Crianças e adolescentes na pauta climática: a urgência de incluí-los nas políticas e debates da COP-30

Por Nadja Nobre*

A crise climática é um dos principais desafios globais da atualidade, mas seus efeitos não recaem de forma igual sobre todos. Entre os mais impactados, crianças e adolescentes frequentemente são invisibilizados ou pouco considerados nos espaços de negociações internacionais, como a Conferência das Partes (COP), acordos climáticos, fóruns e também nas políticas ambientais brasileiras.

Dados apresentados pela ANDI que fazem parte do relatório The Climate Crisis is a Child Rights Crisis (2021), do Unicef, mostram que mais de 1 bilhão de crianças, quase a metade de todas as crianças do mundo, vivem atualmente em países expostos a riscos climáticos. Além disso, a exposição a eventos extremos, como enchentes, ciclones, secas e ondas de calor, afeta de maneira desproporcional meninos e meninas, colocando em ameaça seus direitos à saúde, educação, proteção e participação. 

No Brasil, essa vulnerabilidade é ainda mais acentuada. Os grupos mais expostos a desastres climáticos são, majoritariamente, famílias lideradas por mulheres negras e com presença de crianças, conforme aponta estudo do Unicef. Estima-se que 8,3 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de risco no país, sendo que cerca de 2,1 milhões são crianças e adolescentes com até 14 anos de idade. O panorama é mais crítico na Região Norte, onde os menores de cinco anos correspondem a mais de 13% da população residente nessas áreas suscetíveis a desastres. 

À medida que nos aproximamos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que acontecerá em Belém (PA), o Brasil tem uma grande oportunidade e responsabilidade nas negociações globais, podendo liderar discussões estratégicas sobre financiamento para adaptação e mitigação, justiça climática e, sobretudo, garantir que os grupos mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, sejam incluídos nos debates e decisões. Mais do que uma oportunidade, trata-se de uma necessidade ética e política, especialmente para assegurar que as políticas ambientais integrem efetivamente essa faixa etária.

Com esse objetivo, a ANDI lançou recentemente o guia “Os direitos das crianças e dos adolescentes na pauta climática: guia para a cobertura jornalística”, de autoria de Aline Falco. A publicação busca apoiar profissionais da comunicação na abordagem da crise climática sob a perspectiva dos direitos de crianças e adolescentes, destacando como esse grupo é particularmente vulnerável aos seus impactos.

O guia está estruturado em quatro capítulos. Para começar, a autora apresenta informações essenciais sobre o histórico e o funcionamento das COPs, explicando como se dão as negociações e destacando a relevância do Brasil ao sediar a 30ª edição da Conferência das Partes. 

Na sequência, a publicação concentra-se em traçar um panorama sobre os principais instrumentos da política climática no Brasil, apontando avanços, desafios e o papel fundamental das políticas subnacionais e das ações locais. Afinal, as cidades são responsáveis por grande parte das emissões e, ao mesmo tempo, são vulneráveis aos seus impactos.

O guia aprofunda, então, a relação entre mudanças climáticas, infância e adolescência, propondo reflexões sobre o fato de que, embora crianças e adolescentes não sejam responsáveis pela crise climática global, são eles quem mais sofrem com a falta de medidas eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Essa seção também evidencia como os impactos climáticos se entrelaçam com questões de renda, gênero, raça e desigualdade.

O estudo “Mudanças climáticas e seus impactos na sobrevivência infantil” (2024), da Fundação Abrinq, também mostra como os impactos climáticos afetam de maneira mais profunda meninas e meninos que vivem em contextos sociais e econômicos desfavoráveis. Esses efeitos se sobrepõem a outros fatores, como pobreza, falta de acesso a serviços básicos e infraestrutura inadequada, ampliando a vulnerabilidade dessa população. Além disso, o mesmo estudo revela que as crianças nascidas em 2024 estarão expostas, ao longo da vida, a riscos significativamente maiores devido ao aquecimento global. Se o planeta sofrer um aumento médio de 3°C, essas crianças poderão vivenciar até duas vezes mais incêndios e ciclones, três vezes mais enchentes, quatro vezes mais quebras de safra e até cinco vezes mais períodos de seca do que aquelas que nasceram na década de 1970. A vulnerabilidade a doenças tropicais, como dengue, malária e leishmaniose, também será maior, já que essas enfermidades tendem a se tornar mais frequentes com o avanço das alterações climáticas.

Por fim, o guia analisa criticamente a presença, e, na maioria das vezes, a ausência de referências à infância e adolescência nos principais acordos e documentos internacionais sobre mudanças climáticas. Mapeia também iniciativas e movimentos que buscam incluir as vozes dessa faixa etária nas negociações globais, não apenas como vítimas, mas também como sujeitos políticos com direito à participação.

Com essa publicação, a ANDI contribui para ampliar e qualificar a cobertura jornalística sobre as mudanças climáticas, especialmente ao articular a pauta ambiental com a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. E destacar como a crise climática impacta de forma desproporcional esse grupo social é importante, especialmente agora, com a realização da COP-30 no Brasil.

Portanto, é fundamental e urgente que os profissionais de comunicação, a sociedade civil e formuladores de políticas públicas reconheçam e integrem as especificidades e vulnerabilidades desse grupo nos debates e na construção de soluções climáticas.

*Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com

Central da COP: quando futebol vira estratégia de comunicação climática

Imagem: Reprodução do site Central da COP

Por Júlia Gonsalo de Carvalho* e Cláudia Herte de Moraes**

A menos de seis meses da COP30, sediada em Belém (PA), o Observatório do Clima lançou a plataforma Central da COP. Por meio da linguagem do futebol, o projeto busca aproximar a população brasileira dos temas centrais da conferência climática da ONU. A iniciativa aposta na cultura popular como ferramenta de engajamento, com uma estética esportiva e metáforas típicas de narrações do futebol: rankings, placares, torcida, camisa 10 e até uma “Copa do Mundo da Ambição Climática”.

A proposta carrega um importante valor educomunicativo: traduzir, de forma acessível, os conceitos, riscos e decisões que moldam a agenda climática global. A plataforma combina linguagem didática com uma abordagem crítica, promovendo conteúdo sobre justiça climática, licenciamento ambiental, exploração de fósseis, desmatamento e educação climática. A comparação com o futebol não é apenas estética; é uma estratégia para inserir a questão climática no cotidiano, tornando-a mais compreensível e próxima de públicos que historicamente têm menos acesso à informação científica.

Observando o alcance da campanha, constata-se que ainda é limitado. A cobertura midiática sobre o lançamento da Central da COP permanece restrita a veículos especializados, como O Eco, e canais institucionais ligados ao terceiro setor, a exemplo do ISA. A ausência de repercussão nas mídias tradicionais, especialmente em canais mais acessados, evidencia um desafio comum às iniciativas de comunicação ambiental: a dificuldade de sair dos espaços já engajados. Por isso a importância de ações que buscam furar as bolhas da informação ambiental, de forma criativa. 

Além disso, a ideia da Central da COP é promissora ao colocar a educação climática como protagonista. Ao assumir que o acesso à informação é condição para a participação social, o projeto reconhece que a educação deve estar no centro das estratégias de enfrentamento à crise climática, como tratam ativistas do The Climate Reality Project Brasil, com o texto É o camisa 10 do clima. Essa concepção dialoga com a segunda proposta mais votada na 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente (5ª CNMA), que defende uma educação ambiental decolonial, contínua, crítica, integrada aos territórios e conectada aos saberes tradicionais e à justiça climática.

No entanto, para que iniciativas como a Central da COP cumpram seu papel estratégico, é preciso avançar em sua difusão. Não basta produzir conteúdos acessíveis se eles não chegam às comunidades escolares, aos territórios periféricos e aos grupos historicamente excluídos dos debates ambientais. A circulação da informação precisa ser articulada de forma ampla, por meio de redes educativas, canais populares de mídia, projetos de extensão universitária e ações territoriais. Mais do que comunicar, é necessário dialogar. Infelizmente parece que há pouco interesse em veículos de comunicação de grande alcance para esse diálogo.

 A COP30 é uma oportunidade para o Brasil reafirmar seu papel na diplomacia climática, mas também para fortalecer uma comunicação que eduque, mobilize e envolva as comunidades mais afetadas pela crise ambiental. A popularização dos debates climáticos não deve ser vista como um esforço secundário, mas como parte fundamental da resposta à emergência climática. Sem acesso à informação qualificada, não há participação cidadã efetiva. Sem engajamento, a justiça climática permanece restrita ao discurso, distante da realidade de quem mais sofre com os efeitos da crise. A falta de compromisso com a pauta ambiental ainda é um dos principais entraves para uma “virada no placar” da efetiva ação climática.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Pesquisa  (FIPE), E-mail: julia.gonsalo@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Belém se transforma para quem? A cobertura jornalística que evidencia as desigualdades

Eloisa Beling Loose* e Ângela Camana**

Desde que Belém do Pará, na Amazônia brasileira, foi anunciada como sede na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), no fim de 2023, a imprensa nacional voltou-se para cobrir os preparativos deste megaevento. Não só porque o debate climático é uma das questões urgentes que move a comunidade internacional, mas porque sediar uma cúpula com chefes de Estado de mais de 100 países gera responsabilidade e grande visibilidade.

Seis meses antes do evento, as notícias sobre as discussões climáticas e o contexto estrutural do evento se intensificam. Em meio aos vários discursos que atravessam a COP,  já que há interesses políticos e econômicos diversos disputando esse holofote, alguns veículos estão abordando o quanto as populações que há muito tempo já sofrem processos de vulnerabilização estão, mais uma vez, sendo colocadas em segundo plano.

Problemas crônicos ganham uma oportunidade de serem apresentados porque os investimentos públicos na COP-30 estão atrelados a um suposto legado para os cidadãos que residem em Belém. Tal perspectiva é comum para justificar o grande volume de dinheiro e a celeridade de decisões, pouco ou nada democráticas, que tem como meta o encerramento antes do começo da cúpula, quando muitos visitantes de todo o mundo terão suas primeiras impressões sobre Belém.

Um exemplo recente é a reportagem publicada na Agência Brasil no dia 2 de maio sobre os desafios enfrentados pelos moradores que vivem nas ilhas, sem acesso à saneamento básico e água potável. “Diferentemente da área continental da cidade, que na sua maioria é abastecida pela rede de distribuição ligada aos mananciais da Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém, como os lagos Água Preta e Bolonha, grande parte da região insular depende de sistemas de distribuição independentes. A criação de infraestrutura também depende de um planejamento ambiental”, destaca a repórter Fabíola Sinimbú, informando que a parte insular não foi contemplada nas obras da COP-30, mas correalizadores farão a macrodrenagem de 13 canais.

Denúncias sobre o agravamento das injustiças na cidade foram feitas pelo Brasil de Fato, em 24 de abril. A notícia afirma que ter encontrado “aumento da especulação imobiliária, violações do direito à moradia, mudanças arbitrárias no plano diretor e denúncias de trabalhadores submetidos a condições insalubres nos canteiros de obras” da COP-30.

Em Sumaúma, texto publicado neste dia 5 de maio anuncia já no título: “Belém corre para oferecer hospedagem aos visitantes da COP, mas não garante moradia aos próprios habitantes”. A reportagem desvela como a cidade é composta por áreas que recebem atenção (e recursos) de modo díspar, o que aprofunda as desigualdades históricas de uma capital e região metropolitana em que mais da metade da população não tem acesso à moradia adequada, vivendo em favelas, locais sem regularização fundiária e na ausência de sistema de esgoto, abastecimento de água e/ ou coleta de lixo. Não é trivial que, como aponta a publicação, as pessoas que habitam tais regiões sejam sobretudo “Indígenas, Ribeirinhos, pessoas negras e refugiados da Floresta”. 

A imprensa hegemônica local, no entanto, não se furta de celebrar os anúncios de novas vagas no setor hoteleiro, sem abrir espaço para a crítica a respeito da distribuição desigual de benefícios que a chegada da COP-30 escancara. As notícias sobre a abertura de leitos e ampliação da infraestrutura de coleta de esgoto não questionam quem são os reais beneficiários destas iniciativas – nem a razão pela qual por tanto tempo se vive em Belém em tal vulnerabilidade. 

Neste sentido, é o jornalismo alternativo que assume uma postura crítica às obras e políticas de habitação e infraestrutura impulsionadas pela COP-30, questionando a efetividade do direito à cidade, isto é, a habitar e participar da vida no território urbano. E o faz sem ceder ao lugar simplista que, em reiteradas publicações “críticas” nas redes sociais oriundas do sudeste, questionam a capacidade de Belém receber um evento deste porte, reproduzindo o colonialismo interno. 
São também veículos como o Tapajós de Fato que alertam que o que está em jogo não são apenas as transformações na cidade, mas a garantia de territórios e de direitos de comunidades tradicionais e historicamente vulnerabilizadas por um conjunto de políticas que favorecem o avanço de indústrias extrativas e grande obras. É nestes espaços midiáticos que reside a possibilidade de acompanharmos as contradições deste estado, que vão muito além dos desafios urbanísticos ampliados pela COP-30.

*Professora do Departamento de Comunicação da UFRGS. Coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

**Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com

Tragédia no RS: jornalismo deve abordar causas e conexões entre eventos climáticos extremos

Crédito: Lauro Alves/SECOM

Por Débora Gallas* e Janaína C. Capeletti**

Eventos climáticos extremos estão acontecendo com cada vez mais frequência no Brasil e no mundo. A situação trágica que ocorre no Rio Grande do Sul trouxe para o vocabulário de jornalistas, autoridades e população expressões como crise climática, refugiados climáticos e ações de mitigação e adaptação.

A comoção do país ao assistir pela televisão e redes sociais um estado praticamente engolido pelas águas está promovendo uma importante reflexão, que vinha sendo adiada, apesar de reiterados alertas de cientistas e de ambientalistas.

Neste debate, o jornalismo tem uma importante função ao aprofundar o tema e não apenas cobrir as consequências. Nos últimos dias observa-se uma cobertura factual e com algumas análises sobre as políticas assumidas pelo Executivo e pelo Legislativo. Contudo, nota-se que as causas das enchentes no Rio Grande do Sul recém começaram a ser exploradas.

Especialistas em meio ambiente estão acostumados ao conceito de aquecimento global de origem humana. Sabe-se que o aumento dos gases do efeito estufa é resultado, majoritariamente, da queima de combustíveis fósseis e de emissões originárias do desmatamento. O aquecimento do planeta tem como consequência uma maior evaporação de água nos oceanos, o que cria os eventos meteorológicos extremos. Mas como esta questão está sendo apresentada pelo jornalismo?

Em uma breve análise do que está sendo publicado em veículos hegemônicos e não hegemônicos a respeito do RS nos últimos dias, verificamos que o portal Brasil de Fato, com a matéria O que o desmatamento da Amazônia tem a ver com as cheias no Rio Grande do Sul? foi um dos que conectou diretamente o desmatamento na Amazônia às enchentes no RS, apresentando três pesquisadores do tema como fontes, que explicam as consequências do desmatamento na Amazônia e o impacto no processo de regulação climática, provocando mudanças nos padrões de chuvas em regiões distantes.

Mesma iniciativa foi observada em veículos sediados na Amazônia, como Vocativo e Amazônia Real. Esse interesse sinaliza que os eventos do Rio Grande do Sul podem catalisar coberturas realizadas a milhares de quilômetros de distância, porém imprescindíveis para que o público desses veículos compreenda a complexidade da crise climática.

Já na cobertura da BBC Brasil, que também ouve especialistas, aborda as especificidades dos campos nativos que predominam no Rio Grande do Sul para avaliar as causas do imenso impacto sofrido pelo estado. Reportagem publicada em 15 de maio fala de como a destruição do bioma Pampa através do monocultivo de soja e da silvicultura também contribuiu para fragilizar a proteção do estado às fortes chuvas, já que a vegetação nativa contribuiria para a drenagem da água, por exemplo.

Com isso, também vemos que ainda há necessidade de o jornalismo expandir seu vocabulário sobre danos ambientais para além das ideias associadas à perda de biomas florestais, como “desmatamento”, já consolidadas em coberturas anteriores, e incluir a perspectiva mais ampla de perda de vegetação nativa. Ou seja, referir-se à supressão de todos os tipos de vegetação encontradas na megabiodiversidade brasileira. Isso permite que toda ameaça aos biomas – da Amazônia ao Pampa, que é campestre – possa ser compreendida como um evento com consequências diretas na vida das pessoas.

Porém, em meio ao desastre que devasta o RS, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado colocou em pauta a votação (e depois adiou) do projeto de lei 3.334/2023 que permite a redução da reserva legal em imóveis rurais localizados em municípios da Amazônia Legal. O site da CNN Brasil noticiou Em meio a desastre climático no RS, Senado vota projeto que reduz reserva legal na Amazônia, informando na sequência Senadores adiam votação na CCJ de projeto que reduz reserva legal na Amazônia. O portal O Eco também publicou a matéria Por eventualidade, projeto que reduz para 50% Reserva Legal na Amazônia sai de pauta no Senado.

Nota-se que embora estes últimos textos alertem para os pontos nefastos do projeto de lei, a oportunidade de relacionar as consequências do afrouxamento da legislação de proteção ambiental à crise atual vivida no Sul do Brasil não foi aproveitada. É necessário que o jornalismo inclua em sua cobertura o gancho que vem da política para seguir acompanhando e comunicando ao público sobre os potenciais impactos dessas decisões nos biomas brasileiros e nas populações que os habitam.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: debora.gallas@gmail.com.

**Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Acerca do cavalo no telhado: circulação e desinformação noticiosa

Crédito: GloboNews/Reprodução

Por Ada C. Machado da Silveira* e Mauricio de Souza Fanfa**

A cobertura noticiosa sobre os eventos extremos envolvendo o clima no Sul do Brasil no período de 30 de abril até o presente momento é expressiva. A emoção que acompanha os relatos considera as enchentes, responsáveis por desalojar milhares de pessoas, produzir mortes e desaparecimentos, além de abalar infraestruturas públicas (como prédios diversos, inclusive hospitais, pontes e estradas). Em meio a tudo, despontou o acontecimento da localização através de um sobrevoo de cobertura noticiosa, de um cavalo imobilizado sobre um telhado em meio à enchente que o rodeava por todos os lados.

Durante vários dias, observou-se a mobilização de agentes públicos e privados que foi deslocada para o acompanhamento da situação do cavalo, nomeado Caramelo, como uma testemunha do drama que perdura por semanas. Ela foi acompanhada pelo espanto geral em torno da contingência que fez com que um cavalo fora parar no telhado, dado que “cavalo não sobe escada”. Noticiaram o resgate o Correio Braziliense, o Correio do Povo, o g1, entre outros portais de notícias, como a CNN Brasil.

Em um mundo que pode dar adeus ao cavalo, tendo em vista a proliferação de meios de transporte abastecidos por derivados de petróleo, despontou a comoção midiática por um cavalo em meios às águas.

Como referente afetivo da liberdade, honra e galhardia, o cavalo possui a simpatia dos habitantes do Estado do Rio Grande do Sul, uma vez que está presente na iconografia e na memória popular. Caberia ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, manifestar o caráter emblemático da cena do cavalo Caramelo no telhado.

Sua resiliência, após dias ilhado e em pé, sem água ou comida, animou a resistência à intempérie. O diário Zero Hora de Porto Alegre registrou a manchete mencionando o caráter aguerrido e resiliente da população afetada.

O Portal g1 evidenciou a particular relação do Rio Grande do Sul e de seus habitantes com os cavalos. O jornal O Tempo igualmente dedicou-se a frisar o caráter emotivo do resgate de Caramelo. O cavalo Caramelo gerou a disputa de influencers, políticos e instituições.

Como relíquia afetada em meio a tragédia colossal, e que ainda segue em curso, não permitiu esquecer a perda de outros cavalos. O Portal do Holanda registrou a morte de um animal preso e submerso com água até o pescoço no mesmo município de Canoas.

Tais referências, uma com pequena repercussão, e a outra com impacto geral, remetem à condição popular desta espécie junto aos gaúchos. O IBGE registra em 2022 que há 492 mil cavalos vivendo no Rio Grande do Sul, fazendo do estado o terceiro com o maior número absoluto do Brasil.

O resgate de Caramelo surge como um lembrete de que um desastre atinge todos os seres que vivem no espaço, não apenas os humanos. Tal aspecto, no entanto, foi motivo para debates, como a posição sustentada por muitos de que haveria sensacionalismo na exploração da condição do cavalo, em detrimento da condição dos seres humanos. Esta foi a opinião expressa pelo líder do Partido Comunista Operário, Rui Costa Pimenta, no Canal 247.

Inicialmente o debate estabeleceu-se na definição de gênero do cavalo, se macho ou fêmea. Posteriormente, após o resgate pelo Corpo de Bombeiros e seus veterinários do Estado de São Paulo, houve a definição de ser um macho e, daí, o nome de Caramelo ficou estabelecido.

A propriedade do cavalo foi requisitada por muitos e, igualmente, várias celebridades dispuseram-se a adotá-lo. Foi o caso da revista Quem e do Portal Terra.

A circulação noticiosa envolvendo a presença do cavalo no telhado ganhou o mundo, registrando-se tanto na mídia corporativa como nas mídias sociais. Foi igualmente notável a repercussão na plataforma X (antigo Twitter), especialmente a presença de celebridades e figuras públicas como o presidente Lula, a primeira dama Janja e os youtubers e empresários Felipe Neto e Whindersson Nunes.

A lista com o número de tweets que podem ser filtrados da plataforma X  é longa. Apresentamos a repercussão mais numerosa:

  • 176 mil (meme brincando com como o programa Fantástico da Tv Globo mostraria o cavalo)
  • 108 mil (felipe neto querendo adotá-la)
  • 68 mil (meme sobre demonstrar emoção com o resgate)
  • 60 mil (repercutindo Janja e Lula)
  • 58 mil (“esse cavalo será símbolo da determinação do estado do rio grande do sul”, podcast sobre o Grêmio)
  • 56 mil (Janja)
  • 55 mil (republicando charge)
  • 45 mil (Janja x Whindersson)
  • 43 mil (“se você não fica feliz em ver um animal sendo salvo também, você não aprendeu nada nessa vida”)
  • 37 mil (Lula)

O vídeo mostrando Janja indo até Lula durante uma coletiva de imprensa para comunicá-lo sobre o resgate do cavalo recebeu 60 mil curtidas. Outro vídeo postado pela primeira-dama, comunicando em seu perfil o resgate do cavalo, recebeu 56 mil curtidas, agradecendo a Deus e aos voluntários envolvidos. Ele foi replicado pelo diário da capital nacional Correio Braziliense.

O Portal Poder 360 expressou seu desagrado à manifestação da primeira dama do Brasil. E foi repercutido pela revista Veja.

Outros tweets expressam a emoção com o resgate: “Tem gente achando ruim de ver essa operação pra salvar ele. Se você não fica feliz em ver um animal sendo salvo também, você não aprendeu nada nessa vida”, afirma Matheus, com 43 mil curtidas. “O cavalo Caramelo de Canoas é um guerreiro! Será patrimônio histórico brasileiro! Esse cavalo será o símbolo da determinação do estado do Rio Grande do Sul” expressa Camargo, recebendo 58 mil curtidas.

Felipe Neto mobilizou esforços para o resgate e demonstrou disposição em adotá-lo.

A repercussão internacional ganhou espaço entre a calamidade social e ambiental. O acontecimento igualmente convocou a mídia brasileira a reconhecer, como o Portal Terra ou o Portal g1. A Tv 247 dedicou-se a comentar o caso, assim como a CNN Brasil.

Até a Suécia, onde a mobilização climática conta com a figura de Greta Thunberg, dedicou-se a registrar, no diário de maior circulação, o Dagens Nyheter, o depoimento do coronel Claudio Goggia, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, sobre o resgate de Caramelo.

A preocupação com os animais nos faz lembrar de nossa responsabilidade com tais formas de vida: ainda que precárias, as operações montadas têm condições de resgatá-los. Caramelo converteu-se, assim, em ícone da crise climática a partir do drama no Rio Grande do Sul.

* Professora titular da Universidade Federal de Santa Maria. Integra seu Programa de pós-graduação em Comunicação e colabora no Mestrado profissional em Comunicação e Indústria Criativa da Universidade Federal do Pampa. Pesquisadora do CNPq. Lidera o Grupo de pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras. E-mail: ada.silveira@ufsm.br.

** Graduado em Comunicação Social – Produção Editorial, com mestrado e doutorado em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria. Realizou pós-doutorado na Sodertorn University, Suécia. E-mail: maufanfa@gmail.com.

A inserção dos refugiados e deslocados climáticos na cobertura da catástrofe no RS

Crédito: Isabelle Rieger/Sul21

Por Eloisa Beling Loose* e Cláudia Herte de Moraes**

As enchentes severas em diferentes municípios gaúchos provocaram uma fuga em massa. Muitos gaúchos tiveram que abandonar suas casas. Impossível não se comover com as imagens de desabrigados e desalojados, com poucos pertences, carregando crianças, animais domésticos e o que mais pudesse ser levado nas mãos diante do caos instalado. Para onde ir? 

A situação vivenciada por grande parte da população atingida, transmitida por canais de comunicação diversos, acabou trazendo à tona a expressão “refugiado climático”. O repórter Juliano Castro, da RBS, foi um dos primeiros a trazer essa questão para a cobertura das enchentes na televisão. Depois disso, muitos outros jornalistas e comentaristas colaboraram para popularizar a ideia de que, se não fosse a crise climática, essas pessoas não teriam que deixar suas casas.

O Nexo trouxe este debate, indicando que o uso do termo pode ser uma forma de clamar pela atenção ao desafio da emergência climática, que passa a ser cada vez mais presente na vida de milhões de pessoas no planeta. 

Na cobertura da imprensa, ao longo dos últimos dias, pode-se observar que tanto as imagens como a referência ao deslocamento humano são destacados. G1, Uol, Folha de S.Paulo e outros veículos enfatizaram a questão em seus títulos. As cidades foram abandonadas porque foram inundadas e/ou ainda apresentavam riscos de isolamento, desabastecimento, dentre outros. A imagem de “cidades fantasmas”, como foram retratadas Porto Alegre  e Eldorado do Sul,  reforçam o efeito do deslocamento massivo.

Há uma diferença entre deslocados e refugiados climáticos/ambientais: os primeiros seriam aqueles sujeitos à migração forçada por catástrofes climáticas, mas que não chegaram a atravessar fronteiras internacionais; já os refugiados são aqueles que, motivados pela mesma situação, são obrigados a deixar seu país de origem. A situação dos refugiados climáticos está inserida no Direito Internacional, com regulação específica e uma agência da ONU dedicada ao tema, a ACNUR. Juridicamente, a expressão “refugiado” não deve ser usada no caso da situação vivenciada pelos gaúchos. Ademais, é preciso ter cuidado para não banalizar o uso, já que a saída temporária das casas não é o mesmo que  não conseguir retornar para o lugar em que se vivia devido às consequências geradas pelas chuvas fortes.

No entanto, sob o ponto de vista do jornalismo, faz  sentido nomear essa consequência das enchentes com o adjetivo climático, realçando a conexão entre a intensificação das mudanças climáticas e a maior frequência dos eventos extremos. Além disso, dar visibilidade ao números de desabrigados e desalojados revela parte da dimensão da tragédia, já que ser obrigado a deixar o lugar que se vive, para além dos prejuízos materiais, traz perdas imateriais, de memórias, pertencimento e convívio, que são imensuráveis.

A crônica da jornalista Juliana Bublitz, de ZH, descreve os momentos em que os moradores de classe média da capital Porto Alegre são avisados sobre a urgência da evacuação no dia 6 de maio. A cena é de estranhamento, com ruas lotadas, impaciência, insegurança, medo, incerteza. O relato lembra o sentido de estar fora de seu lugar, traz a dimensão humana do desastre que se transfigura em tragédia diante de fatores agravantes, como a falta da manutenção do sistema de bombas que retiravam a água da cidade. Contudo, é sempre bom ressaltar, as classes vulnerabilizadas tendem a sentir esse impacto de forma mais aguda e prolongada, por não terem as mesmas condições socioeconômicas para lidar com os efeitos em cascata provocados pela eclosão do desastre.

A análise de Leonardo Sakamoto no UOL, no mesmo dia, é direta: “Não temos guerra, mas teremos cada vez mais refugiados ambientais”. Ele afirma: “tudo o que tem acontecido, ocorrido, essas pessoas mortas, ilhadas, desaparecidas, desabrigadas, e esses refugiados ambientais. [Isso] que a gente tem que cravar. O pessoal fala ‘o Brasil não tem refugiados, tragédia, vulcão, terremoto, guerra’. Tem sim!”.

O resultado dos eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul é desolador. Levando-se em conta um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental, o engajamento, pensamos que há pertinência de trazer a referência da urgência e da relevância dos fatos. Desta forma, o jornalismo demonstra sua função social e política na sociedade. Neste sentido, usar o termo refugiado climático pode ser um caminho para evidenciar a conexão com o colapso do clima. Isso aparece na reportagem do Intercept Brasil: “Segundo números da Defesa Civil, divulgados na manhã desta quarta-feira, 8, 95 mortes foram confirmadas, e há 128 pessoas desaparecidas. Mais de 158 mil gaúchos precisaram deixar suas casas por causa das enchentes que assolam o estado. Nove mil só na capital, Porto Alegre. Mais de 66 mil pessoas estão em abrigos espalhados pelos 414 municípios afetados – mais de dois terços do estado. São os chamados refugiados climáticos: pessoas submetidas a um deslocamento forçado por conta de um evento climático extremo que coloca em risco sua existência.”

No dia 8 de maio, em função da calamidade gaúcha, um projeto de lei foi apresentado pedindo a definição da condição de “deslocado interno por questões climáticas”, como informa Sakamoto. A proposta do deputado pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) diz que “Entende-se como deslocado interno por questões climáticas, qualquer pessoa, residente no Brasil, forçada a deixar seu habitat tradicional, temporária ou permanentemente, por causa de uma perturbação ambiental acentuada, desencadeada ou não por terceiros, que comprometam sua existência e/ou afete seriamente sua qualidade de vida”. O objetivo desta mudança é facilitar o acesso a políticas públicas, em especial ao financiamento da casa própria no programa Minha Casa, Minha Vida. A questão foi repercutida no UOL, por Sarah Moura. no dia 9 de maio.

Assim, embora o termo siga em discussão nos organismos internacionais de Direitos Humanos para uma definição aceita para fins jurídicos, na esfera do debate público e diante da calamidade e do sofrimento humano, acreditamos que o uso das expressões refugiado climático ou ambiental é uma forma de o jornalismo visibilizar algumas consequências humanas que nem sempre aparecem em meio à cobertura a partir dos números. Quem sabe, ao pensarmos no que sustenta a designação de um deslocado ou refugiado climático, possamos recordar que o objetivo maior de uma Nação é  dar condições dignas de vida e segurança ao seu povo. E sem cuidado ambiental isso não é possível.

* Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

RS embaixo d’água: observações neste início da cobertura do desastre

Fotografia: Isabelle Rieger

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose **

Nesta semana estamos acompanhando a cobertura da imprensa sobre mais um desastre que assola o estado do Rio Grande do Sul. Chuvas extremas provocaram alagamentos, aumentaram o volume dos rios e encharcaram encostas. A cidade de Santa registrou o maior volume de chuva no mundo nesta quarta-feira, com Bento Gonçalves, Santa Cruz do Sul e Soledade também presentes no topo do ranking, conforme dados do site Ogimet. Na mesma noite, do dia 1º de maio, o governador Eduardo Leite decretou estado de calamidade pública. Mais de 110 municípios foram atingidos; alguns deles, no Vale do Taquari, ainda se recuperavam da cheia de setembro de 2023, considerada a maior em, pelo menos, 150 anos.

Enquanto a chuva cai sem parar, a imprensa busca, em tempo real, dimensionar os impactos do que esse fenômeno climático extremo significa no cotidiano das pessoas. No feriado do Dia do Trabalhador, o Jornal do Almoço trouxe um panorama de diversas cidades atingidas pelas cheias, relatando, principalmente, as dores daqueles que tiveram que deixar suas casas e perderam tudo o que tinham. Se, por um lado, os testemunhos aproximam os telespectadores da situação e podem ser importantes impulsionadores de doações e pressão pública por resposta emergencial, por outro, podem sobrepor outras questões importantes. Para além da necessidade de empatia dos profissionais que entrevistam os afetados, pessoas em situação de alta vulnerabilidade, é preciso entender qual o propósito de tal cobertura. Quem, afinal, beneficia-se com tamanha exposição? Quem mais poderia ser ouvido? É possível reportar o desastre de outra forma? 

Também reforçamos a urgência de desnaturalizar os desastres. De forma geral, os gatilhos que desencadeiam as tragédias são tidos como os causadores. A imprensa reproduz que as chuvas matam, provocam destruição, causam estragos. Contudo, é importante pontuar que o risco de desastre decorre de uma articulação entre as ameaças naturais, que estão sendo intensificadas em magnitude e frequência pela emergência climática, e a vulnerabilidade, decorrente de aspectos sociais, econômicos e culturais. O desastre não ocorre apenas em razão de uma chuva extrema, mas também porque há ações humanas que colocam pessoas em situações frágeis, como o valor da moradia em espaços seguros e a falta de medidas preventivas ou de investimento na adaptação das construções diante dos novos cenários. Culpar as chuvas ou os temporais é um discurso que desvia o olhar dos problemas estruturais das nossas cidades e do que entendemos por desenvolvimento.

A cobertura de desastres, especialmente este com extensão e impactos inéditos, é um grande desafio. A informação correta e atualizada sobre a situação dos resgates, abrigos e fornecimento de insumos básicos, como água e alimentos, assim como de novos alertas, tem sido realizada de forma incessante por boa parte da imprensa gaúcha. A programação habitual foi suspensa para orientar a população sobre as prioridades de cada dia, auxiliar na gestão da resposta e desfazer boatos e outras formas de desinformação que geram pânico e prejudicam o trabalho de manter as pessoas a salvo de perigos.

Além disso, os jornais locais têm priorizado relatar a atuação imediata do governo – no  âmbito municipal, estadual e federal, diante dos efeitos desse evento extremo. É crucial manter a população atualizada neste momento de calamidade, no entanto, uma abordagem que se limita a apresentar os fatos de forma simplista e factual não oferece aos cidadãos uma compreensão completa das reais causas da tragédia na qual estão submetidos e das estratégias possíveis para enfrentá-las. 

É essencial que o jornalismo local também questione sobre o andamento do plano de enfrentamento do governo para prevenção, adaptação e mitigação aos efeitos das mudanças climáticas. Na matéria “Em meio à tragédia no RS, Eduardo Leite e deputado do PSOL discutem por orçamento destinado à Defesa Civil”, O Globo repercutiu as críticas feitas pelo deputado estadual da oposição Matheus Gomes (PSOL) ao governador Eduardo Leite (PSDB) sobre o baixo investimento estadual no enfrentamento da crise climática. Para o ano de 2024, o Rio Grande do Sul possui um orçamento de menos de 0,2% para enfrentar eventos climáticos. Apenas R$ 115 milhões foram investidos pelo Governo Leite nessa área, de um valor total de R$ 83 bilhões. Desse valor, somente R$ 50 mil foram destinados para a Defesa Civil. 

Vale lembrar ainda que a flexibilização das leis ambientais vai na contramão das ações de prevenção e mitigação de acontecimentos como esse. Mesmo que os tomadores de decisão reforcem o discurso que não seja hora de apontar culpados, justificando que é preciso salvar vidas e restabelecer os serviços básicos para não colapsar as cidades, a cobertura não pode silenciar sobre as decisões que tornaram a população gaúcha mais vulnerável às consequências climáticas.

No contexto atual, é inaceitável que o jornalismo trate eventos extremos como uma mera ameaça natural. O alto impacto dos desastres nas cidades é também uma consequência da falta de planejamento governamental na gestão da emergência climática. Na cobertura pós-desastre, os jornalistas devem ser mais cautelosos ao apontar o microfone para o rosto das vítimas e optar por direcioná-lo mais incisivamente ao governador (e outras autoridades competentes), buscando questioná-lo sobre o andamento de planos de curto, médio e longo prazo de adaptação e mitigação aos efeitos das mudanças climáticas.

Um último aspecto que destacamos é a pouca visibilidade da ligação entre desastres e mudanças climáticas. Embora alguns especialistas sejam entrevistados, como foi o caso do pesquisador Francisco Aquino na cobertura do dia 1º de maio no Jornal do Almoço, a mensagem deve ser consistente e não pontual.  O ponto de partida dos impactos hoje presenciados é a escolha por um sistema socioeconômico que explora a natureza em razão de benefício de curtíssimo prazo para alguns poucos, que ignora a finitude dos recursos e suas externalidades negativas. É essa forma de viver, apresentada como a única possível, que não deve ser esquecida quando um novo desastre eclode.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A repercussão do prêmio Goldman para liderança indígena do Tapajós

Imagem: Reprodução da notícia no jornal Folha de S. Paulo.

Por Ângela Camana*

Nesta semana, os principais jornais do Brasil e do mundo estamparam em suas páginas a foto de Alessandra Korap Munduruku: na terça-feira (dia 25) a liderança do Tapajós recebeu, em São Francisco, nos Estados Unidos, o prêmio Goldman, conhecido como o “Nobel do Ambientalismo”. A imprensa brasileira narra a conquista como um reconhecimento da luta de Alessandra Munduruku e destaca as articulações que recentemente impediram as atividades da mineradora Anglo American no território Munduruku.

À Folha de S. Paulo, Alessandra argumentou: “dizem que ganhamos uma batalha contra uma poderosa mineradora. Mas não achamos ela poderosa. O que é poderoso para nós são os nossos rios, nossas terras, nossos espíritos”. É impactante perceber como as declarações da premiada convocam os grandes portais a reconhecerem outros entes e escalas de importância no mundo, algo ainda raro nestes espaços. Além disso, em suas entrevistas, Alessandra destaca o caráter coletivo deste prêmio e sempre remete aos esforços de seu povo e daqueles que a antecederam na defesa do território na Amazônia – algo que, no mínimo, desestabiliza um jornalismo acostumado a perfis laudatórios centrados em uma única personagem quando de grandes vitórias.

Passados 100 dias do início do Governo Lula, como este Observatório já repercutiu, o Prêmio Goldman tem se mostrado um excelente gancho para a retomada da pauta das demarcações de terras indígenas – ainda mais no momento em que ocorre a 19ª. Edição Acampamento Terra Livre em Brasília. A expectativa é que, ainda nesta semana, haja a homologação de novas áreas.

Bem que seja um momento de celebrar mais este reconhecimento da trajetória de Alessandra Korap Munduruku e das lutas dos povos do Tapajós por seus territórios, vale mencionar que a liderança também é frequente nas páginas policiais, visto que sofre ameaças constantes. Fica a expectativa de que o bom jornalismo não se exima na cobertura das reivindicações dos povos indígenas – e não restrinja tais pautas aos momentos de premiações ou, pior, violências.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.


Cem dias depois, o que diz o jornalismo sobre a política ambiental do governo Lula

Alto Alegre (RR), 10/02/2023 – Áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vistas em sobrevoo ao longo do rio Mucajaí. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Por Débora Gallas Steigleder*

Após o desmonte da política ambiental representado pelo governo de Jair Bolsonaro, é hora de colocar a casa em ordem. Porém, elementos como a autoproclamada boa vontade do presidente Lula para incluir o enfrentamento às mudanças climáticas na pauta do governo e a capacidade técnica da equipe que tem Marina Silva no comando podem não ser suficientes para produzir resultados rápidos, conforme o jornalismo brasileiro vem reportando.

A edição desta segunda-feira, 17 de abril, do podcast O Assunto, do G1, ressalta o cenário de terra arrasada na Amazônia. Apesar do trabalho de reconstrução do Fundo Amazônia e da ação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, a capacidade de fiscalização do governo ainda está aquém do necessário, descreve a repórter do jornal Valor Econômico Daniela Chiaretti, que faz um apanhado dos primeiros meses da nova gestão federal.

A análise da jornalista também dá pistas sobre o tom da cobertura a respeito da política ambiental dos próximos quatro anos: o jornalismo deve abrir cada vez mais debate sobre soluções eficazes para os problemas que já estão na ordem do dia, como desmatamento e emissões de gases de efeito estufa, mas passando longe do otimismo e de considerar as intenções dos gestores como garantia de missão cumprida.

A persistente devastação dos biomas brasileiros e as ameaças aos modos de vida de seus povos segue em pauta na mídia independente passados os cem primeiros dias do atual governo. Reportagem do site Amazônia Real publicada na quarta passada, 12 de abril, e assinada por Nicoly Ambrosio sublinha que o governo Lula ainda não demarcou terras indígenas na Amazônia – atualmente, são 31 TIs no bioma aguardando a retomada do processo de demarcação, que foi completamente paralisado na gestão anterior.

Reportagem da jornalista Elizabeth Oliveira publicada em O Eco também no dia 12 avalia os cem primeiros dias e destaca os desafios que vêm pela frente, sobretudo no combate ao crime ambiental e na transversalização da pauta climática. Calcado nas falas de especialistas de diversas instituições e coletivos, o material também alerta para possíveis retrocessos na Amazônia, como o asfaltamento da BR-319, entre Manaus e Porto Velho e a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Que o jornalismo siga de olho.

* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação e integrante do GPJA/UFRGS

Eólicas: a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais

Por Eliege Fante*

A descarbonização está na ordem do dia e na pauta político-econômica dos jornais. Os projetos em andamento em todo o litoral brasileiro (cobertura em epbr.com.br/) provenientes de empresas do Norte global, especialmente da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha, têm muito em comum: implantação de usinas eólicas para geração de energia renovável e limpa. Limpa, considerando-se a menor emissão de gases de efeito estufa, diferença favorável em comparação com a geração de energia termoelétrica a partir de combustíveis fósseis como o carvão. Entretanto, assim como ocorreu há alguns anos a respeito das hidrelétricas, a ciência e os movimentos sociais acumulam descrições, fatos e relatos dos impactos sobre o ambiente e as comunidades tradicionais e povos originários afetados.

Recentemente foram lançados dois documentários sobre os impactos na região Nordeste: Ventos do Delta, dirigido por Gelson Catatau e Ester Farache (assistir) sobre o Piauí  e, Vento Agreste, dirigido por João do Vale (assistir) sobre Pernambuco. Nesses estados, de modo semelhante ao que pode ocorrer no Rio Grande do Sul na região da Lagoa dos Patos, as áreas impactadas são remanescentes de biodiversidade e de modos de vida distintos como a pesca artesanal gaúcha (conferir parecer técnico). Portanto, riscos imensos pairam sobre o que ainda não foi devastado sob o paradigma econômico, e tem fundamental relevância para a conservação da fauna, da flora e para a sobrevivência de milhares de pessoas.

O governo gaúcho tem divulgado a participação em inúmeros eventos, como o recente em Rio Grande, onde poderia ter visitado uma comunidade de pescadores e escutado as diversas demandas ou minimamente esclarecido suas dúvidas. Há uma agenda para o mês de abril em Porto Alegre, porém sem a presença dos representantes locais dessas comunidades. Um estudo de viabilidade econômica parece ser o único feito pelo governo estadual, produzido pela Consultoria McKinsey Brasil e que foi citado neste evento do governo, porém o documento não foi disponibilizado para acesso público em PDF na página do Pró-clima 2050 que reúne as informações sobre os projetos de descarbonização. 

Uma rápida busca nos sites de alguns meios de comunicação jornalísticos no estado com a palavra-chave “eólicas” evidencia a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais.  Exceto as cinco notícias deste ano publicadas pelo Brasil de Fato que informam também segundo a visão das fontes das comunidades. A mais recente do Correio do Povo repete o discurso do desenvolvimento social da região com esse tipo de energia renovável, exatamente o que as comunidades contestam. Essa repetição ocorre em Zero Hora e em O Sul. Chamou a atenção o grande uso de notícias provenientes de agências internacionais e ao menos uma de agência nacional em quase todos os sites.

SitesNotícias em 2023 arroladas pelo buscador
Brasil de Fato5
Correio do Povo3
Jornal do Comércio1
Matinal0
O Sul5
Sul210
Zero Hora5

De modo geral, a imprensa (não somente a gaúcha) tem repetido o discurso da descarbonização e do desenvolvimento sustentável do governo e das grandes empresas. Uma escuta ativa e daria-se conta de que descarbonizar a economia foi somente uma das recomendações do Painel Intergovernamental das Nações Unidas, o IPCC. As possibilidades para a mitigação e a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas bem como a tentativa emergencial de deter o aumento da temperatura média da atmosfera dependem do diálogo entre todos os setores econômicos e grupos sociais. Sim, existem técnicas e tecnologias sociais locais aguardando a vez para brilhar no céu dos investimentos públicos. E, a pesca artesanal, por exemplo, representa uma significativa fonte de receita nos municípios de origem dos trabalhadores, o que permite afirmar que nem a cobertura econômica tem sido completa para uma leitura elucidativa do público diante de todas as implicações dos projetos em andamento para a dita descarbonização. 

Por fim, a estreita ideia de fontes jornalísticas em prática tem viabilizado a escuta predominantemente de fontes oficiais vinculadas ao poder hegemônico, obstaculizando a circulação de informações imprescindíveis a toda a sociedade. É o que ocorre com o silêncio diante das denúncias provenientes das próprias comunidades, movimentos sociais e de pesquisadores de universidades, quanto ao não cumprimento de acordos internacionais e regulações, principalmente da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que estabelece a consulta livre, prévia e informada aos povos originários e às comunidades tradicionais.

* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq, editora da EcoAgência e Assessora de Comunicação da Rede Campos Sulinos.