Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

Imagem: Captura de tela do site G1 Brasil
*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Imagem: Captura de tela do site Veja

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Relatos jornalísticos sobre a COP-25: a discussão extravasou o evento

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Imagem: Reprodução Envolverde – Carta Capital. Entrega da carta climática de povos indígenas das Américas, Caribe e Antilhas na COP-25
* Eloisa Beling Loose

Muito antes da COP-25 começar, em 2018, ela já era assunto no Brasil. Falava-se em sair do Acordo de Paris, em proteger as riquezas naturais brasileiras dos interesses estrangeiros, colocava-se em suspeição a realidade das mudanças climáticas. Por fim, em novembro daquele ano houve o cancelamento da realização da COP em solo brasileiro.

Mesmo com a retirada da candidatura para sediar a COP-25, a agenda climática no país se fez muito presente em 2019, especialmente devido ao aumento das queimadas na Amazônia, amplamente noticiado pela imprensa nacional e internacional desde agosto, e que não pode ser isolado da crise climática. O desmonte de políticas públicas ambientais brasileiras e as manifestações já sentidas na pele em diferentes lugares fomentam o debate midiático e político de forma constante. Se no começo o receio apontado era que o Brasil perdesse o protagonismo internacional na discussão das mudanças climáticas – e com isso perderia também oportunidades de investimentos e negócios -, o fim do evento revelou que o país conseguiu ir além, sendo considerado “parte do problema” por negociadores que tentam avançar no enfrentamento do clima.

A BBC já noticiava em dia 11 de dezembro que Países em desenvolvimento acusam Brasil de tentar bloquear avanço em negociações do clima e, no fim da conferência, no domingo, dia 15,  a mais longa das cúpulas do clima realizadas pela ONU, manifestou mais sinais da postura contrária do governo: “O responsável pelo último dos impasses foi o Brasil, que não aceitava inicialmente dois parágrafos incluídos no acordo que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global”, expõe o texto Após atrasos e impasses, países aprovam texto final da COP25, publicado no portal R7. A proposta de fazer algo ambicioso já (o slogan da COP-25 é “Time for Action”) foi frustrada pela priorização dos interesses econômicos nacionais, baseados em combustíveis fósseis e em uma lógica de mercado calcada na exploração da natureza.

O papel do governo brasileiro já havia sido relatado pela imprensa e também criticado. O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou claro que o “Esforço do Brasil é para conseguir recursos”, mesmo quando a finalidade da COP é outra. Muitos veículos, como G1, Uol, IG, Carta Capital e Veja, mostraram como o Brasil estava sendo malvisto quando divulgaram as anti-premiações do “Fóssil do Dia” e do “Fóssil do Ano”, reconhecimento da Rede Internacional de Ação Climática (CAN) aos países que tiveram a pior atuação na área.

O jornalista André Trigueiro, em podcast sobre a COP-25, nomeou de desastrosa a participação brasileira na Conferência, alertando para a gravidade do contexto. Também Amelia Gonzalez, em blog no G1, discute as regras feitas em torno dos mercados que buscam lucro sem considerar as pessoas, trazendo o exemplo de Belo Monte, que “ajuda que o Brasil mantenha uma boa imagem em Conferências sobre o Clima, como gerador de energia ‘limpa’, mesmo sendo um dos mais poluidores do mundo”. Em notícia do Nexo Jornal, o único aspecto positivo ressaltado recai sobre a participação da sociedade civil e outros setores e atores que buscam acordos pró-clima de forma direta, desvinculando-se do governo federal.

É importante recordar que a mudança de sede do Brasil para o Chile e depois para Madri há pouco mais de um mês da data do evento prejudicou a participação e articulação da sociedade civil, especialmente da América Latina, que contava com a oportunidade para pressionar os líderes de Estado. A colunista do El País, Eliane Brum, escreveu sobre a perda de uma oportunidade histórica, mas motivada por interesses que permitam a manutenção do status quo: “Os negociadores não querem sujar as mãos com as ruas da América Latina em diferentes tipos de convulsão. Preferem manter as negociações intermináveis em ambiente climatizado. A ironia aqui não é opcional. Querem mesmo controlar o clima do debate e não ser pressionado por aqueles que sofrem a falta de políticas públicas para enfrentamento do maior desafio da trajetória humana”. Ao promover o encontro na Europa, economicamente inviável para a participação da maioria dos impactados, pode-se pensar mais em como lucrar com os mercados de carbono e arquitetar caminhos para fazer mudanças mais brandas.

Apesar de as fontes oficiais ainda serem as mais procuradas e os discursos econômicos e políticos serem constantes nos relatos jornalísticos, percebe-se que a própria urgência de uma virada mobiliza outros atores, que passam também a ter espaços nas notícias (antes, durante e depois das COPs). Se na análise realizada a partir da cobertura de revistas brasileiras das COPs 15 e 16 identificou-se dificuldade dos veículos na construção de discursos próximos à sustentabilidade real, a perda de liderança do governo atual proporcionou que as vozes afetadas estivessem mais presentes nas matérias, como foi o caso da ativista adolescente Greta Thunberg, eleita a “Personalidade do Ano de 2019” pela revista Times e que chama a atenção para os mais vulneráveis aos riscos climáticos, e, em menor escala, da quilombola Luceli Morais Pio e da liderança indígena Sônia Guajajara.

Se houve um tempo em que a questão climática só era pautada de forma pontual, a partir da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e das próprias COPs, percebe-se que está ocorrendo, gradualmente, uma extrapolação do assunto, que está conectado com aspectos políticos, econômicos, culturais, de saúde, de segurança… Tal transversalização do tema contribui para manter a atenção pública sobre o colapso e, quiçá, sensibilização para seu enfrentamento.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que tem como o objetivo frear as emissões de gases de efeito estufa causadores da amplificação de riscos climáticos. A COP ocorre anualmente desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no mundo e discutir formas de reduzir sua intensificação e, consequentemente, seus impactos. Os delegados governamentais dos países signatários dessa Convenção são os únicos com poder de voto, mas participam também dos eventos jornalistas e membros da sociedade civil. Desde 2015, quando foi assinado um grande acordo climático global, o Acordo de Paris, as conferências anuais têm se dedicado a como colocá-lo em prática, mas os processos decisórios costumam ser longos e lentos, pois as deliberações são tomadas por consenso entre as Partes – o que exige inúmeras negociações e nem sempre acarretam medidas à altura dos desafios impostos pela emergência climática.

A COP-25 encerrou, os resultados ficaram aquém do esperado mais uma vez, notou-se a desconexão das preocupações políticas com a urgência e gravidade do problema que precisamos enfrentar, porém ainda há tempo para agir. E o jornalismo deve fazer a sua parte enquanto prática social voltada para o interesse público. Que as mudanças observadas ao longo do tempo na cobertura jornalística sobre clima tenham um ritmo maior e possam ser amplificadas para alertar a todos sobre o que está de fato em risco quando falamos de crise climática: a nossa existência nesse planeta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

“É impressionante a imprensa dar espaço para esses adultos aí”

Por Reges Schwaab*

Diz. Afirma. Duas expressões recorrentes nas manchetes dos jornais de referência, em especial em seus portais digitais. Mas não só. Nesta quarta, 14, a manchete de terça ainda se repetia: “Bolsonaro chama Greta de ‘pirralha’ e diz ser contra desmatamento ilegal”. Diz. Afirma. E o fato de alguém dizer parece desobrigar o jornalismo da apuração. A triste frase do presidente, que rodou o mundo, e fez com que Greta Thunberg alterasse sua descrição no Twitter (imagem a seguir), pode não parecer caso para uma grande análise.  Mas, na verdade, faz lembrar do contexto mais amplo da disputa de sentidos acerca da emergência climática, a bandeira de protesto de Greta e outras milhares de pessoas, luta que mobiliza jovens, ativistas e cientistas em diferentes países.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Poderíamos esperar uma grande repercussão do jornal acerca da afirmação sobre Greta? Talvez não. Mas a proposta é ver aqui outro viés. O “diz” e o “afirma” acompanham, recorrentemente, as manchetes sobre os chamados negacionistas, a quem o jornalismo resolve, em intervalos regulares, conceder espaço e mostrar que o aquecimento global não existe, ou não é fruto da intervenção humana. Isso porque todo jornal ainda insiste em se denominar “imparcial” e “comprometido com a verdade”, tendo de ouvir os “dois lados”.

“É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, foi a frase de Bolsonaro na terça. Poderíamos fazer um jogo de inversão? Melhor não, pois cairíamos no mesmo preconceito. O insulto proferido contra Greta ecoa a desconsideração da criança e de que a infância seja um lugar de saber. Então, a luta de Greta é uma pirraça infantil. E não sendo nada mais do que gritos de uma criança, por que haveriam de ser considerados? Apareceram charges retratando Bolsonaro como um bebê diante de Greta. Mas soam na mesma direção, a criança que faz pirraça diante do adulto. A luta geral vai em outro sentido.

O “impressionante”, nos parece, é que mesmo diante de pilhas de dados científicos, produzidos por diferentes correntes acadêmicas, os que negam a interferência humana no ecossistema tenham suas afirmações amplificadas em nome da encenação de pluralidade jornalística. Sobre esse tema, merece leitura o texto de Herton Escobar na ComCiência (Dar voz à mentira não é imparcialidade, é irresponsabilidade). Basta verificar, são atores que nunca participaram de um debate científico sério sobre o tema. Só dizem. Isso inclui o presidente e o ministro do Meio Ambiente brasileiros.

Na semana em que as mudanças do clima foram um dos assuntos mais comentados no Twitter, diante da COP25, a Conferência da ONU sobre o clima, o Brasil dos já crescidos segue sem entender de futuro. Na crítica de Greta, que incomodou Bolsonaro, estava a evidência da culpa pública e coletiva pelo extermínio dos indígenas e pela falta de proteção ao território da Amazônia. E como escreveu Eliane Brum no El País, se a COP 25 não frear a destruição da Amazônia, seria melhor nem ter saído de casa. Greta não diz ao vento. A despeito de críticas direcionadas a ela, que aparecem a todo momento, Greta sabe: nada foi feito efetivamente pelos senhores tão adultos, nós aí incluídos.

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Imagem: Reprodução/Greta é eleita pela Time a personalidade do ano

Para ampliar: Crise climática e justiça ambiental

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Microplástico nos oceanos e a necessidade jornalística de ir além da tradução de artigos científicos

Foto GPJA

Imagem: Captura de tela de matéria da BBC News
Michel Misse Filho*

Não raro observamos, nos noticiários televisivo, digital e impresso, reportagens que atentam para o problema das quantidades crescentes e absurdas de plásticos nos oceanos. Foram diversas matérias nos últimos anos, construídas com um especial enfoque, por exemplo, nas ilhas de plástico do Oceano Pacífico (somadas, compreendem uma área maior do que a de países como a França), bem como nas terríveis fotos de tartarugas, peixes e baleias envoltas em sacolas ou garrafas de refrigerante.

Muito além das fotografias espetaculares das ilhas de resíduos, a problemática do microplástico tem se mostrado notadamente importante, transpassando o sistema digestivo de inúmeros seres que habitam os oceanos – e que também chegam à nossa mesa de jantar, finalmente. Uma matéria publicada este mês pela BBC News , em seu site, é um bom exemplo para tratarmos do assunto em correlação com a divulgação científica na mídia.

Intitulada “Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes”, a notícia revela um estudo inédito, que aponta para o aparecimento de fragmentos de plásticos nos locais ricos em plâncton, como em certos “corredores” na superfície do mar onde se concentram materiais orgânicos, propiciando uma zona de maior concentração de alimentos para as larvas. Apesar de pesquisadores já desconfiarem do fato, cientificamente só se tinha a confirmação da ingestão da substância plástica em peixes adultos e, portanto, cientistas se alarmam com as consequências da ingestão dessas toxinas no estágio mais vulnerável do desenvolvimento das espécies. Em vez de tartarugas com grandes sacolas, emerge a figura dos fragmentos plásticos, menores que cinco milímetros e originados por decomposição dos plásticos maiores, agora sabidamente ingeridos desde o início da cadeia alimentar, com consequências ainda não desveladas pelos estudiosos.

A análise da matéria é uma boa oportunidade em confluir divulgação científica e a pauta do microplástico em corpos hídricos, cada vez mais recorrente. Sob o ponto de vista da ciência, a matéria cumpre o seu papel de informar, com clareza, as descobertas do estudo, traduzindo-as para um público não especializado, como deve ser de praxe na atividade jornalística. O problema, contudo, é a dificuldade em se utilizar de um gancho como esse (a própria publicação do estudo) para que se possa descortinar uma série de relações – causais ou não, contingentes ou não – que tenham a ver com o assunto mencionado. Limitar a divulgação científica na mídia à simples tradução de um artigo científico em linguagem jornalística não parece ser proveitoso nem à percepção da ciência pela sociedade, e nem ao jornalismo que, empobrecido e com redações cada vez mais enxutas, se mantém distante da rua e do olhar in loco. No caso do jornalismo ambiental, em que a divulgação científica faz parte da própria gênese de criação do campo, realçar o intercâmbio entre academia e sociedade parece ainda mais importante para que a pauta ambiental possa adquirir um olhar mais sistêmico e complexo da questão.

Sendo a próxima década (2021-2030) definida pela ONU como a “Década para a Oceanografia”, é fundamental abordar o assunto além das imagens chocantes das grandes montanhas de lixo, mas também para temas não visíveis à olho nu, mas que crescem de forma avassaladora, como a questão dos microplásticos, da acidificação dos oceanos, e da importância dos oceanos contra as mudanças climáticas. Mais do que isso, cabe também ao jornalismo ampliar o seu leque de olhares e, portanto, de perguntas: quem sabe, assim sejam ensaiadas novas respostas.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Livros-reportagem: o jornalismo respira em um mundo sem fôlego

Por Reges Schwaab*

A urgente abordagem qualificada das mudanças climáticas não significa pressa. Será necessário encontrar o tempo para a complexidade que o tema requer. Ela começa na compreensão individual que permita visualizar as drásticas alterações globais em curso, já documentadas por cientistas, bandeira de movimentos sociais, tema de filmes e capas de revistas e alvo do negacionismo desprovido de ética.

Já não é possível pensar nosso cotidiano sem o olhar socioambiental. A cobertura guiada por acontecimentos pontuais deve ser suplantada pela realidade implacável da emergência climática, que não escolherá lugar, hora ou fronteira, com verdadeiro potencial de alterar a vida como experimentamos hoje.

Trabalhos com rigor de apuração e abertura interpretativa são valiosas fontes de estudo. E servem a jornalistas e a toda pessoa que queira oxigenar sua compreensão dos múltiplos aspectos das mudanças climáticas.

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Imagem: Reprodução. Livro de Jonathan Safran Foer ainda sem tradução no Brasil

O escritor Jonathan Safran Foer, em “We are the weather”, não adia consequências nem decisões pela ação. As mudanças climáticas são um problema global e individual, mas essas não são hipóteses excludentes, afirma. Oferece um ensaio de grande investimento em pesquisa e forte apelo emocional. Aponta para a necessidade de ações governamentais sistêmicas e de transformação de hábitos de vida, pois o sofrimento causado pela crise do clima será irrestrito.

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 Imagem: Reprodução. David Wallace-Wells já pode ser lido em português

Elogiado por Safran Foer, “A terra inabitável”, do jornalista David Wallace-Wells, desconstrói a fantasia de que as mudanças climáticas têm ritmo lento. Traça um cenário de fome, calor, enchentes, desertificação e crise econômica, com grande capacidade de observação e prospecção. O poderoso embasamento que sustenta o livro faz pensar com assombro nas mudanças que tomarão forma ainda neste século.

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Imagem: Reprodução. Cláudio Angelo mescla reportagem, diário de viagem e relato científico

A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima”, de Claudio Angelo, dialoga com diferentes leitores sem perder o rigor. Uma “leveza” no tom do texto aparece mesmo nos detalhes do derretimento das calotas polares e nas consequências para a agricultura e para as cidades. A força do “repórter na rua”, ou “no mundo”, rende uma mescla de reportagem, diário de viagem e relato científico. As mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade, argumenta.

A literatura produzida sob a rubrica do jornalismo é campo em destaque na crítica especializada e em prêmios nacionais e internacionais. Fontes de qualidade para o debate, mesmo que o colapso seja, inevitavelmente, um componente do nosso futuro.

Para ampliar:
David Wallace-Wells – Desastres em cascata (Revista Piauí)

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo precisa ampliar entendimento sobre a atualidade para garantir pluralidade de vozes

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Imagem: Captura de tela do conteúdo publicado pela BBC Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*

A atualidade é razão de ser, critério imperativo do jornalismo. Trata-se, pois, de uma instituição baseada na cultura do tempo presente, como ressalta o professor Carlos Franciscato (2014). No entanto, à medida em que a circulação das informações se acelera e interconecta diferentes escalas, o tempo presente relatado pelo jornalismo é cada vez mais sorrateiro, escapando entre nossos dedos com tamanha rapidez que já nem mais lembramos o que exatamente nos causou tanta indignação no noticiário da semana passada.

Podemos dizer, por exemplo, que o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, proferido em 24 de setembro, foi rapidamente superado após a leva de checagem de fatos e reações inflamadas nas redes sociais que repercutiram, no máximo, até o final daquela semana. Afinal, era necessário passar à próxima pauta bombástica sobre meio ambiente e política. Em tempos de relações internacionais abaladas pela Amazônia em chamas, o cardápio é farto.

Por isso, fui positivamente surpreendida com conteúdo publicado no site da BBC Brasil em 13 de outubro. Em entrevista realizada por telefone com o cacique kayapó Raoni Metuktire, difamado por Bolsonaro à ocasião do discurso na ONU, o repórter João Fellet teve a oportunidade de retomar pontos que devem ser debatidos à exaustão no atual contexto de caos climático e humanitário.

É papel do jornalismo questionar gestos e políticas coniventes com o genocídio de populações historicamente oprimidas, desde crianças negras alvejadas durante operações policiais nas favelas até povos indígenas que se veem acuados em suas próprias terras por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pela realização de obras de grande impacto socioambiental. Dar a palavra a Raoni garante continuidade à disputa de visões de mundo evidenciada pelo posicionamento do atual governo, disputa que não se esgota nos discursos oficiais ou nas frases de efeitos proferidas em lives nas redes sociais. O debate público está em curso, e deve ser repercutido no jornalismo por meio de uma pluralidade de vozes.

Neste sentido, este movimento não deixa de ser uma recusa ao modus operandi do jornalismo meramente declaratório, que apenas traz a fala literal das autoridades sem repercutir os contrapontos de pessoas e grupos que têm legitimidade para comentar o assunto. É necessário aprendermos que estes demais atores podem, por cultura ou hábito, não seguir o mesmo tempo do jornalismo. E que sua manifestação não é menos importante por conta disto. Cabe ao jornalismo reconfigurar a percepção do tempo presente, ampliando a experiência da atualidade para além do imediato ou simultâneo através de mais detalhamentos, contextualizações e desdobramentos.

Referência:

FRANCISCATO, Carlos. O jornalismo e a reformulação da experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Brazilian Journalism Research, v.11, n.2, p.96-123, 2014.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).