Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração

Por Karina Gomes Barbosa*

No último dia 5 de novembro, Mariana relembrou os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. O desastre-crime matou 19 pessoas, provocou um aborto, destruiu comunidades tradicionais em Minas Gerais e devastou o Rio Doce até a foz, no Espírito Santo. Aqui, do epicentro do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, considerado o pior desastre socioambiental da história do país, vemos esta década de forma ambígua e amarga.

De um lado, as comunidades atingidas conseguiram – e conseguem – vitórias inegáveis, graças a uma mobilização incansável ainda que sem direito a integrar as mesas decisórias da reparação desde 2015. Entre essas conquistas estão o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), em 2016, e a promessa de melhores condições de saúde com a construção de um hospital universitário em Mariana, neste ano. Na última sexta-feira, 14, a anglo-australiana BHP foi condenada nos tribunais ingleses pelo colapso da barragem de rejeitos.

Do outro, porém, são 10 anos de lutas desiguais, contra corporações minerárias transnacionais que emperram o andamento das ações judiciais no Brasil (foram absolvidas das acusações criminais, junto com os principais executivos e as empresas que atestaram a segurança da estrutura); contra ações de reparação sem escuta ativa e sem respeitar as necessidades e desejos das pessoas atingidas; contra preconceitos; e contra a invisibilidade.

Um dos espaços onde essa falta de presença se dá com mais força é o jornalismo. De 2015 para cá, houve mudanças perceptíveis na cobertura. Aquilo que num primeiro momento se configurou quase como um assédio a pessoas em choque, traumatizadas, incapazes de elaborar aquilo por que haviam passado, aos poucos se transformou numa escrita jornalística fria, distante.

Por anos, os temas relacionados a Fundão que emergiam na imprensa nacional diziam respeito às ações judiciais, aos desdobramentos nas investigações criminais e aos anúncios feitos pela Renova, entidade criada para, supostamente, gerenciar a reparação, e que sempre foi controlada pelas antigas rés do crime, dissolvida em 2025 porque não cumpriu suas obrigações.

Uma cobertura mais humanizada aparecia apenas nas efemérides, e nem em todas elas, quando veículos do país inteiro vinham dar conta do que estava ocorrendo aqui com as pessoas e comunidades atingidas, ou em veículos independentes ou laboratoriais produzidos no curso de Jornalismo da UFOP. Nos últimos anos, nem isso. Muitos veículos, inclusive mineiros, usaram material produzido pela Agência Brasil para não terem de se deslocar a Mariana.

Aos poucos o cenário vem se transformando, modesta e sazonalmente. Alguns veículos ampliaram, em certa medida, o olhar sobre o crime de 2015, trazendo temas caros às pessoas atingidas, como a violação cotidiana de direitos e os problemas de saúde decorrentes da catástrofe socioambiental. Essa presença mais constante, de uma abordagem menos emotiva e mais focada na perspectiva da luta e dos direitos humanos, modificou inclusive a relação de muitos e muitas atingidas com a imprensa: de desconfiança absoluta a uma atitude mais colaborativa com aqueles que mostravam as angulações para poderem ser atendidos por quem tem uma agenda de luta sem tréguas.

Em 2025, essa mudança ficou perceptível. Fundão já havia voltado aos holofotes desde junho, quando o presidente Lula e uma caravana de ministros estiveram em Mariana para anunciar um controverso acordo de repactuação – uma revisão dos termos da reparação assinada em 2016 –, elaborado mais uma vez sem a presença ou sequer uma escuta responsável e comprometida de atingidos e atingidas. Em novembro, a cobertura, de modo geral, foi respeitosa e buscou equilibrar as dimensões econômicas, jurídicas, socioambientais e o aspecto humano.

Contudo, uma ausência notável permanece e se perpetua, como miopia ou dificuldade de o jornalismo olhar para os acontecimentos com uma perspectiva sistêmica. Pouco ou nada se fala da conexão entre a exploração minerária predatória e a emergência climática. Os efeitos da extração de minerais são visíveis a olho nu, todos os dias, e obviamente cobram sua conta para a cidade, a bacia hidrográfica, o país, o planeta. Parece que mais uma vez, após mais de dois séculos, o minério consegue se esconder de sua responsabilidade sobre a devastação socioambiental do mundo.

Aqui em Mariana, a exploração protagonizada por Samarco, Vale, BHP, Cedro e, em breve, Cidreira – fora a moda das mini minas como a Patrimônio Mineração, na comunidade do Botafogo, em Ouro Preto – prevê o uso de uma quantidade abissal de água, jamais claramente apurada, inclusive para assentar o pó das atividades. Curiosamente, as duas cidades sofrem com falta d’água, a despeito de estarem rodeadas de nascentes.

A poeira que chega à zona urbana leva a diversos problemas respiratórios e de pele e a uma sobrecarga do sistema de saúde. Os serviços de saúde não são os únicos onerados. Mariana enfrenta problemas de saneamento básico e coleta de lixo, devido ao excesso populacional trazido pelos trabalhadores da mineração, além de aluguéis e comida inflacionados. O fluxo de ônibus de transporte de funcionários e de caminhões, alguns de carroceria tripla para transportar máquinas de ficção científica, geram poluição sonora, engarrafamentos, danos abundantes ao asfalto e, óbvio, emissão de gases poluidores.

Uma caminhada nas proximidades das barragens (agora, dizem, em descomissionamento) e pelas áreas de extração exibe a face mais explícita dos danos: o que eram montanhas e morros repletos de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado vão se tornando aos poucos zonas áridas, terrosas, terra arrasada. O reflorestamento parece uma eterna promessa que não se cumpre, porque a expropriação nunca tem fim.

Se vemos grandes reportagens apontando o desmatamento na Amazônia e o garimpo ilegal como vilões das mudanças climáticas, corporações como a Vale surgem como empresas comprometidas com a mineração verde – enquanto transformam a comunidade de Antônio Pereira em cenário de filme de terror em tons avermelhados. Isso sem falar que a zona rural de Mariana e todas essa outras localidades não existem para a mídia.

Quem já ouviu falar de Campinas, Pedras, Ponte do Gama, Águas Claras, ou até mesmo de Paracatu de Baixo e Gesteira, dois subdistritos arrastados, como foi Bento Rodrigues?

Andando um pouco mais, quem, num raio de menos de 100 km de Mariana, já leu ou escutou o nome de Socorro, distrito de Barão de Cocais que guarda semelhanças profundas históricas e demográficas com Bento Rodrigues, mas que carrega o estigma de não ter entrado para a história como terra arrasada, já que lá a barragem da Vale não rompeu, mas expulsou as pessoas de sua tricentenária comunidade desde 2019?

Os impactos imediatos e futuros gerados pelas mineradoras em pequenas cidades de 60, 80 mil habitantes (o IBGE não considera a população flutuante minerária) são desconsiderados pelo jornalismo, que parece não conectar a criação de diversas Marianas, Brumadinhos, Itabiras pelo país com os regimes de chuva irregulares, às tempestades que desalojam populações em vulnerabilidade, às ondas de calor que se multiplicam a cada ano, a secas inclementes, ao desaparecimento de áreas verdes, à morte de nascentes.

São cidades pequenas, desimportantes no cenário geral, parece. Cujos modos de vida esmagados pela mineração não têm noticiabilidade suficiente. A mineração legalizada, chancelada por ANM, MME e tantas siglas governamentais, tem credibilidade para dizer que não polui, mitiga, repara, refloresta, recompõe, devolve o que tirou, ao mesmo tempo que submete comunidades a processos de terrorismo de barragens, chantagens financeiras, violências e incertezas.

Enquanto isso, a Samarco começa um processo de expansão chamado Longo Prazo, com o objetivo de ampliar em 100% a capacidade de extração até 2042. Mais uma vez, o jornalismo parece dar pouca atenção à perspectiva distópica que se avizinha sobre a região, onde nasceu Minas Gerais graças ao ouro e que vive sob a maldição/dádiva do minério desde então.

A cegueira do jornalismo ante a essa conexão flagrante vai custar caro, como já custou em 2015, 2019 e ao longo da história mineira. Quando nossos pequenos problemas explodirem na foz de um rio, quando nossos pequenos danos se tornarem 272 mortos, quando nossas pequenas minas contribuírem para o fracasso do país com as metas de qualquer COP, eles serão novamente noticiados, com surpresa, horror e, provavelmente, a mesma incompreensão estrutural.

A autora agradece a André Luís Carvalho pela leitura e pelas contribuições.

* Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), convidada por este Observatório em razão de seus estudos que envolvem o desastre-crime que completou recentemente dez anos. E-mail: karina.barbosa@gmail.com.

“O agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental.

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A importância da cobertura crítica do jornalismo não hegemônico na COP-30

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

Assuntos latentes nas discussões que circundam a COP-30, a começar no próximo dia 11 em Belém do Pará, como a exploração de petróleo na Amazônia, são temas que, por vezes, perpetuam-se apenas em discussões ambientadas nesses espaços formais. Entretanto, a popularização destas pautas ambientais e climáticas são essenciais e intrinsecamente ligadas à formulação de uma agenda justa e eficaz acerca de ações de adaptação e mitigação.   

Tendo em vista a relevância da COP-30, um dos eventos mais importantes que guiam as tomadas de decisões acerca do clima e do ambiente no âmbito global, é pertinente avaliar quais são os veículos que estão tratando destes assuntos de forma aprofundada e crítica.

É a partir da cobertura realizada pela mídia não hegemônica que a população pode entrar em contato com olhares mais criteriosos sobre o que representa, no caso em questão, a autorização pelo governo federal à exploração de petróleo em uma região estratégica ao equilíbrio climático e por sediar a COP 30. 

O jornalismo não hegemônico, também denominado de alternativo, contra hegemônico, independente, de oposição, se refere às práticas jornalísticas de meios com posição comprometida e engajada com o “combate à injustiça social, sendo, muitas vezes, fortemente relacionado com os movimentos sociais, com escala de influência mais limitada na sociedade, estrutura econômica mais instável e, na maioria das vezes, atuando sem fins lucrativos” (Loose, 2020, p.39).

A exploração de petróleo na Foz do Amazonas representa um duro golpe para quem quer mudar a trajetória das mudanças climáticas e vê nas discussões da Conferência uma saída ambiental que barre a produção de combustíveis fósseis. 

O site do Sumaúma, um dos projetos jornalísticos não hegemônicos mais relevantes atualmente na cobertura da COP-30, traz a notícia sobre a exploração do petróleo na região com uma crítica frontal e contundente ao governo Lula, apontando ministros que eram favoráveis à perfuração de poços e como ocorreu a aprovação e liberação do Ibama, bem como as repercussões, sob forte pressão política. A partir do texto, o leitor entende o enredamento governamental com o Congresso e a inação presidencial diante do avanço dos interesses políticos e petrolíferos. Além disso, a notícia expõe a contradição da decisão a poucos dias da realização da COP.

A cobertura realizada pelo veículo jornalístico O Eco, o qual se dedica a evidenciar os avanços e desafios acerca do cenário ambiental e climático no país, traz também uma visão crítica da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, além de ressaltar os efeitos  negativos da exploração gera ao meio ambiente. A matéria enfatiza o risco de acidentes e a extrema poluição climática que este movimento causará ao ambiente e como tal atitude está sendo vista no cenário internacional.

De mesmo modo, o  #Colabora, expôs, na última semana, a denúncia feita por ONGs ao governo acerca da exploração no foz do Amazonas.  A matéria apresenta, de forma crítica ao governo, o ativismo conjunto de outras organizações que lutam pela justiça climática e que, por vezes, não tem visibilidade na cobertura hegemônica. O veículo ressalta a importância do reconhecimento destas atuações ambientalistas realizadas por populações indígenas, ribeirinhas, pescadoras e outras organizações no debate ambiental e climático no Brasil. 

Diante dos apontamentos aqui apresentados, verificamos a necessidade de que meios não comprometidos com os interesses da indústria petrolífera produzam notícias e circulem. Muitas vezes, a tomada de consciência sobre os problemas ambientais só é possível nestas alternativas. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS) e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (CNPq/UFRGS) . E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

Referência:

LOOSE, E. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/220347. Acesso: 01.nov.2025

Vozes indígenas e quilombolas seguem à margem da cobertura antes da COP-30

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**

Cerca de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas, estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações, secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna, de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.


Essa questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a 21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67 delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação aos eventos climáticos extremos.


Além das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil, em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.


Mas, ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.


Por outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.

A pouca atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas mais eficazes para todos nós.


*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.
**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Visibilidade indígena na COP-30: entre a luta por protagonismo e silenciamentos recentes

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

A COP-30 que ocorrerá em Belém (PA), no Brasil, em novembro de 2025, tem como um de seus objetivos correlatos ser mais inclusiva e participativa. Acredita-se que a pressão que os grupos sociais e populações marginalizadas com interesse direto no tema influencie as negociações de leis e políticas internacionais para combater o aquecimento global e alcançar metas climáticas. Em carta, André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, coloca as pessoas como centro do debate sobre o clima, o que põe em evidência a importância da participação de diferentes representações. 

A organização do evento vem realizando esforços para viabilizar a maior participação das comunidades indígenas. Em agosto, alguns movimentos foram observados em três frentes. Primeiro, a organização oficial anunciou o calendário de dias temáticos para debates alinhados à Agenda de Ação, com o intuito de envolver a sociedade e interessados na proposição de soluções reais para o clima – haverá um período especial para destaque aos povos indígenas (17-18 de novembro). Ainda, no segundo movimento, a presidência da COP-30 ressaltou que “as comunidades tradicionais são as mais vulneráveis aos efeitos da crise climática e que por essa razão precisam ocupar o protagonismo nas discussões da agenda de resposta às mudanças do clima”. Por fim, a própria assessoria de imprensa da COP-30 intensificou a comunicação sobre as vias de acesso à participação  dos povos indígenas — mas não só —, demonstrando uma tentativa de mudança contundente na narrativa da conferência ao buscar posicionar estes atores como agentes fundamentais da transformação necessária para a mitigação e adaptação das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. Portanto, cabe uma indagação situada sobre como os meios de comunicação estão dando visibilidade a esses movimentos. 

No veículo O Globo, percebe-se que, apesar de o site contar com seção específica chamada “COP30 Amazônia”, grande parte das notícias giram em torno das polêmicas sobre os altos custos de hospedagem em Belém (PA). Em maio, consta uma única notícia sobre as vivências indígenas e ribeirinhas na crise climática que serão levadas ao evento por representantes de organizações destes povos. 

Em outros veículos locais, como Pará Terra Boa, a ênfase da cobertura centra-se, sobretudo, em notícias de cunho internacional sobre a conferência, pouco situada na participação de comunidades locais, como indígenas e ribeirinhas. Além disso, quando cita a participação de famílias agricultoras, por exemplo, é comum que a notícia enfatize outras atividades de abastecimento e menos a atuação política-social destas populações. 

Portanto, é visível que a COP-30 e sua organização precisam inserir no debate lideranças de movimentos que representam comunidades presentes nos diferentes territórios. Mais do que isso, trazer estas pessoas para o centro da discussão também na cobertura midiática é essencial para dar visibilidade a decisões que guiarão o futuro do nosso planeta. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática (ComClima) e do Grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade, ambos da UFRGS. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

No prato e na pauta: a importância da agricultura familiar no debate da COP-30

Crédito: Fotos Públicas

Por Jéssica Thaís Hemsing * e Cláudia Herte de Moraes**

Na reunião técnica preparatória para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30) em Bonn, na Alemanha, foi anunciada uma decisão inédita sobre a alimentação dos participantes: pela primeira vez na história, alimentos oriundos da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais estarão incluídos no cardápio da cúpula. 

No evento ocorrido em junho, o Brasil comprometeu-se a utilizar, no mínimo, 30% de alimentos produzidos na região, fortalecendo produtores locais. Mais do que incentivar a economia regional, essa medida impacta diretamente o combate às mudanças climáticas, contribuindo para a redução das emissões de carbono e outros gases de efeito estufa. Isso porque as cadeias curtas de alimentos reduzem o uso de transporte, enquanto a agroecologia utiliza menos insumos fósseis.

Fica, no entanto, a questão: trata-se apenas de um “prato bonito” para a foto oficial ou de um compromisso histórico capaz de deixar legado?  

A comunidade tem se mobilizado para que não seja um gesto pontual. A Comissão de Meio Ambiente (CMA) realizou uma audiência pública no Senado para lançar o Manifesto do Cooperativismo da Agricultura Familiar para a COP 30, reunir propostas sobre justiça climática, energias renováveis e agroecologia. 

Esse é um tema que merece centralidade no debate da COP-30. O que nos leva a questionar sobre a forma como a imprensa brasileira tem abordado essa relação.

Uma das poucas repercussões surgiu na revista Veja, que destacou o  fortalecimento de práticas agrícolas que respeitam a floresta e os saberes ancestrais das populações amazônicas. Por outro lado, o jornal independente Brasil de Fato, além de falar sobre a importância da preservação ambiental, buscou entender os desafios e oportunidades para a agricultura familiar e a agroecologia na COP30. O artigo do Brasil de Fato evidenciou que, pela primeira vez, a proposta de transformação dos sistemas alimentares é um eixo da Agenda de Ação da COP.

A existência de projetos e instituições dedicados à promoção da agricultura sustentável é fundamental. Um exemplo é o projeto “Na mesa da COP”, idealizado pelos institutos Regenera e Comida do Amanhã, que acompanharão de perto a implementação dessa nova política e atuarão na mobilização por políticas públicas e práticas alimentares capazes de fortalecer a agricultura familiar mesmo após a COP.

Segundo o Regenera, a compra de alimentos para o evento pode injetar até R$ 3,3 milhões na economia da agricultura familiar da região. Além de gerar renda, a política protege a diversidade biológica e cultural, junto com povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares que, acima de tudo, mantêm práticas agrícolas sustentáveis, respeitando os ciclos naturais e preservando o meio ambiente.

Uma das funções do jornalismo é – ou deveria ser, chamar a atenção de temas importantes e relevantes para a sociedade. Como é o caso da agricultura familiar e sua relação com as mudanças climáticas. Mesmo com o anúncio de que a COP-30 contará com alimentos da agricultura familiar, esta pauta pouco repercutiu na discussão climática.

A agricultura familiar é potencialmente regeneradora e é uma forma de mitigação e adaptação climática. Isso demonstra um compromisso com os desafios socioambientais. A COP precisa pautar a soberania alimentar brasileira, e o jornalismo precisa dar a atenção devida a um debate que é central para nossa sociedade. Reportar a agricultura familiar não é apenas cobrir um evento, mas pensar que estamos diante do futuro do nosso planeta, a partir daquilo que será  semeado hoje na Amazônia.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima (UFSM), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

O jornalismo precisa pautar o debate climático desde a América Latina

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes** 

A preocupação com a geopolítica, quando o assunto é a realização da 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) em Belém, acendeu o alerta sobre os desafios que estão postos, entre eles, a postura do presidente Trump ao retirar novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris. A tarefa do Brasil como país sede e um dos líderes do debate climático é ainda maior, como analisado pelo site Brasil de Fato, em função da necessidade de que os BRICS, bloco econômico que reúne países emergentes ao redor do mundo, sejam atraídos para a pauta ambiental, fazendo frente aos desafios globais.

Na primeira semana de julho, os países do BRICS enviaram um importante recado à comunidade internacional: países do Norte Global teriam que assumir mais protagonismo e responsabilidade na luta contra o aquecimento global. Em uma declaração divulgada em conjunto, o bloco cobra a ampliação da  participação dos países mais ricos nas metas de financiamento climático, reivindicando US$1,3 trilhões de dólares em investimento até a COP-30. 

Esse apelo relembra uma dura realidade: enquanto os países do Norte Global estão entre os que mais emitem gases de efeito estufa, quem ainda está mais vulnerável aos efeitos da crise climática são os países do Sul Global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, queimadas mais constantes e destrutivas afetam cada vez mais regiões que, como a América Latina, já enfrentam desigualdades sociais profundas. 

O governo brasileiro busca influenciar o debate para a questão climática com várias iniciativas, como noticiou o portal G1, quando o presidente Lula pautou o tema junto ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Também o site Opera Mundi relatou os esforços do Brasil em dar prioridade para o debate climático em razão da realização da COP, até mesmo como uma bandeira da política externa do governo federal. No entanto, a pauta econômica é ainda o foco principal da atualidade, especialmente pelo aumento de tarifas ao comércio internacional, impostas pelo governo estadunidense, o que dificulta que o meio ambiente receba maior ênfase entre os desafios regionais dos blocos econômicos e políticos.

Vale lembrar que os países latino-americanos, mais que apenas vulneráveis ao aquecimento global, também aparecem como protagonistas na busca por soluções para esta crise. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes, o continente latino-americano tem uma das regiões mais biodiversas do planeta. Sediar a COP-30 dentro da maior floresta tropical do mundo não é apenas importante simbolicamente, mas estrategicamente. Assim, podemos dizer que a COP-30 representa um espaço mais plural aos países latino-americanos e reacende uma integração regional em torno da luta contra as mudanças climáticas.

A América Latina pode se tornar referência em um desenvolvimento verde, mais justo e que respeite suas especificidades sociais, culturais, econômicas e ecológicas. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), 60% da eletricidade da América Latina é gerada a partir de energia renovável, posicionando-a como uma das redes elétricas mais limpas do mundo. Países como Brasil, México e Chile lideram o caminho para diversificação de fontes de energia eólicas e solares. A agroecologia, por sua vez, também está se enraizando cada vez mais nos países latino-americanos. Um estudo realizado em quase duas mil propriedades rurais na América Central constatou que os locais onde são implementadas práticas agroecológicas têm um solo mais arável, com mais umidade e menos erosão, e sofrem menos perdas do que os sistemas convencionais. A agroecologia representa uma alternativa ao modelo agroindustrial e propõe novas economias centrada no cuidado das pessoas e da natureza. 

A COP-30 pode ser o recomeço para pensarmos em uma sustentabilidade menos colonialista. Enquanto não olharmos para quem mais sofre com as mudanças climáticas, não poderemos desenvolver ações mais justas e eficazes para enfrentá-las. Ser mais sustentável talvez tenha a ver com assumir a latinidade de forma ampla, o que inclui perceber a rica diversidade biológica e cultural, seus povos originários, as influências diversas e saberes construídos coletivamente. Para o jornalismo ambiental importa trazer esse debate de forma aprofundada, pautando o papel da América Latina, como tratado por Um Só Planeta. A inclusão de um sentido de engajamento regional ao enfrentamento da crise climática passa por entender os caminhos possíveis desde os nossos territórios.

*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O valor da hospedagem em pauta: Quais são as implicações para o enfrentamento climático?

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

A pouco mais de quatro meses da COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil e tem como sede Belém, os altos preços de hospedagem na capital do Pará têm sido um entrave debatido em âmbito internacional. A situação foi amplamente discutida no encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que encerrou em 26 de junho em Bonn, na Alemanha. Os preços de locações estão três vezes mais altos do que a média cobrada em conferências dos anos anteriores, condição que pode prejudicar a participação dos países e delegações ativistas da sociedade civil que apresentam menos recursos financeiros. O governo federal chegou a anunciar uma plataforma de hospedagem que concentraria informações mais detalhadas, mas, até o momento, não houve avanços, gerando incertezas de ONGs e órgãos internacionais sobre a vinda ao evento. 

Os impasses decorrentes da situação foram divulgados pela imprensa, mas em grande parte, principalmente nos veículos hegemônicos, apenas tratando da crise diplomática e de como o país está sendo visto internacionalmente. Entre as notícias analisadas sobre o tema nas últimas semanas, de 25 de maio a 1º de julho, O Globo trouxe a informação de que, caso não haja rapidez na solução para hospedagem, o Brasil pode receber a formalização de um pedido de mudança de sede da conferência. 

No entanto, verificou-se que a cobertura prioriza a tensão entre o setor hoteleiro, o governo federal e os relatos de representantes de delegações internacionais, com declarações e posicionamentos entre a Secretaria Nacional do Consumidor, o Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA). Uma das matérias encontradas para esta análise ouviu um representante de uma ONG internacional ambientalista, que afirma temer que o cenário impossibilite a participação de países em desenvolvimento na discussão do financiamento climático.

O Estadão tratou dos desafios logísticos da conferência, como falta de leitos e alto preço cobrado das estadias, o que levaria delegações a reduzir o tamanho de participantes. Porém, apesar da infraestrutura ter problemas, a presidência do Brasil para o evento foi “muito bem vista” nas reuniões preparatórias para a COP realizadas em Bonn. O destaque dado para a visão da presidência reforça a ideia de que o problema da hospedagem é algo que tem menor peso diante das vantagens de trazer o evento para a Amazônia. Isso também pode ser refletido em matéria do UOL, que traz fala do presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, em Bonn, minimizando as dificuldades decorrentes dessa questão, afirmando que a “dimensão simbólica” do evento é mais importante. Essa ideia ignora os impasses econômicos e sociais existentes em Belém e que colocam em risco a participação popular e acessível nas discussões climáticas, pelos visíveis problemas logísticos e de infraestrutura, ressaltando a imagem que o país pode passar. 

Apenas uma reportagem do Estadão voltou-se para as dificuldades financeiras impedirem as participações ao ouvir um embaixador da Noruega, país que mais doa para o Fundo Amazônia, que afirma que os altos custos em Belém são motivo de preocupação, com risco real de que muitos países e representantes da sociedade civil não consigam arcar com os custos de participação. A matéria afirma que lideranças de outros países, como China, Alemanha e Reino Unido, têm expressado ao governo brasileiro temores sobre a infraestrutura para receber as comitivas oficiais e representantes da sociedade civil.

A Folha de S.Paulo informou sobre o atraso da plataforma de hospedagem da COP-30, e que países enviaram cartas expressando preocupação quanto às acomodações,  mas não recebem respostas adequadas do Brasil. Uma fonte ouvida pela reportagem, que representa organizações civis, comenta que a questão do alojamento também envolve inclusão, mas o comentário é breve. 

Outra matéria, também priorizando as polêmicas, relata que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou cada um dos grandes hotéis da cidade, pedindo dados detalhados sobre a evolução anual das tarifas e comparações entre os valores praticados na festa anual do Círio de Nazaré, e em resposta, o Sindicato dos Hotéis acusou o governo federal de querer fazer “imposição de preços”. 

A mídia alternativa expandiu a pauta para debater as consequências de uma possível ausência de atores-chave na tomada de decisões na conferência por conta dos altos valores. O portal Sumaúma, além de informar que os encontros fechados em Bonn levantaram dúvidas sobre a viabilidade da realização da COP em Belém e que países podem formalizar pedido para a mudança da sede, também lembrou que os preços em Belém são três vezes mais altos do que a média cobrada nas conferências passadas, podendo inviabilizar a participação dos países com menos recursos e de ativistas da sociedade civil.

Uma matéria do Brasil de Fato destacou como os problemas logísticos podem afetar ambientalistas e ativistas que não dispõem de financiamento, gerando incerteza sobre quem conseguirá participar. Ainda chama a atenção para o fato dos recursos estarem sendo empregados na faixa da cidade com infraestrutura já consolidada, ressaltando que os leitos provisórios não darão origem a habitações permanentes. 

A matéria traz o debate da falta de política habitacional para Belém ao detalhar que, ao mesmo tempo que é a segunda capital do Brasil com aluguel mais caro – com o risco de que o valor do aluguel siga alto após a conferência –, mais da metade da população da região metropolitana vive em favelas com ausência de sistema de esgoto e abastecimento de água, convivendo com o racismo ambiental. Este Observatório já identificou como as desigualdades estão presentes na cobertura preparatória da COP-30.

A escolha de Belém como sede da COP-30 representa um momento simbólico para o país. Ainda que os desafios logísticos possam acontecer em outras conferências e em outros países, é pertinente recordar que a capital é uma das que sofre com a emergência climática e com a injustiça ambiental. Essa realidade reforça a necessidade de atenção de autoridades para a cidade, não apenas para uma conferência – como o fato da capital do Pará estar “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento, para drenagem pluvial e urbanização de ruas, que são essenciais para minimizar alagamentos, como retrata reportagem do Infoamazônia em parceria com a Carta Amazônia, mas que foram paralisadas diversas vezes ao longo de quase três décadas. 

Mais do que evidenciar as capacidades de uma cidade sediar ou não um evento internacional, cabe sublinhar que as manifestações da sociedade civil são parte das COPs. O impedimento da participação em razão dos altos custos de acomodação é mais uma barreira impedindo um debate mais amplo do enfrentamento acerca da emergência climática. Do que adianta trazer uma COP para o Brasil se até mesmo os brasileiros estão sendo afastados da conferência? Afinal, esta COP é para quem?

* Jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Guerra que mata e faz  morrer: por que incluir conflitos armados no debate climático

Por Julia Weber* e Cláudia Herte de Moraes**

O debate climático internacional tem se concentrado em temas como desmatamento, emissões industriais e transição energética. No entanto, os conflitos armados também representam uma fonte relevante de emissões de gases de efeito estufa e devem ser considerados nas negociações climáticas multilaterais. A imposição da guerra de Israel contra a população palestina em Gaza chama a atenção tanto pelo volume de emissões gerado quanto pela complexidade da reconstrução.

Diante disso, a inclusão desse tipo de impacto no debate climático ganhou visibilidade com a recente missão humanitária internacional que chegou a Gaza por via marítima. A iniciativa envolve ativistas de diferentes países, entre eles nomes como Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila. A missão foi interceptada por Israel, evidenciando os  abusos e arbitrariedades das autoridades locais.

Greta Thunberg e seus colegas foram deportados. A jovem ativista, conhecida mundialmente por sua luta climática, passou a ser alvo de críticas por se manifestar em defesa da Palestina, “mas, na realidade, as causas andam intimamente ligadas”, conforme analisa Leo Sakamoto. Em sua coluna divulgada nas redes sociais do portal UOL, Sakamoto situa que a mudança climática pode ser considerada um tema urgente, mas é difuso, enquanto que falar contrariamente ao genocídio em Gaza é um tema silenciado. Desta forma chovem críticas à ambientalista sueca. A própria Greta Thunberg explicou que sua preocupação ambiental não é apenas para “salvar árvores”, mas que se importa com o bem- estar humano e planetário, afirmando que não há justiça climática sem justiça social.

A guerra mata inocentes e também ajuda ao declínio das condições ambientais da Terra. Segundo reportagem do portal “Um Só Planeta”, a ofensiva militar israelense em Gaza, entre outubro de 2023 e maio de 2024, foi responsável pela emissão de aproximadamente 281 mil toneladas de CO₂ equivalente. Esse volume supera as emissões anuais de mais de 100 países, conforme levantamento do “Social Justice and Ecology Secretariat”. De acordo com o estudo, as principais fontes dessas emissões foram os ataques aéreos, o deslocamento de tropas e o uso de equipamentos militares.

Além das ações militares, os impactos ambientais se estendem ao processo de reconstrução. Dados reunidos pelo portal “ClimaInfo” estimam que a reconstrução da infraestrutura de Gaza poderá gerar emissões superiores às de 135 países em um ano. O cálculo considera as atividades necessárias para reerguer cidades destruídas, incluindo o transporte de materiais, produção de cimento e geração de energia.

Esses aspectos revelam que os efeitos da guerra ultrapassam os limites da destruição imediata. Eles se projetam no ambiente e deixam marcas no território e no clima. Ao mesmo tempo, reforçam a compreensão de que seres humanos e natureza não estão desassociados, pois os impactos sobre um inevitavelmente repercutem no outro. Como lembra o pensador indígena Ailton Krenak, “a ideia de que a humanidade está separada da natureza é uma ficção moderna que tem custado caro ao planeta e à vida”.  Em contextos de conflito, a degradação ambiental e as condições de vida humana caminham lado a lado, demonstrando que é preciso considerar essas relações de forma integrada.

Sakamoto destaca que, segundo Greta Thunberg, o genocídio em Gaza aplica a destruição ambiental como arma de guerra, provocando perda de biodiversidade, contaminação da água, erosão do solo, destruição de terras agrícolas, e uso ainda mais intenso de combustíveis fósseis. Porém, o tratamento destas questões nos veículos de comunicação ainda é muito pontual, circulando apenas entre colunistas e portais não hegemônicos, como nesta repercussão na Pública. Chama a atenção, portanto, que grande parte da imprensa deixe de lado essa interseção entre clima e guerras, ações de poderosos que são totalmente inaceitáveis pelos danos aos direitos humanos, sociais e ambientais nos territórios afetados.

Discutir esta questão em fóruns como a COP 30, em Belém (PA), representa uma oportunidade para ampliar o entendimento da variável climática nos assuntos de segurança, geopolítica e desenvolvimento. Este tema deve fazer parte do debate público e contribuir para fortalecer a abordagem da justiça climática, conceito que tem ganhado espaço nas edições recentes das conferências. Para além disso, é necessário pensar em uma transição ambiental justa e que situe a dignidade da vida humana em todos os territórios. O respeito à diversidade deve orientar humanistas e ativistas em defesa da ação climática, da justiça e da paz. Também a comunicação precisa se pautar pela ética da sustentabilidade e da vida.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, bolsista do PET Educom Clima  E-mail: weber.julia@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Os povos no centro das decisões

Por Patrícia Kolling*

 “Não haverá futuro possível sem os povos indígenas no centro das decisões globais. Ignorar os povos indígenas é comprometer qualquer chance real de enfrentar a crise climática”, essa é a essência da primeira NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) indígena, uma decisão política elaborada na Pré-COP Indígena, um encontro que reuniu 30 organizações indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil, entre 2 e 5 de junho, em Brasília (DF).

O documento, conforme notícia, exige que os Estados-membros da Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheçam a proteção dos territórios indígenas como ação climática prioritária. Também defende a criação de zonas livres de exploração extrativista em terras indígenas e a incorporação dos saberes tradicionais como estratégia legítima de restauração ambiental.

Como o evento citado acima, outros tantos têm acontecido no Brasil para a organização da participação dos movimentos sociais na COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil, em novembro de 2025, em Belém, Pará. O site Amazônia Real destaca que os movimentos sociais e organizações da sociedade civil da Amazônia, da América Latina e do mundo têm protagonizado uma mobilização histórica para garantir que as vozes dos territórios mais afetados pela crise climática sejam ouvidas nos espaços de decisão do evento.  Além de serem ouvidos, eles exigem participar das decisões globais que estarão acontecendo durante o evento. 

Paralelamente, a conferência mundial acontecerá a Cúpula dos Povos rumo à COP30, com a participação de 700 entidades representando indígenas, ribeirinhos, quilombolas, população negra, juventudes periféricas. Mais de 15 mil pessoas são esperadas na Cúpula dos Povos. “Queremos discutir soluções reais para os problemas ambientais e sociais sem nos limitarmos ao debate técnico, como as relacionadas à transição energética justa ou infraestrutura de matriz energética” destaca Iury Paulino, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O diretor do MPEG (Museu Paraense Emilio Goeldi, Nilson Gabas Júnior, reforça que as comunidades tradicionais da Amazônia precisam ser ouvidas e participar ativamente das decisões. “Não dá para falar de meio ambiente nem reconhecer a biodiversidade sem falar das pessoas que moram na amazônia e ajudam a preservá-la”, destaca o pesquisador.

Além das atividades previstas no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, a Cúpula dos Povos também pressiona por metas climáticas mais ambiciosas e pelo fim da presença de lobistas dos combustíveis fósseis nas COPs . Essas pautas são complexas, e mais do que citadas precisam ser debatidas pelos veículos de comunicação jornalísticos. Grandes interesses estão em jogo, e falar em profundidade sobre o assunto exige coragem.

Como diz texto da Folha de S. Paulo, a Cúpula dos Povos cobra decisões eficazes para o enfrentamento da crise climática, além de retomar o protagonismo da sociedade civil.  

Enfim, espera-se uma COP diferente, e a imprensa, principalmente os veículos focados nas questões ambientais, tem destacado este grito dos povos da floresta para fazerem parte de forma efetiva das decisões mostrando, que são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Na grande imprensa, as vozes dos movimentos sociais ainda está tímida. Mas, ainda há tempo para que a imprensa, se prepare para cobrir o evento com a criticidade e complexidade necessária. Pela primeira vez o evento acontece em solo amazônico, o que já é diferencial, e os veículos de comunicação podem fazer uma cobertura que vá além das reuniões das grandes cúpulas e repercuta as pautas e reivindicações dos povos tradicionais.

* Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).