Água pra que quero se não te venero?

Imagem: iStock / Getty Images

Por Carine Massierer*

O Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março. A data foi instituída em 1992 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Rio-92, com o objetivo conscientizar as pessoas sobre a importância vital da água. Esse recurso é indispensável para a vida das pessoas e para o equilíbrio dos ecossistemas. No entanto, o que se vê é que não há uma tomada de consciência das pessoas já que todos os dias são dias de se venerar a água deste planeta.

Neste dia, a Revista Exame publicou matéria que tem por base a pesquisa “A percepção dos brasileiros sobre segurança hídrica”, realizada pela The Nature Conservacy Brasil (TNC) com o apoio técnico do Instituto Ipsos.

Imagem: Captura de tela do site da Exame em 26 de março de 2023. (Dia Mundial da Água: maioria da população vê amento da poluição e pouco cuidado do recurso natural | Exame).

O texto apresenta o resultado da pesquisa: a água é um recurso natural muito utilizado, mas pouco cuidado, de acordo com a percepção de sete em cada dez brasileiros. Além disso, 78% da população nota um aumento na poluição das águas nos últimos quatro anos no país.

A matéria é um deleite, pois apresenta dados comparativos com o Atlas do Saneamento, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 2017, que mostrou que o Brasil tem cerca de 114.000 quilômetros de rios com a qualidade da água comprometida, uma extensão equivalente a quase três vezes a circunferência do Planeta Terra. O texto traz ainda a metodologia aplicada na pesquisa do Instituto Ipsos e as respostas associadas à falta de água e às mudanças climáticas. “As populações menos favorecidas indicam menor associação entre problemas ambientais e mudanças climáticas, enquanto os mais privilegiados têm um entendimento mais amplo”, destaca o texto.

Empresas de comunicação como O Globo e outras (dia mundial da agua 2024 – Pesquisar News (bing.com), aproveitaram a oportunidade para cobrir eventos ou trazer matérias mais reflexivas, como a proposta pelos jornalistas Juliana Perdigão e Odilon Amaral, no jornal Estado de Minas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal Estado de Minas Gerais em 26 de março de 2023.(Dia Mundial da Água: Série retrata o impacto do recurso na cultura mineira – Estado de Minas).

No dia Mundial da Água a empresa jornalística lançou a série de vídeo documental ‘Saberes Ancestrais’, realizada pelo Projeto Preserva, coordenada pelos jornalistas. A série demonstra exemplos de sustentabilidade, preservação ambiental e também cultural. Estruturada em cinco episódios, as histórias mostram como a natureza e seus recursos impactam a vida das comunidades do interior de Minas Gerais e contribuem também para a formação da cultura local. 

Isso mostra que, se a preservação das águas, que são fonte essencial para nossas vidas, não está ocorrendo, ao menos a imprensa tem demonstrado em suas escolhas editoriais a preocupação de trazer estas reflexões aos leitores e seguidores, o que anteriormente se centrava mais na cobertura de eventos ou estratégias utilizadas por órgãos governamentais como oportunidades para atrair os holofotes do cidadão. Bora cuidar da água e venerar este bem tão precioso para deixarmos para as gerações futuras?

*Carine Massierer é jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Clima, condições de trabalho e desafios de jornalistas em coberturas

Imagem: Devido as altas temperaturas, o repórter Nicolas Córdova, da Rádio Grenal, perdeu os sentidos e caiu no chão durante transmissão ao vivo / Reprodução

Por Isabelle Rieger* e Ilza M. Tourinho Girardi**

Recentemente, durante a cobertura do evento South Summit no Cais Embarcadero de Porto Alegre, um repórter da Rádio Grenal desmaiou durante uma transmissão ao vivo, devido ao intenso calor e à ausência de ar-condicionado. Este incidente destaca as precárias condições enfrentadas pelos jornalistas, no exercício da profissão, revelando também a falta de cuidado ou mesmo negligência das autoridades em implementar planos de prevenção e enfrentamento para eventos climáticos extremos.

Porto Alegre estava vivenciando uma onda de calor, fenômeno cada vez mais frequente devido às mudanças climáticas. Em um evento que atrai milhares de pessoas e se autoproclama o maior da América Latina em inovação e empreendedorismo, é inaceitável que não tenham sido providenciadas medidas básicas para mitigar os impactos das altas temperaturas. A falta de ar-condicionado não apenas colocou em risco a saúde e segurança dos participantes, mas também expôs os jornalistas, essenciais para relatar e informar sobre tais eventos.

A segurança e bem-estar dos trabalhadores da mídia devem ser prioridades em todos os eventos, especialmente quando há conhecimento prévio de condições ambientais adversas. A prevenção de riscos deve ser parte integrante do planejamento de eventos, incluindo a provisão de infraestrutura adequada para lidar com condições climáticas extremas. Isso não apenas protege os profissionais envolvidos, mas também garante a qualidade e a continuidade da cobertura jornalística.

O caso do South Summit ressalta a importância de repensar a infraestrutura e o planejamento urbano em Porto Alegre. O Cais Embarcadero, um espaço privatizado na orla do Guaíba, exemplifica uma tendência preocupante de transformar áreas urbanas em locais voltados para o lucro e o entretenimento, em detrimento das necessidades e segurança dos cidadãos. 

A privatização desses espaços muitas vezes prioriza os interesses comerciais e ignora o bem-estar público, resultando em infraestruturas inadequadas pela falta de um olhar atento à prevenção. Durante o evento que prega inovação, houve um desmaio no primeiro dia por conta do calor extremo, e o atraso da hora de abertura no segundo dia foi devido as chuvas que assolaram a cidade. Onde está a inovação em um evento que não pensa no meio ambiente, que está na pautas das discussões em diversos fóruns justamente porque estamos vivendo uma época de emergência climática?

É imperativo que as autoridades municipais e organizadores de eventos assumam a responsabilidade pela segurança e conforto de todos os envolvidos, incluindo jornalistas. Isso requer não apenas a implementação de medidas de prevenção eficazes para lidar com condições climáticas extremas, mas também uma abordagem mais ampla e inclusiva para o planejamento urbano, que priorize as necessidades e interesses de toda a comunidade.

O desmaio ao vivo não é só uma chamada para melhorar as condições de trabalho, mas também para repensar a maneira como planejamos e gerenciamos nossas cidades e eventos. Somente por meio de uma abordagem que entenda a cidade como um bem comum e não como um local para ser vendido é que conseguiremos avançar na pauta ambiental. 

Já que estamos falando das condições de trabalho dos jornalistas em tempos de eventos extremos, podemos ressaltar a importância de os profissionais terem conhecimento sobre o que está acontecendo no mundo e quais as previsões relacionadas ao aumento da temperatura, se os países não agirem imediatamente para conter esse processo. Nesse caso não se trata de precaução, mas de tomar medidas de prevenção e cuidado por parte da prefeitura e organizadores de eventos para permitir que os jornalistas cumpram com seu papel de informar e os cidadãos tenham segurança para acessar tais espaços. Da mesma forma é necessário que as chefias que ficam nas redações pensem na saúde do repórter que vai se submeter a situações de risco.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.

Inteligência Artificial e o Princípio da Precaução

Imagem: Pixabay

Por Sérgio Pereira*

O assunto do momento é a Inteligência Artificial (IA) e suas consequências. Esse avanço tecnológico está em todas as redes de debates. O mundo discute questões éticas (uso indevido na produção de fake news e violação do direito de imagem), econômicas (quem vai lucrar e o que fazer com o exército de desempregados que porventura surgir?), jurídicas (as sentenças um dia ficarão a cargo dos algoritmos?), tributárias (como manter os níveis de arrecadação já que robô não paga imposto?), entre tantos outros.

Quando o assunto é jornalismo, as discussões envolvem, no momento, como aproveitar essa ferramenta no dia a dia e o quanto isso impactará na estrutura das redações. Entidades de classe se preocupam com o provável aumento no número de demissões, que já se intensificaram nos últimos dez anos no Brasil, deixando sem emprego parte considerável dos profissionais de imprensa.

Na área ambiental, por sua vez, alguns estudos já fazem a conexão entre o uso de IA e o crescimento na emissão de dióxido de carbono (CO2). O portal Earth.Org destaca pesquisa da OpenAI que estima que as emissões da indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), como um todo, atinjam 14% das emissões globais no ano de 2040.

O professor Anders Nordgren, da Universidade de Linköping (Suécia), faz um alerta sobre a emissão de CO2 em treinamentos de Inteligência Artificial: “Um estudo focado explicitamente na IA como contribuinte para as alterações climáticas foi conduzido por Strubell et al. (2019). Eles investigaram a pegada de carbono de vários modelos diferentes de IA. Concluíram que as emissões variam significativamente. As maiores foram encontradas no treinamento de um modelo de IA para processamento de linguagem natural (PNL)” (2023).

Conforme Nordgren, calcula-se que o treinamento de IA resulte em cerca de 300 mil quilos de CO2e (Strubell et al., 2019). Essas emissões equivalem a, aproximadamente, 125 voos de ida e volta de Nova Iorque a Pequim (Dobbe e Whittaker, 2019).

Essas pesquisas científicas, no entanto, estão sendo ignoradas quando a discussão envolve essa nova ferramenta tecnológica, independentemente da área envolvida. Mas os jornalistas não podem deixar de considerar esses dados quando escrevem sobre o assunto.

Um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental é o Princípio da Precaução, que já foi abordado em artigos anteriores aqui no Observatório. Conforme Girardi et al., esse princípio “amplia o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas” (2017). Girardi acrescenta que a “ampliação da divulgação de incertezas por parte do campo científico e as constatações de que não temos controle sobre as consequências de muitos processos e produtos conduziram a um olhar mais cauteloso, que levou à discussão do princípio da precaução”.

Já o “Princípio 15” da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento na Conferência das Nações Unidas, elaborado durante a Rio-92, estabelece: “Com o fim de proteger o meio ambiente, o Princípio da Precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”.

Nesse sentido, devemos, a partir da preocupação com as consequências negativas do uso da IA, sem considerar os danos ao ambiente, recomendar que os jornalistas, amparados na cautela, busquem sempre aprofundar o tema e informar a sociedade sobre o impacto e os riscos inerentes do uso desse novo instrumento. É preciso contextualizar e elencar sempre os prós e contras.

Uma máxima universal estabelece que, na dúvida, não devemos ultrapassar. Essa regra, no entanto, é deixada de lado quando conveniências econômicas e políticas se tornam prioridades. E o jornalismo não pode se submeter a interesses que não coloquem a coletividade em primeiro lugar. Principalmente quando os danos forem irreversíveis, como testemunhamos agora com os trágicos efeitos das mudanças climáticas, para citar apenas um exemplo dos muitos que poderíamos relacionar aqui.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p.279–291, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 11 mar. 2024.

NORDGREN, Anders. Artificial intelligence and climate change: ethical issues, Journal of Information, Communication and Ethics in Society, Vol. 21 Nº 1, pp (2023). Disponível em: https://doi.org/10.1108/JICES-11-2021-0106. Acesso em: 12 mar. 2024.

Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público

Imagem: Após reportagem de ((o))eco, condenado por assassinato de Chico Mendes é destituído de presidência do Partido Liberal (PL) / Arquivo Memorial Chico Mendes

Por Débora Gallas*

Uma reportagem do site ((o)) eco publicada no dia 27 de fevereiro repercutiu em outros veículos brasileiros de projeção nacional e impactou as decisões de uma das maiores forças políticas do Brasil – o Partido Liberal (PL). O texto da jornalista Cristiane Prizibisczki revelou que Darci Alves Pereira, condenado pela execução do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, havia assumido a presidência do PL em Medicilândia, no Pará.

O caso, informado primeiramente por um veículo não hegemônico, foi notícia em seguida em veículos como GloboNews. No mesmo dia, diante das críticas ao PL, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, recomendou a destituição de Darci Alves Pereira do cargo. Os desdobramentos também foram noticiados por diversos veículos de jornalismo hegemônico de projeção nacional, como UOL e g1.

A polêmica também rendeu matérias sobre o tema por outros ângulos: O Povo, por exemplo, explica que, após o cumprimento da pena pelo crime realizado em Xapuri, no Acre em 1988, Darci se estabeleceu no Pará e passou a ser conhecido como “Pastor Daniel”. O Globo relembrou as circunstâncias e motivações do assassinato. Já a CNN aproveitou o gancho para explicar às novas gerações quem foi Chico Mendes e qual foi o legado de sua luta pela conservação ambiental e pelo uso sustentável dos bens naturais.

Quando nos referimos ao jornalismo não hegemônico, recorremos ao entendimento da pesquisadora Eloisa Loose. Segundo a autora, essa modalidade é praticada por meios que não dominam o mercado e que são mais propensos a adotar posicionamentos críticos. A definição de jornalismo não hegemônico tem similaridades com as ideias de jornalismo alternativo ou jornalismo independente – embora não sejam sinônimos – porque subvertem as preocupações comerciais vistas no jornalismo comumente denominado hegemônico, tradicional ou mainstream.

A autonomia e a independência do jornalismo não hegemônico em relação a anunciantes, por exemplo, são positivas sobretudo para a prática do jornalismo ambiental, que com frequência confronta interesses políticos e econômicos que ameaçam os ecossistemas e os seres humanos e não humanos.

A partir da apuração de ((o)) eco e da repercussão da informação sobre a entrada de Darci Alves Pereira na política, entendemos que o jornalismo não hegemônico não está reduzido a um nicho de público, com alcance limitado. Esse tipo de jornalismo, sobretudo no caso de pautas ambientais – que passaram a ser vistas como “hard news” muito recentemente – tem potencial de impactar o ecossistema do próprio jornalismo e, mais amplamente, o debate público e as decisões de atores relevantes.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências

GIRARDI, I. M. T.; LOOSE, E. B.; STEIGLEDER, D. G.; MASSIERER, C. Meio ambiente no Jornal Nacional: das tragédias às disputas políticas. Animus. Revista Interamericana de Comunicação Midiática, v. 22, n. 48, 2023. DOI: 10.5902/2175497768800.

LOOSE, Eloisa Beling. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: Os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Porto Alegre: UFRGS, 2021. Tese de doutorado disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/220347/001124549.pdf.

Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?

Imagem: João Paulo Burini / Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A leitura da coluna Saúde, meio ambiente, políticas públicas: a dengue mostra que está tudo interligado, produzida pelas colegas Isabelle Rieger e Cláudia Herte de Moraes, e publicada no site Eco, me instigou a apurar sobre a abordagem dada nas notícias da imprensa brasileira sobre a doença e suas relações com o meio ambiente e as políticas públicas. Em notícia publicada pelo governo federal, no dia 27/02, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, ressalta que o aumento no número de casos neste período do ano não era esperado, considerando as tendências históricas que indicam o pico das epidemias entre março e abril. O texto diz ainda que os motivos para esta situação, diferente do esperado, têm raízes múltiplas, entre elas as alterações climáticas, em especial na época de chuvas, e a mudança nos sorotipos circulantes da dengue. O Ministério declarou que o Brasil chegou a quase 1 milhão de casos registrados de dengue e que vai fazer uma mobilização nacional para combater os focos do mosquito, no sábado dia 2.

A fala da ministra foi citada em algumas notícias, porém, pouco se aproveitou para aprofundar a temática, explicando como e porque as alterações climáticas podem estar levando ao aumento dos mosquitos e dos casos de dengue. Uma apuração rápida, nos sites G1, Folha de São Paulo e Estadão, mostrou que a maioria das notícias foca nos números de infectados e mortos pela doença. A Folha de São Paulo, no dia 19, além das dezenas de números e gráficos que trouxe sobre a dengue, destacou que especialistas apontam os fatores climáticos como centrais para a explosão de casos. Diz o texto que o calor acima da média e o período chuvoso criam condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

Para a construção deste texto, fizemos uma breve análise das notícias publicadas, mas em 2015 e 2016, o tema já foi estudado em profundidade por colegas deste grupo, e apresentado no artigo Dengue, Zika e Chikungunya: Análise da cobertura do risco de doenças associadas às mudanças climáticas sob a ótica do Jornalismo Ambiental. Na época vivia-se no Brasil também um período de aumento de casos de dengue, e da mesma forma a imprensa não aprofundou as relações entre as mudanças climáticas, o aumento dos mosquitos e de casos de dengue.

Outro aspecto que percebemos nas notícias foi a publicação de números que apontam o aumento das mortes por dengue no Brasil. A Folha de São Paulo, citou a fala da ministra Nísia, em que ela destaca a preocupação com o aumento dos casos graves.  “Temos de olhar o manejo adequado, cuidado no tempo certo e hidratação [do paciente]”. O infectologista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Kleber Luz, ressaltou esse aspecto no G1 “… é preciso mitigar o problema. Capacitar médicos, enfermeiros, equipes de saúde para tratar a dengue de forma adequada, disponibilizar insumos como soro, para que as pessoas sejam tratadas. O que devemos fazer é evitar as mortes”. O consultor da OMS ressaltou ainda que a dengue é uma doença completamente tratável, “com baixo índice de óbito se o paciente procurar atendimento precocemente” e se for realizada a intervenção adequada.

Diante dessas explicações por que tantas pessoas ainda estão morrendo de dengue no Brasil? Diferente da covid-19, que é uma doença ainda pouco conhecida, a dengue existe no Brasil há mais de 30 anos. A imprensa precisa questionar as autoridades e especialistas e buscar respostas para o porquê de as pessoas ainda estarem morrendo de dengue no Brasil. Os hospitais e postos de saúde não estão preparados para receber e fazer diagnósticos rápidos nos pacientes? Está sendo monitorado os índices de plaquetas nos pacientes e há bolsas de plaquetas para as transfusões nos casos graves? Os pacientes estão recebendo hidratação quando necessário? Essas são algumas das perguntas que a imprensa deveria estar fazendo e não está. As pautas estão aí, citadas nas próprias notícias. Cabe a imprensa saber olhar além dos números.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST  

Imagem: Acervo MST

Por Sérgio Pereira*

No final de janeiro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra completou 40 anos de luta pela reforma agrária no Brasil. Para marcar a data, a entidade lançou a “Carta Compromisso do MST com a Luta e o Povo Brasileiro”, um documento que reafirma o seu compromisso “com o povo brasileiro e com a construção de uma nação mais justa e igualitária através da luta e da construção da Reforma Agrária Popular”.

A imprensa hegemônica brasileira, até o momento, praticamente ignorou o aniversário de 40 anos da organização, que para o linguista, filósofo e sociólogo norte-americano Noam Chomsky, “é o movimento popular mais importante e estimulante do mundo”, conforme seu o discurso de 2003 no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre. Sua capacidade de mobilização, sua organização e a quantidade de filiados (mais de 400 mil famílias) comprovam isso.

O movimento também é conhecido por ser o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e por ter aberto diversos estabelecimentos comerciais com produtos sem pesticida em várias cidades do país, além de manter um serviço de vendas on-line.

O MST também recebeu alguns pequenos espaços na mídia alternativa, recentemente, por suas ações sociais em desastres naturais causados pelas mudanças climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou suas doações para a população da Faixa de Gaza.

O jornal O Estado de S.Paulo fez uma única referência à data em uma notícia da editoria de Política, postada em 27/01/24, com o título “Ministros de Lula enaltecem MST em evento de 40 anos do movimento e saem aplaudidos”. O texto cobre evento com a participação de quatro ministros do governo federal, restringindo-se a relatar declarações de autoridades. Outros veículos impressos, como O Globo e Zero Hora, no entanto, ignoraram totalmente.

Exceção foi a Folha de S.Paulo, que produziu o especial “MST, 40 anos” em seu site. O jornal postou no final de janeiro oito textos lembrando “a trajetória, os conflitos e as mudanças em quatro décadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”:

Apenas analisando os títulos acima já é possível verificar uma tendência. A utilização de alguns termos nos títulos denota o enfoque negativo: “irrisória”, “sob cerco”, “critica”, “desilusão”, “ruptura nebulosa”, “mais distante” e “frustrado”.

A palavra “invasões”, por exemplo, é citada em quatro dos oito títulos. O MST repudia esse termo e defende o uso de “ocupações”, expressão cujo significado legal se enquadra com fidelidade às ações do movimento.

Não se trata aqui de mera discussão semântica. O que se deve lembrar é que há diferenças entre “invadir” e “ocupar”, com suas implicações no mundo do direito. Carol Proner, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e do Grupo Prerrogativas, explica que ocupação não é o mesmo que invasão. A Constituição Federal de 1988 define o conceito de uso social da terra e os critérios para que seja legítimo, que não degrade o meio ambiente, que não se faça por meio de trabalho escravo ou análogo e que seja produtiva.

Carol Proner acrescenta: “A ocupação de terras tem sido historicamente a forma pela qual os movimentos camponeses chamam a atenção para este compromisso de direitos fundamentais e da necessidade de que a propriedade venha acompanhada de uma função social. Confundir os dois conceitos propositalmente é uma forma de negar a luta pela terra e os legítimos sujeitos de direito, assim reconhecidos pela Declaração da ONU sobre Direitos dos Camponeses”. (Brasil 247, 2023)

A Folha, como vários jornais brasileiros, prefere ignorar a doutrina jurídica para, em clara manifestação ideológica, criminalizar o movimento camponês. Por sinal, nestas quatro décadas, o MST teve sua imagem emoldurada na imprensa como uma organização envolvida em “invasões”, “conflitos”, “destruição” e “mortes”, mesmo que as vítimas sejam em sua imensa maioria do próprio MST.

O texto intitulado “Arroz orgânico do MST tem produção quase irrisória, mas virou marca simbólica”, por sua vez, busca minimizar a importância do movimento após a grande repercussão da entrevista, em agosto de 2022, do então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva para o Jornal Nacional.

Naquela ocasião, o MST foi parar no Trending Topics, após Lula afirmar que o movimento era “o maior produtor de arroz orgânico do Brasil”. A declaração levou a milhares de manifestações nas redes sociais, algumas elogiando a fala de Lula e outras, ligadas à extrema direita, colocando em dúvida a informação. Com o texto da Folha, fica a comprovação de que a fala do atual presidente não apenas tinha procedência, como estava alicerçada em dados. O MST, por sinal, é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina, conforme admite o jornal.

A Folha, porém, ignora que a produção de orgânicos ainda está em desenvolvimento – e não apenas no Brasil. Os números mostram que a produção e o consumo de orgânicos crescem em todos os continentes. Mas trata-se de um mercado que ainda está se construindo, enfrentando burocracias, insumos com preços elevados e a falta de apoio institucional, entre outras questões.

A imprensa hegemônica brasileira, que se diz imparcial, precisa desideologizar sua cobertura do MST. A entidade precisa virar pauta seguindo os princípios de noticiabilidade, que são citados nos diversos manuais de redação. Seriam mais isentos os jornais se olhassem para o movimento camponês da mesma forma que veem as organizações patronais. Mas, para isso, precisam assumir definitivamente a ideia da imparcialidade. E não apenas quando lhes interessa.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

PRONER, Carol.Ocupação não é invasão. Brasil 247, São Paulo, 02 de mai. de 2023. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/ocupacao-nao-e-invasao?amp. Acesso em: 5 fev. 2024.

OLEGÁRIO, Polianna Teixeira; ZIEMANN, Marcos Afonso Lopes. Apontamentos Teóricos Sobre o Processo de Reforma Agrária no Brasil a partir da Observação em Campo no Assentamento Che Guevara. In: ANDRÉ, O. et al. Globalização, Regionalização e as Novas Ruralidades! [s.l: s.n.], 2017. p. 230-265. Disponível em: <https://dspace.unila.edu.br/bitstream/handle/123456789/2733/Livro%20Andre%20%26%20Silvia%20-%20Orgs%20-Agbook.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 9 fev. 2024.

A luta indígena é dramática e urgente

Por Cláudia Herte de Moraes*

A luta indígena deve ser de todos nós. É um ponto crucial para o enfrentamento dos desafios do Brasil e do mundo, diante da “queda do céu” que se aproxima, nos servindo da metáfora de Davi Kopenawa que, em seu livro, traz a preocupação dos povos originários sobre o possível colapso do sistema que sustenta nossa vida. Na resenha da obra no site Outras Palavras, Álvaro Faleiros descreve nosso contexto: “No velho e requentado discurso neocolonial, o território brasileiro é riscado por fronteiras – “agrícola”, dos “negócios”, do “desenvolvimento”, da “civilização”… Fronteiras ou fronts de uma guerra de conquista que busca incorporar cada novo rincão ao projeto uniformizante do capitalismo extrativista global.”

No domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, a Escola Acadêmicos do Salgueiro do Rio de Janeiro fez ecoar seu samba na avenida e trouxe uma reflexão dramática sobre o sofrimento do povo Yanomami, que enfrenta uma emergência humanitária, decretada desde 2023, logo após o início do governo atual do presidente Lula (e foi tema deste Observatório). No samba, a frase “Eu aprendi o português, a língua do opressor/ Pra te provar que meu penar também é sua dor/ Falar de amor enquanto a mata chora/ É luta sem flecha, da boca pra fora” traz a denúncia de que não bastam palavras e postagens em apoio à luta indígena, precisamos partir para a ação. Como trazido pelo Brasil de Fato, foi um desfile histórico na Sapucaí, que reafirma a trajetória de luta dos Yanomami.

Enquanto o samba da Acadêmicos do Salgueiro fez uma grande homenagem ao povo Yanomami, no maior espetáculo da terra, é preciso lembrar que estamos em pleno vigor da Lei 14.701 (antigo PL 2903, da tese do Marco Temporal) que foi aprovada em setembro e na segunda rodada, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos pontos mais críticos. Com isso, foram institucionalizadas várias violações constitucionais. A luta segue, em arenas jurídicas e no chão da floresta. O debate sobre o MT também foi abordado aqui no observatório.

Em 7 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Nesta data, morria o nativo Sepé Tiaraju, no ano de 1756, do povo Guarani, importante liderança indígena pertencente aos Sete Povos das Missões. Este dia pretende trazer visibilidade às pautas dos povos originários brasileiros, infelizmente cada vez mais focada na própria sobrevivência. Em reportagem do G1 Amazônia, destaca como se dá a luta histórica dos indígenas pela defesa dos territórios, ouvindo indígenas, associações e pesquisadores, apontando como o sistema colonialista ainda se materializa na destruição ambiental e na negação dos direitos. 

O tema é recorrente e terrivelmente triste, pois não cessam as mortes de indígenas em todo território brasileiro. Em 21 de janeiro, foi assassinada Maria de Fátima Muniz, a Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hã, na Bahia.  As investigações em curso demonstram que há uma combinação nefasta que se articula contra os direitos dos indígenas, incentivada até mesmo por benesses indevidas do Estado brasileiro, como apontado na notícia de 9 de fevereiro, da APIB: “Segundo testemunhas, o ataque teve a participação de integrantes do “Invasão Zero” e colaboração de policiais militares. A perícia comprovou que o tiro fatal partiu do filho de um fazendeiro.”

No entanto, os conflitos são cada vez mais frequentes nos territórios, possivelmente resultado dos últimos anos de um governo que insuflou pessoas e grupos armados contra os mais vulneráveis e protetores de suas terras e florestas. Também pela vigência do Marco Temporal e ligações políticas locais, como traz a reportagem do Nexo Jornal sobre a violação das terras de território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia. 

O premiado documentário “Somos Guardiões”, recentemente entrou em cartaz no catálogo da Netflix. No destaque da Revista Fórum, Edivan Guajajara é o primeiro cineasta indígena a dirigir um filme no streaming e fala sobre a importância de trazer sua visão e unir forças para frear o problema ambiental e humano na Amazônia. A obra retrata os crimes ambientais e a violência contra os povos indígenas no país, mas especialmente a força daqueles que resistem há mais de 500 anos à invasão e exploração de seus territórios. Após assistir este documentário, fica nítido que precisamos mudar agora! Enquanto os indígenas e seus territórios são dilapidados, não chegaremos a impedir a queda do céu. 

Cada vez mais os jornais e publicações não hegemônicos despontam na cobertura das pautas indígenas, juntando-se à cobertura dos veículos jornalísticos tradicionais – que nem sempre conseguem apontar as ligações e complexidades de fatos históricos e entrelaçados com poderes colonialistas em nossa sociedade. Por isso, para apoiar e entender mais sobre a luta indígena, os espaços da visibilidade indígena nas plataformas digitais são muito relevantes, como a @apiboficial e as organizações regionais de base @apoinme_brasil | @coiabamazonia | @arpinsuloficial | @cons.terena | @atyguasu | @yvyrupa.cgy | @arpinsudestesprj

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

A importância do contexto na notícia climática

Imagem: C3S /ECMWF

Por Heverton Lacerda*

Este ano já detém a marca do janeiro mais quente da história, segundo boletim do Copérnico (C3S), programa da União Europeia (UE) que monitora mudanças climáticas, divulgado nesta quinta-feira (8) e amplamente publicado na imprensa. 

De modo geral, veículos de notícias, a exemplo de GZH (RBS), UOL Notícias, NSC Total, Bom dia Brasil (Globo), Último Segundo (IG), Metrópoles, Rádio Senado, entre outros, apenas replicaram os dados do programa da UE. No entanto, alguns trouxeram informações adicionais que ajudam a contextualizar o problema, que tem causas e consequências que podem ir muito além do que apenas o extremo aumento da sensação térmica. Embora a contextualização não esteja presente em todas as notícias, percebe-se que a pauta climática começa a fazer sentido para alguns redatores, que incrementam a divulgação de novos dados com conhecimentos já consolidados pela Ciência. 

No portal SBT News, Camila Stucaluc informa que “o cenário é preocupante, uma vez que o aquecimento acima da meta pode provocar consequências extremas para o meio ambiente e a humanidade, como o aumento de queimadas e da transmissão de doenças por mosquitos. Outra consequência é o derretimento em maior velocidade e irreversível das geleiras, fazendo com que cidades costeiras, como o Rio de Janeiro, fiquem submersas”.

O texto de Jéssica Maes, na Folha de São Paulo, traz uma informação extra que agrega valor analítico à notícia: “No entanto, uma análise de dados feita pela Folha mostrou que a Terra viveu cinco El Niños mais severos do que o atual nos últimos 70 anos. Ou seja, a temperatura global no último ano já estava muito alta, mesmo sem levar em conta a intensidade do fenômeno”. Ela ressalta que a questão não é só o El Niño, como tem aparecido em algumas divulgações. Ou seja, o próprio fenômeno climático está mais intenso em função do aquecimento do clima, que gera influência sobre ele, o El Niño. São situações relacionadas que se retroalimentam.

Na cobertura geral dos veículos de imprensa, pode-se acompanhar uma seleção de  ocorrências que se constituem como catástrofes de grandes proporções, como, por exemplo, os incêndios que destruíram centenas de casas no Chile neste mês. Na maioria das vezes, fatos como esses têm sido noticiados isoladamente, enclausurados em si só, sem referência ao contexto global e aos diversos fatores antropogênicos inter-relacionados que podem contribuir para a emergência climática. 

Rompendo essa prática reducionista, além dos dois exemplos acima, temos uma matéria da BBC News Brasil, publicada no dia 5 de fevereiro, que menciona o estresse hídrico causado pela substituição de mata nativa por lavouras para a produção de celulose no Chile. “Somando-se a isso, tanto no centro como no sul do Chile existem muitas espécies invasoras, como o pinheiro ou o eucalipto, que foram introduzidas para a produção de celulose e madeira no país”. O texto é da Fernanda Paúl.

Informações de contextos, como esses exemplos das matérias acima, da Camila Stucaluc, da Jéssica Maes e da Fernanda Paúl, são fundamentais para ajudar a população e gestores públicos a cobrar e encaminhar medidas que são essenciais para mudar o rumo destrutivo promovido pelo atual modelo socioeconômico que está contribuindo para o caos climático. Os preceitos do jornalismo ambiental se mostram, cada vez mais, muito adequados e valiosos para a cobertura de pautas climáticas, fazendo a diferença na compreensão dos fatos e dos problemas envolvidos nessa questão de âmbito planetário.

*Jornalista, ativista ambiental, especialista em Ciências Humanas, mestrando no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCPM/UFRGS) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais

Imagem: Depositphotos

Por Míriam Santini de Abreu*

Notícia publicada na página do jornal britânico The Guardian no dia 24 de janeiro dá o que pensar ao jornalismo ambiental. Ela apresenta o resultado de um estudo feito por uma empresa e uma agência de comunicação no Reino Unido mostrando que apenas um quarto das pessoas interrogadas compreendia claramente o termo “verde” e aproximadamente o mesmo número conseguia descrever com precisão o que significava “sustentável”. Mesmo termos considerados de uso generalizado pelas empresas, como “amigo do ambiente” e “cultivado localmente”, são compreendidos apenas por uma minoria de pessoas. A dificuldade de compreensão também atinge as iniciativas políticas governamentais orientadas para a redução de resíduos, como a proibição de talheres e pratos de plástico descartáveis.

A notícia, informa que, apesar da confusão em torno de alguns dos termos-chave, a investigação mostra um apoio extremamente amplo às questões: “nove em cada 10 consumidores consideraram importante que as empresas e marcas falassem sobre as suas iniciativas de sustentabilidade e 68% dos inquiridos eram mais propensos a comprar de uma empresa que tinha uma estratégia ambiental clara em vigor”.

A notícia cita ainda a opinião de Jamie Peters, da Friends of the Earth, para quem palavras-chave ambientais estão sendo sequestradas e mal utilizadas por empresas de petróleo e gás, que as utilizam para truques de marketing, e também pelo governo.

Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente desenvolvia, desde 1992, a pesquisa “O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável”, mas a última foi em 2012. Naquele ano, o indicador mais relevante foi o número de pessoas que, 20 anos antes (1992), não sabiam mencionar sequer um problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro, número que diminuiu para 10% em 2012, em relação aos 46% de 1992.

É possível extrapolar o dado colhido no Reino Unido para interesses empresariais para discutir a escrita jornalística sobre a relação entre sociedade e natureza. A realidade brasileira não deve ser diferente da britânica, com boas chances de se apresentar ainda pior se a pesquisa fosse realizada aqui.

As pautas do jornalismo ambiental giram em torno de conceitos/práticas sobre a a crise climática, a sustentabilidade, o mercado de carbono, e há um imenso ponto de interrogação sobre o entendimento, por parte de leitores, ouvintes e telespectadores, das notícias e reportagens sobre essas temáticas.

Um caminho para a resposta aponta para o entendimento de que a palavra no e do jornalismo precisa nascer do cotidiano e da experiência do corpo vivida no espaço. O pensador francês H. Lefebvre afirma que, a partir da vida cotidiana, mudam a língua e as linguagens, nascem palavras novas, gírias, muitas vezes marginais em relação à linguagem oficial (LEFEBVRE, 1978, p. 94). Estudar a linguagem na vida cotidiana, afirma o autor, implica tomar também o que ela não diz, o que evita dizer, o que não pode nem deve dizer.

Para ele, uma revolução precisa dar lugar a um novo espaço, a um novo cotidiano e a uma nova linguagem: Uma revolução que não dá lugar a um novo espaço não chega a realizar todo seu potencial; trava e não gera mudanças de vida, apenas modifica as superestruturas ideológicas, as instituições, os aparatos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica por sua capacidade criativa, geradora de efeitos na vida cotidiana, na linguagem e no espaço, embora seu impacto não tenha que acontecer necessariamente no mesmo ritmo e com intensidade semelhante (LEFEBVRE, 2013, p. 112).

Hoje, premido pelas mudanças nas rotinas de trabalho, o jornalismo mal estuda e pouco se alimenta da linguagem da vida cotidiana, do repertório de falas e fazeres das ruas. Ali, no espaço geográfico, com seus conflitos e tensões, onde os jargões, inclusive ambientais, fariam sentido na experiência do corpo, ausentam-se o jornalismo e os jornalistas.

Há então que revolutear a pesquisa, o ensino e o fazer, recuperar a rua, embrenhar o corpo no espaço para dali alimentar o texto.  A um jornalismo comprometido com a emancipação humana cabe a tarefa de, pela linguagem, tornar visíveis as práticas criadoras que, no espaço e no cotidiano, podem levar à transformação social, em especial nas pautas que nos são caras no jornalismo ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

Referências:

LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Penísula, 1978.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Espanha: Capitán Swing, 2013.

O jornalismo precisa falar no racismo ambiental

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Na segunda semana de janeiro, a Ministra da Igualdade Racial Anielle Franco postou séries de tweets sobre o conceito de racismo ambiental, relacionando-o com os eventos climáticos extremos que os brasileiros vêm sofrendo com mais intensidade nos últimos meses. “Devido à desigualdade racial e social, o impacto das mudanças climáticas são agravados nas regiões periféricas e de maioria negra, que têm menos acesso a saneamento básico e políticas de infraestrutura”, escreve a ministra na rede social X, antigo Twitter. Muitas foram as reações contestando o termo e desdenhando da ministra pelo uso. “Não existe racismo ambiental, é uma palavra gatilho da esquerda social democrata”, reclamou um usuário em resposta à Anielle. 

 A Assessoria de Comunicação Social do Governo Federal teve que socorrer a  ministra e explicar isso por meio de nota institucional. Mesmo assim, Anielle continua sendo perseguida por portais de extrema direita, a exemplo da Gazeta do Povo, que corrobora com a versão de que esta é uma pauta “inventada”. 

No entanto, faz décadas que pesquisadores utilizam o termo. Selene Herculano, em “Racismo Ambiental, o que é isso?”, conceitua a expressão  como “a forma pela qual desqualificamos o outro e o anulamos como não-semelhante, imputando-lhe uma raça. Colocando o outro como inerentemente inferior, culpado biologicamente pela própria situação, nos eximimos de culpas, de efetivar políticas de resgate, porque o  desumanizamos: “ô raça!”.  O conceito foi empregado pela primeira vez em 1978, na Carolina do Norte, Estados Unidos, por Benjamim Chavez, por ocasião de protestos contra o depósito de bifenilos policlorados (PCB), compostos altamente tóxicos. 

O conceito inclui também a população indígena e quilombola, que, da mesma forma, é atingida pelos eventos extremos como tempestades e secas. Além das comunidades, cujas regiões são escolhidas para depósitos de resíduos urbanos e químicos por estarem localizadas longe dos centros urbanos onde vivem as pessoas das classes média e alta. Isso é injustiça climática, associada ao racismo ambiental porque boa parte da população das comunidades é negra.

É importante lembrar que  a população negra, principal foco da fala da ministra, habita historicamente encostas de morro e favelas, lugares mais afetados por eventos climáticos extremos nas áreas urbanas. A falta de serviços básicos como acesso à água e à moradia digna intensifica os efeitos de episódios adversos. Com os direitos essenciais não atendidos, as populações vulneráveis sofrem de forma acentuada os impactos do clima. No Brasil, pessoas negras compõem mais da metade da população, mas são apenas 30% do funcionalismo público federal, ocupam apenas 10% das cadeiras  do Legislativo e representam  12,8% da magistratura brasileira, dentre outros dados que demonstram a discrepância de poder entre pessoas brancas e pessoas negras. 

O tema vem sendo trabalhado na imprensa brasileira de forma adequada e as postagens da ministra promoveram a maior cobertura sobre o tema. Vários portais contextualizaram e admitiram a existência de racismo ambiental, ao exemplo de G1: “Racismo ambiental: população marginalizada está mais vulnerável às mudanças climáticas”, Portal Terra “Cinco materiais para entender o que é racismo ambiental”, coluna de Reinaldo Lopes na Folha de São Paulo “Racismo ambiental aumenta risco de tragédia para os não brancos” e Agência Pública “O racismo climático e a insanidade da polarização nas redes”.  

A função social do jornalismo é disponibilizar para os cidadãos informações corretas para que possam tomar as decisões no seu dia a dia. Ao selecionar e interpretar os fatos, auxilia a população na compreensão da realidade. Se a maioria das populações vulneráveis são pessoas não-brancas e essas são as que mais sofrem com os eventos climáticos extremos, podemos afirmar que existe racismo ambiental. A imprensa acerta nesta cobertura após manifestação da ministra Anielle. 

Um exemplo de racismo ambiental é a queda de luz que atingiu o sul do País nessa última semana. Porto Alegre (RS) presenciou cair do céu a quantidade de chuva prevista para o mês em uma hora. A cidade e sua região metropolitana ficaram sem luz, sem água e sem perspectiva de contato com a empresa responsável pela energia elétrica. A CEEE Equatorial, concessionária responsável pelo abastecimento de luz do estado do Rio Grande do Sul, teve que ser marcada no Twitter para que respondesse ao prefeito. Internautas reclamavam do atendimento automático. Cinco dias depois, porto-alegrenses ainda enfrentavam a falta de luz, água e internet em suas residências. 

Na cidade, os bairros que mais demoraram em restabelecer a energia foram os das periferias, formados, justamente, pela maioria da população negra. Moradores destas regiões realizaram protestos e foram recebidos com tropas de choque e bombas de borracha. O braço do estado que chega para estas populações é o repressor, não o que acolhe e repara a estrutura.

 Os veículos do estado, até o momento de publicação desta análise, não mencionaram que o que ocorre com as populações vulneráveis é um caso de  racismo ambiental, centrando suas coberturas nas consequências da falta de energia elétrica e na queda de árvores pela cidade. 

Os governantes parecem não compreender a gravidade do tema. O prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo afirmou em entrevista ao jornal Sul21, horas antes da primeira chuva, que achava que “o primeiro remédio, o mais eficiente para combater a questão climática, é combater a pobreza”. Já havia feito tal afirmação no Jornal do Almoço de 22 de novembro do ano passado.  Esta posição nega os efeitos do clima e transfere a responsabilidade para o orçamento de cada cidadão. Até os bairros nobres são afetados pelos eventos climáticos extremos, já que não há adequação climática das cidades brasileiras. A Agenda 2030 associa o combate à pobreza e o enfrentamento às mudanças climáticas como aspectos transversais para pensarmos o desenvolvimento sustentável. O problema é achar que somente o combate à pobreza resolve a questão climática. 

As grandes perdas correm com os mais vulneráveis que têm mais dificuldade para reconstruir o que foi destruído. Embora o combate à pobreza possa contribuir com melhor adaptação às mudanças climáticas e, quiçá, com a redução de riscos de desastres, é preciso sublinhar que a crise climática não é causada pela pobreza, como a frase pode dar a entender. São os mais ricos que contribuem mais para as emissões de gases de efeito estufa, que intensificam as mudanças climáticas. Os mais pobres são os mais afetados, mesmo que tenham contribuído muito pouco para o cenário atual. Logo, combater a pobreza não significa, automaticamente, combater as mudanças do clima.

Nas duas entrevistas citadas, o jornalismo não questionou  o prefeito  sobre o significado de combater a pobreza e sobre a falta de políticas para construção de moradias dignas fora de regiões de risco e adequadas aos tempos de eventos extremos.

É necessário que o jornalismo evidencie equívocos dos administradores públicos. A sua atuação deve se pautar pelo interesse público e pela busca dos direitos dos cidadãos. Durante a pandemia a maior parte da imprensa prestou um grande serviço à sociedade e combateu a desinformação. A emergência climática é mais um desafio que precisa ser enfrentado pelo jornalismo, que também, através das informações corretas, estará cumprindo seu papel educativo.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade   Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.