Votação do PL 2159/2021 no dia 16 de julho na Câmara dos Deputados. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**
Nesta última semana, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2159/2021, que fragiliza as regras para o licenciamento ambiental. O chamado PL da devastação agora segue para sanção do presidente Lula, que pode vetar trechos ou todo o texto da proposta. O projeto já tramitava há 21 anos no Congresso e tinha como apoiadores setores da agricultura e da pecuária, como a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), que afirma que as novas regras vão desburocratizar processos para obtenção de licenças ambientais, segundo o portal G1. Os termos “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” estão aparecendo nos editoriais da imprensa hegemônica, enquanto veículos independentes focam na possível destruição ambiental causada pela aprovação.
O portal G1 também menciona o enfraquecimento do licenciamento ambiental e pondera sobre a possibilidade de obras de alto impacto. O portal usa os termos de flexibilização para se referir às normas do PL. Em análises anteriores também no Observatório de Jornalismo Ambiental, na época de outra votação em maio deste ano que tratava sobre o PL, as colegas Eloisa Loose e Nico Costamilan analisaram o posicionamento de três jornais mainstream (Estadão, Folha de São Paulo e O Globo) e entenderam que a ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.
Em Porto Alegre, o Jornal do Comércio, voltado à economia e negócios, republicou a coluna de Edgar Lisboa, em que destacam a flexibilização para implementação de empreendimentos. Em relação à imprensa internacional, o jornal The Guardian afirma que o PL enfraquece drasticamente o licenciamento ambiental.
Já a mídia alternativa, como no caso do Brasil de Fato, critica a medida e sublinha que o projeto aprovado ignora a crise climática e facilita o autolicenciamento para o agronegócio e a mineração. O portal Intercept foca na relação dos congressistas com o meio ambiente, e confirma que esse é a disposição mais anti ambientalista da Câmara na história, mais ainda que no governo Bolsonaro.
*Isabelle Rieger é jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com
**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com
Em novembro de 2025, o Brasil sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), reunindo líderes globais para discutir o enfrentamento da crise climática. Para além das discussões acerca da mitigação, adaptação, financiamento e transição energética justa, o preparo e o gerenciamento da COP-30, em Belém, no Pará, têm sido intensamente discutidos e criticados no país e internacionalmente, especificamente no que tange como o país sede da conferência lida com a emergência climática em seu próprio território. O jornal alemão DW já questionou: “O Brasil está abandonando suas promessas climáticas?”. A menos de cinco meses da COP-30, também discutem-se as armadilhas diplomáticas que precisarão ser desfeitas para o avanço em acordos climáticos centrais como a eliminação dos combustíveis fósseis e a redução do desmatamento.
No começo de 2025, se confirmou a construção da estrada de quatro faixas que cortará dezenas de milhares de hectares da Floresta Amazônica. Segundo o governo, a ação se deve para facilitar o trânsito do evento que vai receber mais de 50 mil pessoas. O fato não repercutiu de forma positiva na cobertura internacional pela incoerência com as políticas ambientais que precisam ser tomadas pelo Brasil, tendo sido motivo de piada em Portugal em comentário na Rádio Comercial.
A repercussão negativa cresceu no mês de julho com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, chamado de “Lei da Devastação”. No jornal português Público, é referida essa aprovação, dizendo que “coloca o presidente Lula numa “saia justa” perante a comunidade internacional”. No espanhol El País, a aprovação foi considerada uma “ameaça ao planeta”. O jornal The Guardian explica que essa proposta desmantela a regulamentação “na agricultura, na mineração e na energia, aumentando o risco de destruição generalizada” indo contra os compromissos do país no combate às mudanças climáticas.
Apesar da diminuição do desmatamento em 32% no ano passado, segundo o MapBiomas, o governo decepcionou ambientalistas em outras áreas, especialmente pela defesa à exploração de petróleo. O jornal britânico ainda refere-se ao Brasil como realizador de um “leilão do direito à exploração de petróleo meses antes de sediar a Cúpula Climática da ONU”, ação apoiada pelo presidente Lula que visa transformar o país no quarto produtor de petróleo do mundo.
Com a repercussão internacional em grande parte negativa sobre o gerenciamento de pautas e o planejamento técnico do Brasil para sediar a cúpula, questiona-se, a partir desses espaços de cobertura, quais as reais possibilidades e contradições que um evento desse porte evidencia. Mais do que isso, nos mostra quais são os verdadeiros desafios políticos e econômicos que rondam o debate acerca das disputas climáticas vigentes na COP-30.
* Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática e no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com
** Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com
Em uma semana dominada por notícias sobre os reflexos econômicos do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a relação com a tornozeleira de Jair Bolsonaro, pautas sobre questões climáticas e a COP-30 perderam espaço na imprensa brasileira.
No entanto, uma importante matéria da jornalista Eliane Oliveira, publicada nas edições impressa e digital de O Globo no dia 23 de junho, indica que a pressão do presidente dos Estados Unidos por mais gastos militares de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça verbas contra mudança climática na COP. Ela informa que os gastos militares totalizaram cerca de R$15,3 trilhões em 2024, considerando a soma dos valores de todos os países. A meta de investimento para combater a crise climática é chegar a “algo em torno de R$7 trilhões por ano, até 2035, conforme acordado em 2024, durante a COP-29, no Azerbaijão”.
Conforme a matéria, embaixadores europeus e o presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, expressaram a preocupação de que essa realocação de verbas possa ter um impacto direto nos investimentos ambientais, inclusive nas preparações e nos resultados da COP-30, que será sediada em Belém, no Brasil, em novembro.
A diretora-executiva da COP, Ana Toni, uma das entrevistadas por Oliveira, metaforicamente descreve a crise climática como uma “guerra silenciosa” que intensifica a pobreza e a desigualdade, argumentando que os conflitos comerciais e militares não só causam destruição, mas também desviam fundos da “batalha mais urgente” contra as mudanças climáticas.
A entrevistada ainda afirma que o setor de defesa contribui para as emissões de gases poluentes, mas suas emissões não são contabilizadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o que impede um monitoramento completo de seu impacto ambiental. Neste ponto, percebe-se um bom aproveitamento do espaço editorial para analisar um elemento que pode ser significativo nos cálculos sobre o tempo que nos resta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Afinal, é preciso considerar que ultrapassamos o limite de 1,5ºC acima da média pré-industrial seis anos antes do previsto pelo IPCC. Ainda que não esteja configurada uma nova média, o pico antecipado acima de 1.5ºC é preocupante e precisa ser considerado um fator relevante para revisões de cenários.
As guerras, assim como os gastos militares ampliados, precisam ser inseridos nos cálculos, pois podem representar mais emissões de gases poluentes e menos recursos para ajudar a solucionar a crise climática.
Outro ponto relevante da matéria é o fato de que manter em pauta questões climáticas, mesmo sem a relação direta com notícias factuais – em especial as tragédias -, é positivo. Isso ajuda a contextualizar o tema a partir de uma perspectiva sistêmica, um pressuposto do Jornalismo Ambiental que busca superar a fragmentação e a descontinuidade da cobertura jornalística.
*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) no RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**
A preocupação com a geopolítica, quando o assunto é a realização da 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) em Belém, acendeu o alerta sobre os desafios que estão postos, entre eles, a postura do presidente Trump ao retirar novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris. A tarefa do Brasil como país sede e um dos líderes do debate climático é ainda maior, como analisado pelo site Brasil de Fato, em função da necessidade de que os BRICS, bloco econômico que reúne países emergentes ao redor do mundo, sejam atraídos para a pauta ambiental, fazendo frente aos desafios globais.
Na primeira semana de julho, os países do BRICS enviaram um importante recado à comunidade internacional: países do Norte Global teriam que assumir mais protagonismo e responsabilidade na luta contra o aquecimento global. Em uma declaração divulgada em conjunto, o bloco cobra a ampliação da participação dos países mais ricos nas metas de financiamento climático, reivindicando US$1,3 trilhões de dólares em investimento até a COP-30.
Esse apelo relembra uma dura realidade: enquanto os países do Norte Global estão entre os que mais emitem gases de efeito estufa, quem ainda está mais vulnerável aos efeitos da crise climática são os países do Sul Global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, queimadas mais constantes e destrutivas afetam cada vez mais regiões que, como a América Latina, já enfrentam desigualdades sociais profundas.
O governo brasileiro busca influenciar o debate para a questão climática com várias iniciativas, como noticiou o portal G1, quando o presidente Lula pautou o tema junto ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Também o site Opera Mundi relatou os esforços do Brasil em dar prioridade para o debate climático em razão da realização da COP, até mesmo como uma bandeira da política externa do governo federal. No entanto, a pauta econômica é ainda o foco principal da atualidade, especialmente pelo aumento de tarifas ao comércio internacional, impostas pelo governo estadunidense, o que dificulta que o meio ambiente receba maior ênfase entre os desafios regionais dos blocos econômicos e políticos.
Vale lembrar que os países latino-americanos, mais que apenas vulneráveis ao aquecimento global, também aparecem como protagonistas na busca por soluções para esta crise. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes, o continente latino-americano tem uma das regiões mais biodiversas do planeta. Sediar a COP-30 dentro da maior floresta tropical do mundo não é apenas importante simbolicamente, mas estrategicamente. Assim, podemos dizer que a COP-30 representa um espaço mais plural aos países latino-americanos e reacende uma integração regional em torno da luta contra as mudanças climáticas.
A América Latina pode se tornar referência em um desenvolvimento verde, mais justo e que respeite suas especificidades sociais, culturais, econômicas e ecológicas. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), 60% da eletricidade da América Latina é gerada a partir de energia renovável, posicionando-a como uma das redes elétricas mais limpas do mundo. Países como Brasil, México e Chile lideram o caminho para diversificação de fontes de energia eólicas e solares. A agroecologia, por sua vez, também está se enraizando cada vez mais nos países latino-americanos. Um estudo realizado em quase duas mil propriedades rurais na América Central constatou que os locais onde são implementadas práticas agroecológicas têm um solo mais arável, com mais umidade e menos erosão, e sofrem menos perdas do que os sistemas convencionais. A agroecologia representa uma alternativa ao modelo agroindustrial e propõe novas economias centrada no cuidado das pessoas e da natureza.
A COP-30 pode ser o recomeço para pensarmos em uma sustentabilidade menos colonialista. Enquanto não olharmos para quem mais sofre com as mudanças climáticas, não poderemos desenvolver ações mais justas e eficazes para enfrentá-las. Ser mais sustentável talvez tenha a ver com assumir a latinidade de forma ampla, o que inclui perceber a rica diversidade biológica e cultural, seus povos originários, as influências diversas e saberes construídos coletivamente. Para o jornalismo ambiental importa trazer esse debate de forma aprofundada, pautando o papel da América Latina, como tratado por Um Só Planeta. A inclusão de um sentido de engajamento regional ao enfrentamento da crise climática passa por entender os caminhos possíveis desde os nossos territórios.
**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.
Proferida em 26 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determina a remoção proativa de conteúdos ilegais pelas plataformas digitais deu novo fôlego à discussão sobre os limites e responsabilidades desses serviços. No jornalismo ambiental, que se baseia no princípio da precaução, o tempo das redes é incompatível com o do bom exercício profissional. Assim, a tensão entre o jornalismo e as big techs já mereceria atenção porque a lógica das redes confunde, distrai e aliena, prejudicando o entendimento sobre a complexidade do mundo e sobre a conexão entre os fenômenos.
Contudo, há também um impacto material que precisa ser repercutido pelo jornalismo: a infraestrutura necessária para processar o volume cada vez maior de dados compartilhados através de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X e Youtube – potencializados pela popularização da inteligência artificial generativa.
Por isso, é oportuna a série de reportagens “A boiada da IA”, do site The Intercept Brasil em colaboração com a AI Accountability Network, iniciativa do Pulitzer Center. Assinado por Laís Martins, o especial investiga o impacto de projetos para instalação de data centers no Brasil. Os data centers são edificações que demandam uso intensivo de recursos naturais – da energia para que suas máquinas sejam capazes de atender aos comandos dos usuários de serviços digitais à água para resfriar os equipamentos.
A quarta reportagem da série, publicada em 23 de junho, revela o projeto de instalação de data center no município gaúcho de Eldorado do Sul, que teve mais de 80% das residências atingidas pelas inundações de maio de 2024. Chama a atenção a aquisição, pela empresa Scala AI, de terreno fora da área de risco de alagamento enquanto a população afetada pelo desastre segue no aguardo de moradias em lugar seguro. O poder público, por sua vez, se limita a comemorar a transformação do município em um polo tecnológico.
Segundo a quinta reportagem, publicada em 3 de julho, um projeto de data center no município cearense de Caucaia estima que o consumo diário de energia das instalações será equivalente ao consumo diário residencial de 2,2 milhões de brasileiros. Quem assina oficialmente o projeto é a empresa Casa dos Ventos, mas investigação anterior do site apontou que a empresa chinesa ByteDance, dona do TikTok, é quem irá ocupar as instalações.
A reportagem acerta ao ponderar a alegação da Casa dos Ventos de que o abastecimento de energia será realizado por parques eólicos e solares. Afinal, o fato de a geração de energia não causar a emissão de gases de efeito estufa não significa geração sem impactos ambientais. É papel do jornalismo se debruçar sobre as consequências, na vida da população, de iniciativas do setor privado e de decisões políticas que as corroboram.
Por isso, mais investigações jornalísticas são bem-vindas para ajudar o público a dimensionar a crescente presença da inteligência artificial e das plataformas digitais em nosso cotidiano – inclusive suas repercussões ambientais.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.
A pouco mais de quatro meses da COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil e tem como sede Belém, os altos preços de hospedagem na capital do Pará têm sido um entrave debatido em âmbito internacional. A situação foi amplamente discutida no encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que encerrou em 26 de junho em Bonn, na Alemanha. Os preços de locações estão três vezes mais altos do que a média cobrada em conferências dos anos anteriores, condição que pode prejudicar a participação dos países e delegações ativistas da sociedade civil que apresentam menos recursos financeiros. O governo federal chegou a anunciar uma plataforma de hospedagem que concentraria informações mais detalhadas, mas, até o momento, não houve avanços, gerando incertezas de ONGs e órgãos internacionais sobre a vinda ao evento.
Os impasses decorrentes da situação foram divulgados pela imprensa, mas em grande parte, principalmente nos veículos hegemônicos, apenas tratando da crise diplomática e de como o país está sendo visto internacionalmente. Entre as notícias analisadas sobre o tema nas últimas semanas, de 25 de maio a 1º de julho, O Globo trouxe a informação de que, caso não haja rapidez na solução para hospedagem, o Brasil pode receber a formalização de um pedido de mudança de sede da conferência.
No entanto, verificou-se que a cobertura prioriza a tensão entre o setor hoteleiro, o governo federal e os relatos de representantes de delegações internacionais, com declarações e posicionamentos entre a Secretaria Nacional do Consumidor, o Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA). Uma das matérias encontradas para esta análise ouviu um representante de uma ONG internacional ambientalista, que afirma temer que o cenário impossibilite a participação de países em desenvolvimento na discussão do financiamento climático.
O Estadão tratou dos desafios logísticos da conferência, como falta de leitos e alto preço cobrado das estadias, o que levaria delegações a reduzir o tamanho de participantes. Porém, apesar da infraestrutura ter problemas,a presidência do Brasil para o evento foi “muito bem vista” nas reuniões preparatórias para a COP realizadas em Bonn. O destaque dado para a visão da presidência reforça a ideia de que o problema da hospedagem é algo que tem menor peso diante das vantagens de trazer o evento para a Amazônia. Isso também pode ser refletido em matéria do UOL, que traz fala do presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, em Bonn, minimizando as dificuldades decorrentes dessa questão, afirmando que a “dimensão simbólica” do evento é mais importante. Essa ideia ignora os impasses econômicos e sociais existentes em Belém e que colocam em risco a participação popular e acessível nas discussões climáticas, pelos visíveis problemas logísticos e de infraestrutura, ressaltando a imagem que o país pode passar.
Apenas uma reportagem do Estadão voltou-se para as dificuldades financeiras impedirem as participações ao ouvir um embaixador da Noruega, país que mais doa para o Fundo Amazônia, que afirma que os altos custos em Belém são motivo de preocupação, com risco real de que muitos países e representantes da sociedade civil não consigam arcar com os custos de participação. A matéria afirma que lideranças de outros países, como China, Alemanha e Reino Unido, têm expressado ao governo brasileiro temores sobre a infraestrutura para receber as comitivas oficiais e representantes da sociedade civil.
A Folha de S.Paulo informou sobre o atraso da plataforma de hospedagem da COP-30, e que países enviaram cartas expressando preocupação quanto às acomodações, mas não recebem respostas adequadas do Brasil. Uma fonte ouvida pela reportagem, que representa organizações civis, comenta que a questão do alojamento também envolve inclusão, mas o comentário é breve.
Outra matéria, também priorizando as polêmicas, relata que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou cada um dos grandes hotéis da cidade, pedindo dados detalhados sobre a evolução anual das tarifas e comparações entre os valores praticados na festa anual do Círio de Nazaré, e em resposta, o Sindicato dos Hotéis acusou o governo federal de querer fazer “imposição de preços”.
A mídia alternativa expandiu a pauta para debater as consequências de uma possível ausência de atores-chave na tomada de decisões na conferência por conta dos altos valores. O portal Sumaúma, além de informar que os encontros fechados em Bonn levantaram dúvidas sobre a viabilidade da realização da COP em Belém e que países podem formalizar pedido para a mudança da sede, também lembrou que os preços em Belém são três vezes mais altos do que a média cobrada nas conferências passadas, podendo inviabilizar a participação dos países com menos recursos e de ativistas da sociedade civil.
Uma matéria do Brasil de Fato destacou como os problemas logísticos podem afetar ambientalistas e ativistas que não dispõem de financiamento, gerando incerteza sobre quem conseguirá participar. Ainda chama a atenção para o fato dos recursos estarem sendo empregados na faixa da cidade com infraestrutura já consolidada, ressaltando que os leitos provisórios não darão origem a habitações permanentes.
A matéria traz o debate da falta de política habitacional para Belém ao detalhar que, ao mesmo tempo que é a segunda capital do Brasil com aluguel mais caro – com o risco de que o valor do aluguel siga alto após a conferência –, mais da metade da população da região metropolitana vive em favelas com ausência de sistema de esgoto e abastecimento de água, convivendo com o racismo ambiental. Este Observatório já identificou como as desigualdades estão presentes na cobertura preparatória da COP-30.
A escolha de Belém como sede da COP-30 representa um momento simbólico para o país. Ainda que os desafios logísticos possam acontecer em outras conferências e em outros países, é pertinente recordar que a capital é uma das que sofre com a emergência climática e com a injustiça ambiental. Essa realidade reforça a necessidade de atenção de autoridades para a cidade, não apenas para uma conferência – como o fato da capital do Pará estar “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento, para drenagem pluvial e urbanização de ruas, que são essenciais para minimizar alagamentos, como retrata reportagem do Infoamazônia em parceria com a Carta Amazônia, mas que foram paralisadas diversas vezes ao longo de quase três décadas.
Mais do que evidenciar as capacidades de uma cidade sediar ou não um evento internacional, cabe sublinhar que as manifestações da sociedade civil são parte das COPs. O impedimento da participação em razão dos altos custos de acomodação é mais uma barreira impedindo um debate mais amplo do enfrentamento acerca da emergência climática. Do que adianta trazer uma COP para o Brasil se até mesmo os brasileiros estão sendo afastados da conferência? Afinal, esta COP é para quem?
* Jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: leticiampasuch@gmail.com.
** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
Este artigo não é sobre Dubai, nem tampouco sobre a Porto Alegre em si, mas trata de uma das possíveis causas das constantes inundações que afetam a capital gaúcha, para que possamos refletir sobre a ação humana e a importância de uma comunicação não ludibriada com as obras de expansão, que acabam sendo “naturalizadas” nos cenários urbanos e modernos das cidades.
A afirmação “Porto Alegre já era Dubai antes de Dubai ser Dubai” é uma hipérbole que compara o desenvolvimento da capital gaúcha com o da cidade árabe, especialmente em relação a grandes projetos de aterro e urbanização. Em Porto Alegre foram muitas etapas de aterramentos. Os primeiros, ocorreram no século 19 com pequenos avanços e depois foram feitas ampliações significativas no centro histórico e na zona portuária. Na década de 1950, houve um grande projeto de aterramento na Avenida Praia de Belas, iniciado em 1956. Além disso, a expansão para as zonas Sul e Norte também ocorreu e foi concluída até o final de 1970.
As maiores áreas de aterros foram construídas após a famosa enchente de 1941, um evento com o qual muitos consideravam que nunca encontrariam, mas que voltou a assombrar a população em maio de 2024, quando o estado do Rio Grande do Sul — e, em especial, sua capital — enfrentou a maior catástrofe de sua história. A imprensa, naquele momento, acabou trazendo o tema à tona, mas isso não serviu nem para uma mudança de postura da população com relação ao rio e muito menos para a discussão e ação política.
A imagem abaixo mostra o tamanho do problema em 2024 onde todas as áreas de aterro da capital alagaram:
Imagem da publicação no Instagram nas páginas de @portoalegreoficial e @portoalegre com o seguinte título: Todos os ATERROS de Porto Alegre ALAGARAM. Publicação de 2024. Disponível no link: https://www.instagram.com/p/C7WZHHPuGue/?hl=pt
Nesta semana novos alagamentos ocorreram, apesar do cenário ser diferente do registrado em abril de 2024, quando os acumulados chegaram a 800 milímetros de chuva concentrados, comparados aos cerca de 500 milímetros deste ano.
Porém, a pane voltou a se instaurar entre os habitantes das áreas aterradas e a imprensa passou a monitorar a pauta e publicar todo o tempo matérias em nível local e nacional, como pode ser acompanhado pelo link: https://goo.su/qT6t39X
O que as pessoas não levam em conta é que o rio volta a tomar o seu curso um dia e que as mudanças climáticas existem e se tornaram parte da rotina diária dos humanos, que invadiram os espaços e os recursos hídricos em prol do progresso.
Chegou a hora da Dubai Gaúcha, Porto Alegre, enfrentar o clima novamente. É a natureza cobrando as ações humanas que seguem desenfreadas. Nesta semana, os humanos que vivem nestas terras seguem “tremendo nas bases” porque a busca por modernizar a área central e expandir a área urbana fizeram com que a água do Lago Guaíba e a ampliação do vento Sul novamente alagasse a parte mais próxima a ele.
Como ressalta Canclini em Cidadãos Substituídos por Algoritmos, as mudanças que fizemos inadvertidamente acabaram comprometendo todo o sistema e agora enfrentamos um colapso ecológico. Para enfrentar o clima é preciso a mudança de postura, inclusive da imprensa que praticamente não tocou no tema dos aterramentos diante das catástrofes das enchentes neste ano.
Ou seja, mesmo que os alagamentos voltem a ocorrer em áreas que foram aterradas e se tornem o centro das preocupações da população, as consequências, a cada novo evento climático que ocorre, são o centro dos debates e das ações midiatizadas, mas as causas, no caso os aterramentos, não voltam às discussões políticas e nem como manchetes na imprensa.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental
Em junho de 2025, a retirada de cerca de 400 bois criados ilegalmente dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, reacendeu o debate sobre os limites da conservação, a ocupação ilegal da Amazônia e a atuação do Estado. A ação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) ocorreu após um aumento expressivo de 56% no desmatamento da área protegida, apenas nos primeiros meses deste ano.
A repercussão foi imediata, tanto na imprensa local quanto na nacional, mas revelou divergências importantes no modo como os veículos narraram o conflito: para alguns, tratou-se de uma ação legítima de fiscalização ambiental; para outros, uma medida “agressiva” contra pequenos produtores. Esse jogo de enquadramentos, omissões e disputas narrativas revela muito sobre a fragilidade da cobertura ambiental no Brasil.
Criada em 1990, a Reserva Chico Mendes é símbolo do movimento extrativista e da luta de seringueiros liderados por Chico Mendes. Contudo, nos últimos anos a área tem sofrido com invasões, grilagem e uso ilegal para pecuária extensiva, uma atividade incompatível com as finalidades da reserva.
O ICMBio já havia alertado sobre o avanço da atividade ilegal, mas a reação à operação de retirada dos bois gerou polarização na cobertura midiática. Em especial, veículos locais destacaram o descontentamento de moradores que alegam “falta de alternativa econômica”, enquanto a imprensa nacional se concentrou em contextualizar a ação como necessária diante da pressão ambiental.
O que diz a cobertura jornalística?
Uma análise preliminar mostra que:
● Agências internacionais (como a AP) destacaram a divisão entre moradores da reserva: alguns denunciam a degradação ambiental, outros defendem a pecuária como único sustento possível.
● Veículos nacionais como O Globo e Folha abordaram a operação com foco institucional, destacando a ação do ICMBio, mas sem aprofundar as causas estruturais do desmatamento ou o histórico de flexibilização da proteção na área.
● Faltam vozes extrativistas e de lideranças locais comprometidas com o uso sustentável, que poderiam oferecer uma visão mais equilibrada sobre os conflitos na reserva. Além disso, poucos veículos contextualizaram o episódio com o cenário político mais amplo, como a pressão de setores do agronegócio e do legislativo por mudanças no status de áreas protegidas e a necessidade de implementar uma reforma agrária mais ampla para fornecer alternativa econômica a trabalhadores da produção familiar
O que falta ser dito?
A operação do ICMBio é importante, mas o foco da imprensa ainda tende a girar em torno do “choque” da remoção, com pouca análise estrutural. Algumas lacunas na cobertura merecem atenção:
● Quais políticas públicas sustentam a permanência do extrativismo na reserva?
● O Estado oferece alternativas reais à pecuária ilegal dentro da unidade?
● Quem ocupa hoje essas terras e qual a origem do avanço do gado?
● Qual a cobertura histórica da imprensa sobre os sucessivos ataques à Reservas Extrativistas (RESEX) ?
Sem ao menos essas questões, o risco é cair na armadilha do factual isolado onde a retirada dos bois parece uma ação repentina e sem contexto, e a ocupação irregular da área protegida é tratada como um problema pontual, naturalizando práticas como a supressão vegetal e o avanço da pecuária como algo inevitável ou até mesmo cultural.
O episódio da retirada de bois da Reserva Chico Mendes não é apenas uma questão de fiscalização ambiental. É um retrato de um embate antigo entre dois modelos: o do extrativismo sustentável, coletivo e histórico e o da apropriação individualista baseada na criação de gado, no lucro e na devastação.
O jornalismo ambiental tem o dever de ir além das versões oficiais e buscar as vozes dos territórios, dos defensores da floresta e daqueles que lutam por uma Amazônia viva. Contar essa história melhor, com profundidade, memória e justiça é parte do papel de um jornalismo comprometido com o futuro.
* Mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Atualmente, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI) da UEPG e o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental da UFRGS. Desenvolve pesquisas voltadas para a cobertura jornalística, insegurança alimentar, desigualdades sociais, meio ambiente e mudanças climáticas.
O debate climático internacional tem se concentrado em temas como desmatamento, emissões industriais e transição energética. No entanto, os conflitos armados também representam uma fonte relevante de emissões de gases de efeito estufa e devem ser considerados nas negociações climáticas multilaterais. A imposição da guerra de Israel contra a população palestina em Gaza chama a atenção tanto pelo volume de emissões gerado quanto pela complexidade da reconstrução.
Diante disso, a inclusão desse tipo de impacto no debate climático ganhou visibilidade com a recente missão humanitária internacional que chegou a Gaza por via marítima. A iniciativa envolve ativistas de diferentes países, entre eles nomes como Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila. A missão foi interceptada por Israel, evidenciando os abusos e arbitrariedades das autoridades locais.
Greta Thunberg e seus colegas foram deportados. A jovem ativista, conhecida mundialmente por sua luta climática, passou a ser alvo de críticas por se manifestar em defesa da Palestina, “mas, na realidade, as causas andam intimamente ligadas”, conforme analisaLeo Sakamoto. Em sua coluna divulgada nas redes sociais do portal UOL, Sakamoto situa que a mudança climática pode ser considerada um tema urgente, mas é difuso, enquanto que falar contrariamente ao genocídio em Gaza é um tema silenciado. Desta forma chovem críticas à ambientalista sueca. A própria Greta Thunberg explicou que sua preocupação ambiental não é apenas para “salvar árvores”, mas que se importa com o bem- estar humano e planetário, afirmando que não há justiça climática sem justiça social.
A guerra mata inocentes e também ajuda ao declínio das condições ambientais da Terra. Segundo reportagem do portal “Um Só Planeta”, a ofensiva militar israelense em Gaza, entre outubro de 2023 e maio de 2024, foi responsável pela emissão de aproximadamente 281 mil toneladas de CO₂ equivalente. Esse volume supera as emissões anuais de mais de 100 países, conforme levantamento do “Social Justice and Ecology Secretariat”. De acordo com o estudo, as principais fontes dessas emissões foram os ataques aéreos, o deslocamento de tropas e o uso de equipamentos militares.
Além das ações militares, os impactos ambientais se estendem ao processo de reconstrução. Dados reunidos pelo portal “ClimaInfo” estimam que a reconstrução da infraestrutura de Gaza poderá gerar emissões superiores às de 135 países em um ano. O cálculo considera as atividades necessárias para reerguer cidades destruídas, incluindo o transporte de materiais, produção de cimento e geração de energia.
Esses aspectos revelam que os efeitos da guerra ultrapassam os limites da destruição imediata. Eles se projetam no ambiente e deixam marcas no território e no clima. Ao mesmo tempo, reforçam a compreensão de que seres humanos e natureza não estão desassociados, pois os impactos sobre um inevitavelmente repercutem no outro. Como lembra o pensador indígena Ailton Krenak, “a ideia de que a humanidade está separada da natureza é uma ficção moderna que tem custado caro ao planeta e à vida”. Em contextos de conflito, a degradação ambiental e as condições de vida humana caminham lado a lado, demonstrando que é preciso considerar essas relações de forma integrada.
Sakamoto destaca que, segundo Greta Thunberg, o genocídio em Gaza aplica a destruição ambiental como arma de guerra, provocando perda de biodiversidade, contaminação da água, erosão do solo, destruição de terras agrícolas, e uso ainda mais intenso de combustíveis fósseis. Porém, o tratamento destas questões nos veículos de comunicação ainda é muito pontual, circulando apenas entre colunistas e portais não hegemônicos, como nesta repercussão na Pública. Chama a atenção, portanto, que grande parte da imprensa deixe de lado essa interseção entre clima e guerras, ações de poderosos que são totalmente inaceitáveis pelos danos aos direitos humanos, sociais e ambientais nos territórios afetados.
Discutir esta questão em fóruns como a COP 30, em Belém (PA), representa uma oportunidade para ampliar o entendimento da variável climática nos assuntos de segurança, geopolítica e desenvolvimento. Este tema deve fazer parte do debate público e contribuir para fortalecer a abordagem da justiça climática, conceito que tem ganhado espaço nas edições recentes das conferências. Para além disso, é necessário pensar em uma transição ambiental justa e que situe a dignidade da vida humana em todos os territórios. O respeito à diversidade deve orientar humanistas e ativistas em defesa da ação climática, da justiça e da paz. Também a comunicação precisa se pautar pela ética da sustentabilidade e da vida.
* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, bolsista do PET Educom Clima E-mail: weber.julia@acad.ufsm.br.
** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.
“Não haverá futuro possível sem os povos indígenas no centro das decisões globais. Ignorar os povos indígenas é comprometer qualquer chance real de enfrentar a crise climática”, essa é a essência da primeira NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) indígena, uma decisão política elaborada na Pré-COP Indígena, um encontro que reuniu 30 organizações indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil, entre 2 e 5 de junho, em Brasília (DF).
O documento, conforme notícia, exige que os Estados-membros da Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheçam a proteção dos territórios indígenas como ação climática prioritária. Também defende a criação de zonas livres de exploração extrativista em terras indígenas e a incorporação dos saberes tradicionais como estratégia legítima de restauração ambiental.
Como o evento citado acima, outros tantos têm acontecido no Brasil para a organização da participação dos movimentos sociais na COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil, em novembro de 2025, em Belém, Pará. O site Amazônia Real destaca que os movimentos sociais e organizações da sociedade civil da Amazônia, da América Latina e do mundo têm protagonizado uma mobilização histórica para garantir que as vozes dos territórios mais afetados pela crise climática sejam ouvidas nos espaços de decisão do evento. Além de serem ouvidos, eles exigem participar das decisões globais que estarão acontecendo durante o evento.
Paralelamente, a conferência mundial acontecerá a Cúpula dos Povos rumo à COP30, com a participação de 700 entidades representando indígenas, ribeirinhos, quilombolas, população negra, juventudes periféricas. Mais de 15 mil pessoas são esperadas na Cúpula dos Povos. “Queremos discutir soluções reais para os problemas ambientais e sociais sem nos limitarmos ao debate técnico, como as relacionadas à transição energética justa ou infraestrutura de matriz energética” destaca Iury Paulino, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Além das atividades previstas no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, a Cúpula dos Povos também pressiona por metas climáticas mais ambiciosas e pelo fim da presença de lobistas dos combustíveis fósseis nas COPs . Essas pautas são complexas, e mais do que citadas precisam ser debatidas pelos veículos de comunicação jornalísticos. Grandes interesses estão em jogo, e falar em profundidade sobre o assunto exige coragem.
Como diz texto da Folha de S. Paulo, a Cúpula dos Povos cobra decisões eficazes para o enfrentamento da crise climática, além de retomar o protagonismo da sociedade civil.
Enfim, espera-se uma COP diferente, e a imprensa, principalmente os veículos focados nas questões ambientais, tem destacado este grito dos povos da floresta para fazerem parte de forma efetiva das decisões mostrando, que são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Na grande imprensa, as vozes dos movimentos sociais ainda está tímida. Mas, ainda há tempo para que a imprensa, se prepare para cobrir o evento com a criticidade e complexidade necessária. Pela primeira vez o evento acontece em solo amazônico, o que já é diferencial, e os veículos de comunicação podem fazer uma cobertura que vá além das reuniões das grandes cúpulas e repercuta as pautas e reivindicações dos povos tradicionais.
* Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).