar também, em rede nacional, as soluções realmente ecológicas?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Pesquisadores em Jornalismo Ambiental de todo o Brasil reúnem-se para debater mudanças climáticas

 

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Como engajar as populações locais para repensar o impacto das desigualdades e injustiças ambientais quando há predomínio da agenda internacional na cobertura jornalística sobre mudanças climáticas? Esta foi uma das questões que orientou as mesas de debate do IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, ocorrido na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS), em Porto Alegre, nos dias 27 e 28 de setembro.

Os palestrantes ressaltaram as questões políticas, econômicas e sociais que envolvem as mudanças climáticas e a importância de o jornalismo recorrer a fontes para além das oficiais e as do campo científico a fim de sensibilizar a população. O conferencista de abertura do evento, o pesquisador espanhol Rogelio Fernández Reyes, afirmou que estamos em momento de transição para uma nova etapa do Jornalismo, calcada na sustentabilidade e em um processo de mudança cultural por consequência. O evento também buscou unir teoria e prática através de depoimentos como o da jornalista Liana John, de São Paulo, que falou sobre seus 40 anos de experiência na realização de reportagens ambientais.

O destaque desta edição ficou por conta da Iniciação Científica. Com o objetivo de valorizar e incentivar a continuidade dos trabalhos dos graduandos em Jornalismo, a sessão foi privilegiada na programação para que todos os participantes do evento pudessem acompanhar as discussões propostas pelos estudantes. De acordo com a coordenadora geral do IV ENPJA, a professora da Fabico/UFRGS Ilza Girardi, o evento buscou facilitar o acesso dos participantes, especialmente os de Iniciação Científica, com a oferta de inscrições a valores populares.

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Outro ponto alto foi a programação cultural: a dupla de voz e violão Clarissa de Baumont e Daniel Keller interpretou canções de protesto do período da ditadura militar no Brasil; já a atividade com a facilitadora de danças circulares Patrícia Preiss teve como objetivo estimular a conexão dos participantes entre si e com o ambiente. Na ocasião, também ocorreu o lançamento do e-book gratuito Jornalismo Ambiental: Teoria e Prática, que pode ser baixado através do site jornalismoemeioambiente.com.

O IV ENPJA foi organizado pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS (Propesq), da Fabico/UFRGS, do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS) e da Rede Interdisciplinar e Multidisciplinar de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável e Mudanças Climáticas, vinculada ao Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS (RIMP/ILEA).

Texto e fotografias de Débora Gallas Steigleder

 

Evento discute Jornalismo Ambiental na prática e na pesquisa

O IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) recebe convidados nacionais e internacionais para debater a função social do jornalismo diante das problemáticas ambientais mais prevalentes da atualidade, com destaque para as mudanças climáticas. O evento ocorre em 27 e 28 de setembro (quinta e sexta-feira) na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (FABICO/UFRGS: Rua Ramiro Barcelos, 2705, Campus Saúde).

Nesta edição, além da apresentação de trabalhos científicos nas categorias Comunicações Livres e Iniciação Científica e do lançamento de livros da área de jornalismo e meio ambiente, o evento contará com quatro mesas e palestras. O destaque fica por conta da conferência de abertura, Um jornalismo em transição diante das mudanças climáticas, que contará com a participação do professor da Universidade de Sevilha (Espanha) Rogelio Fernández-Reyes. O pesquisador trabalha com jornalismo ambiental, a comunicação das mudanças climáticas e a comunicação de alternativas socioambientais.

A mesa Mudanças Climáticas e as relações com a imprensa debaterá as interfaces entre a pesquisa científica sobre mudanças climáticas e os meios de comunicação. Os convidados são o professor do Departamento de Geografia da UFRGS e diretor do Centro Polar e Climático (CPC/UFRGS), Francisco Eliseu Aquino, a professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS) Lorena Fleury e a jornalista e pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Ciências Sociais e Sustentabilidade (NIECSS) e da Rede Ibero-americana de Pesquisa em Ambiente e Sociedade Gabriela Di Giulio.

No dia 28, a mesa Jornalismo Ambiental: diálogos entre Brasil e Colômbia contará com a presença da jornalista, escritora e professora brasileira Liana John, que atua profissionalmente há mais de 40 anos e, neste período, participou de diversas publicações sobre a temática ambiental, e da participação por videoconferência da professora Maryluz Vallejo, da Pontificia Universidad Javeriana (Colômbia), que também é repórter e editora cultural do jornal El Mundo de Medellín.

Já a mesa de encerramento, Divulgação de informações climáticas e prevenção de desastres, será composta por Andrea Santos, representante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, e por Eloisa Beling Loose, pós-douroranda em Comunicação pela UFRGS e pesquisadora em jornalismo e mudanças climáticas, contemplada pelo Prêmio Capes de Tese na área de Ciências Ambientais, em 2017, pelo trabalho “Riscos Climáticos no Circuito da Notícia Local: Percepção, Comunicação e Governança”.

Inscrições

Ainda há vagas para participação de ouvintes com direito a certificado ao final das atividades. Estudantes de graduação pagam R$ 20,00; estudantes de pós-graduação, R$ 30,00; e os professores e profissionais, R$ 50,00. O pagamento da taxa de inscrição deve ser feito por meio de depósito na conta do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), com envio posterior do comprovante de pagamento para o e-mail encontrojornalismoambiental@gmail.com.

O IV ENPJA é uma realização do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), e conta com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (FABICO/UFRGS), do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA) e da Rede Interdisciplinar e Multidisciplinar de pesquisa Desenvolvimento Sustentável e Mudanças Climáticas, vinculada ao Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS (RIMP/ILEA).

IV ENPJA ocorre em setembro

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A quarta edição do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) será nos dias 27 e 28 de setembro na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Neste ano o evento contará, além das já tradicionais sessões de apresentação de trabalhos orientados para o Jornalismo Ambiental, programação voltada para a reflexão e debate do Jornalismo e Mudanças Climáticas, uma das questões ambientais mais atuais e urgentes do nosso tempo.

Além de ser uma edição temática, a edição de 2018 traz outra novidade: a inclusão da relatoria nas sessões de Comunicações Livres. A proposta busca qualificar ainda mais a discussão do tema.

O IV ENPJA possui uma categoria de Iniciação Científica, dedicada à formação de jovens pesquisadores, e uma de Comunicações Livres. Os trabalhos científicos podem ser enviados até dia 9 de julho, segundo as orientações do template, para o e-mail: encontrojornalismoambiental@gmail.com. Para mais informações sobre a chamada de trabalhos, confira a aba “Normas”.