Observatório de Jornalismo Ambiental

A reprodução midiática da violência de gênero sofrida por Marina Silva

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Lula Marques / Agência Brasil

Na última semana, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi convidada para participar da Comissão de Infraestrutura do Senado em razão da criação de unidade de conservação da na Margem Equatorial, na Foz do Rio Amazonas, no Norte do Brasil. É nesta região que a Petrobras quer explorar petróleo. Marina defende que o Ibama faça um trabalho técnico seguindo as leis ambientais.

Ainda nessa reunião, foi debatido o asfaltamento da BR-319, estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). O tema é delicado no governo Lula há alguns anos. Enquanto parlamentares defendem que a rodovia possa diminuir o isolamento de estados como o Amazonas e Roraima do resto do país, defensores ambientais alertam que o asfaltamento seria vetor do desmatamento desenfreado na Amazônia.

Embora convidada para ser ouvida, a ministra foi alvo de ataques dos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Marcos Rogério (PL-RO) e Plínio Valério (PSDB-AM). Enquanto Valério dizia que “mulher merece respeito, a ministra não” – o mesmo que, em março deste ano, já havia dito que queria enforcá-la –, Rogério acrescentava que a ministra deveria “se pôr no seu lugar”. Ela exigiu um pedido de desculpas para permanecer na audiência, mas não foi ouvida. Acabou deixando a reunião, sem ter apoio de nenhum político presente.

O episódio foi repercutido por diferentes veículos de imprensa, mas nem sempre evidenciando as causas estruturais que sustentam o repúdio à notória defensora da natureza. Este Observatório fez uma análise das notícias (excluindo, portanto, textos opinativos) entre os dias 27 de março e 3 de junho de 2025. Em grande parte dos veículos hegemônicos, não houve discussão acerca da intersecção entre a proteção ambiental e a violência política de gênero, que atravessam a situação.

O jornal O Globo ouviu o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que afirmou que, além de negar a possibilidade de pedir desculpas à ministra sob justificativa de que “não entra mais em casa”, afirma que o mundo está “chato” com a “cobrança de machismo”. O texto reproduziu as falas do parlamentar e as de Marina proferidas na audiência, mas ouviu apenas a versão de Valério na matéria. Apesar de usar o termo “ofendida” e “alvo de ataques”, outra notícia também se limitou a reproduzir os discursos no Congresso, sem um contexto maior sobre os motivos discutidos nas ofensas.

Já o Estadão publicou pelo menos 10 notícias sobre o acontecimento, além de outras três colunas de opinião. A única matéria que relaciona os ataques com a posição de liderança que Marina ocupa na área ambiental ouviu uma representante do clima do Reino Unido, que afirmou que Marina é respeitada mundialmente pela sua coragem e ressaltou a necessidade de haver mais mulheres na vida pública.

As demais notícias apenas repercutiram as falas e os posicionamentos de solidariedade de autoridades, mas sem, de fato, contextualizar os motivos dos ataques e sua relação com a violência política de gênero e a defesa do meio ambiente. Destaca-se que os textos relacionam o episódio como um “bate-boca”, com ressalvas para o uso da palavra “machismo”.

A Folha de S. Paulo seguiu na mesma linha. Foram identificadas seis colunas de opinião e oito notícias sobre o tema. A maioria dos textos encaixam-se no que chamamos de “jornalismo declaratório”, voltando-se mais para os benefícios econômicos, caso as propostas discutidas no Congresso sejam aprovadas, e menos para os impactos ambientais. Uma das matérias traz a informação de que o senador que hostilizou Marina assinou proposta que torna a matriz energética mais poluente e eleva a conta de luz dos brasileiros. Informa que ele assina propostas cujos conteúdos são inseridos sem relação com o tema principal, o que privilegia interesses de grupos parlamentares específicos – termo conhecido como “jabuti” no contexto político brasileiro. O texto evidencia o paradoxo entre a facilidade de assinar acordos de um lado, passando “boiadas” (termo popularizado pelo ex-ministro Salles), e os entraves relacionados à proteção do meio ambiente de outro. Quando o assunto é meio ambiente, enfrenta-se muita resistência dos atores que enxergam o tema apenas como entrave ao crescimento econômico; soma-se a isso a questão de gênero, que desafia a estrutura de poder estabelecida, dominada por homens. 

A BBC News produziu uma notícia que, além de contextualizar os motivos pelos quais a ministra foi ofendida, destacou que esse não foi o primeiro ataque do senador à Marina.  Aqui, há falas de outras ministras e da primeira-dama Janja da Silva, que se manifestaram em apoio à titular do ministério, salientando a gravidade do episódio de misoginia e “machismo” – palavra usada sem ressalvas no texto.

Por mais que algumas matérias tragam contextos relacionados aos impactos ambientais, pouco foi visto nos veículos hegemônicos a respeito das violências sofridas por Marina como algo a ser discutido, não apenas um episódio isolado. Uma exceção foi a reportagem da Agência Pública, publicada no dia seguinte, que apurou que ataques à Marina são reincidentes, mas não prioritários no Senado. A possibilidade de punição pela fala misógina proferida por Plínio Valério em março deste ano está parada na Comissão de Ética do Senado Federal, em exame técnico preliminar. O texto da Pública lembra que um pedido de abertura de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar foi feito logo após a fala, mas que não levou, até agora, a nenhuma punição ao senador. A matéria reforça a ideia de que a responsabilização por ações de combate a violência política de gênero seguem ineficientes, abrindo brechas para novos casos.

O Brasil de Fato, ao ouvir uma socioambientalista, ressaltou o padrão de perseguição que sofre quem defende a pauta ambiental, e que Marina Silva, uma mulher negra da Amazônia, devido à agenda que representa, é alvo de setores da extrema direita e da ala negacionista do Congresso.

A repercussão maior na produção de notícias ocorreu nos veículos mainstream, mas a maioria se limitou a reproduzir as falas dos parlamentares e a reação da ministra, pouco aprofundando as razões que a tornam alvo no contexto político de permissão para o avanço da agenda econômica neoliberal. Percebe-se que veículos especializados e independentes, ainda que tenham produzido menos notícias, trouxeram mais elementos sobre a relação da defesa ambiental e a posição de Marina como mulher negra da Amazônia, que reivindica outra política ambiental.

Além de expor a questão da violência política de gênero, é importante evidenciar a conexão da pauta ambiental com a desqualificação das mulheres em posição de liderança que defendem a preservação de seus territórios. Ativistas ambientais são perseguidos e assassinados, e, mesmo em espaços supostamente democráticos, defensores do bem comum sofrem violências rotineiramente. O fato da ministra ser mulher e amazônida traz aspectos que agudizam o quadro de intolerância dos setores mais conservadores da sociedade, que buscam manter tudo como está em prejuízo da maioria da população. 

*Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório de Jornalismo Ambiental. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br

Crianças e adolescentes na pauta climática: a urgência de incluí-los nas políticas e debates da COP-30

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Nadja Nobre*

A crise climática é um dos principais desafios globais da atualidade, mas seus efeitos não recaem de forma igual sobre todos. Entre os mais impactados, crianças e adolescentes frequentemente são invisibilizados ou pouco considerados nos espaços de negociações internacionais, como a Conferência das Partes (COP), acordos climáticos, fóruns e também nas políticas ambientais brasileiras.

Dados apresentados pela ANDI que fazem parte do relatório The Climate Crisis is a Child Rights Crisis (2021), do Unicef, mostram que mais de 1 bilhão de crianças, quase a metade de todas as crianças do mundo, vivem atualmente em países expostos a riscos climáticos. Além disso, a exposição a eventos extremos, como enchentes, ciclones, secas e ondas de calor, afeta de maneira desproporcional meninos e meninas, colocando em ameaça seus direitos à saúde, educação, proteção e participação. 

No Brasil, essa vulnerabilidade é ainda mais acentuada. Os grupos mais expostos a desastres climáticos são, majoritariamente, famílias lideradas por mulheres negras e com presença de crianças, conforme aponta estudo do Unicef. Estima-se que 8,3 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de risco no país, sendo que cerca de 2,1 milhões são crianças e adolescentes com até 14 anos de idade. O panorama é mais crítico na Região Norte, onde os menores de cinco anos correspondem a mais de 13% da população residente nessas áreas suscetíveis a desastres. 

À medida que nos aproximamos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que acontecerá em Belém (PA), o Brasil tem uma grande oportunidade e responsabilidade nas negociações globais, podendo liderar discussões estratégicas sobre financiamento para adaptação e mitigação, justiça climática e, sobretudo, garantir que os grupos mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, sejam incluídos nos debates e decisões. Mais do que uma oportunidade, trata-se de uma necessidade ética e política, especialmente para assegurar que as políticas ambientais integrem efetivamente essa faixa etária.

Com esse objetivo, a ANDI lançou recentemente o guia “Os direitos das crianças e dos adolescentes na pauta climática: guia para a cobertura jornalística”, de autoria de Aline Falco. A publicação busca apoiar profissionais da comunicação na abordagem da crise climática sob a perspectiva dos direitos de crianças e adolescentes, destacando como esse grupo é particularmente vulnerável aos seus impactos.

O guia está estruturado em quatro capítulos. Para começar, a autora apresenta informações essenciais sobre o histórico e o funcionamento das COPs, explicando como se dão as negociações e destacando a relevância do Brasil ao sediar a 30ª edição da Conferência das Partes. 

Na sequência, a publicação concentra-se em traçar um panorama sobre os principais instrumentos da política climática no Brasil, apontando avanços, desafios e o papel fundamental das políticas subnacionais e das ações locais. Afinal, as cidades são responsáveis por grande parte das emissões e, ao mesmo tempo, são vulneráveis aos seus impactos.

O guia aprofunda, então, a relação entre mudanças climáticas, infância e adolescência, propondo reflexões sobre o fato de que, embora crianças e adolescentes não sejam responsáveis pela crise climática global, são eles quem mais sofrem com a falta de medidas eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Essa seção também evidencia como os impactos climáticos se entrelaçam com questões de renda, gênero, raça e desigualdade.

O estudo “Mudanças climáticas e seus impactos na sobrevivência infantil” (2024), da Fundação Abrinq, também mostra como os impactos climáticos afetam de maneira mais profunda meninas e meninos que vivem em contextos sociais e econômicos desfavoráveis. Esses efeitos se sobrepõem a outros fatores, como pobreza, falta de acesso a serviços básicos e infraestrutura inadequada, ampliando a vulnerabilidade dessa população. Além disso, o mesmo estudo revela que as crianças nascidas em 2024 estarão expostas, ao longo da vida, a riscos significativamente maiores devido ao aquecimento global. Se o planeta sofrer um aumento médio de 3°C, essas crianças poderão vivenciar até duas vezes mais incêndios e ciclones, três vezes mais enchentes, quatro vezes mais quebras de safra e até cinco vezes mais períodos de seca do que aquelas que nasceram na década de 1970. A vulnerabilidade a doenças tropicais, como dengue, malária e leishmaniose, também será maior, já que essas enfermidades tendem a se tornar mais frequentes com o avanço das alterações climáticas.

Por fim, o guia analisa criticamente a presença, e, na maioria das vezes, a ausência de referências à infância e adolescência nos principais acordos e documentos internacionais sobre mudanças climáticas. Mapeia também iniciativas e movimentos que buscam incluir as vozes dessa faixa etária nas negociações globais, não apenas como vítimas, mas também como sujeitos políticos com direito à participação.

Com essa publicação, a ANDI contribui para ampliar e qualificar a cobertura jornalística sobre as mudanças climáticas, especialmente ao articular a pauta ambiental com a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. E destacar como a crise climática impacta de forma desproporcional esse grupo social é importante, especialmente agora, com a realização da COP-30 no Brasil.

Portanto, é fundamental e urgente que os profissionais de comunicação, a sociedade civil e formuladores de políticas públicas reconheçam e integrem as especificidades e vulnerabilidades desse grupo nos debates e na construção de soluções climáticas.

*Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com

A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O Projeto de Lei n.º 2.159/2021, aprovado na última quarta-feira (21/05) pelo Senado Federal,  altera as regras para o licenciamento ambiental no país. Alterar as regras é um modo tímido de dizer que o projeto detona a atual legislação ambiental em um “golpe de morte”, como descrito pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, durante evento em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade. A necessidade de uma atualização da Lei Geral para o Licenciamento Ambiental é  defendida tanto por ambientalistas quanto por setores do agronegócio e da  infraestrutura – a alta burocratização custa ao Estado e judicializa processos em excesso, que barram iniciativas e empreendimentos pelo Brasil. No entanto, a atualização da lei precisa ser concordante com a legislação ambiental atual, assim como com a Constituição – como o princípio da proibição do retrocesso em direito ambiental.

O PL inclui entre suas várias mudanças a Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que dispensa a análise vigente pela autodeclaração (de boa-fé) do responsável, que irá cumprir com as exigências de proteção ambiental. O projeto, em sua versão atual, permite que empreendimentos avancem mesmo com pareceres contrários de órgãos fiscalizadores; limita a área de impacto ambiental avaliada e a consulta às comunidades locais, que seriam afetadas diretamente. Inclusive, terras indígenas e quilombolas em avaliação (ainda não demarcadas) não serão consideradas, diminuindo as suas presenças nos processos. 

A proposta busca “simplificar”, “flexibilizar”, “desburocratizar”, “facilitar” e“reordenar” os processos de licenciamento para empreendimentos de baixo e alto impacto poluente pelo Brasil. Essas aspas são de notícias da última semana, de 19 até 27 de maio, analisadas com o objetivo de observar como os principais jornais mainstream do País, O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, têm repercutido o assunto. Após a coleta dos conteúdos que tratam sobre a pauta, identificamos o posicionamento editorial dos veículos, assim como a frequência e enfoque da cobertura noticiosa no período.

Os três veículos analisados publicaram editoriais sobre o tema. Na Folha de S.Paulo, a crítica ao PL centrou-se  no governo Lula, destacando que o governo não teria uma política ambiental clara – ora endossando os discursos de Marina Silva, ora satisfazendo os interesses da bancada ruralista. 

O editorial d’O Globo também critica o PL, sinalizando que ele pode ter efeito contrário, tornando ainda mais lento e complicado o licenciamento ambiental no Brasil, com mais judicialização e contestações de eventuais problemas. O editorial ainda indica a destruição do meio ambiente como prejudicial para os negócios, destacadamente a agropecuária. Para o veículo, a suposta oposição entre o crescimento econômico  e a preservação do meio ambiente é “falsa e enganadora”, sendo ambos necessários. 

Já o Estadão, posicionou-se de forma contrastante,  apoiando a aprovação do projeto. Para o veículo, o processo atual é visto como “entrave descabido ao desenvolvimento do País”, especialmente para pastas ligadas à infraestrutura. O editorial também utiliza os recentes dados do MapBiomas para defender a “mudança de foco do combate ao desmate para as atividades criminosas, como a grilagem, o garimpo ilegal (…)”. Para o jornal, as críticas ao projeto como habilitador do desmatamento não condizem com a realidade, já que “há uma minoria que desmata muito, e é para esse grupo que os órgãos de controle devem apontar suas baterias.”

Na Folha de S. Paulo, das 14 publicações sobre o tema no período, 5 são de colunistas (textos de opinião); e 8 são notícias, sendo 7 de autoria da Folha e uma da BBC, e todas localizadas na editoria Ambiente. Essas notícias contextualizam a proposta do PL como via para acelerar a implementação de atividades econômicas, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. 

A exploração de petróleo é defendida pelo atual presidente e tem entre seus opositores o próprio governo por via do Ministério do Meio Ambiente. O governo Lula, no entanto, ainda não declarou se será contra ou a favor do projeto, e como vai se posicionar quando este chegar ao plenário. Nas matérias da Folha, o projeto foi mencionado diversas vezes como uma derrota para Marina Silva, que estaria isolada no governo. Também, em todas as notícias da Folha, estavam presentes contrapontos dos danos ambientais possibilitados pelo PL. Em 6 das 7 matérias autorais foram mencionadas as comunidades tradicionais que seriam afetadas.

No jornal O Globo, das 30 publicações encontradas, 14 faziam parte de blogs e colunas, e 16 eram notícias. Das 16, 9 estavam na editoria Brasil, 7 na editoria Meio Ambiente, e uma na editoria Política. Todas as notícias tinham contraponto sobre impacto ambiental, e 6 mencionaram povos tradicionais no processo de licenciamento. Ambos os jornais trouxeram uma cobertura similar sobre o PL, apresentando os enfoques ambientais e econômicos.

Já no Estadão,  das  14 publicações sobre o tema, 5 eram textos opinativos (um deles da relatora do projeto, Tereza Cristina), e 9 eram notícias. Das notícias autorais, 7 estavam na editoria de Economia, e 2 estavam na editoria de Sustentabilidade. Além de um foco bastante econômico e com pouca abertura para discussão sobre a oposição ao projeto, apenas uma notícia cita comunidades tradicionais no projeto de lei. 

O breve acompanhamento realizado demonstra que no âmbito da produção noticiosa os veículos mainstream trazem os contrapontos – embora o Estadão tenha centrado a cobertura na economia e explicitado em seu editorial os benefícios de um regramento mais flexível para os empreendedores. Folha de S. Paulo e O Globo se dedicaram mais ao tema com perspectiva ambiental e atenção às comunidades tradicionais, embora seja possível questionar as intenções que atravessam seus editoriais, para além da própria discussão do PL. A ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.

Pelo seu alcance e histórico, os veículos mainstream seguem sendo atores importantes, que influenciam o debate público. Logo, estarmos atentos a como esse assunto é reportado importa para compreender as reações sociais acerca do debate. O licenciamento ambiental é um tema bastante técnico e complexo que nem sempre atrai o interesse de públicos não especializados ou daqueles que não possuem interesses interligados. Entretanto, este é um procedimento que busca garantir maior cuidado com o meio ambiente, que diz respeito a todos nós.

A influência da cobertura de um tema por  jornais mainstream é concreta: pauta a agenda pública, as discussões de políticas públicas, as demandas e os protestos comunitários, e até a mudanças na legislação. O enquadramento de uma notícia contribui com o entendimento que os leitores terão sobre o tema, e como vão inseri-lo nos seus significados de mundo. No caso de temáticas do meio ambiente, o isolamento da discussão em editorias exclusivas à “sustentabilidade” e “meio ambiente”, ou restritas a pequenos poréns em notícias econômicas, alinham-se à exclusão sistemática da pauta, reforçando a separação entre aspectos sociais, econômicos e ambientais.

* Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista do Observatório de Jornalismo Ambiental E-mail: nicocostamilan@gmail.com

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Desmatamento recua, mas não há o que celebrar

Por Ângela Camana*

Foto: USP Imagens

Lançado na semana passada, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil indicou, pela primeira vez na série histórica, queda no desmatamento em todos os biomas do país. Os dados, que se referem a 2024, são da iniciativa MapBiomas, que há seis anos reúne informações sobre a perda de vegetação nativa no Brasil. As chamadas dos principais portais de jornalismo destacam a tendência de queda, mas, quando muito, relegam à linha de apoio o fato de que os dados ainda são alarmantes.

Ultrapassando a Amazônia, o bioma com maior área desmatada é o Cerrado, pelo segundo ano consecutivo. A região conhecida como Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou 75% dos mais de 650 mil hectares perdidos no bioma. Já no acumulado de 2019 a 2024, o Pará, onde neste ano se realiza a COP-30, é o estado com maior área desmatada com cerca de 2 milhões de hectares suprimidos.

Estes dados não são triviais, já que correspondem justamente a regiões cuja força motriz tem sido o agronegócio. De acordo com a série histórica do MapBiomas, 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil esta conectada à expansão de fronteira agropecuária. O Brasil de Fato foi o único veículo a destacar este dado, convocando outros dados para além do release amplamente divulgado na imprensa e criticando, inclusive o desmatamento considerado legal, nos marcos do Código Florestal.

Também chama a atenção que o relatório pondera o papel do desastre ocorrido no Rio Grande do Sul: o estado passou a ocupar o terceiro lugar dentre os estados da Mata Atlântica com maiores perdas de vegetação nativa em 2024. Isso se dá em função dos eventos climáticos extremos, que desencadeiam deslizamentos de encostas, revelando mais uma face da intrincada relação entre desmatamento e mudanças climáticas.

Com uma cobertura que foca em números, sem esforço amplo de contextualização, o desmatamento e a perda de vegetação nativa se resumem a dados abstratos. Após o recente desmantelamento das políticas ambientais e de monitoramento, evidente que qualquer redução nos índices de desmatamento representa um alívio, mas falta ao jornalismo abordar com seriedade os vetores desta derrubada – e quem lucra com estas atividades extrativas.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com

Central da COP: quando futebol vira estratégia de comunicação climática

Imagem: Reprodução do site Central da COP

Por Júlia Gonsalo de Carvalho* e Cláudia Herte de Moraes**

A menos de seis meses da COP30, sediada em Belém (PA), o Observatório do Clima lançou a plataforma Central da COP. Por meio da linguagem do futebol, o projeto busca aproximar a população brasileira dos temas centrais da conferência climática da ONU. A iniciativa aposta na cultura popular como ferramenta de engajamento, com uma estética esportiva e metáforas típicas de narrações do futebol: rankings, placares, torcida, camisa 10 e até uma “Copa do Mundo da Ambição Climática”.

A proposta carrega um importante valor educomunicativo: traduzir, de forma acessível, os conceitos, riscos e decisões que moldam a agenda climática global. A plataforma combina linguagem didática com uma abordagem crítica, promovendo conteúdo sobre justiça climática, licenciamento ambiental, exploração de fósseis, desmatamento e educação climática. A comparação com o futebol não é apenas estética; é uma estratégia para inserir a questão climática no cotidiano, tornando-a mais compreensível e próxima de públicos que historicamente têm menos acesso à informação científica.

Observando o alcance da campanha, constata-se que ainda é limitado. A cobertura midiática sobre o lançamento da Central da COP permanece restrita a veículos especializados, como O Eco, e canais institucionais ligados ao terceiro setor, a exemplo do ISA. A ausência de repercussão nas mídias tradicionais, especialmente em canais mais acessados, evidencia um desafio comum às iniciativas de comunicação ambiental: a dificuldade de sair dos espaços já engajados. Por isso a importância de ações que buscam furar as bolhas da informação ambiental, de forma criativa. 

Além disso, a ideia da Central da COP é promissora ao colocar a educação climática como protagonista. Ao assumir que o acesso à informação é condição para a participação social, o projeto reconhece que a educação deve estar no centro das estratégias de enfrentamento à crise climática, como tratam ativistas do The Climate Reality Project Brasil, com o texto É o camisa 10 do clima. Essa concepção dialoga com a segunda proposta mais votada na 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente (5ª CNMA), que defende uma educação ambiental decolonial, contínua, crítica, integrada aos territórios e conectada aos saberes tradicionais e à justiça climática.

No entanto, para que iniciativas como a Central da COP cumpram seu papel estratégico, é preciso avançar em sua difusão. Não basta produzir conteúdos acessíveis se eles não chegam às comunidades escolares, aos territórios periféricos e aos grupos historicamente excluídos dos debates ambientais. A circulação da informação precisa ser articulada de forma ampla, por meio de redes educativas, canais populares de mídia, projetos de extensão universitária e ações territoriais. Mais do que comunicar, é necessário dialogar. Infelizmente parece que há pouco interesse em veículos de comunicação de grande alcance para esse diálogo.

 A COP30 é uma oportunidade para o Brasil reafirmar seu papel na diplomacia climática, mas também para fortalecer uma comunicação que eduque, mobilize e envolva as comunidades mais afetadas pela crise ambiental. A popularização dos debates climáticos não deve ser vista como um esforço secundário, mas como parte fundamental da resposta à emergência climática. Sem acesso à informação qualificada, não há participação cidadã efetiva. Sem engajamento, a justiça climática permanece restrita ao discurso, distante da realidade de quem mais sofre com os efeitos da crise. A falta de compromisso com a pauta ambiental ainda é um dos principais entraves para uma “virada no placar” da efetiva ação climática.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Pesquisa  (FIPE), E-mail: julia.gonsalo@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

A invisibilidade da agricultura familiar nas coberturas das cheias

Foto: Pedro H. Tesch/Flickr

Jessica Thais Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

Um dos papeis sociais do jornalismo é de oportunizar voz e vez. Em tempos de desastres, é necessário compromisso social para ouvir aqueles que são invisibilizados: pessoas da periferia, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, entre outros. Por isso é importante expor a realidade de quem vive à margem da atenção midiática, mas sofre mais constantemente com as mudanças climáticas, como é o caso dos agricultores familiares que lidam na terra e muitas vezes ficam sem a produção do próprio alimento em função de desastres socioambientais.

As jornadas de agricultores familiares são intensas. Geralmente, trabalham entre 12 e 16 horas por dia. No campo, não tem final de semana. Não tem feriado. Enquanto muitos na cidade celebram datas como o Natal e o Ano Novo, eles seguem trabalhando para garantir comida na mesa de milhões. Dar voz a essas pessoas por meio dos veículos de comunicação é reconhecer sua importância e romper com a lógica de um jornalismo hegemônico que, muitas vezes, prioriza apenas o agronegócio ou simplesmente não considera os impactos dos desastres para a agricultura familiar. Um exemplo publicado neste Observatório foi o caso das queimadas no Amazonas em 2022, em que não houve menção às perdas dos agricultores.

Da mesma forma, durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o portal UOL pouco abordou a situação da agricultura familiar. Mesmo após o auge da crise, em agosto de 2024, uma das poucas matérias que tangenciam o assunto mencionava, na generalidade, a importância de políticas públicas que promovam a diversificação da produção agrícola (31/08/2024). A abordagem, ainda assim, foi de maneira superficial, com a mesma narrativa de aumento de produtividade e intrigando uma disputa com o agronegócio, ao invés de realçar a realidade dos pequenos agricultores e as formas diferenciadas de uso da terra no contexto da crise climática. A falta de reportagens em 2024 não se justifica, pois haviam dados disponíveis em órgãos como a Emater/RS-AScar, que divulgou ainda em junho de 2024 que mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes no RS.

Em contraste, Brasil de Fato, veículo de comunicação popular, publicou várias matérias sobre o tema no mesmo período, denunciando as desigualdades no campo, oferecendo uma perspectiva popular e de luta de classes, e dando visibilidade à realidade e necessidade dos agricultores familiares no enfrentamento da calamidade. Entre os destaques estão reportagens como Chuvas no RS destroem lavouras de arroz e hortaliças do MST e provocam prejuízo de R$ 64 milhões (17/05/2024), que revela as deteriorações causadas pelas chuvas em inúmeros assentamentos da reforma agrária, e Enchente no Sul arrasa lavouras de arroz orgânico do MST; prejuízos podem chegar a 10 mil toneladas (09/05/2024), que expõe o impacto direto no que diz respeito à produção agroecológica do país.

Embora seja responsável por grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa, a agricultura familiar quase sempre é esquecida nas coberturas jornalísticas sobre tragédias climáticas. Ou, ao menos, é a última a ser lembrada. Os agricultores perderam tudo com a enchente: a plantação, o sustento, o chão e suas casas. Mas não perderam a esperança e buscam se reerguer, mesmo diante da invisibilidade imposta pelos veículos hegemônicos.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Extensão (FIEX), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Belém se transforma para quem? A cobertura jornalística que evidencia as desigualdades

Obras do Parque da Cidade, espaço que sediará a programação da COP-30, em Belém. Foto: Ricardo Stuckert/PR/ Agência Brasil

Eloisa Beling Loose* e Ângela Camana**

Desde que Belém do Pará, na Amazônia brasileira, foi anunciada como sede na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), no fim de 2023, a imprensa nacional voltou-se para cobrir os preparativos deste megaevento. Não só porque o debate climático é uma das questões urgentes que move a comunidade internacional, mas porque sediar uma cúpula com chefes de Estado de mais de 100 países gera responsabilidade e grande visibilidade.

Seis meses antes do evento, as notícias sobre as discussões climáticas e o contexto estrutural do evento se intensificam. Em meio aos vários discursos que atravessam a COP,  já que há interesses políticos e econômicos diversos disputando esse holofote, alguns veículos estão abordando o quanto as populações que há muito tempo já sofrem processos de vulnerabilização estão, mais uma vez, sendo colocadas em segundo plano.

Problemas crônicos ganham uma oportunidade de serem apresentados porque os investimentos públicos na COP-30 estão atrelados a um suposto legado para os cidadãos que residem em Belém. Tal perspectiva é comum para justificar o grande volume de dinheiro e a celeridade de decisões, pouco ou nada democráticas, que tem como meta o encerramento antes do começo da cúpula, quando muitos visitantes de todo o mundo terão suas primeiras impressões sobre Belém.

Um exemplo recente é a reportagem publicada na Agência Brasil no dia 2 de maio sobre os desafios enfrentados pelos moradores que vivem nas ilhas, sem acesso à saneamento básico e água potável. “Diferentemente da área continental da cidade, que na sua maioria é abastecida pela rede de distribuição ligada aos mananciais da Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém, como os lagos Água Preta e Bolonha, grande parte da região insular depende de sistemas de distribuição independentes. A criação de infraestrutura também depende de um planejamento ambiental”, destaca a repórter Fabíola Sinimbú, informando que a parte insular não foi contemplada nas obras da COP-30, mas correalizadores farão a macrodrenagem de 13 canais.

Denúncias sobre o agravamento das injustiças na cidade foram feitas pelo Brasil de Fato, em 24 de abril. A notícia afirma que ter encontrado “aumento da especulação imobiliária, violações do direito à moradia, mudanças arbitrárias no plano diretor e denúncias de trabalhadores submetidos a condições insalubres nos canteiros de obras” da COP-30.

Em Sumaúma, texto publicado neste dia 5 de maio anuncia já no título: “Belém corre para oferecer hospedagem aos visitantes da COP, mas não garante moradia aos próprios habitantes”. A reportagem desvela como a cidade é composta por áreas que recebem atenção (e recursos) de modo díspar, o que aprofunda as desigualdades históricas de uma capital e região metropolitana em que mais da metade da população não tem acesso à moradia adequada, vivendo em favelas, locais sem regularização fundiária e na ausência de sistema de esgoto, abastecimento de água e/ ou coleta de lixo. Não é trivial que, como aponta a publicação, as pessoas que habitam tais regiões sejam sobretudo “Indígenas, Ribeirinhos, pessoas negras e refugiados da Floresta”. 

A imprensa hegemônica local, no entanto, não se furta de celebrar os anúncios de novas vagas no setor hoteleiro, sem abrir espaço para a crítica a respeito da distribuição desigual de benefícios que a chegada da COP-30 escancara. As notícias sobre a abertura de leitos e ampliação da infraestrutura de coleta de esgoto não questionam quem são os reais beneficiários destas iniciativas – nem a razão pela qual por tanto tempo se vive em Belém em tal vulnerabilidade. 

Neste sentido, é o jornalismo alternativo que assume uma postura crítica às obras e políticas de habitação e infraestrutura impulsionadas pela COP-30, questionando a efetividade do direito à cidade, isto é, a habitar e participar da vida no território urbano. E o faz sem ceder ao lugar simplista que, em reiteradas publicações “críticas” nas redes sociais oriundas do sudeste, questionam a capacidade de Belém receber um evento deste porte, reproduzindo o colonialismo interno. 
São também veículos como o Tapajós de Fato que alertam que o que está em jogo não são apenas as transformações na cidade, mas a garantia de territórios e de direitos de comunidades tradicionais e historicamente vulnerabilizadas por um conjunto de políticas que favorecem o avanço de indústrias extrativas e grande obras. É nestes espaços midiáticos que reside a possibilidade de acompanharmos as contradições deste estado, que vão muito além dos desafios urbanísticos ampliados pela COP-30.

*Professora do Departamento de Comunicação da UFRGS. Coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

**Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com

O olhar da comunicação pública no primeiro ano da enchente no Rio Grande do Sul

Série de reportagens produzida pela Agência Brasil aborda o histórico fenômeno climático sem tratar de meio ambiente

Isabelle Rieger/Sul21

Por Luciano Moraes Velleda*

A efeméride de um ano da enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 ganhou destaque na mídia nacional nos últimos dias de abril e no começo de maio. A Agência Brasil, uma agência pública de notícias vinculada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), enviou o repórter Pedro Rafael Vilela ao estado para produzir uma série de 11 reportagens, publicadas entre os dias 27 de abril e 1º de maio. 

Ao todo, o material inclui duas entrevistas com prefeitos (o mandatário da Capital, Sebastião Melo, e o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt), duas reportagens tendo construções como personagens (o Mercado Público de Porto Alegre e um casarão/restaurante em Arroio do Meio que resistiu a enchente), uma entrevista com o secretário da Casa Civil do governo federal para o apoio à reconstrução do RS, Maneco Hassen, além de outra reportagem dando conta dos embates políticos entre a União e o governador Eduardo Leite devido a demora para o início dos projetos de proteção contra cheias nas cidades da região metropolitana – o governo federal disponibilizou R$ 6,5 bilhões para essa finalidade, mas nenhum centavo foi usado até agora, sendo que cabe ao governo estadual elaborar e executar os projetos. 

A série de reportagens ainda inclui uma breve análise da situação do RS um ano depois, entre o caos da tragédia e o esforço de recuperação, assim como quatro matérias focadas no problema de moradia das milhares de pessoas que perderam suas casas e ainda lutam para ter uma nova residência. 

Embora trate de uma tragédia climática, as reportagens não abordam os muitos aspectos ambientais do RS que emergiram junto com as águas no último ano. Sem essa importante contextualização, as matérias focam em dados objetivos da reconstrução do estado, como investimentos em obras para recuperação da infraestrutura, incluindo os sistemas de proteção contra cheias e, principalmente, os números dos programas habitacionais que tentam dar conta de atender milhares de pessoas que perderam suas casas. Embora divulgue bons dados do cenário atual da reconstrução, no conjunto, a série peca pela ausência de visão ambiental da tragédia.

As duas entrevistas com os prefeitos chamam a atenção. No caso do prefeito de Porto Alegre, a reportagem não aborda nenhuma das questões polêmicas que envolvem as responsabilidades da Prefeitura na dimensão da tragédia. O caminho escolhido pelo repórter foi dar voz ao prefeito para tratar da reconstrução dos diques e comportas que compõem o sistema de proteção da Capital, assim como os entraves no avanço dos  projetos de moradia. 

O prefeito da Capital também diz que as causas do alagamento não foram as casas de bombas que não funcionaram – cuja manutenção é sua responsabilidade –, preferindo enfatizar que o problema da enchente na cidade foi a falha de proteção dos diques, construídos há muitas décadas, compondo um discurso que o isenta de responsabilidade – ainda que a manutenção dos diques e comportas também esteja sob a alçada do governo municipal. Apesar de haver informações de especialistas que contestam a análise do prefeito, a entrevista não o questiona nesse sentido.

A ausência de uma postura mais incisiva do repórter tem sido uma característica da Agência Brasil, que não costuma confrontar de modo mais veemente suas fontes. Embora, ressalte-se, não há nada que estabeleça que uma agência pública deve ser menos contestadora.

Bem diferente é a entrevista com o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt. Sincero, ele conta não ter recurso para contratar um terceiro engenheiro para trabalhar nos projetos de moradia que irão reassentar centenas de famílias que perderam suas casas, diz não ter sequer um ginásio para ser um ponto de referência num plano de contingência e afirma não ter dúvidas de que a sua cidade e outras do Vale do Taquari, não têm condições de enfrentar novamente um cenário parecido com o de 2024. “Com todas as palavras, eu vou dizer, nós não estamos preparados para enfrentar uma nova cheia deste porte. Não estamos preparados mesmo”, disse. 

A franqueza do prefeito de Cruzeiro do Sul dá a dimensão da dificuldade e dos desafios das cidades gaúchas para se recuperarem da tragédia e se prepararem para não sofrer algo semelhante novamente no futuro. Essa possível abordagem, todavia, não é tratada nas reportagens.

O aspecto mais humano da série está nas matérias cujo enfoque é a situação de moradia das vítimas da enchente. Mesclando dados dos projetos e programas habitacionais com histórias de vida, as reportagens mostram a ausência do lar como um dos aspectos mais dramáticos da trágica enchente. Ao todo, a série da Agência Brasil traça uma breve síntese da atual situação habitacional das vítimas da maior chuva já registrada no RS, ao mesmo tempo em que passa ao largo das muitas e importantes questões ambientais que afligem o território gaúcho.

*jornalista, sócio do Sul21, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Desigualdades, crise climática e o papel do jornalismo ambiental

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Michel Misse Filho*

Soa cada vez mais anacrônico falar em crise climática e degradação ambiental sem que sejam pontuados as origens e consequências desiguais destes processos. Injustiça ambiental e climática, racismo ambiental, desigualdade socioambiental — seja lá o termo utilizado —, todos se referem à privação econômica e ao risco ambiental desproporcional a que estão submetidas parcelas socioeconomicamente vulneráveis da população, em geral não brancos, no campo ou na cidade, nas favelas e periferias.

Por muito tempo a produção de conhecimento sobre o tema ambiental negligenciou em grande parte essas nuances sociais, da academia ao jornalismo, passando pela formulação de políticas públicas. Ainda é comum que, na grande mídia, a cobertura ambiental seja feita em torno de grandes eventos — como as COPs e outras conferências —, grandes líderes ou em torno de tragédias ambientais. O jornalismo ambiental, porém, requer ir além do noticiário factual.

Um exemplo positivo foi, ainda em 2024, o especial de reportagens da Folha de São Paulo sobre desigualdades agravadas pela crise climática. A matéria alerta para a diferença de até 9º C de calor no bairro de Paraisópolis em comparação ao vizinho elitizado Morumbi, em São Paulo. Apesar da diferença entre os telhados, o principal fator indicado para a diferença é a vegetação. A desigualdade de arborização, como se pode supor, não é restrito ao caso em questão: constitui um padrão das cidades brasileiras, que certamente será destrinchado ao final deste ano, quando saírem os novos dados do Censo Demográfico. É papel do jornalismo, em conjunto à pesquisa científica, expor estes territórios e assimetrias.

Mais recentemente, na última semana a Folha publicou uma excelente matéria sobre a Ilha de Maré, o bairro mais negro de Salvador, impactado pelas indústrias e crise climática, com reclamações de contaminação química por parte dos moradores e falta de pescado. A reportagem é relativamente longa, com uma série de entrevistas de moradores atestando suas histórias e a gravidade da situação — dando voz às comunidades, como preza o bom jornalismo. Essas pessoas são remanescentes de um quilombo, com 97% da população formada por negros numa comunidade considerada rural, que sobrevivem da pesca artesanal, mariscagem e turismo. Há 20 anos eles pedem um estudo abrangente que meça os níveis de metal no mar.

É importante que reportagens deste tipo não estejam restritas aos especiais de reportagens como o organizado pela Folha, mas sejam pauta constante dos noticiários. A exposição constante das desigualdades ambientais — rurais e urbanas — é o primeiro passo para a aplicação de políticas públicas em territórios já acostumados com o esquecimento.

*jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Pesquisa do IBGE sobre baixa arborização em Santa Catarina mal repercute na mídia estadual


Imagem: Agência IBGE

Por Míriam Santini de Abreu*


A divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios” rendeu, nos meios de comunicação, pautas sobre os dados de arborização. Segundo o Instituto, 58,7 milhões de pessoas (33,7%) moram em vias sem arborização, enquanto 114,9 milhões (66,0%) vivem em vias com presença de árvores, sendo que 55,8 milhões (32,1%) estão em vias com 5 árvores ou mais.
Na região Sul, duas situações chamaram a atenção: São José (SC) é o município de mais de 100 mil habitantes com menor percentual de moradores em vias com arborização (15,1%), enquanto Maringá, o maior (98,6%). Já Florianópolis está em 24º lugar, entre 27 capitais, no ranking das capitais mais arborizadas.


Na mídia catarinense, o fato repercutiu no Portal NSC Total, do grupo que comprou as operações da RBS em Santa Catarina, mas, em 13 parágrafos, a notícia não traz uma só entrevista. Aparece citado apenas o próprio IBGE. O texto, intitulado “Florianópolis está entre as cidades menos arborizadas do país, aponta IBGE”.

O Jornal do Almoço, do mesmo grupo, em notícia de 2 minutos e 23 segundos, limitou-se a apresentar os percentuais, também sem entrevistas.
O Diarinho, periódico do município de Itajaí, noticiou o fato sob o título “SC tem segundo pior índice de arborização do país”. O portal destaca que, entre as dez áreas urbanas com as menores taxas de arborização, Santa Catarina aparece com seis municípios, incluindo a capital, Florianópolis. O Diarinho traz, entre aspas, declaração de um analista do IBGE, mas não houve entrevista. É um trecho tirado da notícia publicada na Agência de Notícias do próprio instituto, também usada pelo Portal NSC Total, mas sem indicação de fonte.

As notícias não fazem qualquer relação com os motivos pelos quais Santa Catarina aparece tão mal no ranking, não cobram do poder público medidas para melhorar o índice de arborização, mostrando as consequências do fato apontado pelo IBGE, ignoram pesquisas científicas em diferentes áreas de conhecimento sobre o assunto (SC tem universidade pública federal e estadual) e não relacionam a realidade do estado com as mudanças climáticas. Dada a atualidade e relevância da pesquisa do IBGE, foi uma oportunidade perdida de fazer boa cobertura jornalística de um tema de interesse de toda a população.

*Míriam Santini de Abreu é jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.