O maior lixão têxtil do mundo tem endereço

Pilhas de roupas. Crédito: Pexels.

Por Carine Massierer*

Você sabe qual o endereço do maior lixão do mundo? O maior lixão de roupas do mundo fica no Deserto do Atacama, nos arredores de Alto Hospício e próximo a Iquique, no Norte do Chile. A montanha de roupas descartadas que a Europa envia para o Chile já ultrapassa 60 mil toneladas e é visível do espaço. Esta manchete voltou a circular pela imprensa brasileira e internacional há poucos dias, nos veículos Correio Brasiliense, Gazeta de São Paulo, O Globo e o jornal online AS, por exemplo.O tema também ganhou as redes sociais da imprensa e de ativistas como neste link: https://www.instagram.com/p/DbQIC2TmHXv/.

O tema não é novo e o problema só cresce, já que este é o maior aterro sanitário do mundo, agora visto do espaço, e já se tornou um símbolo do impacto ambiental da indústria da moda rápida, mais conhecida como fast fashion. Em 2019, a jornalista Eutalita Bezerra, doutora em Comunicação, já trazia o tema da insustentabilidade da moda para debate aqui no Observatório de Jornalismo Ambiental e sinalizava que tal indústria tinha previsão de produzir, até 2030, 102 milhões de toneladas de roupas e calçados e que faltava um esforço conjunto do setor para diminuir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

O consumo acelerado e a dificuldade de reciclagem dos tecidos sintéticos são os principais motivos para que o lixão só se amplie. A montanha de resíduos ocupa uma área de dezenas de hectares perto de bairros pobres da cidade de Alto Hospicio. O problema vai além do impacto visual. Grande parte das roupas é feita com fibras sintéticas derivadas do petróleo e, quando queimadas ou degradadas, liberam compostos poluentes e microplásticos.

Os textos analisados – nesta volta do tema neste Observatório – trazem informações de como o deserto se tornou um depósito de roupas, o impacto ambiental dos tecidos, de onde vêm os produtos têxteis, quem vive perto dos lixões, os problemas ambientais causados pelo lixão e o que pode ser feito. O que chama a atenção neste conjunto é a inexistência da responsabilização e do porquê o lixão aumenta a cada ano que passa. Em 2 de julho de 2018, o jornal chileno La Tercera publicou a reportagem “La contaminación no tradicional del desierto: ropa”, de Alejandra Lobo. O texto já tratava do descarte de roupas no deserto como um problema de contaminação, mas, até agora, de fato, nada parece deter o aumento de descarte no local.

A fotografia aérea do lixão, utilizada na ilustração da matéria, pela Gazeta de São Paulo e pelo O Globo (no Instagram e no site), é a mesma, o que chama a atenção. A imagem é de Martín Bernetti, fotógrafo feita para Agence France-Presse (AFP) e circulou pelo mundo desde 2021 quando foi feita.

Essa fotografia traz o enquadramento aéreo e transforma as roupas em uma espécie de “mancha” ou “paisagem” no deserto. O observador não vê propriamente indivíduos, mas a dimensão territorial do problema.

A partir destas matérias é possível perceber que são muitos os sentidos que a foto área ativa nas pessoas que acessam as matérias promovendo uma reflexão importante sobre consumo, descarte, fast fashion, risco ambiental e escala global. A imagem visível e ampla mostra que o problema aumenta e é global e que o descarte adequado passa também por uma reflexão sobre consumo, desigualdade socioambiental e risco ambiental. A circulação propiciada na sociedade contemporânea pela midiatização faz com que tenhamos acesso a este tipo de informação, e a imagem que acompanha a matéria nos chama a atenção o suficiente para entendermos que um problema do Chile é a consequência das atitudes consumistas desenfreadas de parte da humanidade.

Revisora: Cláudia Moraes, integrante do GPJA.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Imprensa e crise climática: negacionismo velado, falta de entendimento ou censura editorial?

Imagem de Manaus. Crédito: Heverton Lacerda.

Por Heverton Lacerda*

Não é de hoje que a pauta ecológica tem sido tratada com desprezo ou até mesmo com certa infantilidade pelo jornalismo comercial hegemônico no Brasil. O cerne da questão, aquele detalhe vital que indica que o modelo atual de desenvolvimento promovido pela humanidade está destruindo o planeta, não é pautado com o destaque que a emergência dos tempos exige.  

As abordagens jornalísticas das mídias hegemônicas não alcançam a profundidade necessária ao noticiar os fenômenos climáticos que, conforme anunciado há décadas, estão ficando cada vez mais frequentes e intensos. Como bem destacou o jornalista e pesquisador Luciano Velleda em artigo publicado neste Observatório no dia 10 de julho, mesmo quando as notícias relacionam os fatos com as mudanças do clima, “as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala”. Percebe-se um pequeno avanço, embora tardio, no reconhecimento das mudanças climáticas, mas grita a falta de conexão entre o problema e suas causas.

Esse encobrimento de informações essenciais nas coberturas sobre fatos relacionados às mudanças climáticas é sintomático de um modelo de desenvolvimento do qual o jornalismo comercial faz parte e é totalmente dependente. Os grandes conglomerados de comunicação do Brasil são dirigidos por famílias influentes que estão no topo da pirâmide econômica. E é exatamente nesse topo que se encontram os que mais emitem gases de efeito estufa e contribuem para ampliar o problema ecológico. Conforme dados apresentados pela Oxfam Brasil, que produz análises sobre a conjuntura e a injustiça climática, o estilo de vida do 1% mais rico do mundo é responsável pela maior parte das emissões de poluentes climáticos. O consumo de luxo – super iates e outras extravagâncias – pendem a balança das emissões para níveis insustentáveis. As vendas de jatos particulares altamente poluentes, por exemplo, dobraram nas últimas duas décadas. Enquanto isso, a fome persiste no mundo e, em 2024, atingiu mais de 600 milhões de pessoas, conforme o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo da Organização das Nações Unidas. Na base da pirâmide econômica, aquela que suporta o peso da sociedade e não tem acesso aos privilégios do topo, persistem problemas como o atraso no crescimento em crianças menores de cinco anos, o sobrepeso infantil, a anemia entre mulheres, a baixa diversidade alimentar e o sobrepeso entre adultos.

Esse breve recorte acima aponta para a necessidade do aumento de consumo entre as pessoas que estão na base da pirâmide para satisfazerem suas necessidades básicas. No entanto, o modelo social em curso privilegia a concentração de recursos nas mãos dos que estão no topo.

Voltamos aqui ao jornalismo dos conglomerados do topo. Até que ponto os donos dos grupos de comunicação que dependem de patrocínios de empresas da elite econômica estão dispostos a noticiar realidades que questionam o modelo que lhe sustenta e, ao mesmo tempo, é a origem do problema? 

Para dar um exemplo de pauta que conta com abordagem superficial e desinformativa por parte da imprensa hegemônica, trago aqui outro artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental: Enquadramento hegemônico do projeto Natureza da CMPC escanteia questões indígenas e ecológicas, de autoria da professora e pesquisadora Cláudia Herte de Moraes e do estudante de Jornalismo Franchesco de Oliveira Y Castro. Os autores apontam que poucas reportagens do jornalismo hegemônico destacaram aspectos relacionados à injustiça ambiental, focando mais em pontos econômicos anunciados pelos proprietários da empresa chilena CMPC. No entanto, percebe-se que a falha na cobertura sobre a questão vai muito além, pois a imprensa, no geral, restringe-se basicamente a reproduzir a cifra de R$ 27 bilhões anunciada pela empresa como investimento privado. O jornalismo empresarial, que já tem relações de patrocínio com a CMPC, sequer questiona os retornos de ICMS que a empresa deixa de entregar ao Estado em função da imunidade tributária atribuída às exportações de celulose.  Tampouco, problematiza os incentivos e créditos fiscais dos quais a empresa se beneficia. Ou seja, a abordagem econômica também é seletiva e incompleta neste caso. 

Notícias produzidas no contexto da crise climática não podem se dar ao luxo de negar o problema global e suas origens. A falta de entendimento e compreensão sobre o assunto pode ser facilmente superada com algumas leituras qualificadas sobre o tema, entre elas, este observatório acadêmico de Jornalismo Ambiental, que se dedica a analisar criticamente a cobertura da imprensa sobre questões ambientais. Já a questão da censura editorial precisa ser encarada com perspicácia e criatividade, pois, na maioria dos casos, jornalistas e proprietários de conglomerados de comunicação não residem na mesma camada da pirâmide.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

O “Fantasma do Pampa” contra as síndromes do Jornalismo Ambiental

Imagem: filhote de gato-palheiro-pampeano, felino característico da metade sul do RS. Crédito da foto: Felipe Peters/Felinos do Pampa

Por Sérgio Pereira*


A abordagem editorial da chamada grande imprensa em relação ao Pampa gaúcho já foi tema de diversas postagens aqui no Observatório. Os artigos, em sua maioria, alertam que o ecossistema sulino e sua destruição têm sido praticamente desconsiderados pelos veículos tradicionais, apesar das advertências dos cientistas, dos protestos dos ambientalistas e dos relatórios do consórcio MapBiomas, que com frequência torna público dados sobre as situações dos seis biomas brasileiros.

Essa tendência, no entanto, teve sua rotina quebrada há poucas semanas. A notícia em questão envolvia o ingresso de um felino na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, um documento científico elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente. O gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai) passa agora a ser classificado como “criticamente em perigo”.


Chamado de “Fantasma do Pampa”, ele habita a metade sul do Rio Grande do Sul e em parte da Argentina e Uruguai. Estima-se que hoje só existam 250 desses felinos, que são independentes, esquivos e não gostam de andar em grupo. Suas aparições são cada vez mais raras, o que justifica o apelido.


Quando o tema é meio ambiente, a realidade do jornalismo tradicional brasileiro nos remete, na maioria das vezes, ao que o professor Wilson da Costa Bueno chama de “Síndrome da baleia encalhada”: uma cobertura jornalística “estática, paralisante, do meio ambiente, como se fosse possível (e desejável) ver a questão ambiental isolada de sua dinâmica, de suas causas e, portanto, distante dos grandes interesses que a promovem e a sustentam” (2007, p. 38). É “a espetacularização da tragédia ambiental” sem a necessária contextualização.


Ou ainda sofre da “Síndrome do muro alto”, outro termo empregado por Bueno, que identifica a “tentativa de despolitização do debate ambiental pela desvinculação entre a vertente técnica (comprometida com a perspectiva empresarial) e as demais vertentes (econômica, política e sociocultural)” (2007, p. 37).


Pois o impresso Zero Hora e o portal GZH, ambos do grupo RBS, concederam, dentro de sua realidade, espaços generosos para informar sobre o risco de extinção do gato-palheiro-pampeano. Em sua edição de 2 de julho, ZH reservou uma página para a matéria “Fantasma do Pampa entra em lista nacional de espécies ameaçadas”. Já o site de notícias atualizou postagem no dia 4 de julho com o título “Menos de 250 vivos: conheça o fantasma do pampa e saiba por que o felino corre risco de extinção”. Os textos são praticamente os mesmos, apenas com algumas alterações editoriais por conta das especificidades das diferentes plataformas.

A reportagem tem méritos. Além de alertar para os riscos enfrentados pelo felino, aborda questões que o jornalismo hegemônico costuma deixar de lado quando se trata do Pampa. Uma delas é mencionar a redução de sua vegetação nativa, resultado da ação humana. A publicação esclarece que “a espécie necessita de campos nativos preservados, que não estejam submetidos à intervenção de monoculturas e silviculturas”, citando os avanços das lavouras de arroz e soja sobre o bioma. Realidade que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente tenta amenizar em suas declarações para o jornal.


A matéria de ZH ainda lista ações prioritárias indicadas por pesquisadores para salvar o Pampa, sua fauna e sua flora. Como acréscimo ao texto, o tema sobre os prejuízos que o agronegócio tem causado ao bioma sulino poderia ser ampliado para contextualizar a grande perda de área natural nas últimas décadas.


Outros jornais tradicionais do Estado, no entanto, confirmando a regra, ignoraram a notícia. Mas o gato-palheiro-pampeano também ganhou destaque em portais de notícias de fora do RS, como g1, Terra e UOL.


A propósito, importante valorizar o trabalho da equipe do Felinos do Pampa, utilizado como fonte da notícia por vários veículos de comunicação. Criado em 2021, o projeto de pesquisa e conservação objetiva “transmitir conhecimento para construir valores sociais e promover atitudes voltadas à conservação dos felinos silvestres e de seus habitats naturais”.


Nos últimos anos, o Felinos do Pampa, iniciativa vinculada à UFRGS, à UFPel ao Instituto Pró-Carnívoros, alcançou visibilidade junto à mídia e conta hoje com mais de 54 mil seguidores em seu perfil no Instagram. Os pesquisadores do projeto têm conquistado espaços na imprensa tradicional graças às suas pesquisas e à divulgação de vídeos e fotos raras das espécies nativas do RS. Afinal, em tempos de jornalismo metrificado, quem resiste aos potenciais cliques que a imagem de um gatinho oferece?

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA


*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referência:
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897/8391. Acesso em: 21 jul. 2026.

O jornalismo e os impactos da nova fronteira do petróleo para além da crise climática

Imagem: Município de Oiapoque. Fonte: OpenStreetMap – Licença de Base de Dados Aberta de Open Data Commons

Por Débora Gallas*

A licença obtida pela Petrobras para prospecção de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, situada na Margem Equatorial, tem sido bem documentada pela imprensa. Especialmente por ocasião da COP30 na Amazônia, em novembro de 2025, a autorização do Ibama para o início das atividades expôs as contradições do governo Lula, que ora propõe um mapa do caminho para a redução do consumo e das emissões de combustíveis fósseis, ora defende a exploração desses recursos, diretamente relacionados à crise climática global.

No entanto, as consequências da atividade petrolífera na região vão além da produção de combustíveis fósseis e da emissão dos gases de efeito estufa derivados de sua queima. Passam pela contaminação ambiental provocada por possíveis vazamentos na operação em alto mar, que poderiam atingir a costa brasileira, conforme noticiou recentemente a DW, e pelas transformações sociais em terra firme, que são tema de duas reportagens publicadas nas últimas semanas e que motivam as reflexões deste texto.

No dia 12 de julho, a Folha de S. Paulo publicou reportagem de Vinicius Sassine, com fotografias de Lalo de Almeida, sobre como o fluxo migratório movido pela esperança de ganhos com o petróleo e o encarecimento dos aluguéis resultam em ocupações irregulares no município do Oiapoque, no Amapá, o mais próximo do bloco de exploração. O registro do surgimento de sete novos bairros – todos estabelecidos em área de floresta devastada, com moradias precárias, sem saneamento básico e sequer regulação fundiária – aparece também na reportagem de Camila Lichotti para a edição de julho da revista piauí.

Quem lê ambas as reportagens entende a lógica de exploração da natureza como combustível para problemas sociais crescentes na região. Além disso, ambos os textos também lembram que a região tem um ecossistema sensível, como a maior costa de manguezais do mundo e os recifes de coral na foz do Amazonas.

A reportagem da Folha, mais compatível com o formato do jornalismo diário, foca na especulação imobiliária e na expansão desenfreada da urbanização em Oiapoque tendo o factual como ponto de partida – no caso, a prisão de envolvido na venda de lotes irregulares. Além dos posicionamentos oficiais – do Ibama, da Petrobras e da Prefeitura –, a reportagem conversa com pessoas que foram viver nos novos bairros movidas pela promessa de crescimento econômico do município.

Já a reportagem da piauí, mais alinhada ao jornalismo narrativo proposto pela revista, traz o histórico da expectativa relacionada à exploração de petróleo e dos royalties que podem gerar ao município. O texto conta as mudanças em Oiapoque centrada em uma personagem – uma empresária que vê a chegada da Petrobras como sinônimo de desenvolvimento e prosperidade. O contraponto ao otimismo aparece em visita da reportagem à aldeia Karipuna, nas imediações de Oiapoque, onde vivem 409 famílias. Após terem suas roças de mandioca afetadas pelas vassoura-de-bruxa, a comunidade também não consegue mais caçar porque o aumento do fluxo de aeronaves na região provoca barulhos que afugentam os animais. Além de terem a subsistência diretamente afetada pelo desembarque da Petrobras na região, os indígenas enfrentam ameaças quando levantam ressalvas às operações.

Há obstáculos evidentes para uma cobertura contínua e aprofundada sobre o tema, sendo o principal deles o isolamento geográfico e a tímida presença de jornalismo profissional – segundo o Atlas da Notícia, o município de Oiapoque conta com duas rádios e uma emissora de televisão, mas nenhum veículo impresso ou digital, por exemplo.

Porém, é importante que veículos jornalísticos, principalmente os de abrangência nacional, sigam a trilha do trabalho feito pela Folha e piauí. Acompanhar os desdobramentos de uma licença concedida sem que nenhum dos órgãos envolvidos dimensionasse os impactos do empreendimento para a organização territorial na costa amapaense – sobretudo para os povos e comunidades tradicionais, que já percebem sua relação com a natureza estremecida –, é uma das orientações do Jornalismo Ambiental. Nesse sentido, além de seguirem olhando para o elo mais fraco da especulação imobiliária e financeira que jorra em Oiapoque antes mesmo do petróleo, futuras reportagens poderiam consultar fontes da ciência que documentam as mudanças na região.

Revisão: Eloisa Loose, integrante do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.

Super El Niño: imprensa do RS destaca os efeitos, mas não conecta o fenômeno às ações humanas

Crédito: NOAA

Por Luciano Velleda*

“Fortes chuvas que atingiram RS já são os primeiros efeitos do El Niño, afirmam meteorologistas” O título da matéria do G1, no último dia 29 de junho, é um exemplo recente de como o tema do fenômeno El Niño tem mobilizado a imprensa do Rio Grande do Sul. Desde que os cientistas e as previsões meteorológicas começaram a indicar a possibilidade de um forte El Niño em 2026/2027, a questão tem sido abordado frequentemente na mídia gaúcha.

No começo de junho, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do El Niño. Segundo a agência, há 63% de probabilidade do fenômeno se tornar muito forte, talvez um dos maiores desde 1950. No Brasil, os efeitos do El Niño são secas nas regiões Norte e Nordeste e muita chuva na Região Sul. O mesmo G1 publicou outra matéria também em junho, sob o título “El Niño já está atuando, confirma agência dos EUA: saiba quais as consequências possíveis para o RS”.

No jornal Zero Hora, o tema El Niño foi abordado ainda em janeiro, com a matéria “Fim do La Niña? Começo do El Niño? As possíveis mudanças climáticas no RS em 2026”, já antecipando a preocupação com o fenômeno num estado marcado pela tragédia da inundação de maio de 2024. O tema voltou a ser abordado outras vezes por Zero Hora, como em abril, com a matéria “El Niño pode chegar mais cedo ao Rio Grande do Sul? Veja por que o fenômeno está se antecipando”, e em maio, com o título “El Niño antes do esperado? Alerta preocupa Rio Grande do Sul”.

O jornal Correio do Povo, o segundo maior do RS, também tem abordado o assunto. Em abril, publicou um longo artigo, “Fenômeno El Niño volta a ameaçar o Rio Grande do Sul” e, em junho, outras duas matérias: “El Niño começa a influenciar o clima e pode aumentar as chuvas no RS nas próximas semanas” e “Para agilizar resposta a emergências climáticas, ministro da Saúde inaugura base regional da Força Nacional do SUS no RS”.

Em comum, todas as reportagens explicam o que é o fenômeno El Niño e destacam suas consequências, principalmente para o Rio Grande do Sul, citando que a intensidade do fenômeno está relacionada com as mudanças climáticas. Todavia, as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala.   

Em junho, reportagem da TV Bandeirantes mostrou que o El Niño tem sido um dos temas mais pesquisados pelos internautas gaúchos. O tema ocupou também a TV Pampa, em maio, com a matéria “Novo fenômeno El Nino deve ter impacto climático no RS a partir do segundo semestre”.

Veículos de imprensa locais também tem dado destaque para a previsão de um forte El Niño em 2026. É o caso, por exemplo, do tradicional grupo ABC+, que abrange diversos municípios da região do Vale dos Sinos e que, ainda em fevereiro, publicou a reportagem “El Niño: Transição para o fenômeno que traz chuva excessiva ao RS já começou; entenda os impactos”. O mesmo foi feito pelo jornal Gazeta, de Santa Cruz do Sul, em junho, sob o título: “El Niño é confirmado e preocupa especialistas no Rio Grande do Sul”, e pela TV Cachoeira, com a reportagem “El Niño avança e liga alerta no Rio Grande do Sul”. Novamente, as reportagens deixam de lado a relação da influência humana com as mudanças climáticas e com o próprio El Niño.

Dois dos principais veículos da chamada mídia independente também tem dado destaque para a previsão do fenômeno. Na última semana de junho, o Sul21 publicou duas notas, ambas originalmente feitas pela Agência Brasil:Com foco no El Niño, IBGE apresenta ferramenta para prevenir desastres” e “Ministério da Saúde lança plano para enfrentar El Niño e mudanças climáticas”. O tema foi igualmente abordado em junho pelo Brasil de Fato, com o título “El Niño confirmado: o que o Rio Grande do Sul pode esperar com a volta do fenômeno?”. De todas, a reportagem do Brasil de Fato é a exceção, por ser a mais aprofundada e a que apresenta o melhor contexto do fenômeno, um dos pressupostos do jornalismo ambiental.

Por fim, no plano político, o governo estadual publicou, em maio, a nota técnica “El Niño 2026-27: Evolução e possíveis impactos no Estado do Rio Grande do Sul” e, mais recentemente, o governador Eduardo Leite publicou um vídeo em rede social afirmando que o estado está “mais preparado para os eventos climáticos”. Assim como nas matérias da imprensa, a relação do El Niño com as mudanças climáticas – que, por sua vez, são impulsionadas pela ação humana, não está presente no documento oficial ou na fala do governador. Desse modo, tanto o governante quanto a imprensa passam a impressão do El Niño ser apenas um fenômeno da natureza sobre o qual a humanidade não tem conexão e, portanto, nada pode fazer, nem hoje e nem no futuro.

Revisão: Cláudia Herte de Moraes, integrante do GPJA.

*Luciano Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Enquadramento hegemônico do projeto Natureza da CMPC escanteia questões indígenas e ecológicas

Imagem: Isabelle Rieger

Por Cláudia Herte de Moraes* e Franchesco de Oliveira Y Castro** 

A expansão do setor de celulose no Rio Grande do Sul voltou ao centro do debate público com o Projeto Natureza, da CMPC Celulose Riograndense, empreendimento que prevê a instalação de uma nova fábrica em Barra do Ribeiro, às margens do Guaíba. A fábrica ficará a 3,5 km de praias da zona sul de Porto Alegre e a menos de 7 km dos pontos de captação de água de abastecimento público da cidade.  A cobertura jornalística sobre direitos humanos e conflitos ambientais complexos como esse tem um papel fundamental. Mais do que noticiar o andamento do negócio, o jornalismo é desafiado a evidenciar a pluralidade de vozes no debate, especialmente as historicamente invisibilizadas, como as dos povos indígenas e de comunidades atingidas.

A reportagem de janeiro de 2026 da Agência Pública, “Celulose no RS: projeto da CMPC ameaça indígenas”, mostrou que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) original da empresa praticamente ignorou a presença indígena na região. O povo Guarani Mbyá só passou a ser considerado no processo após a intervenção do Ministério Público Federal (MPF). No jornalismo hegemônico, ao longo deste semestre, poucas reportagens destacaram aspectos da injustiça ambiental. Ao contrário, o discurso predominante foca nos aspectos econômicos do empreendimento. Porém, os impactos ambientais são imensos e foram denunciados em mídias independentes, como pelo Jornal JA: o lançamento de até 242 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba, incluindo substâncias tóxicas e cancerígenas e o alerta sobre o aumento da carga tóxica lançada no Guaíba. 

Não é a primeira vez que há um tratamento normalizador sobre as operações desta empresa. Moraes e Fante (2020) analisaram a cobertura jornalística da quadruplicação da unidade da empresa CMPC, em Guaíba/RS, entre os anos de 2016 e 2017. Mesmo diante de grande poluição, ultrapassando limites legais, forte mau odor e barulho alto e ininterrupto, o jornal Correio do Povo publicou apenas uma notícia e Zero Hora simplesmente desconheceu o conflito. 

No caso da nova fábrica em Barra do Ribeiro, no entanto, o enquadramento é de louvor ao “progresso” e ao “desenvolvimento”. Colunistas povoam os jornais hegemônicos e apoiam a política do governador Eduardo Leite, que diz não admitir perder um investimento bilionário, como aparece em manchete no Jornal do Comércio: “Leite diz que não trabalha com a hipótese de o RS perder investimento bilionário da CMPC“. Semelhante discurso figura no editorial da GZH de 11 de junho, ao afirmar que  “O que não é admissível é o risco de perder o projeto da CMPC por insegurança jurídica e exigências exorbitantes”. Além da pressão para aprovar o projeto, o Grupo RBS direciona a opinião pública a desconsiderar os graves impactos ambientais, afirmando que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) legitima o licenciamento prévio. Porém, como apontou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), a Funai reafirmou seu compromisso com os direitos dos povos indígenas e manifestou intenção conciliatória, desde que respeitados seus direitos e a legislação.

Por outro lado, no Brasil de Fato, a reportagem “Paraguai vendido como vitrine empresarial expõe disputa sobre projeto da CMPC no RS” destaca que existe um ocultamento do verdadeiro impasse do projeto relacionado ao cumprimento constitucional dos direitos indígenas. O portal ((o))eco trouxe uma abordagem complexa no artigo “Situação política e interesses estrangeiros ameaçam o Guaíba, no Rio Grande do Sul”. Assinado pelo pesquisador da UFRGS Joel Henrique Ellwanger, o texto relaciona a expansão da empresa de celulose aos interesses econômicos internacionais, à conjuntura política do Rio Grande do Sul e aos riscos ambientais para o Guaíba.  

Ao estimular o debate crítico sobre grandes projetos de desenvolvimento e seus efeitos sobre territórios e comunidades envolvidas, os veículos independentes valorizam aspectos como justiça climática, participação social e preservação dos ecossistemas. Desta forma, prevalece o compromisso em fortalecer uma cobertura mais plural e contextualizada, pressupostos relevantes do jornalismo ambiental, e busca defender o debate público com base na crise de direitos e da ecologia. 

Enquanto isso, o enquadramento hegemônico aponta para um progresso sem precaução; e nos perguntamos: para quem?

Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br

Referência:

MORAES, C.H. de; FANTE, E. M. Jornalismo e invisibilidade do conflito ambiental no caso da CMPC Celulose Riograndense. E-Legis − Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação da Câmara dos Deputados, Brasília, DF, Brasil, v. 13, n. 31, p. 110–129, 2020. https://e-legis.camara.leg.br/cefor/index.php/e-legis/article/view/529

Depois da COP no Brasil, cobertura sobre a COP31 ainda é tímida

Crédito: Flickr/ Lara Murillo – “June Climate Meetings” por UNclimatechange, CC BY-NC-SA 4.0

Por Ângela Camana*

Na mesma semana em que nações se reuniram para dar início à Copa do Mundo da FIFA, outro importante evento acontecia: representantes de quase 200 países se encontravam na Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), na Alemanha, encerrada na última quinta-feira, dia 18. A cúpula é considerada um espaço técnico preparatório para a 31ª. Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que ocorre em novembro, copresidida por Turquia e Austrália. A cobertura da imprensa brasileira sobre esta rodada de negociações foi escassa e a repercussão foi dominada por um tom de frustração quanto às possibilidades de avanço rumo a acordos robustos.

A abordagem de caráter mais analítico ficou a cargo de veículos especializados e de mídias vinculadas à sociedade civil organizada, notadamente o Observatório do Clima, cuja crítica foi reproduzida por numerosas páginas. A meta global de adaptação e o financiamento público para o combate às mudanças climáticas foram questionados, o que representa um retrocesso nos debates experimentados na COP30, em Belém. Após intensa cobertura da conferência na Amazônia, o jornalismo tem perdido a oportunidade de oferecer desdobramentos da realização deste megaevento no Brasil, o que compromete a qualidade da informação climática – algo crucial no momento hoje vivido.

Na imprensa de referência, a abordagem foi centrada em agendas especificas, como é o caso da pauta do Canal Rural sobre as proposições do agronegócio para a COP31. Já na Exame e na Folha de S. Paulo, a discussão foi centrada nos ataques à ciência que marcaram a conferência: Índia, China e Arábia Saudita se movimentaram para adiar a publicação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne e chancela as evidências científicas sobre a crise climática. O grupo ainda questionou a necessidade já acordada no âmbito do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C. Em resposta, uma coalizão encabeçada por representantes de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá insistiu na capacidade da ciência de informar sobre as melhores decisões.

A despeito de enfatizarem os efeitos da ausência dos Estados Unidos nas negociações e caracterizarem Bonn como uma “batalha geopolítica” em função dos ataques ao conhecimento científico, a maioria dos textos sobre a conferência destaca o caráter eminentemente técnico do encontro. O não-reconhecimento de que a crise climática – e os mecanismos de enfrentamento a ela – são embebidos de política fragilizam ainda mais a já capenga cobertura sobre o clima e as COPs. A cobertura “técnica” em nada é neutra: ela própria despolitiza os espaços de debate climático e toda a estrutura de encontros, dissensos e negociações que os sustenta. Que o jornalismo possa, então, renunciar a abstrações e passar a traduzir as disputas de Bonn e das COPs em termos de poder: quem decide, quem financia, quem adia.

Revisão: Eutalita Bezerra, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com

Clima na pauta da Copa: como o calor extremo modifica o maior evento futebolístico do mundo

Crédito: Fotos Públicas / Rafael Ribeiro/CBF

Por Nico Kûara Costamilan e Eloisa Beling Loose

A Copa do Mundo da FIFA iniciou na última semana, trazendo coberturas sobre calor extremo e seus impactos nos jogos, nos atletas, jornalistas e na torcida. Segundo relatório e pacote informativo divulgado pela ONU Mudança do Clima (UNFCCC), o público deve perceber sinais visíveis das adaptações às altas temperaturas no esporte em 2026: ritmo de jogo mais lento, substituições precoces, mudanças táticas, toalhas refrescantes, pausas para hidratação, toalhas refrescantes, coletes com gelo e possíveis interrupções e mudanças de horário.

Ondas de calor estão se tornando cada vez mais frequentes, intensas e perigosas devido às mudanças climáticas, e nenhum país anfitrião da Copa do Mundo atualmente escapa das temperaturas extremas. Devido aos possíveis riscos à saúde, a FIFA vem tomando decisões estratégicas em relação ao clima nos últimos anos: em 2022, o país-sede, o Qatar, modificou a data da competição, transferindo-a do verão para o inverno; e, em 2026, determinou um intervalo de três minutos para hidratação dos jogadores em cada tempo.

Na última semana, este Observatório analisou as notícias publicadas em veículos jornalísticos brasileiros sobre o excesso de calor na Copa do Mundo. Entre pesquisas e materiais amplamente divulgados neste mês, a ONU criou uma página interativa sobre a Copa do Mundo que aborda clima, refugiados e direitos humanos; manifestos e pesquisas de cientistas norte-americanos foram amplamente divulgados em veículos jornalísticos  dos EUA nos últimos meses; e o   executivo da UNFCCC, Simon Stiell,  declarou que as pausas para hidratação devem  servir como um lembrete dos impactos do aquecimento global e da necessidade da luta pela redução das emissões de GEE e da transição energética. 

Tais iniciativas foram repercutidas nas notícias quando mencionam o excesso do calor, ainda que algumas delas apenas se detenham ao impacto da temperatura extrema nos corpos dos jogadores e como as seleções estão se adaptando. Outras trazem as pesquisas e alertas da ciência recentemente divulgados articulando com os efeitos das mudanças climáticas no evento. 

Em matéria online do Fantástico desta segunda-feira (15) foi apresentada a estratégia da seleção belga para adaptar o organismo dos jogadores ao calor intenso: sessões de sauna de mais de 20 minutos após os treinamentos. Sobre a mesma estratégia inusitada, GE, Lance! e Estadão Conteúdo (republicadas no Correio do Povo e no O Dia),  não tocaram no gritante aspecto climático do tema.  As notícias têm uma lacuna de falta de aprofundamento e ligação do fenômeno com as mudanças climáticas – fala-se do calor extremo, mas não se menciona o que causou esse cenário. 

O clima está nas pautas cotidianas mais que nunca, mas, mesmo assim, precisamos nos manter vigilantes de como podemos melhorar as coberturas jornalísticas, mesmo as esportivas e de entretenimento. Algumas frases de contextualização sobre as mudanças climáticas já fazem a diferença no entendimento dos leitores, que terão oportunidade de relacionar o fenômeno global com diferentes questões do seu dia a dia.

Como compartilhado no pacote informativo da UNFCCC para jornalistas, como emissoras, comentaristas e repórteres, esse é um momento importante para explicar aos leitores e telespectadores o que está acontecendo, para além do inusitado ou curioso. As mudanças climáticas são relevantes a tudo que ocorre em nosso tempo, inclusive no esporte favorito de boa parte do mundo.

* Estudante de Jornalismo da UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: nicocostamilan@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

A desconexão e a falta de visão sistêmica fizeram os jornais gaúchos esquecerem do Dia Mundial dos Oceanos

Capão da Canoa – RS. Crédito: Ilza Girardi

Por Ilza Maria Tourinho Girardi*

No dia 8 de junho é celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. A data foi proposta em 1992, durante a Cúpula da Terra (Rio-92), no Rio de Janeiro, numa iniciativa do International Centre for Ocean Development (ICOD) do Canadá e do Ocean Institute of Canada, e foi oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas (ONU) em 2008. Os oceanos são fundamentais para a vida em nosso planeta, pois além de abrigarem a maior biodiversidade do mundo, produzem oxigênio e são reguladores do clima terrestre. A data também assinala o Dia do Oceanógrafo, que é o profissional dedicado ao seu estudo e cuidado.

Em tempos em que um El Niño de intensidade moderada a forte é anunciado com probabilidade de ocorrer a partir do próximo semestre, podendo provocar chuvas intensas, ventos fortes e inundações no Rio Grande do Sul e seca nas regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a data deveria ser assinalada pelos jornais de Porto Alegre. A cidade foi uma das atingidas pelo desastre hidrológico de 2024. Conforme pesquisadores como Rualdo Menegat, Porto Alegre, por exemplo, ainda não está preparada para um novo evento como o ocorrido há dois anos, pois muitas obras de proteção não foram concluídas, nem mesmo há um indicativo de como a população deve agir se a situação se repetir.

Esta análise parte do entendimento de que jornais publicados em Porto Alegre deveriam assinalar a data e mostrar a relação do El Niño com o aquecimento anormal do mar provocado pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa em função da matriz energética, que não muda, pois empresas e governos arranjam desculpas para continuar explorando petróleo e carvão.

Foram verificadas as edições do dia 8 de junho dos jornais Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul e Diário Gaúcho, que são representantes da imprensa hegemônica do Rio Grande do Sul.  O jornal Zero Hora foi encartado numa “capa promocional” com propaganda da PUC-RS com seus projetos na área ambiental e tecnológica. A primeira página da capa é bem impactante, pois a arte dá a sensação de que o jornal está embarrado, com foto de casas submersas na água cheia de lama, lembrando a inundação de 2024. A manchete é “Cuidar da Terra já não é mais um projeto futuro”. Na frase de apoio vemos: “Nos últimos 5 anos, os desastres climáticos aumentaram em 250% no Brasil e cientistas apontam a tendência de mais eventos extremos nos próximos anos, com o RS entre as regiões mais suscetíveis”. No pé da página temos três chamadas: “Desmatamento: Em 2024, perdemos por minuto o equivalente à área de 18 campos de futebol em florestas primárias”; “Biodiversidade: Mais de 75% das espécies do mundo já foram extintas e 1 milhão podem sumir na próxima década”; “Educação: 40% dos currículos de educação básica não citam mudanças climáticas.”

Como se trata de uma “capa promocional” não há nenhuma chamada para uma matéria no interior do jornal. O Dia Mundial dos Oceanos não foi lembrado. Na página 2, no Informe Especial, há uma nota com o número 2 e título A ONU e o El Niño, com um pequeno texto falando sobre a origem do fenômeno, relacionado ao aumento da temperatura do oceano na superfície no centro e no leste do Oceano Pacífico Equatorial. O texto apresenta as consequências desse aumento da temperatura, mas nenhuma informação sobre as razões antrópicas para que isso ocorra.

O Correio do Povo, por sua vez, apresenta a mesma capa como informe publicitário da PUC-RS. O Dia Mundial dos Oceanos e o Dia do Oceanógrafo são lembrados no Editorial, na página 8. O texto destaca a importância do Oceanógrafo, identificando as atividades que o profissional desenvolve voltadas para “identificar o panorama da vida marinha, seus recursos, riscos, como no aquecimento global (…)”. Além disso, destaca a atuação dos profissionais nas zonas costeiras, lagos e rios, nas inundações, em projetos de desassoreamento dos rios. O último parágrafo afirma que “como organismo vivo que é, a Terra não pode prescindir de ter respeitados todos os seus itens vitais” e seu o nível de degradação “precisa ser contido com celeridade”. Na verdade, nada é dito sobre os oceanos e sua importância na regulação da temperatura do Planeta e nem sobre sua biodiversidade. Nem ao menos são mencionadas questões factuais que conectam diretamente o Rio Grande do Sul ao oceano. Exemplos são a recente criação do Parque Nacional do Albardão, em Santa Vitória do Palmar, o maior parque marinho do Brasil, que protege espécies aquáticas importantes, como as toninhas. Podemos também lembrar do projeto de construção de porto em Arroio do Sal, no Litoral Norte, que pode afetar a biodiversidade local e as formações costeiras, segundo críticos.

O Diário Gaúcho não mencionou o Dia Mundial dos Oceanos. Sua manchete anuncia “Novos imóveis também nas periferias da capital”. A frase de apoio destaca que os “Programas de moradia popular ajudam a impulsionar o “boom” de lançamentos do mercado imobiliário em 2026”. O assunto também foi destaque na capa de Zero Hora: Lançamentos de imóveis na capital crescem e reforçam retomada do setor.” O tema não será analisado aqui, mas sabe-se que a capital possui um alto número de imóveis vazios, inclusive prédios públicos, que poderiam ser utilizados para moradias populares, precisando, portanto, projetos governamentais para esse fim.

O Jornal O Sul ignorou o Dia Mundial dos Oceanos. O mesmo ocorreu com o Jornal do Comércio. Dos cinco jornais analisados, somente um citou minimamente a data. Essa ausência impressiona pela falta de informação ou de sensibilidade relacionada à importância dos oceanos para regular a temperatura da Terra, além de sua riqueza em biodiversidade, que também é ameaça pela poluição dos mares em especial pelos plásticos. Esses, aliás, são produzidos a partir do petróleo e do gás natural. A cobertura também mostra a desconexão com a formação do El Niño, que é uma preocupação dos gaúchos, que lamentavelmente não tem uma visão sistêmica sobre a natureza.

Existem diversos manuais de Jornalismo sobre cobertura de meio ambiente, desastres climáticos, além de seminários e cursos sobre a matéria. Infelizmente a pressão do trabalho impede os jornalistas de buscarem mais informações e aprenderem sobre esses temas que são essenciais a vida humana e dos demais seres. O que está acontecendo com o Jornalismo? Os pressupostos epistemológicos do Jornalismo Ambiental são uma orientação sobre como fazer Jornalismo, mas se tais pressupostos são desconhecidos, a função social do Jornalismo, estudada no início da faculdade, nos alerta que a informação é um direito do cidadão. Os jornais existem para informar a sociedade sobre o que está acontecendo e pode afetar sua vida. Os interesses mercadológicos não deveriam afetar o conteúdo editorial. Frequentemente tais interesses afetam a qualidade de vida da população, pois para muitos a poluição ainda é sinônimo de emprego e desenvolvimento e aumento de seus lucros.

*Professora Titular aposentada da UFRGS, Professora Colaboradora do PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

Revisão: Débora Gallas Steigleder, jornalista, mestre e  doutora em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

Dia Mundial do Leite: entre preços, importações e as questões ambientais que ficam fora da cobertura

Imagem de Couleur por Pixabay

Por Gabriella de Barros *

Celebrado em 1º de junho, o Dia Mundial do Leite foi criado pela Food and Agriculture Organization para destacar a importância nutricional, econômica e social do leite em diferentes países. No Brasil, a data coincide com um momento de intenso debate sobre as importações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai, as medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e os impactos dessa disputa sobre produtores e consumidores.

Para esta análise, foram observadas cinco notícias: Entenda: Brasil importa leite em pó, mas é um dos gigantes em lácteos, Preço do leite volta a subir com menor oferta no campo e Governo aprova medidas antidumping contra leite da Argentina e Uruguai, da CNN Brasil; Camex aprova medidas antidumping contra leite em pó importado de Argentina e Uruguai, do MilkPoint; e MDIC confirma suspensão imediata de antidumping sobre leite em pó do Mercosul, publicada pelo UOL com conteúdo da Agência Estado. As matérias abordam diferentes aspectos do tema: a posição do Brasil no mercado internacional de lácteos, a alta recente dos preços do leite, as medidas antidumping contra produtos importados da Argentina e do Uruguai e a posterior suspensão dessas medidas pelo governo federal.

O que as matérias destacam

Ao analisar o conjunto das notícias, observa-se que a cobertura é fortemente orientada por uma perspectiva econômica. Concentram-se nos impactos das importações sobre a competitividade dos produtores brasileiros, nas oscilações dos preços pagos ao produtor, nas decisões governamentais relacionadas ao comércio internacional e nos possíveis reflexos dessas medidas para a inflação dos alimentos.

As fontes mais presentes são representantes do governo, entidades do setor leiteiro, especialistas em mercado e organizações ligadas à produção agropecuária. Nesse enquadramento, a disputa é apresentada principalmente como um conflito entre dois interesses legítimos: a proteção dos produtores nacionais e a manutenção de preços acessíveis para os consumidores.

A própria suspensão das medidas antidumping é justificada, nas matérias, pela preocupação com os preços dos alimentos e seus efeitos sobre o consumidor final. Dessa forma, a cobertura constrói uma narrativa em que a principal questão é econômica, como equilibrar a renda dos produtores brasileiros com a necessidade de evitar aumentos no preço do leite e de seus derivados.

O que as matérias deixam de lado

Embora a cobertura jornalística ofereça informações relevantes sobre mercado, comércio exterior e inflação, chama atenção a ausência de discussões ambientais mais amplas relacionadas à cadeia produtiva do leite. Pouco ou nada é mencionado sobre os impactos das mudanças climáticas na produção leiteira, mesmo em um contexto no qual secas, enchentes e eventos climáticos extremos vêm afetando a agropecuária em diferentes regiões da América do Sul. Também não aparecem reflexões sobre a vulnerabilidade dos sistemas alimentares diante das transformações climáticas ou sobre os desafios de construir modelos de produção mais sustentáveis.

Da mesma forma, as matérias não exploram como a permanência ou o desaparecimento de pequenos produtores pode afetar a organização dos territórios rurais, a segurança alimentar e a resiliência das cadeias de abastecimento. O debate fica concentrado nas dimensões comerciais e econômicas, enquanto aspectos socioambientais permanecem periféricos ou ausentes.

A disputa em torno do leite importado do Mercosul mostra que questões aparentemente econômicas também são questões ambientais. Discutir a produção de alimentos significa discutir território, clima, modos de vida rurais e a capacidade das sociedades de garantir abastecimento sustentável em um cenário de crescente instabilidade climática. Essa talvez seja a principal pauta ausente em boa parte da cobertura recente: não apenas quanto custa produzir leite, mas qual modelo de produção e de sistema alimentar está sendo construído para o futuro.

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA

* Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).