Observatório de Jornalismo Ambiental

IA também pode ser pauta para o jornalismo ambiental

Foto: Freepik

Por Débora Gallas*

Proferida em 26 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determina a remoção proativa de conteúdos ilegais pelas plataformas digitais deu novo fôlego à discussão sobre os limites e responsabilidades desses serviços. No jornalismo ambiental, que se baseia no princípio da precaução, o tempo das redes é incompatível com o do bom exercício profissional. Assim, a tensão entre o jornalismo e as big techs já mereceria atenção porque a lógica das redes confunde, distrai e aliena, prejudicando o entendimento sobre a complexidade do mundo e sobre a conexão entre os fenômenos.

Contudo, há também um impacto material que precisa ser repercutido pelo jornalismo: a infraestrutura necessária para processar o volume cada vez maior de dados compartilhados através de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X e Youtube – potencializados pela popularização da inteligência artificial generativa.

Por isso, é oportuna a série de reportagens “A boiada da IA”, do site The Intercept Brasil em colaboração com a AI Accountability Network, iniciativa do Pulitzer Center. Assinado por Laís Martins, o especial investiga o impacto de projetos para instalação de data centers no Brasil. Os data centers são edificações que demandam uso intensivo de recursos naturais – da energia para que suas máquinas sejam capazes de atender aos comandos dos usuários de serviços digitais à água para resfriar os equipamentos.

A quarta reportagem da série, publicada em 23 de junho, revela o projeto de instalação de data center no município gaúcho de Eldorado do Sul, que teve mais de 80% das residências atingidas pelas inundações de maio de 2024. Chama a atenção a aquisição, pela empresa Scala AI, de terreno fora da área de risco de alagamento enquanto a população afetada pelo desastre segue no aguardo de moradias em lugar seguro. O poder público, por sua vez, se limita a comemorar a transformação do município em um polo tecnológico.

Segundo a quinta reportagem, publicada em 3 de julho, um projeto de data center no município cearense de Caucaia estima que o consumo diário de energia das instalações será equivalente ao consumo diário residencial de 2,2 milhões de brasileiros. Quem assina oficialmente o projeto é a empresa Casa dos Ventos, mas investigação anterior do site apontou que a empresa chinesa ByteDance, dona do TikTok, é quem irá ocupar as instalações.

A reportagem acerta ao ponderar a alegação da Casa dos Ventos de que o abastecimento de energia será realizado por parques eólicos e solares. Afinal, o fato de a geração de energia não causar a emissão de gases de efeito estufa não significa geração sem impactos ambientais. É papel do jornalismo se debruçar sobre as consequências, na vida da população, de iniciativas do setor privado e de decisões políticas que as corroboram.

Por isso, mais investigações jornalísticas são bem-vindas para ajudar o público a dimensionar a crescente presença da inteligência artificial e das plataformas digitais em nosso cotidiano – inclusive suas repercussões ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

O valor da hospedagem em pauta: Quais são as implicações para o enfrentamento climático?

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

A pouco mais de quatro meses da COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil e tem como sede Belém, os altos preços de hospedagem na capital do Pará têm sido um entrave debatido em âmbito internacional. A situação foi amplamente discutida no encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que encerrou em 26 de junho em Bonn, na Alemanha. Os preços de locações estão três vezes mais altos do que a média cobrada em conferências dos anos anteriores, condição que pode prejudicar a participação dos países e delegações ativistas da sociedade civil que apresentam menos recursos financeiros. O governo federal chegou a anunciar uma plataforma de hospedagem que concentraria informações mais detalhadas, mas, até o momento, não houve avanços, gerando incertezas de ONGs e órgãos internacionais sobre a vinda ao evento. 

Os impasses decorrentes da situação foram divulgados pela imprensa, mas em grande parte, principalmente nos veículos hegemônicos, apenas tratando da crise diplomática e de como o país está sendo visto internacionalmente. Entre as notícias analisadas sobre o tema nas últimas semanas, de 25 de maio a 1º de julho, O Globo trouxe a informação de que, caso não haja rapidez na solução para hospedagem, o Brasil pode receber a formalização de um pedido de mudança de sede da conferência. 

No entanto, verificou-se que a cobertura prioriza a tensão entre o setor hoteleiro, o governo federal e os relatos de representantes de delegações internacionais, com declarações e posicionamentos entre a Secretaria Nacional do Consumidor, o Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA). Uma das matérias encontradas para esta análise ouviu um representante de uma ONG internacional ambientalista, que afirma temer que o cenário impossibilite a participação de países em desenvolvimento na discussão do financiamento climático.

O Estadão tratou dos desafios logísticos da conferência, como falta de leitos e alto preço cobrado das estadias, o que levaria delegações a reduzir o tamanho de participantes. Porém, apesar da infraestrutura ter problemas, a presidência do Brasil para o evento foi “muito bem vista” nas reuniões preparatórias para a COP realizadas em Bonn. O destaque dado para a visão da presidência reforça a ideia de que o problema da hospedagem é algo que tem menor peso diante das vantagens de trazer o evento para a Amazônia. Isso também pode ser refletido em matéria do UOL, que traz fala do presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, em Bonn, minimizando as dificuldades decorrentes dessa questão, afirmando que a “dimensão simbólica” do evento é mais importante. Essa ideia ignora os impasses econômicos e sociais existentes em Belém e que colocam em risco a participação popular e acessível nas discussões climáticas, pelos visíveis problemas logísticos e de infraestrutura, ressaltando a imagem que o país pode passar. 

Apenas uma reportagem do Estadão voltou-se para as dificuldades financeiras impedirem as participações ao ouvir um embaixador da Noruega, país que mais doa para o Fundo Amazônia, que afirma que os altos custos em Belém são motivo de preocupação, com risco real de que muitos países e representantes da sociedade civil não consigam arcar com os custos de participação. A matéria afirma que lideranças de outros países, como China, Alemanha e Reino Unido, têm expressado ao governo brasileiro temores sobre a infraestrutura para receber as comitivas oficiais e representantes da sociedade civil.

A Folha de S.Paulo informou sobre o atraso da plataforma de hospedagem da COP-30, e que países enviaram cartas expressando preocupação quanto às acomodações,  mas não recebem respostas adequadas do Brasil. Uma fonte ouvida pela reportagem, que representa organizações civis, comenta que a questão do alojamento também envolve inclusão, mas o comentário é breve. 

Outra matéria, também priorizando as polêmicas, relata que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou cada um dos grandes hotéis da cidade, pedindo dados detalhados sobre a evolução anual das tarifas e comparações entre os valores praticados na festa anual do Círio de Nazaré, e em resposta, o Sindicato dos Hotéis acusou o governo federal de querer fazer “imposição de preços”. 

A mídia alternativa expandiu a pauta para debater as consequências de uma possível ausência de atores-chave na tomada de decisões na conferência por conta dos altos valores. O portal Sumaúma, além de informar que os encontros fechados em Bonn levantaram dúvidas sobre a viabilidade da realização da COP em Belém e que países podem formalizar pedido para a mudança da sede, também lembrou que os preços em Belém são três vezes mais altos do que a média cobrada nas conferências passadas, podendo inviabilizar a participação dos países com menos recursos e de ativistas da sociedade civil.

Uma matéria do Brasil de Fato destacou como os problemas logísticos podem afetar ambientalistas e ativistas que não dispõem de financiamento, gerando incerteza sobre quem conseguirá participar. Ainda chama a atenção para o fato dos recursos estarem sendo empregados na faixa da cidade com infraestrutura já consolidada, ressaltando que os leitos provisórios não darão origem a habitações permanentes. 

A matéria traz o debate da falta de política habitacional para Belém ao detalhar que, ao mesmo tempo que é a segunda capital do Brasil com aluguel mais caro – com o risco de que o valor do aluguel siga alto após a conferência –, mais da metade da população da região metropolitana vive em favelas com ausência de sistema de esgoto e abastecimento de água, convivendo com o racismo ambiental. Este Observatório já identificou como as desigualdades estão presentes na cobertura preparatória da COP-30.

A escolha de Belém como sede da COP-30 representa um momento simbólico para o país. Ainda que os desafios logísticos possam acontecer em outras conferências e em outros países, é pertinente recordar que a capital é uma das que sofre com a emergência climática e com a injustiça ambiental. Essa realidade reforça a necessidade de atenção de autoridades para a cidade, não apenas para uma conferência – como o fato da capital do Pará estar “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento, para drenagem pluvial e urbanização de ruas, que são essenciais para minimizar alagamentos, como retrata reportagem do Infoamazônia em parceria com a Carta Amazônia, mas que foram paralisadas diversas vezes ao longo de quase três décadas. 

Mais do que evidenciar as capacidades de uma cidade sediar ou não um evento internacional, cabe sublinhar que as manifestações da sociedade civil são parte das COPs. O impedimento da participação em razão dos altos custos de acomodação é mais uma barreira impedindo um debate mais amplo do enfrentamento acerca da emergência climática. Do que adianta trazer uma COP para o Brasil se até mesmo os brasileiros estão sendo afastados da conferência? Afinal, esta COP é para quem?

* Jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Chegou a hora da Dubai Gaúcha enfrentar o clima

Por Carine Massierer*

Este artigo não é sobre Dubai, nem tampouco sobre a Porto Alegre em si, mas trata de uma das possíveis causas das constantes inundações que afetam a capital gaúcha, para que possamos refletir sobre a ação humana e a importância de uma comunicação não ludibriada com as obras de expansão, que acabam sendo “naturalizadas” nos cenários urbanos e modernos das cidades.

A afirmação “Porto Alegre já era Dubai antes de Dubai ser Dubai” é uma hipérbole que compara o desenvolvimento da capital gaúcha com o da cidade árabe, especialmente em relação a grandes projetos de aterro e urbanização. Em Porto Alegre foram muitas etapas de aterramentos. Os primeiros, ocorreram no século 19 com pequenos avanços e depois foram feitas ampliações significativas no centro histórico e na zona portuária. Na década de 1950, houve um grande projeto de aterramento na Avenida Praia de Belas, iniciado em 1956. Além disso, a expansão para as zonas Sul e Norte também ocorreu e foi concluída até o final de 1970. 

As maiores áreas de aterros foram construídas após a famosa enchente de 1941, um evento com o qual muitos consideravam que nunca encontrariam, mas que voltou a assombrar a população em maio de 2024, quando o estado do Rio Grande do Sul — e, em especial, sua capital — enfrentou a maior catástrofe de sua história. A imprensa, naquele momento, acabou trazendo o tema à tona, mas isso não serviu nem para uma mudança de postura da população com relação ao rio e muito menos para a discussão e ação política.

A imagem abaixo mostra o tamanho do problema em 2024 onde todas as áreas de aterro da capital alagaram:   

Imagem da publicação no Instagram nas páginas de @portoalegreoficial e @portoalegre com o seguinte título: Todos os ATERROS de Porto Alegre ALAGARAM. Publicação de 2024. Disponível no link: https://www.instagram.com/p/C7WZHHPuGue/?hl=pt

Nesta semana novos alagamentos ocorreram, apesar do cenário ser diferente do registrado em abril de 2024, quando os acumulados chegaram a 800 milímetros de chuva concentrados, comparados aos cerca de 500 milímetros deste ano.

Porém, a pane voltou a se instaurar entre os habitantes das áreas aterradas e a imprensa passou a monitorar a pauta e publicar todo o tempo matérias em nível local e nacional, como pode ser acompanhado pelo link: https://goo.su/qT6t39X

O que as pessoas não levam em conta é que o rio volta a tomar o seu curso um dia e que as mudanças climáticas existem e se tornaram parte da rotina diária dos humanos, que invadiram os espaços e os recursos hídricos em prol do progresso.

Chegou a hora da Dubai Gaúcha, Porto Alegre, enfrentar o clima novamente. É a natureza cobrando as ações humanas que seguem desenfreadas. Nesta semana, os humanos que vivem nestas terras seguem “tremendo nas bases” porque a busca por modernizar a área central e expandir a área urbana fizeram com que a água do Lago Guaíba e a ampliação do vento Sul novamente alagasse a parte mais próxima a ele.

Como ressalta Canclini em Cidadãos Substituídos por Algoritmos, as mudanças que fizemos inadvertidamente acabaram comprometendo todo o sistema e agora enfrentamos um colapso ecológico. Para enfrentar o clima é preciso a mudança de postura, inclusive da imprensa que praticamente não tocou no tema dos aterramentos diante das catástrofes das enchentes neste ano.

Ou seja, mesmo que os alagamentos voltem a ocorrer em áreas que foram aterradas e se tornem o centro das preocupações da população, as consequências, a cada novo evento climático que ocorre, são o centro dos debates e das ações midiatizadas, mas as causas, no caso os aterramentos, não voltam às discussões políticas e nem como manchetes na imprensa.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

Gado ilegal, desmatamento e disputas narrativas na Reserva Chico Mendes: o que diz (e omite) o jornalismo?

Por Gabriella de Barros*

Em junho de 2025, a retirada de cerca de 400 bois criados ilegalmente dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, reacendeu o debate sobre os limites da conservação, a ocupação ilegal da Amazônia e a atuação do Estado. A ação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) ocorreu após um aumento expressivo de 56% no desmatamento da área protegida, apenas nos primeiros meses deste ano.

A repercussão foi imediata, tanto na imprensa local quanto na nacional, mas revelou divergências importantes no modo como os veículos narraram o conflito: para alguns, tratou-se de uma ação legítima de fiscalização ambiental; para outros, uma medida “agressiva” contra pequenos produtores. Esse jogo
de enquadramentos, omissões e disputas narrativas revela muito sobre a fragilidade da cobertura ambiental no Brasil.

Criada em 1990, a Reserva Chico Mendes é símbolo do movimento extrativista e da luta de seringueiros liderados por Chico Mendes. Contudo, nos últimos anos a área tem sofrido com invasões, grilagem e uso ilegal para pecuária extensiva, uma atividade incompatível com as finalidades da
reserva.

O ICMBio já havia alertado sobre o avanço da atividade ilegal, mas a reação à operação de retirada dos bois gerou polarização na cobertura midiática. Em especial, veículos locais destacaram o descontentamento de moradores que alegam “falta de alternativa econômica”, enquanto a imprensa nacional se concentrou em contextualizar a ação como necessária diante da pressão ambiental.

O que diz a cobertura jornalística?

Uma análise preliminar mostra que:

● Agências internacionais (como a AP) destacaram a divisão entre moradores da reserva: alguns denunciam a degradação ambiental, outros defendem a pecuária como único sustento possível.

● Veículos nacionais como O Globo e Folha abordaram a operação com foco institucional, destacando a ação do ICMBio, mas sem aprofundar as causas estruturais do desmatamento ou o histórico de flexibilização da proteção na área.

● Faltam vozes extrativistas e de lideranças locais comprometidas com o uso sustentável, que poderiam oferecer uma visão mais equilibrada sobre os conflitos na reserva. Além disso, poucos veículos contextualizaram o episódio com o cenário político mais amplo, como a pressão de setores do agronegócio e do legislativo por mudanças no status de áreas protegidas e a
necessidade de implementar uma reforma agrária mais ampla para fornecer alternativa econômica a trabalhadores da produção familiar

O que falta ser dito?

A operação do ICMBio é importante, mas o foco da imprensa ainda tende a girar em torno do “choque” da remoção, com pouca análise estrutural. Algumas lacunas na cobertura merecem atenção:

● Quais políticas públicas sustentam a permanência do extrativismo na reserva?

● O Estado oferece alternativas reais à pecuária ilegal dentro da unidade?

● Quem ocupa hoje essas terras e qual a origem do avanço do gado?

● Qual a cobertura histórica da imprensa sobre os sucessivos ataques à Reservas Extrativistas (RESEX) ?

Sem ao menos essas questões, o risco é cair na armadilha do factual isolado onde a retirada dos bois parece uma ação repentina e sem contexto, e a ocupação irregular da área protegida é tratada como um problema pontual, naturalizando práticas como a supressão vegetal e o avanço da pecuária como
algo inevitável ou até mesmo cultural.

O episódio da retirada de bois da Reserva Chico Mendes não é apenas uma questão de fiscalização ambiental. É um retrato de um embate antigo entre dois modelos: o do extrativismo sustentável, coletivo e histórico e o da apropriação individualista baseada na criação de gado, no lucro e na devastação.

O jornalismo ambiental tem o dever de ir além das versões oficiais e buscar as vozes dos territórios, dos defensores da floresta e daqueles que lutam por uma Amazônia viva. Contar essa história melhor, com profundidade, memória e justiça é parte do papel de um jornalismo comprometido com o futuro.

* Mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Atualmente, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integra o Grupo
de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI) da UEPG e o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental da UFRGS. Desenvolve pesquisas voltadas para a cobertura jornalística, insegurança alimentar, desigualdades sociais, meio ambiente e mudanças climáticas.

Guerra que mata e faz  morrer: por que incluir conflitos armados no debate climático

Por Julia Weber* e Cláudia Herte de Moraes**

O debate climático internacional tem se concentrado em temas como desmatamento, emissões industriais e transição energética. No entanto, os conflitos armados também representam uma fonte relevante de emissões de gases de efeito estufa e devem ser considerados nas negociações climáticas multilaterais. A imposição da guerra de Israel contra a população palestina em Gaza chama a atenção tanto pelo volume de emissões gerado quanto pela complexidade da reconstrução.

Diante disso, a inclusão desse tipo de impacto no debate climático ganhou visibilidade com a recente missão humanitária internacional que chegou a Gaza por via marítima. A iniciativa envolve ativistas de diferentes países, entre eles nomes como Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila. A missão foi interceptada por Israel, evidenciando os  abusos e arbitrariedades das autoridades locais.

Greta Thunberg e seus colegas foram deportados. A jovem ativista, conhecida mundialmente por sua luta climática, passou a ser alvo de críticas por se manifestar em defesa da Palestina, “mas, na realidade, as causas andam intimamente ligadas”, conforme analisa Leo Sakamoto. Em sua coluna divulgada nas redes sociais do portal UOL, Sakamoto situa que a mudança climática pode ser considerada um tema urgente, mas é difuso, enquanto que falar contrariamente ao genocídio em Gaza é um tema silenciado. Desta forma chovem críticas à ambientalista sueca. A própria Greta Thunberg explicou que sua preocupação ambiental não é apenas para “salvar árvores”, mas que se importa com o bem- estar humano e planetário, afirmando que não há justiça climática sem justiça social.

A guerra mata inocentes e também ajuda ao declínio das condições ambientais da Terra. Segundo reportagem do portal “Um Só Planeta”, a ofensiva militar israelense em Gaza, entre outubro de 2023 e maio de 2024, foi responsável pela emissão de aproximadamente 281 mil toneladas de CO₂ equivalente. Esse volume supera as emissões anuais de mais de 100 países, conforme levantamento do “Social Justice and Ecology Secretariat”. De acordo com o estudo, as principais fontes dessas emissões foram os ataques aéreos, o deslocamento de tropas e o uso de equipamentos militares.

Além das ações militares, os impactos ambientais se estendem ao processo de reconstrução. Dados reunidos pelo portal “ClimaInfo” estimam que a reconstrução da infraestrutura de Gaza poderá gerar emissões superiores às de 135 países em um ano. O cálculo considera as atividades necessárias para reerguer cidades destruídas, incluindo o transporte de materiais, produção de cimento e geração de energia.

Esses aspectos revelam que os efeitos da guerra ultrapassam os limites da destruição imediata. Eles se projetam no ambiente e deixam marcas no território e no clima. Ao mesmo tempo, reforçam a compreensão de que seres humanos e natureza não estão desassociados, pois os impactos sobre um inevitavelmente repercutem no outro. Como lembra o pensador indígena Ailton Krenak, “a ideia de que a humanidade está separada da natureza é uma ficção moderna que tem custado caro ao planeta e à vida”.  Em contextos de conflito, a degradação ambiental e as condições de vida humana caminham lado a lado, demonstrando que é preciso considerar essas relações de forma integrada.

Sakamoto destaca que, segundo Greta Thunberg, o genocídio em Gaza aplica a destruição ambiental como arma de guerra, provocando perda de biodiversidade, contaminação da água, erosão do solo, destruição de terras agrícolas, e uso ainda mais intenso de combustíveis fósseis. Porém, o tratamento destas questões nos veículos de comunicação ainda é muito pontual, circulando apenas entre colunistas e portais não hegemônicos, como nesta repercussão na Pública. Chama a atenção, portanto, que grande parte da imprensa deixe de lado essa interseção entre clima e guerras, ações de poderosos que são totalmente inaceitáveis pelos danos aos direitos humanos, sociais e ambientais nos territórios afetados.

Discutir esta questão em fóruns como a COP 30, em Belém (PA), representa uma oportunidade para ampliar o entendimento da variável climática nos assuntos de segurança, geopolítica e desenvolvimento. Este tema deve fazer parte do debate público e contribuir para fortalecer a abordagem da justiça climática, conceito que tem ganhado espaço nas edições recentes das conferências. Para além disso, é necessário pensar em uma transição ambiental justa e que situe a dignidade da vida humana em todos os territórios. O respeito à diversidade deve orientar humanistas e ativistas em defesa da ação climática, da justiça e da paz. Também a comunicação precisa se pautar pela ética da sustentabilidade e da vida.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, bolsista do PET Educom Clima  E-mail: weber.julia@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Os povos no centro das decisões

Por Patrícia Kolling*

 “Não haverá futuro possível sem os povos indígenas no centro das decisões globais. Ignorar os povos indígenas é comprometer qualquer chance real de enfrentar a crise climática”, essa é a essência da primeira NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) indígena, uma decisão política elaborada na Pré-COP Indígena, um encontro que reuniu 30 organizações indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil, entre 2 e 5 de junho, em Brasília (DF).

O documento, conforme notícia, exige que os Estados-membros da Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheçam a proteção dos territórios indígenas como ação climática prioritária. Também defende a criação de zonas livres de exploração extrativista em terras indígenas e a incorporação dos saberes tradicionais como estratégia legítima de restauração ambiental.

Como o evento citado acima, outros tantos têm acontecido no Brasil para a organização da participação dos movimentos sociais na COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil, em novembro de 2025, em Belém, Pará. O site Amazônia Real destaca que os movimentos sociais e organizações da sociedade civil da Amazônia, da América Latina e do mundo têm protagonizado uma mobilização histórica para garantir que as vozes dos territórios mais afetados pela crise climática sejam ouvidas nos espaços de decisão do evento.  Além de serem ouvidos, eles exigem participar das decisões globais que estarão acontecendo durante o evento. 

Paralelamente, a conferência mundial acontecerá a Cúpula dos Povos rumo à COP30, com a participação de 700 entidades representando indígenas, ribeirinhos, quilombolas, população negra, juventudes periféricas. Mais de 15 mil pessoas são esperadas na Cúpula dos Povos. “Queremos discutir soluções reais para os problemas ambientais e sociais sem nos limitarmos ao debate técnico, como as relacionadas à transição energética justa ou infraestrutura de matriz energética” destaca Iury Paulino, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O diretor do MPEG (Museu Paraense Emilio Goeldi, Nilson Gabas Júnior, reforça que as comunidades tradicionais da Amazônia precisam ser ouvidas e participar ativamente das decisões. “Não dá para falar de meio ambiente nem reconhecer a biodiversidade sem falar das pessoas que moram na amazônia e ajudam a preservá-la”, destaca o pesquisador.

Além das atividades previstas no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, a Cúpula dos Povos também pressiona por metas climáticas mais ambiciosas e pelo fim da presença de lobistas dos combustíveis fósseis nas COPs . Essas pautas são complexas, e mais do que citadas precisam ser debatidas pelos veículos de comunicação jornalísticos. Grandes interesses estão em jogo, e falar em profundidade sobre o assunto exige coragem.

Como diz texto da Folha de S. Paulo, a Cúpula dos Povos cobra decisões eficazes para o enfrentamento da crise climática, além de retomar o protagonismo da sociedade civil.  

Enfim, espera-se uma COP diferente, e a imprensa, principalmente os veículos focados nas questões ambientais, tem destacado este grito dos povos da floresta para fazerem parte de forma efetiva das decisões mostrando, que são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Na grande imprensa, as vozes dos movimentos sociais ainda está tímida. Mas, ainda há tempo para que a imprensa, se prepare para cobrir o evento com a criticidade e complexidade necessária. Pela primeira vez o evento acontece em solo amazônico, o que já é diferencial, e os veículos de comunicação podem fazer uma cobertura que vá além das reuniões das grandes cúpulas e repercuta as pautas e reivindicações dos povos tradicionais.

* Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A reprodução midiática da violência de gênero sofrida por Marina Silva

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

Na última semana, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi convidada para participar da Comissão de Infraestrutura do Senado em razão da criação de unidade de conservação da na Margem Equatorial, na Foz do Rio Amazonas, no Norte do Brasil. É nesta região que a Petrobras quer explorar petróleo. Marina defende que o Ibama faça um trabalho técnico seguindo as leis ambientais.

Ainda nessa reunião, foi debatido o asfaltamento da BR-319, estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). O tema é delicado no governo Lula há alguns anos. Enquanto parlamentares defendem que a rodovia possa diminuir o isolamento de estados como o Amazonas e Roraima do resto do país, defensores ambientais alertam que o asfaltamento seria vetor do desmatamento desenfreado na Amazônia.

Embora convidada para ser ouvida, a ministra foi alvo de ataques dos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Marcos Rogério (PL-RO) e Plínio Valério (PSDB-AM). Enquanto Valério dizia que “mulher merece respeito, a ministra não” – o mesmo que, em março deste ano, já havia dito que queria enforcá-la –, Rogério acrescentava que a ministra deveria “se pôr no seu lugar”. Ela exigiu um pedido de desculpas para permanecer na audiência, mas não foi ouvida. Acabou deixando a reunião, sem ter apoio de nenhum político presente.

O episódio foi repercutido por diferentes veículos de imprensa, mas nem sempre evidenciando as causas estruturais que sustentam o repúdio à notória defensora da natureza. Este Observatório fez uma análise das notícias (excluindo, portanto, textos opinativos) entre os dias 27 de março e 3 de junho de 2025. Em grande parte dos veículos hegemônicos, não houve discussão acerca da intersecção entre a proteção ambiental e a violência política de gênero, que atravessam a situação.

O jornal O Globo ouviu o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que afirmou que, além de negar a possibilidade de pedir desculpas à ministra sob justificativa de que “não entra mais em casa”, afirma que o mundo está “chato” com a “cobrança de machismo”. O texto reproduziu as falas do parlamentar e as de Marina proferidas na audiência, mas ouviu apenas a versão de Valério na matéria. Apesar de usar o termo “ofendida” e “alvo de ataques”, outra notícia também se limitou a reproduzir os discursos no Congresso, sem um contexto maior sobre os motivos discutidos nas ofensas.

Já o Estadão publicou pelo menos 10 notícias sobre o acontecimento, além de outras três colunas de opinião. A única matéria que relaciona os ataques com a posição de liderança que Marina ocupa na área ambiental ouviu uma representante do clima do Reino Unido, que afirmou que Marina é respeitada mundialmente pela sua coragem e ressaltou a necessidade de haver mais mulheres na vida pública.

As demais notícias apenas repercutiram as falas e os posicionamentos de solidariedade de autoridades, mas sem, de fato, contextualizar os motivos dos ataques e sua relação com a violência política de gênero e a defesa do meio ambiente. Destaca-se que os textos relacionam o episódio como um “bate-boca”, com ressalvas para o uso da palavra “machismo”.

A Folha de S. Paulo seguiu na mesma linha. Foram identificadas seis colunas de opinião e oito notícias sobre o tema. A maioria dos textos encaixam-se no que chamamos de “jornalismo declaratório”, voltando-se mais para os benefícios econômicos, caso as propostas discutidas no Congresso sejam aprovadas, e menos para os impactos ambientais. Uma das matérias traz a informação de que o senador que hostilizou Marina assinou proposta que torna a matriz energética mais poluente e eleva a conta de luz dos brasileiros. Informa que ele assina propostas cujos conteúdos são inseridos sem relação com o tema principal, o que privilegia interesses de grupos parlamentares específicos – termo conhecido como “jabuti” no contexto político brasileiro. O texto evidencia o paradoxo entre a facilidade de assinar acordos de um lado, passando “boiadas” (termo popularizado pelo ex-ministro Salles), e os entraves relacionados à proteção do meio ambiente de outro. Quando o assunto é meio ambiente, enfrenta-se muita resistência dos atores que enxergam o tema apenas como entrave ao crescimento econômico; soma-se a isso a questão de gênero, que desafia a estrutura de poder estabelecida, dominada por homens. 

A BBC News produziu uma notícia que, além de contextualizar os motivos pelos quais a ministra foi ofendida, destacou que esse não foi o primeiro ataque do senador à Marina.  Aqui, há falas de outras ministras e da primeira-dama Janja da Silva, que se manifestaram em apoio à titular do ministério, salientando a gravidade do episódio de misoginia e “machismo” – palavra usada sem ressalvas no texto.

Por mais que algumas matérias tragam contextos relacionados aos impactos ambientais, pouco foi visto nos veículos hegemônicos a respeito das violências sofridas por Marina como algo a ser discutido, não apenas um episódio isolado. Uma exceção foi a reportagem da Agência Pública, publicada no dia seguinte, que apurou que ataques à Marina são reincidentes, mas não prioritários no Senado. A possibilidade de punição pela fala misógina proferida por Plínio Valério em março deste ano está parada na Comissão de Ética do Senado Federal, em exame técnico preliminar. O texto da Pública lembra que um pedido de abertura de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar foi feito logo após a fala, mas que não levou, até agora, a nenhuma punição ao senador. A matéria reforça a ideia de que a responsabilização por ações de combate a violência política de gênero seguem ineficientes, abrindo brechas para novos casos.

O Brasil de Fato, ao ouvir uma socioambientalista, ressaltou o padrão de perseguição que sofre quem defende a pauta ambiental, e que Marina Silva, uma mulher negra da Amazônia, devido à agenda que representa, é alvo de setores da extrema direita e da ala negacionista do Congresso.

A repercussão maior na produção de notícias ocorreu nos veículos mainstream, mas a maioria se limitou a reproduzir as falas dos parlamentares e a reação da ministra, pouco aprofundando as razões que a tornam alvo no contexto político de permissão para o avanço da agenda econômica neoliberal. Percebe-se que veículos especializados e independentes, ainda que tenham produzido menos notícias, trouxeram mais elementos sobre a relação da defesa ambiental e a posição de Marina como mulher negra da Amazônia, que reivindica outra política ambiental.

Além de expor a questão da violência política de gênero, é importante evidenciar a conexão da pauta ambiental com a desqualificação das mulheres em posição de liderança que defendem a preservação de seus territórios. Ativistas ambientais são perseguidos e assassinados, e, mesmo em espaços supostamente democráticos, defensores do bem comum sofrem violências rotineiramente. O fato da ministra ser mulher e amazônida traz aspectos que agudizam o quadro de intolerância dos setores mais conservadores da sociedade, que buscam manter tudo como está em prejuízo da maioria da população. 

*Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório de Jornalismo Ambiental. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br

Crianças e adolescentes na pauta climática: a urgência de incluí-los nas políticas e debates da COP-30

Por Nadja Nobre*

A crise climática é um dos principais desafios globais da atualidade, mas seus efeitos não recaem de forma igual sobre todos. Entre os mais impactados, crianças e adolescentes frequentemente são invisibilizados ou pouco considerados nos espaços de negociações internacionais, como a Conferência das Partes (COP), acordos climáticos, fóruns e também nas políticas ambientais brasileiras.

Dados apresentados pela ANDI que fazem parte do relatório The Climate Crisis is a Child Rights Crisis (2021), do Unicef, mostram que mais de 1 bilhão de crianças, quase a metade de todas as crianças do mundo, vivem atualmente em países expostos a riscos climáticos. Além disso, a exposição a eventos extremos, como enchentes, ciclones, secas e ondas de calor, afeta de maneira desproporcional meninos e meninas, colocando em ameaça seus direitos à saúde, educação, proteção e participação. 

No Brasil, essa vulnerabilidade é ainda mais acentuada. Os grupos mais expostos a desastres climáticos são, majoritariamente, famílias lideradas por mulheres negras e com presença de crianças, conforme aponta estudo do Unicef. Estima-se que 8,3 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de risco no país, sendo que cerca de 2,1 milhões são crianças e adolescentes com até 14 anos de idade. O panorama é mais crítico na Região Norte, onde os menores de cinco anos correspondem a mais de 13% da população residente nessas áreas suscetíveis a desastres. 

À medida que nos aproximamos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que acontecerá em Belém (PA), o Brasil tem uma grande oportunidade e responsabilidade nas negociações globais, podendo liderar discussões estratégicas sobre financiamento para adaptação e mitigação, justiça climática e, sobretudo, garantir que os grupos mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, sejam incluídos nos debates e decisões. Mais do que uma oportunidade, trata-se de uma necessidade ética e política, especialmente para assegurar que as políticas ambientais integrem efetivamente essa faixa etária.

Com esse objetivo, a ANDI lançou recentemente o guia “Os direitos das crianças e dos adolescentes na pauta climática: guia para a cobertura jornalística”, de autoria de Aline Falco. A publicação busca apoiar profissionais da comunicação na abordagem da crise climática sob a perspectiva dos direitos de crianças e adolescentes, destacando como esse grupo é particularmente vulnerável aos seus impactos.

O guia está estruturado em quatro capítulos. Para começar, a autora apresenta informações essenciais sobre o histórico e o funcionamento das COPs, explicando como se dão as negociações e destacando a relevância do Brasil ao sediar a 30ª edição da Conferência das Partes. 

Na sequência, a publicação concentra-se em traçar um panorama sobre os principais instrumentos da política climática no Brasil, apontando avanços, desafios e o papel fundamental das políticas subnacionais e das ações locais. Afinal, as cidades são responsáveis por grande parte das emissões e, ao mesmo tempo, são vulneráveis aos seus impactos.

O guia aprofunda, então, a relação entre mudanças climáticas, infância e adolescência, propondo reflexões sobre o fato de que, embora crianças e adolescentes não sejam responsáveis pela crise climática global, são eles quem mais sofrem com a falta de medidas eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Essa seção também evidencia como os impactos climáticos se entrelaçam com questões de renda, gênero, raça e desigualdade.

O estudo “Mudanças climáticas e seus impactos na sobrevivência infantil” (2024), da Fundação Abrinq, também mostra como os impactos climáticos afetam de maneira mais profunda meninas e meninos que vivem em contextos sociais e econômicos desfavoráveis. Esses efeitos se sobrepõem a outros fatores, como pobreza, falta de acesso a serviços básicos e infraestrutura inadequada, ampliando a vulnerabilidade dessa população. Além disso, o mesmo estudo revela que as crianças nascidas em 2024 estarão expostas, ao longo da vida, a riscos significativamente maiores devido ao aquecimento global. Se o planeta sofrer um aumento médio de 3°C, essas crianças poderão vivenciar até duas vezes mais incêndios e ciclones, três vezes mais enchentes, quatro vezes mais quebras de safra e até cinco vezes mais períodos de seca do que aquelas que nasceram na década de 1970. A vulnerabilidade a doenças tropicais, como dengue, malária e leishmaniose, também será maior, já que essas enfermidades tendem a se tornar mais frequentes com o avanço das alterações climáticas.

Por fim, o guia analisa criticamente a presença, e, na maioria das vezes, a ausência de referências à infância e adolescência nos principais acordos e documentos internacionais sobre mudanças climáticas. Mapeia também iniciativas e movimentos que buscam incluir as vozes dessa faixa etária nas negociações globais, não apenas como vítimas, mas também como sujeitos políticos com direito à participação.

Com essa publicação, a ANDI contribui para ampliar e qualificar a cobertura jornalística sobre as mudanças climáticas, especialmente ao articular a pauta ambiental com a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. E destacar como a crise climática impacta de forma desproporcional esse grupo social é importante, especialmente agora, com a realização da COP-30 no Brasil.

Portanto, é fundamental e urgente que os profissionais de comunicação, a sociedade civil e formuladores de políticas públicas reconheçam e integrem as especificidades e vulnerabilidades desse grupo nos debates e na construção de soluções climáticas.

*Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com

A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O Projeto de Lei n.º 2.159/2021, aprovado na última quarta-feira (21/05) pelo Senado Federal,  altera as regras para o licenciamento ambiental no país. Alterar as regras é um modo tímido de dizer que o projeto detona a atual legislação ambiental em um “golpe de morte”, como descrito pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, durante evento em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade. A necessidade de uma atualização da Lei Geral para o Licenciamento Ambiental é  defendida tanto por ambientalistas quanto por setores do agronegócio e da  infraestrutura – a alta burocratização custa ao Estado e judicializa processos em excesso, que barram iniciativas e empreendimentos pelo Brasil. No entanto, a atualização da lei precisa ser concordante com a legislação ambiental atual, assim como com a Constituição – como o princípio da proibição do retrocesso em direito ambiental.

O PL inclui entre suas várias mudanças a Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que dispensa a análise vigente pela autodeclaração (de boa-fé) do responsável, que irá cumprir com as exigências de proteção ambiental. O projeto, em sua versão atual, permite que empreendimentos avancem mesmo com pareceres contrários de órgãos fiscalizadores; limita a área de impacto ambiental avaliada e a consulta às comunidades locais, que seriam afetadas diretamente. Inclusive, terras indígenas e quilombolas em avaliação (ainda não demarcadas) não serão consideradas, diminuindo as suas presenças nos processos. 

A proposta busca “simplificar”, “flexibilizar”, “desburocratizar”, “facilitar” e“reordenar” os processos de licenciamento para empreendimentos de baixo e alto impacto poluente pelo Brasil. Essas aspas são de notícias da última semana, de 19 até 27 de maio, analisadas com o objetivo de observar como os principais jornais mainstream do País, O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, têm repercutido o assunto. Após a coleta dos conteúdos que tratam sobre a pauta, identificamos o posicionamento editorial dos veículos, assim como a frequência e enfoque da cobertura noticiosa no período.

Os três veículos analisados publicaram editoriais sobre o tema. Na Folha de S.Paulo, a crítica ao PL centrou-se  no governo Lula, destacando que o governo não teria uma política ambiental clara – ora endossando os discursos de Marina Silva, ora satisfazendo os interesses da bancada ruralista. 

O editorial d’O Globo também critica o PL, sinalizando que ele pode ter efeito contrário, tornando ainda mais lento e complicado o licenciamento ambiental no Brasil, com mais judicialização e contestações de eventuais problemas. O editorial ainda indica a destruição do meio ambiente como prejudicial para os negócios, destacadamente a agropecuária. Para o veículo, a suposta oposição entre o crescimento econômico  e a preservação do meio ambiente é “falsa e enganadora”, sendo ambos necessários. 

Já o Estadão, posicionou-se de forma contrastante,  apoiando a aprovação do projeto. Para o veículo, o processo atual é visto como “entrave descabido ao desenvolvimento do País”, especialmente para pastas ligadas à infraestrutura. O editorial também utiliza os recentes dados do MapBiomas para defender a “mudança de foco do combate ao desmate para as atividades criminosas, como a grilagem, o garimpo ilegal (…)”. Para o jornal, as críticas ao projeto como habilitador do desmatamento não condizem com a realidade, já que “há uma minoria que desmata muito, e é para esse grupo que os órgãos de controle devem apontar suas baterias.”

Na Folha de S. Paulo, das 14 publicações sobre o tema no período, 5 são de colunistas (textos de opinião); e 8 são notícias, sendo 7 de autoria da Folha e uma da BBC, e todas localizadas na editoria Ambiente. Essas notícias contextualizam a proposta do PL como via para acelerar a implementação de atividades econômicas, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. 

A exploração de petróleo é defendida pelo atual presidente e tem entre seus opositores o próprio governo por via do Ministério do Meio Ambiente. O governo Lula, no entanto, ainda não declarou se será contra ou a favor do projeto, e como vai se posicionar quando este chegar ao plenário. Nas matérias da Folha, o projeto foi mencionado diversas vezes como uma derrota para Marina Silva, que estaria isolada no governo. Também, em todas as notícias da Folha, estavam presentes contrapontos dos danos ambientais possibilitados pelo PL. Em 6 das 7 matérias autorais foram mencionadas as comunidades tradicionais que seriam afetadas.

No jornal O Globo, das 30 publicações encontradas, 14 faziam parte de blogs e colunas, e 16 eram notícias. Das 16, 9 estavam na editoria Brasil, 7 na editoria Meio Ambiente, e uma na editoria Política. Todas as notícias tinham contraponto sobre impacto ambiental, e 6 mencionaram povos tradicionais no processo de licenciamento. Ambos os jornais trouxeram uma cobertura similar sobre o PL, apresentando os enfoques ambientais e econômicos.

Já no Estadão,  das  14 publicações sobre o tema, 5 eram textos opinativos (um deles da relatora do projeto, Tereza Cristina), e 9 eram notícias. Das notícias autorais, 7 estavam na editoria de Economia, e 2 estavam na editoria de Sustentabilidade. Além de um foco bastante econômico e com pouca abertura para discussão sobre a oposição ao projeto, apenas uma notícia cita comunidades tradicionais no projeto de lei. 

O breve acompanhamento realizado demonstra que no âmbito da produção noticiosa os veículos mainstream trazem os contrapontos – embora o Estadão tenha centrado a cobertura na economia e explicitado em seu editorial os benefícios de um regramento mais flexível para os empreendedores. Folha de S. Paulo e O Globo se dedicaram mais ao tema com perspectiva ambiental e atenção às comunidades tradicionais, embora seja possível questionar as intenções que atravessam seus editoriais, para além da própria discussão do PL. A ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.

Pelo seu alcance e histórico, os veículos mainstream seguem sendo atores importantes, que influenciam o debate público. Logo, estarmos atentos a como esse assunto é reportado importa para compreender as reações sociais acerca do debate. O licenciamento ambiental é um tema bastante técnico e complexo que nem sempre atrai o interesse de públicos não especializados ou daqueles que não possuem interesses interligados. Entretanto, este é um procedimento que busca garantir maior cuidado com o meio ambiente, que diz respeito a todos nós.

A influência da cobertura de um tema por  jornais mainstream é concreta: pauta a agenda pública, as discussões de políticas públicas, as demandas e os protestos comunitários, e até a mudanças na legislação. O enquadramento de uma notícia contribui com o entendimento que os leitores terão sobre o tema, e como vão inseri-lo nos seus significados de mundo. No caso de temáticas do meio ambiente, o isolamento da discussão em editorias exclusivas à “sustentabilidade” e “meio ambiente”, ou restritas a pequenos poréns em notícias econômicas, alinham-se à exclusão sistemática da pauta, reforçando a separação entre aspectos sociais, econômicos e ambientais.

* Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista do Observatório de Jornalismo Ambiental E-mail: nicocostamilan@gmail.com

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Desmatamento recua, mas não há o que celebrar

Por Ângela Camana*

Foto: USP Imagens

Lançado na semana passada, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil indicou, pela primeira vez na série histórica, queda no desmatamento em todos os biomas do país. Os dados, que se referem a 2024, são da iniciativa MapBiomas, que há seis anos reúne informações sobre a perda de vegetação nativa no Brasil. As chamadas dos principais portais de jornalismo destacam a tendência de queda, mas, quando muito, relegam à linha de apoio o fato de que os dados ainda são alarmantes.

Ultrapassando a Amazônia, o bioma com maior área desmatada é o Cerrado, pelo segundo ano consecutivo. A região conhecida como Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou 75% dos mais de 650 mil hectares perdidos no bioma. Já no acumulado de 2019 a 2024, o Pará, onde neste ano se realiza a COP-30, é o estado com maior área desmatada com cerca de 2 milhões de hectares suprimidos.

Estes dados não são triviais, já que correspondem justamente a regiões cuja força motriz tem sido o agronegócio. De acordo com a série histórica do MapBiomas, 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil esta conectada à expansão de fronteira agropecuária. O Brasil de Fato foi o único veículo a destacar este dado, convocando outros dados para além do release amplamente divulgado na imprensa e criticando, inclusive o desmatamento considerado legal, nos marcos do Código Florestal.

Também chama a atenção que o relatório pondera o papel do desastre ocorrido no Rio Grande do Sul: o estado passou a ocupar o terceiro lugar dentre os estados da Mata Atlântica com maiores perdas de vegetação nativa em 2024. Isso se dá em função dos eventos climáticos extremos, que desencadeiam deslizamentos de encostas, revelando mais uma face da intrincada relação entre desmatamento e mudanças climáticas.

Com uma cobertura que foca em números, sem esforço amplo de contextualização, o desmatamento e a perda de vegetação nativa se resumem a dados abstratos. Após o recente desmantelamento das políticas ambientais e de monitoramento, evidente que qualquer redução nos índices de desmatamento representa um alívio, mas falta ao jornalismo abordar com seriedade os vetores desta derrubada – e quem lucra com estas atividades extrativas.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com